Do que vive e sobrevive o bolsonarismo

23 de setembro de 2021 § 18 Comentários

  • Anulada a prisão após condenação em 2a instância e soltos os presos pelas propinas pagas “para destruir a democracia brasileira” segundo sentença passada na Ação Penal 470 ao fim de 69 quilométricas seções do STF, a CPI das propinas não pagas pelo governo Bolsonaro, cujo relatório está sendo montado pelo advogado Kakay dos ladrões do PT, “convidado” para assessorar “o paladino da probidade na política” Renan Calheiros, prende ou “torna réus” todos quantos ganham as discussões ou apresentam provas contra seus acusadores.
  • Ricardo Lewandowski, dileto amigo da “Galega”, mulher “do cara”, suspende mais duas ações contra a associação com a Odebrecht para subornar com “mesadas” 189 deputados e senadores do “maior assaltante de todos os tempos”, segundo o Banco Mundial. Na semana seguinte, a defesa de Lula aciona a OAS para devolver-lhe os pagamentos pelo triplex do Guarujá que “não era dele”.
  • Depois da derrubada da cláusula de barreira e do financiamento exclusivamente estatal das campanhas dos “partidos politicos” sem povo decretadas pelo STF que “prende quem pratica atos antidemocráticos”, o novo código eleitoral dá R$ 6 bi às suas criaturas e restabelece as coligações entre elas.
  • Por via das duvidas, fica instituída a quarentena para juizes como Sérgio Moro e militares e policiais como os que apoiam Bolsonaro candidatarem-se em eleições.
  • Depois dos 433 votos a 7 a favor do comprovante impresso, anulados por “inconstitucionalidade”, o monocrata Barroso “convence” um Congresso recheado de réus do Supremo da inviolável virgindade da única máquina de processamento de código com essa qualidade em todo o planeta, e reduz essa maioria a 229 contra 218 votos, insuficientes para confirmar a decisão anterior e, olhando nos olhos da Nação, estabelece que “a impossibilidade de provar a ocorrência de fraudes de que se queixa o eleitor brasileiro é a prova definitiva de que nunca existiram (nem existirão) fraudes”.
  • O TSE, sob o mesmo Barroso, “investiga” quem “armou” o 7, contra a censura, as prisões de “antidemocratas”, a “desmonetização” de sites que apoiem Bolsonaro e os decretos monocráticos inconstitucionais do STF, mas não o 12 de setembro dos partidos que pregam oficialmente a substituição da execrável “democracia burguesa” pela “ditadura do proletariado”
  • Com a eleição à vista, mutirão do “Judiciário democrático” duplica a quantidade de precatórios julgados em um ano e inviabiliza o pagamento do Bolsa Família aumentado para as vítimas da pandemia.
  • O mesmo STF que acusa o “genocida” Bolsonaro de mentir quando diz que foi desautorizado quanto às decisões sobre o enfrentamento da pandemia, determina que também a decisão que vale sobre a vacinação de adolescentes é só a de prefeitos e governadores.

A lista não tem fim…

O primeiro da minha raça que aprendeu a ler aderiu aos “Caifazes” do Largo de São Francisco. Emcapuçados, invadiam fazendas à noite e soltavam escravos. Junto com Vicente de Carvalho, o poeta com cujas sobrinhas casaram-se dois de seus filhos, articulava uma rede de esconderijos onde os fugidos acoitavam-se durante o dia para, na escuridão da noite, irem “Fugindo ao Cativeiro” Serra do Mar abaixo, até o “quilombo do Jabaquara”, no litoral de São Paulo. Viveram, os dois do sangue que deu o meu sangue, a saga da Abolição que fez nascer, ajudada no parto pelo jornal que ele criou, a autêntica nacionalidade brasileira em sua libertária americanicidade.

Golpeada a Republica pela qual lutara o pai, seu filho liderou a Revolução Constitucionalista de 1932. Foi preso 17 vezes e exilado duas pelos Alexandres de Moraes de Getulio Vargas e teve seu jornal confiscado pela ditadura. Restituído ao dono, os filhos deste que, honrando “norma sagrada” instituída pelo pai empregavam em suas redações todos os fugidos de todos os regimes, desafiaram sozinhos a censura, primeiro, e “as mordomias” dos militares, mais além, em plena ditadura. Adolescente ainda fui, por mais de uma vez, deslocado de meu quarto onde esconderam-se “jornalistas antidemocráticos” procurados pela polícia e, mais tarde, já na trincheira, trabalhei tanto para contrabandear para fora do país quanto para tirar da prisão gente que se opunha ao regime.

É caminho demais para voltar atras. Minha casaca não vira, é pele, e sigo cantando, aqui da minha capoeira, que haverá sempre moicanos

Ha excelentes razões para os da minha raça oporem-se à dos Bolsonaro, mas todas elas referem-se às questões que os identificam como lídimos produtos da privilegiatura. A “esquerda” e a “direita” dessa casta são, entretanto, essencialmente iguais na defesa de tudo que define seus privilégios e requer negar o Brasil à democracia porque não se sustentam pelos critérios de justiça que configuram o estado de direito. Por isso as “diferenças” que os separam referem-se exclusivamente ao que é acessório – costumes, gênero e as múltiplas configurações da libertinagem – e transferem para essas margens toda a radicalidade e violência do que realmente está em jogo: nada mais nada menos que perenizar o “direito adquirido” de continuar vivendo da exploração vil do favelão nacional.

O Jair, dos Bolsonaro, existe pelo que não é, porque denunciá-lo pelo que é seria, para a esquerda da privilegiatura, denunciar-se a si mesma. Por isso lhe é dado viver e sobreviver exclusivamente do choque que, mesmo no mais instintivo e desinformado dos seres humanos, provoca a límpida, a translúcida, a completa e despudorada desonestidade dos seus detratores.

Como acabou a aula de democracia

16 de setembro de 2021 § 16 Comentários

Os eleitores da Califórnia rejeitaram anteontem (14/9), numa proporção de dois votos “não” para cada voto “sim”, a retomada do mandato (recall) do governador Gavin Newsom numa eleição convocada pela petição iniciada em junho de 2020 pelo sargento aposentado de polícia Orrin Heatlie que acabou apoiada por mais de 1,7 milhão de assinaturas.

Nada de monocratas ou armações de velhos caciques; o fato que detonou o processo foi a tomada de posição do governador contra a pena de morte e sua decisão de aceitar imigrantes ilegais que feriram a sensibilidade do cidadão-policial que iniciou o processo. Mas foi a chegada da pandemia e as medidas tomadas pelo governador, especialmente o lockdown do comércio e o fechamento das escolas que mobilizou contra ele mães que trabalham fora de casa, que o fez decolar.

A estratégia de Newson foi, então, “nacionalizar” a disputa colocando-a como uma tentativa reacionária do trumpismo e dos antivacina e como uma espécie de prévia da eleição do ano que vem que pode alterar o controle democrata do congresso. Isso lhe rendeu mais de US$ 70 milhões em doações para a campanha que teve participação de Joe Biden, Barak Obama, Kamala Harris e Bernie Sanders entre outros.

Orrin Heatlie

A California é um dos 19 estados americanos que admitem recall de funcionários eleitos no nível estadual. Tem 22 milhões de eleitores ativos registrados numa proporção de 2 para 1 entre democratas e republicanos que se vem mantendo ha quase duas décadas. Para retomar mandatos do Poder Executivo a petição, lá, tem de ser apresentada com 65 assinaturas. Qualifica-se então a fazer campanha pública para colher assinaturas correspondentes a um mínimo de 12% dos votos obtidos pelo desafiado na última eleição. Para os poderes Legislativo e Judiciário, o limite mínimo é 20%. Na Califórnia os juízes são eleitos e podem ser “deseleitos”, inclusive os da suprema corte estadual.

Pelo mesmo mecanismo de coleta de assinaturas os eleitores americanos de inúmeros estados e municípios podem propor leis para ser diretamente votadas por seus pares, revogar leis aprovadas pelos legisladores, aprovar ou desaprovar compras do governo ou gastos públicos, tudo no voto direto do povo.

Depois da declaração de independência, em 1776, algumas das 13 colônias originais incluiram o direito de recall em suas constituições. O assunto foi discutido na Convenção de Filadélfia, que escreveu a constituição federal, mas acabou não entrando nesta, razão pela qual, apesar de alguns estados admitirem o recall de seus representantes federais, nenhum processo tenha ido até o fim e, graças a isso, não haver ainda uma decisão da Suprema Corte. O recall no nível federal é ainda uma discussão inconclusa.

Mesmo estando em algumas constituições estaduais o recall ficou dormente por mais de 100 anos. Foi em Los Angeles, na mesma Califórnia, que foi acionado pela primeira vez em 1898 quando o médico John Randolph Haynes propôs incluir esse direito na “constituição municipal” (o “charter” da cidade), como um meio para acabar com a corrupção que a assolava. O sucesso foi estrondoso e nos 7 anos seguintes 25 outras cidades da Califórnia aprovaram medida semelhante. Em 1911 o dispositivo foi incluído na constituição estadual por lei de inciativa popular que teve adesão esmagadora.

Nos últimos 60 anos todos os governadores da Califórnia foram alvo de dezenas de tentativas de recall mas só duas chegaram a voto, a de anteontem e a de 2003 que depôs o governador democrata Gray Davies e elegeu o ator republicano Arnold Shwarzenegger em seu lugar. Até 14 de junho quando foi publicado o ultimo balanço nacional para cidades de mais de 100 mil habitantes, 164 tentativas de recall estavam em curso nos Estados Unidos visando 262 funcionários diferentes.

Esse tipo de instrumento, mas não só ele, explica porque cada eleitor dos Estados Unidos não apenas vota em papel mas é identificado pela sua assinatura manual que é conferida a cada vez que ele se manifesta. Agora mesmo, neste de Gavin Newsom, foram colhidas 2,1 milhões de assinaturas mas apenas 1,7 milhões foram autenticadas pelo Secretario de Estado, o funcionário de todos os governos estaduais e municipais dos EUA encarregado de organizar eleições, inclusive e principalmente as “especiais”, como esta, que o povo pode encomendar a qualquer momento.

Antes que o resultado oficial da eleição de anteontem seja anunciado, em 22 de outubro, ha um prazo legalmente definido para que esses conferentes chamem cada eleitor, onde houver discrepância de assinatura, para que confirme pessoalmente como votou (sim, o ministro Barroso, cuja esposa tem uma offshore em Cay Biscaine, na Flórida, está careca de saber disso)…

Não é atoa que a democracia moderna chama-se “democracia representativa”. O que acabou com a versão romana, a segunda tentativa da democracia de caminhar pela Terra, foi a expansão do território do império e a distância que os eleitores ficaram dos seus representantes. Longe do “olho do dono”, eles mergulharam na corrupção até afundar o império na dissolução que acabou nas invasões bárbaras. 

A FIDELIDADE DA REPRESENTAÇÃO é, portanto, a chave-de-ouro do sistema. E essa fidelidade apoia-se estritamente na capacidade de identificar positivamente QUEM REPRESENTA QUEM em cada instância do governo e de garantir que o representante esteja concretamente submetido à vontade dos seus representados.

Isso só é possível com o sistema de voto distrital puro onde cada município, estado e, finalmente a nação, é dividido em distritos eleitorais contendo o mesmo numero aproximado de eleitores cujo desenho só pode ser alterado com base no censo, e cada candidato só pode se candidatar por um único distrito. Eleito por maioria simples sabe-se, pelo endereço, o nome de cada representado desse representante, e estes podem lhe retirar o mandato a qualquer momento, bastando alegar, para isso, que não se sentem bem representados, desde que 50% + 1 de seus concidadãos de distrito concordem com ele.

Isso, rigorosa e sumariamente, ACABA COM A PUTARIA, e foi o truque simples que, em menos de 100 anos, depois das reformas da Progressive Era, na virada do século 19 para o 20, tornaram os Estados Unidos 50 vezes mais ricos (e livres) que todos os outros países do mundo.

É exatamente por essa razão que você ainda não sabia que esse sistema existe e como ele funciona, e que nenhum órgão da “imprensa-turba” brasileira deu uma linha sequer sobre o recall na Califórnia.

O horror do Brasil ao povo

14 de setembro de 2021 § 39 Comentários

Em 7 de setembro já tinha notado que o povo brasileiro, sempre muito melhor que suas elites, tinha sido tão ululantemente veemente com sua presença nunca antes tão maciça nas manifestações contra a ditadura que há quanto com sua ausência nas avermelhadas bateções de bumbo a favor da ditadura que a esquerda gostaria que houvesse.

O estrondoso fiasco de domingo passado – de que o PT está tentando livrar-se desde que o pressentiu no estrondoso fiasco da sua prévia do Dia da Independência – veio para confirmar: o povo brasileiro não tem nada de bobo, apenas é tratado como tal impunemente em função da síndrome de imunodeficiência democrática crônica que lhe tem sido instilada à força nas veias e o mantem exposto a infecções oportunistas recorrentes por todo tipo de agente patológico da baixa política.

Este domingo provou que ultrapassamos o marco da imunização de rebanho. Pode a imprensa-turba repetir à exaustão os seus bordões importados ou domésticos e agredir os fatos ao vivo e a cores – “O STF é o defensor do estado de direito”, “É Bolsonaro quem agride o STF”, “A impossibilidade de auditar o sistema eleitoral é a prova de que nunca houve fraude”, “Foi o congresso quem decidiu soberanamente contra a pequena minoria que desconfia da máquina de votar”, “A economia está fracassando porque Paulo Guedes não faz reformas”, “Havia 125 mil pessoas na Paulista em 7 de setembro” e por aí afora –  que ninguém mais lhe dá ouvidos. 

O que explica a resiliência do bolsonarismo passado, presente e futuro é essa desonestidade assumida e explícita do antibolsonarismo. A ditadura preventiva do STF finalmente deu uma bandeira “elevada” ao movimento, mas foi a ladroagem, nada mais que a ladroagem, do lulismo que o gerou e o pôs no poder sem a necessidade de proferir qualquer tipo de discurso propositivo. Agora com Alexandre de Moraes prendendo e arrebentando e o Trio Assombro da CPI torturando a verdade ao vivo na TV, ganhou um de inesperada grandeza: o de “defensor das liberdades democráticas”. E estão aí os presos políticos atras das grades e a censura comendo furiosa na mídia eletrônica para não deixá-lo mentir.  

Quanto Bolsonaro sonha com democracia ou sabe do que se trata não importa. Está pau-a-pau com o resto do Brasil.

O PT aposta no silêncio sem facada. Trabalha furiosamente para melhorar o pior na esperança de que novembro de 2022 chegue com o país exausto e a apenas um passo do desastre final, mas quieto. Quer um Brasil esquecido de quem é Luis Ignácio Lula da Silva. A ordem é mante-lo mudo em sua toca, mas não é fácil. “Se eleito, vou censurar a imprensavou proibir privatizaçõesvou aumentar impostosvou prender opositores como o democrata Fidel”… Escreveu não leu vem com uma dessas o velhote. Mas sempre atrasado. Alexandre de Moraes e os governadores sacam muito mais rápido que ele.

A imprensa-turba continua exigindo censura, linchamentos e autos-de-fé. Mas com a repercussão que se viu domingo. Ninguém a leva mais à sério. E as OABs e as Fiesps já não sabem mais o saco de quem puxar.

Não ha 3a Via porque ninguém propôs uma 3a Via. 3os nomes, sim, tem um monte querendo o poder. Estavam todos – um mais bizarro que o outro – de frente para o fiasco de domingo “sendo contra a direita” ou “sendo contra a esquerda”, mas sem propor nada de diferente do que uma ou outra ja nos deram.

Nós já experimentamos as duas com todos os tipos de molho e deu sempre a mesma merda. Falta tentar o povo. Democracia é sobre limitar a quantidade de poder a que qualquer indivíduo pode legalmente ter acesso na política e na economia. Parte do pressuposto que o poder corrompe sempre e corrompe mais absolutamente quanto mais absoluto for. Por isso trata de aumentar a concorrência na economia e, poder político absoluto mesmo, só dá ao povo como um todo, com aquela característica que ele tem: metade está sempre contra a outra metade e o ponteiro do meio é sempre muuuito móvel.

Mas no Brasil isso nem começou. O povo está fora do poder e portanto a política trabalha para aumentar o poder dos monopólios e os monopólios para aumentar o poder da política. O povo nem existe, aliás. Para brasileiro, não importa a classe social, “povão” é sempre “o outro”. E ninguém, nem ele mesmo, quer colocar esse “outro” pra dentro.

E agora, suspende-se a ditadura preventiva?

10 de setembro de 2021 § 51 Comentários

Com que, então, fica oficialmente revogada, por escrito, solene e incondicionalmente, a “conspiração para o golpe militar” de Jair Bolsonaro. Constata-se, com os olhos de ver, que o cordeiro está “sujando a água” abaixo do ponto onde bebe o lobo. Já não ha motivo algum que justifique os poderes não previstos na constituição que o Supremo Tribunal Federal se auto-atribuiu. Nenhum “temor pelas nossas liberdades futuras” explica mais a suspensão das nossas liberdades presentes. Os direitos e garantias democráticos que a Constituição garante aos brasileiros de todas as preferências e de todas as linhas de pensamento devem ser prontamente restabelecidos.

Devolva-se já a liberdade aos que foram presos por crime de pensamento ou palavra!

Ha base muito mais sólida na constituição para isso do que a que têm usado os nossos guardiões da democracia para soltar, não apenas os condenados por atos criminosos de colarinho branco mas também os bilionários culpados por crimes de sangue em série, como é o caso do segundo chefão do PCC devolvido anteontem às ruas.

Nada, rigorosamente nada mais, “ameaça” a nossa democracia. É chato mas é verdade!

Suspenda-se imediatamente a censura! Desative-se o algoritmo chinês com que o ministro Alexandre de Moraes vasculha vigilante as redes sociais! Restitua-se a palavra a quem a teve cassada! A remuneração a quem o público escolheu pagar para ouvir!

Tortura, nunca mais!

A hora é de considerar a indenização das vitimas punidas e abusadas pela ditadura preventiva e o banimento da vida publica dos “torturadores” da CPI/DOI-CODI que humilhou, ofendeu e prendeu inocentes por “superfaturamentos” que nunca aconteceram em compras de vacinas que jamais se concretizaram.

O Supremo Tribunal Federal pode voltar à sua função, que se resume estrita e constitucionalmente, a avaliar que leis combinam ou não com os limites da Constituição. Pode, o nosso tribunal sempre alerta, devolver aos legisladores eleitos pelos brasileiros o poder exclusivo de legislar legitimamente em seu nome e aos executivos eleitos as prerrogativas que a Lei Maior lhes garante.

A imprensa-turba terá de conformar-se com sua decepção e voltar a cobrir o que acontece em vez do que gostaria que acontecesse. Em defesa da democracia deve passar a pedir a cabeça dos ditadores que há e não dos ditadores que gostaria que houvesse. Ou então, enfiar em algum orifício do próprio corpo toda aquela narrativa dos anos-de-chumbo onde era exatamente disso que ela se queixava.

Lá vai o Brasil descendo a ladeira

9 de setembro de 2021 § 39 Comentários

Lá vai o Brasil, descendo a ladeira, no embalo de uma birra de moleques.

O povo brasileiro, como sempre muito melhor que suas elites, estava lá para dizer não à ditadura que há, mesmo com o risco de, com isso, arriscar materializar a ditadura que a esquerda gostaria que houvesse. Foi tão ululantemente veemente com sua presença nunca antes tão maciça nas manifestações contra esta quanto com a sua ausência nas avermelhadas bateções de bumbo a favor da outra. Se o Brasil Oficial tivesse qualquer coisa a temer do Brasil Real tinha de sair de fina, com o rabo entre as pernas, diante da clareza do discurso inarticulado das multidões do 7 de setembro. Como é total e antidemocraticamente blindado contra ele pôde dar-se o luxo de continuar a ignorá-lo e de mentir na cara dos fatos na sua desabrida disputa pelo “jus primae noctis” sobre o lombo do povo brasileiro.

Não igualo Bolsonaro a seus detratores. Não seria honesto faze-lo. É mentira que a agressão parte do presidente eleito. A agressão é contra seus eleitores e ele reage, com a indigência de repertório que o define, aos ataques sucessivos e diários de um Alexandre de Moraes cuja viagem na maionese do poder já foi tão longe que não se vexa mais, o nosso stalinzinho da praia, de mandar prender bêbados que falam mal dele em mesas de bar.

Negar isso seria negar pateticamente os fatos. 

Todos os atores institucionais, neste nosso dramalhão, se merecem e equivalem. Os oprimidos estão cada vez mais oprimidos porque, onde quer que se olhe, os fracos estão no poder. A imprensa de herdeiros é tão alheia à noção de institucionalidade quanto Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes. Excluiu-se de sua função. Transformou-se de meio em parte. Age como as turbas de linchadores. Com isso perdeu o direito ao 4º Poder da República com o privilégio que têm as ferramentas do sistema que funcionam segundo regras de todos conhecidas e por todos respeitadas e, assim, contribuem para organizar o debate nacional. Com o suicídio do jornalismo democrático passou essa intermediação a ser feita pela internet onde o jogo não tem regras. E o debate nacional transformou-se numa algazarra onde não é mais a razão, é a força bruta quem prevalece. Vence quem consegue tapar a boca do adversário.

Acuse o seu inimigo daquilo que você faz” é o truque velho como ela própria de que tem vivido, desde Lenin, a esquerda antidemocrática. Quem fala e quem legisla em defesa da democracia, quem prega o respeito à constituição, quem desmancha leis espúrias contra a censura da internet e quem pede a libertação dos presos políticos, embora sempre de modo canhestro e desastroso, é Jair Bolsonaro. A esquerda antidemocrática limita-se a criminalizar na direita tudo que ela mesmo sempre fez: o aparelhamento de todas as instituições democráticas, da educação pública e dos “meios de difusão cultural da burguesia” na hoje jurássica tentativa gramsciana do século 20; a estruturação cientificamente organizada da “esgotosfera” petista nas redes sociais com dinheiro público e a destruição pela corrupção organizada e minuciosa do poder eleito usando toda a força do Tesouro Nacional e da milícia empresarial “campeã nacional”, na segunda tentativa, conforme desvendado no julgamento do Mensalão. Agora dá os toques finais na muito mais prática e econômica tomada de assalto da maioria dos 11 monocratas para a posterior “tomada da eleição”, conforme milimetricamente descrito e prometido no Foro de São Paulo e já devidamente aplicado por alguns dos sobreviventes dessa UTI do caudilhismo “socialista” jurássico latino-americano, dito “bolivariano”, que Lula fez o dinheiro dos pobres do Brasil patrocinar.

A revogação sumária do Poder Judiciário que tínhamos com a da condenação do autor do “maior assalto de todos os tempos”, na definição do Banco Mundial, por nove juizes diferentes; o kafkiano inquérito das fake news, a censura da imprensa não embarcada (Antagonista, Crusoé, blogueiros presos, blogs “desmonetizados”), a perseguição dos “inimigos da democracia”, as CPIs encomendadas na chantagem com apreensões de computadores e celulares, as condenações sem julgamento ao degredo das redes sociais são fatos e não “ameaças” verbais. A multiplicação dos precatórios, o aumento de impostos sobre combustíveis neste país rodoviário visando o bloqueio organizado à mitigação da miséria pelo aumento do bolsa família, manobras articuladas bem mais amplas, tudo é só cálculo e munição para a guerra pelo poder da privilegiatura desembestada. A inflação politicamente motorizada que assola o favelão nacional como a sétima praga do Egito é uma fabricação que só perde para as de Argentina, Cazaquistão e Turquia, outras vítimas da guerra política sem quartel. Esperar que ele de fato faça nunca ninguém esperou. Tudo foca em levar o tosco Bolsonaro a tropeçar no seu despreparo e dizer, como quase disse anteontem, algo suficientemente desastroso para “justificar” a revogação da sentença que o eleitorado deu ao desempenho real da esquerda no poder.

O despreparo de Bolsonaro não torna honesta, democrática nem, muito menos, bem intencionada a campanha de seus detratores de sabotagem do Brasil. Questões como a do voto impresso só se resolverão pela única solução que o resto do mundo e o Congresso dos representantes eleitos do povo brasileiro já lhe deram três vezes porque é, obvia e ululantemente, a única que há: a instituição do voto impresso. E a definição do que é ou não “antidemocrático” continuará sendo a que sempre foi: a que o povo disser todas as manhãs que é com a “eleição” ou a “deseleição” do que quiser ler e ouvir quando formos uma democracia e ele mandar no Estado, ou a que o Estado impuser a todo mundo para continuar mandando no povo e comendo lagostas às custas da miséria dele.

Negar tudo isso aos pedaços ou no todo não altera, nem a cronologia dos capítulos do martírio do Brasil, que está “under god” porque é passado imutável, nem as intenções declaradas e reiteradas ha mais de 100 anos nos programas oficiais dos inimigos da democracia. Só define quem é ou quem não é cúmplice dessa armação sinistra. Ou o Congresso, o poder eleito, reage agora, em legítima defesa, pondo cada poder no seu devido lugar “under the law“, ou segue o baile como vai, com a fuga de quem pode fugir deste país em dissolução que já começou e vai longe, a disparada do dólar e os efeitos nefastos todos dessas ações se derramando sem mais limites sobre as camadas mais desprotegidas do rebanho de que nunca emanou poder algum ou foi mais que o prêmio dessa disputa selvagem.

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