Roteiro para um jornalismo democrático

5 de maio de 2021 § 15 Comentários

Indagado, certa vez, sobre o que era necessário para governar um país, o general De Gaulle respondeu que, antes de tudo, ter “une certaine idée de la France”.

Governar um jornal no Brasil é colocá-lo a serviço de “une certaine idée du Brésil”, ou seja, avaliar e tomar posição a respeito de tudo que acontece no país pelo critério de se tal acontecimento, pronunciamento, atitude do poder público ou o que seja, aproxima ou distancia o país desse projeto de Brasil.

Todo órgão de imprensa, no Brasil e no mundo, funciona assim. A esmagadora maioria dos brasileiros olha os acontecimentos hoje como quem tem em mente um Brasil onde um órgão não eleito deve mandar no governo, o governo eleito deve mandar no eleitor, a lei deve valer só para alguns e a privilegiatura deve ter, só para ela, os direitos que nega ao favelão nacional. É em função disso que hierarquizam suas matérias, selecionam as suas fontes, tomam posição diante dos acontecimentos, criticam os atores da cena política e orientam a sua pauta, reservando qualquer contraditório quando muito a cercadinhos delimitados onde, ao lado de mais alguém a favor dessa receita, toleram o discurso, por alguns minutos por dia, de alguém imposto pelo proprietário para eventualmente dizer uma ou duas palavras contra ela.

Mas não é essa a única opção possível. 

Descontados os efeitos de época, tudo que a História registra em matéria de organização das sociedades humanas pode ser classificado em uma dessas duas chaves: governos que mandam no seu povo, com mais ou com menos sangue mas sempre com muito sangue, ou povos que mandam no seu governo. Escolher “uma idéia de Brasil” democrático para inspirar a orientação editorial de um jornal não requer, portanto, inventá-lo do nada. Basta procurar os fatos, como é do mais básico dos cânones do bom jornalismo. Em vez de demonizar os países que escolheram sistemas em que o povo manda no governo, cobrindo exclusivamente o que neles acontece de ruim e censurando a divulgação de qualquer dos seus aspectos positivos, passar a cobrir sistematicamente os mecanismos através dos quais esses povos exercem o governo sobre seus governos, explicar como funcionam, cotejar os resultados de um e de outro sistema para o controle da corrupção, o desenvolvimento e o bem estar das pessoas que os abraçam e, assim, proporcionar que os brasileiros façam uma escolha informada entre as opções existentes.

Chamemos “JDJornal Democrático” um que escolhesse INFORMAR os brasileiros sobre o funcionamento dos sistemas onde o povo manda no governo como o eixo da sua orientação editorial. Fariam parte da sua lista de princípios inegociáveis os seguintes:

O JD acredita na democracia e que democracia existe quando o povo manda no seu governo.

Quando o governo manda no povo o que existe é arbítrio.

Todo acontecimento, lei, atitude de governante, de politico, declaração de fonte ou de cidadão que contribua para reforçar o poder de arbítrio do governo sobre o povo deve ser denunciado como antidemocrático e abordado criticamente pelo JD e toda ação, lei ou proposta que reforce o poder do povo sobre o governo deve ser apoiada.

O JD é absolutamente intransigente na luta pela igualdade de direitos e contra o privilégio institucionalizado.

Deve atacar inegociavelmente todo privilégio estabelecido, toda ação política, toda lei, todo preceito constitucional que não valha igualmente para toda a população e, portanto, que institua ou defenda a permanência de um privilégio. 

Constatado que o Brasil anda para trás desde 1988 quando foi instituída a atual constituição, o JD está totalmente convencido de que é ela o principal aleijão do país e, portanto, é sempre crítico em relação a ela. 

A C88 jamais deve ser invocada, nas argumentações do JD, para encerrar discussões, somente para abri-las.

O povo brasileiro não dispõe de nenhum instrumento institucional para mandar em seu governo. Nosso meio político não discute nem nosso meio acadêmico estuda os modernos arranjos aplicados para este fim em outras partes do mundo. Para a grande maioria dos brasileiros é como se eles não existissem. O JD compromete-se a informa-lo de que não é assim instituindo uma linha de cobertura sistemática do funcionamento de sistemas como o americano, nos níveis estadual e municipal, o suíço, nos níveis cantonal e federal, dois dos mais avançados em matéria de ferramentas institucionais para permitir o governo do governo pelo povo, entre outros em outros países que persigam esta mesma finalidade, para familiarizar o publico brasileiro com eles.

O objetivo, a ser preservado COM TODO O RIGOR, é municiar o povo com INFORMAÇÃO para que forme a sua própria opinião a respeito das ferramentas institucionais desenhadas para aumentar o poder do povo sobre os seus representantes eleitos concretamente existentes, e não repassar-lhe elucubrações teóricas e/ou opiniões de terceiros a respeito delas.

A questão da REPRESENTAÇÃO é, para o JD, a mais essencial da democracia. Não ha democracia sem que haja uma relação de SUBORDINAÇÃO dos representantes eleitos aos seus representados.

SÓ O VOTO DISTRITAL PURO permite estabelecer uma representação real do país real e cria a condição para que cada “pedaço do povo” possa mandar “no seu” representante. É pauta permanente do JD denunciar os falsos partidos sustentados pelo Estado, mostrar como funciona o sistema de eleição distrital pura e como ele garante que todo poder de fato “emane do povo” e possa ser por ele diretamente exercido sem perigo de manipulações ilegítimas e golpes de minorias organizadas.

O JD é radicalmente a favor dos direitos de recall, de referendo, da inciativa de leis populares e de outros instrumentos de democracia direta para o povo brasileiro desde que cumpridos os requisitos básicos de legitimação desse processo pelo sistema de voto distrital puro.

O problema não é eleger a pessoa errada ou fazer a lei errada. É negar ao cidadão eleitor, destinatário dos serviços públicos e das leis feitas pelos legisladores, os direitos de, sem ter de pedir licença a ninguém senão seus concidadãos, “deseleger” imediatamente o funcionário ou o representante que não honrar seu mandato ou de corrigir ou anular a lei defeituosa assim que ela mostrar sua imperfeição. O JD cobrirá sistematicamente o exercício desses poderes pelo povo em países democráticos.

Porque é uma ferramenta essencial para aumentar o poder do povo de governar o governo e defender-se da corrupção, o JD também fará campanha permanente para que nossos estados tenham suas próprias constituições, mais flexíveis que a federal, dispondo sobre todos os assuntos que dizem respeito só a eles, assim como cada uma de suas cidades, e que estas tenham a liberdade de escolher o seu próprio modelo de governo: com ou sem prefeito e câmara de vereadores. Para tanto fará reportagens constantes sobre como, onde ele existe, o verdadeiro federalismo combinado com ferramentas de democracia direta e os sistemas alternativos de gestão municipal contribuem para o esmagamento da corrupção e o controle da vida pública pelos seus destinatários, como deve ser, e não pelos “produtores” das políticas públicas.

O JD acredita que enquanto os juízes forem nomeados por aqueles que eles têm por função julgar, a justiça será o que é no Brasil, e que eleições periódicas de retenção de juizes e outros mecanismos de controle do Judiciário diretamente exercidos pelos eleitores são o remédio mais próximo da perfeição até agora inventado para encaminhar o problema essencial do controle do Judiciário. Para demonstrá-lo aos brasileiros o JD compromete-se a cobrir sistematicamente essas eleições nas quais é dado periodicamente ao povo a prerrogativa de livrar-se dos maus juízes onde elas ocorrem no mundo.

No taxation without representation”.

Homenageando sua tradição e a história da democracia moderna cuja trajetória se inicia com esse mote, o JD fará CAMPANHA PERMANENTE por uma reforma tributária simplificadora radical e para que nenhuma norma ou lei aumentando impostos nos três níveis de governo possa ser passada sem referendo popular daí por diante e cobrirá sistematicamente os referendos para aprovação ou não de gastos públicos e alterações em impostos que acontecem cotidianamente nos três níveis de governos – municipal, estadual e federal – em países onde o povo manda nos seus governos, com ênfase na demonstração do efeito fulminante que esse expediente tem para a corrupção.

Desde Montesquieu sabe-se que o primeiro passo para quebrar as monarquias é a separação de poderes. 

É bandeira inegociável do JD quebrar a nossa Undecimarquia insurgindo-se e denunciando por todos os meios, como ação antirepublicana e antidemocrática por definição, as invasões de qualquer dos três poderes uns sobre os outros.

O JD sabe que a chave para a solução dos impasses institucionais não está somente na letra da lei mas, principalmente, na definição de quem tem o poder de acionar cada lei. O único meio para que a lei não seja transformada num instrumento do tipo mais sujo de luta pelo poder, como prova sobejamente a história recente do Brasil, é o povo ser O ÚNICO A PODER ACIONAR A INTERVENÇÃO DA LEI NO TERRITÓRIO DA POLÍTICA, salvo nos casos de crime comum.

Por isso o JD defende que a imunidade do representante eleito pertence ao eleitor representado e só ele pode suspender a do seu.

Só a garantia da propriedade privada pode assegurar ao proletário que ele pode vencer pelo trabalho. A constituição federal deve cuidar só da descrição do regime, de definir os limites de cada poder da República, e dos “direitos negativos”, qual seja, do que o Estado NÃO PODE FAZER contra o cidadão, começando pela prerrogativa de lançar mão da propriedade privada de cada um sem autorização expressa de quem suou para amealhá-la.

Somente esses direitos podem ser considerados “cláusula pétrea”.

Qualquer “direito positivo”, aqueles que implicam custos para outras pessoas que não apenas às que vão desfrutá-los, deve pertencer EXCLUSIVAMENTE às constituições estaduais e municipais, ter caráter temporário e ser bancados pelas parcelas de população que concordarem, no voto, em concede-los aos seus concidadãos. Do contrário cai-se nessa indústria de distribuição de privilégios como suborno que é a política no Brasil. É esta a reforma constitucional que o JD defende.

O JD sabe que toda empresa estatal é um ralo de dinheiro público e um elemento de forte incentivo à corrupção. Por isso sempre favorece a solução meritocrática e privada e é a favor de privatizar tudo, inclusive Petrobras e BB.

Mas sabe também que monopólios privados são tão nocivos à democracia quanto monopólios estatais e que, portanto, um grau saudável de concorrência em cada setor da economia é a condição essencial para a contínua valorização do trabalho e a disputa de mercado mediante reduções de preços e, portanto, para uma distribuição saudável da riqueza nacional.

A imposição do monopólio na politica e na economia é o que define, tanto os governos do absolutismo monárquico do passado quanto os do socialismo do presente, e o meio mais efetivo de exterminar a democracia.

Diversidade e competição na política e na economia são, para o JD, sinônimos de democracia. Por isso o JD defende como ESSENCIAIS, tanto a liberdade de reunião de todo grupo ou partido político que realmente emane de iniciativa popular e/ou seja sustentado pelo povo, quanto, ainda mais, a imposição de um forte limite antitruste para a competição econômica. O JD defende um Estado forte mas submetido estritamente à lei referendada pelo povo e atuando somente como instrumento de afirmação dela.

O JD é absolutamente intransigente no combate a idéias com idéias mas também é absolutamente intransigente CONTRA A CENSURA ou qualquer ATO ARBITRÁRIO dos poderes públicos ou dos poderes privados contra jornalistas, deputados ou quaisquer outros cidadãos que estejam apenas manifestando idéias. 

É radicalmente contra “cancelamentos” e “linchamentos morais”, execra esse tipo de ação como antidemocrática, indigna e covarde, protege os exilados e os perseguidos de todos os regimes e crenças, dá exemplos públicos nesse campo. 

Defende inegociavelmente o direito de cada um de pensar, dizer que pensa e praticar o estilo de vida que quiser, contanto que não viole o direito do próximo à mesma coisa, até mesmo e principalmente os que defendem idéias opostas às suas, nem que seja a defesa do nazismo, porque, sendo uma plataforma de promoção da livre circulação de idéias, sabe, como sabe e afirma a Civilização Ocidental ha mais de meio milênio, que não é possível defender racionalmente a proibição de um tipo de pensamento sem acabar por autorizar a proibição de todos.

Dado o grau a que chegou a exploração do País Real pelo País Oficial no Brasil, é obrigatória a instituição de uma linha PERMANENTE de REPORTAGENS sobre “COMO VIVE A PRIVILEGIATURA” focada no CUSTO de cada componente do estilo de vida que o Estado brasileiro obriga o favelão nacional, direta ou indiretamente, a financiar para os detentores de privilégios institucionalizados.

A médio prazo o JD defende o controle da educação pública pelos seus destinatários pela instituição de Conselhos Escolares eleitos entre os moradores de cada bairro servido por uma escola pública (tendencialmente pais de alunos), encarregados de confirmar seus diretores e aprovar seus currículos e orçamentos anuais.

No curto prazo, dada a contaminação e a conflagração ideológica em torno da educação, e a blindagem impenetrável do status quo o JD deve batalhar, na educação pública, por um programa prático voltado para o emprego do futuro que se instale paralelamente ao sistema existente tão humilde e pé no chão quanto aquele que a Índia pôs em prática ha uma ou duas gerações e a colocou na vanguarda do processamento da vida informatizada do planeta.

“ANALFABETO É QUEM NÃO SABE CÓDIGO” seria um bom mote para essa campanha.

COMO IMPLANTAR UMA ORIENTAÇÃO EDITORIAL

Sendo a imprensa um elemento decisivo da luta pelo poder em todos os países onde eleição ainda é o único caminho aceito para conquistá-lo, a disputa pela orientação editorial de cada órgão é um jogo pesado que começa pelo controle ideológico das escolas de jornalismo não só do Brasil mas do mundo inteiro e envereda agora pela tentativa de controlar também o acesso às redes sociais, o que explica a quase perfeita afinação ideológica de tantos órgãos de imprensa ao redor do planeta. 

Historicamente falando, as soluções autenticamente democráticas acabam por impor-se espontaneamente à medida em que se tornam conhecidas pela massa dos eleitores pela razão óbvia de que todo mundo ama o poder, o povo inclusive, e só a ele, devidamente diluído e com as devidas salvaguardas, é seguro concedê-lo. Por isso mesmo a repressão violenta e a censura sempre foram e continuam sendo as principais armas dos partidários dos sistemas de privilégio. Para sustentá-los é necessário concentrar o poder para mandar no povo. E povos, para aceitarem ser mandados, precisam ser mantidos na ignorância que só a violência e a censura podem garantir. 

Sendo o rompimento da censura a chave comutadora básica da História, a resistência contra levantá-la será, como sempre foi, absolutamente feroz.

Como a operação jornalística é tremendamente dinâmica, envolve grandes equipes e parte do zero ao produto final praticamente a cada novo acontecimento apurado, posto no seu contexto e publicado, é absolutamente ilusório pensar que a orientação editorial de um órgão de imprensa possa ser dada à distância pelo dono, só por ser dono, ou por algum organismo burocrático acoplado lateralmente ao organograma da empresa que se reune de quando em quando, como é o caso dos “conselhos editoriais” que existem por aí. A opinião que prevalecerá será sempre a de quem estiver lá com a mão na massa do fato do dia. 

Fazer permear cada cobertura por essa orientação depende estritamente, portanto, de reproduzir, com sinal invertido, o esquema que hoje prevalece na maioria das redações com a orientação contrária. Ou seja, depende da escolha de alguém que conheça o funcionamento, acredite nesse tipo de democracia e esteja disposto a lutar por ela para o primeiro posto de uma estrutura hierárquica perfeitamente clara em que seja ele o responsável pela contratação das duas figuras-chave da redação, o diretor de redação e o diretor de opinião, e mantenha com eles um contato diuturno.

O Brasil não começou ontem

3 de maio de 2021 § 15 Comentários

O Brasil como Pulitzer queria demonstrar

30 de abril de 2021 § 18 Comentários

Antigamente, quando se aprendia na escola os teoremas básicos da matemática e da trigonometria, essas verdades fundamentais eram batizadas com o nome do sábio que, pela primeira vez, as tinha demonstrado como tal e, ao fim dessa demonstração, fechava-se a lição com a sigla “c.q.d.” (“como queríamos demonstrar”), tradução do “quod erat demonstrandum” (greco)latino dos tempos de escolas mais cultas.

Com a revogação, quarta-feira, da prisão de Eduardo Cunha e a confirmação de Renan Calheiros como juiz supremo do “estado democrático de direito” do STF fecha-se o círculo. O Brasil está perfeitamente virado do avesso: os ladrões condenados na banca dos juízes e os juízes no banco dos réus.

Ha quem estranhe a volubilidade dessa imprensa que hoje abraça o ladrão da Transpetro depois de tê-lo apedrejado. Eu não. Se Átila, O Huno, se alistasse amanhã para o linchamento de Jair Bolsonaro também ele se converteria imediatamente em herói do “estado democrático de direito” que o STF não eleito, a esquerda derrotada na eleição e os jornalistas que se alinham automaticamente a eles prescrevem para o Brasil. E nem isso faria os herdeiros da imprensa brasileira entenderem que estão fabricando a corda com que serão enforcados…

É verdade que Bolsonaro fornece todas as inestimáveis desculpas para o comportamento dessa imprensa na questão da pandemia. Mas isso não vem ao caso pois se não fornecesse dava no mesmo, como prova a questão do meio ambiente. Nenhum fato pode convencer os lobos que juraram esse cordeiro de morte a não destroçá-lo a dentadas levando junto o Brasil, nem que sejam fatos bastantes para convencer Joe Biden.

As represálias do patrulhamento ideológico, uma vez contadas como certas, têm o efeito de uma bomba de nêutrons: passam a matar a verdade e a dignidade humana sem precisarem mais ser disparadas a cada vez. E se isso é verdade em qualquer lugar, muito mais ainda no Brasil onde a política é uma espécie de abscesso fechado em si mesmo, que encerra na mesma bola de pús, dos monocratas do STF até o limite inferior da privilegiatura onde se aloja diretamente ou por interposto nepote grande parte da militância que as redações abrigam.

Pendurado no corpo do favelão nacional, o abscesso é cada vez mais independente dele. O Brasil ainda elege o presidente da República, os deputados e os senadores que o abscesso engendra em função dos seus processos inflamatórios internos inacessíveis ao comum dos mortais, mas eles estão reduzidos estritamente ao direito de mamar. Os 11 monocratas não eleitos anulam os seus atos e fazem deles e dos eleitores deles gato e sapato sem que ninguém retruque com um gemido sequer. 

Se conseguiram isso com o que restava da classe média meritocrática desfilando sua indignação nas ruas do país inteiro – coitada! – e com quase 58 milhões de votos expressamente dados CONTRA o maior assaltante de todos os tempos, segundo a descrição do Banco Mundial, imagine do que não serão capazes se, conforme a encomenda, o STF conseguir enfia-lo de novo na Presidência com a eleição sem recibo!

O mundo já entendeu, e não quer pagar pra ver. É isso que explica a debandada das multinacionais que apostaram no Brasil nos últimos 100 anos, e não, obviamente, a estupidez – por monumental que seja – de um governo que tem só mais um ano e meio de mandato.

A parada que se joga no Brasil pretende durar bem mais que isso. Desde que desistiu de tomar o poder a tiro, como tomou em todos os lugares onde ainda permanece nele sozinha, e decidiu-se a agarrá-lo pelo voto, a esquerda antidemocrática, no seu pragmatismo amoral e no profundo conhecimento que tem do que há de pior na natureza humana, logo se deu conta de que é a imprensa que pauta a política e não o contrário. Depois de confirmar, por ensaio e erro, que o político chinfrim como são 99,999% dos que vivem de seduzir multidões, faria e diria sempre aquilo que sabe que rende manchetes, concluiu que tomar os postos que determinam o que vira e o que não vira manchete é que é o “Abre-te Sésamo” da Caverna do Poder. 

O ser humano comum, desprevenido das regras do jogo do poder, na sua ingenuidade, é que confunde as coisas devaneando sobre a moral e o livre arbítrio, sem se dar conta de que essas expressões não tratam do que existe, tratam do que deveria existir, estando portanto no território da ética e não no da realidade. Quer dizer, moral e livre arbítrio não mandam no jogo, servem apenas para inspirar uma engenharia institucional que favoreça que assim seja, exatamente porque sem esse tipo de empurrão, mantida a lei da selva, não chegarão sequer a influencia-lo jamais.

Era disso que falava Joseph Pulitzer (1847-1911), o primeiro a entender completamente a função institucional da imprensa num sistema republicano. Foi só quando, graças a ele, o foco da americana desviou-se da luta suja das facções pelo poder para alinhar-se ao interesse do povo de governar o governo que foi possível induzir as reformas da virada do século 19 para o 20 (viés antitruste + ferramentas de democracia direta) que empurraram a democracia deles para o estado de plenitude em que viveu até meados dos anos 80 de que a humanidade começa a sentir dolorosas saudades.

Pulitzer dizia que “É impossível matar mesmo uma democracia muito imperfeita se sua imprensa estiver minimamente saudável”, e que, assim, “se uma democracia estiver dando sinais irreversíveis de que está caminhando para a morte é porque sua imprensa já tinha morrido antes dela” e afirmava que “nossa Republica e sua imprensa vão se consolidar ou desaparecer juntas” e que, portanto, “o poder de moldar o futuro da democracia estará nas mãos dos jornalistas das próximas gerações”. Mas advertia que “uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formaria, com o tempo, um público tão vil como ela mesma”.

Pois aí está, c.q.d….

Tentando acreditar em Joe Biden

23 de abril de 2021 § 30 Comentários

E cá estou eu mais uma vez procurando empenhadamente razões para beber uns goles do otimismo da imprensa ocidental em peso com a “Cúpula do Clima” de Joe Biden.

A primeira sequência de “chefes-de-estado” que vi desfiarem suas promessas ao mundo parecia animadora. Americanos, chineses, calejados europeus, árabes, russos, ilhéus da Oceania, argentinos, tudo parecia uma mesma procissão de santos bem intencionados. 

Mas o estraga prazeres que insiste em soprar fatos nos meus ouvidos não saia de lá. A maioria desses “representantes da comunidade internacional” não são isso, repetia ele, são só chefes do crime organizado. E muitos são governantes absolutistas. Gente que como os monarcas da Idade Media, declara-se governante eterno e pune com a morte quem desafia esses decretos. Não dá nenhuma satisfação de seus atos a quem quer que seja dentro de suas fronteiras. 

Alguns árabes mandam açoitar mulheres e decapitar oposicionistas em praça pública. Os russos assassinam opositores com dardos radioativos. Os chineses, que têm uma economia tocada a carvão e são os maiores poluidores do planeta (28% do total de emissões venenosas), são também os maiores predadores dos 7 mares com suas frotas pesqueiras semi-piratas recheadas de marinheiros escravos. Greta Thumberg não os vê mas eles estão lá e dizimam em escala industrial as últimas populações de animais selvagens do planeta, que são os que, antes das tecnologias que hoje permitem até identificar cada inimigo do partido único no meio de uma multidão numa fração de nano-segundo, ainda conseguiam esconder-se na água. Mantêm um milhão de Uigur’s e ninguém sabe quantos milhões de chineses outros em “campos de reeducação urbanos”, prisões-políticas verticais que se espalham por todas as cidades do país. Entre esses Uigur, quem não morre, mesmo “reeducado”, é “esterilizado”. Quer dizer, a China de Xi Jinping, conforme apuração do insuspeito NY Times, literalmente “pega pra capar” essa parcela da sua própria população porque ela se declara adepta do islamismo que o Ocidente é acusado de perseguir… 

Vai por aí a pletora dos horrores deste mundo patrocinados por esses bons senhores preocupados com o grau e meio de aquecimento no horizonte das gerações futuras, que fazem promessas solenes de cuja seriedade convencem absolutamente a imprensa brasileira e internacional ambientalmente engajada. 

Xi Jinping mesmo, que só concordou em participar do convescote menos de 24 horas antes dele começar, depois de certificar-se de que Joe Biden seria lhano no trato, disse que “A China está ansiosa para trabalhar com os Estados Unidos para melhorar a governança global. Nós lutamos por uma sociedade mais equilibrada e priorizamos o meio ambiente, queremos atingir nossas metas climáticas … em tempo mais curto que outros países desenvolvidos”. Vago nas próprias promessas foi incisivo com quem foi preciso nas suas: “Vamos restringir o comércio com países que não cumprirem suas metas climáticas”.

Não é para menos. Joe Biden, um dos pouquíssimos governantes do planeta totalmente sujeitos às leis que no seu país são feitas pelo povo, “comprometeu-se” em reduzir suas emissões (15% do total mundial) em 50% até 2030. Isso implica coisas como banir, como ele já se comprometeu a fazer, toda a nova tecnologia de fracking de maciços de xisto que transformou os Estados Unidos de maior importador em maior exportador de energia do mundo, barateando o gás industrial a ponto de promover a volta de industrias que tinham migrado para a China num país que precisa desesperadamente de empregos.

Mas mesmo Biden, com toda a influência que possa ter mediante a criação de incentivos federais, não tem poder para garantir tudo isso. Quem decide essas grandes ações de cunho ambiental, como tudo o mais por lá, é o povo, nas instâncias estadual e municipal. O governo de Nova York, por exemplo, acaba de desenhar um pacote de 3 bilhões de dólares com esse propósito a ser decidido no voto (ballot) nas próximas eleições de 2021.

Finalmente, chegamos a Jair Bolsonaro. A mudança de tom conseguida do presidente brasileiro no tratamento da questão ambiental foi, certamente, a conquista mais formidável da “Cúpula do Clima” de Joe Biden, o que não é pouca porcaria posto que o maior problema do Brasil não têm sido as ações, mas o tom com que Bolsonaro vocifera antes, durante e depois de praticá-las. Para desespero dos apedrejadores domésticos do Brasil, o novo tom da política ambiental, para o meu gosto, esteve próximo de perfeito tanto nas cobranças quanto nas promessas que fez em nome do país que, como ele lembrou, é responsável por menos de 1% das emissões historicamente acumuladas e menos de 3% das acrescentadas à atmosfera todos os anos.

Quanto à promessa de redução a zero de emissão de carbono até 2050 e de 40% do desmatamento até 2030, sou pessimista. O desmatamento no Brasil é, já ha um bom tempo, função exclusiva da corrupção. Não tem nada a ver com o agronegócio como gostariam que fosse os apedrejadores domésticos e os fariseus da velha Europa. Só duas pessoas ganham hoje com a depredação de florestas no Brasil: o madeireiro e o político corrupto que o acoberta (além dos que comerciam as últimas madeiras virgens no “mundo civilizado”, luxo que não é pro bico de pais pobre). 

A redução do desmatamento no Brasil depende absolutamente, portanto, da redução da corrupção, o que é totalmente insano esperar com esse STF que solta os ladrões e prende as polícias. Redução da corrupção é, histórica e planetariamente falando, função exclusiva do aumento de democracia. E no Brasil a democracia está em extinção. 

Das iniciativas de Bolsonaro, portanto, a única que com toda a certeza será cumprida, é a de sempre em se tratando do Estado brasileiro: a do “aumento de recursos” e, portanto, de funcionários indemissíveis e incobráveis acrescentados à legião da privilegiatura.

A questão ambiental, seja pelo viés do aquecimento global, seja por todos os outros, é seríssima. Mas só pode ser endereçada pelo tratamento de sua causa fundamental, que é a superpopulação humana. Enquanto a luta pelo poder – nacional ou global – tiver precedência  sobre o controle da natalidade na questão ambiental, continuaremos matando o planeta.

O calcanhar de Aquiles da democracia

22 de abril de 2021 § 13 Comentários

Hamilton

Oito capítulos adiante da última visita (https://wordpress.com/post/vespeiro.com/28968) volto ao “Alexander Hamilton” de Ron Chernow, já em outros Estados Unidos: o da primeira disputa pelo poder na nova república democrática, periclitante ainda e tateando no escuro.

Nestes a condição humana volta a impor-se, feroz como sempre, sobre aquele hiato de suspensão revolucionária quase milagroso que, no frescor da juventude, deslocou os gênios complementares de Alexander Hamilton e James Madison, na flor dos seus 20 e poucos anos, suficientemente para fora da curva para fazer com que, pondo sob rigorosa quarentena as vaidades e ambições de poder dos convencionais reunidos na Filadélfia, conseguissem fazer nascer, sob o compromisso solene de segredo das contribuições de cada um ao projeto que deveria ser de autoria anônima, a 1a constituição democrática da história das sociedades humanas. 

George Washington fora eleito presidente. Alexander Hamilton, seu braço direito na Guerra de Independência, nomeado secretário do Tesouro. Thomas Jefferson, o autor da Declaração de Independência, depois de longa estadia em Paris, recebera o cargo de secretário de Estado (ministro do Exterior). James Madison, ex-colega, amigo de Hamilton e co-autor dos Artigos Federalistas, era o líder do governo no Congresso. 

E então, a única ofensa insuportável começa a cobrar seu preço…

Jefferson

O cargo de Jefferson, naquele momento, é pouco mais que decorativo. Onde tudo está por fazer é na seara de Hamilton. E ele tem de sobra a capacidade e o talento que se requer para tanto. É preciso criar um sistema tributário para financiar o governo central. Estruturar um Banco Central para consolidar a divida dos estados e gerir a divida externa acumulada na Guerra de Independência. E, ainda, lançar uma estratégia nacional para ancorar a economia de um país cada vez mais urbano (no Norte) nas manufaturas e não mais apenas na produção agrícola escravocrata (do Sul).

Hamilton é o centro de tudo. E isso arranca de sua toca o que Caetano Veloso chamaria, séculos depois, “o monstro verde do ciúme”.

A Inglaterra é, então, o centro do mundo. Tinha inventado os fundamentos básicos da economia moderna (privada). A força dos contratos. Ensaiava a revolução industrial. Hamilton vai beber onde ha água. Lê Adam Smith. Como todo sujeito inteligente, adota os fundamentos provados. Financia e organiza a espionagem sistemática e a cópia dos segredos das manufaturas têxteis inglesas. Os Estados Unidos de então – como as chinas de hoje – decolam … e Hamilton ganha o ódio eterno de Thomas Jefferson.

Para unir os estados e o congresso em torno das leis que precisa para sua obra, Hamilton patrocina a criação da Gazette of the United States, quase um diário oficial onde publica os documentos das instituições que quer criar e argumenta em sua defesa. Mas com o financiamento do governo pela emissão de títulos nasce também a especulação com esses títulos. E estas e outras importações da Inglaterra dão o pretexto que Jefferson precisava para atacar o rival: “É um monarquista enrustido! Quer acabar com a república”. 

Madison

O foco de Jefferson é intrigar Madison contra Hamilton. Bloquear suas ações no congresso. Washington resiste. Tenta a todo custo apaziguar as partes. Diz a Jefferson que “não ha, no país inteiro, 10 pessoas dignas de ter sua opinião levada em consideração que acreditam no ‘golpe monarquista’ de Hamilton”. Jefferson contrata então o sub-literato francês Philipe Freneau como “tradutor” do Departamento de Estado com salário de US$ 250 por ano. E logo ele lança a National Gazette para falar por seu patrono. 

E a guerra midiática se instala, desenfreada.

Esses jornais eram curtos nos fatos e longos na opinião. Difamatórios e imprecisos … Não havia nenhum código de conduta para circunscrever o comportamento da imprensa (que só surgiria na virada do século 19 para o 20). A própria verdade se torna suspeita quando publicada nesses veículos poluídos …” 

Hamilton resiste o quanto pode mas o bombardeio incessante acaba por arrastá-lo. O factóide se torna fato. “Agora algo compulsivo e incontrolável pautava o seu comportamento público. Tornou-se um cativo de suas emoções. Tinha de responder aos ataques. E o fazia com todo o seu formidável arsenal de armas retóricas…

É dessa briga que vai nascer o bi-partidarismo americano – os Federalistas, futuros democratas, com Hamilton, e os republicanos com Jefferson e Madison, terceiro e quarto presidentes dos Estados Unidos (Hamilton morreria nesse meio tempo). 

Washington

Atravessar, ontem à noite, as minúcias dessa mixórdia que Ron Chernow reconstitui com a impiedosa competência de sempre, tendo partido de três personagens da estatura de Alexandre Hamilton, Thomas Jefferson e James Madison foi uma experiência triste e carregada de ambiguidades. De repente lá estava o Brasil do lulismo e do bolsonarismo, com sua imprensa doente, senão no ponto de partida, no ponto de chegada. 

Não estaria afinal, a democracia, mesmo acima da realidade da condição humana? O espaço para a competição permanente pelo poder e para as disputas de vaidade que ela abre e a imprensa preenche desde o 1º dia de sua criação não seriam o calcanhar de Aquiles a condenar irremediavelmente o novo sistema?

Sem duvida são. E como num jogo de xadrês, a arte de enlouquecer as vítimas dessas guerras se vem sofisticando com a cientifização da “guerra psicológica adversa” dos soviéticos ou a elevação do cinismo ao estado da arte com Antonio Gramsci…

Mas então ocorreu-me que as alternativas, como lembrou Winston Churchill, são todas muito piores. 

E para não ficar com o surrado “o preço da liberdade é a eterna vigilância“, meti, então, a cabeça no travesseiro bem caseiro, com o nosso bom Guimarães Rosa: “Viver é mesmo muito perigoso”.

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