O 9 de Julho, de Getulio ao PT

24 de julho de 2014 § 4 Comentários

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Versão de artigo anterior publicada em O Estado de S. Paulo de 23/7/2014

São Paulo comemorou este mês o 82º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932 que muito pouca gente, neste Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi.

É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista que desaguou na República e se confunde com a história deste jornal é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde é que se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie? No Estado de Direito com a Lei igual para todos ou nas variações do caudilhismo populista onde fala quem pode e obedece quem tem juízo? Numa meritocracia em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença ou no sistema onde a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o Poder e para a afluência?

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O Movimento Abolicionista é o primeiro na História do Brasil a surgir nas ruas e não nos palácios e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana. Muitos dos seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas”, lá nos Estados Unidos, em que a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual vivia o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por dois mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém. Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização a mais direta possível dos representados sobre os representantes concentrando nos municípios todas as decisões e serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles, nos estados apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município e na União só os que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, e mais as relações internacionais.

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Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fossem divididas em três poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi atôa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar suas vidas a faze-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República; foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 32, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

Getulio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política” que levou os dois ao poder em 1930 e em 2002. Getulio adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada em 1932; Lula aliando-se a todos os “carcomidos” da política que se elegeu atacando para perenizar-se no poder.

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Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getulio, depois de devolver o governo do estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que ele teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura, um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8243 que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

Um dos primeiros atos da ditadura varguista foi queimar cerimonialmente as bandeiras dos estados da federação. O PT também trata de centralizar o poder mas por meio de uma sucessão de Medidas Provisórias e outros expedientes subreptícios que, passo a passo, vão tirando atribuições e fontes de arrecadação dos estados e municípios de modo a deixá-los totalmente dependentes da União.

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Getulio fechou o Congresso; o PT subornou o Congresso. Getulio instalou um Poder Judiciário teleguiado; o PT criou um Poder Judiciário colonizado. Getulio instituiu o regime em que “Para os amigos, (o Estado dava) tudo; para os inimigos, (o Estado aplicava) a lei”; o PT instituiu o sistema dos vazamentos seletivos para a imprensa dos “podres” dos seus adversários políticos, verdadeiros ou falsos, de par com as suítes especiais nos presídios para os poucos “amigos” condenados antes da desmontagem do Poder Judiciário. Getulio criou a industria de base e a distribuiu entre os “amigos” que financiavam o regime; o PT reverteu a economia democratizada que recebeu na política dos “campeões nacionais” donos de monopólios financiados com dinheiro público, hoje os maiores contribuintes de suas campanhas. Getulio seduziu o povão com a outorga de direitos sem a contrapartida de deveres; o PT seduziu o povão com os salários sem a contrapartida do trabalho. Getulio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo Estado; Lula e o PT são o produto direto deles.

São Paulo resistiu sozinho a Getulio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT.

A luta de 1932, portanto, ainda não acabou. E em outubro próximo haverá mais uma batalha decisiva.

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Mais do mesmo

23 de julho de 2014 § 5 Comentários

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Dunga de novo!!!

Só pode ser pra não ter perigo de melhorar!

Como lembrou o Roberto Pompeu de Toledo esta semana na Veja, depois de 100 anos morando no Brasil, o futebol voltou para a casa dele, que é a Europa. É na Alemanha que se joga, hoje, um futebol alegre e bonito.

No Brasil joga-se um estranho ‘futebol de resultados’ que tem a característica especial de não produzir resultados”.

É aquela irritante lei do menor esforço. Joga-se sem brio. Perde-se sem raça. Fica aquele negócio de, feito um golzinho, relaxa e fica trocando bola de lado no meio do campo pra ver se o trabalho acaba e começa a folga. É derrota atras de derrota mas, mesmo assim, a gente continua insistindo.

a7Porque? Porque nesse país ninguém paga pelos erros que comete.

Resultado: de novo com Roberto Pompeu, “como no resto da economia, o Brasil, no futebol, virou exportador de matéria prima. É o sonho de jogar no Barcelona, e não no Corinthians ou no Flamengo, que está hoje na cabeça da molecada”.

Pra converter chororô de marmanjo em comemoração, só tem um caminho: é preciso instalar uma outra ética de trabalho com mais empenho individual e doação para a equipe e menos paparazzi, cabeleireiros e vontade de aparecer a qualquer (patético) custo.

Isso entre os jogadores.

a6Entre os cartolas, tem de ter mais foco no que se pode conseguir com futebol do que no que $e pode con$eguir atrave$ do futebol. Tem de acabar com essa engrenagem de CBF, técnico, empresário e o escambau manipulando convocações pra se locupletar.

Mas tudo isso, do jeito que as coisas andam por aqui, só contratando um técnico estrangeiro, daqueles que fazem os mesmos jogadores que deram o vexame que deram aqui, jogar com raça ou, pelo menos, valer o dinheiro que ganham quando jogam nos times de lá.

É o que nós deveríamos ter feito.

Reelegendo o Dunga a gente só vai ter mais do mesmo.

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23 de julho de 2014 § 7 Comentários

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Enviado por Salvador Mazzetto

O Brasil em excelente companhia

22 de julho de 2014 § 12 Comentários

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Os 298 homens, mulheres e crianças mortos por um míssil russo disparado contra o Boeing 777-200 de passageiros da Malaysian Airlines na Ucrânia estavam arrumando as malas para embarcar no fatídico vôo MH17 quando a presidente Dilma Rousseff assinou, ao lado de Vladimir Putin, a declaração conjunta da 16a Reunião de Cupula dos BRICS, em Brasilia, afirmando que “Somos reconhecidos por nossa atuação autônoma no plano internacional em favor de um mundo mais justo, mais próspero e pacífico”.

Menos de quatro meses antes desta honesta declaração Vladimir Putin, sem mais aquela, tinha mandado os seus “black blocs” – tropas do exército nacional russo devidamente mascaradas e sem identificação mas conduzindo tanques e portando armamento pesado – invadir e tomar a Criméia, parte do território da Ucrânia, outro dos ex-anexados à “Cortina de Ferro” soviética que, para prevenir recidivas do vizinho “entrão“, preparava-se para aderir à União Européia.

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Desde então, nas palavras do secretário de Estado norte-americano John Kerry, ele “vem apoiando, abastecendo, encorajando, armando e treinando” os supostos “guerrilheiros separatistas” ucranianos que querem tomar mais um pedaço daquele país para anexá-lo à Russia que, 24 horas após a saída de Putin de Brasilia, derrubaram o avião malaio e seus 298 passageiros com um ou mais disparos de mísseis Buk fornecidos por Moscou.

Enquanto os corpos despedaçados das vítimas dos aliados de Putin despencavam dos céus da Ucrânia, dona Dilma recebia, como hóspede especial da Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência da República, ninguém menos que Raul Castro, da dinastia dos proprietários daquela ilha cheia dos “prisioneiros comuns” a quem Lula nega uma palavra de apoio humanitário que seja mesmo quando, minados pela tuberculose, estão morrendo em greves de fome.

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Castro chegou um dia depois da partida de Putin para participar da Reunião de Cupula Brasil-China e Líderes Latino-americanos e do Caribe do Itamaraty que pretende articular as relações econômicas dos próceres do “excesso de democracia” bolivarianos do continente com outro campeão mundial dos direitos humanos, o chinês Xi Jimping, interessado em “ampliar a presença comercial e política da China nas Américas Central e do Sul e no Caribe” que, no jargão desse pessoal, resume-se a Cuba.

Não cobro de Dilma que anteponha ideologia a interesses comerciais nem que confunda governantes com os povos que eles supostamente representam. Como representante de um país ela tem de se relacionar com todos, ou ao menos com todos os que estiverem dentro dos limites da decência humanitária.

Mas é precisamente isso que ela não faz. São estes que ela exclui por razões alheias, tanto às de Estado, quanto às de pragmatismo comercial.

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Não é por acaso que estiveram representados em Brasilia e privando da intimidade e das homenagens especiais da presidente do Brasil apenas e tão somente representantes das diversas etapas de desenvolvimento da “hiperdemocracia” que o PT declara todos os dias que pretende impor ao país.

O ex-chefe da polícia política soviética que, desde 1999 quando se tornou primeio-ministro pela primeira vez, vem governando a Russia diretamente ou por interpostos “postes” escalados para substituí-lo entre mandatos com métodos semelhantes aos da máfia, como de resto eram os adotados pela KGB, ostenta em seu currículo, multiplicado por milhões, todos os feitos de um delegado Fleury, o antigo chefe do Doi-Codi onde Dilma passou dias memoráveis.

Devidamente repaginado para os tempos do capitalismo de Estado selvagem e sem fronteiras, ele já se tem servido de diversos dos ingredientes que o PT inclui em seu programa oficial.

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Na sua Russia não existe imprensa nem muito menos televisão sem “controle”; blogueiros são obrigados a se registrar no Ministério das Comunicações com quer o tio Franklin; sites são fechados por publicar comentários como este que você está lendo; pessoas são presas por protestar contra o regime; as antigas ONGs estão restritas aos atuais “Gongos”, da sigla em inglês para “Government Organized Non Governmental Organization”, exatamente equivalentes aos “movimentos sociais” com os quais o PT quer dividir, com exclusividade, o governo do Brasil segundo reza o Decreto 8.243, ainda vigente; os “campeões nacionais” dos setores básicos e/ou estratégicos da economia são criados pelo governo e dependem dele para sobreviver, monopólios estes de cuja boa vontade, por sua vez, dependem todos os outros empreendedores e trabalhadores do país, seja para vender-lhes sua produção, seja para comprar-lhes insumos para os seus produtos, seja para dar-lhes o emprego sem os quais todos eles podem acabar condenados à morte econômica.

China's President Xi Jinping and Brazil's President Dilma Rousseff attend the official photo session for the meeting of China and CELAC at Itamaraty Palace in Brasilia

Quanto aos genocidas e psicopatas do mundo sentados em tronos, fardados ou não, de Bashar Al Assad, o envenenador, aos mais pitorescos trogloditas da África e da Ásia, ele, com as prerrogativas de um membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, dá o mesmo tratamento que o PT reserva a essa mesma grei: tapinhas nas costas e posição fechada contra qualquer boicote, represália ou ação militar que lhes tolha a sede de sangue de modo a que matem até o último dos seus “oposicionistas” ou anexem o último dos seus cobiçados “satélites”, tudo sempre em nome da democracia e da paz.

Para os demais reservam as leis que não acatam…

O Brasil poderá alegar tudo menos que não sabia com quem estava lidando, portanto, se voltar a eleger o PT em outubro, fato que certamente resultaria em que ninguém mais pudesse ser eleito por muitos e muitos anos nestas terras, exatamente como acontece nas de todos os convidados preferenciais da Granja do Torto e cercanias nestas ultimas trágicas semanas.

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Tudo é falso na “democracia” à brasileira

21 de julho de 2014 § 13 Comentários

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Deus está nos detalhes”.

A frase é do arquiteto Ludwig Mies van der Rohe (1896-1969). Mas a nenhuma outra ciência ela se aplica melhor que à da construção de instituições, mesmo porque fora deles, nesse campo, está o diabo em pessoa.

Nada é melhor exemplo dessa verdade que o Brasil, este país em que o maior obstáculo para a implantação de uma democracia é o fato de que a esmagadora maioria do seu povo pensa que já vive numa quando, na verdade, o que existe por aqui, nesse departamento, não é mais que vagos ecos de um vocabulário.

Veja-se este exemplo.

Continua, pela imprensa afora, o chororô pelo último “drible” aplicado na Lei da Ficha Limpa, desta vez pelo arquiflagrado empalmador de pacotes de dinheiro vivo, José Roberto Arruda que, um dia depois de ser condenado pela segunda vez num caso de corrupção anunciou, sem ser barrado pela polícia, que manterá sua candidatura ao governo do Distrito Federal do qual já foi apeado uma vez por corrupção.

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As leis de iniciativa popular, de que seria exemplo a que instituiu a obrigação de “ficha limpa” para candidatos a cargos majoritários, são parte do arsenal de armamentos de segunda geração adotados pelas democracias sem aspas para fechar as brechas deixadas pelo equipamento de primeira geração que quase puseram a perder a terceira tentativa da democracia de caminhar pela Terra, iniciada em 1776, depois dos malôgros das experiências grega, iniciada ha 2600 anos, e romana, encerrada quase mil anos depois.

Esse arsenal inclui as leis de iniciativa popular, os referendos e as ações de “recall”, todas elas armas para dar consequência concreta e inescapável ao preceito central das democracias segundo o qual o consentimento do povo é a única fonte de legitimação de toda lei, instituição ou ação política.

A ordem institucional brasileira onde tudo, quando muito, “parece”, mas nunca de fato “é”, e onde nem o equipamento básico de primeira geração como os preceitos da “igualdade perante a lei” e de “um voto por eleitor” jamais chegaram a ser implantados, adota parte desse vocabulário de segunda geração mas rigorosamente nada do que lhe dá sentido e consequência prática.

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A lei de iniciativa popular nasce, como o nome diz, fora das casas legislativas e, nas democracias sem aspas, uma vez apresentada ao público, o que pode ser feito por todo e qualquer eleitor, e colhido o numero de assinaturas estipulado para essa etapa do processo, vai a debate público em campanha (contra e a favor) financiada pelo Estado.

Feito isto, vai a votação em um adendo à cédula da eleição majoritária mais próxima pedindo um “sim” ou um “não” de cada eleitor para, se aprovada, ser imposta ao Poder Legislativo que não terá a prerrogativa de alterá-la se o Poder Judiciário chancelar a sua constitucionalidade. Uma regra elementar já que sendo o representado a fonte primária e exclusiva da legitimidade da lei, o representante não tem poder para se sobrepor à sua vontade expressa.

No Brasil dá-se o contrário. A lei chama-se “de iniciativa popular” mas a coleta do numero requerido de assinaturas fará, apenas, com que o Legislativo fique obrigado a apreciar uma lei semelhante (mas não necessariamente idêntica em seus propósitos e intenções originais) e levá-la a votação de seus deputados que poderão aprovar ou rejeitar essa “sugestão” de seus representados e, em caso de aprovação, regulamentá-la a seu bel prazer, inclusive até torcê-la para produzir o efeito contrário ao originalmente desejado pelo seu propositor.

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Em caso de excessivo incômodo para assumir tanta violência, poderão os legisladores cercar a “lei de iniciativa popular” de outras que tornem impossível aplicá-la, como é o caso desta da Ficha Limpa.

No caso de Arruda a lei não pôde ser aplicada simplesmente porque seus advogados jogaram com os prazos que o Judiciário gostosamente concede para que tudo possa virar nada, ao gosto do juiz, daquilo que entra no seu rito de processamento. Como a condenação de Arruda à inelegibilidade prescrita pela Lei da Ficha Limpa só foi “pronunciada” depois do registro de sua candidatura, embora tivesse começado a ser processada muito antes, ele está livre de incidir nela porque outra lei paralela assim determina que seja. Somada à elasticidade dos prazos, uma coisa elimina a outra, enquanto nossos códigos legislativos se vão tornando mais e mais obesos de leis e anti-leis.

Para que todo esse intrincado caminho de rato para manter tudo como sempre foi? Para dificultar a discussão e ajudar a confundir as coisas num país cheio de analfabetos funcionais que ainda vive sob censura da imprensa nos períodos pre-eleitorais, que é quando esses temas tendem a vir à baila.

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A figura do referendo, que não existe no Brasil, abre a outra via dessa mesma estrada nas democracias civilizadas dando aos eleitores a prerrogativa de, colhidas as devidas assinaturas, convocar um “sim” ou “não” para qualquer lei passada por seus representantes nos legislativos de que eles houverem por bem se livrar.

Ja o plebiscito, que também tem versão brasileira e tende a ser confundido com o referendo, tem em vista facilitar reformas mais amplas, para o bem ou para o mal, que obrigarão uma ou mais leis existentes a serem revogadas ou reformadas para se adequar a um novo preceito geral aprovado em plebiscito pelos eleitores. Dona Dilma e o PT vivem à procura de um momento qualquer de comoção nacional para tentar rifar de vez o sistema republicano que têm jurado de morte por esse meio, a exemplo do que aconteceu na Venezuela.

Mas mesmo antes deles o uso desse instrumento tem sido desvirtuado entre nós. O caso mais recente e emblemático foi o do Estatuto do Desarmamento. Proposto por uma coalisão de ONGs e legisladores, foi liminar e esmagadoramente recusado pelos eleitores. Mesmo assim, a posterior “regulamentação” das leis existentes e confirmadas nas urnas sobre o direito de posse e uso de armamentos por cidadãos legalmente qualificados para tanto foi tão radicalmente desvirtuada pelos perdedores do plebiscito que tornou impossível o exercício desse direito.

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O impedimento ou “recall” de mandatos concedidos, igualmente, são, no Brasil, iniciativas exclusivas dos poderes Legislativo e Judiciário. Nas democracias avançadas são a mais fulminante arma da cidadania. Nelas divide-se o eleitorado em distritos justamente para facilitar o processamento do “recall”, permitindo a cassação do representante de cada grupo de eleitores que não honrar o seu mandato a qualquer momento sem impor grandes mobilizações que atarpalhem o funcionamento do país e nem, muito menos, perguntar o que quer que seja aos poderes Legislativo e Judiciário. Os representados podem cassar a qualquer momento os mandatos condicionalmente dados aos representantes apenas por não estarem satisfeitos com o seu desempenho, definição que fica a seu critério e não precisa ser explicada a ninguém.

A democracia, enfim é o regime que estabelece uma clara relação de hierarquia e subordinação do governante ao governado, e arma a mão deste para dar consequência a mais fulminante possível a esse preceito.

O Brasil adota parte do vocabulário das democracias mas nenhum dos seus instrumentos práticos, excluídas as eleições para cargos executivos onde cada eleitor ainda vale um voto. Do Legislativo em diante tudo, inclusive a regra de maioria, é falsificado.

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Com o advento da Era PT, vamos indo daí para o sexo explícito sem maiores subterfúgios e em velocidade vertiginosa como mostra a sequência do Decreto 8.243 das vésperas da abertura da “Copa das Copas” que, a seguir vigendo como vai, acaba com a democracia representativa no Brasil e institui em seu lugar o Sistema Nacional de Participação Popular só dos escolhidos do partido, para o decreto que complementa o primeiro anunciado logo após o encerramento dela mediante o qual o governo, antes mesmo de fazê-lo aprovar no Congresso Nacional, cria o Fundo Financeiro de Participação Social com o qual quer nos obrigar a financiar a nossa própria exclusão do processo decisório nacional…

A nota positiva que se pode lembrar dentro desse quadro de desolação é que nos Estados Unidos, que começaram a instituir mecanismos de democracia direta com a participação de todos os eleitores (ao contrário dos do PT dos quais só participam quem ele escolhe) a partir do final do século 19 e início do século 20, a sequência foi, primeiro, ganhar a ferramenta das leis de iniciativa popular e, pelo uso dela, limpar a definição sobre quem manda em quem – representantes e representados – e redobrar a força e o alcance desse instrumento. Foi usando as leis de inciativa popular que se conquistou o direito ao referendo das leis de inciativa parlamentar e ao “recall” a qualquer momento dos representantes indignos do seu mandato.

Essa, aliás, é a única maneira pacífica conhecida de se fazer tais reformas já que nem nos Estados Unidos nem em lugar nenhum elas foram feitas por iniciativa espontânea dos que se beneficiavam da situação anterior.

Nós ainda dispomos, portanto, da ferramenta necessária para começar a abrir a picada que pode nos tirar desta selva em que andamos perdidos.

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LEIA MAIS SOBRE RECALL E DEMOCRACIA DIRETA NESTE LINK

Deliverance: a lenda e a realidade

20 de julho de 2014 § 5 Comentários

A história que circula pela rede diz o seguinte: 

O filme Deliverance (Amargo Pesadelo) estava sendo rodado no interior dos Estados Unidos. O diretor fez a locação de um posto de gasolina nos confins do mundo, onde aconteceria uma cena entre vários atores contracenando com o proprietário do posto onde ele também morava com sua mulher e filho (este era autista e nunca saía do terreno da casa).

Num dos cortes para refazer a cena do abastecimento, um dos atores que sendo músico sempre andava acompanhado do seu instrumento de cordas aproveitando o intervalo da gravação e já tendo percebido a presença de um garoto que dedilhava um banjo na varanda da casa aproximou-se e começou a repetir a sequência musical do garoto.

Como houve uma resposta “musical” por parte do garoto, o diretor captou a importância da cena e mandou filmar.

O que se seguiu é antológico.

Atentem para alguns detalhes:

- O garoto é verdadeiramente um autista;
- Ele não estava nos planos do filme;
- A alegria do pai curtindo o duelo dos banjos… Dançando
- A felicidade da mãe captada numa janela da casa;
- A reação autêntica de um autista quando o ator músico quer cumprimentá-lo. .

Repare na expressão dele.

O garoto brilha, cresce e exibe o sorriso preso nas dobras da sua deficiência, que a magia da música traz à superfície.

Depois, ele volta para dentro de si, deixando a sua parcela de beleza eternizada “por acaso” no filme “Amargo Pesadelo” (Ano: 1972).

… No filme a presença dos atores John Voigt e Burt Reynolds

Mas o leitor Edmilson Siqueira indica o site Crônica Autista onde se afirma o seguinte:

Amargo Pesadelo (Deliverance) é um filme de 1972 dirigido por John Boorman, baseado no romance de mesmo nome escrito por James Dickey. O escritor aparece no filme, no papel de um xerife.

A cena do Duelo de Banjos não é “real”. O jovem (na época, com 16 anos) Billy Redden foi escolhido na sua escola, Clayton Elementary School, devido a sua aparência, mas não é autista, nem tem qualquer outra deficiência. Ele não sabia tocar banjo e, assim, foi usado um truque de filmagem – um músico se posicionou atrás dele e tocou o banjo por dentro das mangas de sua camisa. Foi usada maquiagem para fazê-lo parecer mais “esquisito”. Além disso, a cena estava nos planos do filme, pois o personagem Lonnie, com deficiência intelectual, está presente no livro que inspirou o filme.

A wikipedia o apresente como um ator americano, mas Billy trabalha na lanchonete em que é um dos proprietários em sua cidade natal, Clayton, na Geórgia.

Jon Voight, que atuou no filme, o descreveu como tendo “um desequilíbrio genético” e sendo um “camarada muito falante”.

Somente em 2003 Redden reapareceu em um filme, Peixe Grande “Big Fish”, de Tim Burton. Em 2004, apareceu no programa Blue Collar TV.

Por favor, divulgue esta informação, para tentarmos minimizar o impacto negativo que tem a ideia de que todo autista é “superdotado”.

Invierno porteño

19 de julho de 2014 § 3 Comentários

Musica, Astor Piazzolla; violino Mari Samuelsen; celo, Håkon Samuelsen

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