Alô, alô, jornalistas!

7 de agosto de 2013 § 5 Comentários

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Uma empresa brasileira de “data minning” usando softwares parecidos com estes que a CIA usa para traçar o caminho de mensagens suspeitas (fato que está causando tanto barulho em função do velho hábito de apedrejar os EUA já que todo mundo, do Google pra baixo, faz a mesma coisa e muito mais generalizadamente que a CIA com objetivos comerciais) publicou um estudo do circuito das mensagens que animaram as manifestações de junho pelo Brasil afora.

Partindo dos celulares nas ruas que mais distribuíam orientações seguidas pelos manifestantes para trás e identificando quem falou com quem ou visitou quem nessas trajetórias, descobriram que a fonte primária onde esses impulsos começam e acabam (para começar de novo) eram sempre os sites da imprensa profissional.

Era segundo o que ela ia publicando sobre o que estava acontecendo nas várias frentes – ruas, autoridades, polícia, etc. – que as orientações iam e voltavam e, em função delas, alteravam-se os fluxos dos manifestantes.

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Não é uma descoberta, propriamente, já que qualquer leigo atento que frequente redes sociais sabe, seja pelo que ele próprio publica nelas, seja pelo que lê dos seus amigos, que as conversas, quando não são estritamente pessoais, partem sempre dos temas que os jornalistas profissionais levantam, sejam eles notícias, sejam críticas, imagens ou meras informações de serviço sobre o que os circuitos culturais ou o comércio estão oferecendo ao público. Mas é, digamos, uma “prova científica” de que é isso mesmo que acontece.

Os fatos são os fatos, enfim, e é em torno deles que giram as nossas vidas. Não poderia ser diferente. Conversa-se nas redes sobre e em torno de esses imputs iniciais, território de sempre do jornalismo profissional que ainda é quem pauta o país.

Isto quer dizer que o público não migrou para a web para fugir do jornalismo. Ele foge, inicialmente, é da angulação que os jornalistas com cabeça século 20 insistem em continuar dando aos acontecimentos do século 21, além, é claro, da sua insistência em ignorar o que mais interessa que é a cobertura do rumo que toma a discussão iniciada pelas informações que eles levantam.

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Essa parte requer uma especialização técnica que os jornalistas não têm e talvez nem devessem vir a ter (porque esse conhecimento suscita tentações perigosas), mas que as empresas de informação têm obrigação de incorporar, com outro tipo de profissional. Instantaneidade, frequência e rapidez das atualizações dos fatos, que durante anos foram apontados como calcanhares de aquiles da old mídia x internet, ha muito não são mais handicaps. Nem mesmo a facilitação da discussão das notícias pelos leitores. Todo mundo, direta ou indiretamente, já oferece esses recursos aos seus leitores.

O problema é, primeiro, que eles seguem cobrindo a política e a vida institucional do país com a linguagem e pela ótica da luta pelo poder e não pela ótica do que ela produz na vida real aqui fora onde 80% do esforço que se despende para sobreviver economicamente ou, simplesmente, para não ter a sua paciência destruída pelos fãs de Kafka lá de Brasília é dedicado a desviar dos obstáculos que eles criam.

O ponto de partida do jornalismo, portanto, continua onde sempre esteve. A interpretação dos fatos e o contexto em que a old mídia insiste em inserí-los é que saiu do universo da vida real para se concentrar tão somente no universo da luta pelo poder que não interessa a ninguém senão a quem participa dela.

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O segundo erro está em abrir mão da melhor parte desse tipo de cobertura que era, como se fazia no passado, ajudar a freguesia a desviar deles, no primeiro momento, e apontar-lhes caminhos para tratar de impedir que os donos do poder continuassem tendo tanto poder de nos infernizar a vida a esse ponto em seguida.

Como a partir de um dia fatídico, sem que ninguém saiba explicar exatamente porque, os jornalistas profissionais passaram a aceitar o novo fatwa das nossas escolas de jornalismo que decreta que eles têm de agir como se tivessem sido lobotomizados e se limitar a reproduzir o que dizem “as fontes” participantes da luta pelo poder ou os “especialistas” autorizados para oferecer o contraditório do que ouvem, todos eles viciados na mesma droga dos seus objetos de estudo, essa discussão imprescindível, imperativo de sobrevivência para todos e cada um de nós, ficou para a rede.

A web não faz outra coisa senão procurar, desorientada e desinformada, como escapar dos efeitos reais das informações que recebe dos jornalistas profissionais que cobrem os centros do poder. Mas como discute o que realmente interessa ainda que desorientada e desinformadamente, é ela quem leva o grosso da audiência.

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É este o terceiro erro posto que hoje existe tecnologia para aprofundar a cobertura do “pós fato“, ou seja, dessa discussão, e levá-la a níveis de encantar qualquer mente minimamente curiosa.

Experimentar esse filão no mínimo revolucionaria a pauta da imprensa. Proporcionaria a descoberta de um outro país e uma outra população muito distantes dos modelos que a imprensa pressupõe como existentes.

Mas isso segue sendo território virgem para o jornalismo e tema só para nerds, arapongas e manipuladores frequentemente mal intencionados, muitos dos quais estão a soldo de partidos políticos, o PT em especial.

É preciso começar a fazer para o bem o que essa gente já faz para o mal.

A old midia, longe dessa realidade e de tanto reproduzir só o que dizem “os inimigos”, acabou confundida com eles e já está sendo apedrejada nas ruas junto com os originais. Vai ter de correr se quiser desvestir essa carapuça.

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§ 5 Respostas para Alô, alô, jornalistas!

  • Luiz Barros disse:

    Jamais me convenci do alastramento absolutamente descentralizado e espontaneista que analistas diversos atribuem aos movimentos de massa contemporaneos.

    A pesquisa mencionada no início de seu artigo, indicando os sites do jornalismo profissional como referência primordial para a difusão das informações sobre “o que está acontecendo e onde”, parece recolocar a questão no devido lugar, ou, ao menos, num plano diferente que merece ser examinado.

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    • flm disse:

      absoluto não existe nada, luís.
      mas eu acredito, sim, que estas manifestações são algo novo e até aqui inédito no Brasil, justamente pelo alto grau de espontaneidade.
      confesso que nunca tinha imaginado a hipótese, ate aquele momento, de ver os profissionais do PT e cia. ltda. terem de ir disfarçados a manifestações de rua para não apanhar ou ser escorraçados.
      falo das de junho, é claro, e não dessas falsificações grotescas que pipocam todos os dias desde então.
      e também, fora as que tentaram e foram expulsas, não vi nenhum cartaz ou reivinidicaçao “contaminada” naquelas manifestações.
      elas fecharam o ciclo. se governos em geral sempre colheram a sua justa dose de rejeição numa sociedade saudavel, ainda subsistia, num certo Brasil, a ilusão pre-Muro sobre uma classe e uma oposição “puras“. mas o Lula provou, pelo avesso do que pretendia, que são todos a mesma merda e alguns são merda mais pura que os demais.
      de modo que agora estamos prontos para encarar o repto de james madison:
      se a humanidade fosse constituida de santos, não precisaria de governo algum. e um governo constituido por santos não necessitaria de controle algum. agora, não sendo este o caso…

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  • Dênis disse:

    Fazendo um paralelo mal traçado com a indústria fonográfica, creio que a “old media” corre o risco real de ter o interesse do público pulverizado para outros canais, caso não se modernize e gere confiança.
    Hoje se consome música de graça; os barões das “labels” da música enriquecem cada vez menos sobre as obras alheias; as obras e os artistas não possuem mais o mesmo valor comercial; novos canais musicais surgiram e surgirão. Considero esta um revolução válida e inevitável e, além, disso, trata-se de entretenimento.
    O que temo é um mundo onde só tenhamos à disposição um “jornalismo” à la “Admirável Mundo Novo”, com publicações tecnicamente desqualificadas e/ou vergonhosamente manipuladas por um poder qualquer, como “Carta Capital” e tantas, tantas outras.
    Ou quem sabe já estejamos neste mundo desde sempre…

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    • fernaslm disse:

      maçãs podres sempre houve e sempre haverá em todo e qualquer cesto, Dênis.
      mas com todas as críticas que tenho à old mídia posso dar um testemunho de 40 anos de que, na média geral e excluídas as exceções que confirmam a regra, os jornalistas dignos desse título são pessoas ao menos dispostas a lutar as batalhas que não se pode vencer, o que já não é pouca coisa neste mundo onde o “dinheiro já” manda em tudo.
      pode ser tudo menos dinheiro o que está procurando alguém que escolhe uma redação para fazer a sua carreira…
      no mais, você tem razão. a mudança está aí e irá sempre adiante do que já foi.
      chegará o dia em que algo que cumpra o papel do jornalismo profissional, feito dentro de normas claras e com a função institucional indispensavel que ele tem para assegurar a liberdade individual e a tolerância no lugar que elas devem ter nas democracias, vai encontrar o seu espaço dentro da nova realidade.
      só temos de torcer para que isso aconteça antes que, por falta dele, o mundo volte demais para tras nesses quesitos…

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  • Varlice disse:

    Alô, alô jornalista.
    Veja que bonito o voo sincronizado dos pássaros (dançando ao som de Pachelbel – Cânon em ré maior) aqui: http://www.youtube.com/watch?v=eakKfY5aHmY.
    E sobre campos mórficos aqui: http://www.youtube.com/watch?v=BJkXlZJfyRw.

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