Roteiro para um jornalismo democrático

5 de maio de 2021 § 28 Comentários

Indagado, certa vez, sobre o que era necessário para governar um país, o general De Gaulle respondeu que, antes de tudo, ter “une certaine idée de la France”.

Governar um jornal no Brasil é colocá-lo a serviço de “une certaine idée du Brésil”, ou seja, avaliar e tomar posição a respeito de tudo que acontece no país pelo critério de se tal acontecimento, pronunciamento, atitude do poder público ou o que seja, aproxima ou distancia o país desse projeto de Brasil.

Todo órgão de imprensa, no Brasil e no mundo, funciona assim. A esmagadora maioria dos brasileiros olha os acontecimentos hoje como quem tem em mente um Brasil onde um órgão não eleito deve mandar no governo, o governo eleito deve mandar no eleitor, a lei deve valer só para alguns e a privilegiatura deve ter, só para ela, os direitos que nega ao favelão nacional. É em função disso que hierarquizam suas matérias, selecionam as suas fontes, tomam posição diante dos acontecimentos, criticam os atores da cena política e orientam a sua pauta, reservando qualquer contraditório quando muito a cercadinhos delimitados onde, ao lado de mais alguém a favor dessa receita, toleram o discurso, por alguns minutos por dia, de alguém imposto pelo proprietário para eventualmente dizer uma ou duas palavras contra ela.

Mas não é essa a única opção possível. 

Descontados os efeitos de época, tudo que a História registra em matéria de organização das sociedades humanas pode ser classificado em uma dessas duas chaves: governos que mandam no seu povo, com mais ou com menos sangue mas sempre com muito sangue, ou povos que mandam no seu governo. Escolher “uma idéia de Brasil” democrático para inspirar a orientação editorial de um jornal não requer, portanto, inventá-lo do nada. Basta procurar os fatos, como é do mais básico dos cânones do bom jornalismo. Em vez de demonizar os países que escolheram sistemas em que o povo manda no governo, cobrindo exclusivamente o que neles acontece de ruim e censurando a divulgação de qualquer dos seus aspectos positivos, passar a cobrir sistematicamente os mecanismos através dos quais esses povos exercem o governo sobre seus governos, explicar como funcionam, cotejar os resultados de um e de outro sistema para o controle da corrupção, o desenvolvimento e o bem estar das pessoas que os abraçam e, assim, proporcionar que os brasileiros façam uma escolha informada entre as opções existentes.

Chamemos “JDJornal Democrático” um que escolhesse INFORMAR os brasileiros sobre o funcionamento dos sistemas onde o povo manda no governo como o eixo da sua orientação editorial. Fariam parte da sua lista de princípios inegociáveis os seguintes:

O JD acredita na democracia e que democracia existe quando o povo manda no seu governo.

Quando o governo manda no povo o que existe é arbítrio.

Todo acontecimento, lei, atitude de governante, de politico, declaração de fonte ou de cidadão que contribua para reforçar o poder de arbítrio do governo sobre o povo deve ser denunciado como antidemocrático e abordado criticamente pelo JD e toda ação, lei ou proposta que reforce o poder do povo sobre o governo deve ser apoiada.

O JD é absolutamente intransigente na luta pela igualdade de direitos e contra o privilégio institucionalizado.

Deve atacar inegociavelmente todo privilégio estabelecido, toda ação política, toda lei, todo preceito constitucional que não valha igualmente para toda a população e, portanto, que institua ou defenda a permanência de um privilégio. 

Constatado que o Brasil anda para trás desde 1988 quando foi instituída a atual constituição, o JD está totalmente convencido de que é ela o principal aleijão do país e, portanto, é sempre crítico em relação a ela. 

A C88 jamais deve ser invocada, nas argumentações do JD, para encerrar discussões, somente para abri-las.

O povo brasileiro não dispõe de nenhum instrumento institucional para mandar em seu governo. Nosso meio político não discute nem nosso meio acadêmico estuda os modernos arranjos aplicados para este fim em outras partes do mundo. Para a grande maioria dos brasileiros é como se eles não existissem. O JD compromete-se a informa-lo de que não é assim instituindo uma linha de cobertura sistemática do funcionamento de sistemas como o americano, nos níveis estadual e municipal, o suíço, nos níveis cantonal e federal, dois dos mais avançados em matéria de ferramentas institucionais para permitir o governo do governo pelo povo, entre outros em outros países que persigam esta mesma finalidade, para familiarizar o publico brasileiro com eles.

O objetivo, a ser preservado COM TODO O RIGOR, é municiar o povo com INFORMAÇÃO para que forme a sua própria opinião a respeito das ferramentas institucionais desenhadas para aumentar o poder do povo sobre os seus representantes eleitos concretamente existentes, e não repassar-lhe elucubrações teóricas e/ou opiniões de terceiros a respeito delas.

A questão da REPRESENTAÇÃO é, para o JD, a mais essencial da democracia. Não ha democracia sem que haja uma relação de SUBORDINAÇÃO dos representantes eleitos aos seus representados.

SÓ O VOTO DISTRITAL PURO permite estabelecer uma representação real do país real e cria a condição para que cada “pedaço do povo” possa mandar “no seu” representante. É pauta permanente do JD denunciar os falsos partidos sustentados pelo Estado, mostrar como funciona o sistema de eleição distrital pura e como ele garante que todo poder de fato “emane do povo” e possa ser por ele diretamente exercido sem perigo de manipulações ilegítimas e golpes de minorias organizadas.

O JD é radicalmente a favor dos direitos de recall, de referendo, da inciativa de leis populares e de outros instrumentos de democracia direta para o povo brasileiro desde que cumpridos os requisitos básicos de legitimação desse processo pelo sistema de voto distrital puro.

O problema não é eleger a pessoa errada ou fazer a lei errada. É negar ao cidadão eleitor, destinatário dos serviços públicos e das leis feitas pelos legisladores, os direitos de, sem ter de pedir licença a ninguém senão seus concidadãos, “deseleger” imediatamente o funcionário ou o representante que não honrar seu mandato ou de corrigir ou anular a lei defeituosa assim que ela mostrar sua imperfeição. O JD cobrirá sistematicamente o exercício desses poderes pelo povo em países democráticos.

Porque é uma ferramenta essencial para aumentar o poder do povo de governar o governo e defender-se da corrupção, o JD também fará campanha permanente para que nossos estados tenham suas próprias constituições, mais flexíveis que a federal, dispondo sobre todos os assuntos que dizem respeito só a eles, assim como cada uma de suas cidades, e que estas tenham a liberdade de escolher o seu próprio modelo de governo: com ou sem prefeito e câmara de vereadores. Para tanto fará reportagens constantes sobre como, onde ele existe, o verdadeiro federalismo combinado com ferramentas de democracia direta e os sistemas alternativos de gestão municipal contribuem para o esmagamento da corrupção e o controle da vida pública pelos seus destinatários, como deve ser, e não pelos “produtores” das políticas públicas.

O JD acredita que enquanto os juízes forem nomeados por aqueles que eles têm por função julgar, a justiça será o que é no Brasil, e que eleições periódicas de retenção de juizes e outros mecanismos de controle do Judiciário diretamente exercidos pelos eleitores são o remédio mais próximo da perfeição até agora inventado para encaminhar o problema essencial do controle do Judiciário. Para demonstrá-lo aos brasileiros o JD compromete-se a cobrir sistematicamente essas eleições nas quais é dado periodicamente ao povo a prerrogativa de livrar-se dos maus juízes onde elas ocorrem no mundo.

No taxation without representation”.

Homenageando sua tradição e a história da democracia moderna cuja trajetória se inicia com esse mote, o JD fará CAMPANHA PERMANENTE por uma reforma tributária simplificadora radical e para que nenhuma norma ou lei aumentando impostos nos três níveis de governo possa ser passada sem referendo popular daí por diante e cobrirá sistematicamente os referendos para aprovação ou não de gastos públicos e alterações em impostos que acontecem cotidianamente nos três níveis de governos – municipal, estadual e federal – em países onde o povo manda nos seus governos, com ênfase na demonstração do efeito fulminante que esse expediente tem para a corrupção.

Desde Montesquieu sabe-se que o primeiro passo para quebrar as monarquias é a separação de poderes. 

É bandeira inegociável do JD quebrar a nossa Undecimarquia insurgindo-se e denunciando por todos os meios, como ação antirepublicana e antidemocrática por definição, as invasões de qualquer dos três poderes uns sobre os outros.

O JD sabe que a chave para a solução dos impasses institucionais não está somente na letra da lei mas, principalmente, na definição de quem tem o poder de acionar cada lei. O único meio para que a lei não seja transformada num instrumento do tipo mais sujo de luta pelo poder, como prova sobejamente a história recente do Brasil, é o povo ser O ÚNICO A PODER ACIONAR A INTERVENÇÃO DA LEI NO TERRITÓRIO DA POLÍTICA, salvo nos casos de crime comum.

Por isso o JD defende que a imunidade do representante eleito pertence ao eleitor representado e só ele pode suspender a do seu.

Só a garantia da propriedade privada pode assegurar ao proletário que ele pode vencer pelo trabalho. A constituição federal deve cuidar só da descrição do regime, de definir os limites de cada poder da República, e dos “direitos negativos”, qual seja, do que o Estado NÃO PODE FAZER contra o cidadão, começando pela prerrogativa de lançar mão da propriedade privada de cada um sem autorização expressa de quem suou para amealhá-la.

Somente esses direitos podem ser considerados “cláusula pétrea”.

Qualquer “direito positivo”, aqueles que implicam custos para outras pessoas que não apenas às que vão desfrutá-los, deve pertencer EXCLUSIVAMENTE às constituições estaduais e municipais, ter caráter temporário e ser bancados pelas parcelas de população que concordarem, no voto, em concede-los aos seus concidadãos. Do contrário cai-se nessa indústria de distribuição de privilégios como suborno que é a política no Brasil. É esta a reforma constitucional que o JD defende.

O JD sabe que toda empresa estatal é um ralo de dinheiro público e um elemento de forte incentivo à corrupção. Por isso sempre favorece a solução meritocrática e privada e é a favor de privatizar tudo, inclusive Petrobras e BB.

Mas sabe também que monopólios privados são tão nocivos à democracia quanto monopólios estatais e que, portanto, um grau saudável de concorrência em cada setor da economia é a condição essencial para a contínua valorização do trabalho e a disputa de mercado mediante reduções de preços e, portanto, para uma distribuição saudável da riqueza nacional.

A imposição do monopólio na politica e na economia é o que define, tanto os governos do absolutismo monárquico do passado quanto os do socialismo do presente, e o meio mais efetivo de exterminar a democracia.

Diversidade e competição na política e na economia são, para o JD, sinônimos de democracia. Por isso o JD defende como ESSENCIAIS, tanto a liberdade de reunião de todo grupo ou partido político que realmente emane de iniciativa popular e/ou seja sustentado pelo povo, quanto, ainda mais, a imposição de um forte limite antitruste para a competição econômica. O JD defende um Estado forte mas submetido estritamente à lei referendada pelo povo e atuando somente como instrumento de afirmação dela.

O JD é absolutamente intransigente no combate a idéias com idéias mas também é absolutamente intransigente CONTRA A CENSURA ou qualquer ATO ARBITRÁRIO dos poderes públicos ou dos poderes privados contra jornalistas, deputados ou quaisquer outros cidadãos que estejam apenas manifestando idéias. 

É radicalmente contra “cancelamentos” e “linchamentos morais”, execra esse tipo de ação como antidemocrática, indigna e covarde, protege os exilados e os perseguidos de todos os regimes e crenças, dá exemplos públicos nesse campo. 

Defende inegociavelmente o direito de cada um de pensar, dizer que pensa e praticar o estilo de vida que quiser, contanto que não viole o direito do próximo à mesma coisa, até mesmo e principalmente os que defendem idéias opostas às suas, nem que seja a defesa do nazismo, porque, sendo uma plataforma de promoção da livre circulação de idéias, sabe, como sabe e afirma a Civilização Ocidental ha mais de meio milênio, que não é possível defender racionalmente a proibição de um tipo de pensamento sem acabar por autorizar a proibição de todos.

Dado o grau a que chegou a exploração do País Real pelo País Oficial no Brasil, é obrigatória a instituição de uma linha PERMANENTE de REPORTAGENS sobre “COMO VIVE A PRIVILEGIATURA” focada no CUSTO de cada componente do estilo de vida que o Estado brasileiro obriga o favelão nacional, direta ou indiretamente, a financiar para os detentores de privilégios institucionalizados.

A médio prazo o JD defende o controle da educação pública pelos seus destinatários pela instituição de Conselhos Escolares eleitos entre os moradores de cada bairro servido por uma escola pública (tendencialmente pais de alunos), encarregados de confirmar seus diretores e aprovar seus currículos e orçamentos anuais.

No curto prazo, dada a contaminação e a conflagração ideológica em torno da educação, e a blindagem impenetrável do status quo o JD deve batalhar, na educação pública, por um programa prático voltado para o emprego do futuro que se instale paralelamente ao sistema existente tão humilde e pé no chão quanto aquele que a Índia pôs em prática ha uma ou duas gerações e a colocou na vanguarda do processamento da vida informatizada do planeta.

“ANALFABETO É QUEM NÃO SABE CÓDIGO” seria um bom mote para essa campanha.

COMO IMPLANTAR UMA ORIENTAÇÃO EDITORIAL

Sendo a imprensa um elemento decisivo da luta pelo poder em todos os países onde eleição ainda é o único caminho aceito para conquistá-lo, a disputa pela orientação editorial de cada órgão é um jogo pesado que começa pelo controle ideológico das escolas de jornalismo não só do Brasil mas do mundo inteiro e envereda agora pela tentativa de controlar também o acesso às redes sociais, o que explica a quase perfeita afinação ideológica de tantos órgãos de imprensa ao redor do planeta. 

Historicamente falando, as soluções autenticamente democráticas acabam por impor-se espontaneamente à medida em que se tornam conhecidas pela massa dos eleitores pela razão óbvia de que todo mundo ama o poder, o povo inclusive, e só a ele, devidamente diluído e com as devidas salvaguardas, é seguro concedê-lo. Por isso mesmo a repressão violenta e a censura sempre foram e continuam sendo as principais armas dos partidários dos sistemas de privilégio. Para sustentá-los é necessário concentrar o poder para mandar no povo. E povos, para aceitarem ser mandados, precisam ser mantidos na ignorância que só a violência e a censura podem garantir. 

Sendo o rompimento da censura a chave comutadora básica da História, a resistência contra levantá-la será, como sempre foi, absolutamente feroz.

Como a operação jornalística é tremendamente dinâmica, envolve grandes equipes e parte do zero ao produto final praticamente a cada novo acontecimento apurado, posto no seu contexto e publicado, é absolutamente ilusório pensar que a orientação editorial de um órgão de imprensa possa ser dada à distância pelo dono, só por ser dono, ou por algum organismo burocrático acoplado lateralmente ao organograma da empresa que se reune de quando em quando, como é o caso dos “conselhos editoriais” que existem por aí. A opinião que prevalecerá será sempre a de quem estiver lá com a mão na massa do fato do dia. 

Fazer permear cada cobertura por essa orientação depende estritamente, portanto, de reproduzir, com sinal invertido, o esquema que hoje prevalece na maioria das redações com a orientação contrária. Ou seja, depende da escolha de alguém que conheça o funcionamento, acredite nesse tipo de democracia e esteja disposto a lutar por ela para o primeiro posto de uma estrutura hierárquica perfeitamente clara em que seja ele o responsável pela contratação das duas figuras-chave da redação, o diretor de redação e o diretor de opinião, e mantenha com eles um contato diuturno.

O Brasil como Pulitzer queria demonstrar

30 de abril de 2021 § 24 Comentários

Antigamente, quando se aprendia na escola os teoremas básicos da matemática e da trigonometria, essas verdades fundamentais eram batizadas com o nome do sábio que, pela primeira vez, as tinha demonstrado como tal e, ao fim dessa demonstração, fechava-se a lição com a sigla “c.q.d.” (“como queríamos demonstrar”), tradução do “quod erat demonstrandum” (greco)latino dos tempos de escolas mais cultas.

Com a revogação, quarta-feira, da prisão de Eduardo Cunha e a confirmação de Renan Calheiros como juiz supremo do “estado democrático de direito” do STF fecha-se o círculo. O Brasil está perfeitamente virado do avesso: os ladrões condenados na banca dos juízes e os juízes no banco dos réus.

Ha quem estranhe a volubilidade dessa imprensa que hoje abraça o ladrão da Transpetro depois de tê-lo apedrejado. Eu não. Se Átila, O Huno, se alistasse amanhã para o linchamento de Jair Bolsonaro também ele se converteria imediatamente em herói do “estado democrático de direito” que o STF não eleito, a esquerda derrotada na eleição e os jornalistas que se alinham automaticamente a eles prescrevem para o Brasil. E nem isso faria os herdeiros da imprensa brasileira entenderem que estão fabricando a corda com que serão enforcados…

É verdade que Bolsonaro fornece todas as inestimáveis desculpas para o comportamento dessa imprensa na questão da pandemia. Mas isso não vem ao caso pois se não fornecesse dava no mesmo, como prova a questão do meio ambiente. Nenhum fato pode convencer os lobos que juraram esse cordeiro de morte a não destroçá-lo a dentadas levando junto o Brasil, nem que sejam fatos bastantes para convencer Joe Biden.

As represálias do patrulhamento ideológico, uma vez contadas como certas, têm o efeito de uma bomba de nêutrons: passam a matar a verdade e a dignidade humana sem precisarem mais ser disparadas a cada vez. E se isso é verdade em qualquer lugar, muito mais ainda no Brasil onde a política é uma espécie de abscesso fechado em si mesmo, que encerra na mesma bola de pús, dos monocratas do STF até o limite inferior da privilegiatura onde se aloja diretamente ou por interposto nepote grande parte da militância que as redações abrigam.

Pendurado no corpo do favelão nacional, o abscesso é cada vez mais independente dele. O Brasil ainda elege o presidente da República, os deputados e os senadores que o abscesso engendra em função dos seus processos inflamatórios internos inacessíveis ao comum dos mortais, mas eles estão reduzidos estritamente ao direito de mamar. Os 11 monocratas não eleitos anulam os seus atos e fazem deles e dos eleitores deles gato e sapato sem que ninguém retruque com um gemido sequer. 

Se conseguiram isso com o que restava da classe média meritocrática desfilando sua indignação nas ruas do país inteiro – coitada! – e com quase 58 milhões de votos expressamente dados CONTRA o maior assaltante de todos os tempos, segundo a descrição do Banco Mundial, imagine do que não serão capazes se, conforme a encomenda, o STF conseguir enfia-lo de novo na Presidência com a eleição sem recibo!

O mundo já entendeu, e não quer pagar pra ver. É isso que explica a debandada das multinacionais que apostaram no Brasil nos últimos 100 anos, e não, obviamente, a estupidez – por monumental que seja – de um governo que tem só mais um ano e meio de mandato.

A parada que se joga no Brasil pretende durar bem mais que isso. Desde que desistiu de tomar o poder a tiro, como tomou em todos os lugares onde ainda permanece nele sozinha, e decidiu-se a agarrá-lo pelo voto, a esquerda antidemocrática, no seu pragmatismo amoral e no profundo conhecimento que tem do que há de pior na natureza humana, logo se deu conta de que é a imprensa que pauta a política e não o contrário. Depois de confirmar, por ensaio e erro, que o político chinfrim como são 99,999% dos que vivem de seduzir multidões, faria e diria sempre aquilo que sabe que rende manchetes, concluiu que tomar os postos que determinam o que vira e o que não vira manchete é que é o “Abre-te Sésamo” da Caverna do Poder. 

O ser humano comum, desprevenido das regras do jogo do poder, na sua ingenuidade, é que confunde as coisas devaneando sobre a moral e o livre arbítrio, sem se dar conta de que essas expressões não tratam do que existe, tratam do que deveria existir, estando portanto no território da ética e não no da realidade. Quer dizer, moral e livre arbítrio não mandam no jogo, servem apenas para inspirar uma engenharia institucional que favoreça que assim seja, exatamente porque sem esse tipo de empurrão, mantida a lei da selva, não chegarão sequer a influencia-lo jamais.

Era disso que falava Joseph Pulitzer (1847-1911), o primeiro a entender completamente a função institucional da imprensa num sistema republicano. Foi só quando, graças a ele, o foco da americana desviou-se da luta suja das facções pelo poder para alinhar-se ao interesse do povo de governar o governo que foi possível induzir as reformas da virada do século 19 para o 20 (viés antitruste + ferramentas de democracia direta) que empurraram a democracia deles para o estado de plenitude em que viveu até meados dos anos 80 de que a humanidade começa a sentir dolorosas saudades.

Pulitzer dizia que “É impossível matar mesmo uma democracia muito imperfeita se sua imprensa estiver minimamente saudável”, e que, assim, “se uma democracia estiver dando sinais irreversíveis de que está caminhando para a morte é porque sua imprensa já tinha morrido antes dela” e afirmava que “nossa Republica e sua imprensa vão se consolidar ou desaparecer juntas” e que, portanto, “o poder de moldar o futuro da democracia estará nas mãos dos jornalistas das próximas gerações”. Mas advertia que “uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formaria, com o tempo, um público tão vil como ela mesma”.

Pois aí está, c.q.d….

Trump, Biden e a doença do jornalismo

10 de novembro de 2020 § 44 Comentários

Na política, como na vida, toda “solução” é só o início do próximo problema.

Alguém disse na TV que a melhor qualidade de Joe Biden é não ser Donald Trump. Concordo. O fim do cafajestismo no poder reabre a perspectiva da reconstituição da institucionalidade da figura do presidente dos Estados Unidos da América que, como estamos aprendendo a duras penas em todo o mundo nestes tempos de venenos novos como o Twitter, o Facebook e quejandos sendo instilados nas veias das democracias em doses cavalares, é absolutamente essencial. Além disso, Joe Biden tem não apenas a memória viva de outros Estados Unidos de que, mesmo lá, pouca gente ainda se lembra e aos quais seria muito bom a sociedade americana de hoje se reaproximar, como principalmente a humildade dos muito sofridos que falta psicoticamente a Donald Trump.

Mas os Estados Unidos que ele vai tentar governar são os de hoje. 

Biden elegeu quatro prioridades. A primeira é a pandemia por trás da qual está o debate da socialização ou não da medicina ao custo de 2 trilhões de dólares. Para além do fato do controle de pandemias não combinar com democracia e do problema de tudo que ainda não se sabe sobre o Covid-19 e seus sucessores, o verdadeiro terror dessa epidemia nos Estados Unidos é o preço da internação hospitalar num país onde os proventos da classe média espremida entre os monopólios chineses e os monopólios americanos se vão “achinesando” em velocidade alucinante. A pandemia é, portanto, um problema que, para alem dos seus intrincados componentes cientifico e aritmético, envolve a decisão de quebrar, pela primeira vez na história daquele país, a mais sacrossanta das “excepcionalidades” que o define como a democracia das democracias, que é a absoluta independência do povo em relação ao Estado. A 2a é o “tratamento da recessão” que está longe de ser só um produto da pandemia, é um produto desse “achinesamento” que não acaba com a chegada das vacinas. A 3a é “o clima”, que não é coisa que se possa resolver em casa. A 4a “o racismo”, que permanece no fundo das almas depois de acertadas as leis que é o que de fato pode ser “acertado” por meros atos de vontade nesse lado escuro da condição humana.

A hora é de curar o país. Baixar a temperatura. Deixarmos de demonizarmo-nos; de tratar os adversários políticos como inimigos”. 

São excelentes intenções e declará-las, no ponto a que as coisas chegaram, já não é pouca coisa. Mas a vida real não é preta nem branca, ela transcorre dentro dos milhares de tons de cinza. O problema são os “comos”. Afinal, quem demoniza quem?

Kamala Harris é “a 1a mulher, a 1a negra, a 1a indiana na vice-presidência da maior democracia do mundo”, que só por isso deixou de ser apedrejada como irremediavelmente irrecuperável como continuaria sendo se 3 milhões de votos nos mais de 140 milhões computados tivessem vindo com sinal trocado, e voltou automaticamente a ser “a maior democracia do mundo”…

Tem a sra. Harris alguma qualidade?

Joe Biden não se sentiu compelido a mencionar nenhuma. A unanimidade dos jornalistas e comentaristas das TVs e das universidades não se sentiu compelida a mencionar nenhuma. Todos acharam suficiente descrever “o invólucro”, o que não chega a enquadrar a gafe apenas como uma dessas “microagressões” que os bem pensantes vivem procurando com lente porque não chega a ser “sutil”…

E isso nos dá a pista para o problema real.

Não será policiando a linguagem e manipulando o resultado final aparente de processos complexos que se conseguirá alterar a realidade. E impor esse policiamento e essa maquiagem pela força não fará mais que provocar reação igual e contrária. O ruído que a insistência nessa imposição produz já é, hoje, muito maior que o problema que se pretende resolver com ela. Joe Biden teve 74 milhões de votos. Mas Donald Trump teve 71, quase 10 milhões a mais que em 2016, apesar de tudo nele que não o recomenda como pessoa. O Partido Democrata tornou-se um partido urbano, de elite, empurrado pela mídia e pela industria do entretenimento, mas que vive cada vez mais de fomentar o conflito em torno de temas acessórios. Distante da classe media que foi sua base, está pedindo socorro e engordou as fileiras do Partido Republicano no Congresso nesta eleição, a atitude sempre vociferante das correntes “liberal” (“de esquerda”) mais radicais arrasta também os republicanos para um comportamento cada vez mais reativo. 

E enquanto isso os problemas reais crescem. 

Tenho plena consciência da minha própria “deformação profissional”. Mas estou ha tempo bastante fora das redações e mergulhado na história da democracia, o império da palavra, para saber que o jornalismo, o veículo da palavra, CONCRETAMENTE É a baliza mais sólida da saúde da de nosso tempo, e que há muito mais de resposta à doença da imprensa do que propriamente à doença das sociedades no surgimento dos “trumps” do mundo.

Como qualquer poder da republica o 4º também requer “estadistas”, pairando acima das redações, vividos no balanceamento da vaidade pela responsabilidade e que não tenham medo da solidão para não se deixarem levar pela demagogia e cair nas muitas formas que o populismo barato assume em todas as camadas, mais ou menos “cultas”, das vitimas que faz. Um “poder moderador” cujas funções principais podem ser resumidas em definir que o público de cada jornal definitivamente não é o resto da corporação dos jornalistas e em zelar para que o público real não tenha apenas o que “quer” ouvir, como já tem nas redes sociais, mas principalmente o que “precisa” ouvir.

Uma imprensa que rompa o espírito de “direção editorial coletiva” que assola as redações dos jornais e TVs “de herdeiros” de todo o mundo que, abandonadas ao “Não penso, sou pensada”, torna-se corporativa, primeiro, e “soviética” e “cancelativa” depois que se instala hegemonicamente, num crescendo que já não se detém  de censurar discursos do próprio presidente dos Estados Unidos, falsear assumidamente os fatos e abraçar abertamente a campanha internacional em curso para criminalizar o senso comum e negar “lugar de fala” a quem lhe resistir, o que, na prática, significa sinalizar para o político, que vive de voto, que só esse tipo de discurso o livrará do linchamento moral e lhe renderá acesso aos eleitores. As redes sociais, aquele universo por definição sem regras, o que faz dele o território livre das paixões, só agravam essa distorção…

Manter isso como está só pode levar o mundo à guerra.

Também no jornalismo a volta da institucionalidade – definida aqui como a volta do império do fato e do código de ética do jornalismo democrático no seu tratamento – é absolutamente imprescindível.

4 de novembro de 2020 § Deixe um comentário


A onda é vermelha para os Estados Unidos e negra para a imprensa.

Tem jeito da gente se libertar?

16 de setembro de 2020 § 43 Comentários

A reforma tributária, ha décadas sem fim, anda de costas, sob a inamovível “resistência” de prefeitos e governadores. Trocada em miúdos quer dizer que só os critérios eleitoreiro e “roubalheiro” se impõem. Apesar da certeza universal de que o atual pandemônio tributário é a causa mais imediata da miséria do Brasil ninguém consegue tira-lo daí. Por que? Porque os políticos brasileiros são “traficantes” absolutamente blindados contra o cidadão que vivem em ciclos de quatro anos cuja renovação depende muito mais da oferta de  “drogas” que aliviem o insucesso do que do sucesso a longo prazo do Pais Real no qual ninguém, já, acredita.

O mesmo acontece com a reforma administrativa. Em 1988 a primeira constituição depois do regime militar institucionaliza o privilégio como atributo de uma classe ao instituir o Regime Jurídico Único que torna estável todo e qualquer funcionário publico e sela a sorte do país. Houve umas tantas tentativas de abrir portas de saída como a demissão após sentença transitada em julgado (kkkk!), a demissão por excesso de despesa e/ou escassez de arrecadação passada na Lei de Responsabilidade Fiscal de FHC mas nunca regulamentada, e as demissões por baixo desempenho, sendo esse desempenho avaliado pelos colegas prestadores e não pelos cidadãos consumidores de serviços públicos… 

Mas na direção contrária tem sido uma avalanche. Ana Carla Abrão, ex-Banco Central, registrou em artigo recente que mais de 100 mil leis regulamentando os diversos aspectos das “carreiras do funcionalismo” foram passadas desde 1988, todas com características quase idênticas, instituindo, passo a passo, salários iniciais cada vez mais altos e promoções automáticas cada vez mais aceleradas entremeados de privilégios especiais cumulativos irreversíveis.

Na versão que o presidente sindicalista de milicos e de policias deixou chegar até o Congresso, esquartejada da reforma que o ministro Paulo Guedes pretendia, tudo que há é uma vaga promessa de quebra da estabilidade para algumas categorias num futuro indefinido depois do que promete ser mais um daqueles acachapantes torneios de violência lógica para estabelecer quais carreiras são ou não “típicas de Estado”, fazendo jus à estabilidade. E mesmo nesse tanto pouco já foi embutido um “jabuti”, apontado pelo jurista Carlos Ari Sundfeld, para tornar “absoluta” a estabilidade dos que ficarem.

Tudo isso só tem podido caminhar assim graças à abdução da chamada “grande imprensa”. Sendo, dos “quatro poderes da Republica”, o único que depende estritamente do sucesso do País Real, a imprensa é a única que tem razões objetivas para romper esse cerco. Mas, mergulhada na sua própria crise existencial, faz o contrário.

É um quadro semelhante o que se desenhou na maioria das empresas jornalísticas tradicionais não só do Brasil mas das Américas, todas elas nascidas mais ou menos no mesmo momento, próximo da virada do século 19 para o 20. A combinação das leis da demografia com a das sociedades anônimas, junto com a disrupção do seu antigo modelo de negócio, subverteu seu equilíbrio interno de poder. Os herdeiros no controle das do Rio de Janeiro e de São Paulo que sobreviveram, por exemplo, são alheios ao jornalismo, profissão 100% vocacional. Preocupam-se exclusivamente com números.

O velho metier de “narrar” a história do presente continua, no entanto, sendo a poderosíssima arma que sempre foi na luta pela conquista do poder político. E quem se aproveita do vazio que se abriu no comando editorial dessas empresas são, como sempre, os profissionais … do poder. Se há uma prova da força que o jornalismo mantem é o Brasil. Todos os grupos no poder – os partidos políticos e seus financiadores privados, as igrejas e, principalmente, as corporações do funcionalismo – têm a sua imprensa. 

Quando não são eles mesmos professores ou funcionários públicos, “ativos” ou aposentados, 9 entre 10 jornalistas brasileiros e os “especialistas” que consultam têm “cônjuge, companheiro ou parente em linha reta, colateral ou por afinidade, até o terceiro grau, inclusive … investido em … função gratificada da Administração Pública”. Quando agem e argumentam como quem acredita que o Estado é o provedor ilimitado de tudo não estão, portanto, afirmando uma distante teoria abstrata aprendida na escola. Isso fica para os filhos “rebeldes” da classe média meritocrática em extinção. Estão dando um testemunho autêntico de suas próprias experiências de vida, movidos pelo instinto de sobrevivência. 

Só ha, no Brasil de hoje, consequentemente, jornalismo a favor do Sistema. Por ação ou, na melhor hipótese, por omissão. Não por acaso, portanto, ninguém no mundo é mais “mamado” que o brasileiro sem imprensa. Menos por acaso ainda a nata da privilegiatura, lá do alto do STF, trata, agora com violência inaudita e prioridade máxima, de calar a imprensa alternativa que tenta furar o cerco na internet.

Bolsonaros e lulas, assim como tudo que, pelo meio, já passou por Brasilia, são faces da mesma moeda. A esquerda e a direita da privilegiatura. Nenhuma reforma intermediária será capaz de nos arrancar das garras deles. Somente uma reforma política que arme a mão do povo para a tomada do poder – também dita “democracia” – qual seja, a que lhe permitirá demitir políticos e funcionários públicos a gosto, mediante o voto distrital puro, e os direitos de recall e de propor e recusar leis (iniciativa e referendo), criará a condição necessária para o país desenhar uma ordem tributária, uma ordem administrativa; uma ordem social e econômica, enfim, feita para servir o povo e não os donos do povo.

Mas essa reforma política só despontará no horizonte quando o Brasil dos explorados fizer como o dos exploradores: constituir os seus próprios “think thanks” para pesquisá-la onde já está implantada e reformulá-la em versão nacional, e a sua própria imprensa para divulgá-la e lutar por ela. A História não registra outro caminho que tenha levado até “lá”.

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