Primárias do PSDB e outras candidaturas ôcas

29 de novembro de 2021 § 12 Comentários

Ainda que eleições primárias diretas tenham ocorrido aqui e ali nas colônias americanas tão cedo quanto 1840, o sistema só começou a se generalizar na virada para o século 20. A reforma para torná-las obrigatórias, uma batalha que de certa forma ainda está em curso nos Estados Unidos, foi extraída a fórceps dentro do movimento de resgate da democracia americana das garras da corrupção em que a tinha mergulhado a combinação do “pecado original” dos “fundadores” de blindar os mandatos dos políticos eleitos enquanto durassem (4 anos) com o advento das revoluções concomitantes industrial e gerencial numa sociedade agrária institucionalmente despreparada para enfrentar os novos desafios. 

Os Estados Unidos eram ainda apenas as colônias da costa do Atlântico quando as ferrovias – como hoje a Amazon com relação ao mercado global – “abriram” todo o resto do continente até o Pacífico, tornando-se, no entanto o único canal de acesso a esse imenso cabedal de riquezas, assim como de escoamento para o mercado consumidor de tudo que nele pudesse ser produzido. 

Isso propiciou que empresários inescrupulosos mancomunados com políticos mais inescrupulosos ainda, que elegiam e reelegiam com seus inesgotáveis rios de dinheiro, se unissem para esmagar e açambarcar concorrentes negando-lhes transporte e servindo-lhes leis de encomenda, criar monopólios e fortunas nunca antes sonhadas, maiores que o PIB da maioria dos países, história a que você, leitor, poderá ter acesso em detalhes inscrevendo os termos “Progressive Era”, “Theodore Roosevelt”, “democracia direta” ou “antitruste” na ferramenta de busca deste Vespeiro, no alto à direita desta mesma página.

Bebendo na fonte da democracia suíça que precedera a americana em quase meio milênio, a imprensa democrática e os reformadores da Progressive Era (1890-1920) importaram os remédios da democracia direta que lá se praticava. As ferramentas da iniciativa e do referendo popular de leis abriram a possibilidade de passar leis sem o concurso dos legislativos controlados pelas máfias partidárias corruptas e isso projetou a democracia moderna para um novo patamar.

O estado do Oregon foi o primeiro a conseguir implantar a iniciativa e o referendo em 1902 e, com eles nas mãos, impôs aos políticos também o recall em 1908. Com essa trinca poderosamente desinfectante nas mãos o povo do Oregon foi o primeiro a instituir eleições diretas para o Senado estadual, até então eleito indiretamente, e primárias diretas para presidente. A Califórnia logo copiou o “Oregon System” e abriu a corrida nacional para empurrar o povo mais para cima na hierarquia do poder.

Tão cedo quanto 1917 todos os estados menos quatro, onde a soberania do povo passara a ser cada vez mais direta e absoluta, já tinham adotado primárias diretas para todas as eleições estaduais e municipais. Não eram mais os donos dos partidos, eram diretamente os eleitores que decidiam quem podia ou não candidatar-se a qualquer cargo. É esse conjunto, que resultou no golpe de morte na espinha dorsal da cadeia de lealdades que sustentava a corrupção, que explica o enriquecimento exponencial do povo americano ao longo do século 20.

Para estender esse direito ao âmbito federal é que começou, no entanto, o braço de ferro com os partidos que escondiam-se atras da dupla soberania dos estados e da União e da omissão da constituição a esse respeito que continua a ser o diferencial que põe a democracia americana ainda para trás do seu modelo suíço.

A resistência – política e judiciária – foi feroz.

A primeira e maior das porteiras foi, no entanto, arrombada com a abertura às candidaturas independentes, algo impossível de contestar num regime que pretendesse continuar merecendo o qualificativo de “democracia representativa”. Com variações entre os estados, hoje qualquer cidadão americano pode candidatar-se a presidente – e daí para baixo a qualquer coisa – e ter seu nome figurando na cédula que chega ao eleitorado apenas colhendo assinaturas de eleitores (no limite mais alto, 1% dos votos necessários para eleger um deputado federal) sem ter de pedir licença a mais ninguém, ou montando um novo partido, operação ainda mais fácil desde que se tenha respaldo de eleitores.

Até os anos 1970s somente metade dos estados americanos tinha conseguido instituir primárias obrigatórias para presidente da república. Hoje elas acontecem em todos os estados mas cada partido, em cada estado, resolve como faz as suas. Ha “primárias fechadas” em 13 estados. São como as do PSDB. Só membros registrados do partido podem propor e votar em candidatos. Há “primárias semi-fechadas” em 15 estados, em que membros inscritos em cada partido podem votar só nos candidatos dos seus partidos mas o resto do eleitorado não filiado a partidos também pode votar nas primárias dos outros partidos. Somente 14 estados têm “primárias abertas” com todos os eleitores podendo votar em qualquer primária de qualquer partido. E ha ainda outras variações…

Assim, ainda que seja altamente improvável alguém conseguir eleger-se num pleito nacional sem apoiar-se na estrutura de um grande partido, não é impossível. E essa possibilidade torna todos os candidatos bem mais humildes e “client oriented“. E tudo, claro, sempre obedece rigorosamente ao sistema de eleição distrital pura. A proporção de votos recebidos por cada partido em cada distrito é obrigatoriamente reproduzida pelos delegados das convenções com direito a voto nas primárias partidárias.

Como já foi tantas vezes explicado neste site, a FIDELIDADE DA REPRESENTAÇÃO é a única coisa inegociável da democracia americana na qual todo poder DE FATO “emana do povo”. Tudo permanece, portanto, sempre em aberto, mudando ao sabor das leis de iniciativa dos eleitores que eventualmente forem aprovadas em cada estado a cada ano. O que é decisivo é que as alterações do modelo vêm sempre de baixo – dos eleitores – e são impostas partido acima – aos políticos – e não o contrário como acontece nesse nosso esdrúxulo sistema de “governo do povo” (“democracia”) sem povo.

Fica a seu critério, portanto, avaliar se as primárias para “escolher” o candidato a presidente do PSDB entre as opções previamente postas pelos “donos” do partido em disputa entre si têm, como as americanas, o sentido de livrar o partido dos seus caciques e submeter-se à vontade dos eleitores, ou se é apenas mais um expediente “murístico” dos “tucanos raiz” para não ter de afirmar em voz alta o seu horror a João Dória numa conjuntura de deserto de talentos em que fica muito difícil atacá-lo pelo, digamos, “excesso de competência”  que justifica a figadal rejeição que ele sofre por parte de um enorme contingente do eleitorado nacional.

O que quer o PSDB, afinal, é o melhor presidente ou o melhor candidato para levá-lo de volta ao poder, qualquer que seja ele? Pôr o povo no poder ou manter o seu poder sobre o povo?

O que se pode saber com certeza desde já é que, como todos os outros ensaios de “3a via” que se insinuam por aí, nenhum dos quais tem qualquer proposta para desentortar o sistema político e eleitoral que aleija o Brasil, tudo que o PSDB oferece à consideração do eleitorado nacional é mais um entre três “eus” possíveis como única garantia dos resultados todos que só a democracia pode produzir mas que o PSDB, como todos os demais, promete entregar só pelos belos olhos do seu candidato, sem submeter-se à democracia.

Esta – que não haja mais enganos depois de tantos! – só se instala quando o povo manda no governo. E o povo só passa a mandar no governo quando conquista os poderes do recall, da iniciativa e do referendo de leis e se torna dono dos mandatos dos políticos revogáveis a qualquer momento.

Aí, sim, eles passam a trabalhar PARA O POVO. O resto é tapeação.

Em capitalismo nada se cria, tudo se copia

22 de novembro de 2021 § 16 Comentários

A partir dos meados dos 1980s Kenishi Omahe se foi tornando uma presença cada vez mais assídua na imprensa ocidental. Tendo ocupado altos cargos em diversas empresas de ponta do Japão, ele foi nomeado, na sequência, o chefe do escritório da McKinsey para Ásia e Japão e projetou-se como o mais conhecido divulgador das técnicas de gestão japonesas nos EUA, especialmente do sistema “just in time” inventado pela Toyota.

O Japão deixara de ser o patinho feio do capitalismo, célebre pelos produtos vagabundos que exportava. Tornara-se melhor que o original e despontava como o Japão que conhecemos hoje deixando de lado o padrão americano de planejamento de curto prazo com foco na “satisfação dos acionistas” pelo planejamento de longo prazo de visão mais estratégica e foco na qualidade. Ele escrevia artigos regularmente e publicou diversos livros que tornaramse best sellers não apenas entre os especialistas. O sucesso foi tanto que no final dos 90 mudou para os Estados Unidos onde dava aulas na UCLA e em Stanford e era uma estrela nas palestras sobre eficiência.

Àquela altura o mundo já tinha andado bastante. Lembro-me de um de seus livros que começava com a descrição dos vôos das sextas-feiras entre Tóquio e Seul onde todos os passageiros se conheciam mas passavam a maior parte do tempo disfarçando, sem se cumprimentar, com as caras enfiadas em jornais. Eram técnicos importantes e até CEOs dos grandes grupos japoneses que viajavam para a Coréia onde, num fim-de-semana, ganhavam mais que o salário do mês no Japão, para ensinar aos coreanos os segredos das indústrias japonesas.

Nada de novo…

Uma geração antes o Japão bancava milhares de seus melhores cérebros para estudar nas melhores universidades americanas ou empregar-se nas suas melhores indústrias para aprender com eles e depois fazer melhor em casa.

Os próprios Estados Unidos não se tornaram a maior potência industrial do mundo por outro expediente. Um dos capítulos mais fascinantes do indispensável “Alexander Hamilton” de Ron Chernow é o que descreve como o genial primeiro Secretário do Tesouro do governo de George Washington e seu fiel assistente, Tench Coxe, criaram o que viria a ser a Society for Establishing Useful Manufactures (SEUM), nos albores da grande nação americana.

Hamilton e Coxe decidiram que o melhor meio de competir com a Inglaterra, àquela altura a maior potência industrial da Terra era, numa mão, trazer para os Estados Unidos a qualquer preço os melhores executivos das indústrias inglesas, mesmo sob pena de desafiar as leis daquele país e, na outra, enviar espiões a soldo do Tesouro Nacional para a antiga mãe-pátria para aprender a construir (e melhorar) as máquinas e tocar as indústrias que as usavam.

Tão cedo quanto março de 1791 os Estados Unidos estavam patenteando os Moinhos (têxteis) Parkson, mesmo admitindo que eram cópias melhoradas dos ingleses. Naquele mesmo ano criaram oficialmente a SEUM, financiada por capitais privados, que lançou as bases de indústrias de papel, tecidos para velames navais, processadoras de algodões e linhos, sapatos femininos, costuras industriais, chapéus, cobertores, carpetes, cervejas, etc.

Hamilton argumentava com os muitos inimigos do seu governo que “pelo espírito da imitação a sociedade americana iria florescer em negócios domésticos comparáveis aos ingleses”. Ele selecionou pessoalmente os principais diretores do empreendimento entre cidadãos nacionais e estrangeiros para a criação de um polo de difusão de indústrias em New Jersey, e lançou ações na bolsa para financiá-lo, mesmo sob as críticas da América rural que, apadrinhada por nomes do calibre de Thomas Jefferson e James Madison, reclamava incentivos iguais. Sob ataques ferozes dessa oposição, foi movido a produzir, com Coxe, o “Report on Manufactures” para prestar contas desse investimento, pelo qual também foi atacado em função da concepção aumentada dos poderes da União que embutia.

O resto dessa história – da Coréia aos novos “tigres” do Sudeste Asiático e à China – já é mais familiar para os leitores de hoje.

Enquanto isso na nossa América, que de volta às mãos de um Portugal que, subjugado pela Espanha, expulsara de Pernambuco os judeus que foram fundar Nova York, o ódio à eficiência campeava solto. Lembro sempre de um episódio descrito em outro livro fascinante de um “brasilianista”, o A ferro e fogo, Uma história da destruição da Mata Atlântica, de Warren Dean, que contava as desventuras de um inventor que, lá pelos 1700, concebeu um forno muito mais eficiente que os usados nos engenhos brasileiros e teve de ir implantá-lo nos canaviais do Caribe de tanto que foi hostilizado pelos usineiros daqui que execravam aquele sujeito que queria ensinar padre nosso ao vigário.

Warren Dean fazia cálculos sobre quanto da Mata Atlântica teria sido poupada só com a adoção daquela invenção, mas na minha cabeça a história batia diferente. Era uma prova da ancestralidade da distorção que até hoje nos mata. Nas sociedades regidas pelo privilégio, onde a eficiência não é o fator decisivo de sucesso, muito pelo contrário, qualquer manifestação de competência é uma ameaça a ser eliminada e não um avanço a ser assimilado e disseminado.

Até hoje é assim, menos para a fatia graças a deus crescente da nossa economia que, apesar de tudo, conseguiu internacionalizar-se.

Cabe esperar que aprendamos a lição antes de termos de tomar duas bombas atômicas na cabeça para nos civilizarmos politicamente, como os japoneses, ou mergulhar em profundezas tais de miséria que justifiquem o canibalismo e a deglutição de baratas, escorpiões e morcegos, como os chineses, e nos tornemos os próximos asiáticos. Com o jogo de cintura em que a nossa doença política nos vem especializando ha 521 anos, o Brasil vai dar show de bola assim que se tornar humilde o bastante para começar, também em política, engenharia institucional e educação, a imitar sistematicamente os melhores!

Em democracia nada se cria, tudo se copia

19 de novembro de 2021 § 16 Comentários

Quando a Constituição dos Estados Unidos foi ratificada, em 1788, a Confederação Suíça, estabelecida pelo Bundesbrief, o documento assinado pelos três primeiros cantões a se unirem para formar a primeira nação européia (e a única que jamais teve um rei) em 1º de agosto de 1291, já existia havia quase meio milênio.

O “Pacto do Mayflower” é o exemplo mais conhecido. E as Câmaras Municipais das vilas autárquicas perdidas nas “Índias” e no Brasil do antigo Império Português tiveram traços dessa característica. Mas o da Confederação Suíça é o primeiro modelo acabado da “democracia espontânea”, esse modo de grupos humanos isolados se organizarem consensualmente “entre iguais” para um objetivo comum.

Quando a Biblioteca do Congresso incorporou a biblioteca particular de Thomas Jefferson, os primeiros pesquisadores já registraram a presença com destaque de dois autores suíços – Emerich de Vattel e Jean-Jacques Burlamaqui (1694-1748, membro do Conselho de Estado de Genebra e professor de ética e natural law) – entre os volumes mais manuseados pelo autor da Declaração de Independência americana. Foi ela que, pela primeira vez, afirmou como “verdades auto-evidentes” que “todos os homens foram criados iguais” e estabeleceu como “inalienáveis os direitos à vida, à liberdade e à busca da felicidade” não segundo esta ou aquela fórmula estabelecida como “santificada” ou “correta” por terceiros, mas como cada um preferisse faze-lo. 

Naqueles volumes grifados e anotados à margem, estavam até frases inteiras reproduzidas na Declaração que iniciou a terceira jornada da democracia na Terra ao afirmar, na cara de um mundo de monarcas absolutistas hereditários detentores de poderes “atribuídos diretamente por deus” que, tudo mentira, “todo governo deriva os seus poderes do consentimento dos governados” e que “é direito e até dever desses governados corrigir ou abolir qualquer governo que se volte contra esses direitos inalienáveis”.

Com origem nos exilados das cidades-estado que viriam a constituir os reinos da Alemanha, da França, da Áustria e da Itália para a “Sibéria” mais próxima – aquelas montanhas inóspitas nas suas fronteiras comuns – a democracia suíça passara meio milênio como a única experiência divergente a sobreviver à margem do poder dos papas primeiro, dos reizinhos municipais depois, e dos monarcas absolutistas da Europa finalmente, graças à sua localização hiper-estratégica para o comércio europeu e às condições imbatíveis de defesa daquelas gargantas e “passos” nas montanhas que só eles conheciam e dominavam. 

Desde o primeiro minuto, portanto, os suíços viram na experiência americana o parentesco com a sua própria e entenderam a importância do sucesso dela para a vitória da democracia sobre a opressão reinante.

Havia batalhões suíços na Guerra da Independência e o “Kentuky-rifle”, arma decisiva dos colonos, evoluiu do Swiss-Jaeger. Henry Miller (Johan Heinrich Möller), estabelecido na Filadelfia em 1762 onde editava um jornal que fazia campanha pela entrada dos “alemães” americanos na guerra contra a Inglaterra era suíço. Seu jornal foi o primeiro a anunciar a Declaração da Independência.

Depois da vitoria, John Witherspoon, representando New Jersey na Convenção da Filadélfia, propôs formalmente a Suíça como modelo de confederação. Madison escreveu que as maiores influências na constituição americana foram Vattel, Burlamaqui, Montesquieu e Locke, embora tanto ele quanto Hamilton, cada um por seu viés, criticassem o sistema suíço pela ausência de um poder central mais forte que consideravam essencial à sobrevivência da democracia americana num mundo ainda totalmente adverso.

Os suíços, por sua imprensa e sua academia, também sempre acompanharam com o máximo interesse a revolução americana. Invadida por tropas francesas em 1798, a Suíça viu abolida a independência dos cantões. Restituída a independência passou os 40 anos seguintes debatendo o modelo americano. Em 1815 a soberania dos cantões estava restabelecida mas eles eram controlados por oligarquias. Em 1830 a revolução em Paris favoreceu a queda dessas oligarquias. Abriu-se então o debate da mudança do sistema de governo.

Paul Vital Troxler, líder dos “americanistas”, dizia que “a constituição dos EUA é uma obra de arte que a inteligência humana criou baseando-se nas leis eternas da divina natureza” e “um modelo para a Suíça e todas as outras repúblicas”. Os tradicionalistas, igreja católica à frente, resistiam. Os cantões dividiram-se num movimento secessionista que tinha paralelo com o que se insinuava nos Estados Unidos. Em 1847 um movimento militar deteve o conflito iminente e convocou uma constituinte. Em 1848 ratificaram uma constituição que embora volumosa comparada à original – tinha 147 artigos e 7 disposições transitórias – baseava-se na americana e estabelecia um federalismo de dupla soberania com um sistema bicameral como o deles: um Conselho de Estados como Senado, com dois votos por estado, e o Conselho Nacional, comparável à Câmara, eleito pelo povo. Em vez de um executivo único instituiram um conselho de 7 membros e uma suprema corte sem poderes de rever as leis passadas no Legislativo.

A diferença, segundo um autor, “é de DNA”: nos Estados Unidos uma aristocracia, movida pelas circunstâncias, criou uma constituição para atalhar os poderes dos estados independentes; na Suíça ocorreu o exato contrário; forças democráticas forçaram a criação de um governo central forte para se impor às aristocracias que tinham passado a mandar nos cantões.

A Suíça acompanhou a Guerra de Secessão americana consciente de que o seu resultado seria decisivo para ela própria. Em 1863, quando pareceu que o Sul estava ganhando, publicou-se por lá o “Manifesto de Berna”:

Do vosso lado do oceano agora levanta-se renascida uma grande e poderosa republica, superior a todos os seus inimigos. Com suas próprias forças os americanos venceram a doença que arruinou as esplêndidas republicas da antiguidade. Rejuvenescida, a republica americana instala-se para a eternidade, como o modelo e o escudo da liberdade. Ela será livre no futuro e para toda a História. Ninguém mais pode negar que as republicas podem existir em países de muita extensão. Essa vitória é um marco para a humanidade”.

Quando a “disrrupção” provocada pela “ferroviarização” do continente americano e a explosão da corrupção pela associação entre os robber barons dos albores da revolução industrial e seus monopólios e os políticos corruptos num país institucionalmente despreparado para enfrentá-los corroeu todo o apoio popular à democracia, foi a vez dos americanos voltarem-se para a Suíça para reconstrui-la. 

As ferramentas do recall e da iniciativa e referendo de leis eram desconhecidas do grande publico nos Estados Unidos até 1888 mas usadas na Suíça desde 1847. A partir de então surgem os primeiros trabalhos semi-acadêmicos sobre o sistema suíço. Seja qual tenha sido a faísca que iniciou o incêndio, o interesse pela Suíça começou a correr como fogo na macega na década dos 1890s. Entre 1891 e 1898 houve mais de 70 publicações sobre o assunto. Mas foi a imprensa que fez a revolução. O sistema suíço passou a ser o tópico jornalístico mais quente da década. Nenhum editor podia ignorá-lo e vários jornais e revistas mandaram equipes à Suíça para a execução de reportagens e estudos extensos.

A Suíça virou a meca de todos os reformadores e cientistas políticos e literalmente todos os americanos alfabetizados foram expostos ao tema que, finalmente, Theodore Roosevelt e o Partido Progressista encamparam. Isso os ensinou que antes do início da introdução desses instrumentos, nos 1830s, a Suíça estava dividida entre senhores e servos, plutocratas despóticos e políticos corruptos que exploravam o país servindo-se do sistema representativo, e que com sua adoção “o parasitismo político simplesmente desapareceu, as máquinas políticas ficaram sem uso, as leis foram re-escritas em linguagem que qualquer leigo podia entender, os impostos foram reduzidos e os privilégios dos monopolistas vieram ao chão”.

Em 1898 South Dakota foi o primeiro estado a adotar iniciativa e referendo. Utah foi o segundo em 1900 e Oregon o terceiro em 1902. Em 1912 ja eram 18. Entre 1913 e 1918 mais 5 estados aderiram. 

As duas guerras mundiais sufocaram o espírito reformista. Mas ele viria a reviver com a Proposition 13 da California em 1978 que iniciou uma rebelião nacional contra impostos abusivos. Hoje da esfera estadual para baixo nos Estados Unidos, e em todas as esferas, inclusive a constitucional, na Suíça, tudo e cada vez mais é decidido diretamente pelos eleitores que, não por outra razão, tornaram-se os mais bem educados e ricos do mundo.

Porque Sérgio Moro é só mais um

11 de novembro de 2021 § 44 Comentários

Sérgio Moro lançou-se para presidente. Estava muito bem treinado! Fez a lição de casa com a mesma aplicação com que substanciava suas sentenças na Lava Jato. Nem o STF conseguiu contestá-las. Teve de anula-las no tapetão mesmo, como virou hábito.

O juiz, agora político, teve uma palavrinha pra cada público. Usou todas as do dramalhão brasileiro e numa ordem quase perfeita. União. Verdade. Ciência. Justiça. Respeito à diversidade. Proteção à família. Liberdade de crença. Liberdade de expressão. Liberdade de imprensa. Livre mercado. Livre iniciativa. Menos governo. Menos imposto. Privatização. Abertura da economia. Distribuição de renda. Erradicação da pobreza e não apenas com assistencialismo; com educação. Combate à corrupção. Combate à corrupção. Combate à corrupção. Florestas em pé. Economia verde. Fim dos privilégios…

Chegou quase a empolgar finalmente ouvir um candidato com sonhos em vez de só com um inimigo a aniquilar.

Não duvido que seja honesto. Mais bem intencionado que muitos. Foi o único que teve coragem de enfrentar o grande crime.

Faltou só alguma palavrinha pro STF (Moro é louco mas não rasga dinheiro)…

Mas de boas intenções o inferno está cheio.

Estavam lá todos os “QUAIS” … e nenhum dos “COMOS”:

Para erradicar a pobreza, a “criação de uma Força Tarefa de Erradicação da Pobreza”. Mais uma…

Para erradicar a corrupção a “criação de uma Coordenadoria Nacional Anticorrupção com juízes vocacionados”. Mais uma…

Podem confiar que vou fazer sempre a coisa certa”.

Ãnhãn…

Sergio Moro promete ser o “guardião do interesse do povo” mas não nos dá nenhuma dica de como pretende aferir esse interesse.

É aí que está o “X”!

Só tem um jeito disso virar verdade. E ele, que estudou nos Estados Unidos sabe bem qual é: dar ao povo, o tempo todo, antes, durante e depois de cada eleição, o poder de conferir a qualquer hora se o seu interesse está ou não sendo guardado, e botar pra fora imediatamente quem o estiver violentando.

Aí sim!

Chama-se DEMOCRACIA.

Ela passa a existir quando o povo ganha armas decisivas para mandar nos governantes. Quando o emprego deles passa a depender dele. Não muda a condição humana mas definitivamente encurta de forma drástica e radical o espaço para a tapeação, a contemporização, a procrastinação, a corrupção.

O Estado e os impostos ficam do tamanho que a gente quiser. Põem-se pra fora os ladrõezinhos antes que se tornem ladrõezões. Os privilégios acabam porque quem os sustenta passa a ter o poder de negar-se a pagar por eles. O crime murcha porque juiz “soltão” cai fora e os roubados e barbarizados passam a fazer a lei penal. A educação passa a produzir conhecimento e autonomia em vez de ignorância e dependência, fornecendo condição a cada um de prover o seu sustento e cuidar da própria saude em vez de acostumar todo mundo, desde pequenininho, a comer no cocho do governo, se e quando as “excelências” quiserem. O cara eleito pode até ser mauzinho que se ele passar da conta você põe ele no lixo. Ou em cana. Pra evitar isso até mauzinho age como bonzinho.

Chega de rezar pra deus pra próxima vida ser melhor que esta! Tudo isso, repito, não muda a condição humana, mas disciplina ela beeem, aqui e agora. Pela média. É quanto basta pra você ficar o país mais rico do mundo, longe do segundo lugar, e ir lamentar a condição humana lá de cima, longe do horror da impotência absoluta. Parece pouco mas comparado a quem nem isso tem, fica com cara de paraíso. Esses pra onde todos os fugidos dos salvadores de pátrias querem sempre correr.

A reforma que abre as portas a todas as outras; a reforma que inicia a reforma permanente, como é o viver; a única reforma que realmente reformata as coisas é a reforma politica, a reforma eleitoral. TODO O PODER, desde cada candidatura, TEM DE EMANAR DO POVO. De “partidos” com dono, criados e mantidos pelo Estado, só vai vir mais Estado com dono. Pra sermos nós os donos do Estado, a decidirmos qual o limite da competição, o tamanho máximo do poder político e do poder econômico, só armando o povo de primárias comandadas por ele próprio, recall, referendo e iniciativa de lei e da propriedade permanente de todos os mandatos de todos os “servidores públicos”. Aí tudo passa a referir-se ao povo e até a imprensa passa a defender a do povo!

É tão simples quanto a vida que todos nós, que não temos empregos eternos, sempre conhecemos.

O Brasil deve muito a Sérgio Moro. Mas o que ele está propondo é chegar à democracia sem passar pela democracia. A menos que se emende, não acredite. Isso não existe.

Desse jeito os “contra” reelegem Bolsonaro

8 de novembro de 2021 § 39 Comentários

Sejamos curtos e grossos. Só tem uma alternativa: democracia existe quando o povo manda no governo e não existe quando o governo manda no povo; estado democrático de direito existe quando a lei é igual pra todo mundo e o privilégio é crime e não existe quando é ela que cria e faz do privilégio “cláusula pétrea”. Todo o resto da vasta literatura e, mais ainda, da torrente de discursos construídos para “beiradear” essas verdades elementares é tapeação.

É esse o problema dos 3os NOMES que não emplacam para nos tirar da sinuca eleitoral de 2022 porque 3a VIA mesmo nunca houve. Só ha duas e nenhum dos 3os nomes quer mudar o poder de mãos, para as do povo como é da democracia sem aspas. Todos só querem ser eles a presidir o estupro legalizado do favelão nacional.

É a mesma gente para a qual reduzir privilégios da privilegiatura que consome 95% ou mais da quase metade do PIB que os governos arrancam do favelão nacional com a mais alta carga de impostos do mundo (36% nominais mais os quase 10% ao ano de déficits/dívidas para fechar a conta) é “altamente impopular”.

Corte de privilégios, nem pensar! Só de investimentos! Direito arranquirido não morre jamais!” E a cada geração, a reforma vale só pra próxima geração…

É a mesma turma pra quem a “antidemocracia” de uns pede prisão enquanto o “amor à liberdade” de outros se expressa censurando e prendendo. Aquela imprensa que clama contra “o lavajatismo” (usar todos os meios, inclusive os ilegais, para combater a corrupção) mas exige o uso de todos os meios, inclusive o mais subversivo, de “legalizar” os ilegais, para soltar corruptos ou calar quem ousa pensar diferente.

O problema sem solução dessa gente é que, tirante a estupidez granítica quanto a vacinas, que é mais semântica que concreta, fato que à “de esquerda” não interessa esclarecer porque é a que lhe garante a sobrevivência, e a diferente disposição de roubar e deixar roubar que é aritmeticamente demonstrável, Bolsonaro e a privilegiatura “de direita” só são pertinentemente criticáveis pelo que têm de igual e não pelo que mais têm de diferente dela.

A “revolução”, depois que a realidade matou o sonho, caiu nessa bizarrice de gênero, raça e “correção do discurso” — pro Brasil nada! — porque tudo que de fato condena o favelão nacional a permanecer favelão nacional, nem a “direita” nem a “esquerda” da privilegiatura podem denunciar sem denunciar-se a si mesmas.

São eles – do barnabé e do soldado raso ao professor das universidades públicas de rico e aos generais, uns um pouco menos os outros muito mais – com seus empregos eternos, suas mordomias obscenas, suas aposentadorias plenas e precoces, suas legiões de criados e assessores rachadores, sua impunidade, seus “auxílios”, suas lagostas e seus vinhos tetracampeões, que custam a metade do PIB que falta agudamente à mesa do resto do país.

E é também pra que tudo isso fique intacto que o tema ambiental vive atolado na desconfiança sobre as ações propostas pela vasta horda dos profissionais da caça às verbas disponíveis para o assunto e não na discussão sobre a necessidade de ação séria e efetiva, sobre a qual ninguém mais que viva sob estes céus cada vez mais inclementes tem dúvida. O ambientalismo profissional carnavalesco, que quer índio no zoológico, virou um rabo da privilegiatura que, como ela, vive de, e se promove com, dinheiro público, e se quer intocável, inauditável e inimputável como ela.

Os bolsonaros do mundo foram eleitos em função da repulsa das maiorias sóbrias contra a hegemonia arrogante e assumidamente desonesta desse discurso. E o pânico da perspectiva da perda do poder empurrando a falta de diferença na substância entre esses dois lados da mesma moeda, levou a essa polarização cretina que está aí. Grita-se A se Bolsonaro estiver gritando Z, mas passa-se imediatamente a gritar Z se ele concordar em mudar para A.

Não tem acerto. E o favelão nacional é o refém desse ódio.

Como de bobo Bolsonaro não tem nada, é ele quem escolhe o discurso. Empurrado de volta para o Centrão e para a “velha política” de tanto apanhar por tentar nega-la, fica com o de reduzir o preço do gás e da gasolina e como tornar perene o auxílio de R$ 400 para as vítimas da pandemia. Automatica e estupidamente como todos os raciocínios binários que cavaram esse buraco por baixo dos pés do Brasil, ao outro lado, que no ano passado empurrou dos R$ 200 propostos por Paulo Guedes para os R$ 500 impostos por Rodrigo Maia que, numa das manobras de cálculo mais sórdidas dos anais da sordidez, levou aos R$ 600 finalmente replicados por Bolsonaro que quebraram o Brasil, resta o discurso de como impedir o governo de fazer isso acrescentado às acusações de “crime contra a humanidade” que tanto comovem quem vive sob o fogo cruzado do crime organizado pra ver se conseguem levar a eleição com a fome do povo.

E como a este “A ou Z ou A” não ha argumento racional que sobreviva, a conversa sobre o interesse em zelar pelas contas públicas, proteger os acionistas da Petrobras, os donos de precatórios e os futuros investimentos estrangeiros no Brasil, junto com o de “salvar vidas” da CPI canalha de Renan Calheiros, Omar Aziz e Randolfe Rodrigues, não é que não enganam a velhinha de Taubaté. Não convencem nem mesmo o PT.

Assim, se não surgir nenhum lúcido por fora falando em aderir finalmente à revolução democrática e em entregar o poder ao povo, única maneira historicamente conhecida de faze-lo servi-lo, periga a “esquerda” da privilegiatura, que já fez isso uma vez, conseguir reeleger a “direita” da privilegiatura, e assim sucessivamente num nunca acabar, até o Brasil acabar.

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