Haverá sempre moicanos
22 de maio de 2013 § 25 Comentários
Nada na vida do “dr. Ruy” foi fácil.
Até aí, nada de mais. Nada na vida de ninguém é fácil.
A diferença estava no modo como ele lidava com essa circunstância.
Seja porque tenha tido de se haver com a dor física mais cedo do que esse aprendizado se impõe à maioria dos mortais, seja porque já nasceu navegando longe da costa, exposto aos ventos e às tempestades do mar sem fim da História sem nunca ter posto os pés em terra muito firme, o fato é que jamais se manifestaram nele nem o medo da instabilidade nem a ânsia das vitórias pequenas que atormentam os que acreditam ter sempre algo de muito importante a perder.
O “eu” nunca foi sua referência.
“Dr. Ruy” foi abençoado com aquilo que a ninguém é dado escolher. Não enxergava o que era (moralmente) pequeno. Não olhava para a vida de dentro de si mesmo; olhava para si mesmo de dentro do vasto todo que é a vida e com a serenidade de quem tem a consciência exata da proporção relativa das coisas.
Seu território era o dos grandes coletivos: “O Mundo”, “A Humanidade”, “O Brasil”.
Dava aos outros mais do que tinha para si. O altruísmo – rebelião anti-determinista contra a lei da selva, construção artificial da inteligência, renuncia à força física, pressuposto da civilização e da ética – nele era natural, quase inconsciente.
O lado mais próximo é que lhe era estranho.
Quando instado a fazer por si, então sim perdia a naturalidade, mostrava-se troncho, desajeitado e, sobretudo, aborrecido por ver-se arrastado a obrigação tão desinteressante.
Tinha o gosto pelas lutas que não se pode vencer mas não era assim que se via. Cantava a canção do infinito lá na sua capoeira porque não conhecia outra.
Pouco lhe interessava se fosse num bote ou num navio, o importante era estar no mar enfrentando as ondas, cheirando o vento, imaginando o que é que nadava lá embaixo. Navegando. Levando a bandeira adiante.
Só se voltava para dentro de si transportado.
O gesto de gallantry real ou imaginado, um verso, um personagem, a estrofe de um samba. Os abandonos românticos da boemia, sua segunda natureza. Eram essas as frestas para dentro que se permitia entreabrir … para seduzir, para comover, para encantar.
Enterrava na força as suas fraquezas sem premeditação nem heroísmo; naturalmente, porque foi nessa ordem que a vida lhe ensinou as coisas: primeiro a enfrentar a dor, depois a organizar o pensamento.
Amou seus pais. Amou sua mulher. Amou seus filhos e seus netos.
Amou o Brasil e amou sua profissão.
Foi amado por todos eles. Não perdeu a ternura jamais.
Agora, na partida, volto-me para o poente para reeditar Chingachcook:
Oh Grande Espírito! Oh Grande Criador da Vida!
Um guerreiro está indo para os seus braços rápido e direto como uma flecha atirada em direção ao sol.
Ele é Ruy, meu pai, meu amigo.
Dê-lhe as boas vindas e conduza-o até o lugar que lhe está reservado no conselho dos grandes homens.
Tranquiliza-o!
Sem ele torna-se muito mais árida a solidão desta travessia. Mas nós seguimos demandando o mar. A bandeira será sempre levada adiante, qualquer que seja o barco.
Pela criminalização da pauperofobia!
17 de maio de 2013 § 1 Comentário
Entre 2001 e 2011 a renda dos 10% mais ricos cresceu 16,6% mas a dos 10% mais pobres subiu 91,2%.
O PT não se cansa de festejar que há 19 milhões de brasileiros com carteira assinada e 35 milhões de novos classes medias.
E no entanto a criminalidade explode, seja em numeros brutos, seja em proporção à população e também no grau de barbárie empregado pelos criminosos.
Quanto menos pobres, mais crimes e crimes mais bárbaros.
O Norte e o Nordeste, as regiões que mais enriqueceram no período e onde o numero de armas detido pela população mais foi reduzido pela campanha de desarmamento, foi aonde mais aumentou a criminalidade. Mais que o dobro que no resto do país.
Mesmo assim a esquerda festiva continua afirmando que o crime é função da pobreza ou então da quantidade de armas em circulação no país.
O país “que mais reduziu a pobreza”, como não se cansa de dizer a “presidenta“, e que tem uma das menores proporções de armas em circulação por habitante do mundo, tem somente 3% da população mas 9% dos homicídios do planeta.
É uma carnificina!

Mas como dona Dilma já nos ensinou que danem-se os fatos, coisa com que concorda totalmente a Rede Globo no que diz respeito à posse de armas, não ha esperanças de que uma ou a outra comecem a procurar remédio para essa hecatombe onde ele possa ser encontrado.
Assim, vamos tentar por outro lado.
Primeiro, registro que é um tapa na cara de 99,9% dos brasileiros pobres que, mesmo sendo as vítimas preferenciais do crime, insistem em trabalhar e mandar seus filhos para a escola em vez de incentivá-los a aderir ao tráfico de drogas e ao crime organizado, dizer que todo proprietário de uma arma assim como todo pobre (que dirá um pobre dono de uma arma!) está a um passo de se tornar um criminoso.
Segundo, registro que é um chute na disposição de ambos de obedecer à lei prender quem tem uma arma e não a usa para o crime e soltar quem assalta e mata a mão armada depois de dar-lhe uma mesada maior que o salário mínimo (possivelmente para “cura-lo” da pobreza que “o torna” criminoso).
Isto posto, indago: já que a moda, tanto no governo quanto na Rede Globo, é criminalizar tudo quanto é “fobia”, não seria o caso pelo menos de por no primeiro lugar da fila esse preconceito repugnante que essa gente tem contra pobre?
Pois está lançada a campanha.
Pela criminalização da pauperofobia!
Já!
A Odisséia de Cartier
15 de maio de 2013 § Deixe um comentário
Filme sugerido por Marcio Beozzo Junqueira
Este filme excepcional, que já esteve no acervo do Vespeiro, merece esta reprise.
Como lembra o Marcio, Santos Dumont foi amigo íntimo de Cartier e, além do avião, inventou o relógio de pulso. Até então só existiam os de bolso, presos a correntes, mas ele precisava de uma forma mais prática de controlar o tempo durante os vôos em que tinha de manter as duas mãos ocupadas.
Por ser amigo de Cartier, que executou seu projeto, ele cedeu-lhe a comercialização do invento. O “Santos” continua sendo uma das peças mais vendidas pela joalheria até hoje.
Vale a pena ver de novo.
Medindo o custo de uma tapeação eleitoreira
14 de maio de 2013 § 3 Comentários
Inundar de carros para a “nova classe média” muito além do que é fisicamente assimilável por um país que ha 10 anos não investe um tostão em infraestrutura foi o grande expediente usado pelo PT para faturar a última eleição.
Mas a “inclusão” do país inteiro no engarrafamento, agora de proporção literalmente nacional, não é a única consequência disso.
Uma ampla e assustadoramente minuciosa matéria produzida pela Associated Press e publicada em vários jornais do mundo mostra que os carros fabricados no Brasil são nada menos que “mortíferos”.
Veja alguns highlights da matéria e repare como tudo isso se assemelha à nossa “democracia denorex”, aquela que parece mas não é:
- 9059 brasileiros morreram em acidentes automobilísticos no ano passado, quatro vezes mais, por acidente, que nos EUA.
- Ausência de reforços na estrutura, uso de aço de pior qualidade, menos pontos de solda feitos com solda mais fraca (para economizar energia que pesa 20% no custo do carro), montagem em plataformas obsoletas construídas décadas antes dos últimos desenvolvimentos de segurança: “Por fora os carros brasileiros são iguais aos do resto do mundo, mas por dentro faltam um monte de peças e outros detalhes de fabricação. O que interessa, porém, é aquilo que parece. O que está lá dentro ninguém vê“.
- As fábricas conseguem um lucro médio de 10% por carro no Brasil comparado com 3% nos EUA e uma média global de 5%.
- Em relação à década anterior o índice de mortes por acidente caiu 40% nos EUA e subiu 72% no Brasil.
- Os carros populares brasileiros “são incrivelmente perigosos“.
- Somente a partir do ano que vem a instalação de air bags frontais e sistemas de freios que não travam, obrigatórios ha décadas na maior parte do mundo, passarão a ser uma exigência legal para todos os carros fabricados no Brasil
- A autoridade reguladora brasileira não tem equipamentos para teste de colisão próprios de modo que aceita o que lhes dizem os fabricantes sobre os níveis de resistência dos carros.

- Quatro ou cinco pontos é o mínimo admissível para consumidores europeus e americanos. Os testes feitos pelo Latin New Car Assessment Program (LNCAP) nos carros mais vendidos no Brasil deram resultados chocantes
- O Gol, da VW, o carro mais vendido do pais em toda a última década, atinge 3 pontos num total de 5 possíveis em segurança nos modelos com air-bag frontal e 1 ponto nos modelos sem air-bag.
- O Fiat Uno, segundo modelo mais vendido no Brasil, com 1 ponto, foi definido como “estruturalmente instável” e foi o penúltimo colocado em 28 modelos testados.
- Mesmo dispondo de air bags e freios que não travam o chinês JAC J3 vendido no Brasil só obteve 1 ponto.

- O Ford Ka vendido na Europa obteve 4 pontos. A versão latino-americana só alcançou 1 ponto.
- O Nissan March produzido no México e vendido no Brasil obteve 2 pontos enquanto a versão europeia obteve 4. No teste de impacto frontal marcou 7,62 pontos enquanto a versão europeia conseguiu 12,7.
- O Renault Sandero brasileiro teve 1 ponto no teste de segurança. Na versão europeia marcou 3.
- O Celta, da GM, quinto carro mais vendido do país, só teve 1 ponto. A porta descolou da carroceria e o teto entortou em “V” para baixo no teste de colisão

A matéria oferece, portanto, uma excelente oportunidade para se compreender, na prática, qual o resultado da substituição de políticas econômicas pró-mercado – que são regras válidas para todos tendentes a melhorar o ambiente econômico nacional para a produção com qualidade e competitividade – por políticas pró-negócios que são aquelas que favorecem seletivamente amigos do governo com poder de lobby e condições de financiar campanhas políticas com empréstimos subsidiados de bancos públicos, isenções de impostos e proteção contra competidores de fora, o que lhes permite vender merda por preço de ouro coisa que, no caso dos automóveis, é feita às custas da segurança e da vida do público “agraciado” com essas iscas de voto.
Imagine os adesistas!
10 de maio de 2013 § 7 Comentários
Ja deve fazer bem uns 10 anos eu estava hospedado em casa de uma amiga em Mar Grande e, depois de alguma resistência, tomamos um barco de aluguel e, superadas as peripécias imagináveis para atravessar uma cidade conflagrada, fomos parar num desses camarotes patrocinados do carnaval de Salvador.
Era um ambiente enorme, cheio de praças diferentes que se distribuiam em desníveis ligados por escadarias precárias de variadas inclinações, até chegar ao grande salão, lá em cima, que dava visão para a rua e para aquela folia frenética e violenta que caracteriza essa festa na capital da Bahia.
A estrutura apoiava-se numa encosta de modo que víamos o povo pulando como que dois ou tres andares abaixo. Os trios elétricos, quando passavam por ali, alinhavam o teto em cima do qual iam os cantores e as bandas quase exatamente com o assoalho desse salão.
Ficava-se literalmente cara-a-cara com eles no momento da passagem.
Artistas, autoridades, socialites, “famosos”, garçons-equilibristas se esgueirando com suas bandejas carregadas lá no alto, “gostosas”, “porras-loucas”, traficantes…
O povo do costume nesses eventos misturava-se e confraternizava daquele jeito de que só brasileiro é capaz.
No centro exato desse grande terraço, cercado dos puxa-sacos do costume, o governador da Bahia em pessoa e sua primeira-dama presidiam a esbórnia.
Para qualquer momento, corria o zum-zum pelo camarote, esperava-se a chegada do rei da Suécia e sua rainha brasileira.
E bebida. Muita bebida em cima…
De repente, o burburinho foi subindo, junto com uma agitação que empurrava a boiada toda para o fundo em direção à escada que desembocava no salão principal do camarote:

_ O rei chegou! O rei chegou!
Um desavisado ao meu lado, forte sotaque baiano, pergunta:
_ Que rei, ACM?
_ Não, um outro aí; um mané… retruco-lhe, divertido.
Alarme falso.
E as caipirinhas rolando…
O som do trio elétrico vai subindo. É o de Gilberto Gil que se aproxima.
O camarote trepida. Lá embaixo é um frenesi dos blocos dos abadás, que compram o direito de pular junto aos carros.
O monstrengo, despejando seus milhões de decibéis, já está alinhado com o canto final do camarote e o mundo parece estar vindo abaixo. Ele avança mais um pouco e o governador e sua entourage soltam a franga.
Estão frente a frente; o camarote ferve e …
De repente a música estanca!
Surpreso, começo a procurar. É briga? É pane?
Gilberto Gil resolve a minha dúvida.
Cara-a-cara com o governador, ele se desfaz numa mesura…
_ Eu queria aqui saudar o nosso governador que tão gentilmente, etc, etc, etc…
O povo lá embaixo parado, esperando. A festa nacional foi interrompida mas não há nenhuma reação dos foliões.
Nem uma vaia. Nem mesmo um “Óóóhh!“
Mais uns tantos rapapés e o dilúvio de som recomeça. Segue a festa como se não tivesse havido nada.
Aquilo foi um choque!
Afinal, eu sou de Sampa, de onde não se vê quem sobe ou desce a rampa!
Dei parte do meu escândalo aos meus anfitriões, mas vá lá. Abafa o caso…
Vai daqui, vai dali, mais umas tantas caipirinhas pra dentro e lá vem outro trio elétrico.
Não me lembro se era o dele ou se ele vinha lá em cima de convidado, mas este carregava ninguém menos que Caetano Veloso, o revolucionário das palavras e dos sons do português de minha tamanha admiração.
Caí das nuvens! Não é que ele repete o ritual de Gil!
_ Boa noite, excelência. Eu queria comprimentar aqui o senhor governador que tanto tem feito pela Bahia… (e lero, lero, lero…)
Não me segurei mais. As caipirinhas “bateram” todas de uma vez.
Com gestos de estadista em palanque e pra lá de “torto“, abri o verbo, carregando no sotaque baiano.
_ E estes, senhoras e senhores, são os révolucionarios! Imaginem os adesistas!

Não parei mais. Indignação e álcol são uma mistura perigosa. Estava de uma inconveniência tal que meus constrangidos anfitriões tiveram de me levar de lá para fora, enquanto eu seguia gesticulando para trás e vociferando para sua excelência ouvir.
E assim segui torturando os meus queridos amigos baianos durante toda a travessia até Mar Grande, onde fui curtir a minha ressaca e, no dia seguinte, a minha vergonha monstro.
Hoje de manhã, quando vi a foto de Guilherme Afif Domingos, o nosso sôfrego vice-governador e ministro, encolhidinho, beijando as mãos de Dilma Roussef na capa dos jornais, tão sóbrio quanto no dia em que nasci, foi essa a história que veio-me à cabeça.
_ E esta, senhoras e senhores, é a oposição! Imaginem os adesistas! E segui com o meu indignado discurso imaginário: Dos flagelados do Bolsa Família ao Jorge Gerdau todo mundo se vende neste país! O que varia é só o preço…
Deixa pra lá. Abafa o caso.
Resolvi que esta noite vou tomar umas, à saúde dos poucos de nós, coitados, que não temos preço.


















