Os perigos das decisões precipitadas

8 de agosto de 2018 § 18 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 7/8/2018  *

A onda nacional de repúdio que o vexame do Roda Viva com Jair Bolsonaro provocou teve, afinal, um subproduto positivo. Poupou o Brasil do que poderia ter sido o vexame da Globonews se ela tivesse chegado virgem ao candidato, com o ímpeto em que vinham vindo a maior parte das redações. Na noite da sexta-feira, 3/8, nenhuma agressão lhe foi dirigida e quase tudo lhe foi perguntado no tom que convém.

O vexame esteve nas respostas.

O fenomeno Bolsonaro é independente de Jair Bolsonaro. O candidato transformou-se no valhacouto de todos os exilados do Brasil com voz. Na sua praia acabaram por encalhar os censurados pelos ditadores da “correção politica”, os resistentes ao terrorismo moral, todos quantos as subideologias fabricadas repulsam, os rebelados contra a sistematização da mentira, os que se recusam a não ver o que seus olhos enxergam, os que insistem em educar eles próprios os seus filhos, os condenados à não existência midiática, os que persistem no index dos “ismos” probidos.

O liberalismo de Paulo Guedes também foi lá bater fugido da censura e logo passou de resgatado a resgatante, tal é o vazio que encontrou. No seu rastro vieram os cacos da classe média meritocrática em extinção e os exauridos todos do welfare state moreno com sotaque francês, a unica outra alternativa à venezuelização que se apresenta.

Mas tudo isso aconteceu mais pela precisão desses desvalidos que pela boniteza do “candidato honesto” que veio até à véspera desta fugindo de debates e de entrevistas montado apenas em peças editadas de whatsapp.

Foi quase por acaso, aliás, que ele fez saber aos espectadores da Globonews que, sim, a seu ver são também honestos não só o seu particular auxilio moradia como também os privilégios todos dos marajás de farda. Ele nada mais disse porque não lhe foi perguntado, o que é muito triste. Mas a avaliação abrange também, “por isonomia”, os dos marajás sem farda.

O deficit acumulado pela previdência do setor público de 2001 a 2015 foi de 1 trilhão e 300 bilhões de reais para atender 1 milhão de aposentados! O deficit da previdência privada, atendendo a 33 milhões de aposentados, no mesmo período, foi de 450 bilhões. A média das aposentadorias do setor privado é de 1,5 mil reais. No setor publico, a média é de 9 mil reais no poder executivo, o pedaço do marajalato mais sensivel ao voto, de 25 mil no legislativo, 29 mil no judiciário e acima de 30 mil no ministério público.

Quase todos os estados brasileiros, responsaveis pela segurança publica dos 63 mil assassinados por ano, pela saude e pelo saneamento dos re-assolados pelas pestes medievais e pela educação dos ladrões de medalhas de matemática gastam mais hoje com aposentados que com funcionários na ativa. É a mais vasta máquina de transferência de dinheiro de pobres para ricos jamais criada na face da Terra e a trajetória do deficit põe uma explosão de proporções telúricas imediatamente além da proxima curva.

Mas isso continua sendo um não problema. Não entra na pauta do debate presidencial.

Esse desinteresse da imprensa (ha exceções raras inclusive na televisão) pelo assalto à riqueza da Nação com a gazua da lei; esse acobertamento do estupro coletivo do Brasil pelas corporações que tomaram o estado de assalto é a última coisa que une esquerda e direita no Brasil. Essa cumplicidade mole, silenciosa, acovardada e com medo da vida do “país com tetinhas” para com o “país com tetonas”, que irmana partidos e conecta os extremos do espectro ideológico é que empurra os nossos muitos rios de janeiros para o nihilismo da desesperança e para a guerra. Mas foi o único ponto em que as visões de Bolsonaro e da banca examinadora da Rede Globo não gerou faíscas por baixo da polidês com que tudo transcorreu.

“Nem os quilombolas, nem ninguém tem direito de ter comida servida na boca”.

“Nenhum centímetro mais de terra indígena”.

“Gays, sim, kit gay não”.

“Brancos e negros, ricos e pobres, gays e heteros, somos todos brasileiros”.

“A história do Brasil foi a que foi, não a que é narrada”.

O Brasil está tão desesperadamente carente que tem ejaculções precoces com a mera declaração do óbvio em público. Mas, de parte a parte, faz-se um enorme barulho com o que não tem a menor importância para manter abafado o que tem toda.

Jair Bolsonaro e Donald Trump são filhos da mesma negação só que Trump é arrogante e Bolsonaro é humilde, Trump sabe o que é capitalismo – de “laços”, vá lá – e Bolsonaro nem isso. Ha uma enorme diferença certificada por uma obra concreta na capacidade de formulação, de montagem de equipe e de execução entre Jair Bolsonaro e Geraldo Alckmin. Mas assim como o “candidato honesto” ladra mas não morde, a democracia da vaidade, aristocrática e sem povo, do PSDB não chega nunca à penetração. Nenhum dos dois está contra o “sistema”, estão apenas fora dele e muito desgostosos com isso. Nenhum dos dois propõe reformas que mudem a essência ou a direção do que quer que seja, ambos contentam-se com “ajustes”, com meras regulagens de velocidade, com vender anéis para preservar os dedos.

O Brasil terá de ir ainda mais fundo no inferno antes de sermos arrastados de volta ao purgatório. Tiradentes foi o último momento em que estivemos parelhos com a ponta mais moderna do pensamento político. Desde que fomos invadidos pela corte e viciados nas blandícias da “aquisição de direitos” nunca mais acertamos o passo. É sempre o mundo que acaba nos arrastando para as modernidades depois que elas ficam velhas.

Nós não. Nós nos aferramos às nossas escravidões e somos sempre os últimos a aboli-las. Quem está dentro não sai e quem está fora sonha em entrar. Estamos sempre duas ou tres revoluções atrasados. Só somos “avançados” no papo furado.

Privilégio é o nosso negócio! O favelão continental que se exploda!

  • Por um erro de comunicação o Vespeiro publicou ontem o artigo que só será publicado n’O Estado de S. Paulo em 14/8/2018. O artigo acima é o que foi publicado ontem no Estadão.

A pior forma de financiamento…

2 de agosto de 2018 § 4 Comentários

“A pior forma de governo, excetuadas todas as outras”. A famosa definição de Winston Churchill remete ao enguiço fundamental que o modo de pensar latino e católico antepõe à democracia. O autoritarismo do brasileiro é inconsciente, constitutivo. O povo, coitado, é uma entidade que precisa ser protegida de si mesmo. No Brasil, nem o povo confia no povo. É mais um subproduto do monopólio jesuíta da educação em que a razão deve sempre ceder à fé e o raciocínio estruturar-se em torno de princípios abstratos “eternos”, para se contrapor ao que a experiência prática vier a demonstrar.

Como buscamos verdades absolutas e não soluções práticas para problemas práticos nós nunca consideramos a alternativa, até porque, nessa questão do financiamento de campanhas, a alternativa inclui necessariamente a emancipação do povo, esse eterno tutelado. Para nós apontar a imperfeição da premissa é quanto basta. Foi isso que fez este país que clama em uníssono contra a política velha entrar cantando vitória na armadilha do “financiamento público” que fechou-nos definitivamente a porta ao novo.

Sob o argumento – verdadeiro, sim, e daí? – de que as empresas doadoras tentariam desequilibrar o jogo eleitoral a seu favor, o árbitro “supremo”, substituto do rei que perpetuava a desigualdade “natural” dando a cada um segundo o seu “direito” inato ou “adquirido”, decidiu proibir as doações de pessoas jurídicas porque entre nós só valem as “soluções definitivas” e é preciso, sempre, prevenir. Ter de remediar já é prova de erro no raciocínio abstrato anterior, que é quanto nos basta para descartar uma proposta qualquer. E como nenhuma proposta resiste a um bom escrutínio por raciocínios abstratos, basta ao espertalhão que tem em vista emplacar alguma “solução” torta detonar a sua antítese. Foi assim que aportamos na única alternativa possivel ao financiamento privado que é o “financiamento público” absolutamente centralizado e fechado, esquecidos de que o publico somos nós e o estado, que agora é quem arbitra sozinho quem e quanto terá, e quando, são os próprios destinatários do dinheiro de campanha que já estão “lá” e não querem nem podem sair porque, dado tudo que já se sabe sobre eles, sairiam direto para dentro da prisão.

Já os protestantes que têm compromisso maior com o fato que com a “narrativa” e acreditam na prova empírica e não no dogma, partem para os problemas pondo sempre cada “solução” diante da alternativa possivel. É graças a isso que os americanos, entre outros, contentaram-se humildemente com “a pior solução para o problema do financiamento de campanhas políticas excetuadas todas as outras”. Continuaram com o financiamento privado, descentralizado e que mantem aberta a porta às novidades, cuidando apenas de garantir ao povo, em quem, ao contrário de nós, confiam acima de tudo e de todos, a condição necessária para fazer uma escolha informada. Eles simplesmente impõem aos candidatos que divulguem no prazo máximo de 5 dias toda e qualquer doação recebida, cabendo ao eleitor julgar onde está a fronteira do que é decente aceitar nesse campo e à lei, que lá também é ele, o povo, quem faz, fulminar qualquer representante que der “contrapartidas” aos seus financiadores lá na frente.

De mais este engano da indignação desinformada dos brasileiros, o resultado não podia ser outro. Todos os “candidatos viáveis”, os mais velhos e os mais novos, os da direta, os da esquerda e os do meio – é fato e não “fake” – foram desfilar os seus dotes nos guichês de comércio de governabilidade e minutos de TV dos mais nefandos chefões do Centrão em Brasilia. E foram os bandidões  que, consideradas todas as probabilidades, acabaram por escolher Geraldo Alckmin e não Geraldo Alkmin que escolheu os bandidões, como também não foram os outros dois preteridos que os dispensaram em nome da virtude.

E assim aquilo que já é sempre ruim ficou ainda muito pior.

O caminho do gol

31 de julho de 2018 § 16 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 31/7/2018

É o que se viu na Copa do Mundo. Gol, hoje, só de bola parada em jogadas ensaiadas à exaustão. Ou então, em função de velocidade. De contra-ataque, de lançamentos longos e precisos, de rapidez de saida de bola. De frente, furando retrancas de gigantes, é praticamente impossível. A raça humana evoluiu. O biotipo é outro. O campo ficou pequeno, atravancado de tão ocupado. Tapeação, então, nem pensar. Acabou o espaço tanto pro amadorismo quanto pra malandrice.

Na competição economica é a mesma coisa e ha muito mais tempo que no futebol. A velocidade de resposta à mudança é a condição para a sobrevivência no jogo global.

Os Estados Unidos viraram o que são porque durante um século inteiro só eles tinham essa agilidade num mundo inteiramente engessado pela burocracia e pelo imobilismo que sempre sustentaram todo esquema de privilégio. É verdade, eles começaram do zero. Não tinham uma realeza pra revogar. Nenhum rei inglês com sua corte foi ser imperador por lá. A chave pro esquema deles funcionar foi garantir a fidedignidade da representação. Levou mais de 2 mil anos pra inventar. Primeiro trocar o rei pelo voto da maioria, à grega. Depois, quando a democracia deixou de caber numa praça, eleger representantes para governar, à romana. Então, fazer o governo controlar o governo com tres poderes independentes. E, finalmente, armar a mão dos representados para submeter de fato a ação dos representantes à vontade deles e picar o todo em pedacinhos para poder ir consertando cada parte no seu tempo e na sua velocidade sem ter de parar tudo a cada passo.

Mudaram o poder de dono e lá se foram, com recall, referendo e iniciativa, livres para corrigir todo erro que se apresentasse como erro, fazer eleições especiais para trocar uma peça aqui, eliminar uma lei defeituosa ali, instalar um novo mecanismo sempre que sentissem que era necessário, enquanto o resto do mundo, que de democracia tinha só o som, seguia atravancado de eleição marcada em eleição marcada, perseverando em erros petrificados na constitucionalização de privilégios, tropeçando a cada passo em juízes ladrões e políticos surdos todo poderosos.

Velocidade de mudança! Capacidade de se adaptar, como sociedade, a uma realidade cada vez mais mutante, respeitando as diferenças entre as suas partes. Livres o bastante para estimular a criatividade a ponto de produzir ciência, mas armados da condição de se adaptar às consequências da produção de ciência. Mandando e não sendo mandados.

Hoje a China está levando uma vantagem momentânea porque os ditadores – agora à frente de esquemas de capitalismo de estado – têm mais velocidade de mudança que a democracia. Mas é uma vantagem relativa. Rápido demais pra ser seguro. Eles mesmos, no fim da linha, convertem o que ganham em títulos do Tesouro ianque porque sabem que o presidente americano é o unico do mundo que não pode fazer o que quiser na hora que quiser. Porque sabem melhor que ninguém que segurança jurídica, o unico antidoto contra a súbita liquefação de toda e qualquer riqueza conquistada, é as “majestades”, os “guias geniais de povos”, os “the guy”, as “excelências” e os “meritíssimos” da hora estarem estritamente “under god and under the law”. Ou vale o fato e não a “narrativa” e a lei é igual pra todo mundo, ou não dá pra ter controle de nada.

Todo o aparato da democracia, aliás, não é senão uma ferramenta evoluída para facilitar a mudança. A gente elege representantes, tem um Legislativo, um Judiciário e um Executivo funcionando dentro de regras de todos conhecidas para poder ir mudando as coisas na medida da necessidade sem ter, nem de entregar a direção do nosso destino para um déspota todo poderoso, nem de fazer uma guerra entre os interesses contrariados a cada vez que for preciso reajustar as coisas. Se fosse pra tudo ficar sempre igual não precisava de nada disso. Era o que acontecia no sistema feudal em que uma minoria que tinha tudo era sustentada por uma maioria que não tinha nada e, como só ela mandava, ninguem queria mudar nada.

No Brasil tudo está errado porque a representação do país real no país oficial está falsificada. Semana passada este jornal mediu. Temos 25% do Congresso Nacional constituido por funcionários publicos. Eles são 11,5 milhões de pessoas ou 5,5% da população mas a sua representação é cinco vezes maior que a sua dimensão real. E o fato dos outros 75% de congressistas não serem funcionários públicos com carteira assinada antes de se eleger não quer dizer que deixarão de apoiar os interesses deles depois. Primeiro porque são convertidos em funcionários públicos para efeito de desfrute de todos os privilégios que se auto-atribuem assim que são eleitos. Segundo por medo da retaliação implacavel dos que já estavam lá antes deles de que é alvo todo mundo que ousa faze-lo. Mas principalmente porque estão livres de qualquer consequência se trairem o seu eleitor, que tem todos os direitos sobre o seu representante cassados assim que deposita o voto na urna.

Que descrição mais perfeita poderia ser feita de uma ditadura?

Nós vivemos tempo demais e confortavelmente demais dentro dessa mentira. Nossas escolas foram destruidas. A consciência critica da nação não foi apenas “aparelhada”. Darwin deu quatro, cinco, dez voltas no relógio. Uma raça foi apurada dentro dela. Sobrou muito pouco mais que os ratos e as baratas.

Só a vivência da virtude cria virtude. Só a possibilidade de vitória da virtude engendra a virtude. No sistema que temos isso é impossível. E não ha pacote de reformas que conserte isso de uma vez. Nos somos muitos brasis. Fomos todos humilhados e ofendidos mas fomos afetados de forma diferente pela ação dessa força desviante tão persistente. Cada Brasil tem as suas carências e as suas prioridades. E só cada um deles sabe por onde começar. Nós precisamos é mudar o jeito de fazer. Parar de sermos mandados e passarmos a mandar. E, então, ir refazendo tudo, pedaço por pedaço, na velocidade que cada Brasil avaliar como possível.

Para nos livrar dos blocos e centrões

25 de julho de 2018 § 15 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 25/7/2018

O que se disputou até agora, faltando dois meses para a eleição, foram só os 12 minutos e 30 de televisão. Ninguém está nem aí pra você. Nem lhe dirigem a palavra. Cada mandato cooptado dá direito a mais alguns segundos. O PT tem 1 e 31, o MDB 1 e 27, o PSDB 1 e 13. Daí pra baixo, quanto mais novo na profissão menos segundos. Mas vale coligação. Os virgens estão condenados ao silêncio a menos que passem a rebolar-se para as bruacas velhas do “sistema”. A cada dono de partido as suas estatais e os seus ministérios. A cada “bloco” de donos de tetas, a reversão desta ou daquela “reforma”. Os candidatos “se viabilizam” inviabilizando pedaços do nosso futuro. E quem não jogar com a regra nem entra no jogo…

Mas não se indigne ainda. A indignação sem foco é o ópio do cidadão. Mata qualquer esperança de raciocínio objetivo e os põe exatamente onde os querem os profissionais.

O objetivo disso tudo não é dinheiro. Ninguém quer dinheiro pelo dinheiro. Dinheiro é só o meio mais eficiente de comprar poder. Por isso nenhum cofre jamais precisou ser arrombado no país mais roubado da história do universo. Os donos do poder é que os escancaram para comprar mais poder. E no entanto, a voz corrente é que o “poder econômico” é que é o agente e não o mero coadjuvante da ladroagem. A decorrência obrigatória dessa convicção é que o estado, o outro nome do poder, é a solução e não o problema. E tome fundo partidário + um cacife de minutos de suspensão da censura às mídias de massa para vender + o “financiamento público” de campanhas, tudo para “livrar a política da influência do poder econômico”, e cá estamos onde a indignação sem foco nos pôs: ninguém entra, ninguém sai. E como o voto é obrigatório e leva quem tiver a maioria que der, paparicar o eleitor pra quê?

Quem não vive de teta continua no escuro, tentando adivinhar quem “não é contra” esta ou aquela “reforma”. De reforma mesmo, sem aspas, nem os políticos, nem os “especialistas”, nem os seus mais aguerridos antagonistas são a favor. Uns só prometem e os outros só cobram meias-solas para impedir que o organismo parasitado morra já, ou porque estão embarcados na nau do marajalato, como estão todos os candidatos e família, ou porque assim lhes permite o silêncio reinante pois, no escurinho de cada consciência do Brasil com voz, ninguém quer arriscar o caquinho de migalha que as “excelências” e os “meritíssimos” têm a esperteza de conceder a todos e a cada um para dividir os otários. O resto, o Brasil sem teta nem voz, esse está no meio do tiroteio. Tem mais com que se preocupar.

China de um lado, “privilegiatura” do outro. Fusões e aquisições, supersalários e superaposentadorias, tudo sem limites. A classe média meritocrática está em vias de extinção. Só sobrou a corte debaixo do para-raio. O Brasil inteiro vive a “síndrome do Jardim Europa”: menos ricos muito mais ricos, comprando os vizinhos, construindo palácios, e o favelão continental crescendo em volta debaixo de tiro e debaixo de peste. No fim vão sobrar tres ou quatro castelos e quem sair fora das muralhas sem um exército à sua volta será comido vivo.

A sociedade dividida em dois extremos, sem meio, é tudo que os “venezuelanos” querem. Seja quem for que entrar, seguir poupando a corte em detrimento do povo vai nos jogar no colo deles. Eles sabem que só conseguirão segurar a barra que vem vindo a tiro mas é esse o seu diferencial: estão dispostos a saltar para esse nivel de crime. Vivem aplaudindo quem ja está nele. Não acreditam em mais nada e é isso que os faz duas vezes mais perigosos.

O Brasil está sonhando com uma ressurreição moral que sabe que não virá. O que faz o padrão moral da política é a regra do jogo e não a iluminação pelos céus de um mítico “candidato honesto”, seja de que “lado” for. Não haverá pacote de leis, nem que venha assinado pelo Homem de La Mancha em pessoa, que resolva isso. Nós somos todos testemunhas. Todas as leis anti-corrupção viraram as mais poderosas armas da corrupção. Prende este! Solta aquele! Mexeu no meu privilégio? Maldita Geni!

Tem dado pra trabalhar com esse barulho?

Seja quem for que inicie a cena, quem decide o final são sempre os titulares dos “direitos” que só a “eles” é dado “adquirir”. É essa dimensão coletiva, sem rosto, que os une a todos, os mais e os menos mal intencionados, pela ação ou pela omissão. Quem manda, quem escreve a regra, quem nunca sai do poder, é “o bloco” das corporações donas do estado.

A base de toda a trapaça nesse campo – e muito pouca coisa ao norte de Curitiba não é – é a ideia de que são as pessoas e não o “sistema” que esta errado. Se forem só as pessoas, basta prender as da hora e sonhar com a eleição de “um cara honesto” que passa. Se for o “sistema”, então estamos todos errados e será preciso suspender as hostilidades e mudar o país de dono antes de começar a prender de novo, agora para valer.

A lei é a força absoluta. Na mão de qualquer outro, vira uma arma e uma gazua. “Para os amigos, tudo; para os inimigos, a lei”. Por isso a grande invenção do milênio foi dar exclusivamente ao povo o poder de fazer e de acionar a lei. O jeito disso mudar de conversa para realidade demorou séculos para apurar. Voto distrital puro porque poder é um perigo e por isso precisa ser picado em pedacinhos. Eleições primárias diretas porque não dá pra funcionar senão por representação, mas nós precisamos da dos índios, não da dos caciques. Retomada de cargos e mandatos a qualquer momento para que os representantes nunca se esqueçam de quem é que manda. Referendo do que vier do Legislativo para que a lei não seja transformada em gazua nem em arma de opressão. Leis de iniciativa popular para que você paute o representante e não o contrário. Eleições de retenção de juízes porque o crime organizado ataca por cima e por baixo e as paradas e tentações são altíssimas.

Aí o controle do seu destino passa a ser seu. Fora daí é rezar, a cada quatro anos, para que o próximo déspota venha menos torto que o anterior.

O valor mais alto que sempre se alevanta

14 de julho de 2018 § 18 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 14/7/2018

O domingão bolivariano vivido pelo país na ressaca da derrota na Copa é uma síntese do dramalhão brasileiro.

Foi só mais um golpezinho xinfrim, desta vez envolvendo deputados e desembargadores plantados. A cara do Lula. A cara do PT. A medida exata do valor que dão à democracia, às instituições que manipulam, ao Brasil e aos brasileiros.

A vitória, excepcionalmente, foi “dos mocinhos”. Teriam atirado no alvo errado ao visar o TRF-4, a outra Curitiba, a quem o Brasil fica devendo mais essa? Ha quem diga que tudo que queriam era desmoralizar as instituições. Já as gravações na rede comemorando antes da hora a libertação do chefe feitas por toda a cupula da organização criminosa descrita na Ação Penal 470 que Lula, como o PCC, comanda de dentro do presídio, indicam que eles realmente esperavam que essa armação mequetrefe pudesse colar…

Mas isso pouco importa pois no universo moral do lulismo nenhuma sujeira se perde, todas apenas se transformam. O que choca é terem os 200 milhões de brasileiros da “2a Classe” razões de sobra para se angustiar com mais essa palhaçada pois os favretos do STF que acabam de dar fuga ou apagar os pecados da cupula da quadrilha fixaram a jurisprudência de que os fatos, a lei, a constituição e até as sentenças deles próprios não valem nada, tudo pode virar do avesso conforme a “turma” que estiver de plantão. E se pode a “turma” (que em dois meses estará “lá”) ou mesmo um só entre eles nesta nossa monocracia, porque não o aparelhado solitário de turno plantado no TRF-4 pela janela do “quinto constitucional”?

Causa “intoleravel insegurança jurídica” a decisão “inusitada e teratológica” baseada em “premissa falsa” por autoridade “manifestamente incompetente”? Revela dolo ter ela redobrado sua truculência ameaçando juizes e policiais federais depois de alertada para o “flagrante desrespeito a decisões colegiadas do STJ e do plenário do STF”? Desejavam espicaçar perigosamente “paixões partidárias e políticas” pondo o país inteiro em risco e causando prejuízos sistêmicos à economia com esse “tumulto processual sem precedentes”?

Sim, sim e sim, é “óbvio e ululante”! Mas, data maxima venia, os editorialistas são esses aí da página ao lado. Da meritíssima Laurita Vaz, que representa a instituição agredida, o país tem o direito de esperar medida saneadora exatamente proporcional aos adjetivos todos que usou. Afinal, já está provado: a 2a Instância unida, isola e desarma até a ultima instância bandida.

A pergunta que nunca se faz em voz alta diante dessas mixórdias todas – alguns dos que deveriam faze-las porque mamam diretamente, outros porque mamam indiretamente, o favelão nacional apenas porque ninguém amplifica o som da sua voz – é porque, afinal de contas, o Poder Judiciário “mocinho”, de quem depende a segurança jurídica pela ausência da qual está o país inteiro se afogando em sangue e miséria, convive com os seus favretos e dá a esses cânceres no máximo a aspirina de um “pito”?

A resposta é igualmente óbvia e ululante: porque tem de ser monolítico o edifício periclitante da “privilegiatura”, especialmente no meio desse terremoto permanente que à esta altura ele custa à nação. E é natural que seja assim. É o instinto de sobrevivência que nos move como espécie. E não ha, fora da seara dos santos, altruísmo que resista a essa força da natureza. Por isso ninguém, nem no que resta de menos poluído no funcionalismo que ainda é pago em dia (e astronomicamente muito), dispõe-se a permitir que sua indignação vá mais longe do que foi a de Laurita Vaz.

A democracia é o regime que reconhece as forças da natureza e trata de colocá-las a serviço do bem. Não ha resposta institucional às bofetadas que o PT et caterva dão na cara das instituições não porque elas não disponham de armamento de defesa mas porque estão nas mãos erradas os gatilhos que os acionam.

Tudo que está errado no Brasil, aliás, está errado porque é isso que está errado.

É “dinheiro de pinga” essa montanha que ecandaliza o mundo do que nos roubam por fora da lei. O que arrebenta mesmo é o que nos tomam por dentro da lei. É o que nos tomam convertendo todo e qualquer assalto em mais um “direito adquirido”; automatizando o avanço anual sobre os bolsos do favelão nacional; rebatizando pedaços do esbulho como “auxílio”, “contribuição”, ou “salário-xis”. O que nos mata mesmo é, com todos os chineses do mundo fungando no cangote dos nossos empregos, ter o peso desses penduricalhos multiplicado pela ausência de cobrança de resultados, a estabilidade eterna e até hereditária no emprego, o avanço na carreira por decurso de prazo, a antecipação das aposentadorias…

Enquanto não estiver nas nossas mãos o direito de deseleger a qualquer momento estes que hoje elegemos para uma “privilegiatura” eterna, destruir o Brasil continuará lhes parecendo mais barato que perder uma eleição. Enquanto a pena máxima para juiz ladrão continuar sendo a aposentadoria precoce eles continuarão a soltar em vez de prender bandidos. Enquanto não for você que decide quem fica e quem sai do serviço público toda corporação que chantagear o povo será perdoada, toda lei adicional contra a corrupção se transformará na mais nova arma da corrupção, todo teto imposto ao funcionalismo será imediatamente convertido em piso.

Instituições e seus dispositivos de defesa são armas de afirmação de uma determinada hierarquia. Qual? Vai depender de quem puxa o gatilho. Se quisermos que mude o que está aí, temos de tirar a mão do Brasil que nos está matando do gatilho e por no lugar a do Brasil que queremos que sobreviva. O resto acontece sozinho.

Alô indignados de boa vontade! Alô candidatos sem bandeira nenhuma! Alô povo que ainda pode derrubar governos com passeatas sem levar tiro! Eleições distritais puras, retomada de mandatos a qualquer momento (recall), referendo de todas as leis que vierem deles, eleição de retenção de juízes regularmente é o que nos tira da condição de alvos e nos põe na de atiradores.

 

Porque o PT perdeu a periferia de SP

2 de julho de 2018 § 15 Comentários

Entre novembro de 2016 e janeiro de 2017 o PT fez uma pesquisa na periferia de SP para tentar entender a perda de eleitores naquela área.
É sempre interessante recordar o novo Brasil que ele descobriu nesta véspera de eleição.
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INTRODUÇÃO

HIPOTÉSE INICIAL

Durante as gestões Lula e Dilma, a ampliação dos mercados de trabalho e consumo, combinada à distribuição de renda e à mobilidade social, criaram novas dinâmicas socioeconômicas na periferia de São Paulo.

No momento de expansão e avanço do ciclo econômico novos valores em relação aos costumes e a política foram gestados entre as camadas populares, que passaram a se identificar mais com a ideologia liberal que sobrevaloriza o mercado.

No momento de descenso e retração do ciclo econômico essa camada da população passou a reagir informada por horizontes menos associativistas e comunitaristas e mais por diretrizes marcadas pelo individualismo e pela lógica da competição, com uma tônica acentuada do mérito nos discursos.

Neste cenário, as Igrejas neopetencostais parecem ganhar espaço.

OBJETIVOS

  1. Compreender, de forma profunda e detalhada, os elementos que tem formado a visão de mundo e o imaginário social nas periferias da cidade de São Paulo;
  2. Reunir conhecimento que colabore para reflexão e atualização do projeto político do PT bem como para fortalecer a disputa de valores na sociedade.

OBJETIVOS

ÁREAS DE ABORDAGEM:

Território
Família e Mobilidade Social: Trajetória de mobilidade (ascensão ou não/ expectativas futuras; grau de agregação e/ou desagregação familiar)
Escola: Relação com a Formação e com a ideologia do Mérito

Trabalho e Vida Econômica: Trajetória educacional e profissional; relação do “bico/viração” com empreendedorismo

Sociabilidade, Lazer e Consumo: Espaço de sociabilização no tempo livre Religião: Papel da religião na organização da vida

Relações de Gênero, Racismo, Homofobia, Aborto, Drogas e Direitos Humanos: Valores e cisão entre progressismo e conservadorismo

Percepções Político-Institucionais: Visão de país e partido

METODOLOGIA

Pesquisa qualitativa realizada por meio de duas técnicas complementares: entrevistas em profundidade e grupos focais.

Sobre pesquisa qualitativa: A pesquisa qualitativa tem como objetivo expor os entrevistados a um conjunto de temas pré-determinados e captar a compreensão, percepção e valores presentes na opinião pública a respeito destes assuntos, assim como a narrativa discursiva construída em torno deles.

É uma metodologia eficaz para indicar tendências a respeito do pensamento médio dos públicos-alvo escolhidos, mas não tem a finalidade de mensurar quantitativamente quais opiniões são mais frequentes.

METODOLOGIA

1 – PERFIL DA AMOSTRA:

Gêneros: Masculino e Feminino Faixa etária:

a) 18 a 24 anos;
b) 25 a 34 anos;
c) 35 a 44 anos;
d) 45 anos ou mais.

Território: bairros periféricos / comunidades (favelas)

Renda Familiar Mensal:

Faixa 1 – Até 2 salários mínimos;

Faixa 2 – mais de 2 e até 5 salários mínimos.

Religião: evangélicos neo-pentecostais/ outras religiões

Eleitoral: votou no PT de 2000 a 2012, mas não votaram em Fernando Haddad nas elei- ções municipais de 2016 e em Dilma Rousseff na eleição presidencial de 2014.

Beneficiários ou ex-beneficiários de programas sociais/ não beneficiários – a amostra contemplou um mínimo de 30% das entrevistas (20) com beneficiários ou ex-beneficiá- rios de programas sociais (BF, MCMV, PROUNI, FIES).

METODOLOGIA

2 – ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE:

63 entrevistas em profundidade, tendo como público-alvo moradores das periferias da cidade de São Paulo com o seguinte perfil:

Período de Campo: As entrevistas foram realizadas entre os dias 22/11/2016 a 10/01/2017.

METODOLOGIA

3 – GRUPOS FOCAIS:

Foram realizados 5 grupos focais, compostos entre 8 e 12 participantes tendo como público-alvo o seguinte perfil:

DESENVOLVIMENTO

RESULTADOS GERAIS

DO PONTO DE VISTA DA ORIENTAÇÃO DOS VALORES E FORMULAÇÃO POLÍTICA TEMOS ALGUNS RESULTADOS GERAIS…

RESULTADOS GERAIS

1

A formulação e debate sobre a política se dão de forma superficial e ainda de acordo com a agenda definida pela mídia hegemônica.

Os entrevistados têm, no geral, rotina agitada e sufocante e, portanto, a formulação acerca da política não é a prioridade no cotidiano.

Assuntos debatidos com mais frequência são aqueles que estão na pauta da grande mídia, que continua sendo umas das principais fontes de informação da maioria, como casos de escândalo de corrupção, operação lava jato ou debates sobre as recentes eleições municipais.

Quando questionados sobre assuntos mais complexos ou definição de conceitos políticos, tinha-se a impressão, para maioria, de que era a primeira vez que construíam uma argumentação sobre aqueles temas.

RESULTADOS GERAIS

2

‘Categorias analíticas’ utilizadas pela militância política ou pelo meio acadêmico não fazem sentido para os entrevistados:

A racionalização acerca da política não segue a lógica do espectro ideológico que vai de direita à esquerda. Os julgamentos flutuam em zigue-zague, de posições mais conservadoras a mais progressistas dependendo do assunto abordado.

Palavras que limitam os campos e são utilizadas inclusive de maneira pejorativa em disputas políticas (‘reaça’ e ‘coxinha’ ou ‘conservador’ X ‘progressista’) não habitam o imaginário desta população.

A POLARIZAÇÃO POLÍTICA NÃO É BEM DEFINIDA OU É INEXISTENTE PARA O PÚBLICO ESTUDADO.

“Direita é alguém direito, correto. Esquerda é quem vive reclamando

Eu acho que a direita é quem esta no poder e a esquerda é a oposição!

(Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

RESULTADOS GERAIS

3

A ‘política institucional’ também é vista, muitas vezes, como um bloco monolítico:

Esferas federal, estadual e municipal se confundem – não é fácil definir as funções de cada uma.

A tendência é de que tudo o que concerne à vivência concreta na cidade seja cobrado das prefeituras e o que diz respeito a questões mais macro e abstratas para a Presidência da República, isentando o governo estadual.

TAMBÉM NÃO HÁ SEGURANÇA QUANTO ÀS PRERROGATIVAS DE CADA PODER: LEGISLATIVO X EXECUTIVO. NO LIMITE, É TUDO “O GOVERNO”.

RESULTADOS GERAIS

4

A cisão entre ‘classe trabalhadora’ e burguesia também não perpassa pelo imaginário dos entrevistados:

Trabalhador e patrão são diferentes, mas não existe no discurso relação de exploração: um precisa do outro, estão no ‘mesmo barco’.

Destaque para o singular, porque não há ideia de coletivo; não há conflito de interesses.

Independente da renda e da ocupação, as pessoas tendem a se auto-classificar como pertencentes à classe média, pois a pobreza está associada à falta de moradia e alimento e a riqueza está associada à abundância de patrimônios pessoais e familiares.

RESULTADOS GERAIS

5

Neste contexto, o ‘inimigo’ é o Estado:

Para os entrevistados, o principal confronto existente na sociedade não é entre ricos e pobres, entre capital e trabalho, entre corporações e trabalhadores. O grande confronto se dá entre Estado e cidadãos, entre a sociedade e seus governantes.

Todos são ‘vítimas’ do Estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou “sufocar” a atividade das empresas.

EU PAGO IMPOSTOS TENHO DIREITO DE COBRAR

Relação clientelista: aplicam sentido de gestão privada de eficácia.

O ESTADO NÃO CUMPRE SEU PAPEL: SÓ DEMANDA DOS CIDADÃOS (IMPOSTOS) E NÃO DEVOLVE EM SERVIÇOS DE QUALIDADE. É INEFICAZ!

RESULTADOS GERAIS

COMO, ENTÃO, AS PESSOAS ORIENTAM SEUS VALORES?

RESULTADOS GERAIS

1

Há forte desejo por visibilidade e valorização pessoal, querem ter um ‘lugar no mundo’:

Querem ter sua singularidade e valores reconhecidos dentro da competitividade capitalista, mostrando que, apesar das limitações impostas pela condição social, também são capazes.

Rejeitam homogeneizações, não querem ser tratados como “massa amorfa” incapaz: “os pobres”.

Organizam sua vida (trabalho, família, religião) com a motivação de ‘serem alguém’.

NÃO NEGAM A IMPORTÂNCIA DE POLÍTICAS PÚBLICAS E GARANTIA DE ACESSO A OPORTUNIDADES, MAS REJEITAM AQUELAS POLÍTICAS QUE APARENTAM “DU- VIDAR” DAS CAPACIDADES INDIVIDUAIS, COMO AS COTAS.

RESULTADOS GERAIS

2

3

No caminho para a ascensão é preciso estabilidade:
Riscos de rupturas, de caos, ameaças incomodam e tendem a ser rejeitadas

A ‘ascensão social’ é importante no processo de diferenciação:

A ascensão, neste contexto, é diferenciação dos de baixo (dos ainda mais pobres/ daqueles que trazem a recordação de um passado menos abastado) e reprodução dos de cima (quem aspiram ser; aonde querem chegar). Todos trabalham para ‘chegar lá’ e se distanciar do que consideram ‘pobre’.

RESULTADOS GERAIS

4

A supervalorização do mérito encontra seu lugar:

Para ser alguém na vida são necessários trabalho e esforço.

Embora saibam que as oportunidades não são as mesmas para todos e que é preciso democratizá-las, apresentam discurso consistente de que não existem barreiras intransponíveis – ‘com esforço tudo é superado’.

Esse pensamento tem ressonância especialmente entre os mais jovens cuja percepção de ‘limites’ de ascensão são ainda mais largos que dos mais velhos.

NESSE SENTIDO, AS REFERENCIAIS DE FIGURAS PÚBLICAS DE SUCESSO MAIS LEMBRADOS FORAM: LULA, SILVIO SANTOS E JOÃO DÓRIA JR. PERCEBIDOS COMO PESSOAS QUE ‘VIERAM DE BAIXO’ E CRESCERAM POR MÉRITO PRÓPRIO.

RESULTADOS GERAIS

A IDEOLOGIA DO MÉRITO COMBINA COM…

RESULTADOS GERAIS

Consumo: O capitalismo tenta desprover o cidadão de todos os elementos que constituem a identidade (cultura, identidade de classe…). O consumo torna-se um meio importante de constituição da identidade e materialização da ascensão.

Religião: de fato, a máxima ‘Deus ajuda quem cedo madruga, quem se esforça mais’ parece fazer sentido; Deus ajuda mais quem corre atrás, vai atrás dos sonhos, quem trabalha, quem se esforça

Sobrevalorização do mercado em detrimento do Estado: Há pouca valorização do público, tanto que quando podem acessar, querem colocar filho na escola particular, ou pagar convênio médico. A política pública, em alguns casos, pode ser lida como uma desvalorização individual (p. ex., cotas). Os ideais comunitarios e coletivistas praticamente não aparecem nas narrativas e, quando aparecem, restringem-se à dimensão da família, da vizinhança e da igreja.

Empreendedorismo: Muitos desejam ser empreendedores e utilizam como justificativa as ideias de não ter mais patrão, ter mais flexibilidade para gerir o próprio tempo, poder abrir o próprio negócio para trabalhar perto de casa, além da possibilidade de deixar patrimônio e herança para a família.

“Você tem que ter fé e tem que fazer um esforço para alcançar. […] Pedi pra Deus me ajudar bastante e graças a ele, está aí [o carro]. Se você não tem o esforço e não se ajuda, Deus não vai te ajudar, não vai cair do céu

(Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

RESULTADOS GERAIS
Vale destacar que o discurso só encontra ressonância onde há sentimento de ‘vazio’ de políticas:

Embora a mídia tradicional ainda paute os temas que geram mais atenção da população e tente disputar os sentidos da experiência vivida em relação às políticas públicas, ela consegue ser exitosa em reproduzir sua visão de mundo especialmente onde existe um sentimento de “vazio” de políticas públicas na experiência da vida prática e cotidiana.

Em outras palavras, quando as pessoas acessam determinadas políticas de forma efetiva e satisfatória em relação a expectativas e necessidades, como por exemplo os CEU`s no caso da gestão Marta Suplicy, elas tendem a fazer avaliações independentes e não permeáveis aos valores e discursos construídos pela imprensa tradicional.

EIXO TEMÁTICO I:
CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

A noção de empreendedorismo é muito presente em todas as narrativas, mas aparece com um duplo significado:

Como sinônimo de empresário (‘ser empreendedor é ser patrão’) e como produzir algo de forma autônoma.

Nesse sentido, muitos daqueles que são trabalhadores do mercado informal ou trabalhadores por conta própria se auto-definem como empreendedores. É o ‘Faça por si Mesmo’

EM AMBOS OS CASOS, O EMPREENDEDORISMO É MUITO VALORIZADO: ESTÁ ASSOCIADO A HISTÓRIAS DE ASCENSÃO SOCIAL BEM-SUCEDIDOS E TAMBÉM REMETE À LIBERDADE DE SER ‘DONO DO SEU PRÓPRIO NARIZ’ E NÃO DEVER SATISFAÇÕES A NINGUÉM!

CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

 

Há solidariedade com os empresários:

Muitos assumem o discurso propagado pela elite e pelas classes médias apontando a burocracia e os altos impostos como impecilhos para o empreendedorismo.

O empreendedorismo aparece como aspiração, mas ainda é uma realidade distante:

Entrevistados consideram a ideia de tornar-se empreendedores, citando inclusive negócios próprios que já pensaram em abrir, consideram essa uma realidade ainda distante: seja por falta de capital suficiente ou por não enxergarem como uma possiblidade real para sua classe social. Além disso, chamam a atenção para os riscos de se tornar empresário.

CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

 

Como muitos entrevistados vivem experiências precárias de trabalho e remuneração, o contrato com carteira assinada ainda é valorizado, em função da segurança que traz: rendimentos fixos, direitos trabalhistas e uma série de benefícios e direitos considerados importantíssimos para todos

 

Benefícios e direitos citados: aposentadoria, férias remuneradas, décimo terceiro, fundo de garantia e, em alguns casos, até plano de saúde privado.

 

Necessidades práticas e materiais se sobrepõem à ideologia dominante.

“ O que eu penso mais em ser empreendedor é a condição financeira, né? Pode te dar uma condição de vida melhor. Por exemplo, pegar uma franquia da Cacau Show, eu cheguei a ir em um evento da Cacau Show só pra conhecer..

(Gênero masculino, branco, 45 anos – Faixa de renda 2)

 

“Eu queria um negócio de vender batata frita, a casa da batata frita… Eu gostaria de começar por aí, não trabalhar pros outros, mas pra mim mesma!

(Gênero feminino, branca, 46 – Faixa de renda 2)

 

“A gente pensa assim: sou um cara ambicioso, estou com a faca e o queijo na mão, no caso esse empreendimento ai tem tudo para dar certo, porque não tentar?”

(Gênero masculino, negro, 30 anos – Faixa de renda 2)

CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

EM RELAÇÃO CONSUMO
1. Consumo é sinal de distinção e materializa a ascensão:

O acesso mais recente, após os governos Lula, a bens de consumo é lembrado, especialmente pelos mais velhos como prova de melhoria de vida em comparação à infância e à juventude. Demonstra que o país mudou, mas também que sua família soube prosperar. Valorizam muito a possibilidade de oferecer os melhores alimentos e maior conforto para seus filhos do que receberam de seus pais.

Entre os mais novos, há uma relação mais forte com consumo mais supérfluo de itens pessoais que os tornem distintos socialmente.

HÁ UM CRIVO ETÁRIO NA RELAÇÃO COM O CONSUMO: ENQUANTO OS MAIS VELHOS COMPRAM MAIS PARA ATENDER NECESSIDADES BÁSICAS E PARA A FAMÍLIA (ELETRODOMÉSTICOS, POR EXEMPLO), OS MAIS JOVENS BUSCAM MAIS POR MARCAS DE ITENS PESSOAIS, QUE OS DISTINGAM.

CONSUMO E FAÇA POR SI MESMO

2. Embora o consumo seja uma dimensão presente e valorizada, o consumismo não ocupa posição central na vida dos entrevistados:

O dinheiro é escasso e, portanto, é preciso traçar prioridades.

Desejam conquistar, antes de tudo, bens mais duráveis e que possam ser transmitidos por gerações, como a casa própria. Ou então, investir na educação, sua ou dos filhos, para garantir maior estabilidade e possibilidade de crescimento.

Entre os mais velhos, o consumismo é visto, inclusive, como uma irresponsabilidade: a mesma ética do mérito que move a dimensão da sociabilidade e do trabalho, em muitas circunstâncias, faz com que o consumo ostentação – muitas vezes ligado ao funk – seja visto com maus olhos e sinal de irresponsabilidade.

EIXO TEMÁTICO II:
FAMÍLIA, ESCOLA E TERRITÓRIO

FAMÍLIA
A família é o grande alicerce e solução para os problemas individuais e coletivos:

A família, para os entrevistados, é considerada a base da vida: utilizam expressões superlativas como ‘é tudo, é o que faz valer a pena’, ‘é o porto seguro, o que mantem a gente na linha’. Ou seja, é o que possibilita sejam pessoas corretas e que tracem caminhos sem desvios.

E é também o antítodo para a crise moral da sociedade: é necessária para a construção de uma sociedade mais correta, sem violência, sem corrupção, mais desenvolvida, com pessoas de caráter, honestas. Há compreensão de que o fracasso de uma sociedade é resultado da presença excessiva de famílias desestruturadas.

 

VISÃO LIBERAL: A CRISE ÉTICA DA SOCIEDADE NÃO É UM PROBLEMA ESTRUTURAL, MAS DE ORDEM INDIVIDUAL QUE SE RESOLVERÁ PELA EDUCAÇÃO NO ÂMBITO PRIVADO (FAMILIAR).

“ A família é base de tudo, né? Família é base de tudo! A família é alicerce para você ser alguém na vida!

(Gênero masculino, 27 anos, negro – Faixa de renda 3)

 

“Na sociedade, (a família) não está sendo muito importante, né? As pessoas não estão valorizando mais a família como deve ser valorizada (…) Falta de respeito, falta de humanidade… As pessoas pensam mais em si, elas são muito individuais, né?

(Gênero feminino, 41 anos, negra – Faixa de renda 2)

TERRITÓRIO

É a partir do espaço que vivem e as relações que nele estabelecem que se constitui o sentido de pertencimento: O sentido de comunidade para os moradores das periferias de SP se associa ao território, como espaço de pertencimento e de onde não têm perspectiva de sair. Se reconhecem e estão enraizados afetivamente ao bairro, onde convivem com família, amigos, vizinhança. O território compõe sua história de vida e lhes confere sentido de pertencimento. É comum se identificarem como “sou da ZL, do Jd. Angela”, por ex. (menção ao bairro ou região onde vivem).

Esta relação com o território apresenta uma separação etária: quando questionados sobre mudar de bairro num contexto de ascensão social, os mais velhos cogitam a possibilidade de mudar de rua – ‘mudaria ali pra rua de cima que é mais perto do ponto de ônibus’ – enquanto os mais jovens transpõe estes limites e pensam em mudanças para bairros mais estruturados e centrais.

 

COMO DE COSTUME, A PERSPECTIVA DE ASCENSÃO ENCONTRA MENOS LIMITES ENTRE OS MAIS JOVENS. ASSIM COMO NA RELAÇÃO COM O TERRITÓRIO, A ASPIRAÇÃO POR DISTINÇÃO E ASCENSÃO ESTÁ LATENTE EM TODOS OS TEMAS.

TERRITÓRIO

Pontos citados vão desde presenca de bailes funks próximos a sua casa, ‘biqueiras’, falta de zeladoria urbana, serviços públicos de má qualidade e, principalmente, escassez de possibilidades de lazer – há poucas praças e parques públicos próximos, assim como outras possibilidades públicas e gratuitas. Quando existem, há ainda reclamações quanto à falta de cuidado, a presenca de usuários etc.

Neste contexto, shopping e igreja se tornam os principais espaços de sociabilização: shopping, que concentra diversas opções de lazer (cinema, compras, praça de alimentação, etc); e igreja como espaço de convivência, com grupos de jovens, de mulheres, de leitura da bíblia, festas e atividades especificas.

 

Ainda que não demonstrem interesse em sair do bairro, relatam inúmeros problemas da região onde vivem:

Distorção da noção de “público”: é menos associada àquilo que pertence a todos e mais com o que é gratuito e de má qualidade

ESCOLA

Dentro da lógica de supervalorização do mérito, a escola desempenha um papel fundamental:

1. Escola é ferramenta para mobilidade social: é a chave de acesso para ser ‘alguém na vida’, é o primeiro passo numa trajetória linear: se tem acesso ao estudo, vai bem na escola e consegue um diploma, logo, conquistará um bom emprego, poderá acessar o consumo e terá um ‘lugar no mundo’.

2. Acreditam que quanto maior a escolaridade melhor é o emprego: por isso, maioria demonstra vontade de voltar a estudar, fazer cursos técnicos, faculdade. Esse desejo é mais forte entre os entrevistados de meia idade (faixa dos 24 a 44 anos)

3. Entretanto, sabem que as condições materiais e de ensino eram e são limitadoras: maioria dos entrevistados estudou em escola pública e teve que, a partir da adolescência, conciliar estudo e trabalho. As condições para frequentar a escola e ser bom aluno eram adversas: falta de dinheiro, tempo, transporte ruim etc. Esses fatores, somado à priorização do estudo dos filhos pra quem é pai/mãe, também limitam o prosseguimento dos estudos hoje.

ESCOLA

4. Apresentam avaliação crítica em relação ao modelo de escola: falta professor, é pouco atrativa aos jovens, não motiva, é mecânica, professores não se preocupam com as dificuldades. Principalmente, os mais novos, são muito críticos e alegam que a escola é muito ‘fechadinha’.

5. Entendem a escola particular como melhor: grande maioria almeja colocar os filhos em escola particular – demonstrando, mais uma vez, uma descrença na “coisa pública”

Apesar de saberem do ‘peso do diploma’ para alcançar boas colocações no mercado de trabalho e saberem de todas as limitações que enfrentaram para concluir os estudos, são autocríticos e, muitas vezes, atribuem o não sucesso à falta de esforço pessoal e baixo rendimento escolar.

 

SOBREVALORIZAÇÃO DO MÉRITO

 

“Têm algumas pessoas que eu conheço que, por exemplo, queriam fazer faculdade, mas o máximo que conseguiram foi um curso técnico, e aí tipo elas se arrependem por não terem tentado, corrido atrás.

(Genêro Feminino, 17 anos, Branca – Faixa de Renda 1)

“O ensino é bem melhor na particular. Meu neto estudava numa escola particular, só que ele saiu porque não tinha condições mais de pagar, mas se ele tivesse lá ainda, ele já estaria lendo (…)tem muita diferença do ensinamento (…) Porque eu acho que você está pagando você pode exigir e em escola pública você vai exigir de quem? Não pode exigir!

(Gênero feminino, 41 anos, negra – Faixa de renda 2)

EIXO TEMÁTICO III:
RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

A assiduidade de ida às celebrações religiosas ou a fidelidade a uma determinada Igreja/religião varia muito na amostra. Houve relatos, inclusive, de idas muito es- porádicas às missas/cultos etc. Entretanto, independente dessas variáveis, a re- ligiosidade está presente no discurso de todos e a religião, junto com a família, é considerada central na vida dos entrevistados!

 

“Mil por cento! Se você não tiver essas duas coisas (Deus e Família) conciliadas, ao mesmo tempo, não dá muito certo não. Vai meio que ‘balangando’.. Você entendeu? Você tem que ter essa estrutura, essa fé. É o que te anima, cara, pra você enfrentar o dia a dia, os problemas do cotidiano.

(Gênero masculino, 50 anos, negro – Faixa de renda 3)

 

“Tudo aquilo o que você me perguntou antes de família, lá na igreja é a verdadeira família: aquela te liga, que chega no domingo senta no chão almoça, janta, que fala dos problemas. Que se você estiver passando por um problema, uma situação difícil, ele vai, não meu irmão, a gente vai te ajudar. Vamos vê o que a gente faz, a gente vai te ajudar, se você estiver precisando de uma cesta básica todo mundo corre. Cada um traz um açúcar, um café, um exemplo, é isso, para mim família é isso é a religião

(Gênero masculino, 41 anos, branco – Faixa de renda 2)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

A religião cumpre três funções fundamentais:

 

Fornece principal espaço de sociabilidade, que dá sentido de comunidade, de per- tencimento e acolhimento, constituindo uma rede de apoio e solidariedade: destaca-se aqui a importância comunitária da religião na periferia. A carência de equipamentos gratuitos de lazer na periferia faz com que a programação das igrejas sirva como atraente para o tempo livre de nossos entrevistados.

 

Acreditam que quanto maior a escolaridade melhor é o emprego: por isso, maioria demonstra vontade de voltar a estudar, fazer cursos técnicos, faculdade. Esse desejo é mais forte entre os entrevistados de meia idade (faixa dos 24 a 44 anos)

 

Funciona como “selo de honestidade e idoneidade”: demonstra para os outros que você tem bons valores, que escolheu o caminho correto. Em bairros violentos, por exemplo, estar com a bíblia embaixo do braço os assegura crédito de confiança para a comunidade e para o poder público (polícia).

“Te faz sempre ficar no caminho correto, não desviar do caminho as coisas tá difíceis se você não tiver Deus as coisas ficam mais difíceis ainda. Então, Deus sempre!

(Gênero masculino, 32 anos, negro – Faixa de renda 2)

“Ia muito com minha avó, frequentava a pastoral da criança… tinha pintura, bingo, tinha festinhas… Eu ia muito!
(Gênero feminino, 19 anos, negra – Faixa de renda 2)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

DO PONTO DE VISTA DOS VALORES, NÃO APARECEM DIFERENÇAS RELEVANTES EN- TRE OS CRISTÃOS. DA MESMA FORMA, POUCOS SÃO OS QUE DEMONSTRAM PER- CEBER DIFERENÇAS MARCANTES ENTRE AS RELIGIÕES…

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO
1. Apresentam uma prática menos ‘conservadora’ do que o discurso associado às igrejas:

Entrevistados religiosos tem a dimensão do pecado e do que ‘é certo e errado’, mas aparentam certo nível de tolerância para com o que consideram desvios.

Diferente do que supõe o senso comum, surgem vozes em defesa da autonomia das mulheres, em defesa do respeito às várias identidades e orientações sexuais, entre outros. Jovens apresentam tendências ainda mais liberais que mais velhos.

 

OS DISCURSOS RELIGIOSOS NÃO SÃO ABSORVIDOS EM BLOCOS MONOLÍTICOS E RÍGIDOS, HAVENDO ESPAÇOS DE PERMEABILIDADE A OUTRAS VISÕES E NARRA- TIVAS EM CIRCULAÇÃO NA SOCIEDADE.

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

2. As diferenças entre as religiões não são fundamentais. Rotatividade entre as igrejas é alta: entrevistados admitem migrar de Igreja sem constrangimento, demonstrando que há, de fato, relevância maior do papel organizativo das Igrejas em detrimento do conteúdo. Os entrevistados procuram sempre por espaços em que se sintam bem, acolhidos e confortáveis.

“Ah, eu frequentava… Pra mim não tinha esse negócio de religião. Eu gostava de ir bastante na igreja, então eu já frequentei batista, adventista, evangélica…

(Gênero masculino, 27 anos, negro – Faixa de renda 3)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO
3. Maior adesão ao neopetencostalismo tem relação com elementos organizacionais:

Nas igrejas neopetencostais se estabelecem relações mais próximas, menos mediadas. Todos acreditam que a conexão com Deus se faz de forma direta, íntima, individual e personalizada. As neopetencostais oferecem um ambiente de conhecimento e reflexão que favorece esta conexão.

Além disso, estas igrejas possuem uma rede de pastores e obreiros que tentam se colocar próximos e disponíveis para dar apoio aos fiéis e, com isso, adentram a casa e a vida das pessoas. Relatos dos católicos desenham uma igreja mais impessoal, menos íntima com menos conexão com a comunidade.

“Fico mais tranquila, porque a pastora me ajuda a vigiar o facebook da minha filha.

(Gênero Femino, 32 anos, branca, Faixa de Renda 1)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

Na racionalização abstrata, vinculação entre Política e Religião é mal vista!

Maioria se opõe à ideia de um líder religioso se candidatar a cargos políticos, assim como à discursos de políticos em espaços religiosos;

Inclusive citam pouquíssimo a política enquanto um dos assuntos tratados nas celebrações. Dizem que os lideres religiosos dão conselhos para a vida, falam assuntos ligados ao cotidiano, à família, ao equilíbrio, à orientação moral…

No entanto, posicionamento crítico em relação à ligação de Política e Religiao se dá menos por um princípio de ‘laicidade’ do Estado, mas mais pelo medo de que a política “suje/contamine” os espaços religiosos: tratam com desconfiança quem se envolve com a política, como se fosse impossível estar nesse campo sem se render e participar da corrupção.

Por outro lado, alguns tendem a aprovar essa “mistura” pois homens religiosos poderiam moralizar os espaços políticos.

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

 

Entretanto, quando questionados a partir de situações concretas, a vinculação entre politica e religião fica menos questionável. Maioria não apresentaria resistência contundente em votar em políticos que o líder religioso indicasse ou em políticos que frequentam o mesmo espaço religioso que eles.

 

Mas, não parece ser na essência um voto conservador: o voto religioso aparenta se orientar mais por uma relação de proximidade do que por um sentido/motivação ideológica conservadora. O voto é para uma pessoa que está ali, compartilhando, que está próximo, que tem algo em comum, alguma identidade. E, portanto, os neopetencostais ganham destaque pois proporcionam uma relação mais direta com a religião/menos mediada.

“ Acho que não tinha que se misturar. O político rouba muito, líder da igreja eles vão acabar pecando lá, roubando…a política tem muita sujeira assim.

(Gênero Feminino, negra, 21 anos – Faixa de renda 2)

“Votei em alguns pastores, [porque] eu acho que eles não roubariam“

(Gênero feminino, branca, 36 anos – Faixa de renda 1)

RELIGIÃO E OS LIMITES DO ESTADO LAICO

Ainda sobre a religião, é importante destacar:

1. Não apareceu, em nenhum perfil religioso, comportamentos completamente ‘acríticos’: todos apresentam criticidade em relação à fé cega e não levam a ferro e fogo a palavra do líder religioso, mas admitem que conhecem gente que se enganou com a monetarização da fé.

2. A principal desconfiança aparece em relação a pedidos de dízimo e contribuição financeira muito ‘descarados’: funcionam inclusive como parâmetro para distinguir entre igrejas mais ou menos sérias dentro do universo neopentecostal.

Os religiosos apresentam um “caldo cultural ideológico” muito diverso. Há multiplicidade de visões, posições e posturas críticas em relação à religião e permeabi- lidade a outras narrativas em circulação na sociedade.

 

Ser adepto de uma religião não necessariamente se reverte na adesão plena a um conjunto específico de valores conservadores religiosos que irão, automaticamente, orientar ou se fazer refletir nas escolhas eleitorais

“Se eu der o dízimo, é um dinheiro que eu gasto no mercado, velho. Eu não vou dar o dízimo, eu vou dar um pouquinho que não vai me fazer falta. Mas também não vou dar pra igreja e comer ovo o mês inteiro. Entendeu? Eu dou a minha parte, eu dou a minha fé, mas não vem mandar eu dar 10% não. 10 % é muita coisa”

(Gênero feminino, branca, 36 anos – Faixa de renda 2)

EIXO TEMÁTICO IV:
PERCEPÇÕES POLÍTICO INSTITUCIONAIS

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

A política como ferramenta de mudança social está em processo de descrédito, chegando, em alguns casos, a ser até criminalizada:

 

A política institucional é ‘suja’, ‘cheia de gente mau caráter!’

Os políticos são vistos como simples usurpadores, que não cumprem com seus deveres em relação às necessidades dos cidadãos e, ainda, buscam somente a busca de vantagens pessoais.

Nesse sentido, a corrupção é indicada, de forma quase unanime, como sendo o principal problema do Brasil na atualidade, já que além de uma ser um mal em si, é também causa dos demais problemas existentes no país: desemprego, violência, péssima qualidade

 

Tem que jogar tudo no lixo e fazer tudo de novo, porque está tudo contaminado, tudo estragado!

(Gênero Feminino, 30 anos, branca – Faixa de renda 2)

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

A política é suja e gera revolta e desconforto falar sobre ela, porém, todos sabem que ela influencia em suas vidas, para o bem ou para o mal:

Justamente por dependerem do acesso a serviços públicos em seus cotidianos (transporte, escola, saúde, benefícios, programas e políticas sociais), maioria sabe que os governos, as decisões políticas e as políticas públicas influenciam em suas vidas.

Decisões erradas e gestões ruins podem gerar impactos muito negativos em suas vidas: inflação, aumento de preço etc…

Há quem cite como influência da política em suas vidas, apenas a alta cobrança de impostos.

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

DESMORALIZAÇÃO DA POLÍTICA

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

A solução passa por processos de:

Moralização – Via tomada dos espaços por gente de caráter, boa, comprometida. A maioria entende que o ideal seria ter um partido
único, composto pela reunião dos melhores e mais idôneos políticos das várias legendas e que funcionaria como “organização suprapartidária” – o que eliminaria brigas de poder e garantiria união em torno da meta de trabalhar pelo bem estar da população – já que não há diferenciação ideológica; já que não há conflito de classes.

‘Só precisa de gente do bem a fim de trabalhar’.

Aplicação da eficiência do mercado ao Estado: Como tônica mais geral, a amostra pa- rece desejar uma atuação mais integrada entre poder público e iniciativa privada em favor da coletividade – o que talvez abra portas para que discursos sobre parcerias e terceirizações soem mais atraentes.

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

Embora se conceda maior credibilidade ao mercado, não anula uma certa demanda pela presença do Estado como instituição auxiliar para a garantia de igualdade de oportunidades:

Alguns ‘direitos’ já estão cristalizados e não são negociáveis: o Estado é fundamental para reduzir desigualdades e garantir serviços básicos, como saúde e educação.

Políticas feitas pelo PT, Bolsa Família, em especial Prouni e FIES, são valorizadas e consideradas necessárias. No entanto, são vistas como insuficientes frente ao déficit na Educação; e falhas existentes, pois podem beneficiar quem não precisa – precisa de mais fiscalização para conter ‘injustiças’ (principalmente no caso do BF)

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

 

Há menos a presença de um neoliberalismo enraizado ou de um conservadorismo no sentido estrito e mais de um liberalismo particular das classes populares, que precisa ser melhor compreendido. Tem a igualdade de oportunidades como ponto de partida e a defesa do mérito como linha de chegada.

 

Trata o mercado como instituição mais crível que o Estado, a esfera privada mais relevante que a pública e cultiva mais o individualismo que a solidariedade. Tem como valores prioritários o sucesso, a concorrência, o utilitarismo e mercantilização da vida.

Porém, reconhece a importância de um Estado eficaz em reverter impostos em serviços de qualidade e em reduzir desigualdades.

“Eu acho que um primeiro passo, de repente é você usar o dinheiro do imposto, o dinheiro que o cidadão paga, para efetivamente você investir no país […] Eu acho que algumas coisas você precisa ter um tipo de imposto alto e pra outras nem tanto, mas independente se é o valor alto ou baixo esse valor tem que ser devolvido à sociedade.

Gênero Masculino, 30 anos, branco – Faixa de Renda 2)

PERCEPÇÕES POLÍTICO-INSTITUCIONAIS

Do mesmo modo que ocorre em outros temas, as percepções sobre as funções e responsabilidades dos partidos políticos no nosso sistema partidário também não são claras para a maioria:

Maioria entende que os partidos políticos servem para lançar candidatos e governar o país, mas poucos citam a luta por ideais em comum ou a construção de um projeto político com afinidade ideológica.

As nuances de posicionamentos entre eles não é clara e muitas vezes declare-se que não existem diferenças.

CONCLUSÕES

CONCLUSÕES

No imaginário da população não há luta de classes; o ‘inimigo’ é, em grande medida, o próprio Estado ineficaz e incopetente, abre-se espaço para o ‘liberalismo popular’ com demanda de menos Estado.

A dimensão da vida pública é muito rarefeita e quase sempre a noção de “público” é tratada como sinônimo daquilo que é “de graça”. Nesse sentido, a própria relação com a esfera pública está mediada por interpretações mercantis.

Em muitos casos, a visão de mundo é formada se espelhando não entre aqueles que pertencem ao mesmo grupo, mas entre aqueles que pertencem ao grupo onde esses indivíduos almejam chegar, é fundamental observar os desejos e as expectativas futuras dessas pessoas.

CONCLUSÕES

A ascensão social está relacionada à coragem, ousadia e disciplina e é tratada como um resultado individual derivado da força de vontade. Muitas vezes isso significa estabelecer um sentimento de solidariedade mais estreito com os próprios emprega- dores do que com aqueles que partilham a mesma condição de classe. Nesse sentido, a resiliência, mais do que a resistência é um valor positivo.

A lógica mercantil está presente mesmo na interpretação dos direitos trabalhistas e benefícios sociais. As pessoas confiam mais nos programas que ofertam imediatamente recursos financeiros (Bolsa Família/Passe Livre) do que nas leis que orientam direitos.

Há uma busca por identificação com histórias de superação e sucesso, é nessa medida que figuras tão díspares como Lula, Silvio Santos e João Dória Jr. aparecem como exemplo. Em muitas circunstâncias a figura de Lula é admirada menos pelas politicas que o governo dele implementou, ainda que essa seja uma dimensão importante, e mais porque ele próprio é um bom exemplo de ascensão social.

CONCLUSÕES

Na trajetória e no desejo de ascensão os “estudos” e não necessariamente a educação aparece como um elemento fundamental; de forma análoga a igreja aparece menos na sua dimensão teológica e mais como instituição de apoio para minimizar ou evitar o risco de seguir pelo caminho errado da desocupação e da criminalidade.

Voto religioso não é, estritamente, um voto conservador. Os valores religiosos neo-petencostais podem se relacionar com elementos fundamentais organizativos da vida do trabalhador (meritocracia, teologia da prosperidade, etc), mas não são deter- minantes. Apresentam-se mais como identidade eletiva.

O “sucesso” neopetencostal se daria mais por questões organizacionais, seu papel acolhedor e de sociabilidade na comunidade do que por questões de conteúdo ideo- lógico. Política também é vínculo, acolhimento e identidade – as igrejas nas periferias proporcionam isso.

CONCLUSÕES

Atenção para o discurso que nega o ‘mérito’ → ele é importante na construção da identidade. A dimensão da vida privada é central para a constituição da subjetividade do indivíduo. O campo democrático-popular precisa produzir narrativas contra-hegemônicas mais consistentes e menos maniqueístas ou pejorativas sobre as noções de indivíduo, família, religião e segurança.

Novas pesquisas: investigar mais o papel da religião e explorar mais a diferença sobre elas.

Este cenário de descrédito da política, compreensão do Estado como máquina ineficaz somada à valorização da lógica de mercado e a ideologia do mérito abrem espaços para candidatos e projetos como o do João Dória ‘um não político, gestor trabalhador que ascendeu e, por isso, não vai roubar’

MAS… entrevistados seguem acreditando em saídas democráticas, falam em fortalecimento dos processos de transparência e participação. No processo de formação de opinião, as condições materiais de vida e do cotidiano são preponderantes.

 

A reforma que contem todas as outras

27 de junho de 2018 § 16 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 27/6/2018

Em matéria de reforma de instituições a ordem dos fatores determina o resultado. O erro fundamental dos criticos do desastre brasileiro está em não discernir o que é causa do que é consequência do desvio essencial que produz e reproduz as instituições tortas que temos. Primeiro que esse “tortas” depende de quem olha. Para a “1a classe” elas estão funcionando exatamente como foram desenhadas para funcionar, menos pelo exagero do seu “acerto”. Mas da “2a classe” para baixo, perdem-se todos em desenhar, cada um segundo a sua área de especialização ou a ordem de prioridades com que elas afetam a sua atividade, listas de reformas tão extensas que no final, todos, mesmo os mais convictos da necessidade de cada uma delas individualmente, recuam de forçar o desencadeamento da mudança porque o país é um avião em voo, a vida é uma só e o risco de fazê-lo parar no ar é sempre maior que o de continuar voando mal.

É isso, mais que tudo, que tem garantido a continuação do que está aí.

Instituições servem a quem as desenha e detem o poder de instituí-las. E é isso, essencialmente, que está errado e precisa mudar no caso brasileiro. Se é o povo que queremos servido, é ao povo que devemos entregar a tarefa de desenhar e redesenhar; instituir e desinstituir as nossas instituições. O que nos faz falta é conquistar os meios de errar e aprender com nossos próprios erros em vez de seguirmos tangidos pelos erros alheios para encalacradas “petrificadas” no tempo e no espaço ou, definindo mais precisamente o que ocorre aqui, sendo obrigados a tragar eternamente os acertos dos bandidos para viver às nossas custas enquanto mantêm-nos impotentes para fazermos nossas próprias escolhas.

A unica instituição definitiva, deve ser a que estabelece o modo de promover e legitimar mudanças. Tudo mais deve ser desenhado para facilita-las mesmo porque toda “solução” é só o início do próximo problema e é de fundamental importância ter essa transitoriedade em mente pois o que determina a sobrevivência na arena da competição planetária, hoje como sempre, é a velocidade de adaptação à mudança.

Nunca foi fácil promover mudanças coordenadas e pacíficas. Na era da comunicação total, ironicamente, ficou ainda mais difícil. Estamos na idade do ouro do rancor. O ódio é o novo ópio do povo. O Google transforma os mais insignificantes deslizes do comportamento humano em manadas de dinosauros galopando desenfreadamente pela rede para todo o sempre, direcionados com a persistência dos algorítmos e a precisão do “microtargeting” para pisotear o nervo mais sensivel de todos que, no passado, no presente ou no futuro, manifestarem o menor sinal de sensibilidade a eles. Este viver sem o esquecimento cria tribos que as “polícias do pensamento” atiçam umas contra as outras, o que desperdiça toda a energia da cidadania em aprisionar em modelos institucionalizados comportamentos que, por definição, só podem ser realmente livres no espaço infra-institucional. E isso desvia o foco da coletividade da única condição que nos une a todos que é a de súditos semi-escravos da “1a classe”.

Nunca houve acordo com relação a um destino final de chegada para toda a humanidade e, desde sempre, “autoritário” é quem tenta impor o seu e “totalitário” quem criminaliza o destino escolhido pelo outro, seja um governo, uma ferramenta privada ou os dois juntos o instrumento dessa imposição. É perfeitamente possivel, no entanto, alcançar um denominador comum em torno de um “manual de navegação” das águas agitadas da diferença. A democracia moderna nasce exatamente da aceitação madura e tranquila da ausência de certezas. E a genialidade do sistema está em criar um arranjo de instituições absolutamente estaveis e seguras para dar a cada um a condição de processar do seu jeito a instabilidade e a insegurança inerentes ao estar vivo sendo parte de numa sociedade.

No sistema verdadeiramente democrático a única instituição “imexível” é a que define quem, exatamente, representa quem no panorama institucional, e os mecanismos de processamento das mudanças que podem e devem ocorrer em todas as demais ao sabor da necessidade. Como toda forma de governo, a “democracia representativa” também é uma hierarquia. E que os representados mandam nos representantes é uma noção inerente ao conceito de “representação”. A fórmula que permite operar essa hierarquia para a mudança com agilidade, segurança e legitimidade é a inventada pelos suiços ha mais de 700 anos que metade do mundo copiou nos ultimos 100: eleições distritais puras (federalismo) com retomada de mandatos (recall) e referendo de leis dos legislativos por iniciativa dos representados a qualquer momento.

É essa a reforma na qual o país tem de concentrar suas forças. Todo o resto com isso se constrói.

O cidadão deve ser o imperador absoluto da sua área de residência. A menor instância eleita de representação deve ser o conselho de direção da escola pública do bairro, constituido por pais de alunos moradores dele encarregados de gerir o dinheiro dos impostos que pagam para a educação de seus filhos. Ele deve contratar o diretor e cobrar-lhe desempenho. Um certo conjunto de bairros formará um distrito municipal que elegerá o seu representante para fazer as leis da sua cidade. Uma constelação de distritos municipais constituirá um distrito estadual e destes se farão os distritos federais. Todos os eleitos devem ser demissíveis a qualquer momento e suas leis revogáveis por votações de retomada de mandatos ou referendos convocados nos seus distritos.

Com todo mundo sabendo exatamente quem é quem, então sim, cada um segundo a sua necessidade, consultados os demais eleitores do distrito, ordenará ao seu representante que escreva e reescreva leis para ter ou não “escolas com partido”, funcionários estáveis ou não e mais ou menos bem pagos, impostos mais leves ou não, e para quê, juizes com mais ou menos poder de arbitrio, o crime tratado assim ou assado, constituições mais ou menos “petrificadas”, pessoas com mais, com menos ou com nenhuns “direitos adquiridos”.

Acaba o papo furado e a verdade passa a imperar.

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