Porque nenhuma candidatura empolga

18 de março de 2021 § 21 Comentários

De vez em quando um jornalista em posto de comando lembra-se do que é e manda fazer uma reportagem. E então uma pontinha do iceberg aparece… 

Ultimamente tais acessos andam restritos à Folha de São Paulo. No ano da pandemia, revelou esse jornal na 2a e 3a feiras passadas, com a norma proibindo aumentos de salários públicos em pleno vigor e o resto do país inteiro afundando na miséria, R$ 543 milhões foram distribuídos entre juízes e procuradores federais a título de “licença prêmio por tempo de serviço”, “parcela autônoma de equivalência”, “gratificação por acúmulo de ofício”, “pagamento retroativo” e outras empulhações semânticas especialmente criadas para que tais assaltos ao Tesouro Nacional não contem na soma para o teto de R$ 39.200 de salário que ninguém no Poder Judiciário respeita. 

É o mesmo tipo de conversa ofensiva à inteligência de que se utilizam esses “operadores de justiça” para anular, a pretexto de uma vírgula mal colocada, toda a vasta carreira de roubalheira e conspiração totalitária com que o lulismo jogou o Brasil no buraco de que nunca mais conseguiu sair. 

Acima de R$ 200 mil, todos. De R$ 300 mil, um monte. E pelo menos quatro desembargadores e procuradores receberam “acréscimos” de entre R$ 400 e 482,6 mil em dezembro (3.217 socorros de emergência à miséria de R$ 150), o que dá, dividido por 12, R$ 40.216, mais que o teto inteiro de salário do funcionalismo, adicionados ao salário que de fato consta do hollerith de cada mês e paga impostos, aquele que vem por cima dos “auxílios” alimentação, saude, paletó, abono de permanência e o mais da tapeação barata com que se maquia de forma caricata o assalto permanente ao erário perpetrado PELA LEI e COM A LEI por esses “servidores públicos”. 

É porque esta é a regra – e não a exceção – no trato do que este país arrecada com a mais insana e pesada carga de impostos do mundo que praticamente 100% do orçamento público e em torno de 50% do Produto Interno Bruto são hoje apropriados pela curriola dos donos do Estado ativos, inativos e sua descendência pensionada, não mais que 5% da população, ficando os 95% restantes espremidos entre o que sobra de seu do resultado do seu próprio trabalho e o desafio hercúleo de fazer render esses caraminguás num ambiente de negócios onde, sob a toada vertiginosa da competição das chinas e dos estados unidos da vida, despencam a toda hora “decisões monocráticas” medievais decorrentes da condição hormonal do dia das prima-donas desses rapinadores da riqueza da Nação que viram de ponta cabeça todas as regras do jogo. 

Este resumo basta para definir o tema dessa rapinagem como o das manchetes de todos os dias de qualquer imprensa digna desse nome em qualquer momento de abundância da história de um país. Inversamente, sua ausência ululante e a raridade com que frequenta as páginas dos jornais, as telas das televisões e as ondas do rádio neste fundo do poço da história da miséria nacional é a única explicação possível para a sobrevivência desse sistema jurássico de iniquidade institucionalizada num país das dimensões do Brasil em pleno 3º Milênio.

Um dos enganos mais comuns em que incorrem os não iniciados é pensar que o debate político é que pauta a imprensa. Ledo engano! É a imprensa que pauta o debate político (e essa é a grande explicação para “a cachaça” que é essa profissão). É bem fácil de entender. Ninguém ganha eleição falando sozinho. Num sistema que depende de voto é aquilo que a imprensa sinaliza que terá exposição e dará manchete que vira tema de campanha. Para o resto, silêncio. E que ninguém se iluda com a internet. Por enquanto e por muito tempo ainda ela é apenas a caixa de ressonância do que a imprensa põe no ar.

Diversos fatores concorrem para a crise do jornalismo, mas ela se expressa numa forma de distorção que se generalizou. Ricardo Kotscho tocou nela em rápido perfil publicado pela Folha de S. Paulo ontem. (Bem no meio da penúria decretada pela crise do seu modelo de negócio) “os jornais descobriram que podem fazer matéria sobre tudo no mundo inteiro sem sair de casa”. Fenômeno que, acrescento eu, está produzindo uma “realidade” de narrativas cada vez mais auto-referentes emendadas umas nas outras e não de fatos testemunhados em primeira mão. E, no entanto, volto ao Kotscho, “jornalismo é reportagem, e lugar de repórter é na rua”.

Jornalismo, acrescento mais, não é só escolher beiço para esticar microfone e depois “analisar”, isto é, mostrar que o que o ouvinte ouviu não é bem aquilo que foi dito, ainda que se dê o dito por não dito, ou vice-versa, aos pares, uma no cravo e outra na ferradura. Jornalismo é reportagem. E reportagem é exposição da realidade. Nem análise, nem opinião, nem muito menos narrativa…

O Brasil Real é este em que os 5% que detêm o monopólio da arma da lei exploram de maneira vil os 95% de cidadãos desarmados dos poderes de cassar-lhes os mandatos assim que traídos e fazer as suas próprias. O cidadão brasileiro está condenado por força de lei cada vez mais draconianamente imposta a uma vida de corno manso. E contra isso não ha moral que resista. Mas o chocante resultado desse sistema de exploração – a vida de paz e certezas dos exploradores que CUSTA a guerra quente e o inferno de incertezas em que vive quem paga a conta – não sai no jornal.

Com R$ 600 por mês para metade da população este país viveu uma explosão de consumo e andou para a frente. Para onde está indo o dinheiro do Brasil? Quem está tomando o dinheiro do consumo que paga o trabalho? Quanto nós pagamos de impostos comparados com o mundo? Qual a vida que vive a privilegiatura? Como é essa vida pau-a-pau com a do brasileiro médio? Quem são “os ricos” da estatística do Brasil? Como o mundo paga os seus funcionários e controla os seus políticos? 

Não é das bocas que os microfones servem hoje – nem das “contra”, nem das “a favor” de cada “lado” da privilegiatura – que vai sair esse retrato da realidade que, uma vez apresentado, põe fogo nesse circo…

Se Jair Bolsonaro não presenteasse a esquerda com a imensa estupidez do seu tratamento da pandemia (e da questão ambiental), o que mais iria diferencia-lo dos outros? Sexo, drogas e rock & roll. Gênero, raça, perfumarias. Nada que arme o cidadão contra o Estado. Nada que transfira um tostão ou um direito que seja da privilegiatura para o favelão nacional. A esquerda e a direita dos donos do Estado pensam exclusivamente no emprego eterno sem muito trabalho; em mais salário, menos esforço e mais aposentadoria para si e para os seus; em ir “rachando” e cavando “auxílios” por dentro e por fora da lei sem medo da polícia para os luxos; em sonhar com uma estatal para chamar de sua no fim do túnel do mesmo jeito que os cúmplices dos crimes dos reis sonhavam com condados e baronatos. E, nos extremos, com o jeito de “automatizar”, um dia, também a própria reeleição.

E nessa toada, ganhe quem ganhar, “o concurso público” continua sendo a única saída … para dentro.

A morte da democracia não dará manchete

14 de janeiro de 2021 § 26 Comentários

As decisões dos últimos dias que, em fulminante sequência, foram em poucas horas do congelamento temporário ao banimento definitivo da conta do presidente eleito dos Estados Unidos da América em todas as plataformas do grupo Facebook, seguido do seu banimento definitivo do Twitter e do Youtube e, finalmente, do desligamento da rede social Parler inteira dos serviços de “cloud computing” da Apple, do Google e da Amazon, assim como à expulsão do aplicativo dessa rede de suas lojas monopolistas, foi sem duvida o maior golpe já assestado contra a democracia em todos os tempos.

Como já tive oportunidade de dizer antes, não vai parar onde já chegou…

O confronto de Donald Trump com a lei democrática referendada pelo povo é supérfluo. A sentença que interessa hoje é a privada, e esta já está passada. As grandes plataformas de internet não estão suficientemente descritas como aquilo que realmente se tornaram na legislação americana ou em qualquer outra de país democrático, mesmo porque tal quantidade de poder acumulado não cabe numa ordem institucional descrita como tal. O regulador, como o marido traído, é sempre o último a saber. O tempo que o Estado leva para entender cada nova configuração do mundo em permanente mudança que ele está mandatado para regular é o espaço que se abre para os “robber baron’s” ocuparem na economia e na política, os dois “nomes artísticos” do Poder, aquele que corrompe sempre e corrompe absolutamente quando é absoluto, que vêm junto com toda grande inovação tecnológica disruptiva. Mas já nem este é mais o caso ha um bom tempo. Essas empresas violam dezenas de leis de todos os países onde estão instaladas sob as vistas grossas da autoridade porque a corrupção que esse hiato entre a realidade e a ação do regulador proporciona, gigante nesta que é a maior de todas as disrupções já vividas pela nossa espécie, trabalha freneticamente no sentido de perpetuá-lo…

A Seção 230 do Telecomunications Act de 1996, contem as famosas “26 palavras que criaram a internet”: “No provider or user of an interactive computer service shall be treated as the publisher or speaker of any information provided by another information content provider” (Nenhum provedor ou usuário de serviços de computação interativos deve ser tratado como o editor ou a fonte de qualquer informação levantada por outro provedor de informações). Ou seja, essa lei estabelece que, no que diz respeito à responsabilidade legal, a internet deve ser tratada como uma banca e não como um editor de jornal. Sem ela seria impossível, por exemplo, qualquer site de critica de restaurantes ou de queixas de consumidores contra o que quer que seja. Essa era a boa intenção a justificar tal lei… 

Mas de boas intenções o inferno está lotado. Em 1996 não estava claro ainda que a mesma rede a quem aquela lei dava, de passagem,  direito de veicular o trabalho de todos os jornalistas do mundo e revende-lo sem pagar-lhes um tostão por isso, e que, empoderando-se politicamente e municiando-se financeiramente com isto, não encontrou mais qualquer obstáculo para transformar-se no canal monopolístico de armazenamento, veiculação e comercialização de todo conhecimento escrito, gravado ou filmado ao longo de toda a história da humanidade, seria a mesma que iria estruturar a totalidade do comércio e da prestação de serviços online, deter o monopólio dos sistemas de pagamento e processamento financeiro de vendas, fornecer as únicas vias existentes de trabalho à distância e o mais que nós já sabemos ou ainda vem por aí. 

Aquela peça de legislação não só propiciou a acumulação em velocidade meteórica da fortuna desses quatro senhores, hoje maior, cada uma delas, que o PIB da maioria dos países do mundo, dispensando-os de qualquer responsabilidade, seja pelo que publicam, seja pelos crimes econômicos que cotidiana e sistematicamente cometem (da exploração do trabalho vil nas chinas da vida ao dumping selvagem em todo o resto do mundo; do roubo sistemático de informações privadas à venda forçada de seus produtos pela obsolescência planejada precoce), como condenou à morte por competição desleal todo tipo de imprensa independente. E, como pá de cal, pôs a perder a efetividade da 1a Emenda da Constituição Americana, que não por acaso é a que abre o segmento conhecido como “Bill of Rights” do documento que, pela primeira vez na história da humanidade, pôs o povo em condições de mandar nos reis.

O congresso (dos representantes eleitos do povo no “governo do povo, pelo povo e para o povo”) não deverá fazer qualquer lei a respeito de um estabelecimento de religião, ou proibir o seu livre exercício; ou restringir a liberdade de expressão, ou da imprensa; ou o direito das pessoas de se reunirem pacificamente…”. Mas os quatro trilionários das redes que animam as imitações do mundo onde realmente se vive hoje em dia podem. Ao manter a definição das “empresas” desses senhores como empresas privadas como outras quaisquer, da-se-lhes o direito, como ao dono da padaria da esquina, de proibir a entrada em seu estabelecimento de gente sem sapato ou qualquer outra forma de discriminação que caiba na lei que lhes der na telha estabelecer como “regra da casa”, aí incluída a sua particular definição de verdade e de mentira.

Se não se origina dentro do Estado, como pela primeira vez é o caso, a força que detém esse poder transforma-se no Estado, isto é, “aquilo que está posto pela força” ou, dito de outro modo, o grupo de homens (porque tudo, sempre, não passa, no fim, de um grupinho de marmanjos) que detém o monopólio do exercício da força e, sendo assim, decide quem continua vivo e quem morre. 

Não me venham com a “discussão filosófica” que essa imprensa aliada ao novo Leviatã – e que a qualquer momento será “cancelada” por um peteleco de algum dos quatro triliardários – quer fazer acreditar que ainda cabe. Essa é uma questão resolvida ha mais de 200 anos. Não existe meio termo que se tenha materializado na História. Ou cada um tem o direito de decidir por si mesmo o que quer ouvir ou não, e de decidir o que é verdade e o que não é, ou será dado a alguém o poder de faze-lo por todos. E como, fatalmente, esse poder dado a quem quer que seja evolui  para o de decretar quem morre e quem continua vivo, a humanidade aprendeu que é melhor dar ao imbecil o direito de publicar sua imbecilidade que ao filho da puta o de decretar quem deve viver ou morrer.

O resto é o de sempre. O grande espetáculo da covardia, da cumplicidade, da sabujice em relação ao poder que fez vomitar os Diógenes de todos os tempos. Por maior que seja o seu poder, os chefes de todas as tiranias da história precisam de uma corte que os aplauda, que os sustente, que os ajude a vigiar e a reprimir o povo que todos ordenham juntos, e compra essa corte com a distribuição de privilégios, ou seja, dando-lhe o direito de sustentar-se do trabalho alheio.

Não ha nenhum grama de honestidade no discurso dessa imprensa que trabalha para por e manter o Leviatã onde está. Democracia é o fim do privilégio. Anti-democracia é a continuação do privilégio. Ponto. Assim como a China ocupou espaço no mercado internacional até tornar-se imprescindível e então mostrar sem mais disfarces o que nunca deixou de ser com Xi Jimping, seu poderio militar, o genocídio Uigur, o estrangulamento de Hongkong, a anexação de Formosa, a ocupação de ilhas do Japão e o mais que está prometido e virá sob o silêncio cúmplice de todos os vendidos aos “negócios da China”, assim também as grandes plataformas da internet. 

A censura vem há anos de ensaio em ensaio. Um “cancelamento” aqui outro ali, “execuções” à Stálin, sempre envergonhadas, mantidas no porão para não repercutir, foram atestando o óbito da liberdade de pensamento de órgão em órgão da imprensa tradicional ao redor do mundo. Nos periféricos primeiro e, na ausência de reação destes, nos próprios órgãos centrais na sequência. Uma vez garantido que a morte da democracia jamais dará manchete, os moleques dos trilhões sentiram-se seguros o bastante para dispensar a máscara pegada à cara.

A ver agora se e como a democracia americana, cuja essência e força estão nos municípios e nos estados, conseguirá vencer a dependência das redes para reagir à altura.

Dias piores virão

6 de novembro de 2020 § 41 Comentários


Donald Trump, o que confessadamente “não sabe perder”, colocou-se frontalmente contra a democracia americana porque perdeu. Não tenho duvida nenhuma sobre qual dos dois irá para a lata de lixo da História…

“Judicialização”, entretanto, é uma expressão infeliz para designar as ações com que está entrando na justiça, pois vem carregada do sentido que se dá a ela no Brasil, de “tapetão”, de falseamento da regra. Lá, quando não foi diretamente escrita, a regra foi formalmente referendada, no voto, pelos próprios eleitores. Não pode ser mudada nem monocraticamente, vai sem dizer, nem mesmo por “colegiados”, a menos que o povo expressamente concorde com isso no voto, preto no branco. Na democracia o povo é quem faz a lei e o governo é quem, acima de todos os outros, é obrigado a obedece-la sob pena de destituição. Assim, ha que ter todo cuidado ao transpor o vocabulário da nossa selva política e institucional para a realidade americana.


Não é por caso que o voto no país que inventou os computadores e as linguagens de código continua sendo em papel e na língua que o povo inteiro fala. A primeira função de um sistema eleitoral democrático é não permitir que paire qualquer dúvida entre a vontade expressa por cada eleitor e o modo como ela será compreendida pelo sistema. Não ha que haver “traduções” no meio do caminho. Por isso o voto assume a forma de um contrato pessoal e intransferível do eleitor com o sistema, assinado pelo dono como um cheque, contado e arquivado na sequência para permanecer acessível a qualquer momento em que haja uma dúvida.

Esclarecida essa parte da questão, resta o gigantesco problema real. Pela primeira vez em sua história os Estados Unidos estão divididos como o resto mundo porque as suas famosas “excepcionalidades” nunca estiveram tão enfraquecidas. Mais especialmente que todas, está de todo esquecido o viés anti-monopolista e de garantia de um nível alto de competição em benefício do consumidor que a democracia americana adotou a partir do final do século 19 e que os manteve com empregos e salários em alta e isentos da tentação socialista ao longo de todo o século 20. 


O fim do sonho de vencer pelo trabalho sem ter de se vender às máfias politicas e a concentração desenfreada da riqueza de hoje decorrem da desastrosa decisão de enfrentar o desafio  do capitalismo de estado chinês com as mesmas armas dele em vez de impor-lhe as do capitalismo democrático. Deixar de taxar os produtos do desrespeito às leis de propriedade intelectual e da falta de dignidade no trabalho levou ao achinezamento dos salários em todo o Ocidente e à corrida, suicida para as democracias, das fusões e aquisições que concentraram pornograficamente a riqueza e reduziram em níveis dramáticos as condições de defesa de quem vive do trabalho.

Mas nem a imprensa que, no século 19, liderou a reforma que pôs eleitores e consumidores definitivamente no poder, nem qualquer dos dois candidatos atacam o problema pelo ângulo do aggiornamento da gloriosa tradição antitruste que fez da democracia uma realidade que ia muito além das palavras e enriqueceu os Estados Unidos em níveis até então inimagináveis. Biden e os democratas, por razões absolutamente alheias aos fatos, tratam a China como um competidor fair. E Trump reage com rugidos mais para explorar eleitoralmente os ódios e frustrações dos excluídos da globalização do que para atacar qualquer aspecto concreto do problema.


É esta, na minha modesta opinião, a razão pela qual o país permanece tão “dividido”. Nenhum dos dois acena à massa dos encurralados entre os monopólios chineses e os monopólios americanos com uma resposta aos seus problemas reais. Os dois tratam de manipular em direções opostas as paixões que os efeitos dessa competição desleal despertam, com o que o divisor de águas migra do cérebro para o coração e passa a girar em torno, literalmente, do sexo dos anjos.

Para culminar a crise americana, que é de identidade mais que tudo, aparece a crise da sua imprensa. A transmissão do discurso deletério de Donald Trump sobre as supostas fraudes na eleição foi interrompida a meio e substituída por diatribes biliosas de gente que invade os lares dos telespectadores exibindo a credencial de “jornalista” na NBC, na ABC, na CBS e na CNBC, as principais redes de televisão aberta do país. O episódio marca a derrubada da ultima barreira de cerimonia da chamada “grande imprensa” com o seu compromisso com os fatos. Depois das campanhas de “cancelamento” de indivíduos dentro e fora das redações e pedindo censura nas redes sociais, aí está o próximo passo lógico da escalada de violência autoritária que, como já se disse tantas vezes aqui no Vespeiro, não vai parar onde já chegou.


Trata-se de um círculo vicioso. É muito provável que uma maioria suficiente para derrotá-lo fragorosamente tenha considerado seriamente votar contra Trump em vários dos momentos, nos últimos 4 anos, em que ele disse merda bastante para jogar por terra toda a liturgia que fez da democracia americana um exemplo para o mundo. Mas ao ver a esquerda dos fuzilamentos morais sumários rugir o seu ódio não só contra Trump mas também contra quem quer que resista à sua campanha internacional pela criminalização do óbvio viu nisso um perigo maior que o histrionismo do presidente e voltou atras. Não consigo enxergar outra razão para explicar que seu eleitorado tenha crescido dos 62 milhões de 2016 para os quase 70 milhões de votos de 2020, senão como uma reação defensiva contra essa imprensa cega o bastante para não enxergar quem é o “dílmico” Joe Biden só porque existe um Donald Trump, e alinhar-se histericamente com um ou com outro lado dessas mediocridades a ponto de fraudar abertamente todas as leis mais básicas do jornalismo.

A imprensa é importante demais para a democracia para ficar nas mãos do jornalismo de hoje. Mas como está e, neste ambiente de domínio agora explicito da censura e da covardia nas empresas jornalísticas, nada indica que não vá permanecer, prevejo que dias piores virão para os Estados Unidos e consequentemente para o mundo.

Lendo jornais 26/10

26 de outubro de 2020 § 14 Comentários





Os “avaliadores” vêm aí. De novo…

20 de setembro de 2020 § 27 Comentários


A Folha de S. Paulo dá 
hoje a manchete pela ausência da qual todos os dias em todos os jornais do país fica denunciada a falência moral da imprensa brasileira. “Imposto de renda expõe elite de servidores e desigualdade”.

O título da primeira página refere-se a matéria que trata burocraticamente do único escândalo nacional perto do qual todos os outros se tornam anões que é um tema como esse poder ser tratado burocraticamente.


O Distrito Federal, que não produz nada senão escândalos, tem as maiores renda e patrimônio médios nacionais, de 2,5 a 4 vezes maiores que o segundo estado menos pobre da nação (SP), computados apenas os salários que constam dos holleriths da corte, montados explicitamente para proporcionar às “excelências” condição de sonegar “legalmente” os impostos que impõem aos plebeus em nome da igualdade, dando outros nomes, não tributáveis, à maior parte do que recebem. Se considerados estes valores os números dos proventos da corte ultrapassam os do Brasil plebeu, na média nacional, em coisa de 5 a 8 vezes no mínimo.

E no entanto não há coisa mais rara que uma manchete a respeito na dita “grande imprensa”, efeméride que só acontece por acidente quando instituições como a Fundação Getúlio Vargas ou o Banco Mundial produzem algum estudo sobre o escândalo que a imprensa brasileira jamais pauta por si mesmo.

Da pauta da própria Folha só vêm matérias como a que aparece duas páginas adiante da que não é sua “Congresso planeja criação  de agência para avaliar desempenho de servidor”, que seria um “órgão independente” como o DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público) criado por Getúlio Vargas em 1938 e “extinto” em 1986, substituído por irmãos gêmeos com outros nomes onde funcionários públicos “avaliando” e criando “normas de trabalho” para funcionários públicos transformaram o Brasil no favelão nacional a que está reduzido.


Em quadro inserido no conjunto, a matéria sugere que tais esquemas de tapeação são um padrão no mundo, do que decorre que não haveria outro modo conhecido de gerir o serviço público.

No mundo da “grande imprensa” brasileira não existe democracia representativa (a que elege e deselege políticos e funcionários públicos por voto distrital puro), nem recall, nem iniciativa nem referendo porque se e quando existir ela estará entre as primeiras a ser sumariamente “demitida”.

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