Fake é a utopia cyber

11 de dezembro de 2018 § 33 Comentários

Nunca alimentei ilusões com a internet e as criaturas hiper-alimentadas da infância dessa tecnologia. O sonho de todo ditador é saber sobre todo mundo o que elas sabem. E a única condição para uma arma vir a ser usada contra nós continua sendo ela ter sido inventada um dia. A tecnologia sempre foi isso, desde o primeiro porrete. Multiplica, indiferentemente, as forças construtiva e destrutiva da humanidade, esta última em geral mais rápida e completamente que a primeira.

De “ruptura” em “ruptura” nossa espécie nunca rompe com sua própria natureza. O primeiro efeito das novas tecnologias é promover uma troca revolucionária dos donos do dinheiro, o princípio ativo do poder. Mas ele continua corrompendo sempre e mais absolutamente quanto mais absoluto for. Como a esperança é a última que morre e experiência não passa de pai para filho acontece sempre a mesma confusão. As primeiras ambições humanas a domina-las para chegar mais perto do sol, que é o que nos move nesta passagem, são festejados como os heróis de uma nova era e os precursores de uma “nova humanidade”.

O que alimenta essa ilusão é o nosso temor atávico ao competidor de melhor desempenho e, portanto, o gosto em vê-lo cair. O século 20, que elaborou em ideologias a justificação moral do ódio contra o vencedor de ontem, proporcionou aos vencedores de hoje a devolução do espaço sem limites que a democracia lhes tinha cerceado. Permitiu-se ao Google e ao Facebook tudo que a humanidade aprendera a proibir às companhias telefônicas e ao resto dos agentes econômicos no estado de direito. Em nome da “democratização do saber” foi autorizado aos primeiros detentores das artimanhas do algoritmo, que nunca as dividiram com  ninguém, espionar todos os movimentos, palavras e obras dos seus usuários e vender livremente o que assim conseguissem roubar-lhes. À Amazon todas as práticas de dumping e competição predatória de que a humanidade aprendera a proteger-se desde a disrupção do mundo a cavalo pelas ferrovias e o nefasto conluio dos donos delas com os robber barons para roubar o próximo. À Apple praticar livremente na China todas as formas de exploração da miséria e do trabalho semi-escravo que no mundo para o qual se destinavam seus produtos eram punidas com cadeia já havia mais de um século.

Da proteção da concorrência como garantia da liberdade individual – e a que condiciona todas as outras é a de poder escolher fornecedores e patrões – o mundo civilizado involuiu para o engodo da “democratização do consumo” pelo mel dos “preços baixos” dos produtos do roubo de ideias e do salário vil que, logo além da curva, não compra mais nada.

Estados nacionais inteiros, onde ele pode ser mantido pelo terror e pela violência, aderiram ao esquema. E a vertigem da marcha-à-ré e o medo do desemprego rebaixaram as ultimas defesas das classes médias meritocráticas, sustentáculo das democracias nos estados de direito. Hoje só sobrevive quem nasce para ser abduzido a bilhão para a nave mãe dos exploradores. Só os quatro gigantes compraram mais de 500 concorrentes na última década. São 50 anos de recordes de fusões e aquisições. US$ 3,3 trilhões, globalmente, só até setembro em 2018.

A etapa que se vai completando agora é o golpe de misericórdia. Começa em 2006 quando o Google adquire o Youtube. O vídeo dominaria a web, era claro, mas o problema técnico era insuperável. O volume de bits para imagens em movimento não cabia na rede que, em última instância, é física. Cabos de fibra ótica cruzando oceanos e continentes. O resultado era o buffering, videos que passavam aos trancos, cheios de interrupções. Entrega-los sem buffering passou a ser o objetivo nº 1 de toda a capacidade técnica que a ilimitada potência financeira do Google era capaz de comprar. O resultado foram as CDN’s, redes dedicadas, agora pertencentes a produtores de conteúdo que antes usavam a rede de redes menores conectando o mundo entre hubs e destes para distribuidores menores até o consumidor final, cada uma com um dono diferente, todas conversando entre si pela tecnologia de peering, espécie de tradução automática para uma linguagem técnica geral, tudo sob a lei sagrada, à qual todos juravam obediência, da “neutralidade da rede” segundo a qual era livre o ingresso de qualquer conteúdo em qualquer ponto do sistema e a ordem de entrega deveria corresponder à ordem de entrada.

Com as CDN’s tornaram-se possíveis as Netflix … que passaram a requerer muito mais CDN’s. E o cacife passou a ser proibitivo. Lá se foram as redes menores … lá se vai, agora, Hollywood inteira, depois do resto da industria do entretenimento. Hoje tres ou quatro gigantes são donos de todos os artistas. Pautam o comportamento do universo. Na torrente dos bilhões foi-se a net neutrality. Agora paga-se pela prioridade de chegada de cada bit enfiado no sistema. Quem paga menos chega por último ou nem chega. A própria rede, que “disrompeu” a ordem anterior em nome da libertação do povo e da arte da ditadura da propriedade privada é agora uma propriedade privada da escassíssima confraria do trilhão cercada de terra arrasada em todo o entorno competitivo.

E o mundo vê a novela que o Brasil já vira. Sillicon Valley compra o perdão de seus pecados declarando-se “de esquerda” e facilitando o “aparelhamento” do sistema lá de dentro dos seus mega-iates no grand monde. E o mais recente engodo é a demonização da fofoca, que predomina na nova praça pública virtual como sempre predominou em todas as praças públicas que já existiram. As fake news são o mais novo pretexto para matar a democracia em nome da salvação da democracia. É com elas que justifica-se a censura e reforça-se a ditadura comportamental enquanto os trilionários da rede compõem-se, nos bastidores, com as chinas da vida trocando tecnologia para a servidão por mais audiência e dinheiro.

E o pior é que estão por nascer os próximos shermans e theodore roosevelts, paladinos da luta antitruste que resgataram os Estados Unidos dessa mesma armadilha ha pouco mais de 100 anos, e que na próxima edição terão de ter uma envergadura planetária.

 

O governo zela por você!

5 de novembro de 2013 § 1 comentário

mama1

A Anatel anunciou que a partir de sexta-feira passada os atuais 20% ficaram fora da lei. Agora os provedores de internet de “banda larga” terão de entregar “no mínimo” 30% da velocidade pela qual, desde sempre, nos cobram e, na média mensal, 70%.

E tem mais: para novembro de 2014 esses números serão reduzidos para um mínimo de 40% e uma média de 60%.

mama1

Mantido o ritmo lá por 2020 estaremos empatando: elas vão nos entregar tudo por que pagamos estes anos todos.

A vantagem de se viver num país com “a legislação mais avançada do mundo” onde o governo realmente cuida da gente e tudo está garantido pela Constituição é que quando a lista dos nossos direitos cresce a ponto de esgotar a imaginação dos nossos benfeitores não tem problema. Eles a retomam do princípio, agora garantindo a entrega de parcelas dos direitos previamente adquiridos.

Não é o máximo?

mama1

(DEMOCRACIA À MÃO ARMADA É A SOLUÇÃO)

Jornalismo, ora direis…

19 de agosto de 2013 § Deixe um comentário

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As duas grandes conquistas de Geraldo Alckmin em SP, o último bastião ainda não violado pelo petismo, foram fazer o maior metrô do Brasil e derrubar a criminalidade em 80%, fato que foi saudado em seção especial da ONU mas nunca rendeu um único título de jornal ou especial de televisão de que eu me recorde.

Às vésperas da última eleição uma onda de assassinatos de policiais que cessou tão misteriosamente como começou logo que as eleições passaram dispensou o PT de discutir esse assunto na campanha, apesar da estatística resultante continuar representando um feito único no mundo.

O outro grande trunfo que restava ao partido acaba de ser destruído com o concurso decisivo das redações dos jornais e das televisões com cuja incompetência/cumplicidade o PT conta cegamente em um mês de incessante bombardeio contra “o cartel do PSDB”, num setor de mega engenharia no qual não existem em todo o mundo mais que meia dúzia de empresas “concorrentes“, três ou quatro das quais com poder de fogo bem maior que as outras, fato que nunca chegou a ser mencionado ao longo dessa campanha.

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Isso acontece porque 99% das matérias que chegam ao distinto público são enfiadas na imprensa por fontes oficiais. Dado o start por um deles, o resto acontece sozinho em função da corrida dos pauteiros uns atrás dos outros e da absoluta ausência de qualquer orientação firme nas redações.

Nas raras vezes em que ha investigação jornalística de fato acontece o que aconteceu no Estadão de 13 de agosto que mostrou tarde demais que a mesma denuncia que apontava cartel em SP aponta o mesmo desvio em todas as capitais onde o metro está nas mãos do Ministério das Cidades da Dilma. Foi por isso que o PT acionou até o seu ministro da Justiça para impedir o acesso dos acusados e, principalmente, do público aos autos do processo. Ou o que foi revelado no Globo deste domingo que, também tarde demais, apresentou uma longa reportagem mostrando o que acontece em matéria de transportes públicos em todas as capitais do país.

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Eis os principais highlights:

  • O transporte urbano não é licitado em mais da metade das capitais brasileiras.
  • No Rio a primeira licitação foi feita em 2010.
  • No RJ, SP e BH 49 empresas e 17 empresários individualmente, que estão na lista de licitantes, também estão da de devedores do governo e/ou do Fisco, o que é contra a lei. Eles nos devem 2,8 bi, o que equivale a 32 xs o valor desembolsado para todo o “Programa de Mobilidade Urbana” pelo Ministério das Cidades da Dilma.
  • A lei diz que inadimplentes com o governo, o Fisco ou o Trabalho ficam inelegíveis para licitações em 75 dias. Mas a Justiça expede liminares a esse pessoal para seguir nas licitações “enquanto não for julgado”. Ou então o interditado simplesmente cria um novo CNPJ e segue no jogo.

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  • Só no Centro Oeste todas as capitais tiveram licitação.
  • No Sul e no Nordeste só Curitiba e João Pessoa têm serviços licitados.
  • No Norte só ha três capitais com licitação.
  • No Sudeste todas as capitais tiveram licitações exceto Vitória.
  • No RJ o TCM abriu processo de cartel. Jacob Barata Filho aparecia entre os proprietários de sete empresas “concorrentes” e 12 outros empresários tiham participação em mais de uma. Mesmo assim o TCM arquivou o processo.
  • Na Prefeitura de SP (hoje do PT) a licitação que é de 2003 (então também do PT, com Martha desde 2000) venceria este ano mas foi prorrogada por mais 1 ano. Jilmar Tatto (PT-SP) é o secretário atual.
  • A única das 8 áreas de SP que não terá nova licitação é a que tem mais queixas. Pertence ao Grupo Ruas que detém mais três áreas.

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  • No DF as duas companhias “em disputa” pertencem à mesma família. Mas, segundo autoridade do Ministério das Cidades, “o fato de serem irmãos não configura cartel”. CNPJs diferentes é quanto basta para “iludir” as autoridades e a Justiça.
  • Essa mesma “empresa familiar”, a Piracicabana, contratou o escritório Guilherme Gonçalves & Sacha Reck, Advogados Associados, para orientá-la na licitação. Sacha é filho de Guilherme Reck, diretor da empresa contratado pelo DF para fazer o edital da licitação.
  • O negócio tem sido tão bom no Distrito Federal que operando ônibus acaba-se comprando Boeings como fez o Grupo Constantino que se tornou dono da Gol.
  • Em Salvador a ultima licitação foi ha 40 anos. Desde 2006 o MP exige nova licitação.

Ha não muitos anos atras, em tempos bem mais conflagrados ideologicamente do que estes, tais “furos” provocavam reuniões nas redações e todo mundo saia correndo atras do prejuízo, para lucro do leitor e da democracia brasileira.

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Hoje esses pontos fora da curva em que se transformaram os raros trabalhos reais de reportagem na imprensa não provocam reação nenhuma nas redações “furadas“. Em geral são abafados até mesmo pelas próprias redações que os publicaram, senão por titulares de postos de comando estrategicamente “aparelhados”, talvez porque, de tão tardios, criam um constrangimento ja que se constituem em verdadeiros atestados da leviandade com que foi tratado o assunto por elas desmentido até então.

Já os empresários no comando dos jornais e das televisões não se dão nem parecem querer se dar conta desses fatos. É que na direção das empresas jornalísticas, ultimamente, tem havido banqueiros, empresários, tecnocratas e até semi-jornalistas. Mas jornalistas não. Quando os há, estão escanteados e cientes de que sua linguagem não é entendida nem desejada nas reuniões onde as coisas realmente são decididas.

Jornalismo não é, para esses “líderes“, nem um objetivo prioritário, nem uma missão nem, muito menos, uma ferramenta precipitadora de reformas imprescindível para o funcionamento das democracias. É apenas o fator atrapalhador das contas que melhoram quanto mais se espreme e encurrala as redações.

De modo que não é só a internet o problema que ameaça a imprensa. O buraco é muito mais em cima.

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Alô, alô, jornalistas!

7 de agosto de 2013 § 5 Comentários

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Uma empresa brasileira de “data minning” usando softwares parecidos com estes que a CIA usa para traçar o caminho de mensagens suspeitas (fato que está causando tanto barulho em função do velho hábito de apedrejar os EUA já que todo mundo, do Google pra baixo, faz a mesma coisa e muito mais generalizadamente que a CIA com objetivos comerciais) publicou um estudo do circuito das mensagens que animaram as manifestações de junho pelo Brasil afora.

Partindo dos celulares nas ruas que mais distribuíam orientações seguidas pelos manifestantes para trás e identificando quem falou com quem ou visitou quem nessas trajetórias, descobriram que a fonte primária onde esses impulsos começam e acabam (para começar de novo) eram sempre os sites da imprensa profissional.

Era segundo o que ela ia publicando sobre o que estava acontecendo nas várias frentes – ruas, autoridades, polícia, etc. – que as orientações iam e voltavam e, em função delas, alteravam-se os fluxos dos manifestantes.

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Não é uma descoberta, propriamente, já que qualquer leigo atento que frequente redes sociais sabe, seja pelo que ele próprio publica nelas, seja pelo que lê dos seus amigos, que as conversas, quando não são estritamente pessoais, partem sempre dos temas que os jornalistas profissionais levantam, sejam eles notícias, sejam críticas, imagens ou meras informações de serviço sobre o que os circuitos culturais ou o comércio estão oferecendo ao público. Mas é, digamos, uma “prova científica” de que é isso mesmo que acontece.

Os fatos são os fatos, enfim, e é em torno deles que giram as nossas vidas. Não poderia ser diferente. Conversa-se nas redes sobre e em torno de esses imputs iniciais, território de sempre do jornalismo profissional que ainda é quem pauta o país.

Isto quer dizer que o público não migrou para a web para fugir do jornalismo. Ele foge, inicialmente, é da angulação que os jornalistas com cabeça século 20 insistem em continuar dando aos acontecimentos do século 21, além, é claro, da sua insistência em ignorar o que mais interessa que é a cobertura do rumo que toma a discussão iniciada pelas informações que eles levantam.

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Essa parte requer uma especialização técnica que os jornalistas não têm e talvez nem devessem vir a ter (porque esse conhecimento suscita tentações perigosas), mas que as empresas de informação têm obrigação de incorporar, com outro tipo de profissional. Instantaneidade, frequência e rapidez das atualizações dos fatos, que durante anos foram apontados como calcanhares de aquiles da old mídia x internet, ha muito não são mais handicaps. Nem mesmo a facilitação da discussão das notícias pelos leitores. Todo mundo, direta ou indiretamente, já oferece esses recursos aos seus leitores.

O problema é, primeiro, que eles seguem cobrindo a política e a vida institucional do país com a linguagem e pela ótica da luta pelo poder e não pela ótica do que ela produz na vida real aqui fora onde 80% do esforço que se despende para sobreviver economicamente ou, simplesmente, para não ter a sua paciência destruída pelos fãs de Kafka lá de Brasília é dedicado a desviar dos obstáculos que eles criam.

O ponto de partida do jornalismo, portanto, continua onde sempre esteve. A interpretação dos fatos e o contexto em que a old mídia insiste em inserí-los é que saiu do universo da vida real para se concentrar tão somente no universo da luta pelo poder que não interessa a ninguém senão a quem participa dela.

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O segundo erro está em abrir mão da melhor parte desse tipo de cobertura que era, como se fazia no passado, ajudar a freguesia a desviar deles, no primeiro momento, e apontar-lhes caminhos para tratar de impedir que os donos do poder continuassem tendo tanto poder de nos infernizar a vida a esse ponto em seguida.

Como a partir de um dia fatídico, sem que ninguém saiba explicar exatamente porque, os jornalistas profissionais passaram a aceitar o novo fatwa das nossas escolas de jornalismo que decreta que eles têm de agir como se tivessem sido lobotomizados e se limitar a reproduzir o que dizem “as fontes” participantes da luta pelo poder ou os “especialistas” autorizados para oferecer o contraditório do que ouvem, todos eles viciados na mesma droga dos seus objetos de estudo, essa discussão imprescindível, imperativo de sobrevivência para todos e cada um de nós, ficou para a rede.

A web não faz outra coisa senão procurar, desorientada e desinformada, como escapar dos efeitos reais das informações que recebe dos jornalistas profissionais que cobrem os centros do poder. Mas como discute o que realmente interessa ainda que desorientada e desinformadamente, é ela quem leva o grosso da audiência.

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É este o terceiro erro posto que hoje existe tecnologia para aprofundar a cobertura do “pós fato“, ou seja, dessa discussão, e levá-la a níveis de encantar qualquer mente minimamente curiosa.

Experimentar esse filão no mínimo revolucionaria a pauta da imprensa. Proporcionaria a descoberta de um outro país e uma outra população muito distantes dos modelos que a imprensa pressupõe como existentes.

Mas isso segue sendo território virgem para o jornalismo e tema só para nerds, arapongas e manipuladores frequentemente mal intencionados, muitos dos quais estão a soldo de partidos políticos, o PT em especial.

É preciso começar a fazer para o bem o que essa gente já faz para o mal.

A old midia, longe dessa realidade e de tanto reproduzir só o que dizem “os inimigos”, acabou confundida com eles e já está sendo apedrejada nas ruas junto com os originais. Vai ter de correr se quiser desvestir essa carapuça.

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Edward Snowden e o “admirável mundo novo”

9 de julho de 2013 § 7 Comentários

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De modo nenhum o que veio à tona foram informações novas ou revelações surpreendentes. Mas de certa forma os documentos vazados pelo ex-técnico da CIA, Edward Snowden, mostrando pormenores do sistema de monitoração de comunicações on e offline em escala global pelo governo americano oficializa uma realidade de todos e de cada um de nós bem mais que suspeitada.

Como fingir-se ultrajado por tais “revelações” num mundo onde organizações acobertadas por governos nacionais dedicam-se a atirar Boeings cheios de gente contra prédios de escritórios nos horários de pico de trabalho enquanto os proprietários das grandes encruzilhadas da internet como o Google, o Facebook e outros menos votados, todos incensados como grandes benfeitores da humanidade e paladinos da causa da “liberdade na rede”, fazem centenas de bilhões de dólares por ano gravando e vendendo a qualquer um que queira pagar por isso não apenas o mapeamento das conexões entre IPs suspeitos, como faz modestamente a CIA, mas tudo que todos nós falamos, escrevemos, mostramos, vendemos e compramos dentro da rede mundial, além do passo a passo das nossas deambulações pelo mundo físico sistematicamente plotadas, à nossa revelia, pelos GPS’s que eles embutem nos gadgets com que “nos servem”?

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A situação que tais “revelações” oficializa, portanto, é de que, diante do esboroamento do aparato de law enforcement apoiado em Estados Nacionais sem mandato para lidar com uma realidade onde tudo, a começar pelo crime, está globalizado, os Estados Unidos da América, como potência militar e tecnológica hegemônica, assumiram o papel de polícia do mundo num mundo em que nem Nova York está a salvo, o que cria uma situação paradoxal. Pois não ha uma pessoa honesta consigo mesmo que não se sinta, ao mesmo tempo, ameaçada e reconfortada com isso. Ou, no mínimo, morrendo de saudades de um mundo onde ainda era possível guardar segredos e esperar que a vida se nos revelasse aos poucos.

O chanceler Patriota e o ministro Amorin, afinados com o momento “cu na parede” do PT apressaram-se a dizer que o Brasil é muito vulnerável por carência de tecnologia ( o que nos permite antecipar que logo, logo as odebrechts da vida entrarão no ramo de satélites bancados pelo BNDES, se ainda houver BNDES), assim como dona Dilma, sem que ninguém tivesse feito muitas perguntas nesse sentido, garantiu que nunca houve autorização ou colaboração do governo brasileiro com esses expedientes de espionagem.

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Não sei se convenceram alguém…

Mas a verdade é que o problema não é de carência de tecnologia, é de mudança de paradigma tecnológico. Uma mudança que torna a rede mundial de comunicações – e não apenas ela – absolutamente indefensável.

Tudo está devassado. Nem as comunicações do Pentágono, como já se provou diversas vezes até a partir de prosaicas garagens espalhadas pela periferia do mundo, estão seguras. E esse não é, nem de longe, o maior problema que essa mudança de paradigma está provocando.

O “mundo novo” nunca se me mostrou tão “admirável” assim e esse aspecto da inexorabilidade da “aquisição” de todo e qualquer perseguido, ainda que em operações cada vez mais cirúrgicas, não faz com que ele pareça nada melhor aos meus olhos. Qualquer arma – é a história da humanidade quem o diz – pode ser (e será) usada indistintamente para o bem e para o mal…

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De minha parte, porém, os argumentos da CIA seguem parecendo mais aceitáveis, por enquanto, que os do Google, os do Facebook e cia. ltda. para meter o nariz na minha vida e, a custa disso, armarem-se com os bilhões que empregam, cada vez com menos pudor, no assassinato econômico de concorrentes.

Perturba muito mais a minha sensibilidade, igualmente, ver o comerciante de bisbilhotices ser saudado como herói da liberdade enquanto os caçadores de bin ladens são muito mais maltratados que isso. Ha qualquer coisa de doentio nesse tipo comportamento. Patologia social, digo. Coisa mais difícil de curar que doença de gente.

Na verdade, preocupam-me mais os sinais de progressiva contaminação do uso indesejável mas justificável da invasão de privacidade pelo governo americano pelas motivações indesejáveis e injustificáveis dos comerciantes de bisbilhotice que têm aparecido lateralmente nessa história do que o contrário.

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Vejo mais perigo para o futuro da humanidade no fato do governo americano usar esse aparato também para espionagem comercial e favorecimento de negócios e, portanto, também de negociantes, do que em qualquer lasca tirada de minha privacidade em nome da prevenção de atentados terroristas ou do retardamento da posse de armas químicas ou nucleares por conhecidos trogloditas internacionais.

Enquanto essas duas coisas estiverem separadas ha esperanças para o futuro da democracia. Quando se misturarem assumida e impunemente, ela estará condenada.

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Democracia e informática são coisas compatíveis?

22 de abril de 2013 § 4 Comentários

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Você já guiou um desses carros que ficam te avisando por uma gravação que “você está acima da velocidade permitida”?

Pois é, a coisa está se invertendo. Logo, logo é o seu próprio carro que vai multa-lo, ao captar de alguma fonte emissora instalada pelo Estado em cada rua, em cada esquina, em cada estrada, o que você pode ou não pode fazer naquele lugar.

Já, já, aliás, você não terá mais nem o prazer de guiar. Será guiado pelos Google Car da vida, de um lugar para o outro, pelos caminhos e na velocidade que eles escolherem.

Por enquanto, os carros mais modernos apenas registram um monte de informações sobre tudo que você faz dentro ou perto deles que os fabricantes podem acessar quando quiserem e, eventualmente, vender para terceiros.

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Seu telefone idem. Ele grava, minuto a minuto, dia após dia, a sua localização além de tudo que você gosta de fazer e usar na internet acoplada a ele.

Mas ha muito mais.

Ha câmeras nos drones voando lá em cima (ultimamente andam por aí drones do tamanho de libélulas, para espionagens mais discretas e caçadas mais precisas), nos caixas automáticos, nos estabelecimentos comerciais, nos elevadores, nas ruas e nos becos de cada longínquo rincão do mundo.

Os softwares de reconhecimento facial estão cada vez mais aperfeiçoados e os bancos de fotografias (de vozes, de hábitos, de…) cada vez mais vastos.

No ritmo em que vai ainda nos enfiam um chip subcutâneo na maternidade…

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Na verdade as únicas empresas que não podem espioná-lo e vender as informações que capturam sobre os seus movimentos e comportamentos hoje são as de old ou semi old tech, nascidas naquela longínqua era em que o indivíduo ainda valia alguma coisa e respeitar a privacidade dele era uma lei fundamental das democracias.

Se as telefônicas ou o Murdoch gravarem o que você faz nos ambientes deles ou usarem as informações que outros gravam e publicá-las como fazem o Facebook, o Google, e todo e qualquer site espalhado pela internet, eles vão para a cadeia.

Mas tudo que veio depois da internet pode, livremente, espionar você e usar como bem entender as informações assim colhidas em benefício próprio ou de terceiros simplesmente em troca da apresentação de … dinheiro.

Ordens judiciais para invadir a vida alheia são reminiscências em desuso de um mundo em vias de desaparição.

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Por que os legisladores e, pior ainda, as próprias vítimas dessa empulhação ainda acreditam que os atos de uns são nefandos e os dos outros não são, como são, maneiras desonestas, violentas, invasivas e perigosas de ganhar dinheiro às custas da liberdade alheia mas sim ações generosas e altruístas em prol da “liberdade na rede” (para roubar?) e da “democratização do conhecimento” é coisa de que a História ainda haverá de tratar.

Isso se tudo não acabar, como parece claro que acabará, no verdadeiro “fim da História” como reconstituição daquilo que de fato aconteceu para dar lugar exclusivamente à história oficial que serão os pedaços daquela que os detentores do registro milimétrico da sua e da vida de cada um de nós houverem por bem montar e liberar, já que esse tipo de poder, uma vez experimentado, nunca se detém apenas onde começa.

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Na mesma semana em que a caçada aos terroristas de Boston mostrou o quanto já andamos longe nessa senda da espionagem geral, a Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA aprovava a CISPA e o Google mandava para as lojas os seus óculos/computadores/filmadores, capazes de acrescentar ao que o seu telefone já faz para espioná-lo, também o registro de tudo que você está vendo, passo a passo, segundo por segundo.

A CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act), ainda faltando a aprovação do Senado que deve ser tranquila, é uma lei que formaliza a aliança privilegiada entre o governo e as grandes estruturas e encruzilhadas da internet empregando batalhões de matemáticos e programadores como o Google e o Facebook, entre outros. Legaliza “a troca de informações voluntária entre empresas privadas e o governo no caso de cyber-ataques ou suspeita de cyber-ataques” (movimentações anormais de tráfego, etc).

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É uma estrada de mão dupla em que o governo ajuda preferencialmente essas mega-corporações e elas ao governo, coisa que, para quem partiu da gloriosa saga da legislação antitruste, ponto mais alto da construção da democracia, representa nada mais nada menos que a inversão de um princípio até então tido como fundamental.

Ao fulminante efeito de multiplicação do poder dos poderosos, de facilitação da criação de monopólios e de concentração da riqueza que a internet tem provado dramática e implacavelmente que tem para a crescente legião apavorada dos desempregados e dos sub-empregados do mundo, vem somar-se o seu corolário necessário que é a associação do poder do Estado Nacional, hoje mero subsidiário do outro, ao poder econômico globalizado sem fiscalização nem fronteiras.

Empurrando tudo, além do pânico generalizado e da busca de proteção a qualquer custo que reduz a capacidade de discernimento e induz à aceitação do inaceitável, está essa “transparência forçada de mão única” a criar um mundo onde privacidade – privilégio das mega-corporações e do Estado – é poder.

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Não é a primeira vez que proponho isto aqui no Vespeiro e, para meu alívio, começo a ver essa ideia “bombar” pela rede como o início de um movimento mais estruturado de opinião pública, no sentido de obrigar o governo e as empresas à mesma transparência absoluta que nos impuseram, de modo a reduzir um pouco a desvantagem.

A “transparência de mão dupla” consiste em filmar e expor todo e qualquer movimento dos agentes do governo do mesmo modo como eles filmam e expõem seletivamente os nossos.

Como fazê-lo em relação às megaempresas é um problema bem mais espinhoso no qual é preciso começar a pensar antes que seja tarde.

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Uma experiência recente envolvendo os agentes do TSA (Transportation Security Administration), aqueles brutamontes que fazem gato e sapato da gente nos aeroportos americanos, demonstrou que quando forçados a usar câmeras filmando seus movimentos as reclamações de abusos caíram 88%.

Já fiz, aqui, recentemente, um exercício para imaginar o que isso faria pelo fim da violência e da corrupção policiais no Brasil.

Enfim é preciso que o povo filme e grave constantemente todos os atos dos agentes do governo assim como eles filmam e gravam todos os atos do povo, e que algo de parecido seja feito em relação às principais reuniões de informação envolvendo os gestores ao menos das empresas “grandes demais para quebrar” ou com ações em bolsa.

A caçada aos terroristas de Boston em que sites como 4chan e Reddit incentivaram seus usuários a publicar fotos da cena do crime indicou que, nessa sociedade da espionagem geral vão surgir também as turbas de linchadores cibernéticas.

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Milhões de fotos foram publicadas apontando pessoas com mochilas pretas nas costas, os rostos assinalados por círculos vermelhos, e com tantas ameaças e pressão que várias delas se apresentaram à polícia com medo do que lhes pudesse acontecer.

Estavam entre eles campeões esportivos das universidades locais carregando seus equipamentos, pessoas com traços raciais fora do padrão WASP (White Anglo Saxon Protestant) e até gente que despertou suspeitas apenas “por não estar prestando atenção na maratona” no momento do registro da foto.

Enfim, não parece nada bom o mundo da espionagem geral que vem vindo inexoravelmente por aí, e ha dúvidas crescentes sobre se democracia como a conhecemos e informática são coisas compatíveis entre si.

Mas se não ha volta possível aos bons tempos da privacidade, é mais justo que ninguém a tenha.

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Mau pensamento

27 de janeiro de 2013 § 2 Comentários

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Cada passo de cada ser humano está registrado “na nuvem” desde o nascimento.

O log dos seus hábitos, suas preferências, seus vícios, suas doenças, seus contatos e relações no mundo está indelevelmente guardado na memória inapagável que ela abriga.

Todas as ruas e recintos do planeta estão monitorados.

Todas as movimentações que sustentam a vida do Hommo economicus passam por um único canal.

Carros começam a sair das fábricas com rastreadores.

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Estado e Capital andam de mãos dadas.

Os governos são os donos das corporações gigantes.

Drones voam por aí, implacáveis, com o nome, a fotografia e o cheiro dos seus alvos inscritos nos chips dos seus detonadores.

E a humanidade anseia como nunca por segurança (física e financeira).

(…)

Está tudo pronto para começar a mãe de todas as ditaduras.

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