Quem é quem no drama brasileiro?

14 de junho de 2016 § 23 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 14/6/2016

Como uma trovoada distante o aumento de R$ 59 bi do funcionalismo relampejou no céu do “jornalismo de acesso” e logo se apagou quase sem ruído. Não se sobrepôs sequer à “propina” do dia esse prêmio aos culpados que aumentou em 1/3 a pena de quase 200 milhões de inocentes. Lindbergh Farias, Fernando Collor, Vanessa Graziotin, Eduardo Cunha e sua gangue, Jandira Feghali, Sérgio Machado, todos suspenderam por um minuto as hostilidades para apertar juntos o “sim“. E o “dream team” engoliu com casca e tudo essa terça parte do maior déficit de todos os tempos na largada da missão impossível para deter a mais desenfreada corrida de volta à miséria da história deste país. Tudo tão discreto que a manobra mal foi percebida na fila de seis meses de espera pelo exame de câncer do SUS, que é onde se “zera” esse tipo de fatura.

Quantos serão, dentre os 11,1 milhões de funcionários que comem 45% do PIB, aqueles que Ricardo Paes de Barros afirma que pesam o bastante para distorcer a média nacional de desigualdade de renda? Quanto custam os “auxílios” todos que o Imposto de Renda lhes perdoa? E os “comissionados” que mais que dobraram o gasto público sem que mudasse um milímetro a quase miséria dos médicos e professores concursados? Como vivem os aposentados e pensionistas sem cabelos brancos que, 900 mil apenas, pesam mais que os outros 32 milhões que pagaram Previdência a vida inteira somados?

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Quanto, afinal de contas, o Brasil com “lobby” suga do Brasil sem “lobby”? A esta altura do desastre todo debate que se desvia dessa pergunta é enganação; toda pauta que não se oriente por essa baliza da desigualdade perante a lei é uma traição aos miseráveis do Brasil.

O mais é circo. Eduardo Cunha e o PT nos provam, acinte por acinte, o quão livre e indefinidamente se pode escarnecer da lei neste país desde que se esteja posicionado na altura certa da hierarquia corporativista. Variam as razões alegadas para se locupletar mas ninguém nega que é disso mesmo que se trata. São meses, são anos – são séculos, considerado o Sistema desde o nascimento – desse joguinho de sinuca silogística invocando pedaços de fatos para negar os fatos, meias verdades para servir à mentira, cacos de leis para legalizar o crime e o país inteiro esperando pra ver o que vai sobrar.

O jogo é esse porque nós o aceitamos. Não faz muito o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação fez a compilação: até 2014, já tinham sido editadas 4.960.610 leis e variações de leis para enquadrar nossa vida do berço ao túmulo desde que a Constituição foi promulgada em 1988. 522 a cada 24 horas destes 27 anos. 320.343 eram normas tributárias, 46 novas a cada dia útil!

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É esse o truque: quem pode estar em dia com tudo isso no país onde a única função discernível do aparato legal é tornar impossível cumpri-lo?

Não fazer sentido é o elemento essencial do Sistema. Daí a palavrosidade ôca valer mais que os fatos nos nossos plenários e nos nossos tribunais. Se houvesse um meio racional de escapar, uma forma segura de se prevenir, uma regra que pudesse ser cumprida perdia-se o caráter de onipotência da autoridade constituída. Tem de ser irracional. Tem de ser impossível escapar deste “vale de lágrimas” a não ser pela unção dos “excelentes” com ou sem batina, ou toda essa indústria se esboroa. É ao que sempre estivemos acostumados…

Esboça-se uma resistência mas ela é isolada. Só vai até onde pode ir o pedacinho são da 1º Instância do Judiciário. E quem mais a saúda é quem mais a apunhala. Até agora, nem de leve foi arranhada a isenção a essa condição de permanente exposição à chantagem em que vivemos para os que a desfrutam por pertencer a corporações privilegiadas. A “lista de Teori” continua trancada e secreta. Foram afastados, sujeitos a confirmação, os que destruiram a obra de toda uma geração, mas não por isso; porque ficou claro que sua permanência implicaria a morte da galinha-dos-ovos-de-ouro. Mesmo assim, vultos sinistros nadam por baixo da decisão final do Senado. Só quem desafia a hierarquia do Sistema está sob ameaça real de remoção. Até Teori é objeto de chantagem. Mas o Sistema mesmo nunca esteve em causa.

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Os “grandes empresários“? Estes jamais estiveram realmente isentos. “Culpados” por definição como somos todos e eles mais que os que jogaram menos, são os “hereges” da vez. Festeje-se com realismo, portanto. Nesse nosso modelo lusitano o Tesouro Real sempre saiu dos seus apertos com grandes Autos-de-Fé em que re-devora as “nobrezas” que fabrica.

Eles”, os “nós” dos comícios do Lula, estes sim, continuam sem crise como sempre. São regidos por leis e julgados por tribunais que só valem para eles. Têm regimes de trabalho, remuneração e aposentadorias só seus. Entram no seu bolso a qualquer hora e sem pedir licença.

Dessa casta fazem parte réus e juízes da presente refrega. Desde que a corte de d. João VI desembarcou no Rio de Janeiro chutando os brasileiros para fora de suas casas seguem, todos, deitados no berço esplêndido da indemissibilidade para todo o sempre que se auto-outorgaram, tão “blindados” que já nem uns conseguem expulsar os outros quando a disputa pelos nossos ossos os leva a considerar exceções à sua regra de ouro. Reagem com fúria se alguém tenta devassar-lhes os segredos, vide Gazeta do Povo x Judiciário; Estadão x Sarney.

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O “ajuste” começa pelo ajuste do foco. Por mais heróico que seja o esforço não se porá o país na reta correndo atras de tudo que essa máquina de entortar fabrica em série. Deixada como está, fará do herói de hoje o bandido de amanhã, sejam quantas forem as voltas no mesmo círculo. É preciso rever a conta que está aí pela ótica da igualdade perante a lei e, a partir daí, inverter, de negativo para positivo, o vetor primário das forças que atuam sobre o Sistema. O voto distrital com “recall” acaba com essa indemissibilidade e, com isso, põe o poder nas mãos do povo. Daí por diante tudo passa a ser feito pelo povo para o povo.

Aí sim, funciona.

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§ 23 Respostas para Quem é quem no drama brasileiro?

  • Lourenco Meireles Reis disse:

    Otimo artigo . Abs

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  • Cris Dias de Souza disse:

    Que pena que falta a sua lucidez aos nossos dirigentes! É desanimador.. Agora o Meirelles e o Temer divergem.. Lembro- me da persistêcia do Levy, que acabou sendo em vão..

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  • NEIDE MARIA CANHEDO disse:

    O texto está brilhante, precisamos reagir e lutar pelo voto distrital com recall. Não é possível continuar nesse estado de coisas, chega a dar náuseas quando nos vemos impotentes diante desse estado de absoluta desproporcionalidade, e o drama se repete como essas peças que nunca saem de cartaz.

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  • marcelo falsetti cabral disse:

    Sr. Fernão Lara Mesquita, relativamente ao seu artigo de hoje (Quem é quem…), gostaria de ressaltar que há mais de 20 anos tenho a opinião que para efetivamente promovermos uma reforma em nossa falida estrutura deveríamos adotar o Parlamentarismo.
    Com a convicção de que deveríamos ter algumas eleições a fim de que diversos partidos(e não o circo que temos hoje), naturalmente, conseguiriam adquirir identidades próprias permitindo aos cidadãos de quaisquer linhas de pensamento adotarem aquele que melhor o representasse .
    Outro aspecto que também sempre me pareceu absurdo foi o carreirismo que até hoje perdura por POLÍTICOS PROFISSIONAIS e não por profissionais na política que poderiam, de fato, contribuir para a melhora das condições de vida de todos os brasileiros.
    Em diversas oportunidades constatei, e não é preciso ser nenhum gênio para perceber, que desde a extrema direita à extrema esquerda, sempre tiveram o caradurismo de defender o VOTO DISTRITAL MISTO e não o PURO o que em minha opinião poderia ser um caminho para o MISTO, ambos sempre com “RECALL” até, senão eliminarmos, pelo menos reduzir em muito o poder dos CACIQUES DE TODOS OS PARTIDOS para a elaboração das listas objetivando manter os mesmos mandando indefinidamente com as negociações espúrias tradicionais.
    Entendo que é mais “tranquilo” para os velhos CACIQUES, pela exposição que têm naturalmente na mídia manterem seu “currais” eleitorais o que por sua pulverização tradicional não os torna responsável por nenhuma das “regiões” em que foram votados não se sabendo nem como aplicar o “RECALL” àqueles.
    Finalmente creio também que, até na imprensa de forma geral, deveríamos adotar novas práticas tendo em vista que a fim de existirem as famosas fontes confiáveis(que hoje perduram por anos) exigiria dos profissionais da área reverem os métodos de obtê-las o que, certamente, exigiria novas práticas.

    Atenciosamente.,

    Marcelo Falsetti Cabral
    RG 3.271.6035
    Rua Romilda Margarida Gabriel, 99 – ap 61
    Itaim – Bibi – SP/SP CEP 04530-090
    Tel.:(11) 98389 4066

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  • Gaudério disse:

    É isso. Parabéns! Não canse de malhar o mesmo ferro, porque claramente é uma injustiça gritante aos olhos de quem quer ver. Temos “castas” no Brasil também.

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  • Mara disse:

    É por isso tudo que o povo, pra fugir desse excesso, termina aderindo à pirataria, numa espécie de compensação a esses desmandos. Só um movimento tipo junho de 2013 com palavra de ordem única. As lideranças arrumariam essa frase.

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  • Muito bom Fernão. Só uma resposta da sociedade poderá mudar a presente imundice. E tem que ser nas ruas, que é só o que temem.

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  • Excelente análise. Não se vale dos cacoetes recentes do gramscismo para explicar o que faz parte da bagagem histórico-cultural da qual não nos livramos jamais pelo simples fato de nos faltarem reformadores lúcidos e líderes dispostos ao sacrifício da difamação por meterem o bedelho em nossas feridas estatais purulentas.

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  • RUBENS DE CAMARGO VIDIGAL FILHO disse:

    Fernão concordo plenamente com você que sem a posibilidade de remover os políticos de seus postos nada poderá mudar. Gostaria entretanto de lembrar que mais do que o voto distrital com recall a lei que rege os partidos políticos permite que os mesmos tenham donos. Essa dinamica faz com que o poder passe de pai para filho de forma que temos castas de políticos que dominam a política nacional desde a época do império. Isso funciona como um clube onde alguns privilegiados devido ao estatuto que eles mesmos impõe os torna donos da política e eles se apresentam ou indicam para nós as únicas possibilidades de escolha. Poucos combinam entre si o jogo e independente do ganhador a solução é sempre aquilo que beneficia o grupo e não quem os elege. A Democracia no Brasil é isso. Escolher o melhor não é solução suficiente uma vez que todos, independente do partido a que estejam filiados, votam sempre naquilo que os privelegia em detrimento do bem comum. Exemplo disso é a votação do aumento de salário de parte dos funcionários públicos comentado por você no seu primeiro parágrafo. É necessario alterar a legislação de forma a permitir que os partidos sejam de fato uma representação de idéias políticas e não apenas propriedade dos privilegiados que os controlam. É necessario então que a escolha das lideranças dos partidos se faça pelo mérito e serviços públicos prestados e não pelo simples controle hereditário do poder. O voto distrital então levaria a lideres reais que caso não defendessem os interesses comuns seriam simplesmente substituidos, o que faria com que só votassem de acordo com o consenso de quem lá os colocou.
    Um abraço.

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    • fernaslm disse:

      ai esta rubens…
      tudo esta errado e cada erro requer um livro para ser descrito e mais 20 leis para ser cercado e…nao se vai a lugar nenhum.
      dai eu insistir no distrital com recall pq esta é a reforma q abre a possibilidade de q venham a ocorrer todas as outras reformas, uma por uma como deve ser.
      para o erro q v aponta, os americanos, uma vez c recall na mão, forçaram a reforma seguinte q foi despartidarizar as eleições municipais. aí os sarneys de la, em vez de comandar 6 mil e tantas bases municipais, só ficaram mandando em 26 bases estaduais. o resto é tudo sangue novo. qquer um pode se candidatar nos municipios sem pedir licença a ninguem.
      melhor q um monte de leis (inaprovaveis) para tentar desenhar o q é ou n é um candidato bom, né mesmo?

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  • Ricardo Gehrke disse:

    Brilhante matéria nós temos que fazer meaculpa pois deixamos de protestar e o nosso voto ficou fraco com o regime. Acho que o voto distrital nos daria mais poder de cobrança.

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  • Chega de utopias. A conclusão é única: Não há o que corrija esta insólita situação brasileira. Brasileiro é tão bonzinho e tolera estes absurdos que se não fosse delação premiada não conheceríamos. Isto é caso de polícia e não de reforma de sistema político.
    https://www.g1.globo.com/politica/blog/Matheus-leitão/post/leia-integra-da-delaçao-de-sergio-machado.html

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    • Eduardo,
      Não aguento mais ouvir delação do Sérgio Machado. E agora a Dilma foi convocada a testemunhar ao Marcelo Odebrecht que ainda não abriu o bico, leia-se a metralhadora ponto 100, segundo o Sarney. Tá uma zona e eu quero ver quem vai pra cadeia. Multar?, Não adianta, exceto se eles reassumirem os cargos à gatunar e poder pagar os valores aplicados pela Justiça.

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    • Harakiri, jamais. Ontem, um governador no Japão renunciou porque usou veículo oficial pra viagens com a família e pagou contas com dinheiro público. Como se trata de um país pobre, se ele soubesse do que acontece por aqui,pra cá ele viria e com esses “pequenos” gastos seria homenageado. Não tem solução. Uma implosão pra começar tudo de novo e com um outro Cabral pra dar mais sorte.

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    • Eduardo,
      O valor de R$ 59 bi indicado por vc, já não é mais. Agora são R$ 68 bi. Como o país tem dinheiro sobrando e que jorra por todos os lados, vide os corruptos, isso não é nada.
      Uma pequena gatunagem e resolvem o problema. É ridículo mas é uma ideia, bastando pedir ao Sérgio Machado.

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    • Eu não aguento mais. Todo momento na mídia seja qual for indicam de roubalheiras. Esse delinquente do Sérgio Machado terá que devolver R$ 75 milhões sendo 10% em 30 dias e o restante em alguns anos. melhor negócio não existe, com dinheiro público. Enquanto a sociedade definha na inadimplência e nas pequenas e médias empresas por culpa de outras, as maiores que mantinham os vagabundos políticos. Não creio que a reforma política sòzinha resolva. O buraco é mais embaixo. É na própria sociedade cuja amostragem está na Câmara.
      Não tenho o que sugerir, mas tenho como lembrar no tempo dos militares não havia nada disso. Tinham medo,e hoje o medo saiu da moda. Sm eles cometeram crimes, aliás a esquerda também, tenho dúvidas se a tão esperada democracia pela qual todos lutamos chega ao ponto de admitir as atuais ocorrências, sem medida mais doída aos criminosos.

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  • O voto distrital com recall e a adoção do “performance bond” nas negociações que envolvem os governos seriam um bom começo para sairmos desse mar de lama.

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