Jornalismo, censura e democracia

28 de abril de 2022 § 1 comentário

Esta entrevista foi dada a Rodrigo Romero, da TV Câmara de Jacareí, SP, em meados de março e liberada para republicação no Vespeiro esta semana.

1a Parte

2a Parte

3a Parte

O que mata a democracia é a “sua torcida”

24 de fevereiro de 2022 § 4 Comentários

Imaginemos que os Estados Unidos, depois de anexar militarmente a Baja California, estacionassem 190 mil soldados, com os tanques, os lançadores de mísseis e o mais da parafernália do costume na fronteira do México, e declarasse, apenas porque Joe Biden sozinho decidiu que o momento é bom para tanto, que não reconhece a soberania do governo mexicano sobre os estados de Sonora e Chihuahua e, se calhar, sobre o resto do México inteiro. 

Qual seria a reação do mundo? E a dos próprios americanos?

Dá pra imaginar a chuva de pedras da imprensa nacional e estrangeira? As meninas bonitas das redes americanas e mundiais de TV deslocando-se em fúria para esses territórios para mostrar, em matérias pungentes, as crianças e os bebezinhos marcados para morrer? Entrevistando incessantemente, dos “especialistas” do costume aos atores de Hollywood, quem denunciasse a dimensão do genocídio planejado? As marchas planeta afora de furibundos queimadores de bandeiras ianques? Os milhares de matérias de arquivo mostrando as barbaridades “gratuitas” todas perpetradas pelos americanos em “guerras que não eram deles” (menos a do Hitler, claro)?

Agora imagine isso na Russia do envenenador de opositores com plutônio. Seria possível algo parecido?

Ha 400 anos, quase 100 dos quais depois do fim de todos os outros impérios coloniais da História Moderna, a Russia barbariza incessantemente os mesmos vizinhos que “desinvadiu” ontem na debacle soviética. Seja “para ter acesso a mares quentes”, seja pela desculpa que for, invade, massacra, escraviza, mata deliberadamente de fome (na Ucrânia mesmo), perpetra “limpezas étnicas”, esmaga “nacionalismos”, proíbe o ensino de línguas a filhos de pais que não têm outra, fuzila religiosos em porões, aterroriza e mata até que não reste na terra alheia que cobiça senão uma “maioria russa separatista”.

Como se a humanidade não tivesse aprendido nada desde que sistematizou o domínio da História, faz a mesma coisa com seus próprios nacionais. Esmaga a ferro e fogo qualquer sinal de resistência ao “César” (czar) da hora. Não ha barbaridade nos dicionários ou nos anais da tragédia humana que não tenham praticado, primordialmente contra a sua própria gente enquanto a cepa dominante foi o comunismo soviético, ou continuem praticando hoje, já sob a variante do “capitalismo de cumplicidade” depois que se assumiu como “estado bandido”, com todos os povos, culturas ou religiões que encostem ou não em suas fronteiras.

Vladimir Putin pode dizer que é ele que tem medo de ser invadido por essa Ucrânia que mantem cercada depois de tê-la invadido ainda ontem em pleno Terceiro Milênio pela mesma razão que Lula pode afirmar que assassino é quem reage a uma tentativa de assassinato: não tanto porque conta com o silêncio obsequioso de uma população interna que controla pelo terror, mas porque já conta como plenamente instalada fora da Russia a “Sociedade da Informação Adequada” que, em nome de seu único “eleitor”, Edson Fachin acaba de prometer solenemente instalar no Brasil em ritmo ”fortíssimo”. Porque tem como certa a “torcida externa” dos intelectuais e da parcela podre da imprensa que só são ainda livres para aplaudir declarações como essa graças ao sangue derramado por americanos para libertá-los da opressão nazista ou da opressão da própria Russia comunista e que, certo como que o sol nascerá amanhã, dirá que nada mais é que “alta sabedoria” de um “estadista” especialmente ladino qualquer forma de expressão da covardia e da brutalidade dele contra quem não pode se defender delas sozinho.

Putin pode invadir, oprimir e matar porque conta com essas “avaliações realistas” de uma elite ocidental que dirá que a Ucrânia nunca foi dos ucranianos, assim como tudo o mais que existe entre a Ucrânia e Berlim (ou além), que os mísseis russos não matam nem queimam criancinhas já que isso não aparece na televisão, e que resistir às suas agressões contra outros seres humanos que querem “buscar sua felicidade” como bem entenderem é prova conclusiva de falta de “refinamento geopolítico”, quando não “uma agressão” ao agressor…

Etienne de La Boétie é o autor da proposição tristemente imortal de que a existência dos tiranos depende essencialmente dessa vontade de tantos da nossa espécie de serem tiranizados. O nosso Nelson Rodrigues deu uma versão mais individualizada, teatral e freudiana à resiliência desse horror da multidão dos anões morais à grandeza dos raros que lhes põem sombras na alma: “Porque me odeias“, perguntava o seu personagem, “se eu nunca te ajudei, nunca fiz nada por você“?

É esse, enfim, o grande paradoxo da democracia: as elites que, na segurança de que desfrutam sem tê-la conquistado, se podem dar o luxo de exibir impunemente a sua corrupção moral – as que têm e as que não têm dinheiros a salvo em terras de ninguém; as assumidamente apátridas ou as supostamente patrióticas marcando a fronteira entre os comportamentos dolosos e os comportamentos apenas idiotas – imploram diariamente pela institucionalização do tiro na nuca e da injeção de plutônio que merecem. Mas mesmo assim – paciência! – é preciso lutar por elas. Não dá pra ter democracia só para a minoria que, na hora do “vamo vê”, faz concretamente por merece-la.

Jornalixo x jornalismo: a eterna batalha – Final

10 de fevereiro de 2022 § 3 Comentários

Terminada a nossa viagem no tempo cabe alinhar, sucintamente, o que aprendemos com ela:

1 – que furar a censura é condição sine qua non para a instalação da democracia;

2 – que o jornalixo é anterior e sempre foi quantitativamente predominante sobre o jornalismo mesmo nas democracias mais sólidas;

3 – que o jornalismo de qualidade, embora mais raro, produz efeitos muito mais importantes e duradouros que o lixo inevitável que vem junto com a plena liberdade de imprensa, ou seja, o esforço vale SUPER a pena;

4 – que mesmo com todas as outras instituições democráticas e garantias vigendo, a excessiva concentração da propriedade dos meios de produção (economia de monopólios) mata a democracia;

5 – que a mais importante ação do Estado para garantir a democracia e o estado de direito é, portanto, garantir níveis amplos de concorrência na economia e de diversidade de opiniões;

6 – que o advento da internet encurralou o jornalismo democrático, mas não pela razão que normalmente se afirma; o que ela “quebrou” foi o modelo de negócio que sustentava o jornalismo de qualidade mas o que se tentou “consertar” foi o jornalismo de qualidade que nunca esteve quebrado em seus fundamentos básicos, daí o desastre que se seguiu.

A desordem da civilização ocidental de hoje começa com o esfacelamento do jornalismo democrático e pouco mais é do que isso. A informática não mudou rigorosamente nada na essência das relações humanas que já foi bem precisamente sintetizada no adágio de que “o homem é o lobo do homem”.

O caso é que a internet nasceu com uma licença para roubar.

As mega-plataformas de rede tornaram-se “mega” explorando maliciosamente as brechas de regulamentação abertas pela ignorância do ente regulador sobre seus processos técnicos e pelo desajuste entre seu modelo de negócio e as regras estabelecidas para os meios anteriores. Na largada, copiaram e indexaram a informação coletada e sistematizada por profissionais de todos os campos do saber em todos os tempos sem pagar direitos a quem trabalhou para produzi-las, crime tipificado para todos os meios (“mídia”) anteriores, e passaram a cobrar, não pelo acesso facilitado a essas informações e conhecimentos, que foi o que concretamente acrescentaram ao que já havia, mas pelas próprias informações e conhecimentos como se fossem seus.

Em paralelo, auto atribuíram-se o direito de espionar todas as comunicações, primeiro, todos os movimentos, depois, e até todos os sinais vitais e outras manifestações inconscientes do corpo e da mente de seus usuários, atos criminalizados em todas as legislações do mundo para todas as outras tecnologias anteriores de comunicação, de transporte, de medicina ou de exploração do subconsciente não baseadas em bits, e então amealharam fortunas indecentes vendendo os segredos de cada eleitor, cada consumidor e até cada potencial paciente médico aos tubarões da política, do comércio e da indústria farmacêutica.

Auto-atribuiram-se, ainda, o direito de produzir seu hardware nos “paraísos trabalhistas” socialistas usando práticas de exploração do trabalho vil pelas quais seriam condenadas em seus países de origem, estados de direito plenos que, por pagarem o custo de ser estados de direito plenos, criaram as condições de pesquisa, criação e desenvolvimento desses gadgets. 

Auto atribuíram-se, finalmente, o direito de espionar, copiar ou comprar, à margem de todas as regras antitruste, todo software ou nova tecnologia desenvolvida por terceiros e posta à venda em seus marketplaces eletrônicos hegemônicos, de modo a matar – ainda no ovo – toda possibilidade de concorrência futura.

E isso nos traz de volta ao item 5 da nossa lista.

As mega-plataformas de rede instituiram o surveillance capitalism ou capitalismo de espionagem que só pode prosperar com a morte da democracia. Tornaram-se as donas de tudo e agora, para defender os terrenos invadidos, deixam-se docemente constranger ao assédio dos inimigos de sempre da democracia para, como todas as precedentes na História, instituir a censura de todas as vozes que ameacem a sua hegemonia, sem a qual toda ditadura se esboroa.

Outra coisa que a nossa pequena investigação histórica aponta com segurança é que o espaço para a disputa pelo poder com data marcada que a democracia abre e o jornalixo preenche de modo a transbordar é o calcanhar de Aquiles do “pior sistema de organização das sociedades humanas excluídos todos os outros”. 

Estaria a democracia acima da natureza humana, como chegaram a perguntar-se alguns dos fundadores da americana?

É pura perda de tempo avaliar estruturas políticas pelo seu valor de face. Elas só fazem sentido consideradas as alternativas. É esse o sentido da famosa frase de Winston Churchill lembrada acima. A sabedoria dos ingleses na sua tradição de convivência entre as sucessivas reedições das suas instituições, resulta numa belíssima solução para trazer ao chão os egos em chamas dos recém chegados ao poder. Nada como a conversa semanal com a rainha nonagenária, a 4a da dinastia Windsor, que por sua vez é a enésima dinastia a “reinar” na Inglaterra onde desde 1688 os reis e rainhas são “meia boca” pois o Parlamento já tem os mesmos poderes que tem hoje, para os primeiros-ministros recém eleitos entenderem a bobagem que é viajar na maionese do poder. 

Mas essa é uma solução irreproduzível a curto prazo.

A alternativa para a alternância no poder com data marcada mediante o voto universal da maioria é manter permanentemente aberta a porta para ter um canalha, um ladrão, um assassino ou 11 monocratas a serviço de um deles no poder sem nenhuma proteção contra o que possa vir deles. 

Mas isso tira do horizonte qualquer utopia para um tipo de animal que precisa essencialmente de esperança para viver? 

Não creio. Como lembramos no capítulo 2, a democracia americana só pôde se estabelecer porque graças ao gênio de Alexander Hamilton expulsou-se o ego – e com ele o pecado da vaidade, o preferido do diabo – da sala da Convenção da Filadélfia. Pois essa é a solução que os suíços, o único povo que jamais teve um rei e inventou e desfruta da democracia mais antiga do mundo desde 1290, deram ao problema: a Suíça não tem presidente, é gerida por um board impessoal de cinco membros que dividem entre si as funções dos nossos.

A Suíça expulsou o ego das suas disputas de poder com data marcada de uma vez para sempre. E eu acho que a democracia.4, quando vier, não repetirá o mesmo erro da democracia.3.

Jornalixo x jornalismo: a eterna batalha – 5

9 de fevereiro de 2022 § 1 comentário

Julio Mesquita foi o Joseph Pulitzer brasileiro. Ha mais de um paralelo nas biografias desses dois imigrantes, um deles de segunda geração, tanto na trajetória pessoal quanto na trajetória empresarial… 

Mas na selva sul-americana, assombrada pelo bicho papão do Estado Jurássico Onívoro, o jornalismo que ele instituiu numa São Paulo afetada por uma exclusiva “bolha capitalista” que era ainda mais diferente do Brasil da virada do século 19 para o 20 do que continua sendo do de hoje, estava destinado a ser o último refúgio dos emigrados para a “América errada”. Aquilo que nos Estados Unidos exigiu dos precursores e dos herdeiros das empresas que se estruturaram à volta do jornalismo democrático apenas talento para inovação e não implicava mais que o risco do fracasso, aqui exigiu esse mesmo talento e mais doses cavalares de heroísmo.

Assim mesmo, aqui como em toda a parte, é notável o tanto de mal que a imprensa pôde evitar enquanto foi livre, mesmo frente ao pouco de bem que chegou a fazer, como se vê na falta quase absoluta que ela faz hoje.

Abolição, República, Campanha Civilista, o 1930 contra a fraude eleitoral, o 32 contra o fim do federalismo (1º exílio de Julio Mesquita Filho), a USP contra a ignorância cultivada, o 37 contra o fascismo (2º exílio e ocupação militar do jornal em 1940), o tsunami salvador de 45 vindo de fora, o 64 contra o comunismo, a resistência contra o regime militar, o 83 pelas diretas, a luta contra o estatismo até a virada do Milênio, são todos esforços contra a corrente que confundem-se com a história e a razão de ser que o jornal O Estado de S. Paulo pontuou com sangue, suor e lágrimas num país que tardou sempre em dar-se conta do que é que estava errado e falha rotundamente até hoje em descobrir o que é preciso fazer para que o certo dê certo.

O pequeno enclave democrático do mundo é mero aprendiz dos brasileiros em matéria de concentração da propriedade da mídia. Se lá o Estado nasceu para garantir a permanência da revolução democrática e o capítulo referido à imprensa da lei antitruste foi a pedra angular desse esforço, aqui o Estado nasceu para garantir a Contra-Reforma e impedir a democracia de se instalar. 

Nunca existiu qualquer restrição à propriedade cruzada de diferentes meios de informação numa mesma praça ou em âmbito nacional num país que sempre garantiu a censura pelo analfabetismo cultivado. E são exceções raras, desde sempre, os órgãos de imprensa escrita que não nasceram como subsidiários de esquemas espúrios de poder político. 

O público, entretanto, sempre soube, nos momentos críticos, identificar a diferença, o que, também como em toda a parte, compensou a desvantagem quantitativa do jornalismo face ao jornalixo. Ao longo de boa parte do tempo, até por desonestidade também aqui foi preciso fazer um jornalismo que ao menos parecesse honesto para não ser rejeitado pelo público.

Eventualmente alguns desses órgãos de mau nascimento tiveram até períodos de conversão para o jornalismo autêntico em função de acidentes de sucessão, em geral quando coincidiu de um proprietário também jornalista herdar sua direção. Eventos pouco comuns, entretanto, posto que, se jornalismo já é uma função que não é para quem quer, é para quem não consegue deixar de ser, heroísmo é um tipo de “vocação” mil vezes mais mal distribuída e que,  definitivamente, não é transmissível por hereditariedade como são as ações das sociedades anônimas…

A necessidade de restrição à concentração da propriedade da mídia surge, para o Brasil, com a era das eletrônicas. Mas o único controle que o Estado brasileiro desejava ele instituiu com o regime de concessões “precárias” de frequências que já fez nascer essas emissoras como suas filhas, às quais ele sempre negou a segurança da plena maioridade jurídica. 

Selou-se a sorte da democracia brasileira com o golpe aplicado por representantes de velhas oligarquias (leia-se José Sarney/Antonio Carlos Magalhães) que, prestes a serem banidas do cenário político pela redemocratização após o regime militar, se auto presentearam, e aos seus semelhantes, repetidoras das redes nacionais de televisão que criaram máfias políticas regionais virtualmente indestrutíveis, as mesmas que, sobrevivendo até hoje, congelam no passado o teratológico “software” institucional brasileiro.

Nos mercados publicitários incipientes do país, onde não circulavam verbas suficientes para sustentar, de fato, mais que umas poucas estações de rádio, pululavam as redes de rádio e TV do esquema do “coronelismo eletrônico” e, mais adiante, das novas igrejas, que se auto-alimentavam: elegiam os governadores, os prefeitos e os legisladores locais que anunciavam preferencialíssimamente apenas nos seus próprios meios de comunicação, matavam a concorrência de inanição, calavam todas as vozes dissonantes e tornavam-se “donos do pedaço”. E se, por acaso, alguma onda ética ameaçasse varrer um desses “coronéis” do cenário político, ela não chegava aos telespectadores, ouvintes e eleitores das suas jurisdições, que ficavam sabendo do que se passava apenas através das lentes cor-de-rosa dos meios de comunicação dos próprios acusados. 

De dois em dois anos, aliás, entra, até hoje, nos intervalos desses “noticiários”, o “horário eleitoral gratuito” para uso em véspera de eleição – espécie de prêmio de consolação concedido aos políticos ou candidatos a políticos “sem mídia própria” financiados pelo Estado. Nesses períodos, os veículos eletrônicos de massa, ditos “livres”, estão proibidos de veicular qualquer tipo de informação sobre os candidatos que possa ser interpretada como uma opinião contra ou a favor de algum concorrente. E todos têm de abrir espaço “gratuito” para as peças de propaganda elaboradas pelos próprios candidatos, todos eles vindos da ou aprovados pela privilegiatura, já que o financiamento de campanhas eleitorais foi transformado no nosso mais sólido monopólio estatal. 

Somente o jornalismo escrito – acessível apenas aos 10 ou 15% da população que não são afetados pelo chamado “analfabetismo funcional” – pode ser de fato independente no país, se e quando quiser sê-lo. Mas este é o segmento que, tornado imunodeficiente ao jornalixo pela conjunção da crise do modelo de negócios desencadeada pela internet e seu efeito distópico no comando das empresas jornalísticas, está dominado hoje por “coletivos” virtualmente acéfalos que, salvo as honrosas exceções que confirmam a regra, trabalham quase sempre em ordem unida “jornalistando” uns para os outros e emitindo listas de “cancelamento” de dissidentes: quem lê um, lê todos.

Configura-se a “tempestade perfeita” que explica o nível para o qual mergulhou a esperança de democracia no Brasil (e no mundo).

Jornalixo x Jornalismo: a eterna batalha – 4

8 de fevereiro de 2022 § 3 Comentários

Havia menos de 50 jornais nos EUA em 1776 e mais de 250 em 1800. Eram muitos milhares na virada do século 19 para o 20.

Com a decolagem esfuziante dos Estados Unidos nos primeiros ¾ do século passado, depois de derrotado o nacional socialismo, o conceito de democracia foi universalmente adotado, ao menos como sonho. Até as ditaduras do internacional socialismo precisavam vender-se como “democracias excessivas” e incluir no seu figurino institucional elementos que ao menos se parecessem com instituições democráticas. 

O jornalismo e sua ”freguesia” resistiram bravamente apesar do persistente mutirão do jornalixo desde Walter Duranty, progressivamente subsidiado pelo trabalho da “intelligentsia orgânica”, que se foi tornando hegemônica nas universidades e nas artes na medida em que ia desaparecendo a memória viva das duas Guerras Mundiais.

Para “justificar” o massacre de cada década – o da China, o de Cuba, os da Europa do Leste, os do Sudeste Asiático, o da Coréia do Norte e da China de Xi Jinping – usou-se primeiro os termos de Gramsci. Mas admitir que onde está bem plantada ela só pode ser destruída por dentro, a partir de uma deliberação da maioria contra si mesmo, e que só uma trapaça pode produzir esse efeito, o resumo da tese do teórico comunista italiano e a definição da essência do jornalixo, homenageia a superioridade moral da democracia que seus inimigos sempre lhe negaram ao longo do século 20.

Depois da internet a luta contra a democracia “burguesa” se foi paulatinamente transformando, de uma disputa entre verdades concorrentes, na destruição do próprio conceito de verdade, o que inclui o reconhecimento da relação indissolúvel entre democracia e verdade. 

Mas essa história, como toda a História da Humanidade, pouco tem a ver com racionalidade.

A legislação que restringia o crescimento sem limites das empresas proprietárias de rádios, TVs e jornais nos Estados Unidos foi reforçada em 1975, a data que marca o apogeu da democracia.3, pela Federal Communications Comission, uma agência criada nos anos 1930 não para se preocupar com conteúdos, mas para regular o uso das concessões de frequências de rádio e, mais tarde, também de TV.

Sempre sob  ataque e roídas aqui e ali, as regras da FCC de 75 sofrerão o primeiro golpe fatal sob os eflúvios da “bolha” da internet e da ignorância dos legisladores sobre a nova tecnologia e suas implicações, com o Telecomunications Act de Bill Clinton de 1996. 

Sob a pressão dos produtos a preço vil do trabalho quase escravo e do roubo de propriedade intelectual dos sobreviventes do socialismo convertidos ao “capitalismo de estado” inundando seus mercados e matando empregos, os legisladores americanos, na mais absoluta  dúvida sobre o que fazer, inverteram o ônus da prova contra a acumulação de poder na mídia. O parágrafo 202 determinava que o FCC revisse suas regras a cada dois anos “modificando as que não conseguisse demonstrar serem de interesse público”.

A “razzia” resultante começou pelo setor de rádios. Entre 1996 e 2002 operações de fusão e incorporação envolveram mais de 10 mil emissoras. Ao fim daquele ano, apenas três grandes cadeias já controlavam 80% dos ouvintes e do mercado publicitário.

Sob o silêncio da mídia diretamente interessada no processo, cada nova fusão aprovada na Justiça criava um precedente em favor de regras “mais realistas” para um mundo onde a opção era “crescer ou morrer” para opor monopólios aos monopólios chineses. “A multiplicação dos sites de informação”, diziam, “compensa de longe a quantidade de rádios, jornais e TVs fechados ou fundidos”. Ficava debaixo do tapete o “pormenor” de que esses sites, como até hoje, não produzem nem apuram informação, apenas reproduzem e debatem as que a imprensa profissional levanta ou qualquer aventureiro inventa.

Na “era Bush” o FCC deixa cair a máscara. Cumprindo um prazo legal convoca, em plena mobilização do país para a Guerra no Iraque, uma votação de seus cinco membros em 2 de junho de 2003 e derruba o embargo à propriedade cruzada de jornais e TVs, extende para 45% o limite de audiência das grandes redes, altera as exigências para a propriedade de múltiplos canais e tipos de TV. E tudo se passa sob exemplar “patrulha do silêncio” conforme medido pelo Project for Excelence in Journalism. As três grandes redes de TV mencionam o assunto pela primeira vez apenas na véspera da votação.

Em 1983 quando escreveu um livro sobre o encolhimento da imprensa independente nos EUA, Ben Bagdikian, reitor da Berkley Graduate School of Journalism, mostrou que os americanos se informavam, naquele momento, com base em notícias produzidas por 50 empresas diferentes. Em 2004, na 7a revisão do livro, sobravam só seis conglomerados gigantes, com faturamento de bilhões, que não eram nem empresas de informação nem empresas de entretenimento. Possuiam TVs, jornais, rádios e editoras; produtoras e distribuidoras de filmes; gravadoras e distribuidoras de musica assim como empresas promotoras de shows; times esportivos e estádios onde se dão os campeonatos que só elas transmitem, e assim por diante…

A crise do modelo de negócio das empresas jornalísticas completou a aniquilação da cultura do jornalismo democrático que se vinha apurando no processo orgânico descrito nesta série entre os praticantes dessa arte e seu público não redutível a manuais de melhores práticas de gestão corporativa. O poder e as prioridades, nessas empresas, passaram das mãos das áreas de jornalismo – de quem se esperava o comportamento de um fiscal do poder público orientado por um sentido fundamentalmente ético – para as áreas administrativas – de quem se exige o comportamento de agentes implacáveis da expansão da riqueza de um grupo de acionistas. E como é impossível, mesmo para jornalistas experimentados, controlar à distância uma redação que lida com uma realidade nova a cada fato e tem de processá-los em questão de horas, para um administrador de empresas, que dessa história toda contada até aqui não sabe nem uma linha e, em geral, tem raiva de quem sabe, isso é absolutamente impossível.

E como é nelas que se decide o jogo do poder nas democracias, mesmo as melhores redações do planeta, com raríssimas exceções, tornaram-se totalmente imunodeficientes ao assédio do jornalixo.

Onde estou?

Você está navegando atualmente a Jornalismo categoria em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: