Pela volta da boa e velha liberdade

27 de outubro de 2021 § 27 Comentários

O cientista político americano Ian Bremmer publicou na última Foreing Affairs uma análise sobre este mundo controlado pelas big-techs tão interessante pelo que diz quanto pelo que não diz.

Constata ele que neste “momento tecnopolar” de um mundo onde não há mais lideranças globais, as mega empresas de tecnologia estão se tornando mais atuantes, geopoliticamente falando, que os governos, exercendo plena soberania sobre o mundo digital. “São eles que criam a arquitetura que define esse espaço, os algoritmos que determinam o que acontece dentro deles e as leis (os longos, ilegíveis e cambiantes ‘termos e condições’) que estabelecem quem pode participar deles e sob quais condições”. E conquanto o mundo digital – “qualquer coisa que inclua um chip e seja definido por dados” – seja, cada vez mais, tão ou mais importante que o mundo físico, sendo nele que nós gastamos dinheiro, digerimos informações, interagimos socialmente e nos protegemos, não é mais um mundo regido pela lei garantida pela força dos governos eleitos mas sim por companhias privadas que atuam como as única autoridades.

Ele dá dois exemplos bem americanos para ilustrar seu ponto. Nos acontecimentos de 6 de janeiro (tentativa de invasão do Capitólio por partidários de Donald Trump), que podiam afetar o futuro da nação, não foi o governo que reagiu bloqueando redes de comunicação, “desplataformizando” o presidente eleito em exercício e identificando os participantes do ataque, quem fez isso foram as big-techs. Também no maior ataque direto à segurança dos EUA e seus aliados no ano passado – a mega tentativa de hackeamento batizada como a dos “Ventos Solares” – não foram governos que reagiram e responderam mas, de novo, as big-techs. “Hoje, para ter a maior influência sobre a próxima eleição americana, é melhor ser o CEO do Facebook que o presidente dos Estados Unidos”.

Retomando sua tese na news-letter do Eurasia Group, dirigida e muito acatada pelos grande empresários e investidores do mundo e, portanto, requerendo respostas para já, Bremmer vê um mundo onde uns Estados Unidos politicamente divididos e economicamente desiguais estarão menos propensos a agir como polícia do mundo e arquitetos do comércio global, uma Europa mais dividida e coletivamente mais fraca, uma Russia em declínio interessada na divisão geral e uma China mais forte e interessada em construir um modelo para disputar a governança econômica e política do mundo.

Para ele o protagonismo das big-techs terá espaço para crescer ainda mais, especialmente em função da paralisia dos Estados Unidos diante do novo desafio. Entre os totalitários, onde tanto as empresas quanto a tecnologia são, antes de mais nada, instrumentos do Estado, não ha dúvida sobre o que fazer. É ele, o dono de tudo, quem determina quais serão os “campeões nacionais” e a serviço de quem estarão. A Europa, para quem as big-techs são, de modo geral, empresas estrangeiras não tão decisivas como motores da economia quanto são da economia yankee, já vem mostrando mais disposição de aplicar nelas a receita de sempre. Regulamentá-las e taxa-las crescentemente, também com as repercussões econômicas e politicas de sempre: corrupção maior e produtos mais caros, na medida inversa das “tradições religiosas” de cada país.

Onde mais obscura se torna a visão do americano Bremmer é quanto ao que esperar das big-techs nos Estados Unidos. Para um leitor desse nosso vasto mundo antidemocrático sempre parece enigmático deparar-se com os traços característicos da democracia americana, especialmente quando eles se manifestam diluídos em uma cultura que, para eles é natural e para nós, soa naïve.

Quando trata do problema no seu país a relação deixa automaticamente de ser, na cabeça de Bremmer, um embate entre o Estado e o Capital. Seu olhar fixa-se em como cada uma das big-techs vê-se a si mesma e à sua relação com o governo e perde-se em divagações ao mesmo tempo doces e amargas porque são registros do que resta da “excepcionalidade” americana … e do desligamento da atual geração dos fundamentos que lhe deram consistência.

Não subestimo a imensa dificuldade técnica subjacente ao problema do controle desses monstros em meio à competição com os monopólios estatais chineses. Mas, independentemente disso, a questão essencial do agigantamento das big-techs é velho como o mundo. E ninguém o tratou, nem antes, nem melhor que os americanos na batalha antitruste da virada do século 19 para o 20.

O engano principal de hoje é conceitual. Esse “mundo digital” ocupa o espaço antes conhecido como “espaço público”. É ele a cidade, o mundo, as praças e as ruas onde se dão as relações sociais e, muito mais especial e essencialmente hoje, as relações econômicas entre todas as pessoas. É onde acontecem o trabalho e as trocas. É onde se cria e se expressa a cultura. É onde se dá a luta política.

Só que está privatizado.

O novo espaço público virtual tem de ser regido com as mesmas neutralidade e garantias das liberdades fundamentais que a humanidade conquistou a duras penas para o espaço público físico: a de crença, a de pensamento, a de expressão, a de reunião, a de propriedade, a de inviolabilidade do círculo íntimo, a do devido processo legal e assim por diante. E para que assim seja, é imprescindível, como o movimento democrático aprendeu ao longo de milênios de sangue, suor e lágrimas e vem ensinando nos últimos dois ou três séculos, que se impeça nele, tanto ou mais que no mundo físico, a acumulação de poder excessivo, seja de que natureza for, porque qualquer poder excessivo acumulado pela espécie humana, econômico ou político, mais cedo ou mais tarde torna-se incontrolável e passa infalivelmente a ser exercido para oprimi-la.

Dividir o poder – qualquer poder – é do que trata a democracia. E é também a condição para o resgate da “crise de identidade” em que a humanidade está mergulhando. Dividir o poder das big-techs sem aumentar o poder do Estado, que deve faze-lo de fora do sistema, como árbitro e não como agente, para reconstituir a hegemonia do indivíduo como cidadão, trabalhador e consumidor é a questão. Como fazê-lo é a tarefa dos cientistas e dos políticos. Tecnologia domestica-se com tecnologia. Mas sem partir da pauta correta, entregando tudo aos caçadores de fake news, aos donos da verdade e a outros falsários ancestrais do mesmo naipe, estaremos apenas atando de volta os grilhões aos pés.

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§ 27 Respostas para Pela volta da boa e velha liberdade

  • Marcos Andrade Moraes disse:

    “Como fazê-lo é a tarefa dos cientistas e dos políticos. Tecnologia domestica-se com tecnologia. Mas sem partir da pauta correta, entregando tudo aos caçadores de fake news, aos donos da verdade e a outros falsários ancestrais do mesmo naipe, estaremos apenas atando de volta os grilhões aos pés.”

    Aliás, como vc fez em 2018 e continua fazendo.

    MAM

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  • Muito bom assunto e ponto de vista!
    Como bem disse, apesar dos avanços, continuamos com os mesmos problemas de fundo e, nesse eterno embate liberal entre o público e o privado, está bem visto o papel do qual o Estado não pode se eximir.

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  • rubirodrigues disse:

    Para instigar meditação gostaria de contrapor à dicotomia público-privado que ordinariamente invoca soluções éticas, a dicotomia parte-todo que exige solução de racionalidade superior. Nossa ciência analítica conduz-nos à contemplação da parte e esconde o todo que molda tudo o que existe. Não existe na natureza ou na produção humana, nada que corresponda ao conceito analítico de parte. Tudo o que existe constitui totalidade perfeitamente fechada em unidade complexa. Cada uma delas viabilizando propriedades determinadas e específicas, de sorte que o que vale para uma parte absolutamente não vale para o todo. O hidrogênio é parte da água mas possui propriedades (plasma) que aplicados ao mundo da água acabaria com ele. Portanto aplicar o que vale para a parte (interesses) ao todo é ato de destruição do todo. O Estado é um todo social e o gestor que atende a interesses de partes é predador da sociedade que deveria servir. Não se trata de desvio ético, é crime contra o estado.

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  • LOCC disse:

    Controlar a veiculação de notícias falsas no âmbito da ação das tais “big techs” no mundo da internet me parece o mesmo que controlar os crimes financeiros no mundo das finanças mundiais. Tentando explicar: o fluxo das finanças no mundo gera distorções prejudiciais a uma parte das populações. Isso exige a ação dos organismos internacionais criando regras para disciplinar esse fluxo. Mas isso nada tem a ver com crimes financeiros, que devem ser rigorosamente punidos pelas autoridades. Faço raciocínio análogo no caso da internet. Ou seja: notícias falsas mal intencionadas nesse meio não podem vistas do âmbito da liberdade de expressão. Devem ser rigorosamente punidas, obedecendo a um regramento claro.

    Curtido por 1 pessoa

    • Alexandre disse:

      Mas e quem determina o que sejam “notícias falsas mal intencionadas”?

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      • Fernão disse:

        É exatamente aí que está o ponto, uma questão resolvida ha mais de meio milênio. Não ha maneira objetiva de definir o que é “noticia falsa” o que quer dizer que acender essa fogueira é obrigar-se a alimentá-la com corpos indefinidamente, escolhidos conforme o dono da verdade do momento.

        Só os absolutamente jejunos em História (basta a de ontem ou mesmo a de hoje, não precisa ir longe) não sabem disso.

        Da preguiça (re)discutir obviedade tão velha…

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      • Alexandre disse:

        Pois é, Fernão…

        E caberia outra pergunta (retórica): E se fossem “notícias falsas” mas “bem intencionadas”, seria admissível (pelos candidatos a controladores)?

        (Vejo delas aos montes e diariamente na chamada imprensa profissional)

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      • A. disse:

        O seu “xará”, do supremo, e o Renan junto com o Randolphe… Tá bom ou quer mais alguns?
        P.S.: abração!

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      • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

        Tanto o Estado como as HighTechs tem que ter leis que rejam a atitude com relação às fake-news. A falta de regras gera a anomia, o caos na informação via desinformação ou falsa informação. Cabe ao leitor reagir punindo com comentários sérios contra as fake-news e penso que boa parte do combate a elas estará encaminhado, pois os falsificadores de notícias serão expurgados.
        O bicho-papão é termos as hightechs decidindo a bel prazer e interesses comerciais e políticos. o que é e quem é falsificador de notícias.
        Apreciei seu artigo, uma boa provocação para pensarmos sobre esse tenebroso assunto.

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      • Fernão disse:

        Você não entendeu nada, Herbert: o problema é definir o que é fake news. E se alguém, senão cada leitor, tiver esse poder, danou…

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  • carlosleonciogmailcom disse:

    Excelente matéria, lança boa luz no oportuníssimo artigo. Parabéns.

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  • Paulo disse:

    Percepção inalcansável para mentes psicopatas e mal letrados amados:

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    • A. disse:

      Uma pessoa que usa BOINA é confiável? (sou preconceituoso assumido!)

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      • Herbert Sílvio Augusto Pinho Halbsgut disse:

        Confio nas informações prestadas por Reinaldo Azevedo e em muitos outros comentaristas e jornalistas preocupados, de fato, com a solução dos grandes problemas nacionais, mesmo que usem boina e rabo -de- cavalo, porque não brincam em serviço e praticam jornalismo sério e útil ao bem comum.
        Não confio em generais do nosso Exército que usam e não respeitam o próprio quepe ao se intrometerem politicamente em áreas da nossa administração pública para as quais não estão devidamente formados/ preparados, como a sensível área médico-farmacêutica, em cujos trabalhos de intendência não podem falhar nem postergar em tempos da pandemia de covid-19.
        O fato e comentaristas se manterem no anonimato nãi significa que sejam menos confiáveis; apenas excêntricos espertos.

        Seria A. um famoso médico que escreve excelentes e confiáveis artigos na área de ética médica? Quem sabe meus amigos Sherlok e Watson possam me esclarecer esse enigma.

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      • Paulo disse:

        Oi Herbert! Saúdo a ti acompanhado pelo comentário que revela amor entre criaturas. Paciência, expressão mágica entre tantas outras. Peço humildade para suportar em sobrevivência neste plano a fimdw realizar destino que desconheço.

        E tchau.

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      • Alexandre disse:

        O problema com o Reinaldo Azevedo não é a boina ou o cabelo, mas a estranhíssima mudança de posição dele em relação a Lula e ao PT (aliás, lembra a mudança do Gilmar Mendes em relação ao Moro e à Lava Jato) .
        Abs.

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      • A. disse:

        Esse cidadão assume que foi trotskista na juventude. Como esquerdismo não é posição política e sim desvio de caráter, “uma vez Flamengo, Flamengo até morrer”… ou “o uso do cachimbo faz a boca torta”!

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      • A. disse:

        E agora que me toquei quem foi que postou o vídeo do Azevedo. Nada a comentar…

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  • Eu disse:

    Percepção inalcansável para mentes psicopatas e letrados mal amados:

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  • Jackson Blecker disse:

    Muito se fala das Big Techs mas o problema é global e se resume a um só ponto – falta de caráter.
    Imaginem se os “País Fundadores” tivessem a visão do executivo sub prime de hoje, aquilo teria virado um monte de republiquetas com seus caudilhos e é nisso que o mundo está se transformando, 1% dos priveligiados ferrando com os outros 7 bilhões escravisados numa telinha, bem Matrix.
    Saída para esse buraco? Educação, boa, barata, sem discriminação, ideologia, gênero e outras baboseiras paulofreire. Afinal a nau é habitada pôr todas as cores, gêneros e credos.
    Enfim, não adianta elucubrações, Greta, Biden, Trump, ChingLing, União Européia, etc se a coisa toda só é boa pro Rothschild que ganha em todas as apostas e enquanto a coisa não for para “we are the people” a discussão de botequim vai permanecer.
    Quanto a “Terra Brasilis” temos cenários sendo construídos para 2022 e nada sério está sendo discutido, a terceira via é de matar de rir com os nomes propostos, direita e esquerda é sempre mais do mesmo e nada lúcido é produzido, de qualquer fonte que se houve é só o choro de como recuperar os privilégios perdidos, falta-nos uma liderança que traga uma política industrial, política agrícola, educação de qualidade, assistência à saúde e principalmente caráter no trato público. Espero que o próximo presidente entenda isso: as exportações devem ser complementares ao mercado interno, vender comida de porco só é bom pra gastar com a privilegiatura e não põe feijão na mesa do povo e base monetária é pra ser respeitada, se não é inflação.

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  • Mauro Ribeiro Silva disse:

    Fernão, você viu o vídeo Monopoly, que trata do controle de quase tudo no mundo por meia dúzia de investidores? O que você acha? Acho inacreditável ninguém estar se dando conta do risco à liberdade que significa.

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  • Mauro Ribeiro Silva disse:

    O site pra ver o vídeo em português é

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