Um país sem pauta
6 de maio de 2014 § 5 Comentários
A medida em que a campanha se vai instalando fica mais clara a crise de oferta que afeta o nosso mercado eleitoral: nenhuma candidatura cresce mais que a descrença do brasileiro na política.
Em março de 2013, auge da popularidade de Dilma, 53% dos eleitores declaravam preferência por algum partido. Passados 14 meses só 30% registra simpatia por qualquer agremiação – 17% ainda pelo PT, refletindo, provavelmente, o numero exato dos seus “dependentes diretos” o que não inclui nem a multidão toda dos “embolsados”. Cabe aí pouco mais que a militância, o funcionalismo público e o batalhão dos cúmplices e dos co-saqueadores organizados.
66% dos brasileiros faz questão de declarar que tem horror a todos os 30 e tantos partidos existentes e 20% do total do eleitorado diz que vai anular seu voto ou votar em branco para presidente.
Quer dizer, congelou-se aquele “Não nos representa” de um ano atrás. Mesmo varrido das ruas pelos black blocs amestrados que as ocuparam com essa missão explícita – não me venham com aquela de “estética da violência” que aparece e some segundo as conveniências! – mesmo varrido das ruas, dizia, esse clamor negativo nem foi apagado da cabeça dos eleitores nem, o que é muito mais dolorido, gerou qualquer discurso novo que se candidatasse a preencher esse vazio.
Ao contrário, quando têm uma oportunidade de se dirigir ao eleitorado a preocupação mais visível dos dois “candidatos de oposição” é a de não atacar de frente nenhum dos “expedientes” a que o governo que colhe toda essa rejeição tudo reduz: comprar cumplicidades de um lado, comprar votos do outro.
Seguimos todos reféns desse assistencialismo bandido que está matando a moral e a democracia nacionais. Sempre foi esse o perigo desse tipo de veneno, aliás. Teta dada só se recolhe com revoluções. No rumo em que vai a coisa a “Carta aos Brasileiros” versão 2014 corre o risco de ser um compromisso formal de cada uma das candidaturas de oposição com a eternização da destilação desse vitríolo…
Mas a coisa toda é menos simples do que parece.
Uma campanha eleitoral é sempre um exercício didático; um debate entre diferentes projeções de futuro. Ou, melhor dizendo, o último ato de um debate entre diferentes projeções de futuro que, a menos de seis meses da decisão, já deveriam estar suficientemente decompostas e mastigadas para serem facilmente entendidas pelo público.
É para isso que existem os outros três poderes da Republica – Legislativo, Judiciário e Imprensa – encarregados, além de fiscalizar o Executivo e impor a lei, de debater alternativas ao longo dos percursos entre eleições.
Ocorre que, como sabemos, o Legislativo é um poder virtualmente anulado entre nós.
O Judiciário cumpriu a sua parte ao montar a primeira – e competentíssima! – crônica das minúcias da conspiração petista para anular o Legislativo mediante uma vasta operação de corrupção como primeiro passo de um plano para eliminar a divisão dos poderes, fundamento básico da Republica, com o objetivo final de impor um regime que não tem a alternância dos partidos no poder em seu horizonte como todos com os quais o PT ostensivamente se alia no plano internacional, e mandar para a prisão os golpista contra os quais teve condições de reunir provas.
Confirmando a própria tese afirmada no julgamento do Mensalão, o Judiciário foi, no entanto, o alvo seguinte da conspiração, acabando por ser emasculado no correr do processo sucessório dos juízes do Supremo Tribunal Federal usado explicitamente para submeter a instituição às ordens do Executivo.
À imprensa caberia a tarefa de decompor em seus pormenores os outros elementos menos imediatamente visíveis da conspiração petista de modo a ajudar a população a enxergá-los, obrigar os políticos a discuti-los e, pela iluminação de tais focos de atenção, contribuir para fazer esse debate descer do nível conceitual que já tinha sido esgotado no julgamento do Mensalão, para as suas outras frentes mais diretamente ligadas ao dia a dia dos cidadãos.
Mas ao se deixar pautar quase que exclusivamente pelas ações do governo e das facções em luta pelo poder dentro e em volta dele entregando-se sem resistir ao papel de plataforma de arremesso dos dossiês a que uns ou os outros “dão-lhe acesso” para alvejarem-se mutuamente, a imprensa abandonou, seja a função propositiva para a qual está legitimada como agente institucional do sistema republicano, seja a função inquisitiva que é da essência da sua natureza. Abandonou-se de forma tão completa ao fascínio do denuncismo fácil que deixou de lado todo o resto.
A tal ponto que tornou-se usual, por exemplo, que as mais altas figuras deste governo não só abandonassem por completo a pratica do briefing sistemático para a imprensa obrigatório em todas as democracias do mundo sem que ela se queixasse como, mais que isso, passassem a dirigir-se ao grande público exclusivamente pelos canais unidirecionais das redes obrigatórias de radio e TV ou pela sua própria “imprensa particular”, convocando patéticas reuniões fechadas com os “blogueiros do tio Franklin” para fazer comunicados à Nação.
A campanha eleitoral tem girado apenas em torno dos expedientes e do discurso do PT, portanto, porque para além do tiroteio de dossiês e das matérias de opinião da grande imprensa eles são os únicos que estão “postos” na forma de reportagens e relatos pormenorizados feitos em geral por competentes agências de publicidade.
Por aí começa-se a entender o vazio de propostas concretas e pontuais que possam diferenciar mais nitidamente os candidatos entre si nesta campanha.
A verdade, dados os filtros negativos que bloqueiam os acessos às instituições “de dentro” do sistema, é que só da imprensa é que pode emanar uma pauta positiva para a Nação.
Mas também ela não se tem mostrado à altura do desafio.
O país sabe vagamente que todo o poder foi sendo centralizado na presidência mas não tem clara a tradução concreta desse processo pela falta de uma crônica detalhada e recorrente dos expedientes que o governo usou para ir concentrando todo o dinheiro dos impostos nas mãos da União.
O país não sabe claramente que buracos isso deixou nos estados e nos municípios, em que contas, e que falta isto está fazendo nos serviços que afetam diretamente a vida das pessoas tais como os de saúde, segurança e educação públicas.
Quais as medidas provisórias e outras tortuosidades e gambiarras operadas para este fim que deveriam ser revertidas para fazer a divisão do dinheiro dos impostos voltar para o ponto de onde partiu? Quanto isso melhoraria a verba disponível para esses serviços nos locais onde eles são efetivamente prestados?
Até que tamanho e por quais expedientes inchou-se o aparelho de Estado e se o ocupou com a “companheirada” com o objetivo de criar o que o historiador Marco Antonio Villa chama hoje, em artigo para O Globo, do “primeiro escudo” mediante o qual o PT garante que, independentemente de quem ganhe a eleição, são os petistas que moverão as engrenagens do governo se, quando e para que lado quiserem? Quais foram os passos desse processo? Como reverte-lo sem antes ter esse trajeto mapeado o suficiente para transformar os passos necessários à sua reversão num compromisso de campanha e legitimá-los pelo voto?
Como foi montado o aparato das ONGs chapas-brancas? Promovida a multiplicação em metástese dos sindicatos sem associados? Montada a rede dos “blogueiros do tio Franklin”? Como montar uma proposta de reversão desse processo sem conhecer-lhes os componentes e os custos; sem apontar que carências reais poderiam ser atendidas com esse dinheiro? Sem ter isso pisado e repisado para a opinião pública a esta distância de uma eleição decisiva?
De que instrumentos dispõe o resto do mundo para garantir que o sistema representativo de fato represente quem elege os representantes? Como eles conseguem, lá fora, destravar o processo de reformas e ganhar agilidade para reagir a um mundo em vertiginosa mudança? Como funciona o voto distrital com recall que põe nas mãos de quem precisa delas a iniciativa das reformas e arma a mão do eleitor para fazer-se respeitado sob pena de fuzilamento sumário do mandatado traído, ferramenta que vem saneando até níveis suportáveis de salubridade os sistemas políticos de país atrás de país?
Como foi que passamos por tudo que sucedeu o junho de 2013 sem discutir exaustivamente questões como esta e chegamos a mais uma eleição encurralados pela ignorância de tudo que não seja apenas e tão somente o que interessa a quem não nos interessa que sigamos conhecendo e pensando?
Não. Não concordo com os fatalistas que também nunca tinham pensado nessas questões mas dirão, como se as conhecessem de velho, que “está tudo dominado” e a imprensa inteira está vendida. Conheço bem demais os jornalistas para saber que nem todos são como os “blogueiros de tio Franklin”, os “revisteiros de madame Joesley” ou os “iracundos porém venais” velhos de três regimes.
Eu falo dos jornalistas melhores que seus patrões e da imprensa ainda digna do nome, mesmo que em luta contra a “disrrupção”. Eu falo da imprensa que, como o Brasil, quer mas não sabe fazer. Eu falo do “custo Brasil”, da falta de escola e do isolamento da língua.
Não ha lideranças que se diferenciem na imprensa pela mesma razão que não ha lideranças que se diferenciem fora da imprensa, a não ser pelo lado negativo, que não requer polimento nem esforço continuado, só oportunidade e ausência de escrúpulos.
Este governo está caindo de podre a tal ponto que ninguém poderá roubar-lhe a glória de se ter autodestruido. Mas, com todos os senões apontados é, ainda, à imprensa que vamos ficar devendo a derrota que se esboça desse PT que exala um cheiro que nada mais consegue disfarçar e ninguém mais consegue respirar porque foi ela o instrumento usado para furar esse abcesso.
Mas é a ela também que ficaremos devendo o pacote fechado que virá no lugar dele pois qualquer coisa continua cabendo neste país sem pauta que ela não tem contribuído para pautar.
Alô, alô, jornalistas!
7 de agosto de 2013 § 5 Comentários
Uma empresa brasileira de “data minning” usando softwares parecidos com estes que a CIA usa para traçar o caminho de mensagens suspeitas (fato que está causando tanto barulho em função do velho hábito de apedrejar os EUA já que todo mundo, do Google pra baixo, faz a mesma coisa e muito mais generalizadamente que a CIA com objetivos comerciais) publicou um estudo do circuito das mensagens que animaram as manifestações de junho pelo Brasil afora.
Partindo dos celulares nas ruas que mais distribuíam orientações seguidas pelos manifestantes para trás e identificando quem falou com quem ou visitou quem nessas trajetórias, descobriram que a fonte primária onde esses impulsos começam e acabam (para começar de novo) eram sempre os sites da imprensa profissional.
Era segundo o que ela ia publicando sobre o que estava acontecendo nas várias frentes – ruas, autoridades, polícia, etc. – que as orientações iam e voltavam e, em função delas, alteravam-se os fluxos dos manifestantes.
Não é uma descoberta, propriamente, já que qualquer leigo atento que frequente redes sociais sabe, seja pelo que ele próprio publica nelas, seja pelo que lê dos seus amigos, que as conversas, quando não são estritamente pessoais, partem sempre dos temas que os jornalistas profissionais levantam, sejam eles notícias, sejam críticas, imagens ou meras informações de serviço sobre o que os circuitos culturais ou o comércio estão oferecendo ao público. Mas é, digamos, uma “prova científica” de que é isso mesmo que acontece.
Os fatos são os fatos, enfim, e é em torno deles que giram as nossas vidas. Não poderia ser diferente. Conversa-se nas redes sobre e em torno de esses imputs iniciais, território de sempre do jornalismo profissional que ainda é quem pauta o país.
Isto quer dizer que o público não migrou para a web para fugir do jornalismo. Ele foge, inicialmente, é da angulação que os jornalistas com cabeça século 20 insistem em continuar dando aos acontecimentos do século 21, além, é claro, da sua insistência em ignorar o que mais interessa que é a cobertura do rumo que toma a discussão iniciada pelas informações que eles levantam.
Essa parte requer uma especialização técnica que os jornalistas não têm e talvez nem devessem vir a ter (porque esse conhecimento suscita tentações perigosas), mas que as empresas de informação têm obrigação de incorporar, com outro tipo de profissional. Instantaneidade, frequência e rapidez das atualizações dos fatos, que durante anos foram apontados como calcanhares de aquiles da old mídia x internet, ha muito não são mais handicaps. Nem mesmo a facilitação da discussão das notícias pelos leitores. Todo mundo, direta ou indiretamente, já oferece esses recursos aos seus leitores.
O problema é, primeiro, que eles seguem cobrindo a política e a vida institucional do país com a linguagem e pela ótica da luta pelo poder e não pela ótica do que ela produz na vida real aqui fora onde 80% do esforço que se despende para sobreviver economicamente ou, simplesmente, para não ter a sua paciência destruída pelos fãs de Kafka lá de Brasília é dedicado a desviar dos obstáculos que eles criam.
O ponto de partida do jornalismo, portanto, continua onde sempre esteve. A interpretação dos fatos e o contexto em que a old mídia insiste em inserí-los é que saiu do universo da vida real para se concentrar tão somente no universo da luta pelo poder que não interessa a ninguém senão a quem participa dela.
O segundo erro está em abrir mão da melhor parte desse tipo de cobertura que era, como se fazia no passado, ajudar a freguesia a desviar deles, no primeiro momento, e apontar-lhes caminhos para tratar de impedir que os donos do poder continuassem tendo tanto poder de nos infernizar a vida a esse ponto em seguida.
Como a partir de um dia fatídico, sem que ninguém saiba explicar exatamente porque, os jornalistas profissionais passaram a aceitar o novo fatwa das nossas escolas de jornalismo que decreta que eles têm de agir como se tivessem sido lobotomizados e se limitar a reproduzir o que dizem “as fontes” participantes da luta pelo poder ou os “especialistas” autorizados para oferecer o contraditório do que ouvem, todos eles viciados na mesma droga dos seus objetos de estudo, essa discussão imprescindível, imperativo de sobrevivência para todos e cada um de nós, ficou para a rede.
A web não faz outra coisa senão procurar, desorientada e desinformada, como escapar dos efeitos reais das informações que recebe dos jornalistas profissionais que cobrem os centros do poder. Mas como discute o que realmente interessa ainda que desorientada e desinformadamente, é ela quem leva o grosso da audiência.
É este o terceiro erro posto que hoje existe tecnologia para aprofundar a cobertura do “pós fato“, ou seja, dessa discussão, e levá-la a níveis de encantar qualquer mente minimamente curiosa.
Experimentar esse filão no mínimo revolucionaria a pauta da imprensa. Proporcionaria a descoberta de um outro país e uma outra população muito distantes dos modelos que a imprensa pressupõe como existentes.
Mas isso segue sendo território virgem para o jornalismo e tema só para nerds, arapongas e manipuladores frequentemente mal intencionados, muitos dos quais estão a soldo de partidos políticos, o PT em especial.
É preciso começar a fazer para o bem o que essa gente já faz para o mal.
A old midia, longe dessa realidade e de tanto reproduzir só o que dizem “os inimigos”, acabou confundida com eles e já está sendo apedrejada nas ruas junto com os originais. Vai ter de correr se quiser desvestir essa carapuça.















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