A rebelião dos desprezados

24 de junho de 2013 § 6 Comentários

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Pier Paolo Pasolini, cineasta italiano assassinado em 1975, época em que o mundo estava em convulsão e as manifestações violentas eram uma epidemia global, era um contestador radical e um homossexual assumido quando essas duas coisas davam cadeia (hoje dão prêmio) e, como tal, um ídolo da esquerda revolucionária do seu tempo.

Mas, para desgosto das facções do seu fã clube que acreditavam que a santidade era um atributo exclusivo do proletariado do qual os manifestantes de então pretendiam ser “a vanguarda”, dizia que “quando a polícia e os estudantes se confrontam nas ruas a polícia é que é o povo”.

Foi o que me veio à lembrança quinta-feira passada quando constatei, digamos assim, o “protagonismo” com que a polícia espancava manifestantes quase dentro de um hospital do Rio.

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Não estavam seguindo ordens. Aquela fúria, que eu já tinha assinalado com arrepios de incômodo em vários outros episódios pelo Brasil afora nos últimos 14 dias, era tão “espontânea” quanto esta edição brasileira da “manifestação em rede” que guarda não poucas similaridades com as que têm pipocado pelo mundo afora.

Com a esquerda daquela época no poder hoje neste Brasil de onde não se vê o Muro de Berlin, o que mudou em relação aos tempos de Pasolini foi a roupagem ideológica da contestação dos estudantes e o entendimento geral de que “o povo” tanto pode encarnar deus quanto o diabo.

Mas a questão de classe simbolizada nos confrontos continua a mesma. É por isso que, se me entusiasmam e enchem de esperança quando as avalio só com um olhar brasileiro, essas manifestações não me animam tanto quando as coloco num contexto mais amplo.

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Quem está nas ruas puxando essa parada (na qual tomam carona incendiários, saqueadores e pitbull’s de todas as vertentes da psicopatia) não é a classe dos excluídos da economia, é a classe dos desprezados da política nas democracias de massa.

Aquela em nome de quem nenhum partido fala e para a qual nenhum partido apela. Aquela que só é chamada para pagar a conta da festa das classes eleitoralmente significativas – entre as quais incluo a dos muito ricos – a quem os governos não se cansam de fazer afagos e todos os outros partidos cortejam, às custas do presente e do futuro dessa classe média que se tornou classe média por esforço próprio.

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Espremida entre os “ganhos de produtividade” do infindável tsunami das fusões e aquisições e os impostos e a inflação que sustentam o “welfare state” lá fora ou a “rede de proteção” dos sem nada mas cheios de “bolsas” aqui dentro, esta não é bom negócio representar quando o que se tem em vista são eleições.

Não nos representa! Não nos representa!” é o refrão mais repetido dentro da cacofonia de pleitos dos cartazes das manifestações. Mas, lido pelo avesso, mais que um grito de guerra ou um esgar de rejeição, ele soa como um pedido de socorro: “Ninguém me ama, ninguém me quer”…

A última eleição registrou quase 29% de votos brancos, nulos (9,85%) e abstenções (19,1%) em todo o país. São estes os desprezados que os caçadores de votos ignoram. É deles que os governos tomam 34% do PIB que não viram nada senão suborno eleitoral ou presentes do BNDES para os outros 71%.

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Roubados agora; roubados do seu futuro pelo buraco que se vai cavando por baixo da sucatada infraestrutura que deveria sustentar as suas condições de trabalho mais adiante. E tudo só para dar aos donos de tetas mais tempo como donos das tetas.

No país da bunda de fora tudo é mais explícito e mais ofensivo, é verdade. Mas o fenômeno é universal.

Num mundo de especialistas em pedacinhos da realidade, a política não poderia ficar de fora. A democracia de massa leva obrigatoriamente à especialização na caça ao voto, mesmo para os mais bem intencionados. Sem isso não se chega ao poder mesmo se a intenção for usá-lo para o bem.

É isso que põe em risco a sobrevivência da democracia, a forma menos ruim de se estruturar o poder.

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A democracia que conhecemos foi inventada para estabilizar uma sociedade homogênea, a única tão homogênea assim no ponto de partida que uma série improvável de acidentes históricos produziu. Uma sociedade de pequenos proprietários alfabetizados que não tinham tido tempo para cavar grandes fossos de desigualdade uns entre os outros.

A regra de maioria só não oprime quando o fosso não é muito amplo nem muito fundo e, portanto, os interesses são próximos e não excludentes entre si.

Só assim o sonho da tolerância pôde descer dos devaneios dos filósofos e se instalar no panteão dos fundamentos de uma ordem social concreta.

Mas o fosso está se ampliando e afundando mesmo na sociedade que inventou a democracia moderna. No apogeu da sua trajetória rumo à igualdade de oportunidades ela trombou de frente com a única contribuição concreta do socialismo real além dos monopólios estatais que foi a legião de miseráveis sem nenhum direito que ele criou e que, derramados pela internet sobre o mercado globalizado, está empurrando o mundo inteiro de volta para o capitalismo selvagem.

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As classes médias urbanas educadas e conectadas, a tal “burguesia” que o PT odeia e que, em todos os cantos do mundo, não tem quem fale por ela e reage como pode, via internet, é, onde quer que se olhe, a vítima empobrecida dos “campeões nacionais”, dos “too big to fail”, dos monopólios estatais ou seja lá que nome lhes deem os governos que os patrocinam e tornam indecentemente ricos e que, em troca, financiam as vastas operações de compra de votos para seus patrocinadores via a promoção de miseráveis para “miseráveis-e-um-pouco” e de desempregados para “meio-empregados” que estão em curso no planeta inteiro.

Eles são os primeiros emigrantes para o Novo Mundo da Aldeia Global lá do futuro onde, então em escala planetária, haverão de ser reeditadas um dia reformas como as da “Progressive Era” (1870-1920) com que os americanos ensinaram o mundo a domar e opor uma à outra as feras do Capital e do Estado, o que permitiu que quatro ou cinco gerações de privilegiados que os imitaram em diferentes rincões do planeta tivessem um gostinho antecipado do que ainda ha de ser a sociedade global de amanhã.

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§ 6 Respostas para A rebelião dos desprezados

  • Marcos Faria Gomes disse:

    Excelente análise, mas é desoladora a conclusão pela inutilidade do esperneio em curso. Tenho esperanças que se acenda o alarme nos partidos e que afinal se faça as reforma politica e se refaça o pacto federativo. Pela primeira vez em quase 20 anos vemos surgir uma crise aguda. É uma oportunidade. Que o governo e o PT se reformem e, assim quem sabe possam conduzir o processo.

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  • flm disse:

    se pareci tão desolador assim, Marcos, ficou faltando algo.
    enfim, esse do Estado veio numa sequência de vários que venho escrevendo sobre esse episódio aqui no Vespeiro e não da pra dizer tudo de uma vez só.
    vá lá e confira.
    eu também acho que isso não será em vão e que, dada a distância entre o que temos em matéria de equipamento institucional e o que têm as democracias mais avançadas, o Brasil pode avançar muitíssimo ainda que esteja difícil seguir adiante do ponto a que eles chegaram.
    no mínimo vamos parar de recuar como vínhamos recuando ultimamente.
    e muito provavelmente, vamos avançar em relação ao ponto em que estamos.
    e mais: eu acredito que a primeira condição para curar doenças é reconhecer-se doente e identificar bem a causa do mal. senão não se consegue chegar nela e a doença volta, como tem sido o caso do Brasil.
    a principal intenção desse artigo foi apontar a causa ultima pra podermos ir pensando nela e nos prevenirmos contra o tratamento de falsas causas que é o que sempre acontece por aqui.
    voltarei ao assunto.

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  • Marcos Faria Gomes disse:

    Desoladora é a minha conclusão extrapolada da leitura. Como periferia nos resta mover-nos para onde move o centro. E o centro, para onde vai o centro?

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  • Leopoldina Sánchez Laguna disse:

    A minha esperança ressuscitou, hoje estamos novamente, ouvindo falar em REFORMA POLÍTICA, eu sou brasileira por opção ha 50 anos. Saí do meus país, fugindo da Ditadura, 2 anos depois da minha chegada, passei a conviver com a ditadura neste pais. Cada ano de eleições, surge a LEMBRANÇA da REFORMA POLÍTICA, e nas campanhas as promessas soam alto!!!!!!!. Quando o POVO BRASILEIRO ELEGEU LULA PARA PRESIDENTE, eu como observadora,e cidadã, portanto com direito ao voto, com dois filhos universitários, em cada ABRAÇO que o LULA, dava no FIDEL CASTRO, claríssimo ficava para mim, o que esperar desse governo, …………… que aceitou milhões de dólares das FARC, …………… …….
    Bem gosto de ler os comentários colocados, e muito do VESPEIRO, apesar da minha idade, permite uma reflexão.
    Ainda sonho com um BRASIL, melhor para meus netos.
    Leopoldina Sánchez Laguna

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  • Varlice disse:

    “O homem é do tamanho de seus sonhos”
    Fernando Pessoa

    ‘A imaginação é mais importante que a ciência, porque a ciência é limitada, ao passo que a imaginação abrange o mundo inteiro.’
    Albert Einstein

    Sonho + Imaginação = Esperança.

    Caro Fernão, belíssimo texto!
    Perfeito para o meu coração desconfiado, porém esperançoso.
    O ser humano é muito mais do que a esquerda, a direita ou o centro.
    Abraço agradecido

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