Lições desperdiçadas da eleição americana

5 de novembro de 2012 § 1 comentário

Sempre que posso eu lembro aos brasileiros, aqui no Vespeiro, o papo furado que é esse “porque me ufano do meu país” que une situação e oposição, blogosfera mercenária e jornalistas independentes na louvação da capacidade da Justiça Eleitoral brasileira de processar uma eleição nacional em um par de horas enquanto o chamado Primeiro Mundo, a quem temos tanto a ensinar, leva semanas para processar as suas.

Começo recordando a todos que nas democracias de verdade os eleitores é que decidem tudo, de quem vai ser autorizado a lhes pedir votos a, nome por nome, quem vão ser os policiais da sua cidade, passando pela aceitação ou não de cada imposto novo, a alíquota máxima dos velhos, quanto dele deve ser destinado ou não à educação, o direito de fumar maconha, o casamento de homossexuais, as penas para os crimes bárbaros e o mais que possa afetar a vida deles, enquanto nós só somos chamados para confirmar ou não, na base da batida de penaltis, tudo que os caciques dos partidos – os mesmos desde Getúlio Vargas – já decidiram previamente entre quatro paredes, muitas vezes empurrando pra cá e pra lá malas pretas cheias de dinheiro.

Assim é que na última eleição presidencial dos Estados Unidos, a média nacional de quesitos constando de cada cédula era 62, o que quer dizer que havia lugares onde eram mais de 100. Tantos que São Francisco, por exemplo, passou a inovar mandando por correio a cédula, maior que uma página de jornal, para a casa dos eleitores com um mês de antecedência, para que eles pudessem preenche-la com o cuidado e a atenção necessárias.

Hoje, lendo uma matéria de um site especializado na indústria do entretenimento que acompanho, colhi mais um exemplo interessante que podia entrar praquele rol de temas que, sozinhos, podiam dar à oposição o “discurso convincente, afim com os problemas atuais do país e do povo e transmitido com linguagem simples e moderna” que o ex-presidente Fernando Henrique disse ao Estado de sábado que está procurando para dar um sentido à oposição brasileira.

Trata-se da Proposição nº 32 que estará nas cédulas dos eleitores da Califórnia, ao lado da escolha Romney ou Obama, autorizando ou não os sindicatos e associações representativas dos trabalhadores da indústria do entretenimento (atores, roteiristas, iluminadores, editores, cenaristas, etc.) a coletar dinheiro entre seus sócios para fazer contribuições para partidos políticos e candidatos em geral.

A notícia fazia saber a posição dos inúmeros sindicatos (e ha tantos para cada categoria envolvida quanto seus agentes acharem conveniente) contra e a favor deste referendo ao qual a mesma cédula que elegerá Romney ou Obama pedirá um “sim” ou um “não”.

Pra um país às voltas com o Mensalão e outros métodos nauseabundos de se conseguir dinheiro para campanhas eleitorais nestes tristes trópicos onde quem decide qual é o seu sindicato é o governo e o dinheiro que o irriga vem de impostos e desaparece para sempre, taí um tema que poderia ser o início de uma discussão no mínimo educativa, né mesmo?

Mas a imprensa brasileira e os correspondentes nos Estados Unidos com quem ela desperdiça o seu dinheiro não mencionam esses pequenos pormenores da eleição americana, deixando, assim, de contribuir para educar o candidato a cidadão brasileiro que não tem a mais pálida noção do que seja uma democracia de verdade.

Em vez disso, reduzem a disputa nos Estados Unidos ao mesmo esquema binário fora do qual não conseguem raciocinar, e torcem o noticiário para lá e para cá para patrulhar as atitudes, propostas ou declarações dos dois candidatos presidenciais como “de esquerda” ou “de direita”, dando provas de que conseguem seguir a manada também em outra língua mas são incapazes de pensar com independência em qualquer uma das ainda faladas no planeta.

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