Edward Snowden e o “admirável mundo novo”

9 de julho de 2013 § 7 Comentários

ES1

De modo nenhum o que veio à tona foram informações novas ou revelações surpreendentes. Mas de certa forma os documentos vazados pelo ex-técnico da CIA, Edward Snowden, mostrando pormenores do sistema de monitoração de comunicações on e offline em escala global pelo governo americano oficializa uma realidade de todos e de cada um de nós bem mais que suspeitada.

Como fingir-se ultrajado por tais “revelações” num mundo onde organizações acobertadas por governos nacionais dedicam-se a atirar Boeings cheios de gente contra prédios de escritórios nos horários de pico de trabalho enquanto os proprietários das grandes encruzilhadas da internet como o Google, o Facebook e outros menos votados, todos incensados como grandes benfeitores da humanidade e paladinos da causa da “liberdade na rede”, fazem centenas de bilhões de dólares por ano gravando e vendendo a qualquer um que queira pagar por isso não apenas o mapeamento das conexões entre IPs suspeitos, como faz modestamente a CIA, mas tudo que todos nós falamos, escrevemos, mostramos, vendemos e compramos dentro da rede mundial, além do passo a passo das nossas deambulações pelo mundo físico sistematicamente plotadas, à nossa revelia, pelos GPS’s que eles embutem nos gadgets com que “nos servem”?

es9

A situação que tais “revelações” oficializa, portanto, é de que, diante do esboroamento do aparato de law enforcement apoiado em Estados Nacionais sem mandato para lidar com uma realidade onde tudo, a começar pelo crime, está globalizado, os Estados Unidos da América, como potência militar e tecnológica hegemônica, assumiram o papel de polícia do mundo num mundo em que nem Nova York está a salvo, o que cria uma situação paradoxal. Pois não ha uma pessoa honesta consigo mesmo que não se sinta, ao mesmo tempo, ameaçada e reconfortada com isso. Ou, no mínimo, morrendo de saudades de um mundo onde ainda era possível guardar segredos e esperar que a vida se nos revelasse aos poucos.

O chanceler Patriota e o ministro Amorin, afinados com o momento “cu na parede” do PT apressaram-se a dizer que o Brasil é muito vulnerável por carência de tecnologia ( o que nos permite antecipar que logo, logo as odebrechts da vida entrarão no ramo de satélites bancados pelo BNDES, se ainda houver BNDES), assim como dona Dilma, sem que ninguém tivesse feito muitas perguntas nesse sentido, garantiu que nunca houve autorização ou colaboração do governo brasileiro com esses expedientes de espionagem.

ES6

Não sei se convenceram alguém…

Mas a verdade é que o problema não é de carência de tecnologia, é de mudança de paradigma tecnológico. Uma mudança que torna a rede mundial de comunicações – e não apenas ela – absolutamente indefensável.

Tudo está devassado. Nem as comunicações do Pentágono, como já se provou diversas vezes até a partir de prosaicas garagens espalhadas pela periferia do mundo, estão seguras. E esse não é, nem de longe, o maior problema que essa mudança de paradigma está provocando.

O “mundo novo” nunca se me mostrou tão “admirável” assim e esse aspecto da inexorabilidade da “aquisição” de todo e qualquer perseguido, ainda que em operações cada vez mais cirúrgicas, não faz com que ele pareça nada melhor aos meus olhos. Qualquer arma – é a história da humanidade quem o diz – pode ser (e será) usada indistintamente para o bem e para o mal…

es7

De minha parte, porém, os argumentos da CIA seguem parecendo mais aceitáveis, por enquanto, que os do Google, os do Facebook e cia. ltda. para meter o nariz na minha vida e, a custa disso, armarem-se com os bilhões que empregam, cada vez com menos pudor, no assassinato econômico de concorrentes.

Perturba muito mais a minha sensibilidade, igualmente, ver o comerciante de bisbilhotices ser saudado como herói da liberdade enquanto os caçadores de bin ladens são muito mais maltratados que isso. Ha qualquer coisa de doentio nesse tipo comportamento. Patologia social, digo. Coisa mais difícil de curar que doença de gente.

Na verdade, preocupam-me mais os sinais de progressiva contaminação do uso indesejável mas justificável da invasão de privacidade pelo governo americano pelas motivações indesejáveis e injustificáveis dos comerciantes de bisbilhotice que têm aparecido lateralmente nessa história do que o contrário.

es8

Vejo mais perigo para o futuro da humanidade no fato do governo americano usar esse aparato também para espionagem comercial e favorecimento de negócios e, portanto, também de negociantes, do que em qualquer lasca tirada de minha privacidade em nome da prevenção de atentados terroristas ou do retardamento da posse de armas químicas ou nucleares por conhecidos trogloditas internacionais.

Enquanto essas duas coisas estiverem separadas ha esperanças para o futuro da democracia. Quando se misturarem assumida e impunemente, ela estará condenada.

ES4

Democracia e informática são coisas compatíveis?

22 de abril de 2013 § 4 Comentários

esp27

Você já guiou um desses carros que ficam te avisando por uma gravação que “você está acima da velocidade permitida”?

Pois é, a coisa está se invertendo. Logo, logo é o seu próprio carro que vai multa-lo, ao captar de alguma fonte emissora instalada pelo Estado em cada rua, em cada esquina, em cada estrada, o que você pode ou não pode fazer naquele lugar.

Já, já, aliás, você não terá mais nem o prazer de guiar. Será guiado pelos Google Car da vida, de um lugar para o outro, pelos caminhos e na velocidade que eles escolherem.

Por enquanto, os carros mais modernos apenas registram um monte de informações sobre tudo que você faz dentro ou perto deles que os fabricantes podem acessar quando quiserem e, eventualmente, vender para terceiros.

esp28

Seu telefone idem. Ele grava, minuto a minuto, dia após dia, a sua localização além de tudo que você gosta de fazer e usar na internet acoplada a ele.

Mas ha muito mais.

Ha câmeras nos drones voando lá em cima (ultimamente andam por aí drones do tamanho de libélulas, para espionagens mais discretas e caçadas mais precisas), nos caixas automáticos, nos estabelecimentos comerciais, nos elevadores, nas ruas e nos becos de cada longínquo rincão do mundo.

Os softwares de reconhecimento facial estão cada vez mais aperfeiçoados e os bancos de fotografias (de vozes, de hábitos, de…) cada vez mais vastos.

No ritmo em que vai ainda nos enfiam um chip subcutâneo na maternidade…

esp23

Na verdade as únicas empresas que não podem espioná-lo e vender as informações que capturam sobre os seus movimentos e comportamentos hoje são as de old ou semi old tech, nascidas naquela longínqua era em que o indivíduo ainda valia alguma coisa e respeitar a privacidade dele era uma lei fundamental das democracias.

Se as telefônicas ou o Murdoch gravarem o que você faz nos ambientes deles ou usarem as informações que outros gravam e publicá-las como fazem o Facebook, o Google, e todo e qualquer site espalhado pela internet, eles vão para a cadeia.

Mas tudo que veio depois da internet pode, livremente, espionar você e usar como bem entender as informações assim colhidas em benefício próprio ou de terceiros simplesmente em troca da apresentação de … dinheiro.

Ordens judiciais para invadir a vida alheia são reminiscências em desuso de um mundo em vias de desaparição.

esp9

Por que os legisladores e, pior ainda, as próprias vítimas dessa empulhação ainda acreditam que os atos de uns são nefandos e os dos outros não são, como são, maneiras desonestas, violentas, invasivas e perigosas de ganhar dinheiro às custas da liberdade alheia mas sim ações generosas e altruístas em prol da “liberdade na rede” (para roubar?) e da “democratização do conhecimento” é coisa de que a História ainda haverá de tratar.

Isso se tudo não acabar, como parece claro que acabará, no verdadeiro “fim da História” como reconstituição daquilo que de fato aconteceu para dar lugar exclusivamente à história oficial que serão os pedaços daquela que os detentores do registro milimétrico da sua e da vida de cada um de nós houverem por bem montar e liberar, já que esse tipo de poder, uma vez experimentado, nunca se detém apenas onde começa.

esp6

Na mesma semana em que a caçada aos terroristas de Boston mostrou o quanto já andamos longe nessa senda da espionagem geral, a Câmara dos Representantes do Congresso dos EUA aprovava a CISPA e o Google mandava para as lojas os seus óculos/computadores/filmadores, capazes de acrescentar ao que o seu telefone já faz para espioná-lo, também o registro de tudo que você está vendo, passo a passo, segundo por segundo.

A CISPA (Cyber Intelligence Sharing and Protection Act), ainda faltando a aprovação do Senado que deve ser tranquila, é uma lei que formaliza a aliança privilegiada entre o governo e as grandes estruturas e encruzilhadas da internet empregando batalhões de matemáticos e programadores como o Google e o Facebook, entre outros. Legaliza “a troca de informações voluntária entre empresas privadas e o governo no caso de cyber-ataques ou suspeita de cyber-ataques” (movimentações anormais de tráfego, etc).

esp22

É uma estrada de mão dupla em que o governo ajuda preferencialmente essas mega-corporações e elas ao governo, coisa que, para quem partiu da gloriosa saga da legislação antitruste, ponto mais alto da construção da democracia, representa nada mais nada menos que a inversão de um princípio até então tido como fundamental.

Ao fulminante efeito de multiplicação do poder dos poderosos, de facilitação da criação de monopólios e de concentração da riqueza que a internet tem provado dramática e implacavelmente que tem para a crescente legião apavorada dos desempregados e dos sub-empregados do mundo, vem somar-se o seu corolário necessário que é a associação do poder do Estado Nacional, hoje mero subsidiário do outro, ao poder econômico globalizado sem fiscalização nem fronteiras.

Empurrando tudo, além do pânico generalizado e da busca de proteção a qualquer custo que reduz a capacidade de discernimento e induz à aceitação do inaceitável, está essa “transparência forçada de mão única” a criar um mundo onde privacidade – privilégio das mega-corporações e do Estado – é poder.

esp15

Não é a primeira vez que proponho isto aqui no Vespeiro e, para meu alívio, começo a ver essa ideia “bombar” pela rede como o início de um movimento mais estruturado de opinião pública, no sentido de obrigar o governo e as empresas à mesma transparência absoluta que nos impuseram, de modo a reduzir um pouco a desvantagem.

A “transparência de mão dupla” consiste em filmar e expor todo e qualquer movimento dos agentes do governo do mesmo modo como eles filmam e expõem seletivamente os nossos.

Como fazê-lo em relação às megaempresas é um problema bem mais espinhoso no qual é preciso começar a pensar antes que seja tarde.

esp8

Uma experiência recente envolvendo os agentes do TSA (Transportation Security Administration), aqueles brutamontes que fazem gato e sapato da gente nos aeroportos americanos, demonstrou que quando forçados a usar câmeras filmando seus movimentos as reclamações de abusos caíram 88%.

Já fiz, aqui, recentemente, um exercício para imaginar o que isso faria pelo fim da violência e da corrupção policiais no Brasil.

Enfim é preciso que o povo filme e grave constantemente todos os atos dos agentes do governo assim como eles filmam e gravam todos os atos do povo, e que algo de parecido seja feito em relação às principais reuniões de informação envolvendo os gestores ao menos das empresas “grandes demais para quebrar” ou com ações em bolsa.

A caçada aos terroristas de Boston em que sites como 4chan e Reddit incentivaram seus usuários a publicar fotos da cena do crime indicou que, nessa sociedade da espionagem geral vão surgir também as turbas de linchadores cibernéticas.

esp14

Milhões de fotos foram publicadas apontando pessoas com mochilas pretas nas costas, os rostos assinalados por círculos vermelhos, e com tantas ameaças e pressão que várias delas se apresentaram à polícia com medo do que lhes pudesse acontecer.

Estavam entre eles campeões esportivos das universidades locais carregando seus equipamentos, pessoas com traços raciais fora do padrão WASP (White Anglo Saxon Protestant) e até gente que despertou suspeitas apenas “por não estar prestando atenção na maratona” no momento do registro da foto.

Enfim, não parece nada bom o mundo da espionagem geral que vem vindo inexoravelmente por aí, e ha dúvidas crescentes sobre se democracia como a conhecemos e informática são coisas compatíveis entre si.

Mas se não ha volta possível aos bons tempos da privacidade, é mais justo que ninguém a tenha.

esp7

Mau pensamento

27 de janeiro de 2013 § 2 Comentários

dita1

Cada passo de cada ser humano está registrado “na nuvem” desde o nascimento.

O log dos seus hábitos, suas preferências, seus vícios, suas doenças, seus contatos e relações no mundo está indelevelmente guardado na memória inapagável que ela abriga.

Todas as ruas e recintos do planeta estão monitorados.

Todas as movimentações que sustentam a vida do Hommo economicus passam por um único canal.

Carros começam a sair das fábricas com rastreadores.

dita8

Estado e Capital andam de mãos dadas.

Os governos são os donos das corporações gigantes.

Drones voam por aí, implacáveis, com o nome, a fotografia e o cheiro dos seus alvos inscritos nos chips dos seus detonadores.

E a humanidade anseia como nunca por segurança (física e financeira).

(…)

Está tudo pronto para começar a mãe de todas as ditaduras.

dita2

Transformando gritos em sussurros

2 de novembro de 2012 § 4 Comentários

No país onde os “mais de 40 anos de prisão” anunciados pela Suprema Corte como o início do fim da impunidade no nosso faroeste institucional viram pouco mais de 6 anos realmente cumpridos na prisão, uma norma baixada pela Anatel “exigindo” que as telefonicas entreguem “ao menos 20%” da velocidade que vendem e cobram dos consumidores de banda larga é saudada pela imprensa como uma grande vitória do consumidor.

Tudo a ver!

Está no Globo. Pode conferir.

Hoje eles não entregam nem 10% do que nos vendem (e metade disso é imposto) e nada acontece. Possivelmente porque o Estado é sócio dessa roubalheira, ficando com metade ou mais desses 90% que as teles nos tungam.

A tal “dosimetria” que tanto reacendeu as esperanças da Nação, portanto, nada mais é que um dado de uma complicadíssima equação feita para enganar os que têm sede de justiça e transformar os urros dos tribunais em sussurros de execução penal e converter cada “decibel” baixado nessa trajetória numa fortuna para os tomas bastos da vida.

Taí um subtema que, sozinho, podia ganhar uma eleição para uma oposição realmente interessada em mudanças…

Internet, democracia e imprensa: um mundo de confusões

28 de setembro de 2012 § Deixe um comentário

A natureza da internet continua sendo um tema que provoca confusão por todos os lados.

Mesmo porque, sendo ela uma reprodução matemática da vida real, é tão infinitamente multifacetada quanto aquilo que imita.

Os grandes repositórios de expressões individuais que ela abriga, como o Youtube, por exemplo, equivalem a praças públicas. E assim, culpar o Google pelo que aparece no Youtube,como fez a Justiça Eleitoral de Mato Grosso do Sul esta semana ao determinar a prisão do diretor-geral da empresa no Brasil, Fabio Jose Silva Coelho,faz tanto sentido quanto mandar prender o prefeito de São Paulo pelas ofensas ditas por um transeunte a outro na Praça da Sé. (Podia ser pior, como acontece no Islã…)

É verdade que ao construir uma praça um prefeito está se comprometendo a policiá-la e a fazer com que as leis vigentes sejam cumpridas nela e enquanto a construção de grandes praças virtuais continuar concentrada nas mãos de uns poucos gigantes da internet, caso do Google, os ofendidos correrão a eles para fazer cessar a ofensa que os atinge.

Porque é fácil e prático mais do que porque faça qualquer sentido lógico.

Mas é um precedente complicado porque logo chegará o momento que alguém exigirá o mesmo rigor dos prefeitos em suas praças e aí teremos uma boa discussão sobre que fim levou o direito à livre expressão do pensamento.

Neste caso em particular, aliás, já não seria sem tempo pois a violenta censura que se exerce sobre todos os meios de comunicação de massa para proteger a canalha que nos pede votos é um desses escândalos anestesiados incompreensíveis que “passa batido” neste país que não tem noção daquilo que tem direito de exigir. Não tem precedentes senão nos regimes totalitários praticamente extintos no século 20.

Só neles – e em nenhuma parte mais – os “representantes do povo” ou mesmo os que são ungidos pelos partidos oficiais a se apresentar como candidatos a sê-lo – ganham, desde o momento dessa unção, o direito exclusivo de falar de si mesmos nos meios de comunicação, exceção feita àqueles que só atingem a parcela eleitoralmente insignificante dos que conseguem ler e compreender um texto de complexidade acima da elementar e que, de resto, esses candidatos não conseguiriam mesmo enganar tão fácil.

Toda mídia eletrônica (aquela de absorção passiva por alfabetizados ou não) fica sob censura enquanto o tema eleições estiver em pauta.

Acabar com essa excrecência, por si só, eliminaria uma boa parte da corrupção que nos corrói.

As praças virtuais, entretanto, são usadas, igualmente, para a prática de crimes piores. Mas como a característica do Estado de Direito é dar a essa instituição o monopólio do uso da força, cabe ao Estado e não aos que as criam e as servem das ferramentas e algorítmos que permitem falar, ouvir, ver, ser visto e trocar cumprimentos e bens dentro delas, policiá-las como a qualquer outro espaço público e prender os criminosos que as frequentam – e somente eles, como mandam todos os os códigos e Constituições civilizadas.

A mesma confusão que leva juízes e políticos a exigir dos google da vida o exercício de papéis que não lhes cabem afeta a maior parte dos usuários da internet. Na raiz dela está a memória da era pré-eletrônica quando publicar era caro, ocorria em espaços limitados e, por isso, pressupunha necessariamente seleção e edição centralizadas.

Quase todo mundo que lê na internet ainda lê com esses olhos. Sua memória ancestral conta como certa a existência de um intermediário que leu e aprovou o que foi publicado antes dele, o que o predispõe a uma reverência para com o que lê na maioria das vezes imerecida, assim como à suposição de que a plataforma que abraçou a peça deve ser responsabilizada por ela estar lá.

Mas hoje publica quem quer, o que quer, quando quer e, frequentemente – ou ao menos nessas grandes “praças públicas” da internet – onde quer.

O termo preciso quando se trata da internet, aliás, não é “publicar”. É dizer, ou fazer (na internet).

Só que toda essa avalanche de palavras, imagens e atos de quem diz e faz na internet tão livremente como sempre disse e fez na rua, por falta de expressão mais precisa, é chamada de “informação”, palavra que remete à matéria prima do jornalismo e a outras formas depuradas de transmissão de pedaços de conhecimento.

Essa indiferenciação semântica cria um outro tipo de confusão – difusa, esta – que provoca ferimentos menos localizados mais muito mais insidiosos porque afeta o próprio cerne da democracia.

Como na vida, 99,9% do que as pessoas trocam quando falam umas com as outras não é, propriamente, informação. São impressões, cumprimentos, sentimentos, fofocas, piadas, esgares, imagens, sugestões, cantadas, mentiras ou o que mais do muito que compõe o variado molho do universo das relações humanas que você se lembre de incluir nessa lista.

Os governos de representação, para os quais ainda não se inventou alternativa que inclua a liberdade e a dignidade humanas, entretanto, continuam requerendo, para funcionar, um fluxo permanente de informação (no sentido estrito) entre representantes e representados. Assim como o cidadão maduro para a democracia apendeu a diferenciar informação de calúnia, de mentira, de fofoca ou do que seja para lidar com o sistema representativo de governo no mundo físico, terá de aprender a faze-lo no mundo virtual. E as balizas para isso são as mesmas de sempre.

A veiculação de informação jornalística se diferencia de todos esses variados ruídos por ser uma atividade técnica, balizada por um compromisso formal com regras especiais e públicas de apuração da verdade, de consideração do contraditório e de ética de negócios.

É essa institucionalização da atividade que credencia a imprensa, o chamado 4º Poder, como elemento constitutivo do aparato operacional das democracias.

Para ser mais independente e poder cumprir bem o seu papel de fiscalizar os outros três, as empresas jornalísticas têm de ter regras absolutamente livres para se constituir e se propor ao público como parte do aparato institucional da democracia. Mas isso não significa que elas estejam menos sujeitas que os demais poderes à obrigação de legitimar-se e de submeter-se a uma fiscalização constante. Ao contrário. Não tendo mandato definido, a imprensa tem de ratificar sua legitimidade nesse papel submetendo-se a uma eleição por dia, que é aferida pela sua circulação paga.

Assim foi no mundo físico. Assim será no virtual se continuar existindo democracia e portanto imprensa. Ou se continuar existindo imprensa e portanto democracia.

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com internet em VESPEIRO.