Eis o mistério da fé

20 de setembro de 2014 § 13 Comentários

Vídeo sugerido por Gustavo dos Reis Filho

Getúlio “modernizou o Brasil”?

19 de setembro de 2014 § 21 Comentários

IMG_5662O petróleo é “deles”
Artigo publicado em O Estado de S. Paulo de 19/9/2014

Com a chegada às livrarias do terceiro e ultimo volume do “Getúlio” de Lira Neto, que começa com Gregório Fortunato comandando mais uma das seções de “degolas sistemáticas”, ao estilo Estado Islâmico, das sucessivas guerras da fronteira gaucha e termina com o tiro no peito a que o encurralou esse mesmo filho da antiga cozinheira da família Vargas feito chefe da guarda pessoal do presidente ao levar o tradicional método de solução de problemas com desafetos de São Borja para a então capital federal no atentado contra Carlos Lacerda, já não ha como sustentar enganos sobre o que foi Getúlio Vargas e os 24 anos que o Brasil viveu sob a mais longeva, violenta e corrupta das ditaduras de sua história.

Mesmo assim, Getúlio segue, nas discussões de muita gente séria, sendo apresentado como “o homem que modernizou o Brasil”.

Não quero negar a Getúlio os traços de personalidade que o pudessem ter feito simpático e mesmo fascinante para aqueles que ele nunca teve motivos para temer ou de quem nunca tenha querido se livrar, mesmo não comungando a admiração que parece ter a maioria dos jornalistas brasileiros pela “matreirice” e o “embaçamento” sistemáticos diante de qualquer situação que exigisse uma tomada de posição clara, esse modo enviesado de cultivar a mentira tida como a sua maior qualidade “política”.

imageDegolas nos pampas

Mas a pergunta é: “modernizou” quem, cara pálida?

O homem que esteve no poder de 1930 ate 1954 presidiu o Brasil no periodo em que o mundo inteiro passou por um processo intensivo de industrialização e urbanização. O que se quer insinuar, portanto, é que o Brasil não se teria industrializado se Getulio nao estivesse ali? Teria continuado para sempre agrário e quase medieval? Não se teria apercebido do que estava acontecendo à sua volta? Não conseguiria caminhar pelo novo padrão de desenvolvimento que se impunha ao mundo sem ele?

Esta, parece-me, é mais uma manifestação da balda dos que foram treinados desde sempre na visão distorcida de nossos primeiros historiadores pseudomarxistas que criaram a falácia de um Brasil sem empreendedores, só com demiurgos a moldar-lhe as decisões e o destino, que Jorge Caldeira, no seu brilhante e amplamente fundamentado estudo “Um Brasil com empreendedores” (aqui) provou com documentação abundante e demonstrações aritméticas conclusivas que nunca existiu, nem antes, nem muito menos depois da onda de imigração européia.

Petrobras? Volta Redonda?

imageFilinto, o torturador incensado

Que “modernização” foi essa, considerado tudo o mais com que nos foram servidas as nossas duas primeiras estatais, tumores que se têm provado até hoje inextirpáveis?

O que é que ele mirava quando instala no país o sindicalismo e o capitalismo “pelegos”, copiados da Itália de Mussolini: o Brasil para os brasileiros do futuro ou apenas a maneira mais segura de se manter indefinidamente no poder?

A verdade é o inverso: Getulio condenou-nos ao atraso. Entortou irremediavelmente o Brasil no momento do nascimento da modernidade. Violentou a criança. Moldou-a para o crime.

Plantou uma forma sistêmica de corrupção da base da sociedade brasileira oferecendo-lhe, com a dobradinha do sindicalismo pelêgo com uma “justiça do trabalho” irreversivelmente torta, pautada por imperativos “classistas” – na verdade tão aritméticamente eleitoreiros quanto as “bolsas” de Lula – em lugar dos imperativos da verdade e da Justiça, um apelo irresistivel para a venalidade: “traia, minta, falseie que o governo garante”.

imageO íntimo guarda-costas

Como resistir, no país em que o que foi contratado e acertado entre dois homens, por escrito ou no “fio do bigode”, é letra que já nasce morta, quando o colega do lado, ao ceder à sedução de um advogado corrupto, aciona o patrão com base numa coleção de mentiras e arranca-lhe, sem medo de errar, mais do que ganhou trabalhando anos a fio?

Lula tem razão: somos todos corruptos no Brasil que Getúlio nos legou. Daí a corrupção “não colar” como fator decisivo de eleições. É contra a lei ser honesto no Brasil. Não se consegue transitar por suas instituições sem se corromper.

Contratar trabalho no que Getúlio fez do Brasil é condenar-se à chantagem certa. Têm custado a cada ano, somente as condenações passadas a cada 365 dias, R$ 50 bi às empresas brasileiras os litígios com seus empregados e ex-empregados. Mas o passivo acumulado, somente nesse quesito, é maior que o PIB nacional. Bem mais que a metade dos advogados do Brasil, os supostos agentes da Justiça, aliás, dedica-se a operar diuturnamente essa ordenha certa; a levar cada brasileiro pela mão pela trilha que Getúlio abriu e dividir com ele o produto do assalto.

imageO tiro pela culatra

Na ponta de cima não é diferente. Lá, no território do “sucesso“, onde a presença do dinheiro grosso já tem o efeito corrosivo natural que tem em toda a parte, nos aproximamos do que é o resto do mundo, em matéria de corrupção, só que com os agravantes da impunidade ampla, geral e irrestrita. Nossos corruptos seguem podendo exibir livremente o seu sucesso, o que é altamente subversivo.

Mas também aí Getulio inovou ao sinalizar que o grande capitalismo, aqui, é só o de compadrio. Não é apenas depois do sucesso, com o dinheiro que dele advem, que a corrupção pesada se instala. É antes. Da outorga das industrias de base aos amigos do regime da “Era Vargas” aos “campeões do BNDES” de hoje ha um caminho reto que torna facilmente possível – descartadas as raras exceções que confirmam a regra – traçar a genealogia de cada grande fortuna privada do país até a raiz do governante que proporcionou a algum amigo/financiador de campanhas a oportunidade de amealha-la sem fazer muita força.

Ate ha pouco tempo, em economias nacionais “fecháveis” e “protegíveis”, deu pra ir indo assim, apesar da miséria que isso custa. Mas dará para seguirmos refestelados nas nossas mentiras na economia globalizada, competindo com o mundo?

É hora de encarar a verdade: Getúlio não modernizou o Brasil. Ele o mantém preso ao passado como uma gigantesca e irremovível âncora. E não haverá hipótese de nos livrarmos dela antes que reconheçamos a sua existência.

imageO último tiro
Leia mais sobre o “Getúlio“, de Lira Neto, e o papel da família Mesquita e do jornal O Estado de S. Paulo nos acontecimentos que ele descreve neste link

12 de setembro de 2014 § 99 Comentários

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A mentira no estado da arte

12 de setembro de 2014 § 4 Comentários

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Que Marina Silva é um produto perecível que se deteriora tanto mais quanto mais aparece na TV era algo que me parecia claro desde sempre. Em matéria de falta de sex appeal ela é pareo duro para a Dilma Rousseff real, com a diferenca que os competentes marqueteiros do PT sabem disso desde sempre e os de Marina parece que ainda não tiveram tempo de percebê-lo.

A Dilma real despencou naquela safra fortuita de entrevistas ao vivo e debates na TV; a Marina virtual subiu como um foguete em função daqueles 15 dias em que aparecia da telinha sem dizer nada – apenas um avatar – que se seguiram à morte de Eduardo Campos.

Subiu porque tornou-se visivel.

Desde então a coisa inverteu-se. A Marina real começou a falar com sua propria voz e expor suas próprias idéias e quanto mais fala mais cai. Já a Dilma real calou-se; saiu de cena a sua desarticulação crônica de idéias. Foi substituida pela Dilma virtual, esse boneco de ventríloquo dos marqueteiros do PT bem editado, photoshopeado e produzido, e quanto mais eles mentem em seu nome, mais ela sobe.

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A grande “qualidade” dos marqueteiros do PT, aliás, é a sua convicção absoluta de que a realidade não conta para nada para a massa dos desinformados eleitores deste brazilsão “du bôça familha”; o que vale é o “acabamento”, o “padrão Globo de qualidade” que se venha a dar a toda e qualquer mentira que se lhes atire.

Conta a favor deles a disciplina imposta pelo “centralismo democrático” do partido, onde as vaidades pessoais cedem lugar ao valor maior que se alevanta que é continuar montado no cavalo do poder e manter os empregos e a impunidade garantidas. Assim, em vez de chocar os eleitores com aquelas pílulas de quatro ou cinco segundos para cada candidato a soldado da aliança pelo poder nas futuras casas legislativas (enquanto eles as mantiverem abertas), põem uma única mocinha bonitinha, sempre a mesma, profissional, vendendo o que o partido não é num texto perfeitamente articulado, sem caretas, nem hesitações nem olhos desviados para o teleprompter, enquanto os candidatos e seus numeros e nomes vão aparecendo mudos por tras da cena, cruzando os braços, um por um, como naquelas apresentações das seleções da Copa do Mundo.

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O que resulta é um discurso totalmente coerente e articulado de “propostas”, “realizações” ou ataques aos adversários com começo, meio e fim – não importando a mínima o pormenor delas terem ou não sido de fato realizadas ou acontecido – em vez da colcha de retalhos sem nexo em que se perdem os seus adversários, com aquelas figuras em geral teratológicas que aparecem dizendo frases grotescas ou ininteligíveis.

Confusão e desarticulação x coerência e articulação, embora na vida real – na economia, na ordem institucional e na roubalheira, as obras reais do PT – o que se constata é precisamente o contrário: está tudo caindo aos pedaços.

Pouco importa. Como Dora Kramer nota bem no Estado de hoje, o PT desistiu de convencer e assumiu francamente a missão de enganar, com a Dilma ventríloqua dizendo “com fé” e em frases suerpreendentemente cheias de nexo, não só que Marina Silva é a candidata dos banqueiros já que vai dar autonomia ao Banco Central (!!!???), como explicando didaticamente como, quando e porque seu governo deu combate sem trégua à corrupção, e tanto e com tanto empenho que acabou passando a falsa impressão de que a corrupção aumentou…

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Aécio, espremido nos seus poucos minutos de presença na telinha, navega em trajetória do erro semelhante. Brilhou quando teve a chance de se mostrar como é, nas entrevistas e debates; virou uma nota de 3 reais incapaz de passar autenticidade nas peças produzidas em estúdio quando recita o discurso paupérrimo do seu marqueteiro que, aliás, tem embolsado o dinheiro mais mal gasto de toda a história das campanhas do PSDB. Ele não é só um zero à esquerda. Ele acrescenta pontos e mais pontos negativos à imagem do candidato cada vez que se manifesta.

Se pusessem Aécio numa sala discutindo em seus próprios termos os problemas do Brasil e gravassem de longe o seu modo de se expressar sobre eles, não economizavam apenas o pagamento das horas de estúdio que estão desperdiçando hoje; podiam editar as conversas e, assim, mostrar o candidato real que, posto ao lado das duas senhoras reais que disputam com ele, brilha na escuridão.

Nesse incrível circo de realidade fantástica – eis o que é pior – não entra nas considerações de ninguém o único tema importante desta eleição onde se joga a permanência ou não do Brasil no campo democrático. Como nenhuma das “fontes” trata desse pormenor num contexto em que a imprensa se auto-lobotomizou e proibe-se de dizer qualquer coisa que elas não tenham dito, tudo leva a crer, a julgar pela pesquisa de hoje (39% x 31% x 15%), que o país cruzará para o “outro lado” sem ter a mais leve suspeita de que é isso que está fazendo.

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Raízes históricas da última mentira “islâmica”

10 de setembro de 2014 § 61 Comentários

aa4“Projeto para cinco anos”

Como inglês que é, e profundo conhecedor da história e da realidade presente dos povos árabes (ele foi, por muitos anos, agente do MI6, o serviço secreto inglês, destacado para aquela parte do mundo), Alastair Crooke, com dezenas de artigos disponíveis na internet, reune condições excepcionais para explicar as raízes históricas e o contexto presente do grupo terrorista conhecido como Estado Islâmico que, a partir da guerra civil na Síria, destacou-se da Al Qaeda e, depois de ocupar territórios estratégicos naquele país e no Iraque ricos em petróleo, estruturou-se financeiramente o suficiente para se constituir numa ameaça real de dominar a cena num mundo árabe desestruturado por uma sequência de convulsões.

Os terroristas do Estado islâmico abraçam a corrente do wahabismo, a mesma que, lá no início do século 18, serviu de alavanca para que o clã dos Ibn Saud que até hoje reina inconteste sobre a Arábia Saudita, começando como uma das muitas tribos beduínas que vagavam pelo deserto escaldante e miserável do Nejd guerreando-se umas às outras para roubarem-se mutumente as poucas posses, iniciasse a sua trajetória de conquista de poderes muito mais amplos.

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Abd al-Wahab viveu no século 17 quando o Império Otomano, de um lado, e o Egito, do outro, dominavam o Oriente Médio. Ele apontava essas nobrezas dominantes, que incorporavam alguns habitos ocidentais como “falsos muçulmanos” e criticava igualmente as tribos beduinas que “adoravam santos, enterravam e visitavam seus mortos e viviam mergulhados em superstições” de influência católica.

Pregava que todos voltassem aos costumes “do tempo em que o Profeta viveu em Medina” que teria sido a época de ouro do islamismo, e convocou a “guerra santa” contra todas as novidades poluentes tais como o xiismo, o sufismo e as demais variações do islamismo ou qualquer coisa que pudesse ser ligada à filosofia grega, todas elas “proibidas por deus”, em razão do que, “qualquer homem que manifestasse a menor dúvida ou hesitação sobre a correta interpretação do Islã deveria ser implacavelmente morto, ter suas posses confiscadas e suas filhas e mulheres violentadas”.

Para que não pairassem dúvidas sobre essa entrega total à única verdade, ele exigia que todos “os verdadeiros muçulmanos se entregassem à obediência cega a um único líder, o Califa”.

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Abd al-Wahab acabou sendo expulso de sua cidade em 1741 e encontrou asilo e proteção na tribo de Ibn Saud, que percebera claramente que todo aquele radicalismo seria o instrumento ideal para que ele submetesse as demais tribos e passasse a reinar absoluto.

Ibn Saud continuou agindo como sempre agira, invadindo e saqueando seus vizinhos, só que agora podia faze-lo “em nome de deus”, o que justificava também o martírio em prol da jihad. Já não lhe bastava pegar o que pudesse e voltar para casa. Agora suas forças permaneciam no território inimigo onde a opção era a conversão para o wahabismo (e a obediência cega ao seu “califa“) ou a morte. De massacre em massacre, onde mulheres e criancas não eram poupados e a tortura e as execuções públicas se transformaram em instrumentos metódicos de submissão pelo terror, por volta de 1790 Ibn Saud já dominava quase toda a Península Arábica e atacava violenta e repetidamente a Síria e o Iraque.

Nada, enfim, que nossos ancestrais católicos não muito distantes (ou os que resistissem a eles)  não tenham passado também.

É exatamente essa mesma receita que o grupo Estado Islâmico tem aplicado nos últimos anos.

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Em 1815 as forças dos Saud foram esmagadas pelos egípcios e em 1818 os otomanos capturaram a capital do wahabismo, Dariya.

Só a partir dos anos 20 do século passado os Saud, reeditando a sua “guerra santa” contra a laicização e as modernizações promovidas por Kemal Ataturk e, mais tarde, por Gamal Abdel Nasser, conseguiram reconquistar o poder. Adb–al Aziz, o protagonista da época, temendo o radicalismo de suas próprias tropas depois de uma sucessão de revoltas, fuzila todos os seus líderes.

O petróleo começava a transformar-se naquilo que se transformou em nossos dias, os Estados Unidos e a Inglaterra cortejavam os Saud e o rigor wahabista, irrigado por uma torrente crescente de petrodólares, logo se converteu numa versão institucionalizada de estado nacional e num instrumento de garantia do poder absoluto do clã que chega até os nossos dias.

Com a riqueza do petroleo, a missão dos sauditas passa a ser “reduzir a multidão das vozes dentro da religião islâmica para um único credo”, projeto no qual investiram bilhões de dólares num esquema de conquista que passa a incorporar também elementos gramscianos (pela educação e pela cultura) em vez de recorrer exclusivamente às armas e ao terror como antes (embora sem abrir mão deles).

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O resto, incluindo a crescente dependência do Ocidente da ordem saudita como barreira para a expansão soviética no Oriente Médio, é história.

Ironicamente são os próprios sauditas que plantam a primeira semente do revival wahabista incorporado pelo grupo do Estado Islâmico, no arrasto da Primavera Árabe. O primeiro impulso se dá com a violentíssima repressão da tentativa de derrubar o governo sunita de Bahrein, sob a alegação dos imperativos do wahabismo, liderada pelos sauditas que manejavam a contra-revolução da Primavera Árabe laicizante iniciada com a derrubada dos governos da Tunísia e do Egito.

O segundo foi o mandato conjunto atribuido pelos sauditas e pelas potências ocidentais para que um dos príncipes sauditas tratasse de controlar a insurreição contra Bashar al-Assad na Síria. Mas como controlar um movimento onde o mote, como lá atras, é a doutrina do “Um único líder, uma única autoridade, uma única mesquita: submeta-se ou morra”?

A história está de volta para pânico dos sauditas que sabem melhor que ninguém com o que é que estão lidando, e agora pedem socorro ao Ocidente para deter a ameaça que eles próprios ajudaram a criar.

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Começando como um grupo destacado da Al Qaeda, logo considerada moderada demais para os novos wahabistas, financiado pelos sauditas, essa facção dos insurgentes sírios foi conquistando armas e territórios até se apossar de áreas ricas em petróleo e ganhar autonomia para comprar seu próprio armamento, incorporar quadros dos governos desbaratados de Sadam Hussein e outros derrubados ao longo da “Primavera“, montar a sua própria máquina de propaganda, moderna e anconrada na rede mundial, e se organizar quase como um governo nacional com grupos destacados para cada tarefa do que pretende ser o futuro “califado islâmico“: energia, propaganda, impostos de guerra, sequestros, operações financeiras, controle religioso, relações internacionais e assim por diante.

Para o momento cuidam de exterminar os competidores mais próximos e intimidar os sobreviventes até o ponto da obediência cega usando os métodos brutais consagrados pelos séculos.

Não vai ser fácil detê-los. Só com bombardeios aéreos será impossível. Os próprios árabes ainda estabelecidos no poder terão de fazer-lhes frente porque eles não pretendem deter-se nas fronteiras do Iraque e da Síria.

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Toda a “roubada” em que se estavam metendo os sauditas foi prevista por Alastair Crooke desde, pelo menos, 2011. Mas muito antes disso ele já vem alertando os governos ocidentais sobre a visão distorcida que eles guardam do conflito com o islamismo que, segundo ele, “tem raízes muito mais profundas do que os alinhamentos políticos das potências ocidentais com Israel ou com os grupos e países em choque no Oriente Médio”.

Na verdade o que é irreconciliável, para Crooke, são as “questões filosóficas” de fundo que, não sendo consideradas como deveriam ser, levam os líderes ocidentais que tentam se posicionar no Oriente Médio segundo uma lógica de alianças e alinhamentos políticos aos sucessivos erros de avaliação a respeito do que acontece naquela região.

O ódio do Islã radical ao Ocidente traduz a recusa em aceitar o entendimento da essência humana nascido com a democracia inglesa, baseado na incolumidade do indivíduo e dos seus direitos, e no respeito à sua liberdade sustentada por um sistema de justiça racionalista, versus o approach essencialmente “espiritual” e comunitário da vida (os dois elementos que fornecem a “justificativa” para toda e qualquer barbaridade contra quem ousa resistir) que está na base do “pensamento islâmico radical” que, em última instância, é invocado para sustentar todos os poderes estabelecidos por lá.

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Esse fosso é certamente mais profundo entre o Ocidente e o Islã, mas é ele que separa também, com profundidades variáveis, o pequeno grupo das democracias originadas no movimento protestante inglês de quase todos os outros povos da Terra.

Toda corrente filosófica que se apoia no coletivo resvala para a violência e, ou namora, ou mergulha no totalitarismo que foi, basicamente, a condição sob a qual viveu toda a humanidade até o surgimento da democracia inglêsa, aí incluída toda a comunidade européia de que nós, brasileiros, somos extensão, que passou os mil anos que antecederam a revolução protestante sob um estado religioso (o papado) ou sob o absolutismo monárquico, primos mais velhos dos regimes totalitários “coletivistas” mais recentes.

Muitos, como nós, continuamos vivendo sob versões mitigadas daquele regime, submetidos, por baixo de um verniz “democrático” que não garante, nem a igualdade perante a lei, nem a meritocracia que a definem, sob os caprichos de um quase rei e seus quase barões que desfrutam “direitos” e privilégios outorgados sustentados por quase súditos.

Não é a moral cristã que liberta. Ela sempre conviveu bem com o totalitarismo e com os regimes amparados na eliminação física da dissidência, de que é um exemplo sinistramente clássico a Inquisição.

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O monoteísmo está na raiz dessa doenca crônica da humanidade pois onde só ha uma verdade a intolerância é o coroláio obrigatório, especialmente se essa verdade tiver sido transmitida diretamente “por deus”.

Só a sacralização do indivíduo na sequência da institucionalização da tolerância; a sua incolumidade e o valor absoluto de cada vida humana, conduz ao império dos direitos do homem. Contra a “felicidade coletiva” e contra as variadas formas “únicas” de “salvação”, o indivíduo não é nada e pode e deve ser massacrado.

O grupo Estado Islâmico é essa “crença” pretensamente num estado puro, como a Inquisição já pretendeu ser em relação ao catolicismo. Mas é apenas mais uma mentira como foi em todas as suas edições e reedições anteriores pois que tem, como sempre, de ser instilada pelo terror porque a inteligência humana naturalmente a rejeita.

Não é “crença” nem é o verdadeiro Islã, portanto. É só a ferramenta covarde de intimidação de sempre, a serviço de um projeto de poder, também como sempre. Só que com as condições de hoje, ela pode fazer muito mais estrago do que antes conseguia infligir só até onde alcançava a ponta da espada.

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Terrorismo em rede

9 de setembro de 2014 § 15 Comentários

a6 tumblr dutchman“Jihadista” holandês “posta-se” no Tumblr

Passei o fim-de-semana fuçando a internet para entender melhor esse fenômeno do Estado Islâmico, o grupo que nasceu dentro da Al Qaeda e acabou por devorá-la, e esse estranho fascínio que ele exerce sobre jovens do mundo inteiro que estão indo para a Síria para, ao lado dele, impor pelo terror um “Grande Califado Islâmico como o que havia no século 7”, com pretensões a substituir tudo que existe hoje em matéria de estados nacionais no Oriente Médio.

Não bastassem as degolas, cruxifixões e fuzilamentos em massa de que o Youtube está cheio, entendi que quando um grupo terrorista assusta o próprio mundo árabe é melhor a gente prestar atenção no que vem vindo por aí.

Neste artigo fico no exame da participação de ocidentais nessa orgia de violência.

Depois de ler uma boa dezena de reportagens e entrevistas em profundidade com jovens cooptados pelo EI – do meio brasileiro, meio belga Brian de Mulder, vulgo Abu Qassem Brazili, de mãe carioca, a casos envolvendo rapazes e moças portugueses, ingleses, franceses, belgas, suecos, norte-americanos, dinamarqueses (este o país que, proporcionalmente à sua população, mais mandou jovens para lutar na Síria) e até chineses – minha conclusão é de que a grande novidade nessa parte do fenômeno é apenas e tão somente o advento da rede mundial.

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Brian de Mulder e a mãe no Rio e feito Abu Qassam Brazili

O Estado islâmico é, também, como tudo o mais hoje em dia, um produto da internet. Psicopatas, nihilistas e desesperados sempre existiram em todas as sociedades, só que agora eles podem articular-se em redes do tamanho do mundo como todos os outros mortais, formar grupos de mutua realimentação de gostos e delírios, conversar uns com os outros e compartilhar “likes” e experiências, execuções sangrentas inclusive, literalmente ao vivo.

Graças à rede mundial e seus mecanismos de busca, também esse tipo de doente – e porque discriminá-los de todos os outros que podem satisfazer suas taras com o recurso a eles? – pode saber hoje, em detalhe e com instantaneidade, que o que de melhor o mercado global oferece para quem tem esse tipo de sede é a jihad islâmica com a liberdade ampla, geral e irrestrita para chafurdar no sangue que ela oferece a todos quantos queiram aderir à festa.

Como não ha, nas democracias ocidentais, leis que impeçam um cidadão de aderir ao que quer que seja e de dar os passos subsequentes para dar substância a essa relação, tudo que é necessário fazer é juntar dinheiro e comprar uma passagem para a Síria, via Turquia, para aproveitar essa oportunidade única.

a0000xA “noiva” portuguesa

Essa foi a primeira vertente de “enganche” de “jihadistas” ocidentais, a maioria dos quais nada têm a ver com a cultura ou com a fé islâmicas, são majoritariamente pós-adolescentes recém “convertidos” que não requerem muita argumentação para embarcar nessa parada. Já estão predispostos a ela.

A última onda tem sido de mulheres. Na fé islâmica, como se sabe, elas não estão autorizadas a ter ideias ou iniciativas próprias, nem que for para morrer pelo Islã. Mas o problema foi resolvido com sites especialmente desenhados para arrumar “esposas” para os jihadistas ocidentais já residentes na Síria. Faz-se o casamento via internet e, então sim, elas também podem ir para a Siria, desde que devidamente vestidas com o niqab, aquela roupa preta que só deixa os olhos de fora.

Para essa “tranche” de europeus explorados pela geração de seus próprios pais, sem emprego nem perspectiva, a jihad parece ser um substituto da heroína, uma forma de suicídio lento que assola o Velho Continente ha décadas como um virus ebola renitente, ou do suicídio rápido que, cada vez mais, eles buscam por formas “criativas” que vão dos esportes ultra-radicais às aventuras temerárias que hoje estão na moda.

a000xPara postar…

A adesão à jihad pela implantação de um “califado” modelo século 7 aproxima-se dessa categoria. É uma espécie de videogame real com a vantagem adicional de oferecer-lhes, pronto para consumo imediato, aquilo que mais lhes falta: um sentido para a vida, ou melhor, para a morte.

O ódio é, em geral, filho da injustiça ou da impotência para mudar a própria condição, nem que seja pelo merecimento. Na Europa do welfare state, essa mesma impotência pode, porém, assumir a forma de um tédio profundo já que, dentro do atual quadro de estagnação, que é função da exploração de uma geração pela geração anterior que não abre mão de seus “direitos adquiridos”, mesmo numa relativa abundância, se não se vai chegar jamais ao ápice, nunca, também, cai-se no buraco absoluto que cria e alimenta ódios porque o Estado está lá para amparar os tropeçados.

É esse previsível e insuperável “Nada” que mata. E é aí que a internet entra para oferecer aos solitários, aos sem esperança, nem fé, nem vontade; aos depressivos reduzidos à solidão gregária do computador, uma alternativa para a droga pesada ou para outras formas mais rápidas de suicídio.

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Esta é a geração que copia e cola a sua própria identidade via Google”, diz Muhammad Hee, um intermediador muçulmano contratado pela prefeitura de Copenhaguen para operar um programa anti-radicalizão em bairros de imigrantes. “E está ficando ‘cool’ ser visto como um ativista”.

Para os verdadeiros jihadistas árabes vem a calhar.

Segundo especialistas, o grupo Estado Islâmico pode ter entre 7 e 10 mil combatentes. E até o momento ha entre 1500 e 2000 europeus e ocidentais em geral que aderiram a eles.

Mustafa Haid, fundador e diretor da Dawlaty, uma ONG de ativismo contra a violência na Síria, afirma que não são os sírios que estão transformando esses jihadistas ocidentais em radicais. “Eles já eram assim. É o contrário, esses caras estão na Síria cometendo atrocidades contra sírios. Um sujeito que se dispõe a abandonar tudo e ir lutar em outro país já tinha atingido um ponto de ultra radicalismo. As missões suicidas são uma estratégia essencial para avanços rápidos do EI e esses ativistas estrangeiros são preciosos para eles porque são frequentemente mais ardentes que os combatentes locais em seu desejo de morrer pela causa. Os estrangeiros chegam aqui inspirados. São os que mais desejam morrer”.

a00000Curtir

O diagnóstico combina com o que é feito por estudiosos dinamarqueses, um dos países mais ricos e organizados da Europa. Em novembro passado, o primeiro dinamarques, Victor Kristensen, loiro e de olhos azuis, detonou seu cinturão de explosivos numa missão suicida no Iraque. Desde então mais tres dinamarqueses, estes com raizes arabes e paquistanesas mas nascidos e criados na Dinamarca, morreram em missões suicidas.

Estou ansioso para me tornar um mártir também” confessava um quinto, com nome de guerra de Abu Tarek, baseado em Raqqa, na Síria, a uma jornalista de seu país. Tres dias antes dessa entrevista, a mesma jornalista tinha encontrado Mouin Abu Dahr, outro homem-bomba que tinha vivido na Suécia e na Dinamarca e que, aos 21 anos, se explodiu em frente à embaixada iraniana em Beirute matando 23 pessoas. “Era uma pessoa doce e gentil, muito querida em Aalborg, onde viveu. Ele tinha ficado noivo poucos meses antes de sua missão suicida”.

Ha pouca novidade em tudo isso, enfim, para além das facilidades que a rede mundial acrescenta para potencializar velhas doenças crônicas da nossa espécie.

O lado complicado dessa história está na convivência da democracia com essa nova realidade em que, de ilhas protegidas por fronteiras físicas elas se transformaram em pequenos segmentos de ordem numericamente quase insignificantes contíguos ao e permeáveis pelo grande caos global.

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A preocupação dos países que estão exportando “jihadistas” é que alguns deles podem voltar a seus países de origem – e estão mais ou menos livres para fazer isso dentro de estados de direito – e trazer para dentro deles, enormemente multiplicada, essa sua ânsia de mergulhar no “Nada” arrastando multidões atrás de si.

Ocupando porções crescentes de território sírio e iraquiano, os serviços de inteligência ocidentais têm informações de que o EI se apoderou de universidades e cientistas que desenvolveram esse tipo de artefato, além de, possivelmente, depósitos de armas químicas do ditador Bashar Al Assad.

Assim, embora o alvo desse grupo seja essencialmente os próprios muçulmanos de outras denominações que estão no caminho do seu projeto de poder – porque é sempre disso que se trata como se verá no próximo artigo – o crescente e inevitável envolvimento ocidental na guerra para prevenir a dissolução completa de qualquer resquício de ordem na sensibilíssima região do Oriente Médio pode acabar resultando em ataques terroristas com o potencial de fazer do 9/11 coisa pouca.

Se parar o bicho come; se correr o bicho pega.

Quem viver verá.

U.S. President Obama addresses during a press conference at Belveder Palace in Warsaw

Adiada a morte do capitalismo

5 de setembro de 2014 § 12 Comentários

GoPro Inc's founder and CEO Woodman celebrates GoPro Inc's IPO at the Nasdaq Market Site in New York City

Os arautos da morte iminente do capitalismo e do triunfo final do bolivarianismo (só restam versões em português e espanhol daquilo que, um dia, o mundo chamou de “socialismo“) terão de esperar mais um bom tempo.

Somente neste 2014 em que o Brasil, com seus 30 e tantos partidos “socialistas“, hesita entre entrar ou não para o clube dos seus vizinhos mais atrasados abrindo mão até da democracia ou permanecer no “socialismo” meio-democrático de sempre, 188 novas companhias levantaram 40 bilhões de dolares em IPO’s (ofertas iniciais de ações) na Bolsa de Valores de Nova York e outras 100 esperam na fila. Os analistas americanos calculam em um mínimo de 80 bilhões os lançamentos de novas empresas até o fim deste ano.

Nenhuma dessas companhias, naturalmente, é propriedade de amigos do presidente Obama nem precisou de dinheiro de bancos oficiais, coisa que não existe por lá.

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O setor que mais lança ações é, como sempre, o de tecnologia e esse numero deverá explodir com o esperado lançamento de ações do site chinês Alibaba, um concorrente da Amazon que espera colocar 20 bilhões de dolares em ações.

Os setores de biotecnologia e saude estão em segundo e terceiro lugares, atras do de tecnologia, o que mostra quanto rende um bom sistema de educação, seguidos pelos de finanças e energia.

O numero é um recorde desde a crise de 2007.

Ontem, ainda, foi publicado o numero de empregos criados nos Estados Unidos em agosto: 204.000. É o quinto mes seguido com mais de 200 mil empregos criados, excluídos os empregos no setor do agronegócio.

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PS.: Onde é mesmo que está havendo “uma das piores crises por que o mundo já passou“, aquela que a Dilma, com seu “coração forte” está “driblando com farta criação de empregos“? Ninguém sabe, ninguém viu, a começar, é claro, pelos competentes marqueteiros de Aécio Neves e Marina Silva.

 

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