Quem é quem no drama brasileiro?

14 de junho de 2016 § 23 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 14/6/2016

Como uma trovoada distante o aumento de R$ 59 bi do funcionalismo relampejou no céu do “jornalismo de acesso” e logo se apagou quase sem ruído. Não se sobrepôs sequer à “propina” do dia esse prêmio aos culpados que aumentou em 1/3 a pena de quase 200 milhões de inocentes. Lindbergh Farias, Fernando Collor, Vanessa Graziotin, Eduardo Cunha e sua gangue, Jandira Feghali, Sérgio Machado, todos suspenderam por um minuto as hostilidades para apertar juntos o “sim“. E o “dream team” engoliu com casca e tudo essa terça parte do maior déficit de todos os tempos na largada da missão impossível para deter a mais desenfreada corrida de volta à miséria da história deste país. Tudo tão discreto que a manobra mal foi percebida na fila de seis meses de espera pelo exame de câncer do SUS, que é onde se “zera” esse tipo de fatura.

Quantos serão, dentre os 11,1 milhões de funcionários que comem 45% do PIB, aqueles que Ricardo Paes de Barros afirma que pesam o bastante para distorcer a média nacional de desigualdade de renda? Quanto custam os “auxílios” todos que o Imposto de Renda lhes perdoa? E os “comissionados” que mais que dobraram o gasto público sem que mudasse um milímetro a quase miséria dos médicos e professores concursados? Como vivem os aposentados e pensionistas sem cabelos brancos que, 900 mil apenas, pesam mais que os outros 32 milhões que pagaram Previdência a vida inteira somados?

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Quanto, afinal de contas, o Brasil com “lobby” suga do Brasil sem “lobby”? A esta altura do desastre todo debate que se desvia dessa pergunta é enganação; toda pauta que não se oriente por essa baliza da desigualdade perante a lei é uma traição aos miseráveis do Brasil.

O mais é circo. Eduardo Cunha e o PT nos provam, acinte por acinte, o quão livre e indefinidamente se pode escarnecer da lei neste país desde que se esteja posicionado na altura certa da hierarquia corporativista. Variam as razões alegadas para se locupletar mas ninguém nega que é disso mesmo que se trata. São meses, são anos – são séculos, considerado o Sistema desde o nascimento – desse joguinho de sinuca silogística invocando pedaços de fatos para negar os fatos, meias verdades para servir à mentira, cacos de leis para legalizar o crime e o país inteiro esperando pra ver o que vai sobrar.

O jogo é esse porque nós o aceitamos. Não faz muito o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação fez a compilação: até 2014, já tinham sido editadas 4.960.610 leis e variações de leis para enquadrar nossa vida do berço ao túmulo desde que a Constituição foi promulgada em 1988. 522 a cada 24 horas destes 27 anos. 320.343 eram normas tributárias, 46 novas a cada dia útil!

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É esse o truque: quem pode estar em dia com tudo isso no país onde a única função discernível do aparato legal é tornar impossível cumpri-lo?

Não fazer sentido é o elemento essencial do Sistema. Daí a palavrosidade ôca valer mais que os fatos nos nossos plenários e nos nossos tribunais. Se houvesse um meio racional de escapar, uma forma segura de se prevenir, uma regra que pudesse ser cumprida perdia-se o caráter de onipotência da autoridade constituída. Tem de ser irracional. Tem de ser impossível escapar deste “vale de lágrimas” a não ser pela unção dos “excelentes” com ou sem batina, ou toda essa indústria se esboroa. É ao que sempre estivemos acostumados…

Esboça-se uma resistência mas ela é isolada. Só vai até onde pode ir o pedacinho são da 1º Instância do Judiciário. E quem mais a saúda é quem mais a apunhala. Até agora, nem de leve foi arranhada a isenção a essa condição de permanente exposição à chantagem em que vivemos para os que a desfrutam por pertencer a corporações privilegiadas. A “lista de Teori” continua trancada e secreta. Foram afastados, sujeitos a confirmação, os que destruiram a obra de toda uma geração, mas não por isso; porque ficou claro que sua permanência implicaria a morte da galinha-dos-ovos-de-ouro. Mesmo assim, vultos sinistros nadam por baixo da decisão final do Senado. Só quem desafia a hierarquia do Sistema está sob ameaça real de remoção. Até Teori é objeto de chantagem. Mas o Sistema mesmo nunca esteve em causa.

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Os “grandes empresários“? Estes jamais estiveram realmente isentos. “Culpados” por definição como somos todos e eles mais que os que jogaram menos, são os “hereges” da vez. Festeje-se com realismo, portanto. Nesse nosso modelo lusitano o Tesouro Real sempre saiu dos seus apertos com grandes Autos-de-Fé em que re-devora as “nobrezas” que fabrica.

Eles”, os “nós” dos comícios do Lula, estes sim, continuam sem crise como sempre. São regidos por leis e julgados por tribunais que só valem para eles. Têm regimes de trabalho, remuneração e aposentadorias só seus. Entram no seu bolso a qualquer hora e sem pedir licença.

Dessa casta fazem parte réus e juízes da presente refrega. Desde que a corte de d. João VI desembarcou no Rio de Janeiro chutando os brasileiros para fora de suas casas seguem, todos, deitados no berço esplêndido da indemissibilidade para todo o sempre que se auto-outorgaram, tão “blindados” que já nem uns conseguem expulsar os outros quando a disputa pelos nossos ossos os leva a considerar exceções à sua regra de ouro. Reagem com fúria se alguém tenta devassar-lhes os segredos, vide Gazeta do Povo x Judiciário; Estadão x Sarney.

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O “ajuste” começa pelo ajuste do foco. Por mais heróico que seja o esforço não se porá o país na reta correndo atras de tudo que essa máquina de entortar fabrica em série. Deixada como está, fará do herói de hoje o bandido de amanhã, sejam quantas forem as voltas no mesmo círculo. É preciso rever a conta que está aí pela ótica da igualdade perante a lei e, a partir daí, inverter, de negativo para positivo, o vetor primário das forças que atuam sobre o Sistema. O voto distrital com “recall” acaba com essa indemissibilidade e, com isso, põe o poder nas mãos do povo. Daí por diante tudo passa a ser feito pelo povo para o povo.

Aí sim, funciona.

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As ruas do PT

25 de fevereiro de 2015 § 20 Comentários

ciclo1Estou chegando da rua.

Tres ou quatro quilômetros em tres ou quatro horas. A aventura imprevisível de sempre.

As ruas do PT são a cara do PT.

Com o que já foi de todos retalhado, fatiado, loteado e “redistribuido” pelos critérios da segregação e do preconceito de classe a cidade que resulta do que São Paulo já foi é a cada dia menor para cada um dos seus cidadãos. Embora cada clientela com peso em qualquer tipo de cálculo eleitoreiro tenha um pedaço do antigo “espaço público” para chamar de seu, cada contribuinte e cada cidadão paulistano tem hoje apenas pedaços das ruas que já foram suas inteiras. Não é mais ele quem escolhe como e por onde quer andar por elas, respeitados os limites universalmente consagrados para preservar por igual os diretos individuais de todos, como acontecia quando vivíamos no limiar de um Estado de Direito.

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Não vivemos mais. Agora cada brasileiro tem um direito só seu segundo a sua “raça” ou sub-raça, o seu gênero ou sub-gênero, a sua “classe” ou sub-classe social, e até o partido ao qual declare simpatia. E não é só modo de dizer. Vale casa paga pelo governo, terreno tomado do alheio, direito de barrar rua de hospital e, é claro, a prerrogativa de delinquir impunemente chancelada pelo novíssimo Supremo Tribunal Federal esse tipo de critério.

Governar, que ha quase meio século já foi sinônimo de “construir estradas”, hoje é tarefa reduzida a “pintar ruas” nas metrópoles tomadas pela doença petista. Fora com os urbanistas, fora com os engenheiros, fora com os “tatuzões” de furar tuneis de metro. Para os almoxarifados das “obras” da prefeitura de Fernando Haddad bastam pincéis e latas de tinta.

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Cada via pública foi fatiada em “faixas” coloridas para ônibus, para ciclistas, para motociclistas, para pedestres, para automóveis, para automóveis de praça. Para o diabo!

O fato da cidade estruturalmente não comportar nada disso não importa a mínima. O PT nunca se dobra aos fatos como nos prova diariamente dona Dilma e a sua Petrobras. Nem que o Brasil inteiro afunde. Que dirá São Paulo!

Assim essas “faixas” todas correm, ora pela direita, ora pela esquerda, ora por cima, ora à margem do passeio público, ignorando obstáculos, subindo até pelas paredes, “ilhando” quilômetros seguidos de comércios e de empregos, anulando gerações inteiras de suor e trabalho e transformando a cidade num labirinto por onde todos se esgueiram apertados de faixa reservada em faixa reservada, de multa em multa, de radar em radar, de limite em limite de velocidade como num joguinho infernal.

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Como desistiram de enfiar os trens por baixo da terra correndo por trilhos desimpedidos como é da natureza desses veículos, o jeito foi trazê-los para a superfície e atirá-los por cima dessa fábrica de loucos, com o requinte de autorizá-los a andar no dobro da velocidade dos demais “porque é preciso favorecer os pobres”. E aí estão eles com seus três, até quatro vagões, os rabos trancando os cruzamentos quando o sinal fecha lá na frente, raspando o seu carrinho como bólidos num desembesto de motoqueiros-gigantes fazendo o seu coração dar saltos e, diariamente, esmagando carros e pessoas em horrendas colisões de elfantes contra formigas.

Mas o mais doloroso, o que mais confrange quem usa as janelas que ha hoje para esse mundo que voa lá fora, é ver a crescente multidão dos imbecis lobotomizados que nossas universidades públicas aparelhadas despejam diariamente nas ruas olharem encantados para esse fatiamento da cidadania, para esse dividir para reinar, essa fórmula primária de socialização da corrupção, essa reedição piorada do velho corporativismo cotrareformista lusitano inventado para barrar a entrada da democracia na nossa eterna idade média, e chamar a tudo isso sincera e orgulhosamente  de “modernidade”.

Aí dá vontade de chorar! De pena do Brasil dos meus filhos!

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A antiutopia pelêga

23 de junho de 2014 § 12 Comentários

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Artigo publicado em O Estado de S. Paulo de 23/6/2014

Volta à cena o discurso do ódio. Já não é plantação, é colheita. Nenhum ódio tem sido desprezado pelo partido do “nós” contra “eles”, este que patrocina o exército de apedrejadores profissionais que patrulha a internet. Está morto o Brasil em que Gilberto Freyre viveu e há muitos outros ódios no forno. Mas o ódio por tras de todos os outros; o ódio cujo nome o PT que sobrou não ousa mencionar é o ódio ao merecimento.

Ha uma boa razão para isso.

O PT não é causa, o PT é consequência. Essa corrupção toda não está no ponto de chegada, está no ponto de partida.

O que é essa “expertise” em se apropriar das bandeiras alheias e perverte-las para sustentar a Contra Revolução em nome da Revolução senão o velho expediente “corporativista” que Portugal inventou lá atrás para “fazer a revolução antes que o povo a fizesse” e, assim, abortar a da igualdade perante a lei, da meritocracia e dos representantes submetidos aos representados que vinha derrubando monarquia atrás de monarquia pela Europa afora?

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O PT que sobrou é o resultado dessa receita na versão retemperada por Getúlio Vargas apud Benito Mussolini e Juan Domingo Perón. O produto do sindicalismo pelêgo que saltou do papel de “coadjuvante assalariado” para o de dono do cofre e do Poder, ele próprio.

Essa evolução de “subornado” para “subornante” a que nós todos assistimos não foi apenas natural, portanto, era inevitável.

A receita não poderia resultar em coisa muito diferente.

Junte meia dúzia de “companheiros” dispostos a tudo e funde um sindicato sem trabalhadores associados que o governo vai lhe dar uma teta eterna no grande úbere do imposto sindical. Trate, daí por diante, apenas de não perde-la nas “eleições” por aclamação desse seu sindicatozinho do nada. É a primeira etapa do curso. Use dinheiro, use intimidação, use a imaginação: vale tudo nesse jogo sem juiz.

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Como força auxiliar dessa “forja de lideranças”, monte uma justiça paralela e diga a todo sujeito que trabalhou para alguém um dia que contrato, neste país, não vale nada: se ele mentir, inventar e trair, e se cabalar quem se preste a coadjuvá-lo nessa milonga depois de finda a relação, ganha um monte de dinheiro no mole.

“Seja desonesto que o governo garante!”, é a mensagem que desce do Olimpo. Essa sempre próspera indústria custou R$ 51 bi aos empregadores brasileiros só no ano passado.

Repita a mesma receita para a criação de partidos do nada. Adicione ao dinheiro do Fundo Partidário o tempo de TV negociável no mercado “spot” da governabilidade e você estará selecionando a “elite” dos mais sem limites entre os que não se põem limites para disputar esse tipo de “liderança”.

Cubra tudo com uma categoria de brasileiros “especiais” que, uma vez tocados pela mão que loteia o Estado nunca mais perde o emprego, nem que não trabalhe, nem que seja pego roubando.

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Decore com elementos da pornografia comportamental – essa em que todo mundo trai todo mundo dentro e fora da família; os filhos às mães e estas a eles e daí para baixo tudo, e “Tudo bem! Ai de quem disser o contrário!” – em que todo brasileirinho e toda brasileirinha é sistematicamente treinado, desde que nasce, pela televisão.

Está pronto! “Reserve” e deixe fermentar.

Que tipo de país pode resultar dessa mistura? Este cuja festa nacional evoluiu da ingênua “pátria em chuteiras” de ha pouco para esta Copa da corrupção com 57 mil soldados do Exército nas ruas para garantir a paz que não há, um para cada brasileiro assassinado no ano passado?

Não é um palpite absurdo…

Enquanto procura a resposta sobre se “é a arte que imita a vida ou a vida que imita a arte”, vá se perguntando que argumento tem uma mãe da favela para convencer seu filho a não entrar para o tráfico e continuar estudando nas nossas escolas publicas porque este é o pais onde quem se esforça vai pra frente!

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Esse é o único jeito de jogar o jogo do poder que o PT entende; aquele em que o partido nasceu e foi criado. Eventualmente “lá”, até por falta de qualquer outro tipo de repertório, é inevitavelmente mais do mesmo que o carregou até ali que o partido fará para manter o que conquistou.

Mas as contas, agora, são outras. Será preciso comprar 50% + 1 de todas as lealdades o que pode custar a destruição da economia. Para que essa relação de causa e efeito não seja percebida será necessário falsificar as contas nacionais. A confiança do investidor será, porém, a primeira vítima. E então o dilema se apresentará: para que os investimentos voltem será preciso admitir a verdade; mas para admitir a verdade será preciso admitir que se estava mentindo antes. Como, então, manter “aprovada” a farsa exposta senão substituindo a regra de maioria pela do “onguismo pelêgo”? A lei terá de passar a ser feita na rua; no porrete. Mas isso só será possível se o jornalismo livre for substituído por um “jornalismo” também “pelêgo”…

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Não é, portanto, uma questão de ideologia ou de coerência – e quem se importa com elas? – a progressão da antiutopia pelêga do lulopetismo. É um imperativo de sobrevivência.

Há um Brasil submetido à meritocracia – senão por outra razão porque a internacionalização do jogo econômico o impõe implacavelmente – no qual educação é a única medida do merecimento, e há um Brasil que, a um preço cada vez mais proibitivo para o outro, só subsiste se conseguir mante-la longe dele. Esses dois Brasis são mutuamente excludentes na nova realidade globalizada. A opção hoje está em entrar nele pelo mérito ou sair do mundo e viver bolivarianamente à margem dele.

Pense nisso antes de decidir qual das alternativas de caminho postas à sua frente conduz ao beco sem saída do ódio e qual a que, com todas as dificuldades que houver, deixa aberta a porta da esperança. Sua escolha vai decidir o destino de toda uma geração.

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Encara a tua doença, Brasil!

13 de junho de 2013 § 5 Comentários

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Ao fim de seis anos de furiosa torcida pelo declínio e morte da “democracia burguesa” e de incontáveis milhares de quilômetros de palavras justapostas para vaticinar a “irreversível decadência americana”, é para lá que corre o dinheiro do mundo em busca de um abrigo seguro enquanto se vão acumulando, um por um, os fatos que indicam que, mais uma vez, serão eles que sairão da crise reformados e mais fortes enquanto o resto do mundo – a velha Europa Latina e seus rebentos d’além mar em especial – seguem atolados no brejo de sempre.

Choverá todo tipo de amarga “denúncia” para tirar-lhe o mérito do feito acompanhadas das acusações do costume sobre como o “Império” impõe aos outros os ônus da abundância de que desfruta, mas o fato que a História sempre reafirma e que a plêiade dos países grandes ou pequenos, ricos ou miseráveis de recursos naturais que adotaram o modelo americano de democracia confirma, é que o que determina o sucesso ou o fracasso das sociedades no campo econômico (e não só nele) é a qualidade do sistema político que elas constroem.

A democracia americana não admite poder ou dinheiro que não seja fruto do mérito, e foi concebida para aperfeiçoar-se constantemente. Se não é isso, 100%, o que obtém, é o que continua perseguindo com afinco. E isso faz toda a diferença.

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Com um mínimo de regras básicas “imexíveis” e a da igualdade perante a lei como a mais sagrada entre todas, o sistema é absolutamente flexível, podendo reformular-se à vontade para adaptar-se a toda e qualquer circunstância.

O jogo lá é fluido e as vitórias e derrotas se alternam segundo a capacidade de cada um sem que seja necessário alterar as regras fundamentais.

Já entre os que vivemos desde os tempos das caravelas em “economias de conquista”, colhendo sem ter plantado, de preferência à “economia de produção” onde a riqueza tem de ser criada pelo esforço, cada vitoriazinha transforma-se num novo “direito adquirido” inscrito na lei ou até na Constituição que “O Sistema” passará a garantir em seus tribunais onde nenhuma regra é clara e nenhum processo tem prazo para terminar.

Pulverizadas nesses arquipélagos de interesses mesquinhos, com cada grupelho agarrado ao seu pequeno privilégio e dependente de um poder concedente que, para continuar a garanti-lo, precisa voltar a eleger-se, essas sociedades não conseguem mais identificar qualquer coisa que se possa definir como de interesse coletivo.

Constituídas de ilhotas sem comunicação umas com as outras, sua representação política é igualmente pulverizada entre traficantes de privilégios cujo negócio é criar e depois zelar por interesses particulares em troca de votos.

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Nossos 30 ou 40 partidos políticos (lá sabe alguém quantos eles são hoje em dia?), cada um, por sua vez, dividido em “tendências” correspondentes ao número dos indivíduos que o integram, representam fielmente o que eles próprios fizeram de nós aqui fora.

Eles nos representam ou nós é que os representamos? É uma estranha inversão…

Perdido nesse cipoal com incontáveis pontos de enraizamento que a tudo amarram e onde nenhum membro do corpo social pode movimentar-se livremente, todo súdito de tais arapucas consciente da sua finitude logo perde qualquer esperança de mudar as coisas antes que a morte o colha, por mais longevo que seja, restando-lhe, assim, a única alternativa existente: a de conformar-se com ser explorado ou a de transformar-se ele próprio em explorador.

No Brasil do passado o sonho do escravo era sair do eito para a Casa Grande ou transformar-se, ele próprio, no feitor. No Brasil de hoje, o sonho do contribuinte explorado é entrar para o serviço público; o do achacado, tornar-se achacador; o do opositor chutado de casuísmo em casuísmo, passar à “Situação” que distribui as botinadas a torto e a direito e está dispensada de seguir as leis que edita com o único propósito de perenizar-se no poder.

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O sistema ajusta-se à nomenclatura e aos limites internacionalmente aceitos de seu tempo, enfim, mas não muda essencialmente nem um milímetro.

Nem o refinamento formal é capaz de dobrá-lo. O esforço de cercear suas manifestações sem alterar a essência da sua natureza acaba sempre na recriação da relação explorados/exploradores, ainda que sob formatos menos evidentes. Como o da Europa Latina de hoje onde, vedadas as formas mais explícitas de tempos idos, ela ressurge nesta última versão que aí está em que uma geração de hedonistas preguiçosos explora a geração seguinte porque esta não tem representação política suficiente para defender-se.

E lá está aquele triste espetáculo de pais aferrados aos seus pequenos confortos e privilégios sacando contra o futuro de seus filhos, não por acaso desempregados e jogados ao deus dará.

Não ha alternativa nem meio termo, brasileiros! Ou é a servidão, ou é o mérito.

E nada de desanimar porque a primeira condição para a cura é reconhecer-se doente e entender a natureza do mal que o aflige.

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O Fragmentador da Nação

3 de outubro de 2011 § 2 Comentários

O papel do Poder Judiciário no Sistema Corporativista Português sob o qual vivemos é dividir a sociedade. Confundi-la, diluir os interesses coletivos, tirar-lhe a coesão, impedir a formação de uma consciência de classe.

É substituir, enfim, os princípios da igualdade perante a lei e do esforço individual e do mérito como únicos caminhos legítimos para a diferenciação e a riqueza, fundamentos básicos da democracia, pela ilusão da socialização do privilégio, que mantém viva a essência do feudalismo.

É o Poder Judiciário que se encarrega, em nome de sua majestade o Presidente, de outorgar pequenos privilégios diferentes a cada parcela da sociedade de modo a que cada cidadão esteja sempre dependendo da boa vontade de um “padrinho” para manter o emprego que ele não conquistou nem mantém pelo mérito, a proteção do seu mercado contra concorrentes, a pequena parcela extra de salário ou de férias a que só a sua corporação faz jus, a sua aposentadoria levemente precoce ou um pouquinho menos mal remunerada que a do vizinho, o 14º salário, o impostozinho de que este e aquele ficam dispensados de pagar, o foro especial a que uns e outros passam a ter direito, a dispensa de cumprir esta ou aquela lei…

O Poder Judiciário é o fragmentador da Nação.

Esteriliza as suas vítimas para a democracia e ainda colhe agradecimentos embevecidos.

Vicia a sociedade na droga que vende e, depois de entorpece-la, mutila-a.

Entre as muitas navalhas, bisturis e instrumentos cortantes que usa, o preferido é o da regulamentação das profissões. É por ai que, ao fatiar a lei em pedacinhos, anestesia o sentido de classe e fecha o caminho para a democracia.

Na quarta-feira passada, o jornal Valor noticiava que há 45 projetos de lei para regulamentar profissões como as de “lutador de vale-tudo, compositor, cuidador de idoso, paisagista, acupunturista, detetive particular, guarda de guarita, ceramista, garçom, bugreiro, comerciário, técnico em radiologia, auxiliar de farmácia, jornalista“, e etc., atravancando a pauta das comissões temáticas da Câmara e do Senado. Se aprovadas, as propostas subirão para a presidente da Republica que lhes dará o toque final, aprovando ou vetando partes antes de assiná-las uma por uma para que fique bem claro de onde é, em ultima instância, que vêm todos os favores.

Sob o império da lei igual para todos, o povo se torna uma coisa só e tem força para subordinar o Estado. Dividido e amesquinhado pela busca permanente do próximo privilégio, torna-se servil e dependente dele.

O sindicalista pelego é o intermediário desse esforço sustentado para corromper a sociedade.

Eleito pelo sistema intrínsecamente fraudulento da aclamação, passa a ser, desde logo, sustentado pelo imposto sindical que chegará sempre ao seu bolso independentemente dos serviços que vier ou não a prestar.

Seu papel é transmitir ao poder outorgante, passando antes pela instância do Legislativo que já é um agente do sistema, os pleitos de sua clientela a cada dissídio coletivo (porque também a reivindicação ha que ser organizada neste sistema que tudo quer aos pedacinhos e na mais perfeita ordem).

Isso no caminho de “ida”.

No de volta, a cada eleição, caberá a eles lembrar a essas clientelas quem é que lhes patrocinou as tetinhas em que têm o privilégio de mamar.

A hierarquia, dentro do Sistema Corporativista Português, é estabelecida pela acumulação de privilégios e “direitos adquiridos” nos dois mundos àparte – a sociedade e o Estado; a massa suplicante e o poder outorgante – em que ele divide a Nação.

Mesmo lá embaixo, no lumpen, todo mundo tem pelo menos unzinho, diferente do do próximo, é claro, porque convém mantê-los divididos. As categorias mais numerosas acumularão mais privilégios, em escala ascendente segundo o seu peso eleitoral.

Eventualmente, se desempenhar a contento a sua função, o sindicalista, já no posto mais alto da massa suplicante, estará em posição privilegiada para passar de intermediário à condição de agente do poder outorgante.

Uma vez dentro dos limites do Estado a carga de privilégios será no mínimo suficiente para garantir a establidade no emprego e a relativa imunidade às crises. A partir desse piso, pode-se adquirir medidas variáveis de impunidade e de poder de colher e distribuir benesses, sempre contra provas sustentadas de incondicional lealdade aos chefes.

Como os privilégios relativos de cada um dependem dos privilégios absolutos dos que, lá de cima, os distribuem para os de baixo, o valor mais alto que se alevanta é todos trabalharem, unidos, pela intocabilidade do primeiro da fila.

Vai sem dizer que só a cúpula desfrutará os privilégios todos: a impunidade absoluta e o ilimitado poder de delegar poder.

Esse aparato todo, entretanto, não cria riquezas. Só as consome. É necessário, então, dar algum espaço aos empreendedores, para que possa ser produzido o que se ha de desfrutar.

Sem problemas!

Reproduz-se, escala acima da elite produtora da massa suplicante, a outorga de um gradiente bem medido de isenções de obrigações e impostos, proteções de mercado, acesso a informações privilegiadas, diferentes graus de recurso ao Tesouro Nacional e, finalmente, para os grandes “vencedores”, a sociedade com o Estado. Tudo sempre em troca da garantia aos outorgantes dos meios de se perenizar no poder visto que a fachada das eleições, cada dia mais dispendiosas, segue sendo o requisito mínimo para não se ser expulso da comunidade das Nações civilizadas.

Para os divergentes, para os críticos do sistema, a estes sim impõe-se a lei, dura lei. Coisa que, num universo onde os diferentes graus de isenção da obrigação de cumpri-la é que determinam o sucesso ou o fracasso na competição, equivale a uma sentença de morte econômica.

E la estão, garantidos para sempre, o rei com seu reino, seus barões com seus feudos, e os súditos de todos eles que, em última instância, se bem comportados, podem contar ao menos com a muralha do castelo que protege os obedientes do mundo da livre competição que ruge la fora.

Foi às custas dessa sofisticada arquitetura de molhes e quebra-mares que o tsunami democrático que varreu o absolutismo monárquico da Europa nos séculos 18 e 19 chegou como uma “marolinha” à ocidental praia lusitana, e de lá desembarcou no Brasil onde, desde então, tem-nos sido “cordialmente” imposto.

E la se vão 494 anos das 95 Teses de Lutero e 235 anos da Revolução Americana e nós, entregues aos nossos “jeitinhos” e pequenas “espertezas”, ainda não nos apercebemos do logro!

Ilustrações de Lucas Simões
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