O terremoto do mundo tech vem vindo aí?

9 de junho de 2022 § 3 Comentários

Saiu no Business Insider de ontem, assinado por Linette Lopes.

Aí vai um resumo:

O mundo está para assistir a um massacre de heróis.

As mentes mais brilhantes da América passaram os últimos 20 anos correndo para Oeste para garimpar ideias em Silicon Valley. Não para ficarem ricos, era o que nos diziam, mas para resolver problemas urgentes e construir coisas que pudéssemos usar. Tudo que tínhamos a fazer era encher os donos das cabeças certas de dinheiro para que eles desenvolvessem as tecnologias certas para que resolvêssemos qualquer coisa, dos problemas de mobilidade à doença do clima, passando pela desigualdade. Essa corrida do ouro idealista criou novos bilionários, titãs da tecnologia que convenceram investidores e o público em geral com promessas de um amanhã melhor.

Mas agora esses gênios estão vendo suas empresas desmoronarem diante dos novos ventos da economia. As taxas de juros estão emergindo de baixas históricas e está ficando claro que um monte dessas empresas – das mais empoderadas às mais ridículas – não conseguem sobreviver sem dinheiro fácil…

Nós já vimos bolhas como essas explodir antes no final dos anos 1990 e início dos 2000. Mas desta vez a escala é muito diferente. Naquele tempo as que se dissolviam no ar eram empresas de 2 ou 3 bilhões de dólares. Hoje são de 20, 30 bilhões…

Os luminares de Silicon Valley viviam dizendo que o dinheiro era só o combustível da sua revolução. Mas o que o mercado está mostrando é que o dinheiro era não só o combustível mas o motor, o capitão e o destino desses empreendimentos…

O que vem vindo aí é um evento na escala das grandes extinções.

Em 2012 o Facebook abriu capital e alcançou a marca de 1 bilhão de usuários … Elon Musk estava colhendo uma enorme quantidade de subsídios do governo para lançar a revolução dos carros elétricos … Tudo isso era movido por uma economia totalmente voltada para empurrar Silicon Valley. O crash de 2008 estava logo ali e os bancos centrais estava hiper-focados em garantir que não faltasse dinheiro. Mantinham as taxas de juros em zero para que as empresas não tivessem medo de tomar dinheiro. E tudo isso animava não só os investidores mas uma sociedade inteira querendo emergir de uma catástrofe.

Agora tudo está diferente. O mundo começa a se perguntar se não estará conectado demais. As redes sociais têm sido usadas para sujar eleições, envenenar relacionamentos e planejar insurreições … as promessas de promover o bem estar social vão se apagando e as de dar retorno financeiro, então, mais ainda … As dores e feridas estão aparecendo em todas as fases da vida das empresas de tecnologia. 

Os aceleradores de startups estão emitindo alertas para que os fundadores de novos negócios se preparem para o pior. Os maiores grupos de venture capital estão cortando seus investimentos pela metade ou menos. Os salários das companhias mais “hipadas” mostram-se completamente insustentáveis … a conversa do bem estar social evaporou … um numero cada vez maior desses empreendimentos comprovam-se movidos a “hipe” e não a genialidade tecnológica … 

Agora que a maré virou, somente o frio e concreto dinheiro num balanço limpo e lógico pode salvar essas empresas, e não softwares transados, blockchain ou a camiseta preta favorita de algum CEO.

Ate ha pouco tempo era out discutir os números de uma empresa tech. Era quase como perguntar a um novaiorquino onde é o Empire State. Só servia para mostrar que você “não era do Vale” e não entendia nada sobre como as coisas eram medidas por lá. Você parecia caipira se não enxergasse a Big Picture e só quisesse saber de coisas babacas como lucro…

O problema é que essa conversa só funciona quando o mercado está inundado de dinheiro. Agora os CEOs cronicamente deficitários estão se deparando com a religião da sustentabilidade…

Até a vintenária Tesla está respirando essa fumaça. A companhia de Elon Musk finalmente deu algum lucro em 2020, mas os problemas se vão empilhando: agora tem a competição das grandes automobilísticas; agora tem a China … 

Companhias cujo valor subiu verticalmente estão indo retas para o fundo … Muitas das que não conseguiam demonstrar que seus negócios eram rentáveis inventaram os seus próprios “indicadores de desempenho” .. esses indicadores podiam ou não ter alguma relação com performance financeira. Eles eram tidos como sagrados pelo pessoal da mídia social mas eram completamente invalidáveis. 

Se você está investindo numa companhia que só se mede por suas própria métrica particular”, advertia um experiente agente do mercado, “você é um completo idiota”. Mas esses “indicadores próprios” hipnotizaram investidores suscetíveis a jargões e até os próprios empregados dessas empresas, que eram remunerados com ações em vez de dinheiro… Agora o problema delas e desses empregados é que ações podem cair até virar pó.

Dinheiro é o que muitas dessas empresas menos têm e isso fará suas ações caírem ainda mais … e elas ainda têm um longo caminho a percorrer antes que seu valor reflita suas métricas financeiras reais…

As cripto-moedas são um desperdício inacreditável de capital e a maior prova de que o excesso de dinheiro enfiado em tecnologia perdeu totalmente o foco na busca de idéias úteis … É um esquema de pirâmide … uma caixa-preta que só tem valor enquanto mais gente continuar enfiando dinheiro nela…

Lá em 2011 Mark Andreesen, um dos mais “hipados” venture capitalists, disse que o software engoliria o mundo … mas em vez de usar a fase das vacas gordas para resolver problemas reais, os deuses auto-indulgentes da tecnologia criaram essa nova geração de empresas que agora se esboroam no chão com um baque surdo. 

Todo mundo mete o pau em Elon Musk … mas talvez quem melhor represente essa dessacralização é a Meta de Mark Zuckerberg. A companhia criada num dormitório de Harvard é hoje o paraíso do racismo, das teorias de conspiração e do negativismo. Ele confiou em aquisições e cópias em vez de inovação. E agora resolveu requenta-la num conceito meia-boca de ficção científica chamado “metaverse”. Só que ha poucas evidências de que o mundo esteja disposto a seguí-lo nessa aventura de queima maciça de dinheiro…

Hoje temos startups de carros voadores, de entrega ultra-rápida de supermercados, de vôos de milionários pelo espaço – mas nada disso se parece com aquilo que nos foi prometido. São grandes ideias, ninguém discute, mas nenhuma delas nos aproxima de uma revolução, e uma revolução foi o que nos foi prometido.

Em lugar dela, o que é que está aí, diante de nossos narizes?

Estamos mais conectados e mais divididos do que nunca. Estamos mais sós. A desigualdade continua aumentando, a crise imobiliária piorou e a crise do clima está rugindo. Nós demos 20 anos de capital irrestrito aos deuses da tecnologia para que eles resolvessem problemas por nós e eles não chegaram nem perto disso. Novos deuses virão – porque o mercado os cria a granel – e espero que seja gente que possa resolver problemas reais e não novos santos para esse panteão dos caronas de tendências cuja hora da verdade está chegando.

Ha um preço a ser pago por todos esses excessos, e esse preço não será só em dinheiro.

Para ler o original clique neste link.

Jornalixo x jornalismo: a eterna batalha – Final

10 de fevereiro de 2022 § 3 Comentários

Terminada a nossa viagem no tempo cabe alinhar, sucintamente, o que aprendemos com ela:

1 – que furar a censura é condição sine qua non para a instalação da democracia;

2 – que o jornalixo é anterior e sempre foi quantitativamente predominante sobre o jornalismo mesmo nas democracias mais sólidas;

3 – que o jornalismo de qualidade, embora mais raro, produz efeitos muito mais importantes e duradouros que o lixo inevitável que vem junto com a plena liberdade de imprensa, ou seja, o esforço vale SUPER a pena;

4 – que mesmo com todas as outras instituições democráticas e garantias vigendo, a excessiva concentração da propriedade dos meios de produção (economia de monopólios) mata a democracia;

5 – que a mais importante ação do Estado para garantir a democracia e o estado de direito é, portanto, garantir níveis amplos de concorrência na economia e de diversidade de opiniões;

6 – que o advento da internet encurralou o jornalismo democrático, mas não pela razão que normalmente se afirma; o que ela “quebrou” foi o modelo de negócio que sustentava o jornalismo de qualidade mas o que se tentou “consertar” foi o jornalismo de qualidade que nunca esteve quebrado em seus fundamentos básicos, daí o desastre que se seguiu.

A desordem da civilização ocidental de hoje começa com o esfacelamento do jornalismo democrático e pouco mais é do que isso. A informática não mudou rigorosamente nada na essência das relações humanas que já foi bem precisamente sintetizada no adágio de que “o homem é o lobo do homem”.

O caso é que a internet nasceu com uma licença para roubar.

As mega-plataformas de rede tornaram-se “mega” explorando maliciosamente as brechas de regulamentação abertas pela ignorância do ente regulador sobre seus processos técnicos e pelo desajuste entre seu modelo de negócio e as regras estabelecidas para os meios anteriores. Na largada, copiaram e indexaram a informação coletada e sistematizada por profissionais de todos os campos do saber em todos os tempos sem pagar direitos a quem trabalhou para produzi-las, crime tipificado para todos os meios (“mídia”) anteriores, e passaram a cobrar, não pelo acesso facilitado a essas informações e conhecimentos, que foi o que concretamente acrescentaram ao que já havia, mas pelas próprias informações e conhecimentos como se fossem seus.

Em paralelo, auto atribuíram-se o direito de espionar todas as comunicações, primeiro, todos os movimentos, depois, e até todos os sinais vitais e outras manifestações inconscientes do corpo e da mente de seus usuários, atos criminalizados em todas as legislações do mundo para todas as outras tecnologias anteriores de comunicação, de transporte, de medicina ou de exploração do subconsciente não baseadas em bits, e então amealharam fortunas indecentes vendendo os segredos de cada eleitor, cada consumidor e até cada potencial paciente médico aos tubarões da política, do comércio e da indústria farmacêutica.

Auto-atribuiram-se, ainda, o direito de produzir seu hardware nos “paraísos trabalhistas” socialistas usando práticas de exploração do trabalho vil pelas quais seriam condenadas em seus países de origem, estados de direito plenos que, por pagarem o custo de ser estados de direito plenos, criaram as condições de pesquisa, criação e desenvolvimento desses gadgets. 

Auto atribuíram-se, finalmente, o direito de espionar, copiar ou comprar, à margem de todas as regras antitruste, todo software ou nova tecnologia desenvolvida por terceiros e posta à venda em seus marketplaces eletrônicos hegemônicos, de modo a matar – ainda no ovo – toda possibilidade de concorrência futura.

E isso nos traz de volta ao item 5 da nossa lista.

As mega-plataformas de rede instituiram o surveillance capitalism ou capitalismo de espionagem que só pode prosperar com a morte da democracia. Tornaram-se as donas de tudo e agora, para defender os terrenos invadidos, deixam-se docemente constranger ao assédio dos inimigos de sempre da democracia para, como todas as precedentes na História, instituir a censura de todas as vozes que ameacem a sua hegemonia, sem a qual toda ditadura se esboroa.

Outra coisa que a nossa pequena investigação histórica aponta com segurança é que o espaço para a disputa pelo poder com data marcada que a democracia abre e o jornalixo preenche de modo a transbordar é o calcanhar de Aquiles do “pior sistema de organização das sociedades humanas excluídos todos os outros”. 

Estaria a democracia acima da natureza humana, como chegaram a perguntar-se alguns dos fundadores da americana?

É pura perda de tempo avaliar estruturas políticas pelo seu valor de face. Elas só fazem sentido consideradas as alternativas. É esse o sentido da famosa frase de Winston Churchill lembrada acima. A sabedoria dos ingleses na sua tradição de convivência entre as sucessivas reedições das suas instituições, resulta numa belíssima solução para trazer ao chão os egos em chamas dos recém chegados ao poder. Nada como a conversa semanal com a rainha nonagenária, a 4a da dinastia Windsor, que por sua vez é a enésima dinastia a “reinar” na Inglaterra onde desde 1688 os reis e rainhas são “meia boca” pois o Parlamento já tem os mesmos poderes que tem hoje, para os primeiros-ministros recém eleitos entenderem a bobagem que é viajar na maionese do poder. 

Mas essa é uma solução irreproduzível a curto prazo.

A alternativa para a alternância no poder com data marcada mediante o voto universal da maioria é manter permanentemente aberta a porta para ter um canalha, um ladrão, um assassino ou 11 monocratas a serviço de um deles no poder sem nenhuma proteção contra o que possa vir deles. 

Mas isso tira do horizonte qualquer utopia para um tipo de animal que precisa essencialmente de esperança para viver? 

Não creio. Como lembramos no capítulo 2, a democracia americana só pôde se estabelecer porque graças ao gênio de Alexander Hamilton expulsou-se o ego – e com ele o pecado da vaidade, o preferido do diabo – da sala da Convenção da Filadélfia. Pois essa é a solução que os suíços, o único povo que jamais teve um rei e inventou e desfruta da democracia mais antiga do mundo desde 1290, deram ao problema: a Suíça não tem presidente, é gerida por um board impessoal de cinco membros que dividem entre si as funções dos nossos.

A Suíça expulsou o ego das suas disputas de poder com data marcada de uma vez para sempre. E eu acho que a democracia.4, quando vier, não repetirá o mesmo erro da democracia.3.

Quem venceu a eleição americana?

28 de janeiro de 2021 § 25 Comentários

O NYTimes noticiou no fim-de-semana que Mark Zuckerberg, o dono do Facebook e do Instagram, “convocou a Suprema Corte das suas redes sociais” para reavaliar sua decisão de banir para sempre o ex-presidente Donald Trump e as redes de mensagens através das quais se comunicavam os seus apoiadores. 

É mais uma etapa do processo de “obsolescência planejada” daquela democracia fundada pela Constituição assinada por “We, the people”, em 1788 que, na 1a Emenda do seu segmento conhecido como “Bill of Rights”, proíbe o Estado americano de dizer que tipo de crença é boa ou ruim, e de cassar a palavra a quem quer que seja.

Se os Estados Unidos da América não podem fazê-lo, Mark Zuckerberg e as empresas privadas podem. Quem se importa, portanto, com o processo do congresso dos representantes eleitos do povo para o impeachment futuro do presidente pretérito? Ou com o que possa vir a decidir a respeito a outra Suprema Corte se e quando for acionada? Qualquer que seja a sentença dessas instituições obsoletas será anulada de facto se destoar da já passada pelos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon): existirá, politica e economicamente, quem eles concederem voz e canal para trabalhar; simplesmente deixará de existir quem for “cancelado” das redes…

Este o quadro simples e objetivo do atual estado da democracia moderna no seu berço de nascimento que levou o historiador britânico Niall Ferguson a afirmar em artigo recente que os “novos governantes”, que é como, já em 2018, um artigo da Harvard School of Law chamava os donos do FATGA, “foram os verdadeiros vencedores da eleição de 2020” pois, “com essa demonstração de força incontestada as companhias, que transformaram a rede mundial, de uma plataforma originalmente descentralizada num ambiente hierárquico oligarquicamente organizado cujo acesso eles controlam e que exploram para fazer dinheiro e comprar poder”, estabelecem, agora oficialmente, “uma dominância sobre a esfera publica inédita na História desde a que teve a Igreja Católica de antes da Reforma Protestante”.

Definida a nova fonte primária do poder, a história se repete. Estabelece-se um sistema de cooptação e proteção mutua entre o(s) papa(s) (da internet) e os reizinhos locais (nacionais), cada um com seus respectivos cardeais e barões, para o estabelecimento de mais um “reich de mil anos”…

Ferguson abria seu artigo citando George Orwell que dizia que “Enxergar o que está diante dos nossos narizes requer uma luta constante”. O que está vendo hoje quem ainda quer enxergar é o fim de um processo que começou com a reforma do Telecomunications Act de 1996 que derrubou as barreiras antitruste na industria da informação, primeiro passo para a derrubada das barreiras antitruste de todo o resto da economia americana. Elas proibiam a propriedade cruzada de jornais, rádios e televisões assim como o controle de mais de 35% da audiência em cada praça em nome da proteção da diversidade de informação e de opinião sem as quais a democracia por definição não existe. É na famosa “Seção 230” dessa mesma lei que inscreveram-se, inadvertidamente, as 26 palavras que fizeram da internet o monstro em que se transformou ao isentar os donos de plataformas de rede de responsabilidade legal pelo que se publica nelas sem no entanto impor-lhes qualquer obrigação quanto a garantias de livre acesso do publico a elas. 

Não se imaginava então que as redes seriam o que são mas, de lá para cá, a Seção 230 ganhou o efeito prático de uma licença para roubar e, da propriedade cruzada de todos os meios de comunicação velhos e novos evoluiu o FATGA para a deglutição de todas as gravadoras, teatros, livrarias, arquivos públicos ou privados e bibliotecas, primeiro, e para a propriedade das lojas de tudo; das invenções, dos passos e dos segredos de cada um de nós; dos meios de processamento do sistema financeiro planetário e de pagamento das transações da internet (alguns já estão na fila até para emitir moeda virtual) e do próprio esqueleto físico (o backbone) que mantém as redes sociais em pé. 

A reformulação do Telecomunications Act coincidiu com a globalização virtual dos mercados e a inundação do Ocidente pelos produtos dos monopólios larápios do capitalismo de estado chinês e seus pupilos e assemelhados (entre estes o próprio FATGA), que não respeitam nenhuma lei nacional, internacional ou humanitária senão a que amanhece na cabeça do dono de plantão do partido único, das forças armadas e de todos os meios de comunicação e de produção da metade do mundo vítima do socialismo que cada um deles distribui como quer aos barões que aceitam comportar-se como barões. 

Hoje os Estados Unidos e o mundo inteiro amargamente sabem que as “reduções de custos” dadas pela “escala de produção” são obtidas mediante a redução dos salários em níveis só possíveis mediante o esmagamento da liberdade de escolher patrões e fornecedores garantido pela crescente monopolização da economia, mas é tarde. O Ocidente entregou sem luta os milênios de sangue, suor e lágrimas que lhe custaram a substituição da lei da selva pela arquitetura de proteção legal à dignidade e ao valor do trabalho que definiram o ápice da sua civilização. Em vez de proteger suas conquistas condicionando o acesso aos seus mercados ao respeito a elas, achinezou o seu mercado de trabalho e o seu ambiente empresarial, o que agora requer o achinezamento do seu sistema político que os xi jinpings da internet que se permitiu abrigar em seu seio estão se deixando docemente constranger a providenciar. 

Desde o primeiro momento enxerguei no start de 1996 um final parecido com este, como poderão conferir os leitores do Vespeiro na transcrição publicada aqui da conferência “A ameaça da imprensa corporate”, de 2005 (neste link). Mas o processo foi quase absolutamente ignorado pela imprensa do mundo inteiro que, produto de empresas familiares despedaçadas pelo ataque predatório das redes sociais num momento de troca de gerações, entrou em colapso pela combinação da ocupação de suas diretorias por neófitos alheios à função institucional do jornalismo e o consequente aparelhamento ideológico das redações.

A famosa “tempestade perfeita”…

Fazer as coisas voltarem ao trilho da civilização não seria nenhum bicho de sete cabeças. O falso problema da “verdade” contra a “mentira” está superado, em termos filosóficos desde sempre, e em termos práticos desde 1788 e a 1a Emenda à Constituição americana já mencionada acima. Ou cada um tem liberdade para dizer o que quiser e escolher o que quer ouvir ou em que quer acreditar, ou quem for mais forte decidirá por todo mundo com poder de vida e morte sobre os dissidentes. A História não registra outra alternativa. E como as plataformas de rede da internet são, legalmente falando, um espaço privado, mas com funções e atribuições próprias do espaço público, o que tem de prevalecer para elas nessa matéria são as regras que valem para o espaço público no mundo físico e ainda estão inscritas na Constituição e nas leis americanas. Contra  o excesso de poder dos xi jinpings do FATGA e assemelhados, o remédio também é conhecido e testado nos Estados Unidos desde a virada antitruste do século 19 para o 20. Embora não seja uma panacéia como nada é, vai pelo mesmo rumo da legislação que, no seu primeiro grande embate, dividiu a Standard Oil em 34 companhias diferentes em 1911.

O problema a ser superado, entretanto, não é apenas o técnico, é, principalmente e como sempre, o da corrupção pelo poder adjacente ao processo de agigantamento das big techs. E este, sem imprensa, toda ela no bolso do FATGA e pedindo censura, nem Joe Biden, nem os dirigentes europeus, nem muito menos a pequena política e a intelligentsia que viveram os últimos 200 anos de tecer loas ao “trabalhador” hoje massacrado pelos monopólios que eles ajudaram a construir e dos quais agora dependem dão qualquer sinal de estarem dispostos a endereçar.

Mas este é o tema dos próximos artigos.

A vitória (temporária) dos ladrões

11 de junho de 2019 § 8 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 11/6/2019

A crise não é da democracia. A crise é do estado nacional e, como consequência, do modelo econômico que se apoia no ordenamento jurídico que o estado nacional garantia.

Falo do mundo, não do Brasil. O funcionamento do capitalismo (e a liberdade possível) depende da garantia do direito de propriedade. Foi esse o fundamento que caiu. Sem garantia da propriedade não se renova a capacidade do empreendedor, seja de que tamanho for, de financiar o desenvolvimento do seus próximos empreendimentos e a economia pára, o emprego desaparece, o salário míngua.

Hernando De Soto demonstra com dados objetivos no seu “O mistério do Capital: porque o capitalismo triunfou no Ociente e falhou nos outros lugares”, que a principal causa da pobreza do Terceiro Mundo nem é cultural, nem de falta de espírito empreendedor, nem de diferença na quantidade de trabalho investido (e muito menos da disponibilidade ou não de recursos naturais), é a falta de garantia do direito de propriedade. É especialmente para os mais pobres, obrigados a “refugiar-se de legislações defeituosas na informalidade onde todo trabalho investido transforma-se em capital mortoque não pode ser transacionado senão num padrão arcaico”,  que essa falha é mais funesta. “O pobre é quem mais precisa dessa garantia para poder apropriar-se do resultado da força de trabalho que investe, a única coisa que ele tem”.

De Soto lembra ainda que essa incerteza geral sobre o que é de quem só começou a ser revertida na Europa “favelão nacional” do século 18 em diante, a partir da revolução industrial, e mais tarde ainda nos Estados Unidos que, “na sua luta para fazer um território virgem converter-se numa nação levou a garantia da propriedade às últimas consequências”, o que explica o seu crescimento vertiginoso a partir da virada do século 19 para o 20, quando entregou a chave das decisões políticas a quem mais precisa dessa garantia. “O Terceiro Mundo é o que eles foram há 100, 200 anos. A verdade  é que a legalidade é a exceção. A extra-legalidade sempre foi a norma. A constituição de sistemas integrados de propriedade no Ocidente é um fenômeno muito recente”.

Com a entrada em cena da internet fazendo desaparecer fronteiras num mundo onde a ordem legal plenamente estabelecida é a exceção, o primeiro e o mais formidável dos desenvolvimentos proporcionados pela informática foi o da capacidade de roubar.

Dentro e fora dos EUA as mega-empresas de trilhão de dólares são invariavelmente os grandes ladrões: o Google que rouba deus e o mundo com a inestimável contribuição dos roubados, o Facebook que compete com ele nisso e na venda de informação roubada na diuturna tocaia de cada passo e cada palavra trocada pelos seus usuários, a Amazon, latifundiária do comércio que mata concorrentes e explora todo servo da gleba que tenha algo para vender no planeta, e mais as suas contrafações chinesas…

A China, onde o estado patrocina o roubo planetário (de ideias, de patentes, de desenhos, de tudo), tornou-se imbatível e vai comprando o mundo. No Ocidente os ladrões privados ainda enfrentam algum nível de resistência do estado. Têm de bandear-se literalmente para dentro do “território livre” da China para se tornarem ladrões competitivos, como demonstrou Tim Cook, o verdadeiro artífice do gigantismo da Apple conquistado com a isca do supply chain que, uma vez agarrada a vítima, revela-se um esquema de exploração  de trabalho vil padrão Foxconn.

Sem garantia da propriedade volta-se à Idade Média: é o fim da hegemonia do consumidor que “tinha sempre razão” (e principalmente escolha, que é o nome despido de poesia da liberdade), a morte do princípio antitruste, a concentração extrema da riqueza. A economia como um todo embarca no “efeito Jardim Europa”: cada vez menos gente comprando cada vez mais terrenos em incessantes “fusões e aquisições” até que sobrem só uns tantos castelos murados com os súditos subempregados e o crime à solta em volta, trocando trabalho, inovação e proteção por migalhas.

O embate cada vez mais irracional e furioso entre “direita” e “esquerda” é um eco do sofrimento que essa fissura do fundamento básico do sistema causa. O corre-corre sem saber pra onde no meio do terremoto no escuro. E vai puxado pela imprensa, uma das indústrias mais violentamente assoladas pelo pior lado das novas tecnologias.

Em pânico com o efeito da vitória esmagadora dos ladrões; nas mãos de um número minguante de patrões; inseguras quanto às causas reais da sua desgraça, a primeira reação das pessoas e das empresas é correr para dentro das muralhas dos castelos em busca de proteção.

Sair é que são elas. Mas desta vez, espera-se, não levará mil anos como da anterior.

US$ 4.7 bi, quase tanto quanto os US$ 5.1 bi de todo o resto da indústria da informação dos Estados Unidos somada, foi quanto o Google faturou sozinho em publicidade vendida em cima do noticiário que ele não produz segundo um estudo da News Mídia Alliance que representa mais de 2000 órgãos de informação americanos. O cálculo é, aliás, conservador porque não inclui o que ele ganha vendendo a espionagem dos hábitos de consumo de informação dos seus clientes, o filé mais caro do seu açougue.

Acovardados todos, só agora os donos do que o Google e a meia dúzia de gigantes da praça colhem sem ter plantado começam a reagir. Está no congresso dos EUA, depois de várias iniciativas da União Europeia com objetivos semelhantes, a Lei de Competição e Preservação do Jornalismo, equipamento imprescindível da democracia, que suspende por quatro anos os dispositivos contra a cartelização da legislação antitruste para permitir aos grupos de comunicação negociar conjuntamente com eles a exigência de pagamento pela venda dos seus produtos. A lei tem apoio de democratas e republicanos nas duas casas do Congresso, além do Departamento de Justiça.

É o começo de uma longa marcha que desta vez terá de ser levada pela comunidade humana como um todo, de modo que acabará por arrastar também a nós, como sempre, quae será tamen

Fake é a utopia cyber

11 de dezembro de 2018 § 33 Comentários

Nunca alimentei ilusões com a internet e as criaturas hiper-alimentadas da infância dessa tecnologia. O sonho de todo ditador é saber sobre todo mundo o que elas sabem. E a única condição para uma arma vir a ser usada contra nós continua sendo ela ter sido inventada um dia. A tecnologia sempre foi isso, desde o primeiro porrete. Multiplica, indiferentemente, as forças construtiva e destrutiva da humanidade, esta última em geral mais rápida e completamente que a primeira.

De “ruptura” em “ruptura” nossa espécie nunca rompe com sua própria natureza. O primeiro efeito das novas tecnologias é promover uma troca revolucionária dos donos do dinheiro, o princípio ativo do poder. Mas ele continua corrompendo sempre e mais absolutamente quanto mais absoluto for. Como a esperança é a última que morre e experiência não passa de pai para filho acontece sempre a mesma confusão. As primeiras ambições humanas a domina-las para chegar mais perto do sol, que é o que nos move nesta passagem, são festejados como os heróis de uma nova era e os precursores de uma “nova humanidade”.

O que alimenta essa ilusão é o nosso temor atávico ao competidor de melhor desempenho e, portanto, o gosto em vê-lo cair. O século 20, que elaborou em ideologias a justificação moral do ódio contra o vencedor de ontem, proporcionou aos vencedores de hoje a devolução do espaço sem limites que a democracia lhes tinha cerceado. Permitiu-se ao Google e ao Facebook tudo que a humanidade aprendera a proibir às companhias telefônicas e ao resto dos agentes econômicos no estado de direito. Em nome da “democratização do saber” foi autorizado aos primeiros detentores das artimanhas do algoritmo, que nunca as dividiram com  ninguém, espionar todos os movimentos, palavras e obras dos seus usuários e vender livremente o que assim conseguissem roubar-lhes. À Amazon todas as práticas de dumping e competição predatória de que a humanidade aprendera a proteger-se desde a disrupção do mundo a cavalo pelas ferrovias e o nefasto conluio dos donos delas com os robber barons para roubar o próximo. À Apple praticar livremente na China todas as formas de exploração da miséria e do trabalho semi-escravo que no mundo para o qual se destinavam seus produtos eram punidas com cadeia já havia mais de um século.

Da proteção da concorrência como garantia da liberdade individual – e a que condiciona todas as outras é a de poder escolher fornecedores e patrões – o mundo civilizado involuiu para o engodo da “democratização do consumo” pelo mel dos “preços baixos” dos produtos do roubo de ideias e do salário vil que, logo além da curva, não compra mais nada.

Estados nacionais inteiros, onde ele pode ser mantido pelo terror e pela violência, aderiram ao esquema. E a vertigem da marcha-à-ré e o medo do desemprego rebaixaram as ultimas defesas das classes médias meritocráticas, sustentáculo das democracias nos estados de direito. Hoje só sobrevive quem nasce para ser abduzido a bilhão para a nave mãe dos exploradores. Só os quatro gigantes compraram mais de 500 concorrentes na última década. São 50 anos de recordes de fusões e aquisições. US$ 3,3 trilhões, globalmente, só até setembro em 2018.

A etapa que se vai completando agora é o golpe de misericórdia. Começa em 2006 quando o Google adquire o Youtube. O vídeo dominaria a web, era claro, mas o problema técnico era insuperável. O volume de bits para imagens em movimento não cabia na rede que, em última instância, é física. Cabos de fibra ótica cruzando oceanos e continentes. O resultado era o buffering, videos que passavam aos trancos, cheios de interrupções. Entrega-los sem buffering passou a ser o objetivo nº 1 de toda a capacidade técnica que a ilimitada potência financeira do Google era capaz de comprar. O resultado foram as CDN’s, redes dedicadas, agora pertencentes a produtores de conteúdo que antes usavam a rede de redes menores conectando o mundo entre hubs e destes para distribuidores menores até o consumidor final, cada uma com um dono diferente, todas conversando entre si pela tecnologia de peering, espécie de tradução automática para uma linguagem técnica geral, tudo sob a lei sagrada, à qual todos juravam obediência, da “neutralidade da rede” segundo a qual era livre o ingresso de qualquer conteúdo em qualquer ponto do sistema e a ordem de entrega deveria corresponder à ordem de entrada.

Com as CDN’s tornaram-se possíveis as Netflix … que passaram a requerer muito mais CDN’s. E o cacife passou a ser proibitivo. Lá se foram as redes menores … lá se vai, agora, Hollywood inteira, depois do resto da industria do entretenimento. Hoje tres ou quatro gigantes são donos de todos os artistas. Pautam o comportamento do universo. Na torrente dos bilhões foi-se a net neutrality. Agora paga-se pela prioridade de chegada de cada bit enfiado no sistema. Quem paga menos chega por último ou nem chega. A própria rede, que “disrompeu” a ordem anterior em nome da libertação do povo e da arte da ditadura da propriedade privada é agora uma propriedade privada da escassíssima confraria do trilhão cercada de terra arrasada em todo o entorno competitivo.

E o mundo vê a novela que o Brasil já vira. Sillicon Valley compra o perdão de seus pecados declarando-se “de esquerda” e facilitando o “aparelhamento” do sistema lá de dentro dos seus mega-iates no grand monde. E o mais recente engodo é a demonização da fofoca, que predomina na nova praça pública virtual como sempre predominou em todas as praças públicas que já existiram. As fake news são o mais novo pretexto para matar a democracia em nome da salvação da democracia. É com elas que justifica-se a censura e reforça-se a ditadura comportamental enquanto os trilionários da rede compõem-se, nos bastidores, com as chinas da vida trocando tecnologia para a servidão por mais audiência e dinheiro.

E o pior é que estão por nascer os próximos shermans e theodore roosevelts, paladinos da luta antitruste que resgataram os Estados Unidos dessa mesma armadilha ha pouco mais de 100 anos, e que na próxima edição terão de ter uma envergadura planetária.

 

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