Fake é a utopia cyber

11 de dezembro de 2018 § 33 Comentários

Nunca alimentei ilusões com a internet e as criaturas hiper-alimentadas da infância dessa tecnologia. O sonho de todo ditador é saber sobre todo mundo o que elas sabem. E a única condição para uma arma vir a ser usada contra nós continua sendo ela ter sido inventada um dia. A tecnologia sempre foi isso, desde o primeiro porrete. Multiplica, indiferentemente, as forças construtiva e destrutiva da humanidade, esta última em geral mais rápida e completamente que a primeira.

De “ruptura” em “ruptura” nossa espécie nunca rompe com sua própria natureza. O primeiro efeito das novas tecnologias é promover uma troca revolucionária dos donos do dinheiro, o princípio ativo do poder. Mas ele continua corrompendo sempre e mais absolutamente quanto mais absoluto for. Como a esperança é a última que morre e experiência não passa de pai para filho acontece sempre a mesma confusão. As primeiras ambições humanas a domina-las para chegar mais perto do sol, que é o que nos move nesta passagem, são festejados como os heróis de uma nova era e os precursores de uma “nova humanidade”.

O que alimenta essa ilusão é o nosso temor atávico ao competidor de melhor desempenho e, portanto, o gosto em vê-lo cair. O século 20, que elaborou em ideologias a justificação moral do ódio contra o vencedor de ontem, proporcionou aos vencedores de hoje a devolução do espaço sem limites que a democracia lhes tinha cerceado. Permitiu-se ao Google e ao Facebook tudo que a humanidade aprendera a proibir às companhias telefônicas e ao resto dos agentes econômicos no estado de direito. Em nome da “democratização do saber” foi autorizado aos primeiros detentores das artimanhas do algoritmo, que nunca as dividiram com  ninguém, espionar todos os movimentos, palavras e obras dos seus usuários e vender livremente o que assim conseguissem roubar-lhes. À Amazon todas as práticas de dumping e competição predatória de que a humanidade aprendera a proteger-se desde a disrupção do mundo a cavalo pelas ferrovias e o nefasto conluio dos donos delas com os robber barons para roubar o próximo. À Apple praticar livremente na China todas as formas de exploração da miséria e do trabalho semi-escravo que no mundo para o qual se destinavam seus produtos eram punidas com cadeia já havia mais de um século.

Da proteção da concorrência como garantia da liberdade individual – e a que condiciona todas as outras é a de poder escolher fornecedores e patrões – o mundo civilizado involuiu para o engodo da “democratização do consumo” pelo mel dos “preços baixos” dos produtos do roubo de ideias e do salário vil que, logo além da curva, não compra mais nada.

Estados nacionais inteiros, onde ele pode ser mantido pelo terror e pela violência, aderiram ao esquema. E a vertigem da marcha-à-ré e o medo do desemprego rebaixaram as ultimas defesas das classes médias meritocráticas, sustentáculo das democracias nos estados de direito. Hoje só sobrevive quem nasce para ser abduzido a bilhão para a nave mãe dos exploradores. Só os quatro gigantes compraram mais de 500 concorrentes na última década. São 50 anos de recordes de fusões e aquisições. US$ 3,3 trilhões, globalmente, só até setembro em 2018.

A etapa que se vai completando agora é o golpe de misericórdia. Começa em 2006 quando o Google adquire o Youtube. O vídeo dominaria a web, era claro, mas o problema técnico era insuperável. O volume de bits para imagens em movimento não cabia na rede que, em última instância, é física. Cabos de fibra ótica cruzando oceanos e continentes. O resultado era o buffering, videos que passavam aos trancos, cheios de interrupções. Entrega-los sem buffering passou a ser o objetivo nº 1 de toda a capacidade técnica que a ilimitada potência financeira do Google era capaz de comprar. O resultado foram as CDN’s, redes dedicadas, agora pertencentes a produtores de conteúdo que antes usavam a rede de redes menores conectando o mundo entre hubs e destes para distribuidores menores até o consumidor final, cada uma com um dono diferente, todas conversando entre si pela tecnologia de peering, espécie de tradução automática para uma linguagem técnica geral, tudo sob a lei sagrada, à qual todos juravam obediência, da “neutralidade da rede” segundo a qual era livre o ingresso de qualquer conteúdo em qualquer ponto do sistema e a ordem de entrega deveria corresponder à ordem de entrada.

Com as CDN’s tornaram-se possíveis as Netflix … que passaram a requerer muito mais CDN’s. E o cacife passou a ser proibitivo. Lá se foram as redes menores … lá se vai, agora, Hollywood inteira, depois do resto da industria do entretenimento. Hoje tres ou quatro gigantes são donos de todos os artistas. Pautam o comportamento do universo. Na torrente dos bilhões foi-se a net neutrality. Agora paga-se pela prioridade de chegada de cada bit enfiado no sistema. Quem paga menos chega por último ou nem chega. A própria rede, que “disrompeu” a ordem anterior em nome da libertação do povo e da arte da ditadura da propriedade privada é agora uma propriedade privada da escassíssima confraria do trilhão cercada de terra arrasada em todo o entorno competitivo.

E o mundo vê a novela que o Brasil já vira. Sillicon Valley compra o perdão de seus pecados declarando-se “de esquerda” e facilitando o “aparelhamento” do sistema lá de dentro dos seus mega-iates no grand monde. E o mais recente engodo é a demonização da fofoca, que predomina na nova praça pública virtual como sempre predominou em todas as praças públicas que já existiram. As fake news são o mais novo pretexto para matar a democracia em nome da salvação da democracia. É com elas que justifica-se a censura e reforça-se a ditadura comportamental enquanto os trilionários da rede compõem-se, nos bastidores, com as chinas da vida trocando tecnologia para a servidão por mais audiência e dinheiro.

E o pior é que estão por nascer os próximos shermans e theodore roosevelts, paladinos da luta antitruste que resgataram os Estados Unidos dessa mesma armadilha ha pouco mais de 100 anos, e que na próxima edição terão de ter uma envergadura planetária.

 

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§ 33 Respostas para Fake é a utopia cyber

  • A. disse:

    Acho um abuso certas pessoas usarem o espaço cedido pelo Vespeiro para tentarem “vender” suas ideias, através de comentários que, às vezes, são mais extensos que o próprio post do “dono do pedaço”. É…! A democracia tem certos inconvenientes, praticados por gente sem o mínimo de “desconfiômetro”! Sugestão a essa gente (inútil, porque será ignorada): troquem mensagens particulares entre si e respeitem os outros frequentadores do local… Enfim, vai sempre restar a opção de não vir mais aqui!

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    • Fernando Lencioni disse:

      Tolerância A. é a pedra angular do espírito democrático. Com todo o respeito. Não me entenda mal, mas ninguém é dono da verdade. A verdade exsurge do debate de idéias. Toda a evolução da humanidade é baseada nisso. Cada um descobre uma coisa e a partir dessa coisa se descobrem outras coisas. Respeito ao adversos é um princípio básico – embora de difícil digestão – no debate científico ou mesmo em qualquer debate, mesmo informal. Há uma condição sine qua non no estudo de qualquer objeto: humildade e respeito às criticas, mesmo as mais ácidas e de má-fé, por que como somos humanos e condicionados por nosso fundo de conhecimento e por nossas experiências pessoais e, por isso, não raro, deixamos de ver uma aresta que outras pessoas viram. É por isso que a política é muitas vezes indigesta para a maioria das pessoas. Nos parlamentos somos obrigados a ouvir calados as manifestações dos adversos – por vezes ofídicas. Embora isso não seja fácil, é um exercício de aprendizado de tolerância que a maioria de nós não tem, mas que é condição primeira para a existência da democracia. É condição de nossa civilidade como você bem sabe. Contestemos, Debatamos. Impugnemos. Retro arguamos. Contra e a favor. De um lado e de outro. Com idêntico valor: o da razoabilidade.

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      • A. disse:

        Não posso ser e não sou contra o debate. Questiono forma e lugar. E o oportunismo de alguns que se apropriam de espaços que são de todos! (e nem entrei no mérito do que se disse)
        Abraço!

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  • Venho te desejar um ótimo Natal, Fernão, para você e os seus familiares, com muita união e amor.

    Com relação ao seu último comentário, assumo com convicção a qualificação de ‘cartesiano’ que você me atribuiu à minha abordagem. Mas prefiro um termo mais moderno e mais claro, ‘partir das primeiras causas e dar cada passo com cuidado’ (first principles thinking), reconhecendo que nossa mente, embora nos proporcione um enorme potencial, é extremamente propensa ao erro. Esta abordagem, ao contrário do que você supõe, é humilde e não é rígida. Define, sim, planos precisos, mas também exige o acompanhamento atento da execução e correções rápidas de rota e dos próprios planos, sempre que a execução começar a se desviar dos objetivos buscados.

    Além disso, considero importante destacar que a abordagem cartesiana, partindo dos primeiros princípios, se contrapõe ao pensamento comparativo ou por analogia, que é muito mais usual e que, me parece, é a sua abordagem. Tenho observado que você considera como modelo político o anglo-saxão, em especial o americano, que gostaria de ver transplantado para o Brasil. Em consequência, isto tem te levado a apresentar propostas em excesso, com pouco foco e pouco definidas. E não vai à origem dos problemas. Você terminou o seu último tweet, de ontem, 23/12, com “2) O maior problema ñ é policial, é judiciário e penal”. Se você tivesse sido mais cartesiano, iria buscar as causas destes mesmos problemas que apresentou. E concluiria que a causa deles está na nossa Constituição e no Código do Processo Penal. Iria, então, buscar a origem dos problemas na nossa Constituição e no Código do Processo Penal. E concluiria que está na composição do nosso Poder Legislativo, que fizeram a Constituição e o Código do Processo Penal que lhes interessa. Portanto, a sua afirmação neste tweet está errada, o nosso maior problema não é judiciário e nem penal, é a composição do nosso Poder Legislativo. E não está tanto nas pessoas eleitas para exercê-lo, está no desenho organizacional desta função essencial da administração pública, está no fato dos denominados soberanos não exercerem esta função acima dos legisladores eleitos. Se este problema básico for resolvido, os problemas que você apontou, o judiciário e o penal, serão resolvidos com facilidade, em pouco tempo, com segurança e, fundamental, sem riscos de retrocessos.

    Outro problema na sua abordagem por analogia é que ela dificulta muito, ou mesmo inviabiliza, algo importante que você mesmo destacou no seu último comentário, a correção rápida dos rumos na execução. Como falta a ela uma definição clara de objetivos e de prioridades, como sequer identificar que está havendo problemas na execução e que são necessárias correções?

    Esclareço que a essência da minha proposta não é transplantar o modelo político suíço para o Brasil, é o Povo exercer uma função necessária a todo soberano: legislar com soberania. Da mesma forma que os acionistas de qualquer SA retêm o controle do seu Estatuto. A Suíça vale como exemplo da minha proposta, mas as SAs também valem. Ambos são exemplos de que é possível atender a este requisito em sociedades com inúmeros sócios. E, como exemplos de longo sucesso na solução deste problema, devemos conhecê-los bem e aproveitar as lições que eles aprenderam na prática e no aperfeiçoamento do método que desenvolveram.

    Por ora é isso, Fernão. Espero podermos dialogar mais sobre as semelhanças e diferenças entre os caminhos que queremos para o Brasil e que este diálogo nos ajude a contribuir para que o Brasil encontre o caminho do desenvolvimento rápido, seguro e sustentável.

    Grande abraço. Ótimo Natal!

    Marcos Cançado Ribeiro

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