Porque o futuro está no hidrogênio

1 de novembro de 2021 § 12 Comentários

Pela volta da boa e velha liberdade

27 de outubro de 2021 § 27 Comentários

O cientista político americano Ian Bremmer publicou na última Foreing Affairs uma análise sobre este mundo controlado pelas big-techs tão interessante pelo que diz quanto pelo que não diz.

Constata ele que neste “momento tecnopolar” de um mundo onde não há mais lideranças globais, as mega empresas de tecnologia estão se tornando mais atuantes, geopoliticamente falando, que os governos, exercendo plena soberania sobre o mundo digital. “São eles que criam a arquitetura que define esse espaço, os algoritmos que determinam o que acontece dentro deles e as leis (os longos, ilegíveis e cambiantes ‘termos e condições’) que estabelecem quem pode participar deles e sob quais condições”. E conquanto o mundo digital – “qualquer coisa que inclua um chip e seja definido por dados” – seja, cada vez mais, tão ou mais importante que o mundo físico, sendo nele que nós gastamos dinheiro, digerimos informações, interagimos socialmente e nos protegemos, não é mais um mundo regido pela lei garantida pela força dos governos eleitos mas sim por companhias privadas que atuam como as única autoridades.

Ele dá dois exemplos bem americanos para ilustrar seu ponto. Nos acontecimentos de 6 de janeiro (tentativa de invasão do Capitólio por partidários de Donald Trump), que podiam afetar o futuro da nação, não foi o governo que reagiu bloqueando redes de comunicação, “desplataformizando” o presidente eleito em exercício e identificando os participantes do ataque, quem fez isso foram as big-techs. Também no maior ataque direto à segurança dos EUA e seus aliados no ano passado – a mega tentativa de hackeamento batizada como a dos “Ventos Solares” – não foram governos que reagiram e responderam mas, de novo, as big-techs. “Hoje, para ter a maior influência sobre a próxima eleição americana, é melhor ser o CEO do Facebook que o presidente dos Estados Unidos”.

Retomando sua tese na news-letter do Eurasia Group, dirigida e muito acatada pelos grande empresários e investidores do mundo e, portanto, requerendo respostas para já, Bremmer vê um mundo onde uns Estados Unidos politicamente divididos e economicamente desiguais estarão menos propensos a agir como polícia do mundo e arquitetos do comércio global, uma Europa mais dividida e coletivamente mais fraca, uma Russia em declínio interessada na divisão geral e uma China mais forte e interessada em construir um modelo para disputar a governança econômica e política do mundo.

Para ele o protagonismo das big-techs terá espaço para crescer ainda mais, especialmente em função da paralisia dos Estados Unidos diante do novo desafio. Entre os totalitários, onde tanto as empresas quanto a tecnologia são, antes de mais nada, instrumentos do Estado, não ha dúvida sobre o que fazer. É ele, o dono de tudo, quem determina quais serão os “campeões nacionais” e a serviço de quem estarão. A Europa, para quem as big-techs são, de modo geral, empresas estrangeiras não tão decisivas como motores da economia quanto são da economia yankee, já vem mostrando mais disposição de aplicar nelas a receita de sempre. Regulamentá-las e taxa-las crescentemente, também com as repercussões econômicas e politicas de sempre: corrupção maior e produtos mais caros, na medida inversa das “tradições religiosas” de cada país.

Onde mais obscura se torna a visão do americano Bremmer é quanto ao que esperar das big-techs nos Estados Unidos. Para um leitor desse nosso vasto mundo antidemocrático sempre parece enigmático deparar-se com os traços característicos da democracia americana, especialmente quando eles se manifestam diluídos em uma cultura que, para eles é natural e para nós, soa naïve.

Quando trata do problema no seu país a relação deixa automaticamente de ser, na cabeça de Bremmer, um embate entre o Estado e o Capital. Seu olhar fixa-se em como cada uma das big-techs vê-se a si mesma e à sua relação com o governo e perde-se em divagações ao mesmo tempo doces e amargas porque são registros do que resta da “excepcionalidade” americana … e do desligamento da atual geração dos fundamentos que lhe deram consistência.

Não subestimo a imensa dificuldade técnica subjacente ao problema do controle desses monstros em meio à competição com os monopólios estatais chineses. Mas, independentemente disso, a questão essencial do agigantamento das big-techs é velho como o mundo. E ninguém o tratou, nem antes, nem melhor que os americanos na batalha antitruste da virada do século 19 para o 20.

O engano principal de hoje é conceitual. Esse “mundo digital” ocupa o espaço antes conhecido como “espaço público”. É ele a cidade, o mundo, as praças e as ruas onde se dão as relações sociais e, muito mais especial e essencialmente hoje, as relações econômicas entre todas as pessoas. É onde acontecem o trabalho e as trocas. É onde se cria e se expressa a cultura. É onde se dá a luta política.

Só que está privatizado.

O novo espaço público virtual tem de ser regido com as mesmas neutralidade e garantias das liberdades fundamentais que a humanidade conquistou a duras penas para o espaço público físico: a de crença, a de pensamento, a de expressão, a de reunião, a de propriedade, a de inviolabilidade do círculo íntimo, a do devido processo legal e assim por diante. E para que assim seja, é imprescindível, como o movimento democrático aprendeu ao longo de milênios de sangue, suor e lágrimas e vem ensinando nos últimos dois ou três séculos, que se impeça nele, tanto ou mais que no mundo físico, a acumulação de poder excessivo, seja de que natureza for, porque qualquer poder excessivo acumulado pela espécie humana, econômico ou político, mais cedo ou mais tarde torna-se incontrolável e passa infalivelmente a ser exercido para oprimi-la.

Dividir o poder – qualquer poder – é do que trata a democracia. E é também a condição para o resgate da “crise de identidade” em que a humanidade está mergulhando. Dividir o poder das big-techs sem aumentar o poder do Estado, que deve faze-lo de fora do sistema, como árbitro e não como agente, para reconstituir a hegemonia do indivíduo como cidadão, trabalhador e consumidor é a questão. Como fazê-lo é a tarefa dos cientistas e dos políticos. Tecnologia domestica-se com tecnologia. Mas sem partir da pauta correta, entregando tudo aos caçadores de fake news, aos donos da verdade e a outros falsários ancestrais do mesmo naipe, estaremos apenas atando de volta os grilhões aos pés.

Onde a democracia se esvai

15 de janeiro de 2021 § 35 Comentários

Todo santo dia ha pelo menos 40 anos ininterruptos os jornais de todo o mundo dão três ou quatro notícias como estas do Valor de ontem. Isso nas primeiras páginas, onde só vão estampadas as maiores “deglutições” do dia…

Estas de hoje mostram que só sobram no mundo, por enquanto, três grandes varejistas de comida e o mais que cada um de nós tem de consumir todo dia para manter o corpo e a casa vivos: Couche-Tard, Walmart e Amazon, a mesma que tem também o virtual monopólio planetário de vendas de tudo (excluída a China), da prestação de serviços, da sustentação de sites e redes de internet (cloud computing), etc., etc., etc. e etc., e, portanto, força até para cassar a palavra ao presidente eleito dos Estados Unidos da América na hora que bem entender. 

Logo, logo, se Jeff Bezos continuar autorizado a violar todas as leis que viola todos os dias pelo mundo afora só porque tem dinheiro demais, a Amazon vai ficar sozinha também neste setor. Para nós já não fará diferença. Juntas, diz a noticia, Couche-Tard e Carrefour, a que está neste momento em vias de desaparecimento, terão um faturamento anual de US$ 152 bilhões em suas 30 mil lojas com seus 450 mil empregados. E ela ainda será a menor das três que vão sobrar. Mas com quatro ou com três redes de supermercados em todo o mundo, tanto os preços que todas nos cobram quanto os salários que todas pagam a essa multidão que, se for posta pra fora de uma só poderá bater na porta das outras duas por um emprego, são sempre combinados e caminham, os preços invariavelmente para cima e os salários invariavelmente para baixo … ha 40 anos sem parar.

Não é por acaso, portanto, que há tanto ódio no mundo, especialmente nos Estados Unidos, o único país que nos últimos quase 500 anos ininterruptos só tinha tido a experiência de andar para a frente.

Telefonia, gás (as outras vítimas do dia da 1a página do Valor), tudo é assim. O setor de supermercados tem sorte pois lida com bens perecíveis impossíveis de padronizar completamente como os bens industriais. Na industria esse mesmo processo de come-come que termina invariavelmente comendo os salários e a liberdade de todos nós, já chegou praticamente ao fim porque na outra ponta está sempre o equivalente chinês, produzido por um gigante único pertencente ao Estado (embora com algum amigo do rei à frente) e, portanto, em condições de pagar salários de fome impunemente aos seus “empregados” e de aguentar prejuízos indefinidamente até quebrar qualquer competidor, esteja ele onde estiver no mundo.

O socialismo é, enfim, a monarquia sob nova direção de marketing. Um sistema onde tudo pertence à mesma pessoa, que coopta uma corte de barões subornando-os com privilégios e governando com mão de ferro em função do seu poder de decretar quem vai ou não vai ter emprego, autorização para comprar em suas lojas, canal para falar em sua praça; quem vive ou quem morre física ou economicamente, enfim.

Os americanos do norte foram a única parcela da humanidade que teve a experiência de viver desde sempre fora dessa lógica perversa. Graças à sabedoria do povo inglês de manter seus reis sempre pobres, a colonização da América, que lhes caiu inadvertidamente nas mãos depois do afundamento da monarquia terrorista de Fernando e Isabela no Canal da Mancha, acabou sendo entregue a empresas privadas, o que deu uma chance à “lei de mercado” de sair da prisão. 

Pela primeira vez na história da humanidade tornou-se possível a alguém que não fosse nem o rei, nem um escolhido do rei, possuir terra. A Virginia Company e a Plymouth Company, duas das empresas colonizadoras a quem James I entregou permissões para colonizar a América, elas também sem dinheiro para fazê-lo, inventaram o “headright system” pelo qual qualquer pessoa que se dispusesse a cruzar o Atlântico e enfrentar aquele “planeta novo” tinha direito à propriedade de 50 acres de terra para ganhar o seu próprio sustento. 

E fez-se um país de proprietários…

Isso, mais a necessidade dessas pessoas de combinar entre elas, de comum acordo, como fariam para dividir tarefas e organizar sua sobrevivência naquelas lonjuras, deu em democracia. 

Mas assim que a caminhada começou a propriedade se foi acumulando de novo em menos mãos. Por mais que as leis da democracia tivessem forçado o divórcio do poder político com o poder econômico, obrigando um a controlar o outro, e coibissem a acumulação de qualquer poder e qualquer dinheiro que não fosse resultado de esforço individual ou de delegação expressa e direta do povo, as pessoas são diferentes umas das outras e a corrupção é inextinguível. A cada grande disrrupção do curso normal do processo lá se atiravam de novo o poder político e o poder econômico uns nos braços do outro proporcionando saltos olímpicos na concentração da riqueza. 

Na ruptura decorrente da “ferroviarização” da economia num território continental, a mais violenta até o advento da internet, a concentração chegou a extremos que quase levaram a democracia americana à breca. A situação foi salva pela reorientação antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu a ela, impedindo por lei que, mesmo por competência, qualquer empresa ocupasse mais de 30% de cada mercado, ficando o empresário que o conseguisse obrigado a vender o excedente a outro empresário.

A artimanha de conter o poder econômico sem inflar o poder político, garantida pelo novo arsenal de afirmação dos poderes dos indivíduos que Theodore Roosevelt serviu ao povo junto com o ferramental antitruste (eleições primárias, recall, referendo, iniciativa), deu ao povo americano condições de manter os dois sob controle e a seu serviço, outro feito inédito na história da humanidade, o que pôs os Estados Unidos fora do banho de sangue planetário das “revoluções socialistas” do século 20 que não foram outra coisa senão espasmos de desespero da miséria em seu beco sem saída, e fez a humanidade dar o maior salto em afluência material e domínio da ciência de toda a sua trajetória neste planeta.

Com a eliminação das fronteiras nacionais do mercado pela internet o ataque à única democracia “raiz” que já houve veio pelas costas. Nada de tomar o sistema político, agora nas mãos do povo que não abrirá mão dele jamais, para depois instalar o proprietário único de todas as coisas. Apenas suspender a proteção armada por Theodore Roosevelt e permitir que os barões, associados à corrupção política e empurrados pela China, tomassem tudo abaixo deles, primeiro, e se entredevorassem depois. 

Com a força assim acumulada por eles, vai-se esboçando, com os autos-de-fé e as execuções virtuais na internet, a mais nova versão do modo das majestades de lidar com as ambições concorrentes desde o machado, à Henrique VIII, os venenos radioativos, à Vladimir Putin, ou o tiro na nuca “por corrupção”, à Xi Jimping. 

Se não houver logo uma reedição modernizada dos remédios de Ted Roosevelt, a humanidade corre o sério risco de mergulhar em mais uma sucessão de milênios de escuridão informatizada, a menos que descubra outro planeta habitável e virgem para fugir de si mesma antes disso.

A morte da democracia não dará manchete

14 de janeiro de 2021 § 26 Comentários

As decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os tempos.

Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…

O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo. Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…

A Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26 palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider” (Nenhum provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a justificar tal lei… 

Mas de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem,  direito de veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento, veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí. 

Aquela peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas, que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana, que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade, pôs o povo em condições de mandar nos reis.

O congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como empresas privadas como outras quaisquer, da-se-lhes o direito, como ao dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.

Se não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua vivo e quem morre. 

Não me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe. Essa é uma questão resolvida ha mais de 200 anos. Não existe meio termo que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui  para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou morrer.

O resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade, da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o direito de sustentar-se do trabalho alheio.

Não ha nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio. Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes plataformas da internet. 

A censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui outro ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.

A ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes para reagir à altura.

Para domesticar a internet

10 de dezembro de 2020 § 9 Comentários

Num artigo bem pé-no-chão publicado em O Estado de S. Paulo de segunda-feira, 7 (“As três internets”), Moises Naim resumiu bem o ponto a que as coisas chegaram. A internet nem mais é global nem é aberta. Também já não é descentralizada nem é gratuita. Mais de 40% da população mundial vive em países onde o acesso, mesmo a uma internet fortemente censurada, é radicalmente controlado pelo ditador de plantão e dado em troca do controle de cada pensamento e cada passo do usuário. E onde ela continua “aberta”, pagamos pelo que vemos entregando a comerciantes todos os passos e segredos de nossas vidas, comerciantes estes que, com violência cada vez mais explícita, trabalham para transformar a posse dessas informações, bem como o acesso ao mercado “global” informatizado que as usará para nos oferecer bens e serviços com “target”, em monopólios cada vez mais estritos. 

Em outras palavras, o sonho acabou (mais um!), até para os ingênuos que em algum momento acreditaram que ele tivesse começado um dia…

Naim falava então no surgimento de três internets. A chinesa, fechada, censurada, protecionista e com “ciberfronteiras” muito claramente delimitadas onde só entram “aliados” como a Coreia do Norte, cujo protagonista central é a ditadura do partido único e seu sistema de controle dos cidadãos, e que se impõe na competição planetária por deter um bilhão de usuários. A americana, anárquica, inovadora, comercial e com altas tendências monopolistas, cujos protagonistas centrais são as grandes empresas de tecnologia e que se impõe pelo seu acesso a enormes volumes de capital, talento tecnológico e capacidade de inovar. A européia, a mais regulada e “preocupada em defender os usuários”, o que trata de fazer com um enfoque jurídico, definindo parâmetros, exportando regras e impondo multas bilionárias.

Postas em termos mais rudes, reproduções matemáticas da realidade que são, as três internets descritas por Naim resumem o que são as culturas que traduzem. A do “despotismo oriental” da chinesa, que decorre naturalmente do “modo de produção asiático” de servidão coletiva; a do “todo poder ao povo” sem nenhum controle da americana; a do “todo poder para o Estado” da européia. A grande “vantagem competitiva” da chinesa é que não tem nenhum compromisso com a lei. A da americana, se a história se repetir, é a da ausência de compromisso com o erro que só se torna possível em sistema mais centralizados e só faz sentido como recurso de defesa de privilégios. A da européia, a suscetibilidade à perpetuação daquela forma de “erro” que, na verdade, traduz “acertos” da privilegiatura que só são possíveis quando a iniciativa das ações de defesa está nas mãos do Estado – e portanto pode ser comprada – e não difundidas nas mãos do povo.

A tendência para o monopólio da competição sem limite traz como sub-produto a facilitação do controle da circulação de ideias e a instrumentalização política pela supressão da diversidade de plataformas. Não é atoa que a grande aliada das big techs (e vice-versa) é, hoje, a esquerda americana. A revolução antitruste que reorientou a democracia deles a partir da virada do século 19 para o 20 encontrou a melhor solução para esse problema ao tomar o cuidado de armar a ganância para se contrapor à ganância, obrigando empresários que conquistassem mais que uma determinada faixa de mercado (tipicamente 30%) a vender parte do seu negócio a outros empresários, forçando a concorrência em benefício do consumidor (e a diversidade sem a qual a democracia não sobrevive), em vez de tratar de limitar a força do poder econômico aumentando a força do poder do Estado (que sempre pode ser facilmente comprada pelo poder econômico).

Existem, no entanto, fortes limitações técnicas para transpor a solução do século 20 para a realidade do século 21. Dificuldades estas que foram muito competentemente delineadas no artigo “Esforço comum para domar big techs” que Rana Faroohar escreveu para o Financial Times, o Valor de terça-feira, 8, traduziu e você pode conferir ampliando a imagem abaixo. Nele Faroohar aponta outra distinção mais importante das internets – a das pessoas e a das coisas; a do consumidor e a industrial e põe ainda no horizonte o desafio da inteligência artificial – que terão de ser tratadas no enorme trabalho de regulamentação que a humanidade tem pela frente se quiser evitar de ser devorada pelo “Grande Irmão”. 

Como não poderia deixar de ser nessa realidade em que cada internet traduz a cultura de que é fruto, neste Brasil Oficial campeão mundial do xadrez da mentira a regulamentação que “O Sistema” auto-referente e preocupado exclusivamente com a sua própria perpetuação ensaia é a mentira da mentira da mentira: o controle das chamadas “fake news” como pretexto para a censura de qualquer manifestação política que fira os interesses da privilegiatura ou possa afetar as eleições, hoje cercadas por uma minuciosa barreira de censura à imprensa que varia conforme as limitações de penetração de cada meio num eleitorado funcionalmente analfabeto majoritário, mas que é inflexível na qualificação de “antidemocrática” de toda ação adversa à privilegiatura punível até com prisão no esdrúxulo “estado de direitos especiais” que a Constituição de 88 criou e “petreamente” mantém, sob o aplauso da old mídia.

Para esse departamento, o resto do mundo já entendeu que o único remédio que não deságua na censura que mata a democracia é o de sempre: deixar que os cidadãos “elejam” diariamente, pagando pelo serviço, as fontes de informação que se propuserem trabalha-la segundo regras de todos conhecidas, e ignorar o resto como boataria da praça pública a que todo mundo desde sempre também tem direito.

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