No mato sem cachorro

19 de maio de 2015 § 10 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/5/2015

Executado inteiro o “ajuste” já não nos levaria longe. Consiste, como sempre, em aumentar tarifas e impostos, reduzir a renda privada e cortar investimentos para sustentar os gastos do estado no novo patamar a que chegaram. É mais um arranjo para evitar que se manifestem inteiras as consequências da nossa incapacidade de repactuar a distribuição de haveres e deveres entre o Brasil que paga os impostos e o que os arrecada para habilitar-nos a passar a disputar vitórias em vez de seguir postergando derrotas certas, sempre no limiar da sobrevivência.

O próprio “tripé” que rendeu nosso melhor momento em um século era um arranjo precário; uma espécie de “cortizona” tomada em doses diárias para permitir ao paciente conviver em relativo equilíbrio com a doença crônica que não se dispõe a enfrentar, e não uma cura.

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Nós nunca revogamos nada do que nos vem comendo pelos pés. O estado brasileiro só tem porta de entrada. A norma fundadora do sistema que aqui aportou com d. João VI é que cada ungido pelo toque de midas dos “de dentro” torne-se um deles para todo o sempre. É em torno da compra e venda dessa “salvação eterna” ainda em vida que se estrutura o anel de ferro que o sustenta.

Ao fim de 300 anos dessa ordenha, tudo que o Brasil dos miseráveis não tem é o que obscenamente sobra no Brasil oficial. Os direitos gerais só passarão a caber na conta quando os “direitos especiais” deixarem de pesar nela. O drama brasileiro — as crianças sem futuro, os doentes no chão dos “hospitais“, os 56 mil assassinados por ano, a corrupção epidêmica — tudo é mera consequência dessa premissa.

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Não ha brasileiro vivo que não saiba disso, mas até as verdades mais evidentes precisam ser repetidas todos os dias em voz alta para se impor.

Neste momento, a ancestral mentira brasileira estrebucha pela enésima vez no seu próprio paroxismo. A conta é proporcional ao tamanho da trapaça e nunca antes ela foi tão grande na história deste país. O desastre lulopetista, que está apenas começando, é daqueles capazes de levar espécies inteiras à extinção. Vai-se abrir uma dessas raras janelas de oportunidade que só o sofrimento extremo proporcionam, com o potencial de alterar a própria ecologia do sistema.

O século 20, quae sera tamen, está chegando ao fim também no Brasil. Ninguém que o represente representa, já, a platéia que vaga pelas ruas. E no entanto ainda é ele e a linguagem dele que dominam reacionariamente o palco.

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Não se reconhecem mais, esses dois brasis e é aí que moram a esperança … e o perigo!

A destruição do aparato nacional de educação é a obra mais bem acabada do partido que pavimentou o caminho do primeiro presidente-operário a chegar ao poder nas américas, apenas para provar mais uma vez que a humanidade é uma só, de cabo a rabo, só que com a força dos seus piores vícios multiplicada pela ausência dos matizes críticos com que a educação formal, bem ou mal, acaba por diluí-los. A “educação” que sobrou não é o antídoto, é o veneno. O que resultou dessa desconstrução é um discurso político reduzido a um maniqueísmo primário, da ante sala da conflagração, incessantemente derramado sobre um país sem repertório para definir um projeto nacional.

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Sendo característico dos sistemas de servidão que quem provoca as crises não as sofre, os ventos que neste momento arejam o Brasil não sopram em Brasília. Lá, onde a maré é eternamente montante, ninguém nunca é demitido e os salários nunca param de subir é à conquista do poder como ele sempre foi que tudo se refere. Os contendores posicionam-se exclusivamente uns em relação aos outros. O Brasil real não conta. “Se ele é contra eu sou a favor“, e vice-versa. A “primeira divisão” disputa poder político e dinheiro. A segunda só dinheiro e o poder que com ele se compra. Mas preservar o úbere onde todos mamam é o valor maior que, nas emergências, se alevanta.

O terceiro elemento, intocável no seu pedestal, divide-se entre a minoria heróica que resiste reduzida a um papel de polícia, tolerada pelos demais por falta de remédio melhor, e a linha de frente corporativa pela qual a maioria dos acomodados omissos deixa-se docemente constranger cuja função é sangrar repetidamente a nacionalidade e o Tesouro mediante a articulação do “auxílio” ou do “reajuste retroativo” de cada temporada.

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Fecha o quadro o “quarto poder” que — embora não dispute o mesmo queijo dos demais — vive hipnotizado pela mixórdia que eles protagonizam. Não olha para fora, não apresenta as alternativas do presente, não pesquisa as que redimiram outros povos no passado. Limita-se a reproduzir a cena doméstica segundo a linguagem e a pauta dos outros tres — quem “ganhou“?; quem “foi derrotado” no último crime de lesa pátria? — o que mantem o limite do possível no imaginário nacional exatamente onde o Brasil oficial quer que ele permaneça.

O país não avança porque não sabe onde é necessário chegar. Para sabê-lo com certeza, era preciso ir ao fundo das coisas, e ao fundo das coisas só se chega com a crítica“, é a citação do mexicano Daniel Cosio Villegas que Carlos Guilherme Mota e Adriana Lopez usam como mote do último capítulo da sua História do Brasil que um qualificado leitor define como “um extraordinário estudo sobre a resiliência do continuísmo“, a marca renitente da nossa trajetória histórica ao longo da qual, “todas as raras oportunidades de rompimento com o passado que aparecem acabam por ser reprimidas“.

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A repressão da próxima, cujos protagonistas já se apresentaram com seus “generais” e “exércitos“, passa pela anulação, ainda que “em vida“, dos dois poderes cuja credibilidade o terceiro vem trabalhando abertamente para corromper.

Falta quem, pelo outro lado, levante uma bandeira digna de ser seguida para limpar o sistema “por dentro“, porque se ha uma coisa que o Brasil aprendeu de 1964 a 85 e nossos vizinhos comprovam todos os dias é que, se vamos mal com eles, pior iremos sem eles.

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A falta que a caça faz

18 de maio de 2015 § 12 Comentários

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Subi para cá correspondência trocada com Luiz Barros nos comentários de artigo anterior em função da importância do tema:

Fernão,

Estou aqui lembrando de uns tios queridos de minha infância, e nisto vejo o Renato, de Taubaté. Ele era exímio caçador.

Acho que foi a falta de amantes da caça e da pesca que dificultou a preservação da fauna e flora, porque os esportistas, como ele era, faziam mais bem para a preservação, com amor verdadeiro aos bichos, do que os vigiólogos de gabinete.

(…) só conheço um pouco de pesca, nada de caça. Você poderia por gentileza me dizer se a descrição que faço de um homem e seus perdigueiros é correta?

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Renato chegava ao sítio bem cedinho (…) com seus dois ou três perdigueiros (…) Vestia aquelas galochas que vinham até o peito e se prendiam por suspensórios ao ombro, qual macacão fossem: para entrar no brejo, se os cães para lá o levassem.

Cão e caçador sincronizavam instinto e ação e, enquanto um levantava a caça o outro fazia mira, acompanhando o voo rápido ascendente ou rasante, em linha reta ou ziguezagueante…

Resposta:

Não ha, felizmente, falta de caçadores e pescadores esportivos no mundo, Luiz, e digo felizmente porque é como v diz: o que sobrou no planeta de natureza conservada sobrou por causa deles.

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Aqui os caçadores (os esportivos, digo, porque quem vive no mato continua como sempre foi) estão quase extintos porque o Brasil é exceção no mundo, aí incluidos ate paises como Cuba, e persegue-os furiosamente desde 1983, ultimo ano em que a caça foi aberta legalmente por aqui (com exceção do Rio Grande do Sul).

Os caçadores são essenciais pelo fato elementar de que fazem perdiz, por exemplo, valer muito mais que soja, o que torna um excelente negócio, nos países onde eles continuam livres para prestar esse serviço às gerações futuras, comprar areas de cerrado (ou savana como chamam la fora) para mantê-las íntegras o bastante para continuar produzindo o que produziram naturalmente nos ultimos bilhões de anos até que, como dizia Nelson Rodrigues, os idiotas descobrissem que são maioria e passassem a nos oprimir: isto é, perdiz.

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Nos EUA a economia da caça e pesca esportivas gira em torno de US$ 400 bi/ano (isso mesmo! ⅓ ou ¼ do PIB brasileiro. Procure o site dos censos americanos; uma edição sim, outra não, faz-se esse censo nacional, detalhadíssimo, por lá). Eles são o pais com mais área selvagem conservada do planeta, ai incluidos os africanos. Todos os seus bichos nativos têm hoje rebanhos maiores que os que se calculava que existiam no Descobrimento, graças ao que rende esse negócio.

Ainda na semana passada vi, também o balanço anual de caça da França: 1 milhão e 200 mil peças foram abatidas em 2014 (considerados só mamíferos como javalis, cervos e caprinos dos Alpes, na caça de alta montanha) gerando bilhões de euros que são investidos na compra e conservação da quantidade de florestas íntegras que é preciso manter para garantir colheitas de quantidades como essa sem abalar o equilíbrio (as cotas são estabelecidas a partir de censos anuais de caça feitos pelos cientistas e pesquisadores de campo). São milhares de empregos, entre guiagem e hotelaria, aí incluídos os de cientistas e gestores de fauna que tratam de aprender com a natureza em vez de cagar regras sobre ela como gostamos de fazer aqui.

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Também nesse tema vamos, como em tudo o mais, pelo avesso do mundo, portanto.

Aqui o cerrado, produtor das perdizes, é o bioma mais ameaçado de todos. Na verdade está praticamente extinto, condição que acredito que já seja irreversível, dada a fragmentação do pouco que sobra, o que terá implicações dramáticas para o armazenamento de água no subsolo do Brasil dos nossos filhos e netos.

O cerrado, minha primeira grande paixão de natureza, é uma floresta de cabeça pra baixo, com uma trama de raízes que penetram a grande profundidade no solo com um volume de matéria vegetal muito maior que o que ela mostra acima do solo, o que proporciona a formação dos aquíferos como o Guarani, um oceano subterrâneo de água doce que cobre mais de um terço do nosso território e gera as nascentes de mais de metade dos nossos rios. Essa trama de raízes do cerrado é que mantém o solo poroso e nas temperaturas necessárias à continuação do processo que resulta nos aquíferos.

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Hoje está tudo compactado e cada vez mais impermeável logo abaixo da superfície totalmente tomada por gramíneas africanas e leguminosas asiáticas, e isso porque nossos “ecologistas” de bermuda colorida e chinelo de dedo acham que esta é uma questão “ética” a ser tratada por critérios emocionais e decretaram “imoral” a prática diuturna de todos os demais seres vivos, animais e vegetais, a mesma que alimentou seus ancestrais até que dominassem o planeta a ponto da cretinice deixar de ser punida com a morte, como continua sendo na natureza, e dar o resultado que tem dado.

Sorte do Blairo Maggi!

Nos tempos em que este país ainda pensava com a cabeça havia caça regulamentada, sim, e quando abria a temporada via-se gente feliz carregando suas espingardas pelo país afora pelas ruas, nas estações e nos trens que chegavam até o Mato Grosso (a unica via para la então), e o mais que continua acontecendo em todos os países civilizados do mundo, sem que ninguém se assustasse com isso.

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Mas como aqui a Globo mancheta todo dia que “as armas de fogo mataram não sei quantos este ano”, o que me remete sempre à curiosa ideia de revólveres com pernas andando por ai e atirando em gente por conta própria, possuir uma arma de caça, ainda que não possam ser confundidas nem com os revólveres e pistolas do crime desorganizado, nem com os fuzis do organizado, é visto como um crime mais grave, mais comentado, mais noticiado e mais perseguido que os dos autores dos 56 mil assassinatos por ano com que convivemos numa boa. É prático e fácil porque quem tem arma registrada tem endereço certo e sabido, sendo portanto muito mais fácil e seguro de infernizar do que quem não tem e dá tiros na cara de quem lhe enche o saco ou até por menos que isso.

Na Globo o cara por traz da arma não conta, o crime não é crime, que supõe culpados, é “violencia” que significa outra coisa, sem dono, do que resulta que os criminosos passam a ser “infratores” que não devem ser tirados das ruas onde andam os nossos filhos porque a prisão não consegue “recupera-los”. Foda-se quem vier a ser morto por isso…

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Enfim, nós somos brilhantes, Luiz, sabemos mais e melhor que o mundo e por isso colhemos os resultados que colhemos. É justo que seja assim!

Já o seu personagem, conheci inúmeros como ele de quem morro de saudades. Também eu tive tios caçadores a cujas expedições aderi a partir da segunda metade dos anos 60. Era o tempo em que o sertão começava ali por Araçatuba, a Mata Atlântica ainda estava agarrada ao mar no litoral entre Rio e SP, quase virgem, e ia assim até a foz do Rio Doce, um dos nossos paraísos destruídos. Só recuava para Oeste da metade da Bahia para cima. O sertão da Bahia emendava com o do Rio das Mortes e daí, Amazônia acima, ia intacto até o Caribe. Conheci esse Brasil selvagem e seguro e cordial como nunca foi o “civilizado” de ponta a ponta e isso foi crucial na minha formação.

Ser caçador não é uma escolha, é uma condição de quem tem a felicidade de nascer sujeito a ela. Instala-se no imaginário do portador antes da capacidade de raciocinar. É anterior e mais forte que ele.

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A sua descrição remete a um caçador de batuíras, aves do brejo, vôo rápido e errático como o de uma borboleta à jato, tiro muito difícil, cozinha excelente, bom desafio pros perdigueiros. Vê-los caçar; recuperar o instinto ancestral como numa transfiguração instantânea assim que pisam um campo com caça, oferece ao observador a primeira experiência mais íntima com as forças do atavismo. Eram muito comuns — eles e as batuíras — no iterior de SP no tempo em que ainda havia a natureza em pé que nossos ecologistas fizeram questão de entregar para a agricultura, unica maneira legal de fazer terra render dinheiro neste país infeliz. O interior de SP era famoso pelas areas de banhados — brejos de cabeceiras dos seus muitos riozinhos onde pelo mês de outubro ocorriam as eclosões de vagalumes aos milhões que, ao anoitecer, pareciam trazer o céu ao chão. Hoje estão quase todas devidamente drenadas para que a agricultura e a “civilização” se instalassem até sobre o ultimo centímetro disponível, onde as batuíras e batuirões, também ditas narcejas ou corta-vento lá no Rio Grande do Sul (“bécasse” e “bécassine” nos restaurantes do mundo) eram rainhas.

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Agradeça aos nossos herois da natureza a extinção de tudo isso. Eles acreditam piamente, e assim ensinam às nossas crianças, que os alimentos vêm dos fundos dos supermercados, devidamente embalados em plástico e sem sangue, e que o verdadeiro amor à natureza, sem o incomodo dos insetos, do calor e dos demais componentes dos “programas de índio” (aqueles que ainda fazem parte do currículo escolar do resto do mundo, como acampar no mato e entender o que de fato acontece lá dentro), deve ser vivido em manifestações no vão do Masp, com cartazes “criativos” e fantasias de caveira contra a caça e etc..

Historicamente falando ha duas correntes de ambientalismo no mundo. A que nasce nos EUA (o Boone & Crocket Club, frequentado pelo presidente Theodore Roosevelt,  foi a origem de tudo) e na Inglaterra, onde chegou a haver uma filial dele, pela mobilização de caçadores e pescadores, seguidos de pesquisadores e cientistas que, como v diz, amam e entendem como funciona a natureza real (não a que está na cabeça dos nossos urbanóides) e deu origem à linha do WWF (World Wildlife Fund), que usa a caça e a pesca esportivas como ferramentas de conservação, e a corrente ideológica e urbanóide que surgiu de militantes franceses (como os que vieram para a USP, hélas!) que resistiam à explosão de uma bomba atomica em Mururoa no pesqueiro Rainbow Warrior e deu origem ao Greenpeace, anti-caça e bom de discurso, de marketing e de midia. WWF era “dono” das florestas, Greenpeace dos mares, até que este veio se meter na Amazônia com a minha ajuda (sem muitas ilusões, vim a ser diretor do Greenpeace do Brasil, cargo de que me demiti “atirando” em pouco mais de um ano, história que ainda conto aqui num outro dia).

É esse o ar que assume a nossa crassa ignorância sobre tudo nesse campo particular, Luiz…

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Momentos brasileiros

15 de maio de 2015 § 31 Comentários

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Divórcios de biografias

13 de maio de 2015 § 15 Comentários

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Parece que o advogado Fachin convenceu o “juri” da sua “inocência” por 20 a 7.

O segredo de todo advogado é fazer-se o apóstolo mais convicto do mundo de qualquer causa que o contratem para defender. Ontem no Senado, Luis Edson defendeu a sua própria das “acusações” que, com sua biografia, fez-se a si mesmo, dizendo-se o contrário do que se dissera, fora e fizera questão de ser desde sempre até então, biografia esta em função da qual foi escolhido para o STF por Dilma Rousseff, do PT, aquela que, a partir do dia seguinte da eleição, passou a dizer e fazer o exato avesso do que dissera, fora e fizera desde sempre e até então.

São casos paralelos de divórcio da própria biografia…

Fica no ar a momentosa questão de saber quem mais está sendo enganado nessa história, além dos eleitores da “presidenta“. Se o Senado estiver certo e Fachin não for o que sempre fez questão de afirmar que era, é Dilma quem estava errada ao indicá-lo para o cargo em função da biografia renegada. Caso contrário, os trouxas somos os de sempre.

Com bola é moleza…

13 de maio de 2015 § 2 Comentários

A imprensa e a pauta nacional

11 de maio de 2015 § 83 Comentários

ceg5Artigo para O Estado de S. Paulo de 4 de maio de 2015

De quanto tempo será o castigo? Quanto teremos de viver sem respirar? Quantos vão morrer?

Ha controvérsias. Aquele câmbio de “fazer pobre viajar de avião” que o Lula vive exibindo como prova do seu amor pela humanidade destruiu a indústria nacional. Junto com a desmontagem dos três eixos de produção de energia – a elétrica, a de biomassa de cana e a de petróleo – pelo tamponamento de tarifas para “tirar 50 milhões de brasileiros da miséria” com uma caneta até à véspera da eleição compõe hoje o epicentro do tsunami que empurra para cima, aos trancos e barrancos, todo o sistema nacional de preços relativos. A produção, o trabalho, a vida, enfim, terá de se reacomodar por ensaio e erro apenas para deter a queda.

Mas essa é a parte fácil. Em tempos de mercados globalizados acertar entre o ministro Levy e os vendedores de “governabilidade” em quem será enfiado cada pedacinho da conta doméstica é o de menos. Difícil será desprogramar a subversão conceitual que explica a nossa inesgotável tolerância ao abuso e mantém fora do horizonte qualquer possibilidade de “ajuste internacional“, o único capaz de matar a miséria.

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Os buracos hoje fecham-se ou alargam-se em função do acerto entre cada comunidade de produtores e seus governos nacionais. O que decide é a carga que uns põem nas costas dos outros. Todo mundo sabe disso mas, se nós ainda guardamos alguma lucides como indivíduos, não sobrou nenhum resquício dela enquanto sociedade. O Brasil perdeu a capacidade de discernir a fronteira básica entre a religião e a ciência e a grande pedreira vai ser recolocar a relação de causa e efeito, fundamento da ciência moderna, na posição de centralidade que ela deve ter no nosso sistema de intelecção da realidade.

Brasília nem sequer sabe que existe uma crise. É lá o tal “país sem miséria” onde, em pleno desastre nacional, a verba dos partidos triplica, os meritíssimos se outorgam “auxílios” de fazer corar os cínicos, os indemissíveis “educadores” dos filhos do Brasil, enquanto morrem em massa os empregos cá fora, não deixam por menos de retumbantes 75% a sua “exigência” de “reajuste salarial”.

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E a dívida dessa Petrobras estuprada, “a maior de todo o mundo corporativo em todos os tempos”, quantas gerações de brasileiros que ainda nem nasceram viverão e morrerão pagando essa conta? Nem por isso a Petrobras deixa de continuar tida e afirmada como “um orgulho nacional”, sob um silêncio quase unanime de anuência. Nem as vísceras à mostra remetem àquela clássica — àquela histórica, translúcida e necessária — relação de causa e efeito entre a condição de empresa estatal num país pré-democrático e o aparelhamento do seu staff e dos seus recursos por um projeto de poder bandido, ainda que moremos todos no país onde nem uma única solitária pessoa duvida que, para onde quer que se olhe, “não se coloca um paralelepípedo no chão sem pagar propina”.

O máximo que se ousa timidamente pedir são menos ministérios. Das outras 37 fundações, 128 autarquias e 140 empresas estatais somente no âmbito federal, ninguém fala. Da existência delas só fica sabendo, aliás, quem olha com lente o que “vaza” pelos interstícios dos “verdadeiros problemas nacionais” que a imprensa se permite enxergar. Adicionados estados e municípios ninguém sabe a quantas andamos, estado x nação. A Petrobras sozinha tem 446 mil funcionários, algum jornal deixou escapar enquanto falava de coisa “mais importante“. Meio milhão, fora aposentados e encostados! É provável que esteja para o resto das petroleiras do mundo, somadas, como as nossas escolas de direito estão para as do resto do mundo somadas. Nós “ganhamos”; temos mais!

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Só de “sindicatos” de propriedade una e indivisível de “líderes” sem liderados sustentados pelo imposto sindical, a linha de frente dos “movimentos sociais” que se querem substituir ao sufrágio universal, parece que já temos 28 mil, segundo menção não provocada e acidentalmente publicada de fonte abalizada. “Justiças”? Temos cinco, completas, um plural que elimina, “em termos”, a possibilidade de se fazer a única que de fato “é” que é aquela que se define pelo estrito singular. Apenas uma delas sangra nossos produtores em 50 bilhões de reais por ano — quase o ajuste inteiro que se está buscando — só em “processos trabalhistas”, indústria à qual se dedica com exclusividade metade daquela multidão de “advogados” que nossas incontáveis fábricas de rábulas “põem” todo ano. É a sementeira do que nos tornamos; a lunpencorrupção: “minta, traia, falsifique que o governo garante”.

Quem tem a menor sombra de duvida que um país assim não pode dar certo? Que este é o ambiente onde a corrupção e o crime estão como querem? Que não teremos condição de competir com ninguém e quebraremos a cara tantas vezes quantas tentarmos antes de curarmos essas feridas?

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E no entanto, para quebrar o encanto, basta insistir obsessivamente numa conta simples: quanto estrago, quanta miséria, quanta violência evitável torna-se obrigatória para o Brasil onde vale tudo para que o Brasil intocável possa continuar intocado? O que, a cada passo, estamos trocando pelo quê?

Nossas escolas ensinam que tocar nesse assunto é heresia sujeita a auto-de-fé. E nossas mentes jesuítico-aplainadas, tudo indica, estão prontas para absorver a lição. Tanto que o máximo que nossos políticos de oposição sugerem, nas suas mais ousadas expansões “libertárias”, é que enfrentemos tudo isso com revólveres sem balas. “Voto distrital, vá lá; mas sem recall”! E a imprensa, disciplinadamente, ha anos que não faz esse tipo de conta ainda que o mínimo que exige a decência de quem se quer o alarme das iniquidades do mundo é que não falasse de outra coisa. Como, porém, ela só se permite chamar de política aquilo que os políticos chamarem de política e de reforma o que eles, de livre e espontânea vontade, nos propuserem como reforma, o Brasil que trabalha, com o mundo dos estados “ultralight” fungando-lhe no cangote, terá de seguir vivendo à espera de um milagre para começar a discutir qualquer coisa que possa concorrer para salvar-lhe a vida.

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“Quando a América Latina era o futuro”

10 de maio de 2015 § 13 Comentários

la4O MASP de Lina Bo

O Museu de Arte Moderna de Nova York – Moma – acaba de inaugurar a exposição “América Latina em Construção: Arquitetura 1955-1980”, com curadoria de Barry Bergdoll, que o NYTimes saúda como “o tipo de exposição em que o Moma é mestre”, que são aquelas em que “foge-se de uma visão eurocêntrica do mundo e joga-se luz num período e numa produção quase totalmente negligenciada fora de onde aconteceu”.

la1Complexo residencial desenhado por Rogelio Salmona  em Bogota (1964-70)

A exposição aborda uma época, não tão distante, em que arquitetos e governos sonhavam grande e agiam juntos para mudar o mundo para melhor (…) fossem os governos revolucionários de esquerda ou as juntas militares de direita, todos estavam tomados por essa poética do desenvolvimentismo (…) em que os arquitetos acreditavam que os desafios sociais tinham de ser traduzidos pelo design, que as sociedades humanas mereciam novas formas de beleza e que o desenvolvimento progressista adicionava fé à arte, à natureza e à disposição das pessoas comuns de resistir e seguir adiante”.

la2Escola Nacional de Artes de Havana de Vitório Garatti, Ricardo Porro e R. Gottardi

De Cuba ao Chile, do México à Argentina, as cidades do continente estavam explodindo e o que foi construído em lugares como Havana, Cidade do México, Lima, Buenos Aires, São Paulo e outras inclui-se no que de mais inspirado a arquitetura da era moderna jamais produziu”.

Bergdoll confessa-se especialmente “fascinado” pela arquitetura de Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima,  dito Lelé, “que deveria ser melhor estudado“. Ele cita o Masp, a Casa de Vidro, o Sesc Pompéia e “um hospital” de “Lelé“, e aponta a dupla paulista como “duas provas vivas de que os arquitetos latino-americanos não se resumiam a emular os traços de Mies van der Rohe e Le Corbusier acrescentados de alguma luz tropical e de curvas cariocas”.

Era o tempo em que a América Latina era o futuro”, expressão que Bergdoll chegou a considerar para título da exposição.

la5Igreja em Atlantida, Uruguai, por Eladio Dieste, 1958
Matéria sugerida por Katia Zero. Texto original neste link.
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