A denuncia dos denunciantes

22 de maio de 2017 § 21 Comentários

   

Ricardo Molina nem bem começou o seu laudo e já matou Rodrigo Janot, Edson Fachin e a Rede Globo que está tendo o constrangimento de ter de transmitir ao vivo a prova da sua própria irresponsabilidade..

Nada a estranhar. Eles já estavam flagrados por si mesmos antes de qualquer laudo técnico e não apenas  pelo que diz respeito à gravação conforme ficou extensamente demonstrado aqui no Vespeiro e alhures. Esses personagens se suicidaram. Vamos ver se a ordem institucional brasileira tem vitalidade suficiente para providenciar a remoção dos corpos como é do interesse da saúde publica.

   

Ligar o circuit breaker – 2

21 de maio de 2017 § 24 Comentários

Deixem-me ser mais claro: a realidade do que está acontecendo não é a que aparece na imprensa. Desde que a mudança de velocidade na produção de fatos mudou e a crise reduziu, na direção contrária, as condições das redações de apurá-los por meios próprios, elas vêm, cada vez mais, sendo usadas pelas partes em luta pelo poder para disparar, umas contra as outras, os seus dossies. 99% do que se publica hoje sobre a luta política em curso no Brasil não é material apurado por jornalistas, são dossies feitos por terceiros que os detonam através de órgãos com reputações mais respeitáveis que as suas.

Quem, no meio jornalístico, ainda entra nesse jogo depois de tudo que já passamos ou está sendo otário ou está de má fé.

Eu aposto meus 50 anos de jornalismo militante que todos os políticos brasileiros de hoje estão filmados e gravados em telefonemas, encontros com “traíras” e flagrantes de relação com “operadores” por sua vez filmados entregando ou recebendo malas de dinheiro. A diferença é que só uns poucos estão publicados enquanto a maior parte continua inédita por todas as razões menos porque não existam.

Essa generalização do recurso a financiadores de campanhas “revelada” nas delações não decorre de qualquer fraqueza genética especial do brasileiro, é só a consequência obrigatória do fato de insistirmos em manter um sistema político e eleitoral que começa pelos filtros corruptores do imposto sindical e do fundo partidário que dispensa os representantes de jogar a favor dos representados, e condiciona a progressão na carreira a eleições periódicas por colégios eleitorais de extensão continental, operação que custa uma quantidade de dinheiro de que só as mega empresas com fontes de faturamento alheias à lógica econômica podem dispor.

Quem ainda está em campo na política brasileira, portanto, é porque se elegeu com dinheiro de ésleys e odebrechts. E como essa gente é o que é, todos os candidatos que eles bancam — e as exceções já morreram por falta de verba de campanha — estão gravados e filmados pedindo e recebendo esse dinheiro. Permanecerão inéditos desde que não atrapalhem o “sistema”.

Todo brasileiro sabe disso e os brasileiros que melhor sabem disso, fora os políticos, são os jornalistas. Fazer cara de vestal escandalizada a cada vez que isto de que eles estão carecas de saber que é a regra e não a exceção, vem à tona, quando não é por motivo pior, é fazer o papel de otário que deles esperam os agentes do crime organizado que iniciam esses linchamentos.

A resposta a esse desafio é desconfiar de tudo e de todos sempre. Não “abraçar” denuncia nenhuma, venha de quem vier, venha contra quem vier, mas sim tratar de desconfiar e investiga-las todas para dar a conhecer, acima de qualquer duvida, que sentido ela faz no contexto maior da guerra de quadrilhas pelo poder.

É urgente dar uma freada de arrumação. Nenhum passo a mais nessa beira de abismo até que todas as forças que nos empurraram até ela estejam clarissimamente identificadas e mapeadas nas suas intenções e comprometimentos. Continuar de olhos fechados agindo como eles determinarem que ajam os órgãos de imprensa é nada menos que suicídio.

 

Imprensa tem de acionar o circuit breaker

21 de maio de 2017 § 12 Comentários

Ate aqui todo o processo de exposição da nossa lenociniocracia ao sol corria por conta de um certo juiz e de um certo grupo do MPF de Curitiba. De prisão em prisão, de delação em delação, um país impedido de respirar chegou, ao fim de tres anos, até o segundo tijolo dessa estrutura: os Odebrecht e suas obras viciadas no Brasil e vizinhanças bolivariano-africanas.

O país passou a aguardar, então, o início das escavações que trariam à superfície a pedra fundamental sobre a qual apoia-se toda essa construção: a JBS, ergo BNDES e Fundos de Pensão do lulismo que, conforme o plano de Luis Gushiken comprado por Lula e Ze Dirceu em plena ressaca da Queda do Muro lá nos anos 90, acenava com quantidades de dinheiro formidáveis o bastante para bancar “um renascimento da esquerda latino-americana” pelos métodos que hoje sabemos quais foram…

Mas então, por razões incertas e não sabidas, a “investigação” deste que é o cerne, o nucleo duro de toda a conspiração identificada e descrita nas sentenças do mensalão para a consecussão da qual o lulismo destruiu o Brasil sai de Curitiba e passa diretamente às mãos do Procurador Geral da Republica.

Não demora muito e os 2ésleys ressurgem do primeiro lugar disparado da lista dos Inimigos Públicos transmudados em “policias-secretas” a serviço da PGR. E então, com as Organizações Globo escolhidas para dar “o furo” da vez em modo “força total adiante“, detonam sobre nossas cabeças a “Bomba JBS“.

A partir daí, tudo se precipita em velocidade de avalanche.

Tendo ido dormir com os sinais vitais da economia ressuscitados ao fim de três anos de coma pela perspectiva muito concreta de vitória das reformas trabalhista e previdenciária no Congresso, o país acordou com todas as alternativas ao lulismo reduzidas a pó, imerso no pesadelo de ter uma eleição convocada em 30 dias após a remoção de um Michel Temer sangrando das punhaladas recebidas e com os 2ésleys declarados impunes para todo o sempre … e com uma gorda bolada de dólares fresquinhos a mais no bolso angariados com o pânico que sabiam de antemão que a sua perfídia desencadearia.

AS LINHAS CRUZADAS

DO dr. JANOT

Tudo nessa história cheira fortemente a Venezuela.

Antes mesmo de ser publicada a gravação Joesley x Temer, duplamente desclassificada como prova pelas leis vigentes por ter sido obtida de forma clandestina e sub-reptícia e por ter sido editada dentro da própria PGR, pois não ha hipótese disso ter acontecido de outro jeito, ja estava aceita e sacramentada “como prova” por ninguém menos que o ministro Edson Facchin, o caçador de mandatos do STF.

Neste sabado, lá num canto do Estadão, vem a informação, apurada por Vera Magalhães, que dá a chave definitiva para se compreender com o que é que estamos lidando.

No dia 6 de março passado, véspera do ésley Jo entrar no Palácio do Jaburu com um gravador escondido na roupa e um roteiro bem estruturado na cabeça, o procurador Marcelo Miller, braço direito de Rodrigo Janot e figura de proa da equipe por ele arregimentada em 2013 para atuar na Lava Jato, anuncia aos colegas que está deixando a profissão e a carreira de promotor.

É um choque. É ele quem estava por tras de todas as etapas desse processo que se apoiaram em gravações clandestinas. As de Sergio Machado, o operador de Renan Calheiros na Transpetro cuja demissão foi expressamente exigida pela Price Waterhouse como condição para aprovar o balanço da Petrobras de três anos atras que, na iminência de ser preso por seus crimes, ligou para deus e todo mundo dentro do PMDB com conversas tão bem ensaiadas quanto a do ésley Jo com Michel Temer, e gravando tudo; as de Bernardo, o filho de Nestor Cerveró, que gravando conversa igualmente capciosa e bem ensaiada em que se vê apanhado em trampa mortal o ex-senador Delcídio Amaral…

Mas dura pouco a surpresa dos seus colegas. A partir do dia seguinte Miller reaparece contratado por Trench, Rossi & Watanabe Advogados, do Rio de Janeiro, o escirtório — adivinhem! –contratado pelos 2ésleys para negociar com a Procuradoria Geral da Republica os termos do acordo de leniência do grupo JBS.

O inefavel dr. Janot, ouvido por O Estado de S. Paulo sobre o que foi negociado entre ele e seu ex-pupilo que mudou de lado em favor da JBS, manda dizer a quem interessar possa que não ha conflito nenhum pois “existe uma cláusula no contrato de leniência determinando que ele não pode atuar pelo escritório (que para essa finalidade o contratou) nos acordos com a JBS“.

É tão descarado o desplante que segue-se um noticiário ainda muito confuso do qual depreende-se que um outro ramo do próprio Ministério Público não aceitou o golpe, exigiu da JBS uma multa de R$ 11 bilhões, 44 vezes maior que a que lhe tinha imposto o dr. Janot, e deu-lhe pouquíssimo tempo para pensar no assunto. À meia noite de sexta-feira declarou o prazo esgotado e os 2ésleys sujeitos, de novo, às penas por seus crimes. Agora temos duas ordens em vigor: a de Janot mandando soltar e a do MP revogando a primeira.

Escaldado com a política o Brasil vinha aprovando pelo avesso as reformas de Temer ao negar tão ostensiva e persistentemente a sua participação em todas as tentativas feitas de sabota-las e condena-las nas ruas que nem o Congresso Nacional conseguiu encontrar meio de não entender o recado. Na véspera da votação explode a “Bomba JBS“.

Não cabe especular aqui quanto tem havido de dolo ou de ingenuidade bem intencionada no comportamento de todos quantos contribuiram para fazer essa explosão provocar todo o estrago que provocou e continua provocando. Nos estamos na iminência de ultrapassar o ponto de não retorno. A hora é de por o pé no breque e passar a investigar essa investigação evitando a todo custo deixarmo-nos envolver por silogismos idiotas como estes em que embarcou a OAB para jogar o seu punhado de pólvora nessa fogueira, apenas porque os canais de “news” funcionam 24/7 e é preciso continuar falando e fazendo falar do assunto sem parar.

A imprensa tem de ligar o “circuit breaker” sem medo de não tirar nem pedir conclusões até que tenha informações suficientemente claras para saber exatamente o que está fazendo.

Janot vai para o banco dos réus?

20 de maio de 2017 § 27 Comentários

Michel Temer está ressuscitando…

Estava começando a escrever aqui que, vistas inúmeras vezes as cenas dos depoimentos dos ésleys e sua turma na PGR tive várias vezes a impressão que interrogadores e interrogados estavam numa encenação quando a FSP de sábado chegou às bancas com uma matéria bombástica.

O perito Ricardo Caires dos Santos, do TJSP, analisou a gravação Joesley x Temer e detectou “mais de 50 pontos nos quais ela foi editada“, alguns deles dos mais capciosos.

Em duas das respostas de Temer nos trechos que se referiam a Eduardo Cunha, por exemplo.

Estas:

Tá… Ele veio [corte] tá esperando [corte] dar ouvido à defesa.. O Moro indeferiu 21 perguntas dele… que não tem nada a ver com a defesa dele

Era pra me trucar, eu não fiz nada [corte]… No Supremo Tribunal totalidade só um ou dois [corte]… aí, rapaz mas temos [corte] 11 ministros“.

Ha mais de 40 interrupções sobre as quais o perito diz que “não dá pra dizer se são cortes ou defeitos do gravador“.

Um único corte numa gravação já é bastante para anulá-la como prova.

A matéria esclarece, também, a cronologia dos acontecimentos: o áudio do Jaburu foi gravado em 7 de março; a gravação nunca passou pela PF, foi feita, “processada” e divulgada por conta exclusiva da PGR do dr. Janot; a PF só foi chamada a entrar no caso em 10 de abril.

As tais “ações coordenadas“, das quais a gravação é a maior, foram portanto decididas, combinadas com Joesley e autorizadas apenas e tão somente pela PGR e ANTES dos depoimentos que as TVs estão mostrando agora.

Já tinha ficado registrado aqui que o que sustenta aquela gravação é um longo monólogo de Joesley cuidadosamente estruturado para contar duas ou três histórias diferentes e registrar vários nomes de envolvidos, como se tivesse sido pensada para instruir um processo e caracterizar os dois únicos crimes que podem derrubar um presidente — obstrução de justiça e crime cometido no atual mandato — e que a participação de Temer resumia-se a três ou quatro frases e mais um monte de monossílabos. Agora informa-se que mesmo estes foram editados.

Como e porque os 2 milhões de reais de Aécio tiveram prioridade nos grampos da PGR e em suas “ações coordenadas” sobre as dezenas de outros episódios cabeludérrimos delatados, entre os quais os 150 milhões de dólares postos numa conta direta para Lula e Dilma no exterior, é outro aspecto que, depois de ouvidos os vários depoimento, chama a atenção. Saud, o operador do departamento de propinas da JBS, chega ao exagero de, lá dentro da salinha de interrogatórios da PGR, levar fotos ampliadas em duas folhas da fachada da casa de Aécio e a ampliação de um outro documento que, nitidamente, exibia para a câmera e não para os seus inquisidores.

Para que? Não havia nenhuma necessidade disso para se fazer entender por eles.

Em vários outros momentos interrogadores e interrogados se substituem acrescentando pedaços de uma mesma história, como se já a tivessem ouvido antes. Coisas tipo: “E aquele episódio X, como foi mesmo…“, e Joesley emendava. Pelas reações tranquilas e burocráticas dos inquisidores tudo soava, não como a exposição de novidades surpreendentes e chocantes como de fato eram para quem as ouve pela primeira vez como é o padrão dos interrogatórios do juiz Moro que têm sido divulgados, mas um relato montado “para o público“.

Cabe, de qualquer maneira, perguntar como a PGR do dr. Janot se resolveu a montar a mãe de todas as “ações controladas“, com Joesley se insinuando na residência do presidente da República para falar “por acaso” precisamente nos assuntos que poderiam levar à caracterização dos dois únicos crimes capazes de derrubá-lo se ele e quem o instruiu não soubessem de antemão exatamente o que queriam colher?

Michel Temer certamente não é santo e ir parar na Presidência da Republica não revogaria nem o seu passado, nem a sua cultura, assim, por encanto. Mas que ele pôs o que aprendeu por maus caminhos a serviço de uma boa causa essencial para o Brasil num momento de agonia é, pura e simplesmente, fato.

Tudo que os ésleys contam sobre como foram sendo empurrados a servir 1829 políticos e candidatos de 29 partidos com cerca de meio bilhão de reais em poucos anos é claramente verdadeiro, inclusive as partes que afetam Michel Temer. O que não é verdadeiro nos depoimentos deles é exatamente o que não disseram nem lhes foi perguntado pelos auxiliares do dr. Janot sobre o homem (e seu “poste“) que lhes proporcionou saltar de um faturamento de 4 bi para outro de 170 bi em sete anos, como seria de se esperar. A PGR só estava especialmente interessada nos R$ 2 milhõezinhos de Aécio Neves.

É a mesma técnica de mentir – por omissão – que a imprensa usa porque trombar de frente com a verdade num registro histórico que pode ser conferido e desmascarado logo adiante seria só uma burrice.

Essa história está esquisita por qualquer ângulo que se olhe desde o primeiro minuto. Hoje veio a notícia que tornou essa esquisitice oficial. O MPF (a turma do Moro) não aceitou a libertação com uma multinha de amigo (menor que o que ganharam operando com dólar a repercussão da sua própria “bomba“) com que a PGR tinha liberado os ésleys, e impôs-lhes, por cima do dr. Janot, uma multa de R$ 11 bilhões que eles recusaram pagar. À meia noite de ontem expirou o prazo para um acordo de leniência com o MPF (e pode-se negociar um na PGR e outro no MPF?) pelo que, os 2ésleys podem acabar, nos próximos dias, virando no mínimo fregueses da Interpol como merecem duplamente depois da covarde tentativa de assassinato contra um país agonizante de que se permitiram tornar protagonistas para se livrar a preço de ocasião de 10 anos de falcatruas e da apropriação indébita de dezenas de bilhões de dinheiro público.

Pelo rumo que a coisa tomou agora, pode ser que eles não sejam os únicos a serem obrigados a trocar de assento, da banca da acusação para o banco dos réus.

E o vidão dos ésleys, seguirá intacta?

20 de maio de 2017 § 19 Comentários

Depois de ouvidas as gravações – 3

19 de maio de 2017 § 8 Comentários

O governo Temer está morto. Aquela gravação é letal e o que ha de menos grave nela é a questão Eduardo Cunha cujo destaque foi forçado para caracterizar os dois elementos que, tecnicamente, podem sujeitar um presidente a impeachment: obstrução de justiça e crime cometido durante o exercício do mandato. Toda essa operação foi armada para essa finalidade e isso foi o que melhor se encaixou no figurino técnico exigido. Mas o resto da conversa é bem pior que aquele trecho.

Que o que determinou a escolha do momento para trazer tudo isso que já estava guardado ha tempo nas gavetas dos operadores do “sistema” à tona não foi o amor à justiça mas sim a perspectiva de aprovação iminente das reformas que, pela primeira vez na história, arranhariam de leve a incolumidade dos marajás não tem dúvida nenhuma. Voltamos à estaca zero mas por pouco tempo. Mesmo mostrando, como mais uma vez mostraram, quem é que de fato governa o Brasil, lição de que a nação não se esquecerá ao longo do pesadelo que vem aí, terão de dobrar o lombo e voltar a discuti-las, e logo, porque a alternativa agora é a morte.

Esse serviço, venha o que vier, Temer prestou à nação. Com todas as reservas com que tentou inutilmente evitar colidir de frente com o “marajalato” (que nem no dia de ontem conseguiu encher uma praça inteira pelo país afora) está sabido e re-sabido por deus e o mundo o que é que está matando o Brasil.

É, também, horrivelmente fascinante para quem viveu as redações no tempo em que tudo era, antes de mais nada e acima de tudo, referido a isso, como o Brasil “não é matéria” para quem vive naquela longínqua estação espacial chamada Brasilia, seja os que têm por função mandar-nos as chuvas de raios lá daquele Olimpo, seja os que estão lá apenas para cobrir a vida desses semi-deuses malignos.

Aquela doença pega! Uns com mais outros com menos dolo, ninguém perde uma frase que seja com as hemorragias que possam nos causar. Todos os lados entregam-se com uma volúpia quase sexual às emoções  da luta pelo poder como se elas não implicassem nada mais que abstratas substituições de peças em Brasilia.

É preciso, agora, aprender a “ler” esse novo/velho Brasil. Como nunca ha uma genuína novidade de que ninguém nunca tivesse suspeitado antes nesse sistema onde abrir um partido político (ou um sindicato) garante automaticamente vida mansa paga pelo governo e qualquer candidatura tem de pedir votos em áreas quase continentais, o verdadeiro FATO a ser considerado por quem estiver interessado em saber quem é que está movendo quais pauzinhos nessa nossa eterna briga de navalha no escuro é sempre EM QUE MOMENTO se usa aquilo que todo mundo sempre soube mas, segundo o jogo das cumplicidades, fingia não saber. Olhar a coisa por esse viés do MOMENTO DA DESOVA é sempre elucidativo. A segunda chave para a compreensão da verdade é a tradicional de que falava sempre Sherlock Holmes: a quem interessa o “furo” passado ao órgão de imprensa da vez (na atual quadra dos acontecimentos, tendo em vista 2018).

Isso posto, vamos às gravações.

Aécio foi mesmo um acidente de percurso. Mas um acidente fatal. Ele não é nem muito melhor, nem muito pior do que o que está à sua volta (resista sempre ao barulho ou seu cérebro vira massa para escultura!) mas tornou-se uma questão definitivamente resolvida. Não tem remissão.

Já a gravação Joesley x Temer parece, em primeira audição, menos inofensiva do que seria bom para o Brasil e do que fazia crer a confusa descrição dela feita por O Globo. Para o que interessa, que são as reformas, nada se alteraria mais depois da simples detonação do tiro, não importa onde a bala viesse a acertar. Essa é a parte que interessa a quem puxa o gatilho e, exatamente por isso, também a que informa quem quer o quê para o país real, e porquê. O debate entre os eruditos dos meandros da corte que vem na sequência deve às vezes entediar, às vezes divertir esses “atiradores“.

Mesmo assim, “morta Inês”, examine-se o cadáver. O caso só não é absolutamente claro ainda porque o que está lá é um longo monólogo de Joesley cuidadosamente ensaiado para instruir processos em torno de três ou quatro histórias diferentes com todos os seus personagens, entremeado por murmúrios quase sempre inaudíveis de Temer. O que é inteligível é suficientemente pesado mas o contexto é o que lhe dá o último sentido; a mala de dinheiro no final é o “fio terra” que “arruma” tudo.

Aí pode, no limite, haver uma trampa. Excepcionalmente desta vez, porém, existe uma maneira de tirar isso 100% a limpo. É ir saber, na Petrobras e no Cade, qual era a situação do contrato de fornecimento de gas para a alteração do qual Joesley teria pedido a ajuda de Temer. Checando qual foi a alteração havida no contrato, se é que houve alguma, e em que valores resulta essa alteração, ficaremos sabendo se a “semanada” de R$ 500 mil ao longo de 20 anos realmente faz sentido e se já estava mesmo na hora dela começar a ser paga. E isso nos dirá não só quanto Temer tem ou não tem a ver com isso como também, se tiver, se não será obrigatório reverter uma “correção” que precisou ser comprada por tanto dinheiro.

Afinal, não lhe parece que está fácil demais para os ésleys livrarem-se de tudo que fizeram e embolsaram do que era nosso só com uma cartinha de desculpas e mais o que lucraram com sua última “aquisição“, possivelmente ilegítima, junto à Petrobras e com as gigantescas posições em dólares que, enquanto nos falavam de seu “choque” com a corrupção do Brasil, eles trataram de montar meia hora antes de O Globo detonar a bomba que eles fabricaram?

Um dia talvez o país ainda ouça as fitas onde os dois meliantes combinam com os verdadeiros donos do poder cada passo da tocaia que acabou nesse tiro de misericórdia na nuca do Brasil, e possamos ir busca-los nos palácios em que estiverem, mundo afora, gastando o nosso dinheiro, para dar-lhes o que eles realmente merecem.

Decompondo as matérias de O Globo

18 de maio de 2017 § 19 Comentários

O que ha de menos consistente na “delação” dos 2ésleys vazada para O Globo é a frase atribuída a Michel Temer que foi parar na manchete das 4 páginas de cobertura e 7 de repercussões e matérias de arquivo preparadas pelo jornal. Muito mais significativos que os descritos são os fatos que se pode depreender interrogando os primeiros e da velocidade vertiginosa com que, sob esse pretexto, se vão precipitando outros, consumados.

Senão vejamos:

  • Foram Jo e W-ésley que procuraram Temer e não o contrário, “para pedir que intercedesse junto à Petrobras que estava cobrando um preço abusivo para revender o gás importado da Bolívia usado num de seus açougues de frango”;
  • Temer teria indicado o deputado Rocha Loures para fazer a embaixada mas ele não foi falar com a Petrobras mas sim “com o Cade”.
  • Como “propina” por ter conseguido o “favor” ele teria cobrado R$ 500 mil por semana durante 20 anos!! O que o Cade tem a ver com Petrobras e o gás da Bolívia não está explicado na matéria, nem se o favor obtido foi mesmo baixar a conta de gás que, para valer tudo isso, teria mesmo de ser gigantesca
  • Os ésleys concordaram em pagar tudo isso e, instruídos pelas autoridades que com eles se mancomunaram, filmaram a primeira entrega de R$ 500 mil a Loures.
  • No meio do pedido a Temer, Joesley, que se diz “escandalizado com a corrupção do Brasil“, com um gravador escondido sob o terno em pleno palácio do Jaburu, “comentou” que estava pagando “uma antiga divida de uma propina de R$ 20 milhões” a Eduardo Cunha pela compra de uma lei dando isenções de impostos ao setor de frango. R$ 5 milhões teriam sido pagos quando ele já estava na cadeia.
  • A operação de suborno entre os 2ésleys e Eduardo Cunha, a matéria esclarece, embora a TV Globo diga o contrário do que está escrito, não tem nada a ver com Temer que, portanto, não tinha nada a “comprar” de Cunha (como silêncio, por exemplo). Se isso está esclarecido na matéria é porque foi exaustivamente esmiuçado pela fonte do Globo e pelas autoridades da PGR, do MPF e da PF que arquitetaram os flagrantes, assim como pelo ministro Fachin que, segundo a matéria, já teria, ainda que não oficialmente, homologado a denuncia. Mas Temer teria pronunciado nesse momento a frase que subiu para a manchete: “Tem que manter isso, viu
  • Se os fatos são mesmo os descritos, só fazendo muita força a frase pode ser interpretada como “incentivo à obstrução de justiça” ocorrido “dentro do atual mandato”, os únicos crimes pelos quais um presidente pode ser responsabilizado. A inconsistência do ponto de partida, a tecnicalidade do “achado” e o destaque dado a um comentário no meio de uma delação que, segundo se informa, abarca “mais de 10 anos” de flagrantes contatos de mucosas entre os ésleys e os governos do PT e outros agentes públicos, não melhoram a requerida imagem de isenção de autoridades judiciárias do calibre das mencionadas como coautoras dessa estranha operação “undercover” de delatores transmutados em policiais que, ao fim e ao cabo não rendeu nada de melhor contra Temer.
  • A matéria dá como certo que “pelo que foi homologado por Fachin” os bilionários delatores não serão presos nem usarão tornozeleira, pagarão apenas, lá de Nova York onde vivem como nababos com autorização da polícia, uma multa, irrisória para os valores planetários com que foram contemplados na Era Lula, de R$ 225 milhões.
  • Emílio e Marcelo Odebrecht levaram quase um ano negociando, a OAS mais de um ano. Os 2ésleys levaram só alguns dias, lembra O Globo. Gravaram a “pegadinha” com Temer em março, fecharam as condições da delação descritas acima em abril.
  • Os maiores entre os maiores, reis de todos os reis, os ésleys são objeto de cinco inquéritos da Lava Jato envolvendo capítulos ainda inéditos e de potencial gigantesco como o do BNDES e o dos Fundos de Pensão das estatais, a força motora que empurrou todo o “fenômeno petista e bolivariano latino-americanos” das ultimas duas décadas e meia, conforme a orientação dada lá atrás a Lula e Jose Dirceu pelo falecido “companheiro Japonês”, aliás Luiz Gushiken.
  • Dada a inconsistência da principal “acusação”, o momento escolhido para precipitar o vazamento da “delação” parece ter sido determinado pelo calendário das reformas que arranham de leve os privilégios dos marajás. Usando os métodos tradicionais do “sistema”, Temer tinha cabalado os governadores e acabara de derrubar a resistência dos prefeitos renegociando suas dívidas, e as chances de aprovação do primeiro passo da previdenciária e do segundo da trabalhista no Congresso eram reais a ponto de animar um país ha muito prostrado a ter esperanças.
  • A “comemoração” havida no Congresso e nas ruas (estas magrelas como a “greve geral”) foi pelo que todos consideram como o tiro de misericórdia nas reformas. Com a repercussão que as TVs da Globo deram à matéria que “leram” e não é a que está escrita no jornal e, salvo informações adicionais, não tem consistência e requer mais investigações do que comemorações, agora ha pretexto para abortar tudo.
  • Aécio, absolutamente “flagrado”, parece ter vindo de bônus na operação. Um caso não tem nada a ver com o outro. Ele pediu dinheiro aos ésleys para pagar o advogado que o defende das outras delações, a conversa foi gravada e a entrega do dinheiro a um primo filmada. Apenas veio a calhar.
  • Segue O Globo com uma página inteira para Guido Mantega a quem os delatores atribuem, en passant, todos os contatos e movimentações dos bilhões do BNDES e dos Fundos de Pensão das estatais com que, entre 2007 e 2014, saíram de um faturamento de R$ 4 bilhões para os R$ 160 bilhões interplanetários de hoje (se é que são tão poucos). Incidentalmente, esse pormenor “isenta” Lula, Dilma e Luciano Coutinho, do BNDES, de responsabilidade direta por essas mega falcatruas…
  • A JBS foi a maior doadora da ultima campanha eleitoral quando distribuiu R$ 366 milhões de “caixa 1” confessados ao TSE. Mas tudo que vazou ontem é o que diz respeito a Temer e Aécio. Vale a libertação incólumes dos campeões dos campeões?

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