Você votou em quem você votou?

31 de outubro de 2014 § 5 Comentários

A resposta é que você nunca saberá.

É com anos de atraso, num mau momento e possivelmente até com algum rabo preso como se verá abaixo que o PSDB  pede à Justiça Eleitoral uma auditoria do sistema eletrônico de votação brasileiro por uma comissão de especialistas indicados por todos os partidos.

Mas antes tarde do que nunca. As queixas são recorrentes, o Brasil vai na contramão do padrão mundial e é função de um partido dar satisfação aos seus representados.

Que a máquina brasileira de votar não tem segurança é ponto pacífico. Nada que lide com softwares e bits tem segurança. Isso está provado por testes que quebraram a segurança da nossa urna eletrônica não só nas medidas destinadas a impedir a identificação de cada voto com cada eleitor como, também, nas medidas destinadas a impedir que um software malicioso atribua o voto de um eleitor a um candidato diferente daquele em quem ele votou.

Esses testes foram feitos e as falhas de segurança positivamente identificadas desde as primeiras eleições computadorizadas ocorridas no país não só por especialistas brasileiros como também por especialistas americanos da Universidade de Princeton, em máquinas similares às nossas (do ponto de vista tecnológico embora não na aparência) produzidas pelo mesmo fabricante das brasileiras (que aliás é alvo de um monte de processos por corrupção nos EUA).

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Mas o que ha de escandaloso no caso brasileiro é que, apesar de todas essas provas e demonstrações da insegurança da máquina, do acumulo de queixas em eleições passadas (94 municípios registaram queixas de fraude na eleição de 2012), das centenas de vídeos que circulam na rede mostrando casos pontuais pra lá de estranhos em locais de votação em diversos estados e municípios diferentes e das provas diárias de que nem os computadores dos sistemas financeiro nacional e internacional, da Casa Branca ou do Pentágono estão imunes a invasões ou fraudes, mantem-se em pé com argumentos nada menos que pífios uma suspeitíssima barreira para impedir que haja uma contraprova física das nossas votações que possa ser conferida manualmente como se faz em todos os países do mundo com votações eletrônicas, com as únicas exceções do Brasil e da Índia.

Para as eleições de 2014 em diante, o artigo quinto da Lei Federal Nº 12.034, de 2009 previa que a urna eletrônica iria imprimir uma cópia física do voto, garantindo maior segurança ao processo eleitoral. A lei foi sancionada pelo então presidente Lula. Porém, o artigo quinto foi considerado inconstitucional por “ferir a garantia do voto secreto” (e como é que se fazia antes, meu deus do céu?!), e em 2011 o Senado revogou a obrigatoriedade da impressão da cópia do voto.

Assim, se houver qualquer dúvida sobre a lisura de uma eleição, essa dúvida não poderá ser dirimida porque só fica registrada em cada máquina a totalização dos votos, seja ela a verdadeira, seja a possivelmente viciada por um software malicioso que, como mostra o teste feito em Princeton, apaga os traços de sua presença depois de fazer o seu trabalho.

No vídeo que abre esta postagem você tem um trecho do depoimento do professor de computação da UNB, Diego Aranha, à Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado que examinou a questão mais uma vez em 2013, apenas para ter um gostinho rápido do que está sendo tratado. Mas se quiser se escandalizar mesmo, assista pelo menos os trechos indicados na sequência de vídeos abaixo:

1 – A (longa) integra da Audiência Publica da Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado de 2013, ostensivamente boicotada pelo TSE que recusou-se a enviar um representante, onde, além das vulnerabilidades apontadas pelo professor da UNB, o segundo depoente, eng. Amilcar Brunazo Filho (que depõe antes dele a partir dos 44:33 min) apontará, entre outras coisas, todos as escandalosas e inacreditáveis distorções na regulamentação dessa questão pela Justiça Eleitoral, que se atribui poderes ditatoriais exclusivos de “fiscalizar-se a si mesma” e negar informações aos eleitores ou a quem quer que seja sobre eleições havidas. Difícil explica-las de boa fé como você poderá comprovar pessoalmente vendo os documentos e ouvindo os argumentos de Brunazo.

Nesse mesmo vídeo você poderá conferir a I-NA-CRE-DI-TÁ-VEL leviandade com que o deputado Eduardo Azeredo (PSDB-MG) responde, a partir da marca de 1:36:50, às provas concretas que os dois especialistas lhe apresentaram. Compare com a seriedade da reação do senador João Capiberibe (PSB-AP) que depõe a partir de 1:43:49. E note, por fim, que só ha dois representantes do povo ouvindo esses depoimentos fundamentais para a lisura do processo eleitoral brasileiro no plenário.

2 – Aqui bastam as primeiras palavras do entrevistado que confirmam que nenhum dos problemas apontados no vídeo anterior foi corrigido até a véspera da eleição de 2014.

3 – Aqui apresento uma matéria editada, por cujos “offs” não me responsabilizo nem necessariamente endosso, mas a que recorro porque apresenta um bom apanhado do assunto:

a) uma matéria da Band, logo na abertura, mostrando a extensão do problema e a quantidade de queixas de fraudes que tem havido em todo o Brasil;

b) aos 40:08, novamente o eng. Amilcar Brunazo Filho dando um bom apanhado do que existe no mundo em matéria de eleições informatizadas e porque o Brasil é o único país, fora a Índia, que não produz um voto impresso junto com o eletrônico;

c) finalmente, aos 48:19, veja o ministro Ricardo Lewandowsky condenando, em 2010 no STF, o advogado do candidato ao governo de Alagoas em 2006, João Lyra, que levou até aquela corte uma queixa de fraude por “litigância de má fé“, segundo suas próprias palavras, para fazer “efeito pedagógico” embora esse crime “não estivesse claramente caracterizado“.

4 – O teste feito em Princeton sobre como fraudar a máquina de votar que, por dentro, funciona como a nossa e é feita pelo mesmo fabricante (releve o fato da matéria estar repetida duas vezes, a primeira com som e a segunda sem no mesmo vídeo; veja só a primeira).

5 e 6 – dois flagrantes colhidos por eleitores de problemas na votação de domingo passado

A uns falta freio, aos outros acelerador

29 de outubro de 2014 § 23 Comentários

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O PT finalmente encontrou o limite da paciência dos brasileiros. Arrancou-os praticamente à força da passividade em que gosta de estar todo mundo que tem mais o que fazer do que militância política, em geral um luxo só permitido a quem tem patrão estatal.

O que produziu o milagre foi a arrogância e a violência com que entrou na campanha armado de decretos para fazer e acontecer um amanhã que, afinal, não se materializou, chutando portas, abraçando infâmias, rosnando e insuflando ódios, certo de que ia levar no grito e por uma margem esmagadora um país inerte com uma minoria acuada.

Vem que tem!”, foi o grito que finalmente tomou pela cara.

E por muito pouco não “teve”. Mas entendeu o recado e, por enquanto, está todo cordato, pelo menos até segunda ordem.

Nada de novo, na verdade. O PT está na dele, como sempre correndo à frente do seu eleitorado e freando só quando é freado.

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Do lado da oposição, também como sempre, deu-se o contrário. Se a uns falta freio, aos outros falta acelerador. O eleitorado é que correu na frente no campo da oposição. Tanto dos candidatos quanto da campanha. E nenhum dos dois conseguiu alcançá-los.

Pense bem: o que é que fez desta eleição a mais apaixonada de todas de quantas ha memória no Brasil? Certamente não as emanações dos hormônios sexuais, seja de Dilma Rousseff, seja de Aécio Neves, dois candidatos que andam longe do nível de sex appeal a que está acostumada uma geração que sempre teve Lula nas vitrines das eleições.

O que explica, então, a avassaladora mobilização do eleitorado que se viu em todo o país?

A meu ver foi a certeza — de um jeito diferente para cada metade do eleitorado — de que era a própria democracia que estava em jogo, apesar dos dois candidatos terem fugido da discussão direta desse tema em função de duas maneiras diferentes de subestimar a inteligência do eleitor: um para se aproveitar da oportunidade que lhe foi dada de vender gato (reviravoltas com sabor bolivariano) por lebre (pratos mais cheios de comida) sem ser denunciado nem instado a se explicar por isso; o outro por julgá-los incapazes de reconhecer o gato como gato se ele lhe fosse apresentado sem a pele de lebre com que estava revestido.

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Haverá quem diga que foi a internet que fez a mágica. Mas a internet já estava aí ha várias eleições e isso nunca aconteceu. Ela foi, sim, o veículo da mágica e, muito provavelmente, também o detonador dela. Mas num sentido negativo. Ou melhor, reativo. Formou-se, sim, na reta final da campanha, uma rede anti-PT que, do meio para o fim da corrida, virou um poço de fofocas, falsos alarmes e baixarias similar à que sempre existiu na rede pró-PT.

Mas foi só uma reação espontânea dos indignados com a crescente arrogância do abraço na infâmia dos ventríloqüos de João Santana à medida em que o PT foi achando que dava para assumir na campanha oficial o mesmo tom de baixarias e mentiras que sempre rolou no vasto e subreptício universo online dos “blogueiros do tio Franklin”.

Uma coisa puxou a outra e, no fim, a baixaria engoliu as duas. Mas a diferença fundamental continua existindo: a rede de infâmias pró-PT é uma iniciativa do partido a cargo de profissionais financiados com dinheiro público e usada oficialmente como arma, que trabalha disfarçada e não se identifica como o que é. A do PSDB foi reativa e espontânea, ficou circunscrita aos grupos de eleitores que votariam no partido de qualquer jeito e certamente será fortuita. Só vazou para fora dos grupos fechados dentro dos quais nasceu quando a militância do outro lado começou a se preocupar em desmentir os boatos ou revidar as ofensas que circulavam nela.

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O voto antipopulista, contra o aparelhamento do Estado, contra o uso da corrupção como arma política e a favor da democracia desadjetivada, este sempre esteve aí desde o início da “Era PT”. O que sumiu, durante as duas eleições anteriores a esta, foram os candidatos a favor dessas bandeiras.

No auge da soma dos brilhos do carisma de Lula com o boom mundial das commodities, com a “Carta aos Brasileiros” mediante a qual o PT deu trégua às hostilidades abertas contra a democracia desadjetivada ainda em pleno vigor, mesmo um Geraldo Alkmin conhecido por seu “sex appeal” negativo renegando bem mais de tres vezes a obra de Fernando Henrique Cardoso antes que o galo cantasse recebeu 37,5 milhões de votos (39,1%), contra os 58,2 milhões (60,8%) investidos nos múltiplos atributos magnéticos de um Lula montado numa economia que literalmente “bombava”.

Em 2010, outra eleição sem “sexo” e com a economia em alta, um burocrático Jose Serra cuja campanha baseou-se numa canhestra tentativa de parecer mais Lula que o Lula, recebeu desse mesmo contingente de órfãos, à sua revelia, 43,7 milhões de votos (43,9%), contra os 55,7 milhões ou 56% conseguidos por Dilma, que acabou herdando a maior parte dos 20 milhões de votos da esquerda democrática, já então notoriamente ressabiada, concentrados em Marina Silva no 1º turno.

a11Desta vez, com a conta de 12 anos de esbanjamento populista, corrupção desenfreada e apedrejamento das instituições e dos valores democráticos por um PT que tem plena consciência da dificuldade aguda de renovar a mágica num ambiente econômico adverso em meio à fuga dos investidores, um PSDB ainda inseguro de sua capacidade de comunicação sentiu-se encorajado a reconciliar-se com o seu passado. Mas não o bastante para projetar claramente seus valores de sempre para o futuro.

Ainda que ela estivesse explicitamente ameaçada e que fosse claramente isso que inspirou a paixão crescente que tomou conta da campanha na reta final; ainda que fosse desde sempre essa a única explicação possível para que a vanguarda da esquerda democrática, que poderia dar-lhe os votos faltantes para a vitória, finalmente se alinhasse com o PSDB contra o PT, o partido recusou-se a jogar em cena o tema da defesa da democracia e, ainda que não renegasse mais a sua própria obra, insistiu em proporcionar ao PT o conforto de debater com ele apenas e tão somente os temas sobre os quais os dois estavam de pleno acordo.

De par com a falta de competência técnica de uma campanha marcada pelo improviso, isso custou-lhes a eleição.

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O recado que fica das urnas é claro. O problema da oposição ao PT não está no consumidor, está no produto. O PT é ultra profissional; todos os outros são ultra amadores. Ha um lado bom nisso porque a substituição radical da espontaneidade e da ética pela busca do resultado a qualquer custo, especialmente em política mas não exclusivamente nela, acaba levando diretamente para o crime. Mas o lado ruim é que o mundo, hoje, não é de quem tem razão, é de quem joga melhor para apresentar as suas.

A virtude, na política como em tudo o mais, está no meio.

As oposições brasileiras, para além do dever de consolidar a união que ensaiaram nesta eleição por cima de diferenças conceituais insignificantes ou dos “egotrips” dos seus caciques, como já fez o outro lado que está solidamente unido, no que tange aos esforços de conquista do poder, pelos laços que conhecemos, necessitam urgentemente um “turn around” empurrado pela incorporação de técnicas modernas de governança que despersonalizem os seus processo internos, clarifiquem os seus “valores”, a sua “missão” e as suas “metas” e defina com clareza as estratégias para atingí-los.

As oposições têm de começar a operar com um padrão de eficiência pelo menos assemelhado àquele dentro do qual vivem e trabalham todos os seus eleitores, se quiser disputar o poder com chances reais de vencer.

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Porque o plebiscito não serve

29 de outubro de 2014 § 9 Comentários

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Serenadas as emoções da vitória a presidente reeleita foi à televisão pedir “um amplo diálogo com a sociedade” para debater as reformas de que o país necessita.

É um tom bem mais adequado ao retrato do Brasil que saiu das urnas que o do dia anterior, no discurso de agradecimento à militância compreensivelmente contaminado pelas emoções da confirmação da vitória.

Metade mais 1,64% do eleitorado acabava de sair das urnas certo de que tinha comprado a garantia de um prato de comida mais cheio pela confirmação do Bolsa Família, do Minha Casa, Minha Vida, de aumentos do salário mínimo, da criação do Pronatec e de outros instrumentos em torno dos quais a outra metade menos 1,64% representada pelo candidato de oposição declarava-se plenamente de acordo, mas entrou na comemoração da vitória do PT sendo comunicada de que o que levará para casa é o compromisso fechado com um “plebiscito” sobre a reforma política, embora essa palavra não tenha sido pronunciada uma única vez sequer, seja nas dezenas de peças da propaganda gratuita recitadas pela candidata Dilma na televisão, seja em qualquer dos oito debates presidenciais do 1º e do 2º turnos.

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Não soou como um bom presságio pois “plebiscito” é um tipo de mecanismo que aponta exatamente na direção contrária da “união” em torno de um consenso posto que o que quer que venha a ser decidido por esse método pode, por definição, ser imposto à metade menos um dos brasileiros que vierem a votar contra o que for proposto. Por isso os plebiscitos são usados exclusivamente para dirimir questões de formulação simples e sem mais implicações que a expressamente contida nessa formulação, passíveis de serem decididas por um “sim” ou por um “não”, como aquela a respeito da qual foram chamados a se manifestar os eleitores uruguaios: “Você é a favor ou contra a redução da maioridade penal para 16 anos”?

Este não é absolutamente o caso de uma reforma política, assunto que se desdobra em inumeros subtemas, todos eles afetando diretamente o conjunto dos direitos e das liberdades de cada cidadão, e que, dependendo do modo como forem combinados entre si e até da ordem em que forem apresentados, podem ter o seu significado e os seus efeitos práticos simplesmente invertidos.

O problema é tão velho quanto a própria democracia.

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Propor diálogos nacionais é sempre um bom início de conversa. Mas quando chega a hora de materializar esses diálogos só ha duas maneiras de fazê-lo: criar um sistema em que toda a sociedade vota em representantes previa e individualmente identificados para o fim específico de mandatá-los para discutir e aprovar leis ou “mudanças” em seu nome (o “sufrágio universal”), ou confiar no governante de plantão para definir como achar melhor quem, a seu ver, representa a sociedade como um todo e chamar essa minoria para decidir as mudanças ao seu gosto.

Foram tantos os desastres ensejados pela escolha errada do modo de promover grandes decisões nacionais ao longo dos 2600 anos transcorridos desde o primeiro ensaio da democracia em Atenas, todos conduzindo a longos períodos de servidão ou a conflitos sangrentos, que a Declaração Universal dos Direitos do Homem da qual o Brasil é signatário houve por bem esclarecer o assunto.

Não é por outra razão que no Artigo 26, paragrafo 3º, ela consagra o “sufrágio universal” como a única forma legitima de eleger representantes, seja para cargos executivos, seja para discutir e aprovar as leis em governos “do povo, para o povo e pelo povo”.

Todas as outras são falsas.

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A presidente Dilma explicou nessas mesmas entrevistas que a sua sugestão de um plebiscito responde a “um apelo que recebeu de movimentos sociais apoiado por 5 milhões de assinaturas”. Mas na sequência de uma eleição que mobilizou 140 milhões de eleitores esse número só faz enfatizar sua própria insignificância.

Afinal, se a campanha toda transcorreu sob a acusação de que reeleger Dilma Rousseff para mais um mandato era o contrário de “mudar”, porque o PT preferiu correr o risco de ser visto assim numa disputa voto a voto a aproveitar a campanha para explicar didaticamente à massa dos eleitores qual era a reforma política que pretendia fazer e por que método?

Não foi, certamente, porque essa idéia só lhe tenha ocorrido diante do resultado das urnas, para pacificar o país.

O Decreto da Presidência nº 8243, assinado pela própria presidente Dilma seis meses antes da eleição determina, aliás, que “movimentos sociais” como esses que lhe entregaram os 5 milhões de assinaturas de apoio a um plebiscito, se apropriem, sem passar pelo sufrágio universal, das prerrogativas exclusivas dos representantes eleitos por todos os brasileiros de propor, discutir e aprovar nossas leis. Posta de lado a questão de serem eles parte diretamente intessada nessa troca de papéis, o fato dela contrariar diretamente não apenas a Declaração Universal dos Direitos do Homem mas também a letra da Constituição da República Federativa do Brasil coloca a iniciativa sob suspeita de constituir-se num artifício para dar ares de legitimidade a um expediente que é flagrantemente ilegítimo.

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A tática de usar o expediente do plebiscito para, uma vez eleito pelo sufrágio universal para um único mandato no poder, amarrar amplos pacotes de reformas embutidos nas quais vêm, invariavelmente, mecanismos que desclassificam o sufrágio universal como a única forma legítima de chegar ao poder, seja para funções executivas, seja para funções legislativas, tem sido sugerida pelo Foro de São Paulo, a entidade criada e dirigida pelo ex-presidente Lula que reune partidos que comungam as crenças do PT, e utilizada em vários países vizinhos do Brasil onde, desde então, não houve mais alternância no poder.

É, portanto, mais que benvindo o apelo da presidente Dilma, legitimimamente eleita pelo sufrágio universal num país dividido por uma margem de 1,64% do eleitorado, por um amplo diálogo nacional em torno da reforma política e da reforma eleitoral que se fazem necessárias. Mas desde que essa convocação comece por uma pergunta sobre o que queremos e por que métodos queremos e não pela resposta que, dentro do espírito democrático, só deveria surgir ao fim desse debate.

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Um milagre da ciência, sem tapeação nem dinheiro público

28 de outubro de 2014 § 5 Comentários

Para ativar a tradução em português (vale a pena):

1) clique em Youtube (sim, o seu interesse acima de tudo); 2) abra o vídeo em tela inteira; 3) clique no signo da engrenagem; 4) clique em “inglês (legendas automáticas)”; 5) clique em “traduzir legendas”; 6) clique em “Africaner” e a lista de línguas aparecerá; 7) role arrastando o cursor cinza da barrinha escura à direita; 8) clique em “Português” e em “OK”

PS.: Para publicar junto com o Estadão peço que esperem até amanhã de manhã pelo primeiro artigo sobre o Brasil depois da eleição

26 de outubro de 2014 § 72 Comentários

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Hoje é dia de pensar no Brasil

25 de outubro de 2014 § 33 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/10/2014

Ha um estranho distanciamento entre os temas debatidos na campanha que desaguará na eleição de amanhã e o que de fato está em jogo na escolha que ela decidirá.

Para além dos ataques pessoais que dominaram a cena, e das diferenças inerentes ao tema da corrupção, tudo se passou como se não houvesse escolha mais arriscada em jogo para o Brasil do que optar entre dosagens ligeiramente diferentes de intervenção na economia por cima de políticas sociais rigorosamente idênticas, dentro de um abiente institucional perfeitamente consolidado.

Só que isso não corresponde à realidade.

Na verdade tudo está em aberto. Nem mesmo os itens básicos da Declaração Universal dos Direitos do Homem são incondicionalmente acatados pelo atual governo do país que ha 30 anos clamava em uníssono por “Diretas Já” e nos pede mais quatro anos de mandato.

Em plena revolução tecnológica não ha “verdade absoluta” que tenha ficado em pé. A dúvida, cada vez mais, é senhora, e essa ausência de certezas é o pressuposto da liberdade que é, antes de mais nada, a liberdade de dissentir.

Ha muito tempo já que não há mais enganos perdoáveis a esse respeito. Não ha como não repudiar, de boa fé, as afirmações categóricas do passado, o apriorismo político e as concepções tendentes a deformar as sociedades humanas e o indivíduo segundo modelos pré-concebidos.

A flexibilidade política deixou de ser uma opção para se transformar num imperativo de sobrevivência.

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Não obstante o que o PT trata de fazer o Brasil tragar por baixo de um discurso que nunca penetra claramente nessas profundidades, é de impedir o país de navegar conforme a onda que venha e o vento que sopre, livre para mudar de rumo e mudar de prumo; é de fechar a porta de saída – ou no mínimo antepor a ela um labirinto virtualmente intransponível – depois de ter aceito o convite para passar pela de entrada.

Os fatos são os fatos:

No plano internacional o governo do PT alinha-se automaticamente com todas as ditaduras e com os mais notórios violadores dos direitos humanos deste e de outros continentes, muitas das quais, ao arrepio da lei, financia com dinheiro público em contas dadas como “secretas”. Chegou até ao extremo de exigir que a ONU desse mais tempo e largueza para os degoladores do Estado Islâmico.

No plano nacional, o partido manipula os números que medem o desempenho da economia, censura as instituições públicas encarregadas dessa medição quando os dados lhes são adversos, financia com dinheiro público uma vasta rede de difamadores assalariados para promover o linchamento moral nas redes sociais de quem quer que divulgue fatos que considere prejudiciais às suas pretensões eleitorais ou manifeste opiniões diferentes das suas e promete solenemente, em caso de vitória, passar a “controlar” o que os brasileiros poderão ver, ouvir ou dizer daqui por diante também na “mídia tradicional”.

Num plano mais concreto e efetivo, a própria candidata que pede votos aos brasileiros dentro do sistema ainda em vigor assina o Decreto nº 8243 da Presidência da República que revoga a exclusividade do poder de legislar dos representantes eleitos por todos os brasileiros e transfere parte dele a grupos de militantes do seu partido com os quais reuniu-se cerimonialmente na sede do governo às vésperas do 1º turno para reiterar oficialmente seu compromisso de, à revelia do Congresso Nacional e contra a eventual resistência dele, submeter a plebiscito a continuação ou não do regime de democracia representativa eleita pelo voto universal.

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Para a massa dos eleitores o volume e a intensidade com que são divulgadas as “mordidas” e os “assopros” da proposta petista são monitorados com o mesmo ajuste fino de modulação com que, na sua sempre reveladora obsessão com os falsos silogismos, contaminam com meias verdades ou mentiras inteiras as ações e declarações dos adversários, sempre de modo a poder afirmar mais adiante que, seja o adversário, seja o eleitor, disse o que não disse ou votou no que não votou.

Todas essas manobras se dão sob a regência pessoal de um Luis Ignácio Lula da Silva que, à medida em que avança a campanha eleitoral, vem recrudescendo seus votos de ódio e suas ameaças de vinganças “inimagináveis” contra quem ousar resistir-lhes, e seguem à risca o roteiro por ele pessoalmente prescrito ao Foro de São Paulo, a entidade que ele próprio criou e que congrega em torno desse mesmo esquema tático todos os ditadores em projeto ou já instalados no poder na América do Sul e no Caribe, com a expressa recomendação de que “não permitam recuos” após cada “conquista”.

Não obstante tudo isso, acuado pela máquina de mentiras e intrigas que vem semeando a cizânia e empurrando um povo que já foi definido por sua cordialidade para a beira da conflagração, a candidatura de Aécio Neves escolheu trabalhar exclusivamente os temas que menos a diferenciam da blitz lulista, deixando fora do debate a única diferença de fato irreconciliável entre o PSDB e o PT que é o compromisso de um com a democracia e o compromisso do outro contra a democracia ou pelo menos contra a democracia desadjetivada, o que parece ter desmobilizado uma parcela daquele eleitorado que, sentindo instintivamente o perigo que continua no ar, aliou-se no 1º turno, por cima de suas diferenças, no voto antipetista e a favor da democracia.

Afinal, se as diferenças não pasam de nuances, segundo os próprios interessados em ressaltá-las, porque arriscar os incômodos todos de uma troca de governo?

Seria um trágico engano.

Acreditar nisso é ignorar o que se passa à nossa volta no continente sul-americano, descrer de tudo quanto o próprio PT afirma sobre si mesmo e suas intenções, relevar o ambiente de violência moral – quase física – em que transcorreu a campanha eleitoral e arriscar-se a descer até à profundidade a partir da qual não ha mais retorno nos sistemas de socialização da corrupção e seleção negativa dos parasitas no controle deles em que, década após década numa espiral sem fim, vêm dando voltas, soçobrados, tantos dos países vizinhos do Brasil .

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“Vergonha na cara” ou polícia na política?

20 de outubro de 2014 § 9 Comentários

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Dia sim outro também, vendo os jornais da manhã nas televisões enquanto faço a minha caminhada na esteira, vou contando a infindável quantidade de vezes em que os apresentadores repetem a palavra “vergonha”.

Seja a dose diária de miséria hospitalar, as escolas caindo aos pedaços, as ruas e estradas de asfalto de mentira sendo engolidas pelos buracos, a roubalheira na Petrobras, ou a ínfima quantidade de crimes que chegam a resultar numa punição que nos servem todo santo dia em doses cavalares antes de cada refeição, tudo acaba sempre nessa frase do comentarista chamado para arrematar as matérias: “Quando é que os nossos políticos vão criar vergonha na cara?

A resposta, adianto-lhes, começa justmente por onde acaba a pergunta: “Quando eles não tiverem mais a opção de ter ou não ter vergonha na cara”.

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Se um político ou um funcionário público virá ou não a ter vergonha da omissão que mata ou do “malfeito” que faz dele um criminoso, um dia, é um tipo de luxo japonês que eu gostaria de me reservar o direito de pagar para ver somente depois que o culpado estivesse na prisão e, mesmo assim, só se tivesse garantias de que uma coisa (a pena de prisão) de modo algum pudesse vir a ser substituída pela outra (o “pedido de desculpas” alegadamente “envergonhado”) que andou tentando nos induzir a aceitar a grei de Lula nos bons tempos dos primeiros dias do Mensalão.

De lá para cá veja-se onde chegamos…

Não me venham, portanto, com “ética na política”. O que nós precisamos é de polícia na política. Quem tem de discutir ética é o legislador. A ele sim, cabe definir os limites do que é ou não é ético na forma de arregimentar funcionários e nomear pessoas para o exercício de cargos publicos; na forma de estruturar essas hierarquias e de colocá-las em ação para usar os dinheiros públicos no interesse da coletividade; nos meios e modos admissíveis de tratar de se eleger e de se reeleger. Ao político e ao funcionário público cabe apenas cumprir a lei que resulta dessa tertúlia filosófica e impor essa lei com toda a força do braço armado dela é tudo quanto é necessário para resguardar a saúde da coisa pública.

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Não é preciso incluir aulas de “cidadania” nas escolas públicas nem constituir ONGs para dar pregações regadas com dinheiro do governo. Distinguir o certo do errado é algo que se faz com tanta precisão no Vaticano quanto no Morro do Borel, dependendo o pendor para um lado ou para o outro, tanto la como cá, da certeza de que a uma coisa corresponderá o Céu e à outra o Inferno.

O resto é conversa mole.

Basta que ao crime suceda inexoravelmente o castigo e à inoperância, à inépcia, à preguiça e à incompetência suceda inexoravelmente a demissão como já ocorre aqui fora com todos nós outros simples mortais, para as coisas entrarem naturalmente nos eixos.

Assim, quando você se sentir a ponto de se afogar no mar de lama que aflora dos debates presidenciais, perdido entre a meia e a anti moral em que tratam de inserir os nossos falsos dilemas, sem pé na aparente inexistência de terra firme em que tudo por aqui parece se dar, lembre-se sempre de que o milagre pelo qual você anseia já é o milagre sob o qual você mesmo vive.

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Não é necessário esperar que do além desça uma vaga “cultura política” que ninguém sabe bem como definir, ou esperar que da mera sucessão das gerações venha ela um dia a se instalar espontanea e milagrosamente para nos redimir. Não ha nada de complicado nem muito menos de esotérico para esperar ou para aprender. Basta que “eles” passem a viver pela regra pela qual você já vive, pela mesmíssima razão pela qual você vive nela, a saber, porque se viver fora dela você está demitido ou vai em cana.

É simples assim.

Se continuar sendo sinalizado à casta dos ungidos da política e do serviço público que não haverá polícia para forçá-la a seguir a lei e pagar penas pesadas quando se desviar dela; se o funcionário público continuar indemissível, seguro de que basta-lhe por uma vez um pé dentro do Estado para que nenhuma força terrena possa removê-lo de lá jamais; se o servidor do Estado puder seguir trabalhando por baixo daquele cartaz que diz que ele não pode ser “desacatado”, sob pena de prisão, por mais que desacate quem lhe paga o salário todo mês não haverá “vergonha na cara” que espontaneamente cure a doença nacional.

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Nem aqui, diga-se de passagem, nem no Japão, onde exige-se do faltoso, além do cargo, da multa e da pena de prisão, uma exibição pública e cerimonial de vergonha cujo sentido é acrescentar a esse pagamento em espécie também (mas nunca apenas) uma sessão formal de execração pública.

Lembre-se disso porque lembrar-se disso é o primeiro passo na direção da saída desse labirinto. Lembre-se sempre disso porque lembrar-se sempre disso é o único ingrediente necessário para que isso de fato aconteça.

Como tudo o mais, entretanto, lembrar-se disso é também um aprendizado. Para que comece, finalmente, a ser aprendido pelo povo brasileiro é preciso que seja aprendido antes pelos jornalistas posto que é à imprensa que cabe pautar os costumes da Nação. É ela quem deve fincar o marco abaixo do qual disparam os mecanismos de sanção pela ausência de mérito e, daí para baixo, os de repressão ao crime do colarinho branco.

Trata-se de um treino: estímulo e resposta; crime e cobrança de castigo. Não me venham com “vergonha na cara”…

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Não ha, para resumir, nada por ser inventado. Para que sejam curadas as doenças do Brasil basta fazer valer para “eles” o que já vale para nós todos, sem “julgamentos administrativos”, nem foros e nem, muito menos, prisões especiais, como está prescrito na fórmula universal do remédio para este mal, aquele que se define pelo axioma da igualdade perante a lei.

O primeiro passo, senhores jornalistas, é tornar isso lembrado.

O que vem depois é mais fácil. A maneira mais prática e segura de se instituir a meritocracia na vida política e no serviço público e ir dando a cada um, “lá em cima“, exatamente aquilo que fizer por merecer, sem complicar a vida de todos quantos já temos de trabalhar e mostrar desempenho para continuar vivendo aqui fora – pois que é disso e nada mais que isso que se trata – é, como tantas vezes já se demonstrou aqui no Vespeiro, armar a mão também do eleitor brasileiro do mesmo voto distrital com recall de que já estão armadas as de todos os eleitores dos países remediados deste mundo, sem meias medidas nem meias soluções.

Nesta eleição trata-se de reconfirmar o princípio da alternância no poder que é anterior a todos os anteriores. Mas até para saber porque é tão necessário reconfirmar esse princípio sem o qual seremos atirados de volta para a Idade Média, é bom que você não esqueça o que é que queremos para sempre estável, uma vez garantida a mudança que nos manterá aptos a todas as demais mudanças.

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