Pensando o 2o turno

30 de novembro de 2020 § 67 Comentários


Uma bancada brilhante de analistas reuniu Aldo Rebelo, Christian Lohbauer e Cláudio Couto sob a coordenação de Marcelo d’Angelo domingo na BandNews. 

O Brasil mostrou, nesta eleição, que é um país capaz de corrigir seus próprios erros”. Do confronto entre os equívocos da direita e os equívocos da esquerda de 2018 que empurrou o resultado para fora da política, voltou-se para o centro com a derrota de todos os extremos, e para a reafirmação da certeza de que não há salvação fora da política. 

É perfeito! Mas faltou encarar finalmente a evidência, velha como a tragédia brasileira, de que dentro DESSA POLÍTICA nossa também não há salvação. 


A coragem para dar esse salto para fora do nosso sistema deformado e confronta-lo com os fundamentos básicos da democracia é o que está faltando, não direi aos eruditos do nosso mar de siglas que interpretam as interações esotéricas entre elas que também têm o seu lugar no debate nacional, mas ao menos à elite deles como esta que deu voos mais altos no encontro de domingo à noite na BandNews.

Os equívocos de 2018, tanto quanto o de 2002, foram erros conscientes de sua condição de erro, cometidos no desespero depois de anos de resistência, que o eleitorado finalmente se arriscou a cometer depois de esgotar todas as alternativas oferecidas pelo Sistema estreito por onde se esgueira. (Felizmente os erros pela direita levam menos tempo para serem corrigidos).


O que é preciso, agora, é construir um sistema onde as correções possam acontecer mais rápido e com maior frequência. E para isso é preciso escancarar as portas de entrada e tirar a pauta e a agenda da política das mãos dos políticos e entregá-las ao povo.

Só o povo tem legitimidade para dizer o quê e quando é preciso que os políticos processem. Isso se faz com direito às leis de iniciativa popular e a referendo das dos legislativos. A políticos que representem parcelas identificáveis da população e do eleitorado nacional deve caber negociar em que doses, em que velocidade e com que nuances deve ser executado o que o povo lhe determinar que precisa ser feito. 

Só isso será capaz de restabelecer na boa direção a cadeia das lealdades, redirecionar dos grupos em disputa pelo poder para o País Real os projetos nacionais e, no limite, “despetrificar” o país e liberta-lo do compromisso com os “erros” acertados pela privilegiatura. 


Ninguém do establishment quer pôr esse bode na sala por razões óbvias mas ele está prestes a entrar triunfalmente nela. O que esta eleição também mostrou de forma irrefutável é que não há mais nenhuma bandeira crível no baralho da velha política e nenhum partido vai ganhar o Brasil vendendo sexo, drogas e revolución…

Chegou a vez do “Poder para o povo” não só porque nenhuma outra moeda na história da humanidade tem tanto poder de compra, faltando apenas quem queira vendê-la com a credibilidade de quem pretende realmente entregá-la ao povo, o único agente do Sistema que ainda não tem nenhum, mas porque, ainda por cima, este é o único remédio fulminante conhecido para a corrupção, a doença que se nós não controlarmos JÁ, acaba com o Brasil.

É isso que está por trás não mais da ideia, mas da história vivida do voto distrital com recall, primeiro elo da cadeia desse círculo virtuoso. Quem resumir primeiro essa receita para o eleitorado corre imenso risco de se tornar o próximo dono do Brasil.


Postas as conclusões deles misturadas com as minhas, prossigo com uma “tradução livre” do que mais foi dito lá:

Bolsonaro – um cara que ele mesmo não “é” nada, apenas um sindicalista de fardados – está naquela clássica situação do sujeito com um santo numa orelha e um diabo na outra, sussurrando sem parar:

Se você continuar a gastança não termina o mandato”.

Se você não continuar a gastança não termina o mandato”.

O resultado é o imobilismo.

E é desse abismo que pende o destino do Brasil, um país exausto, paciente de altíssimo risco para sobreviver a qualquer tipo de morbidade adicional que venha a acomete-lo.

2018 foi o confronto de dois equívocos: o equívoco da direita versus o equívoco da esquerda.

Quem vai liderar a reformulação da política para 2022? O melhor da velha política já foi. Está na porta de saída. E a nova ainda não chegou.

Pela esquerda o que surgiu foram dois lobos em pele de cordeiro: o Boulos da eleição não era o Boulos real, da antipolítica e das ocupações; a Manoela da eleição não era a Manoela real, da militância identitária das redes sociais. 

O PSOL teve só 2 milhões de votos, elegeu 5 prefeitos e 88 vereadores no país inteiro. É uma criança momentaneamente encantando crianças. É a antipolítica pela esquerda. Não tem consistência programática nem quadros.

Já a esquerda tradicional, PT, PC do B, foram os grandes derrotados da eleição.

Pelo centro, as fraturas são visíveis. Há o João Doria do discurso de apoio a si mesmo na vitória de Bruno Covas e há o discurso sem João Doria de Bruno Covas e a performance do PSDB nas urnas, com destaque para Eduardo Leite no RGS. Nada está garantido sobre com quem ficará a força da social-democracia em 2022.

Pela direita o DEM, esse animal estranho com pretensões programáticas no SE mas com outra cara no NE, que cresceu muito na eleição, talvez seja um eterno condenado a atuar somente no Congresso onde não assume jamais um perfil sectário, o que o torna o grande fator de equilíbrio nos bastidores das decisões mais importantes do país.

A “bolha urbanóide” e a ignorância de tudo que está fora dela, no Grande Brasil, é a explicação para o ambientalismo delirante que persiste por aí.

***

Ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil escreve sua história pelo que não deu certo; só cultua o que deu errado.

PSDB x PSOL

27 de novembro de 2020 § 13 Comentários

O PSDB é aquele partido que a todos os dilemas nacionais responde nem que sim, nem que não, muito pelo contrário, o que seria até uma resposta razoável se este fosse só mais um país perdido na confusão deste início de 3ro Milênio e não a vítima destroçada de um estupro coletivo que ainda não dispõe sequer dos equipamentos mais rudimentares de proteção universalmente adotados nas revoluções democráticas do século 19.

O resto dos competidores, ressalvadas as exceções que se quiser conceder, eram um monte de chefes de quadrilhas acenando com “proteção” tipo máfia a esta ou aquela fatia do eleitorado com a intenção explícita de comprá-la…


E, de repente, invade a modorra desse deserto o PSOL com sua roupinha surrada de Robin Hood de suruba, agitando “Sexo, drogas e revolución” … mas que, todo mundo tá careca de saber, só entrega mesmo é a metástase do funcionalismo público….

E convence quem?

Os jovens, aquela fatia do eleitorado para cuja inexperiência arrogante Nelson Rodrigues, o gênio da raça, propunha um único remédio lá naqueles anos em que toda a fúria da “patrulha ideológica” estava concentrada em “cancelar” tudo que tivesse mais de 30 anos: “Envelheçam! Rapidamente!

E vá você deixar rolar!

Tudinovo…

Ai que preguiça!

“Fake news” sem fake news

25 de novembro de 2020 § 7 Comentários


Nas mãos do Estado ou do agente “empoderado” pelo Estado, são “fake news” todas as narrativas do inimigo e são “narrativas” todas as fake news dos correligionários. 

Desviar as decisões de sanção do mau comportamento político do povo para o Estado é sempre o caminho mais curto para ir da solução para a instrumentalização política. Delegadas aos Estados colonizados pelos políticos acabam fatalmente sendo utilizadas seletivamente como mais uma arma da luta (suja) pelo poder. 


Só o eleitor, só o povo, de onde “emana” todo o poder, tem legitimidade para exercer essas sanções contra os seus (e somente os seus) representantes eleitos decidindo em que momento eles passaram a representá-lo mal, retomando-lhes os mandatos (recall) e, com eles, a inimputabilidade do funcionário ou do político traíra para joga-lo de volta pra justiça comum. 

(“Justiça comum” nas democracias sem aspas é, aliás, um pleonasmo. Se houver mais de uma, por definição, não é democracia. Assim como não é “democracia representativa” o sistema cuja fórmula eleitoral não permite saber quem representa quem).


A internet é a praça pública do mundo. O único filtro isento das conversas que rolam nas praças publicas é o que sempre funcionou desde o início dos tempos. Aos poucos serão selecionadas PELO PÚBLICO as empresas dedicadas a prestar o serviço de apurar os fatos segundo regras conhecidas e minimamente equilibradas que ele “reeleger” diariamente pagando para ler, para ver e para ouvir o que elas publicam. E o resto será ouvido com a devida reserva. Fora daí o que se instala é a censura e o terror. 

Só “não sabem” dessa obviedade o douto “constitucionalista” brazuca Alexandre de Moraes e seus pares e a imprensa reacionária que corre atras dele pra ver se consegue fazer a História voltar pra trás e ela continuar com o monopólio da concessão de “lugar de fala” naquele tipo de “debate político” pra boi dormir onde a palavra “PRIVILÉGIO” está banida do dicionário e “democracia” é só o que os 11 monocratas disserem que é.

O Brasil só começa a se curar quando começar a discutir CONCEITUALMENTE o que é (e o que não é) democracia.

Pensando a eleição

20 de novembro de 2020 § 57 Comentários

A eleição devolveu o bolsonarismo ao tamanho que o fenômeno tinha antes da facada”, disse Rodrigo Maia citado por Maria Cristina Fernandes no Valor … e o lulismo ao tamanho que tinha antes do endeusamento pela imprensa, acrescento eu. Nenhum dos dois conseguiu eleger qualquer dos seus “apoiados”.

Não ha mais super “caras”. O Brasil caiu na real de novo. Abstenções, brancos e nulos batem vencedores do 1º turno em 18 capitais e outras 465 cidades. É a maior em 20 anos. Em São Paulo 3,6 milhões de eleitores escolheram “ninguém”. Covas teve 1,7 milhões de votos (32,85% dos válidos) e Boulos 1,1. Nem os dois somados batem a votação em “ninguém”. Em outras oito capitais “ninguém” bateu a soma dos dois primeiros colocados. Porto Alegre é a campeã com 33,1% de abstenção.

A “democracia brasileira” macunaimizou-se e abandonou o povo. Agora o povo está abandonando a democracia macunaímica…

Quem ainda vota defende-se como pode. 

Houve leve desvio para a esquerda nas capitais e forte desvio para a centro-direita no resto. Segundo o termômetro da Folha de S. Paulo, 999 prefeitos mais à direita tomaram o lugar de prefeitos mais à esquerda e 547 mais à esquerda tomaram o lugar de prefeitos mais à direita. 3.965 “posições” permaneceram estáveis.

Mesmo com todos os ônus da pandemia a taxa de reeleição foi de 63,7%. É de admirar considerando que são os prefeitos que mandam abrir ou fechar as coisas. 3.510 disputaram um novo mandato e 2.237 levaram. Do total de municípios brasileiros 40,4% serão administrados por prefeitos reeleitos e 59,6% por prefeitos novos. Dois fatores pesando: 1) apesar dos prejuízos e incômodos o povo sabe quando o problema é real e topa sacrifícios; 2) como o problema tornou-se muuuuito real ninguém está querendo saber de novidades e experiências arriscadas.

Àparte isso, consagrou-se o óbvio: não há caminho por fora da política. Se não é possível governar sem o congresso, muito menos contra o congresso. O que é preciso, agora, é tornar a política permeável ao país inteiro e não reconhecer o direito ao protagonismo a apenas metade dele. Michel Temer, depois da irascível Dilma, governou pelo diálogo e prosperou. A “patrulha” tentou mas não teve tempo para destruí-lo. Joe Biden também é lido como a reafirmação da fé na política. Mas o ponteiro só passou – e bem pouco! – do meio porque a bandeira dele é a da “recuperação do valor de todos e de cada um dos cidadãos como protagonistas da vida publica”. A ver se deixam… 

Trump e Bolsonaro foram reações à expulsão sumária de metade da população do espaço político pela “patrulha ideológica”. A domesticação da “patrulha” brasileira está vindo a galope pelo mercado com franquias de jornalismo que se vendem pelo equilíbrio, um passo adiante das atabalhoadas iniciativas amadoras das redes sociais que a “patrulha”, associada ao que ha de mais reacionário no establishment (o STF), tenta matar a pau. Nos Estados Unidos não ha grandes sinais de recuo. Mas os 71 milhões de votos de Donald Trump avisam que “vai ter que”. Ainda ha um longo caminho pela frente mas o que tem de acontecer sempre tem muita força…

DINHEIRO SIM

A perspectiva para Bolsonaro é o enfraquecimento da retaguarda militar, a perda de referência com a queda de Donald Trump e o abismo fiscal, o que faz com que a alternativa seja, cada vez mais, “Paulo Guedes ou dólar”. Ou seja, ele está cada vez mais parecido com um “pato manco”, só que com o mandato a meio. Resta torcer para que Rodrigo Maia, que dá sinais do peso na consciência que sente por ter empurrado a ajuda na pandemia dos R$ 200 de Paulo Guedes para R$ 500 contando que restaria a Bolsonaro ir para os R$ 600 que arrebentaram com as contas do Brasil pelos próximos 10 anos ou perder a marca, consiga deter no congresso a bola de neve que pôs para rolar provando que aquele adágio construído pela História – “Teta dada não retorna jamais” – não é absoluto.

DIREITA/ESQUERDA

No Brasil real a divisão continua sendo vertical – nobreza x plebeus – mas esses dois campos se enxergam pela divisão horizontal. Mistérios da televisão…

O DEM é a direita “da política”. É profissional e razoavelmente civilizada. Desde 1985 está excluido da disputa direta pelo poder. Quem permaneceu nele permaneceu por ideologia pois, até pra ser só carona os profissionais subiam na boléia do MDB. Mantiveram oposição ao PT esses anos todos e encolheram. Mas agora virou. É o pouco que resta no cenário que ainda não foi experimentado. Não faz parte, diretamente, do governo Bolsonaro. Sobe naturalmente para a ribalta neste momento de debacle da direita “outsider”. 

Foi o partido que mais cresceu entre 2016 e 2020. ACM Neto fez seu vice, Bruno Reis, com  64,2% no 1º turno. O partido fez 459 prefeituras (de 266 em 2016) no 1º  turno. O PSDB caiu de 785 para 512. O DEM tem capilaridade, tem Luis Mandetta e tem Rodrigo Maia e é, nas palavras de ACM Neto, “Um partido leve, que não tem de justificar nenhum passivo recente mais sério”.

E O BOULOS? 

O eleitorado que votou nele sempre existiu. O difícil era achar alguém com carisma positivo e ficha limpa na esquerda. Esse PSOL “paulistano” – com garantias de dona Erundina – é a esquerda que ainda não foi pega roubando. Só que o DNA do PSOL mesmo é carioca. Não tem base na “classe operária” que, coitada, quase não existe mais, como tinha o PT. É o partido dos “aparatchiks”, os funcionários da privilegiatura. Aquela turma que se aposenta cedo e tão bem que vai morar no Rio, quer-se intocável até o fim dos tempos e se garante sempre, seja o governo da vez da “esquerda” ou da “direita” da privilegiatura (a “nobreza” que – ainda! – tem exclusividade na disputa pelo poder). 

Agora casa-se com os “movimentos sociais” que vivem de peitar o direito de propriedade e namora abertamente o crime. Boulos é o João Pedro Stédile com carisma positivo. Mas ninguém, no PSOL, já trabalhou, no sentido que se dá à expressão aqui fora, ou tem qualquer coisa a ver com o mundo do trabalho. O partido tem, portanto, um duelo de morte marcado com o outro Brasil que é pra já. O dinheiro acabou e não tem mais mágica neste mundo em que comida é dólar. O favelão nacional literalmente explode se a privilegiatura não der uns tantos passos atras…

E no meio do caminho tem um João Dória e um Huck, tem um João Dória e um Huck no meio do caminho. E mais um Ciro Gomes de troco. Mas se Ciro Gomes não decolou até hoje, o novo “Boulinhos paz e amor”, com 30 (e quantos?)% de SP já está voando. Baixo ainda, mas tá. E tem “conversa” bastante pra ir longe.

A URNA, AINDA

Domingo o problema era um. Na segunda passou a ser outro. E tem “ataque hacker”, aqueles a respeito dos quais nunca se chega a conclusão nenhuma, pra todo tipo de conveniência, de chinês e de russo a de “miliciano antidemocrático”, passando até por de português, ouve lá! Tudo só para confirmar o resumo da ópera: sobre a questão das urnas é ocioso discutir tecnicalidades, a questão é de princípio. Qualquer sistema que o cidadão comum não possa aferir com seus próprios olhos num suporte inteligível para o comum dos mortais; qualquer um que o faça ter de aceitar a palavra de alguém para lhe “garantir” o que aconteceu ou não aconteceu, não serve. É como trata a questão a constituição da Alemanha. E eu estou de pleno acordo.

Quanto aos que vêm “inimigos da democracia” debaixo da cama, é bom lembrar: não precisa mais que esse decreto esdrúxulo declarando o voto impresso “inconstitucional” para “semear a duvida sobre as instituições democráticas e desmoraliza-las aos olhos dos cidadãos”.

DINHEIRO NAO

Nos Estados Unidos da ultima eleição havia 37 partidos. Só que lá quem manda é o povo e ele só financia palanque para dois (mais uns caquinhos) enquanto aqui o Estado financia e dá palanque obrigatório a todos e acaba elegendo 26. É isso que torna o país ingovernável. É isso que aleija o Brasil. 

O viés do Estado é sempre “de democratização” … mas de democratização do privilégio. Quando os empresários financiavam as eleições davam mais dinheiro para quem achavam que ia ganhar. Então o resultado das urnas tendia a ser coerente com o dinheiro recebido por cada partido. E vinha o berreiro: “Olha aí, interferência do poder econômico”, e coisa, e tal. O sistema era “podre” não porque as odebrechts da vida faziam o de sempre e ficavam impunes, mas tão somente porque eram ricas o bastante para financiar eleições. 

Solução? A de sempre: estatizar o financiamento de eleições (e manter todos os larápios impunes, lógico). 

Nesta da semana passada o PSL (com R$ 287,3 milhões) e o PT (com R$ 275,3) foram as legendas que mais receberam dinheiro dos fundos Eleitoral e Partidário. Mas tiveram desempenhos medíocres. O PT foi o 6º e o PSL o 12º partidos mais votados. O “custo” de cada voto no PT foi de R$ 39,49 e no PSL de R$ 102,89. O do voto tucano foi o mais baixo no grupo dos 15 maiores partidos: R$ 16,47. Ou seja, só o povo sabe o que faz (embora só faça o que pode) nessa barafunda do sistema eleitoral brasileiro. 

Se as instituições brasileiras fossem do povo e para o povo, como são as americanas, a solução poderia ser parecida com a deles. Lá todo mundo pode dar quanto quiser a qualquer candidato ou partido (mesmo porque sempre ha jeito de furar qualquer limite que se tente impor), com uma única condição: no prazo máximo de 5 dias depois do recebimento, muito antes da eleição, portanto, o candidato ou o partido têm de comunicar ao eleitorado quanto ganhou e de quem. Assim, um dos principais temas das campanhas lá é o candidato ser denunciado pelo oponente por estar sendo “comprado” por financiadores suspeitos, o que lhe tira, em vez de lhe dar, milhões de votos.

A VACINA

Não se deixe enganar. Ha democracia quando o povo manda no governo. Não ha democracia quando o governo manda no povo. Em qualquer sistema a condição humana continua a mesma. Mas o voto distrital puro com direito à retomada de mandato traído a qualquer momento (recall) põe o povo no poder. E todos os outros modelos tiram o povo do poder. E o efeito na corrupção é fulminante. É isso que explica porque os Estados Unidos, que usam o sistema ha mais ou menos 100 anos, têm três ou quatro empresas do tamanho do PIB do Brasil e o resto é lambuja. É muito, mas muuuito mais confortável você criticar a democracia a partir desse patamar do que do fundo do favelão nacional.

Porque não acato a “democracia brasileira”

18 de novembro de 2020 § 56 Comentários

E lá se foi mais uma “eleição”. Eu só lamento não ter aspas maiores pra cercar esse “eleição” e esse “democracia brasileira” porque estas são aspas denunciativas e a mentira que é preciso desnudar com elas chegou a um tamanho insuportável…

O ministro Luis Roberto Barroso garante “a mais absoluta integridade e fidedignidade” do resultado da eleição. Aliás, minto. O ministro Barroso, ele mesmo, não garante nada. Diz a cada passo que, como para quase todos nós, o mundo da informática, também para ele, é “um universo esotérico”. O ministro Barroso, ele mesmo, no máximo pode jurar, portanto, que está repetindo exatamente o que ouviu do Secretário de Tecnologia da Informação do TSE, e da empresa que contrataram para assessorar o dono do cargo que, como em todas as nomeações políticas, não se sabe se é ou não é “do ramo”.

Eu não acredito no STF mas acredito no ministro Barroso. Embora suscetível demais às próprias emoções para um ministro de STF ele me parece um sujeito fundamentalmente honesto. Mas do secretário de tecnologia da informação do TSE eu não sei nem o nome. Muito menos o de quem o industria. De modo que neste mundo em que tão corriqueiramente subornam-se presidentes da república e até ministros de supremos tribunais, acho fundamental haver mais cerimônia com o povo brasileiro antes de dar-lhe satisfações de segunda ou de terceira mão em assuntos tão essencialmente de primeira quanto a garantia do contrato de intermediação de vontades expressas entre ele e O Sistema, também conhecido como voto.

Afinal, é do voto que “emana” O Poder, aquele que corrompe sempre e absolutamente quando é absoluto. E o que me garante que o secretário de informática do TSE e/ou o staff abaixo dele não se corromperão jamais, tendo o poder exclusivo que têm de traduzir da língua que todos nós falamos para a linguagem “esotérica” em que só eles são versados, cada voto, em 140 milhões, que se converterá em poder ilimitado para alguém?

Pessoalmente a sensação que me dá quando aperto aquele botão da nossa tão festejada maquininha de votar é que, no exato momento que o meu dedo afunda, eu desapareço no ar. Pililililin! “Você acaba de deixar de existir como a contraparte deste contrato”, diz uma voz mecânica lá daquele mundo que o ministro Barroso e eu não compreendemos. “Seu nome nunca mais poderá ser recuperado e reconectado exatamente ao que você disse aqui e agora”.

Os americanos, que inventaram os computadores e os códigos em que eles se expressam, mantêm com sua majestade o eleitor um documento assinado, pessoal e intransferível, como garantia de cada voto. E não ha de ser porque nunca tiveram idéia melhor. A constituição da educadérrima Alemanha também proíbe que o voto seja expresso em qualquer outra linguagem que não seja o bom e velho alemão que o país inteiro fala e compreende. Pelo mundo afora é assim, com ligeiras variações, porque “a principal função de um sistema eleitoral é não deixar dúvida nenhuma” e, sendo assim, não pode ter sua confiabilidade entregue a qualquer espécie de “tradutor”. 

Mas no Brasil o contrato em que você entrega a alguém o direito de decidir o que der e vier em seu nome não leva, nem seu nome, nem sua assinatura, e jamais poderá ser tirado da gaveta e relido para dirimir qualquer dúvida como todos os outros contratos “xué” que o governo que nos proíbe o voto impresso, com os olhos fixos nos impostos que te arrancará a cada passo, te obriga a assinar com trocentas “cópias autenticadas” até para vender um carro velho.

Para o maior de todos os contratos você e o ministro Barroso terão de confiar numa empresa de que não vale a pena nem saber o nome mas que “garante” (e meta lá aspas de metro), mediante pagamento até módico diante da enormidade da promessa, a invulnerabilidade que gente como o Pentágono, o Google, a Apple ou mesmo o nosso prosaico Banco Central não ousam oferecer aos seus clientes.

Nunca houve qualquer prova de fraude numa eleição brasileira”. E como poderia haver num sistema desses? Mas não é essa a questão. Ha uma parcela da imprensa, no Brasil e no mundo, que assumidamente renunciou ao raciocínio. É mais que uma renuncia, aliás. Uns mais outros menos veladamente, pregam a criminalização do raciocínio e a censura e o “cancelamento” de quem insistir nele. Faz muito barulho ainda mas como, dependendo do tema, reage automaticamente bem ou automaticamente mal, já não é preciso le-la nem ouvi-la para saber o que dirá. E assim vai minguando por si mesmo. Mas até que finalmente desapareça, mesmo para a imprensa que não desclassificou o senso comum e permanece curiosa, desconfiada e aberta aos processos normais de aferição da verdade fica difícil o exercício de critério na velha ordem mundial que, com o recurso à força bruta da autoridade cujos poderes quer sem limites, a outra trata de impor a todo mundo. Pois “cobrir” ou “analisar” eleições é, tanto para jornalistas quanto para os “cientistas políticos” que convocam, elucubrar sobre os resultados das que temos…

No entanto, em nada mais que em sistemas institucionalizados de processamento de decisões, “o meio é a mensagem”. Democracia não é um mapa do tesouro indicando um ponto de chegada, como pretendem a Constituição de 88 e seus inefáveis “interpretes” do presente. Ela é só um manual de navegação. O que determina se uma lei, uma “politica pública” ou uma constituição é ou não democrática não é o seu enunciado ou a finalidade que declaram querer atingir mas a maneira como são negociadas com as sociedades que pretendem modificar. E, torto como é o nosso “meio de processamento”, nenhuma “mensagem” que nele for enfiada sairá “democrática” do outro lado.  

É preciso, portanto, voltar aos conceitos básicos. Um processo democrático não pode ser encaixotado, posto para dormir, e desencaixotado a cada quatro anos. O representante, até por definição semântica, não pode ter existência própria, à revelia do representado. Para ter direito a ser chamado de democrático o processo decisório tem de fluir ao sabor dos resultados, como flui a vida do povo. Desviar, mudar de rumo, reconstituir-se com eleições e deseleições, adotar e rejeitar leis, confirmar ou desconfirmar mandatos ao sabor da necessidade, conforme descrito na matéria sobre as cédulas das eleições americanas que vai abaixo desta. 

Na “democracia” que fuma mas não traga das “excelências”, no entanto, povo só mesmo com filtro. Evita-se a todo custo que ele se manifeste diretamente, com sua própria voz, com o seu próprio voto, no seu próprio tempo e segundo as suas próprias necessidades, através dos seus próprios candidatos e dos seus próprios partidos. Somente as ONGs, os movimentos sociais, os sindicatos, as associações corporativas e os partidos políticos bancados com dinheiro de impostos e, desde as recentes “Ordenações Moralinas”, também os “veículos de opinião pública” devidamente autorizados poderão, sob pena de prisão, manifestar-se politicamente e eleger representantes para faze-lo em nome do povo.

O eleitor brasileiro não vota no que escolhe. Vota – obrigatoriamente – nas escolhas das “excelências”. E as eleições são organizadas de tal forma que tornam impossível determinar quem, entre os eleitos, representa quem, entre os eleitores. O voto distrital puro, ao qual todas as “excelências” voltam um declarado horror e é o único que permite identificar, um por um, pelo endereço, todos os representados de cada representante, não é um fim em si mesmo. Ele existe para permitir a retomada a qualquer momento dos mandatos desrespeitados apenas por quem os concedeu, o ÚNICO remédio implacavelmente MORTAL contra a corrupção jamais inventado, que pode ser usado dentro da mais pura legitimidade democrática, com foco e garantia absoluta contra uso seletivo e tentativas golpistas. 

Para as “excelências” é aí que mora o perigo. Para os eleitores é aí que está a esperança. O voto distrital puro lógica e naturalmente engendra o direito à retomada dos mandatos traídos (recall). E como na vida real manda quem tem o poder de demitir, todas as lealdades do Sistema dai por diante se rearranjam. 

Confirma-se, assim, a tese de Marshall McLuhan. Não é a substituição de “conteúdos” que altera a qualidade da “mensagem”. Mas mudando-se “o meio”, a qualidade da “mensagem” automaticamente muda, mesmo que o “conteúdo” permaneça o mesmo. E então, o resto vem por consequência.

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