Porque o Brasil não muda – 2

23 de abril de 2018 § Deixe um comentário

A primeira versão deste artigo saiu com um erro (no parágrafo que nesta versão aparece em negrito) que afetava a sua compreensão, razão pela qual está sendo republicado.


Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/4/2018

Antes de mais nada porque nunca nos propusemos a isso. Nem antes nem depois do início do presente tiroteio condenou-se “o sistema”.  Condena-se apenas quem está em posição de opera-lo hoje. Disputa-se apenas que “lado” será o próximo a ter a primazia de dirigi-lo.

O “empréstimo” de Joésley está para os crimes atribuídos a Aécio como o triplex do Guarujá para os de Lula e a sonegação de impostos para os de Al Capone, menos pelo pormenor de que nos Estados Unidos pode-se passar a vida inteira na cadeia por deixar de pagar o imposto devido ao povo enquanto aqui o melhor com que se pode sonhar para os culpados por roubar o imposto efetivamente pago pelo povo é que levem alguma canseira passageira mas preservem-se incólumes, como eternamente “deles”, as portas de escancaradas a essa roubalheira como a espoliada Eletrobras, dona de Furnas, a Petrobras coletivamente estuprada (e a JBS para onde foi transferida a montanha de ouro surrupiada pelo PT), as nomeações para “empregos” eternos nas encruzilhadas por onde fluem os dinheiros mais grossos da republica, os “auxílios” auto-outorgaveis, as aposentadorias 36 por 1, e o resto dos privilégios que ampliam em metástese o favelão nacional e definem a nossa medieval sociedade de castas.

Caça às bruxas? De maneira nenhuma porque, as nossas, provada e comprovadamente “las hay”. Está tudo certo, ou quase, no pouco que faz quem realmente tem tentado honestamente fazer por dentro do sistema, menos pelo fato de, no final das contas, a reserva ser privativa de 6 entre 11 “egrégios”, “excelentes”, “magníficos” caçadores que desfazem o que esses poucos fazem, mantêm a proibição do tiro ao Judiciário por tudo menos porque não exista caça grossa por lá, e bloqueiam qualquer reforma que atinja mais que indivíduos selecionados para aplacar a fome ancestral de punibilidade do povo brasileiro. Sendo tão poucos os caçadores licenciados é impossivel que esse poder não se transforme em corrupção, senão a boa e velha pelo dinheiro, certamemente, a corrupção pelo poder. E assim permanecemos paralisados para que o tiroteio possa prosseguir sem que, no entanto, haja qualquer esperança real de que se mate “o bicho” no final.

Ficaria tudo perfeitamente bem se quem decidisse quem vai ou não para a fogueira fosse o eleitor na sua sempre exata sabedoria média, não apenas de quatro em quatro anos mas antes, durante e sobretudo depois de depositar o seu voto na urna. Os direitos de retomada de mandatos e de referendo e inciativa legislativas a qualquer momento, mais o de reconfirmação periódica de juízes para que não se dê dois passos atras a cada um dado para adiante, são as formas consagradas nas democracias que vão além da mentira para armar o poder que a constituição atribui ao povo de ser a única fonte de legitimação do processo republicano. É o único remédio capaz de curar o estado de falsificação e descredito geral de todas essas nossas instituições e “instâncias de representação” que se auto atribuíram um “direito legal” à autonomia em relação aos seus representados e de repor as coisas andando na direção e na velocidade certas.

O que nos cansa a beleza a todos é que o caso do Brasil é absolutamente translúcido. Trata-se da opressão e da exploração vil de uma nação inteira por uma antielite numericamente insignificante que vive do expediente de controlar as ferramentas de amplificação de som do país para soterrar todo e qualquer argumento racional que se aplique para descreve-la como o que é com a repetição à exaustão do mantra de que as vítimas é que são os culpados e os culpados as vitimas. E quando até isso falha, jogar no fogueira mais um culpado – que todos são, basta escolher – para dissolver em emocionados “contras” e “a favores” qualquer esperança de dar tratamento às causas de que essas culpas individuais são mera consequência.

Cinco estados brasileiros, o Rio de Janeiro acima e à frente de todos clamando aos céus onde é que tudo isso vai parar, já têm mais funcionários aposentados que ativos na contagem de “cabeças”. Outros nove estão empatados, têm tantos ativos quanto inativos. Os demais, sem exceção, estão presos na espiral geométrica dos aumentos dos proventos “deles” à custa da redução dos nossos que condenam à mingua acelerada serviços essenciais como os de educação, saude e segurança publica dos quais dependem não só o futuro imediato de cada um de nós como também a sobrevivência da nossa quase democracia.

O governo federal sozinho tem um rombo projetado de 250 bilhões por ano (por enquanto). Somados os estados  o rombo vai a mais de 400 bilhões. Mas apenas uma das “pautas bombas” armadas no congresso poderia levar essa cifra para 660 bilhões até 2020, isto é, 65% a mais em um ano e meio. E, no entanto, tudo isso se dá às vésperas de uma eleição presidencial onde todos os lados evitam sequer mencionar esse probleminha “impopular” para quem tem, como todos eles têm, os ouvidos colados em Brasilia, a pátria da privilegiatura, ou incuravelmente entupidos pelo lodo da censura instalada nas escolas e universidades e em parte da midia.

Não é atoa que o “involucionário” José Dirceu, mais um dos condenados por corrupção com “claque” em liberdade condicional da tragicomédia nacional, incitava a esquerda roubona pela internet, esta semana, a “não deixar o governo funcionar” (este que propôs e quase conseguiu fazer as reformas de que foi demovido a socos e pontapés ou qualquer outro menos os governos dela própria). Está pra la de claro que a situação presente do estado brasileiro é insustentável e basta não agir para que acabemos caindo numa ditadura armada, a única forma de manter de pé a equação venezuelana que se vai configurando nos nossos rios de janeiros. O difícil é saber para onde fugiremos todos, nós e os fugitivos da Venezuela, se “o sonho” de fato recomeçar.

Dois Joões

22 de abril de 2018 § 21 Comentários

É bife ou não é?

21 de abril de 2018 § 9 Comentários

O Impossible Burger,  primeiro produto do gênero a ser vendido em grande escala numa grande rede de fast food americana, a White Castle que começou a oferece-los nas suas 140 lojas de Nova York, New Jersey e Chicago esta semana, não contém carne mas tem o gosto, cheira e sangra como a coisa verdadeira.

Qual é o ingrediente secreto?

Neurociência.

Nada a ver com os hamburgueres vegetarianos que andam por aí ha tempos. Essa mistura de trigo, óleo de coco, batata e um composto vegetal que contém muito ferro nunca chegaria ao que chegou não fosse o intrincado processo de alta tecnologia que permitiu à Impossible Burguer “enganar o cérebro humano”, por assim dizer, para fazer tudo nessa massa “soar” como carne para cada um dos nossos sentidos (veja como no video).

Mas essa ainda não é a grande revolução.

O que vai mudar o mundo mais uma vez – e com todas as alegrias e tristezas que mudanças desse calibre trazem – são as carnes cultivadas em bioreatores a partir de células-tronco de fibras musculares e de gordura mergulhadas em caldos de nutrientes. Os hambúrgueres que “crescem” assim já existem. O gosto ainda é um problema porque não é fácil reproduzir tudo que um organismo vivo consome e processa para produzir as carnes que conhecemos, mas Sillicon Valley jura que acabará chegando lá (startups israelenses e européias também disputam a ponta nessa corrida).

Em 2013 desenvolver 1 quilo dessa carne custava 2,5 milhões de dólares. Desde então esse custo caiu 99% mas ainda é muito mais alto que o da carne animal. O gargalo é um ingrediente essencial: o soro fetal bovino extraído dos fetos ainda dentro das vacas prenhes. É isso que desencadeia a reprodução out ou in vitro das células. Controlar a mistura certa de carne e gordura ao longo desse processo também não é simples, mas a “carne limpa” definitivamente vem aí e é pra já.

2020 é o ano de consenso para ela ultrapassar a faixa da viabilidade comercial. Será também o ano que marcará o início do fim final da cultura boiadeira/cauboy, com todos os dramas implicados, e o início da devolução de vastas porções de terra roubadas à natureza para a criação de gado e do grande tsunami econômico que tudo isso vai provocar.

Então, para além da alegria de vermos os 2ésleys quebrarem a cara e a lavanderia gigante do PT minguar, teremos de amargar a culpa por termos destruído florestas que tecnologia nenhuma será capaz de replicar que vieram da eternidade até aqui incólumes, às vésperas disso se confirmar como um desperdício ainda mais insano e sem sentido do que já parece hoje.

Matéria condensada da Quartz 

 

 

Nasceu o Brasil novo

10 de abril de 2018 § 14 Comentários

 Artigo para O Estado de S. Paulo de 10/4/2018

O parto foi doloroso e cheio de complicações mas aqui estamos. É o fim do nosso longo e penoso exílio no século 17.

O ato fundador de toda democracia, desde a primeira da era moderna, é declarar o rei “under god” e “under the law” como fez Edward Coke, juiz supremo da Inglaterra a James I dos Stuart em 1605. São mais de 400 anos de atraso e temos tido avanços e recuos exasperantes no ensaio dessa decisão, mas é esse o jeito de andar da História. Esta última foi uma briga ostensivamente comprada pelo passado e vencida pelo futuro em batalhas sucessivas de que toda a Nação participou malgrado os sacrifícios exigidos. Trata-se de uma inequívoca escolha. O marco, agora, está solidamente plantado pela mão da maioria.

Resolvida a questão da definição do regime o país pode, finalmente, olhar só para a frente. A obra monumental do PT foi a montagem do sistema de exploração colonialista do estado para sustentar um projeto de poder. A reconstituição da moral nacional que essa construção destruiu engata já a segunda marcha, marcado que está o caminho aberto pelo desbravador de Curitiba. A operação física da desocupação do estado num país reduzido à miséria e empurrado para além do limiar da conflagração ainda exigirá, é verdade, um esforço tremendo. Mas se dermos aos demais arranjos do passado que, por todo lado, impõem-se ainda ao país pela força do costume ou pela força da intimidação para bloquear o caminho das reformas, o mesmo remédio da lei feita soberana e igual para todos com que cortamos a cabeça mais alta da hidra, o resto acontece naturalmente.

Teremos de aprender democracia mas felizmente não será necessário inventa-la do zero. O caminho está consolidado. Havendo um mínimo de humildade e vontade de aprender é uma estrada batida que pode ser percorrida com razoável velocidade e baixíssimo risco de acidentes. Será mais pelo que investirmos de vontade que pelo tempo de fato requerido que seremos capazes de consertar nossas leis defeituosas, de definir os limites de cada instância de governo, de ajustar a estrutura e o alcance de cada instância da justiça mais adequados a uma republica de extensão continental. Não há  aí nenhum segredo. Todos os caminhos já foram experimentados; todos os atalhos já foram percorridos e mostraram onde vão dar. Os erros em que insistimos não são consequência do desconhecimento de opções melhores nem de enganos bem intencionados. Persevera-se neles porque foram deliberadamente produzidos para criar os privilégios aos quais os privilegiados agora aferram-se desesperadamente.

A chave do sucesso será, não propriamente o reconhecimento da natureza da doença que não há brasileiro que não saiba exatamente qual é, mas a superação do tabu de pronunciar o nome dela em voz alta. Não é o enfrentamento do grande privilégio, é a socialização do pequeno feito moeda para comprar silêncios e poder que ainda nos amarra as pernas; as relações de parentesco que tornam pouco nítidas as fronteiras entre a classe média meritocrática regida pelas exigências da modernidade e a outra gestada na toca do “concursismo”. Nessas instâncias “vocais” da sociedade que dispõem das reservas mínimas de gordura que a iniciativa política requer, a mentira prevalece não mais porque convença quem quer que seja mas porque ainda interessa a muitos abrir-lhe alas. O Brasil não tem conseguido reformar-se não exatamente porque não saiba como faze-lo mas porque essas duas classes médias que se interpenetram hesitam em propor-se a tanto. Disputam o controle do “sistema”, mais que o condenam.

Para reformar “o sistema” é preciso antes de mais nada denunciá-lo formalmente como irremediavelmente defeituoso e pactuar a suspensão do aparato de auto-preservação montado em torno dele para barrar e reverter reformas. É preciso, em resumo, inverter o sentido do vetor primário das forças que atuam sobre o sistema. Entregá-lo de fato a quem detém a função constitucional de legitimá-lo: o povo, o eleitor.

A força da necessidade joga a favor do melhor desta vez. O Brasil da “retórica vazia”, assim como o da “narrativa” prevalecendo sobre o fato, está morto e sabe disso. Não cabe mais na conta. Esgotou-se no seu próprio paroxismo. A “guerra” prometida pelo PT já está nas ruas mas não é a que ele pensa que vai comandar. O que resta de melhor no partido vai integrar-se à nova ordem e o resto, como em toda a parte, vai embeber-se oficialmente no crime. Também nós, já está claro, teremos de conviver com a nossa cêpa do “narco-socialismo” crônico.

A reforma sindical e a prisão na 2a instância serão lembradas no futuro como os marcos da virada do Brasil da conta negativa em direção ao Zero. O marco do ingresso na conta positiva será a reforma da previdência das corporações estatais que vem montada na igualdade perante a lei, ante sala da meritocracia no serviço público. Esta última será a mãe de todas as batalhas  e custará, como já tem custado, o peso exato dos sacrifícios de que a situação atual dispensa a “privilegiatura”. Mas vai ser imposta pela força irresistível  da necessidade, o que nos vai transportar para o limiar do século 20.

Eventualmente saltaremos de lá para a tomada do poder pelos eleitores com a instituição do recall, do referendo, da iniciativa e das eleições de rentenção de juízes num contexto de real representação da sociedade proporcionada pelo voto distrital puro, no qual os funcionários, os representantes eleitos e os servidores públicos passam a ser apenas isso, ou seja, brasileiros especiais por não terem, para além da sua opção por uma função de representação, o mesmo direito dos aqui de fora a uma vontade e a uma existência próprias totalmente privadas e indevassáveis para que possam, mesmo montados nos poderes do estado, estar permanentemente sujeitos à avaliação e ao encurtamento de mandatos e proventos como todos os demais  trabalhadores.

Democracia, enfim!

A partir daí, finalmente embarcados no 3º Milênio, tudo se tornará possível. Será a vez do Brasil candidatar-se a dono do mundo.

Tuitando para Carmen Lúcia

5 de abril de 2018 § 3 Comentários

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Brasil ou Batochio?

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Tuitando para Celso de Mello

4 de abril de 2018 § 6 Comentários

Tuitando para Marco Aurélio

4 de abril de 2018 § 2 Comentários

Ó o Marco Auréliu-ó, ó!

…do Supremo Tribunó Federó!!!

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