Putin e a volta de um mundo bi-polar
30 de abril de 2014 § 4 Comentários
As peripécias de Vladimir Putin e seus “black blocs” com tanques e kalashnikovs em atuação cada vez mais desaforada na Ucrânia vêm confirmar uma impressão que ha um bom tempo vem tomando forma na minha cabeça: ha uma grande chance de se repetir como farsa, em pleno Terceiro Milênio, a divisão bi-polar do mundo que caracterizou o século 20.
A farsa, alias, estava mais na versão original – pelo menos desde as revelações de Nikita Krushev no famoso 20º Congresso do Partido Comunista da extinta União Soviética, de 1956, em que foi confirmada oficialmente a natureza fundamentalmente sanguinária do socialismo real – do que nesta que se esboça agora onde os putins e seus cooptados pelo mundo afora assumem-se francamente como o que são sem meias palavras, laivos de romantismo ou acenos a utopias.
Já expus em mais de um artigo aqui no Vespeiro os argumentos que comprovam que a presença e a força do crime organizado é uma medida segura da autenticidade de todos os regimes que se afirmam democráticos posto que ele só se estabelece com a conivência do Estado.
Ou seja, o crime organizado é função direta da corrupção que, por sua vez, só frutifica e se institucionaliza a ponto de permitir que uma organização declaradamente dedicada a explorar e submeter uma sociedade pela violência se estabeleça e transforme num poder paralelo onde quer que os politicos possam viver fora do alcance da lei e, graças a isso, explorar em vez de servir os seus representados.
Onde o Estado, que tem o monopólio da força armada, está decidido a acabar com o crime ele não consegue resistir-lhe nem por cinco minutos, fato de que o mundo está cheio de exemplos, sendo lamentavelmente mais numerosos os negativos que os positivos.
Ocorre que não existem duas formas de organização tão idênticas entre si quanto a estrutura de uma quadrilha do crime organizado e a de um Estado totalitário baseado no chamado “centralismo democrático” que era o eufemismo que se usava para descrever as ditaduras comunistas do século passado onde todo poder emana do chefe e nada nem ninguém pode se lhe opor sob pena de eliminação física sumária.
O que o citado 20º Congresso do PC da URSS revelou ao mundo é que não demorou nem um minuto para que as “ditaduras do proletariado” instaladas em nome da utopia igualitária que apaixonou gerações dos cortes mais generosos e altruístas da humanidade se transformasse – intoxicada pelo exercício do poder sem limitação nenhuma – na máquina criminosa de moer carne e consciências humanas chefiadas por Lênin, por Stalin e por seus sucessores pelo mundo afora de cima de uma montanha de cadáveres que nunca cessou de se agigantar enquanto durou o regime que só se extinguiria em 1989. Foram, literalmente, centenas de milhões de assassinados as vítimas desses 72 anos verdadeiramente “de chumbo“.
O instrumento por excelência da carnificina que varreu todas as “repúblicas socialistas soviéticas”, da russa onde tudo começou às dezenas de outros países que ela anexou pela força militar, era a KGB, a polícia política do regime, encarregada de fiscalizar não só as ações como também o pensamento de todos os seus súditos e eliminar fisicamente – até preventivamente, isto é, antes de qualquer ato que o confirmasse – todos os suspeitos de “dissidência”, outro eufemismo que descrevia qualquer manifestação, por mais tênue que fosse, de desacordo com o regime, tais como uma troca de correspondência ou, menos que isso, uma conversa pessoal entre quatro paredes entreouvida e denunciada.
Vladimir Putin foi o ultimo chefe da KGB soviética e, graças a isso, conseguiu tomar o poder depois do interregno de indefinição que se seguiu à “abertura” e dele ou das vizinhanças dele não tem arredado o pé desde 1999. Ele pensa, age e estrutura o seu esquema de poder do mesmo modo como o crime organizado se organiza, pensa e age. Ha uma afinidade eletiva entre eles e por isso é tão difícil discernir onde acaba o Estado russo e começa a estrutura criminosa que gira em torno dele.
Tendo o regime soviético, que se instalou no bojo de uma revolução violenta contra os monarcas absolutos que tinham reinado incontestes até 1917, durado 72 anos, pode-se concluir que nunca houve um russo que tivesse vivido sob qualquer coisa que se aproximasse de um Estado de Direito democrático, nem mesmo com uma imitação precária dele como as que nós chegamos a conhecer.
Como a organização do Estado Soviético era a única existente no país no dia seguinte à Queda do Muro, ela simplesmente continuou no poder, agora dispensada de render preitos à utopia morta, trocou as fardas pelos ternos de griffe e os meios de submissão dos súditos do constrangimento físico para o constrangimento econômico, exatamente como propos o nosso Lula que passassem a fazer os últimos ditadores e guerrilhas comunistas armados da América Latina pouco menos de uma década mais tarde na já célebre reunião do Foro de São Paulo, organização que se propõe ser uma nova versão regionalizada da antiga Internacional Comunista (Comintern) que coordenava as ações das forças socialistas em todo o mundo no milênio passado.
A “nomenklatura” do partido, nome que se dava aos funcionários graduados da ditadura soviética que viviam acima da lei e desfrutavam de confortos e privilégios econômicos mal disfarçados, foi substituída pelos famigerados “empresários” russos de hoje cevados na corrupção e sócios do Estado, que segue sendo tratado como uma propriedade pessoal do presidente que tem sobre ele plenos poderes. Até para, como dantes, prender e mesmo assassinar os biolionários que ele próprio cria e que, por qualquer razão, vierem a incomodá-lo.
Agora, depois de uma pausa para reagrupamento da sua antes especialmente agressiva vertente internacional de projeção de poder, a Russia sob Putin, reconciliada com seu passado, já se sente forte e confortável o suficiente para voltar a alimentar as ambições imperialistas de sempre, graças às tradicionais limitações dos Estados democráticos de oferecer-lhe resistência dentro das leis nacionais e internacionais pelas quais se obrigam a se pautar.
O que se esboça no horizonte, portanto, é um mundo dividido entre as poucas sociedades “de contrato”, regidas por leis e instituições livremente pactuadas entre os cidadãos e o Estado, com divisão de poderes, direitos das minorias respeitados e alternância no comando da máquina do Estado, e os países entregues a um chefe inconteste com poderes absolutos, agora assumidos como tal, usando a economia, acompanhada de violência quando necessário, como arma de opressão e perenização no poder internamente e de conquista pura e simples no campo das relações internacionais.
É isto que se configura no atual confronto entre o Capitalismo de Estado que não respeita regra nenhuma e põe a aniquilação do “concorrente” — que nessas sociedades, ou de economias estatizadas, ou de jogos de cartas marcadas entre Estado e “proprietários privados” de fachada são só os internacionais — à frente do compromisso com a função social da empresa, os direitos dos trabalhadores e dos acionistas, a sustentablidade econômica e financeira e a obrigação de respeitar regras do jogo livremente pactuadas entre todos esses agentes do processo econômico que define o Capitalismo Democrático, e só é alterável por consensos difíceis de se alcançar. São esses compromissos que constituem as tais “conquistas da burguesia“, a classe que emerge pelo mérito e por isso é temida e odiada pelos candidatos a tirano e, principalmente, pelas clientelas que eles constituem para sustentar seus esquemas de poder baseados em lealdades apoiadas na distribuição de cargos e privilégios.
Como antes, haverá sempre nos alvos que Putin visar fora da Russia, os fidel castros da vida, modernos “Faustos” dispostos a servir os regentes desse novo polo global de poder econômico e militar em troca de se livrar, “em casa“, de incomodações como eleições, partidos de oposição, investigações por corrupção ou a perpsectiva de ter de apear do poder ao fim de um reles mandato.
Tendem a se alinhar nesse grupo todas as sociedades que saltaram do absolutismo monárquico para o século 20 adotando contrafações mais ou menos assemelhadas a democracias, incorporando este ou aquele atributo delas, mas sem nunca terem vivido de fato sob o pleno império da lei dos verdadeiros Estados de Direito.
É este o pano de fundo contra o qual o Brasil, que vem tateando entre esses dois pólos pendendo ora para um ora para o outro, parte para a eleição deste ano que vai definir – provavelmente para os próximos muitos anos – de que lado dessa linha vamos trilhar a próxima etapa do nosso caminho.
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O feminismo fez o mundo melhor?
16 de outubro de 2012 § 2 Comentários
Para acionar as legendas em português: 1) Inicie o filme; 2) No conjunto de ícones que aparecerá do lado direito, por baixo do vídeo, acione o segundo (a caixinha com duas “lihas” desenhadas dentro); 3) Clique em “Inglês transcrito”; 4) Acione “Configurações” para escolher a cor das letras; 5) Dê “OK”; 6) Com as legendas já aparecendo em inglês acione novamente a caixinha com duas linhas; 7) Clique em “Traduzir legendas”; 8) “Role” o índice até “Português”: 9) Dê “OK”. Não tente fazer tudo de uma vez só; o sistema só funcionará com esta sequência de passos.
Video sugerido por Patrice de Camaret
Elizabeth Warren é uma advogada especializada em falências da Harvard Law School que foi responsável em grande parte pela criação do Bureau de Proteção às Finanças dos Consumidores dos Estados Unidos. Tem um extenso trabalho nessa área que a projetou como uma das mais respeitadas autoridades no estudo da evolução da capacidade de consumo das famílias americanas. Em 2012 foi candidata ao governo de Massachusetts pelo Partido Democrata e, antes disso, trabalhou ativamente no planejamento das reações do governo Obama e do Congresso dos Estados Unidos à crise iniciada em 2008.
Nesta apresentação, em que olha o processo de encolhimento da classe média a partir de uma perspectiva mais longa, ela mostra, com medições precisas, como o movimento feminista, ao tirar a mulher do lar onde, com a criação dos filhos, os seres humanos desenvolviam a arte de conhecer-se em profundidade, e jogá-la na luta pelo dinheiro e pelo poder, o território por excelência da falsidade, do fingimento e da enganação, iniciou um processo sem final à vista que põe em cheque os fundamentos culturais e econômicos da democracia americana.
Entre os pontos que ela destaca estão:
- a renda dos casais, somada, aumentou mas a de cada trabalhador individualmente, caiu, principalmente a dos homens, dividida que foi pelo efeito do enorme crescimento da oferta de mão de obra (feminina) no mercado;
- o endividamento das famílias aumentou e o nível médio tradicional de poupança familiar hoje está reduzida a praticamente zero, o que indica que, feitas as contas, a absorção das mães pelo mercado de trabalho não acrescentou nada à economia da casa e da família, só tirou;
- vestir, comer, ter carro, tudo isso ficou mais barato que nos anos 70; mas os juros sobre a moradia subiram 64%, o seguro saúde 74% (com redução das vantagens); os cuidados com as crianças mais de 100%; os impostos 25%;
- hoje ¾ do dinheiro da classe média é gasto nessas despesas;
- no meio desse processo entraram em cena, com o “outsourcing”, os bilhões de trabalhadores miseráveis das “chinas” da vida disputando mais uma fatia do que antes era dividido apenas entre a massa trabalhadora masculina;
- tudo isso resultou, entre outras coisas, numa enorme pressão econômica contra ter filhos; a inflação para famílias com filhos subiu mais de 100% enquanto para famílias sem filhos ou gay subiu apenas 50%;
- ha muito menos disposição de contribuir para causas comunitárias (num país onde tudo de mais importante – educação, pesquisa, ciência, medicina, arte – é feito com esse tipo de dinheiro);
- os Estados Unidos estão saindo de um modelo de sociedade de três classes, com as duas dos extremos muito pequenas e a do meio enorme, para uma sociedade de duas classes, uma delas mais endividada e mais pobre a cada dia e distanciando-se cada vez mais da outra.
Haverá, naturalmente, quem se recuse a raciocinar desapaixonadamente a respeito e repita chavões e grunhidos “anti-chauvinistas” logo aos primeiros argumentos que Elizabeth Warren alinha. Mas quem acredita que tudo que fazemos neste “vale de lágrimas” deve ter como objetivo a busca da felicidade terá muito em que pensar a partir dos fatos que ela expõe.
As ditaduras “laranjizadas” e a matemática da democracia
11 de maio de 2012 § Deixe um comentário
Artigo de Thomas Friedman para o New York Times traduzido pelo Diário do Comércio na terça-feira passada sugeriu-me pensamentos interessantes.
Dizia ele:
“Viajando pelo mundo árabe pós ‘Primavera’ tenho ficado impressionado como poucos líderes surgiram daquela erupção vulcânica política (…)
(…) meu próprio país – para não mencionar a Europa – tem um problema parecido. Há um vácuo de liderança global.
(…)
Cada um desses países que estão despertando precisa fazer a transição de Sadam para Jefferson, sem ficar preso em Khomeini.
(…)
Uma ditadura não é coisa que se deseje mas pelo menos as ditaduras do Leste da Ásia, como as da Coréia do Sul e de Taiwan, usaram a sua autoridade de cima para baixo para erguer economias dinâmicas direcionadas à exportação e para educar todo o seu povo – homens e mulheres.
No processo, eles criaram uma gigantesca classe média cujos novos líderes fizeram o parto da transição do regime autoritário para a democracia.
As ditaduras árabes não fizeram isso. Elas usaram sua autoridade para enriquecer uma pequena classe e para distrair as massas com ‘objetos brilhantes’ – chamados Israel, Irã e nasserismo para citar apenas alguns“.
Bateu na veia!
As ditaduras latino-americanas fizeram a mesmíssima coisa. E as brasileiras não foram muito diferentes, variando os “objetos brilhantes” de uso local para o “império”, os “ianques” e a “zelite”, papo furado que sempre cola em quem está com a barriga vazia independentemente do fato de que cada ditadura foi quem fabricou a “zelite” seguinte pelos métodos que, pela enésima vez, a CPMI do Cachoeira investiga neste momento.
Por aqui ainda se acredita que democracia é poder votar nos titulares do Poder Executivo, ainda que seja só nos caras que aceitam as condições que os ditadores ditam para admiti-los nos seus partidos/máfias, único canal por meio do qual um cidadão está autorizado a pedir votos ao povo.
Mas a “votação” que realmente interessa é a que é negociada a portas fechadas e da qual participa sempre o mesmo grupinho que escolhe quem pode e quem não pode oferecer-se ao voto do povo que, assim, fica limitado a escolher entre os previamente escolhidos.
Os “laranjas” se sucedem mas os verdadeiros ditadores, que são os donos dos partidos, não mudam nunca.
Nós temos vivido, portanto, sob ditaduras “laranjizadas”.
E com quase 60 anos de “janela”, posso testemunhar que a principal diferença entre elas é que na dos milicos só se admitia dois partidos/máfias e se tornava inelegível quem era pego roubando e quem desafiava o regime e, nas seguintes, o numero de partidos/máfias a agitar “objetos brilhantes” para disputar o seu voto é livre, permanecendo inelegíveis apenas os cidadãos que se recusam a aderir às máfias e insistem em permanecer honestos.
Mesmo assim, em todas essas ditaduras, especialmente na dos milicos e nesta última agora, sempre que o mundo empurrou a favor a classe média se expandiu.
Ficou faltando a revolução na educação mesmo não havendo por aqui os obstáculos religiosos que os árabes enfrentam para sonhar com a possibilidade de uma educação moderna. Aqui recusa-se educação ao povo por soberana deliberação laica mesmo.
Mas, que não haja engano!
A educação não ensina democracia. Isso não se aprende na escola. Educação ensina coisa muito mais sólida: ensina a ganhar a vida sem precisar de esmola.
O resto é consequência.
O império da lei, que é ao que se resume em última instância a democracia, só interessa a quem tem algo a perder. Falo do aspecto material mesmo.
A democracia moderna materializou-se nos Estados Unidos porque aquele foi o único país do mundo onde, desde a fundação, todo mundo era proprietário. Enquanto o Brasil era fatiado em 13 capitanias hereditárias distribuídas entre os amigos do rei, cada indivíduo que emigrava para lá, desde os 1600 e nada, recebia, pelo sistema de headcount de incentivo à imigração, 50 acres de terra.
Hoje, 28 “barões do BNDES”, pesando 2,8 trilhões de reais ou 2/3 do PIB, sentam-se ao redor da sucessora hereditária do nosso “rei” naquele “Conselho Nacional de Gestão”. Velhos hábitos são duros de matar…
Acontece que a lei surge, natural e historicamente, pela necessidade de se proteger a propriedade. Para tirar as sociedades humanas daquela vida infernal que o brasileiro conhece bem onde ninguém pode dormir em paz porque vale tudo para tomar do outro o que ele conseguiu para si fazendo força, da comida caçada em diante.
Logo, em sociedades miseráveis, onde os poucos que têm algo de seu em geral não o conquistaram por esforço próprio e a multidão não tem nada, não ha santo que faça colar a idéia de se viver sob o império da lei. Violar as leis é que passa a ser o “ato cidadão”, simplesmente porque não é justo proteger esse tipo de propriedade.
Mas se, como nas ditaduras asiáticas mencionadas, conseguir-se que todos passem a ter alguma coisa e, por cima disso, aparelha-los com a educação com que conseguir ir tendo cada vez mais pelo seu próprio esforço, aí sim, cria-se aquela “gigantesca classe média” de que fala Friedman, com verdadeiras características e interesses de classe.
Quando se atinge o ponto de haver mais gente que tem alguma coisa conquistada por seus próprios meios e aparelhada para conquistar mais sem precisar de esmolas, do que gente que não tem nada, o resto acontece sozinho.





















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