A vitória (temporária) dos ladrões

11 de junho de 2019 § 8 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 11/6/2019

A crise não é da democracia. A crise é do estado nacional e, como consequência, do modelo econômico que se apoia no ordenamento jurídico que o estado nacional garantia.

Falo do mundo, não do Brasil. O funcionamento do capitalismo (e a liberdade possível) depende da garantia do direito de propriedade. Foi esse o fundamento que caiu. Sem garantia da propriedade não se renova a capacidade do empreendedor, seja de que tamanho for, de financiar o desenvolvimento do seus próximos empreendimentos e a economia pára, o emprego desaparece, o salário míngua.

Hernando De Soto demonstra com dados objetivos no seu “O mistério do Capital: porque o capitalismo triunfou no Ociente e falhou nos outros lugares”, que a principal causa da pobreza do Terceiro Mundo nem é cultural, nem de falta de espírito empreendedor, nem de diferença na quantidade de trabalho investido (e muito menos da disponibilidade ou não de recursos naturais), é a falta de garantia do direito de propriedade. É especialmente para os mais pobres, obrigados a “refugiar-se de legislações defeituosas na informalidade onde todo trabalho investido transforma-se em capital mortoque não pode ser transacionado senão num padrão arcaico”,  que essa falha é mais funesta. “O pobre é quem mais precisa dessa garantia para poder apropriar-se do resultado da força de trabalho que investe, a única coisa que ele tem”.

De Soto lembra ainda que essa incerteza geral sobre o que é de quem só começou a ser revertida na Europa “favelão nacional” do século 18 em diante, a partir da revolução industrial, e mais tarde ainda nos Estados Unidos que, “na sua luta para fazer um território virgem converter-se numa nação levou a garantia da propriedade às últimas consequências”, o que explica o seu crescimento vertiginoso a partir da virada do século 19 para o 20, quando entregou a chave das decisões políticas a quem mais precisa dessa garantia. “O Terceiro Mundo é o que eles foram há 100, 200 anos. A verdade  é que a legalidade é a exceção. A extra-legalidade sempre foi a norma. A constituição de sistemas integrados de propriedade no Ocidente é um fenômeno muito recente”.

Com a entrada em cena da internet fazendo desaparecer fronteiras num mundo onde a ordem legal plenamente estabelecida é a exceção, o primeiro e o mais formidável dos desenvolvimentos proporcionados pela informática foi o da capacidade de roubar.

Dentro e fora dos EUA as mega-empresas de trilhão de dólares são invariavelmente os grandes ladrões: o Google que rouba deus e o mundo com a inestimável contribuição dos roubados, o Facebook que compete com ele nisso e na venda de informação roubada na diuturna tocaia de cada passo e cada palavra trocada pelos seus usuários, a Amazon, latifundiária do comércio que mata concorrentes e explora todo servo da gleba que tenha algo para vender no planeta, e mais as suas contrafações chinesas…

A China, onde o estado patrocina o roubo planetário (de ideias, de patentes, de desenhos, de tudo), tornou-se imbatível e vai comprando o mundo. No Ocidente os ladrões privados ainda enfrentam algum nível de resistência do estado. Têm de bandear-se literalmente para dentro do “território livre” da China para se tornarem ladrões competitivos, como demonstrou Tim Cook, o verdadeiro artífice do gigantismo da Apple conquistado com a isca do supply chain que, uma vez agarrada a vítima, revela-se um esquema de exploração  de trabalho vil padrão Foxconn.

Sem garantia da propriedade volta-se à Idade Média: é o fim da hegemonia do consumidor que “tinha sempre razão” (e principalmente escolha, que é o nome despido de poesia da liberdade), a morte do princípio antitruste, a concentração extrema da riqueza. A economia como um todo embarca no “efeito Jardim Europa”: cada vez menos gente comprando cada vez mais terrenos em incessantes “fusões e aquisições” até que sobrem só uns tantos castelos murados com os súditos subempregados e o crime à solta em volta, trocando trabalho, inovação e proteção por migalhas.

O embate cada vez mais irracional e furioso entre “direita” e “esquerda” é um eco do sofrimento que essa fissura do fundamento básico do sistema causa. O corre-corre sem saber pra onde no meio do terremoto no escuro. E vai puxado pela imprensa, uma das indústrias mais violentamente assoladas pelo pior lado das novas tecnologias.

Em pânico com o efeito da vitória esmagadora dos ladrões; nas mãos de um número minguante de patrões; inseguras quanto às causas reais da sua desgraça, a primeira reação das pessoas e das empresas é correr para dentro das muralhas dos castelos em busca de proteção.

Sair é que são elas. Mas desta vez, espera-se, não levará mil anos como da anterior.

US$ 4.7 bi, quase tanto quanto os US$ 5.1 bi de todo o resto da indústria da informação dos Estados Unidos somada, foi quanto o Google faturou sozinho em publicidade vendida em cima do noticiário que ele não produz segundo um estudo da News Mídia Alliance que representa mais de 2000 órgãos de informação americanos. O cálculo é, aliás, conservador porque não inclui o que ele ganha vendendo a espionagem dos hábitos de consumo de informação dos seus clientes, o filé mais caro do seu açougue.

Acovardados todos, só agora os donos do que o Google e a meia dúzia de gigantes da praça colhem sem ter plantado começam a reagir. Está no congresso dos EUA, depois de várias iniciativas da União Europeia com objetivos semelhantes, a Lei de Competição e Preservação do Jornalismo, equipamento imprescindível da democracia, que suspende por quatro anos os dispositivos contra a cartelização da legislação antitruste para permitir aos grupos de comunicação negociar conjuntamente com eles a exigência de pagamento pela venda dos seus produtos. A lei tem apoio de democratas e republicanos nas duas casas do Congresso, além do Departamento de Justiça.

É o começo de uma longa marcha que desta vez terá de ser levada pela comunidade humana como um todo, de modo que acabará por arrastar também a nós, como sempre, quae será tamen

Fake é a utopia cyber

11 de dezembro de 2018 § 33 Comentários

Nunca alimentei ilusões com a internet e as criaturas hiper-alimentadas da infância dessa tecnologia. O sonho de todo ditador é saber sobre todo mundo o que elas sabem. E a única condição para uma arma vir a ser usada contra nós continua sendo ela ter sido inventada um dia. A tecnologia sempre foi isso, desde o primeiro porrete. Multiplica, indiferentemente, as forças construtiva e destrutiva da humanidade, esta última em geral mais rápida e completamente que a primeira.

De “ruptura” em “ruptura” nossa espécie nunca rompe com sua própria natureza. O primeiro efeito das novas tecnologias é promover uma troca revolucionária dos donos do dinheiro, o princípio ativo do poder. Mas ele continua corrompendo sempre e mais absolutamente quanto mais absoluto for. Como a esperança é a última que morre e experiência não passa de pai para filho acontece sempre a mesma confusão. As primeiras ambições humanas a domina-las para chegar mais perto do sol, que é o que nos move nesta passagem, são festejados como os heróis de uma nova era e os precursores de uma “nova humanidade”.

O que alimenta essa ilusão é o nosso temor atávico ao competidor de melhor desempenho e, portanto, o gosto em vê-lo cair. O século 20, que elaborou em ideologias a justificação moral do ódio contra o vencedor de ontem, proporcionou aos vencedores de hoje a devolução do espaço sem limites que a democracia lhes tinha cerceado. Permitiu-se ao Google e ao Facebook tudo que a humanidade aprendera a proibir às companhias telefônicas e ao resto dos agentes econômicos no estado de direito. Em nome da “democratização do saber” foi autorizado aos primeiros detentores das artimanhas do algoritmo, que nunca as dividiram com  ninguém, espionar todos os movimentos, palavras e obras dos seus usuários e vender livremente o que assim conseguissem roubar-lhes. À Amazon todas as práticas de dumping e competição predatória de que a humanidade aprendera a proteger-se desde a disrupção do mundo a cavalo pelas ferrovias e o nefasto conluio dos donos delas com os robber barons para roubar o próximo. À Apple praticar livremente na China todas as formas de exploração da miséria e do trabalho semi-escravo que no mundo para o qual se destinavam seus produtos eram punidas com cadeia já havia mais de um século.

Da proteção da concorrência como garantia da liberdade individual – e a que condiciona todas as outras é a de poder escolher fornecedores e patrões – o mundo civilizado involuiu para o engodo da “democratização do consumo” pelo mel dos “preços baixos” dos produtos do roubo de ideias e do salário vil que, logo além da curva, não compra mais nada.

Estados nacionais inteiros, onde ele pode ser mantido pelo terror e pela violência, aderiram ao esquema. E a vertigem da marcha-à-ré e o medo do desemprego rebaixaram as ultimas defesas das classes médias meritocráticas, sustentáculo das democracias nos estados de direito. Hoje só sobrevive quem nasce para ser abduzido a bilhão para a nave mãe dos exploradores. Só os quatro gigantes compraram mais de 500 concorrentes na última década. São 50 anos de recordes de fusões e aquisições. US$ 3,3 trilhões, globalmente, só até setembro em 2018.

A etapa que se vai completando agora é o golpe de misericórdia. Começa em 2006 quando o Google adquire o Youtube. O vídeo dominaria a web, era claro, mas o problema técnico era insuperável. O volume de bits para imagens em movimento não cabia na rede que, em última instância, é física. Cabos de fibra ótica cruzando oceanos e continentes. O resultado era o buffering, videos que passavam aos trancos, cheios de interrupções. Entrega-los sem buffering passou a ser o objetivo nº 1 de toda a capacidade técnica que a ilimitada potência financeira do Google era capaz de comprar. O resultado foram as CDN’s, redes dedicadas, agora pertencentes a produtores de conteúdo que antes usavam a rede de redes menores conectando o mundo entre hubs e destes para distribuidores menores até o consumidor final, cada uma com um dono diferente, todas conversando entre si pela tecnologia de peering, espécie de tradução automática para uma linguagem técnica geral, tudo sob a lei sagrada, à qual todos juravam obediência, da “neutralidade da rede” segundo a qual era livre o ingresso de qualquer conteúdo em qualquer ponto do sistema e a ordem de entrega deveria corresponder à ordem de entrada.

Com as CDN’s tornaram-se possíveis as Netflix … que passaram a requerer muito mais CDN’s. E o cacife passou a ser proibitivo. Lá se foram as redes menores … lá se vai, agora, Hollywood inteira, depois do resto da industria do entretenimento. Hoje tres ou quatro gigantes são donos de todos os artistas. Pautam o comportamento do universo. Na torrente dos bilhões foi-se a net neutrality. Agora paga-se pela prioridade de chegada de cada bit enfiado no sistema. Quem paga menos chega por último ou nem chega. A própria rede, que “disrompeu” a ordem anterior em nome da libertação do povo e da arte da ditadura da propriedade privada é agora uma propriedade privada da escassíssima confraria do trilhão cercada de terra arrasada em todo o entorno competitivo.

E o mundo vê a novela que o Brasil já vira. Sillicon Valley compra o perdão de seus pecados declarando-se “de esquerda” e facilitando o “aparelhamento” do sistema lá de dentro dos seus mega-iates no grand monde. E o mais recente engodo é a demonização da fofoca, que predomina na nova praça pública virtual como sempre predominou em todas as praças públicas que já existiram. As fake news são o mais novo pretexto para matar a democracia em nome da salvação da democracia. É com elas que justifica-se a censura e reforça-se a ditadura comportamental enquanto os trilionários da rede compõem-se, nos bastidores, com as chinas da vida trocando tecnologia para a servidão por mais audiência e dinheiro.

E o pior é que estão por nascer os próximos shermans e theodore roosevelts, paladinos da luta antitruste que resgataram os Estados Unidos dessa mesma armadilha ha pouco mais de 100 anos, e que na próxima edição terão de ter uma envergadura planetária.

 

Quem está vazando o quê, para quê?

6 de abril de 2016 § 5 Comentários

oh14

Num mundo cada vez mais movido a vazamentos de escutas telefônicas e devassas de memórias de computador, o Facebook está tratando de se proteger. Acaba de anunciar que tudo que for transmitido pelo Whatsapp, o sistema de troca de mensagens comprado pela companhia, vai ser automaticamente codificado por um sistema para o qual nem ela própria tem a chave de decodificação. “Só mesmo quem mandar uma mensagem e as pessoas às quais elas forem endereçadas receberão algo legível”.

Não exatamente.

A decisão vem na sequência do caso recente entre a Apple e as forças anti-terrorismo americanas em que a empresa recusou-se a entregar a chave de decodificação da memória do iPhone carregado pelo terrorista que, junto com sua esposa, fuzilou várias pessoas na rua em San Bernardino, Califórnia. Logo na sequência dessa negativa, porém, os hackers a serviço da lei conseguiram quebrar o código sem ajuda da companhia. O caso ocorrido no Brasil em que um juiz do Piaui mandou prender um executivo do Facebook porque a empresa demorou a abrir seus códigos para a investigação de um traficante de drogas também pesou para a decisão sobre o Whatsapp.

Mais que tudo o Facebook está tentando proteger-se juridicamente de futuros  pedidos de escuta e devassa de suas bases de dados pois, como ficou demonstrado no caso da Apple, qualquer código construído por um computador pode ser decifrado por outro computador.

oh14

O fim da privacidade na era das redes é um fato irrevogavel. Os sistemas de vigilância desses canais de comunicação são essenciais tanto para prevenir atos de terrorismo quanto para quebrar quadrilhas de traficantes e esquemas de corrupção. A Lava Jato, por exemplo, nunca teria chegado ao que chegou sem os sistemas criados pelos americanos para combater a lavagem de dinheiro do terrorismo e do crime organizado. Esses mesmos instrumentos, entretanto, são usados para o mal. Para operações subliminares de manipulação política ou para a opressão pela fiscalização e “linchamento moral” dos adversários políticos, como nós brasileiros temos aprendido a duras penas. A interpretação dos vazamentos de comunicações e/ou movimentações de dinheiro via internet entre nós assemelha-se cada vez mais a um jogo de xadrês onde, para além de olhar por baixo das aparências a quem beneficia cada crime, tudo tem de ser avaliado considerando-se várias jogadas à frente e fica cada vez mais difícil discernir quem vazou o quê, para quê?

Como manter funcionando uma democracia representativa em que a base de tudo é a confiança e a confiabilidade da representação num ambiente desses?

Com as inestimáveis contribuições de ministros do Supremo Tribunóh Federóh para fechar todas as saídas que porventura restem, é esse o brejo em que estamos afundando.

oh14

Você está tendo um dia ruim?

29 de agosto de 2014 § 4 Comentários

RonaldWayneMacworld2009

Se está, console-se com esta historinha:

Neste mesmo dia de 1976, Ronald Gerald Wayne, nascido em 1934 e hoje um trabalhador aposentado da industria eletrônica, vendeu 10% das suas ações da Apple Computer, de que ele foi co-fundador com Steve Wozniak e Steve Jobs, encarregado da parte administrativa da startup, por US$ 800.

Hoje o seu quinhão vale US$ 58.065.210.000 dólares.

Matéria sugerida por Carlo Vallarino Gancia

O último a derrotar a máquina

3 de junho de 2013 § 6 Comentários

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É provável que Steve Jobs venha a ser, para a História, o marco da última grande vitória do homem sobre a máquina.

Mesmo com o implacável império do recondicionamento algoritmizado das criações alheias em pleno funcionamento e tendo-o o Google anos antes de sua morte como o principal foco da sua ação predatória, foi a força do seu gênio que, até o seu ultimo dia na Terra, seguiu transformando e retransformando a paisagem cultural humana dando dribles desconcertantes no território do previsível onde a matemática e o Google reinam incontestáveis.

Depois dele, com a acumulação de informações sobre cada pequeno ato do nosso cotidiano municiando a formulação de algoritmos cada vez mais complexos e exatos combinada com a sistemática sanção econômica imposta a quem resistir às novas técnicas “colaborativas” de produção e “criação” em todos os campos de especialização, o indivíduo, pelo menos enquanto agente econômico, estará morto.

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Já não é possível produzir e vender de forma sustentável nem música, nem informação, nem aplicativos (e o que mais se quiser lembrar de incluir nessa infindável lista), senão por meio de um dos dois gigantes do hiper-processamento, a Apple ou o Google, assim como se vai tornando inviável vender qualquer bem físico por fora dos canais da terceira fera detentora dessa capacidade, a Amazon.

Ha erzats desses leviatãs reproduzidos aqui e ali onde o Estado Nacional ainda consegue manter porteiras semi-cerradas, mas não por muito tempo.

E a cada minuto que passa, mais bilhões entram no caixa dessas baleias e mais profundo e intransponível se torna o fosso entre elas e quem possa vir a aventurar-se a sair das profundezas para tentar desafia-las.

ste4Nos próximos semestres, o Google terá tragado também a Apple cuja força estava concentrada na capacidade de criação e invenção de seu falecido dono e não na especialização em espionar e medir comportamentos humanos além de roubar invenções e conteúdos alheios e anaboliza-los sobrehumanamente com algoritmos de modo a açambarcar mercados e amealhar uma quantidade inenfrentável de trilhões.

Esta capacidade, a partir de um limite, opera uma mudança decisiva: mata, por inútil, qualquer veleidade de resistência do roubado, transformando todo e qualquer criador ou inovador em qualquer área de especialização e onde quer que esteja, ainda na casca ou já fora do ovo, no máximo num futuro empregado do gigante que passa a trabalhar desde o início na expectativa de entregar-lhe o que vier a criar contra uma quantia que, quanto mais solitário no mercado estiver esse comprador já quase único, menor tende a ser.

ste8

É o momento em que o fenômeno deixa de ser visto como uma violência para transformar-se em uma nova cultura pacificamente assimilada, como na Idade Média, para lembrarmos apenas do período mais recente em que tal cultura foi dominante.

Esta semana a imprensa especializada noticiava que o Google já ultrapassou o limite que praticamente “condena-o” a transformar-se na plataforma única de venda de aplicativos – o novo nome dos meios de produção – uma das invenções que fez da Apple de Steve Jobs o gigante que foi um dia.

Quase no mesmo dia a Apple anunciou o download do quinquagésimo bilionésimo aplicativo vendido para o seu sistema iOS (iPhone, iPad e cia.) enquanto o Google anunciava a venda do quadragésimo oitavo bilionésimo programa produzido pelos anônimos do mundo e vendido na sua plataforma para os processadores do sistema Android.

ste14

Mas o número importante é o que mede a virada da tendência. Embora a Apple ainda venda 850 mil aplicativos, muitos dos quais ainda não disponíveis para o sistema do concorrente, o Google já espalhou pelo mundo 900 milhões de aparelhos Adroid enquanto a Apple tem só 600 milhões de máquinas iOS em circulção. E isto põe as vendas de aplicativos do Google na conta de 2,5 bilhões de unidades por mês contra apenas 2 bilhões de downloads por mês da Apple.

O resto é apenas questão de tempo, portanto.

Como que a selar o epitáfio, Tim Cook, o sucessor de Steve Jobs na Apple, participando na semana passada da conferência anual do AllThingsD, publicação líder do setor de tecnologia, embananou-se todo para mostrar quais as novidades em gestação na antiga usina de criação de Cupertino.

A fonte secou…

ste10

Já os algoritmos, a ferramenta matemática que deu vida ao Google, são cada vez mais onipresentes e vão tornando a mão de obra humana cada vez mais obsoleta, dispensável e googledependente.

Cito trechos de artigo recente de Sergio Augusto para o Estadão:

É por meio de algoritmos que os sites de busca na internet hierarquizam suas informações, as locadoras online estimam quais os gêneros de filme de nossa preferência, as livrarias virtuais selecionam os lançamentos e as rádios digitais preparam suas programações.

Sem algoritmos, o Google, a Netflix, a Amazon e a Pandora Radio seriam inviáveis, as campanhas políticas e publicitárias se transformariam em meros chutes sem nenhuma base.

Já existe arte criada a partir de algoritmos.

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‘Daqui a 15 anos, 90% dos textos da imprensa serão escritos por computadores (sem intervenção humana)’, prevê Kristian Hammond, fundador da Narrative Science.

Reportagem de Brook Barnes, publicada no New York Times mostra a crescente utilização de dados estatísticos na confecção de roteiros e scripts de cinema”.

Nos bancos, nos fundos de investimentos e nas bolsas de valores, não são mais operadores que compram e vendem ações, são computadores armados de algoritmos que decidem para que lado vai virar a economia global. E nem os médicos podem mais nada sem o recurso a essas fórmulas matemáticas até certo ponto elas também auto engendradas e às máquinas que fazem melhor que eles o que eles antes faziam por nossa saúde.

Do que sobrou, no mundo das manufaturas, de peças de automóveis a órgãos humanos, as impressoras em 3D movidas a algoritmos se encarregarão.

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O que foi dito até aqui, cabe lembrar, não é uma visão de futuro, é nada mais que uma descrição do presente.

É daí que tiro as previsões que se seguem:

Nesse novo “socialismo colaborativo” animado e fiscalizado pela matemática, pelas super-memórias e pela hiper-capacidade de processamento a originalidade de origem humana será sancionada primeiro economicamente, o que já será suficiente para praticamente varre-la da face da Terra enquanto o bezerro de ouro seguir sendo o único deus idolatrado pela nossa espécie.

Mais adiante é provável que venha a ser perseguida também pela polícia pois, como tudo se dará em processos despersonalizados a autoria, primeiro, e a mera diferença, depois, começarão a ser tratadas como crime posto que, não havendo autores nem proprietários tudo desaguará, como no socialismo arcaico que conhecemos no século 20, numa ultra-centralização como esta que já se vem ensaiando no Google, no que diz respeito aos meios de produção (tecnologias da informação). E essas entidades hiper centralizadoras odeiam a diferença.

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O rei de quem todos serão dependentes poderá, então, não apenas cobrar o imposto que quiser para por em circulação as criações alheias como também determinar – e aos seus barões contemplados com os monopólios em que já se vão consolidando cada setor de produção de insumos para os demais setores – que as criações dos seus desafetos não circulem nunca.

É um cenário sinistro, eu concordo. Mas duas coisas me impedem de ser mais otimista: primeiro porque é principalmente em economia que o meio inevitavelmente se transforma “na mensagem”; segundo porque a relação da humanidade com o poder nunca a levou numa direção diferente da prevista acima.

O consolo é que “haverá sempre moicanos” e a imaginação humana para inventar meios de atalhar e moer O Poder também sempre se mostrou inesgotável.

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Civilização é só medo da polícia

27 de maio de 2013 § 15 Comentários

ban1

Enquanto nossas autoridades seguem mergulhadas na momentosa discussão para saber se a transformação do tiro na cabeça à queima roupa numa espécie de esporte nacional é mesmo função da pobreza e se há alguma coisa que se possa fazer a respeito mais que manter seus praticantes soltos pelas ruas do Brasil enquanto se distribui dinheiro por aí, o mundo rico nos dá provas cada vez mais veementes de que a civilização não é mais que medo da polícia, bastando tirar de cena a perspectiva da cadeia para que regressemos ao estado selvagem.

Não é que o dinheiro não é capaz de curar-nos do que somos. Nem mesmo a educação é capaz disso por si só.

Ao contrário, o que os fatos demonstram é que dinheiro e conhecimento sem polícia fazem dos mais refinados e ricos entre os exemplares da espécie apenas predadores mais eficientes.

ban10

Os produtos da Apple, por exemplo, revolucionaram todos os processos humanos, dos atos mais prosaicos do cotidiano ao modo de se abordar a mais alta ciência. E Steve Jobs, seu criador, tem sido saudado, com toda a propriedade, como o maior gênio da raça depois de Leonardo da Vinci.

Mas bastou que as ferramentas que ele próprio ajudou a inventar universalizassem as leis da economia – que ritualizam os nossos instintos básicos – antes que pudessem universalizar as leis da política – que ritualizam os diferentes graus de superação desses instintos básicos que as sociedades humanas foram capazes de atingir – para que ele próprio indicasse aos seus concorrentes a oportunidade que isso abria de voltar impunemente ao mesmo grau de exploração do homem pelo homem dos primórdios da Revolução Industrial.

ban11

E lá migrou a empresa símbolo do auge da sofisticação científica atingida pela humanidade para os mais remotos grotões da China para explorar a miséria criada pela utopia socialista e o trabalho quase escravo de crianças para cima, em esquemas marcados por tais extremos de vilania que chegaram a produzir ondas de suicídios em massa.

O seu espetacular “sucesso” como “empreendedor” – tinto de sangue pouco importa – arrastou para os antros de miséria do mundo os empregos dos seus próprios conterrâneos que, não obstante, babavam de admiração por esse grande feito “empresarial” enquanto compravam baratinho os produtos desse esquema vil com seus salários reduzidos pela competição dos pobres do mundo.

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Graças a essa mesma oportunidade de fazer sem medo da polícia o que os levaria para a cadeia em seus próprios países, os mais “sensíveis” e “criativosdesigners de moda exportaram a produção das roupas e acessórios que criam “para tornar a vida mais confortável e glamurosa” para “fábricas” sórdidas nas Bangladeshs da vida onde trabalhadores famintos que imploram por um salário de US$ 38 por mês se amontoam em tugúrios onde mourejam de sol a sol sob o risco de morrerem envenenados ou esmagados por desabamentos.

Benetton, Mango, Primark, H&M, Tommy Hilfigher, Calvin Klein, Tchibo, The Children’s Place, Monsoon, DressBarn ou a nossa C&A, foram algumas das marcas que, por tras de seus desfiles e editoriais de moda recheados de beleza e abundância, tiveram de se desculpar pelo último desastre do gênero. Nada que outros que ainda não tiveram tanto destaque não façam também.

ban13Mas suas lojas espalhadas pelo mundo continuam abarrotadas de gente ansiosa por desfilar por aí um look cool a preço conveniente.

Bangladesh que se lixe!

O mesmo caso da nossa Vale do Rio Doce, que faz com os seus carvoeiros de Moçambique o que nem no Brasil é permitido fazer…

A civilização, repito, não é mais que medo da polícia. Está na hora, portanto, de nossas autoridades meterem mãos a obra em vez de seguirem esperando, com as nossas e as cabeças de nossos filhos como alvo, que alguma espécie de milagre convença os assassinos que andam a solta por aí a nos entregar de livre e espontânea vontade aquilo que nem os mais ricos, sensíveis e educados representantes da espécie entregam senão contra uma muito concreta certeza de acabarem seus dias numa jaula se resistirem a faze-lo.

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Pelo imposto da dignidade

1 de outubro de 2012 § 1 comentário

O motim que explodiu na semana passada na unidade de Taiyuan, província de Shanxi, China, da Foxconn, com 40 feridos, foi o enésimo episódio de violência do trabalho registrado sob essa marca que se vai transformando no símbolo mundial do capitalismo selvagem, mas que cresceu e apareceu no cenário das gigantes da manufatura da China especializando-se em trabalhar para a Apple, representante máxima do último refinamento do capitalismo democrático.

A Apple e a Foxconn são, por assim dizer, o ponto onde a cobra morde o próprio rabo, a mostrar que a civilização é mesmo só uma fina camada de verniz e a dar uma nova leitura ao velho ditado de que “o preço da liberdade é a eterna vigilância“.

Comentei quinta-feira passada a entrevista à Veja do poeta Ferreira Gullar em que ele dizia que, sendo um reflexo dos instintos humanos que empurram para a desigualdade e a injustiça mas, ao mesmo tempo, a forma mais eficaz de produzir riqueza, único remédio capaz de corrigir essas injustiças da natureza, o capitalismo é uma necessidade, “uma fatalidade” que precisa ser controlada, sendo função do Estado impedir que ele seja reduzido a uma mera expressão da lei do mais forte e leve a exploração do homem pelo homem a níveis extremos.

Somente essa fábrica da Foxconn, grupo que emprega mais de um milhão de pessoas, tem 79 mil funcionários, mais ou menos o equivalente a toda a força de trabalho que move a General Motors, um dos últimos “gigantes” (coitados!) remanescentes da era pré-globalização e um dos maiores empregadores que restam nos Estados Unidos.

Este motim, que se segue a episódios que chegaram a extremos como o de suicídios em massa ha dois anos, começou com uma briga entre dois funcionários bêbados que foram atacados com tanta “ferocidade” pelos “seguranças” da fábrica que provocaram uma rebelião geral que requereu a interseção de 5 mil policiais para amainar os ânimos.

A fábrica de Shanxi trabalha tão somente para a Apple, onde se materializam os sonhos futuristas do genial Steve Jobs, símbolo do ápice da sofisticação do capitalismo democrático mas que … jamais teria chegado onde chegou se não explorasse da maneira mais vil e desonesta possível – e antes dos seus concorrentes – a oportunidade de fugir às leis de proteção ao trabalho dos Estados Unidos e pisar na garganta de seus operários aberta pela globalização do mercado de trabalho proporcionada em parte pela informática por ele desenvolvida, exportando a montagem dos computadores que desenhava para a China Comunista onde vale tudo.

Foxconn é uma estrutura que fica a meio caminho entre uma fábrica e uma prisão. Boa parte dos funcionários vive em cubículos dentro da própria fábrica cumprindo turnos de até 12 horas sob a fiscalização estrita de brutamontes armados.

Como foram trazidos do interior da China, sem um tostão, tornam-se totalmente dependentes desse empregador, quase escravos submetidos a “castigos físicos“, turnos dobrados e etc.

Essa condição vai piorando desde o momento em que se inaugura a produção. Como essas empresas são montadas apenas para servir a Apple, uma vez completado o investimento começam as renegociações draconianas, ano a ano, entre os chineses e a empresa americana que se torna a compradora única de tudo que eles produzem.

Como sempre, entre fechar e seguir vivendo como der, a corda da “redução de custos” e dos “ganhos de produtividade” estoura do lado mais fraco: salários e direitos são esmagados, turnos são aumentados, a qualidade dos materiais, especialmente os que envolvem segurança e limpeza das fábricas, alojamento e alimentação dos operários e outros que não aparecem imediatamente em seu produto final, é espremida…

Vai por aí. Não tem mágica.

Um dia, quando se cansarem de chutar-se uns aos outros em nome de esotéricos conceitos de “esquerda” e “direita“, e métodos “monetaristas” ou “keynesianos” de lidar com o empobrecimento geral que a exportação dos empregos, o aviltamento planetário dos salários e o mau humor geral que disso resulta, os americanos talvez atentem para o verdadeiro foco do problema que eles foram os primeiros a identificar e encaminhar ha quase 240 anos.

Qual seja: não sendo os homens santos, é preciso que sejam controlados para que não se devorem uns aos outros, cabendo ao Estado esse papel. Se o estado se associar ao capital (como está fazendo em marcha acelerada no Brasil do PT e até, em certa medida, nos próprios Estados Unidos), resultam daí as chinas e as foxconn da vida. E, nesta nova realidade globalizada onde “nenhum homem é uma ilha“, havendo um “chinês” disposto a trabalhar como quase escravo, a quem os steve jobs possam recorrer para ganhar um pouco mais, todos nós estaremos fadados a virar quase escravos também.

De modo que a solução para a crise dos Estados Unidos e da Europa não está nos livros de Keynes ou dos monetaristas, nem muito menos em ter uma atitude “liberal” ou “republicana” e em esgrimir brilharecos retóricos em torno dessas nulidades pela imprensa, mas sim em dar um jeito de taxar os produtos que se consome segundo o grau de liberdade e dignidade do trabalho embutidos neles.

Porque sendo o homem a fera que é, regida pela economia (“quem come mais vive mais“), se a liberdade e a dignidade do trabalho continuarem não valendo nada e sendo apenas “custo” estão irremediavelmente fadadas a desaparecer da face da Terra.

Onde estou?

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