Encara a tua doença, Brasil!

13 de junho de 2013 § 5 Comentários

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Ao fim de seis anos de furiosa torcida pelo declínio e morte da “democracia burguesa” e de incontáveis milhares de quilômetros de palavras justapostas para vaticinar a “irreversível decadência americana”, é para lá que corre o dinheiro do mundo em busca de um abrigo seguro enquanto se vão acumulando, um por um, os fatos que indicam que, mais uma vez, serão eles que sairão da crise reformados e mais fortes enquanto o resto do mundo – a velha Europa Latina e seus rebentos d’além mar em especial – seguem atolados no brejo de sempre.

Choverá todo tipo de amarga “denúncia” para tirar-lhe o mérito do feito acompanhadas das acusações do costume sobre como o “Império” impõe aos outros os ônus da abundância de que desfruta, mas o fato que a História sempre reafirma e que a plêiade dos países grandes ou pequenos, ricos ou miseráveis de recursos naturais que adotaram o modelo americano de democracia confirma, é que o que determina o sucesso ou o fracasso das sociedades no campo econômico (e não só nele) é a qualidade do sistema político que elas constroem.

A democracia americana não admite poder ou dinheiro que não seja fruto do mérito, e foi concebida para aperfeiçoar-se constantemente. Se não é isso, 100%, o que obtém, é o que continua perseguindo com afinco. E isso faz toda a diferença.

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Com um mínimo de regras básicas “imexíveis” e a da igualdade perante a lei como a mais sagrada entre todas, o sistema é absolutamente flexível, podendo reformular-se à vontade para adaptar-se a toda e qualquer circunstância.

O jogo lá é fluido e as vitórias e derrotas se alternam segundo a capacidade de cada um sem que seja necessário alterar as regras fundamentais.

Já entre os que vivemos desde os tempos das caravelas em “economias de conquista”, colhendo sem ter plantado, de preferência à “economia de produção” onde a riqueza tem de ser criada pelo esforço, cada vitoriazinha transforma-se num novo “direito adquirido” inscrito na lei ou até na Constituição que “O Sistema” passará a garantir em seus tribunais onde nenhuma regra é clara e nenhum processo tem prazo para terminar.

Pulverizadas nesses arquipélagos de interesses mesquinhos, com cada grupelho agarrado ao seu pequeno privilégio e dependente de um poder concedente que, para continuar a garanti-lo, precisa voltar a eleger-se, essas sociedades não conseguem mais identificar qualquer coisa que se possa definir como de interesse coletivo.

Constituídas de ilhotas sem comunicação umas com as outras, sua representação política é igualmente pulverizada entre traficantes de privilégios cujo negócio é criar e depois zelar por interesses particulares em troca de votos.

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Nossos 30 ou 40 partidos políticos (lá sabe alguém quantos eles são hoje em dia?), cada um, por sua vez, dividido em “tendências” correspondentes ao número dos indivíduos que o integram, representam fielmente o que eles próprios fizeram de nós aqui fora.

Eles nos representam ou nós é que os representamos? É uma estranha inversão…

Perdido nesse cipoal com incontáveis pontos de enraizamento que a tudo amarram e onde nenhum membro do corpo social pode movimentar-se livremente, todo súdito de tais arapucas consciente da sua finitude logo perde qualquer esperança de mudar as coisas antes que a morte o colha, por mais longevo que seja, restando-lhe, assim, a única alternativa existente: a de conformar-se com ser explorado ou a de transformar-se ele próprio em explorador.

No Brasil do passado o sonho do escravo era sair do eito para a Casa Grande ou transformar-se, ele próprio, no feitor. No Brasil de hoje, o sonho do contribuinte explorado é entrar para o serviço público; o do achacado, tornar-se achacador; o do opositor chutado de casuísmo em casuísmo, passar à “Situação” que distribui as botinadas a torto e a direito e está dispensada de seguir as leis que edita com o único propósito de perenizar-se no poder.

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O sistema ajusta-se à nomenclatura e aos limites internacionalmente aceitos de seu tempo, enfim, mas não muda essencialmente nem um milímetro.

Nem o refinamento formal é capaz de dobrá-lo. O esforço de cercear suas manifestações sem alterar a essência da sua natureza acaba sempre na recriação da relação explorados/exploradores, ainda que sob formatos menos evidentes. Como o da Europa Latina de hoje onde, vedadas as formas mais explícitas de tempos idos, ela ressurge nesta última versão que aí está em que uma geração de hedonistas preguiçosos explora a geração seguinte porque esta não tem representação política suficiente para defender-se.

E lá está aquele triste espetáculo de pais aferrados aos seus pequenos confortos e privilégios sacando contra o futuro de seus filhos, não por acaso desempregados e jogados ao deus dará.

Não ha alternativa nem meio termo, brasileiros! Ou é a servidão, ou é o mérito.

E nada de desanimar porque a primeira condição para a cura é reconhecer-se doente e entender a natureza do mal que o aflige.

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§ 5 Respostas para Encara a tua doença, Brasil!

  • Luiz Barros disse:

    Ao diagnóstico, segue-se a terapêutica. Qual a proposta terapêutica?

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  • flm disse:

    o primeiro passo é sintonizar os discursos.
    parar de gastar bala no que não merece.
    isso só pode começar pela imprensa.
    O Brasil só discute os efeitos das suas mazelas básicas. nunca desce às causas.
    acredita que vive numa democracia mas está longe dela. não existem aqui os primeiros elementos básicos de uma democracia. o resto é consequência:
    **um homem, um voto
    **igualdade perante a lei
    **acesso/identificação e ferramentas de controle do representante pelo representado…
    se a gente arrumasse esses três, pra começar, 80% do que está torto desentortava sozinho, da pobreza ao crime, da corrupção à inexistência de justiça.
    o mais são refinamentos.
    só quem conseguiu isso pra valer foram os estados unidos e mais uns poucos pelo mundo afora.
    como já mostrei em inúmeras matérias aqui no Vespeiro que você poderá encontrar colocando “Progressive Era” no mecanismo de busca, eles se pareciam muito com tudo o que há de pior no Brasil de hoje na virada do século 19 para o 20.
    corrupção desenfreada, caciques irremovíveis injetando chorume nas veias da nação, aparelhamento do funcionalismo público e por aí afora.
    as reformas começaram com a legislação antitruste, uma batalha que teve início lá nos 1870’s, seguiu com a reforma do serviço publico reduzindo nomeações ao mínimo e passando a eleger a maioria dos funcionários públicos e seguiu com a importação da Suíça das ferramentas de democracia direta: lei de iniciativa popular, referendo e recall (impeachment de funcionariozinho público eleito pra cima).
    são instrumentos potencialmente perigosos em se tratando do início da implantação em países com o grau de ignorância que ha aqui, mas que valem o risco.
    levou pouco mais de 40 anos mas eles conseguiram reduzir mais de 80% da roubalheira o que resultou no surgimento da sociedade mais rica e mais livre que a humanidade já viu.
    as duas guerras interromperam um pouco o processo que foi retomado no início dos anos 70 com a famosa Proposition nº 13, na Califórnia (outra expressão a jogar na busca do Vespeiro e no Google), que enquadrou totalmente os criadores de impostos.
    e aí não parou mais até o advento da internet e do capitalismo de estado chinês.
    desde então, realmente “nenhum homem é mais uma ilha” e está havendo uma diluição do refinado molho americano no ralíssimo caldo da cultura política global que está pondo todo esse processo em cheque.
    eles continuam sendo o único povo que tem controle absoluto sobre seus governantes, mas já não sabem mais exatamente o que querem deles.
    como essa história vai acabar nós vamos assistir de camarote…

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    • fernaslm disse:

      inacreditável!
      esses caras perderam a cabeça.
      e se continuarem assim, vão perde-la literalmente.
      a tomada do congresso ontem teve um gostinho de queda da Bastilha.
      se insistirem vão conseguir a guilhotina também…

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  • Varlice disse:

    Não se perde o que nunca se teve.

    Para aliviar a tensão. Recebi da minha amiga Tania.
    “Hopefully the spirit of Goodness will survive!”

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