Mr. Hyde, dr. Jeckyl e o seu voto

30 de setembro de 2016 § 6 Comments

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 30/9/2016

O médico e o monstro”, na versão que se poderia dar da fábula nesta agonia das mumificadas instituições brasileiras, deveria se chamar “O monstro e o médico”. Fomos tão longe nas distorções e tão fundo no “Eu sou, mas quem não é?” que tantas vezes salvou a pele do líder do petismo e do Foro de São Paulo desde as primeiras revelações do que se acreditava ter sido apenas o “mensalão”, que hoje “mr. Hyde” é que é a “matriz” que se apresenta aberta e cotidianamente pelos palcos enquanto o bom “dr. Jeckyl”, sempre meio envergonhado da “caretice” dos seus pruridos “moralistas”, luta por emergir da normalidade da anormalidade a que nos acostumamos.

É realmente impressionante, para quem não viveu isso como o longo e meticuloso processo de engenharia do vício que foi desde a primeira flor do mal plantada por Getulio Vargas, que num sistema que ainda é chancelado em última instância pelo voto apenas e tão somente um numero contado de personagens que chegam a ser quixotescos de tão desviados do padrão num bastião isolado da 1a Instância do Judiciário em Curitiba e dentro do Ministério Público e da Polícia Federal afirmem-se sem nenhuma reserva ou restrição como defensores intransigentes da ética na política e no trato dos dinheiros públicos.

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Com um sistema político que obriga ao trânsito pelo lado escuro da lua pela maior parte dos caminhos que levam ao poder, das instâncias mais baixas de representação da sociedade em diante, não ha nem poderia haver um só partido político entre os que percorreram uma parte dessa estrada que se possa dar o luxo de “fechar questão” em torno dessa causa, nem que seja apenas “pro forma”. Ha, quando muito, “bandas saudáveis” dentro de partidos que exibem mais ou menos despudoradamente a sua insalubridade. Iniciativas individuais de membros do Legislativo tangidos para o voto contra as conspirações de lesa-pátria se e quando a imprensa detecta a tempo e denuncia com suficiente estridência as manobras para anistiar crimes cometidos, legalizar ações ilegais, devolver a impunidade aos culpados, permitir o desfrute de dinheiros roubados e por aí afora.

Não estamos sozinhos nisso mas chocamos pela crueza, pela explicitude e pela ausência de resistência com que o crime transita no meio de nós. Todas as instituições da Republica – e não apenas as do Estado – dividem-se hoje em “bandas” mais e menos contaminadas. O governo que substituiu o que caiu de podre é, ele próprio, dividido assim. Vive num permanente embate de nuances. No STF a banda podre é quase oficial, sendo a saudável fluida o bastante para nunca ser possivel antecipar o que sairá de lá mesmo quando o que está em causa é a literalidade do texto constitucional. O voto sobre prisões a partir da condenação pela 2a Instância, marcado para a quarta-feira, 5, será um marco histórico a definir com que velocidade “dr. Jeckyl” poderá vir a sobrepor-se ao “mr. Hyde” que se tornou padrão. À frente da arguição de “inconstitucionalidade” da inauguração da prestação de justiça num prazo discernível em pleno 3º Milênio, representando toda a “banda podre” do Poder Judiciário que tem vivido de torturar a idéia de justiça com os ferros-em-brasa do formalismo cínico, está ninguém menos que a OAB advogando em causa própria pela eternização da eternização dos litígios.

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Quase todas as outras representações da sociedade civil – sindicatos de trabalhadores e patronais, partidos políticos, ONGs, “movimentos sociais”, artistas, intelectuais e outras subcelebridades do vasto planeta da parasitação do dinheiro público – dividem-se igualmente em bandas muito podres e bandas menos podres.

É penoso o parto de um Brasil novo a partir desse criado pela socialização da corrupção, também dita “corporativismo”, onde tudo pode ser “regulamentado” e “regulamentado” de novo por uma legião de ungidos blindados contra qualquer represália de quem lhes deu um mandato, do que resulta que cada individuo tem ao menos uma tetazinha para chamar de sua e nenhum está totalmente a cavaleiro para apontar o dedo aos demais sem ser retrucado.

A boa notícia é que as manobras conspiratórias para dar sobrevida ao mal que, por abuso, condenou à morte o organismo de que se sustenta também já são quase sempre “órfãs”. Elas emergem das sombras envergonhadas e sem reivindicação de direito autoral. Não ha mais fabricantes de “narrativas”, nem manipuladores de regimentos internos, nem “velhas raposas” até ha pouco festejadas como “matreiras” e “habilidosas” que assumam a paternidade de “jabutis”, de inversões da lógica da justiça com base em formalidades e outros “passa-moleques” do gênero. Não ha mais quem se levante para defender de cara limpa as falcatruas tentadas.

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Tudo está mapeado e medido. Os efeitos são indesligáveis das suas causas. A conspiração que resta é a do silêncio, também ela uma confissão de dolo. Mas o privilégio anda com o rabo entre as pernas, consciente da miséria que custa, sabendo-se insustentavel e em litígio com a matemática, pendurado por um fio e pedindo tiro. Basta que seja encarado de frente para que finalmente se esboroe.

Tudo considerado até que vamos indo bem. O interesse geral, ainda que de forma difusa, tem prevalecido mesmo porque a alternativa é incontemplavel. O próximo degrau escada abaixo não tem volta. Depois da partida “dos ingleses”, o Rio de Janeiro real em que os representantes eleitos do povo já começam a pagar ao crime organizado antes da eleição, pela mera licença para se apresentar como candidatos nos seus territórios privativos de caça, é a “avant première” do Brasil de pesadelo que, ninguém se engane, é a única alternativa ao Brasil de sonho que só a lei imperando, igual para todos, pode repor em pé.

Uma parte do remédio é a matemática quem vai impor. Mas a eleição de domingo definirá as condições em que partiremos – ou não – para as reformas mais profundas que se farão necessárias adiante para por o Brasil de sonho novamente no horizonte.

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“Manifestante” é o cacete!

15 de agosto de 2013 § 3 Comments

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Com toda a crise em que anda ainda é a imprensa profissional quem pauta o país, como já se mostrou aqui no Vespeiro por diferentes evidências.

Se você quiser antecipar, por exemplo, como é que os políticos e as autoridades constituídas vão reagir amanhã aos acontecimentos de hoje basta prestar atenção aos jornais da noite das televisões.

Ontem, por exemplo, elas passaram o dia mostrando como três ou quatro desses grupelhos que, dia após dia desde as manifestações de junho escolhem um alvo ligado aos governos de São Paulo ou do Rio de Janeiro, as praças que o PT jurou conquistar custe o que custar, para destruir junto com tudo que estiver nas redondezas, especialmente lojas e bancos, se prepararam para executar o que tinham anunciado que fariam no dia anterior. À noite lá veio o show prometido.

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Não é preciso “supor” nada, com é praxe fazer em todo texto jornalístico hoje em dia. É tudo oficial e explícito. Ontem, como já tinham anunciado os jornais do dia anterior, eram o Movimento Passe Livre, o primeiro a sentar obedientemente na mesa da Dilma depois das manifestações de junho e declarar que estivera nelas por engano, a CUT, nossa velha conhecida, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, idem, e o Sindicato dos Metroviários de São Paulo, um dos filiados à CUT e, como ela, assalariado do imposto sindical que o governo distribui, que iam invadir e destruir a Câmara Municipal de São Paulo aos gritos de “Fora Alckmin”, a pretexto de exigir “um outro padrão de transporte” que estaria sendo negado ao povo em função do conluio entre as empresas que se organizaram em cartel para construir o metrô de São Paulo e o PSDB.

Tudo isso estava estampado em todos os jornais do Rio e de São Paulo do dia anterior.

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Na véspera, para agravar o dolo, O Estado de S. Paulo, numa espécie de lapso excepcional em relação à costumeira falta de curiosidade geral das redações, tinha ido ouvir a promotora Karen Kahn, do Ministério Publico Federal, uma das negociadoras do “pacto de leniência” com a Siemens que levou à revelação da falcatrua, que explicou ao Brasil porque o governo federal impediu por 15 dias, até ser obrigado a ceder por ordem judicial, que o Cade abrisse ao governo de São Paulo e à imprensa o inquérito que continha as acusações contra o PSDB dos vivos e dos mortos.

Foi porque o mesmo inquérito traz provas das mesmíssimas falcatruas perpetradas com as mesmíssimas empresas e nas mesmíssimas datas pela CBTU, o órgão do Ministério das Cidades tanto de Dilma quanto de Lula, não em uma mas em pelo menos três outras capitais do país, Belo Horizonte, Recife e a Porto Alegre natal da senhora “presidenta”, onde os metrôs são obras federais!

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Não seria necessário esse acrescentamento para se saber que esses grupinhos de 200/300 trogloditas que diariamente escolhem um alvo para depredar, desde que de alguma forma ele esteja ligado aos partidos que o PT jurou derrotar na próxima eleição, não passam de reedições dos fasci di combattimento ou esquadrões de combate que, por esses mesmíssimos métodos, plantaram o fascismo (foi daí que veio o nome) na Itália, modelo que se baseava no controle e no aparelhamento dos sindicatos pelo Estado para o exercício da violência física contra qualquer oposição e que foi, logo adiante, copiado por Getúlio Vargas e implantado no Brasil.

É o sistema que gerou o esquema de poder que o PT controla hoje, enfim.

Mas mesmo diante dessa prova adicional de má fé, se é que se pode chamar um golpe desse nível, para o qual concorreu do ministro da Justiça de Dilma (que foi quem trancou o inquérito do Cade) para baixo, por adjetivo tão brando, a imprensa continua chamando esse pessoal de “manifestantes”, a mesma expressão usada para designar o povo que saiu às ruas em junho, e de “manifestações” os pogroms a que eles se têm dedicado noite após noite escondendo o rosto, por vezes, mas sempre portando as bandeiras do partido ao qual pertencem, aquelas mesmas que foram sistematicamente expulsas das manifestações de junho.

Cerca de 300 manifestantes que se concentraram nas escadarias da Câmara Municipal do Rio, na Cinelândia, no Centro, fizeram um ato para reclamar do aumento da passagem de ônibus nesta segunda-feira (10). O protesto se estendeu pelas Avenidas Rio Branco, A

Nenhum dos outros grandes jornais do Rio e de São Paulo voltou à promotora Kahn ou foi procurar as provas oferecidas pela mesma Siemens do metrô de São Paulo dos vícios dos contratos para os metrôs das três capitais citadas assinadas com o governo federal que ela nos informou que constam dos documentos escondidos pelo ministro da Justiça.

O próprio O Estado de S. Paulo, no dia seguinte, já tinha esquecido seu “furo“, e seus títulos e “investigações” (de segunda mão) voltaram a se concentrar exclusivamente em Alckmin.

Não é atoa, portanto, que os vereadores agredidos ontem estivessem na Globo News na manhã de hoje, dizendo que “respeitam os manifestantes” e vão recebê-los nos próximos dias, agora como convidados de honra da instituição que agrediram e cujos estabelecimentos depredaram, e que a cada nova depredação siga-se outra, com redobrada violência.

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Pois se a imprensa não diferencia os fasci di combattimento de hoje dos manifestantes autênticos de ontem, nem essas depredações endereçadas daquelas passeatas, nem os gritos de “Não nos representam!” e a miscelânea de cartazes daqueles dias das bandeiras da mesma cor e das disciplinadas palavras de ordem de hoje, nenhum dado da realidade poderá fazer com que ela não venha a chamar de “violência policial gratuita” e de “surdez à voz das ruas” por parte de quem vive de votos qualquer reação, por tênue que seja, aos crimes desses criminosos.

E por esse ralo que quem abriu e pelo qual quem zela é a imprensa profissional, ultimo bastião da nossa periclitante democracia, se esvai, desmoralizada e deliberadamente confundida com o avesso de si mesma, a força do movimento que podia vir a mudar o Brasil.

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Lições desperdiçadas da eleição americana

5 de novembro de 2012 § 1 Comment

Sempre que posso eu lembro aos brasileiros, aqui no Vespeiro, o papo furado que é esse “porque me ufano do meu país” que une situação e oposição, blogosfera mercenária e jornalistas independentes na louvação da capacidade da Justiça Eleitoral brasileira de processar uma eleição nacional em um par de horas enquanto o chamado Primeiro Mundo, a quem temos tanto a ensinar, leva semanas para processar as suas.

Começo recordando a todos que nas democracias de verdade os eleitores é que decidem tudo, de quem vai ser autorizado a lhes pedir votos a, nome por nome, quem vão ser os policiais da sua cidade, passando pela aceitação ou não de cada imposto novo, a alíquota máxima dos velhos, quanto dele deve ser destinado ou não à educação, o direito de fumar maconha, o casamento de homossexuais, as penas para os crimes bárbaros e o mais que possa afetar a vida deles, enquanto nós só somos chamados para confirmar ou não, na base da batida de penaltis, tudo que os caciques dos partidos – os mesmos desde Getúlio Vargas – já decidiram previamente entre quatro paredes, muitas vezes empurrando pra cá e pra lá malas pretas cheias de dinheiro.

Assim é que na última eleição presidencial dos Estados Unidos, a média nacional de quesitos constando de cada cédula era 62, o que quer dizer que havia lugares onde eram mais de 100. Tantos que São Francisco, por exemplo, passou a inovar mandando por correio a cédula, maior que uma página de jornal, para a casa dos eleitores com um mês de antecedência, para que eles pudessem preenche-la com o cuidado e a atenção necessárias.

Hoje, lendo uma matéria de um site especializado na indústria do entretenimento que acompanho, colhi mais um exemplo interessante que podia entrar praquele rol de temas que, sozinhos, podiam dar à oposição o “discurso convincente, afim com os problemas atuais do país e do povo e transmitido com linguagem simples e moderna” que o ex-presidente Fernando Henrique disse ao Estado de sábado que está procurando para dar um sentido à oposição brasileira.

Trata-se da Proposição nº 32 que estará nas cédulas dos eleitores da Califórnia, ao lado da escolha Romney ou Obama, autorizando ou não os sindicatos e associações representativas dos trabalhadores da indústria do entretenimento (atores, roteiristas, iluminadores, editores, cenaristas, etc.) a coletar dinheiro entre seus sócios para fazer contribuições para partidos políticos e candidatos em geral.

A notícia fazia saber a posição dos inúmeros sindicatos (e ha tantos para cada categoria envolvida quanto seus agentes acharem conveniente) contra e a favor deste referendo ao qual a mesma cédula que elegerá Romney ou Obama pedirá um “sim” ou um “não”.

Pra um país às voltas com o Mensalão e outros métodos nauseabundos de se conseguir dinheiro para campanhas eleitorais nestes tristes trópicos onde quem decide qual é o seu sindicato é o governo e o dinheiro que o irriga vem de impostos e desaparece para sempre, taí um tema que poderia ser o início de uma discussão no mínimo educativa, né mesmo?

Mas a imprensa brasileira e os correspondentes nos Estados Unidos com quem ela desperdiça o seu dinheiro não mencionam esses pequenos pormenores da eleição americana, deixando, assim, de contribuir para educar o candidato a cidadão brasileiro que não tem a mais pálida noção do que seja uma democracia de verdade.

Em vez disso, reduzem a disputa nos Estados Unidos ao mesmo esquema binário fora do qual não conseguem raciocinar, e torcem o noticiário para lá e para cá para patrulhar as atitudes, propostas ou declarações dos dois candidatos presidenciais como “de esquerda” ou “de direita”, dando provas de que conseguem seguir a manada também em outra língua mas são incapazes de pensar com independência em qualquer uma das ainda faladas no planeta.

Internet, democracia e imprensa: um mundo de confusões

28 de setembro de 2012 § Leave a comment

A natureza da internet continua sendo um tema que provoca confusão por todos os lados.

Mesmo porque, sendo ela uma reprodução matemática da vida real, é tão infinitamente multifacetada quanto aquilo que imita.

Os grandes repositórios de expressões individuais que ela abriga, como o Youtube, por exemplo, equivalem a praças públicas. E assim, culpar o Google pelo que aparece no Youtube,como fez a Justiça Eleitoral de Mato Grosso do Sul esta semana ao determinar a prisão do diretor-geral da empresa no Brasil, Fabio Jose Silva Coelho,faz tanto sentido quanto mandar prender o prefeito de São Paulo pelas ofensas ditas por um transeunte a outro na Praça da Sé. (Podia ser pior, como acontece no Islã…)

É verdade que ao construir uma praça um prefeito está se comprometendo a policiá-la e a fazer com que as leis vigentes sejam cumpridas nela e enquanto a construção de grandes praças virtuais continuar concentrada nas mãos de uns poucos gigantes da internet, caso do Google, os ofendidos correrão a eles para fazer cessar a ofensa que os atinge.

Porque é fácil e prático mais do que porque faça qualquer sentido lógico.

Mas é um precedente complicado porque logo chegará o momento que alguém exigirá o mesmo rigor dos prefeitos em suas praças e aí teremos uma boa discussão sobre que fim levou o direito à livre expressão do pensamento.

Neste caso em particular, aliás, já não seria sem tempo pois a violenta censura que se exerce sobre todos os meios de comunicação de massa para proteger a canalha que nos pede votos é um desses escândalos anestesiados incompreensíveis que “passa batido” neste país que não tem noção daquilo que tem direito de exigir. Não tem precedentes senão nos regimes totalitários praticamente extintos no século 20.

Só neles – e em nenhuma parte mais – os “representantes do povo” ou mesmo os que são ungidos pelos partidos oficiais a se apresentar como candidatos a sê-lo – ganham, desde o momento dessa unção, o direito exclusivo de falar de si mesmos nos meios de comunicação, exceção feita àqueles que só atingem a parcela eleitoralmente insignificante dos que conseguem ler e compreender um texto de complexidade acima da elementar e que, de resto, esses candidatos não conseguiriam mesmo enganar tão fácil.

Toda mídia eletrônica (aquela de absorção passiva por alfabetizados ou não) fica sob censura enquanto o tema eleições estiver em pauta.

Acabar com essa excrecência, por si só, eliminaria uma boa parte da corrupção que nos corrói.

As praças virtuais, entretanto, são usadas, igualmente, para a prática de crimes piores. Mas como a característica do Estado de Direito é dar a essa instituição o monopólio do uso da força, cabe ao Estado e não aos que as criam e as servem das ferramentas e algorítmos que permitem falar, ouvir, ver, ser visto e trocar cumprimentos e bens dentro delas, policiá-las como a qualquer outro espaço público e prender os criminosos que as frequentam – e somente eles, como mandam todos os os códigos e Constituições civilizadas.

A mesma confusão que leva juízes e políticos a exigir dos google da vida o exercício de papéis que não lhes cabem afeta a maior parte dos usuários da internet. Na raiz dela está a memória da era pré-eletrônica quando publicar era caro, ocorria em espaços limitados e, por isso, pressupunha necessariamente seleção e edição centralizadas.

Quase todo mundo que lê na internet ainda lê com esses olhos. Sua memória ancestral conta como certa a existência de um intermediário que leu e aprovou o que foi publicado antes dele, o que o predispõe a uma reverência para com o que lê na maioria das vezes imerecida, assim como à suposição de que a plataforma que abraçou a peça deve ser responsabilizada por ela estar lá.

Mas hoje publica quem quer, o que quer, quando quer e, frequentemente – ou ao menos nessas grandes “praças públicas” da internet – onde quer.

O termo preciso quando se trata da internet, aliás, não é “publicar”. É dizer, ou fazer (na internet).

Só que toda essa avalanche de palavras, imagens e atos de quem diz e faz na internet tão livremente como sempre disse e fez na rua, por falta de expressão mais precisa, é chamada de “informação”, palavra que remete à matéria prima do jornalismo e a outras formas depuradas de transmissão de pedaços de conhecimento.

Essa indiferenciação semântica cria um outro tipo de confusão – difusa, esta – que provoca ferimentos menos localizados mais muito mais insidiosos porque afeta o próprio cerne da democracia.

Como na vida, 99,9% do que as pessoas trocam quando falam umas com as outras não é, propriamente, informação. São impressões, cumprimentos, sentimentos, fofocas, piadas, esgares, imagens, sugestões, cantadas, mentiras ou o que mais do muito que compõe o variado molho do universo das relações humanas que você se lembre de incluir nessa lista.

Os governos de representação, para os quais ainda não se inventou alternativa que inclua a liberdade e a dignidade humanas, entretanto, continuam requerendo, para funcionar, um fluxo permanente de informação (no sentido estrito) entre representantes e representados. Assim como o cidadão maduro para a democracia apendeu a diferenciar informação de calúnia, de mentira, de fofoca ou do que seja para lidar com o sistema representativo de governo no mundo físico, terá de aprender a faze-lo no mundo virtual. E as balizas para isso são as mesmas de sempre.

A veiculação de informação jornalística se diferencia de todos esses variados ruídos por ser uma atividade técnica, balizada por um compromisso formal com regras especiais e públicas de apuração da verdade, de consideração do contraditório e de ética de negócios.

É essa institucionalização da atividade que credencia a imprensa, o chamado 4º Poder, como elemento constitutivo do aparato operacional das democracias.

Para ser mais independente e poder cumprir bem o seu papel de fiscalizar os outros três, as empresas jornalísticas têm de ter regras absolutamente livres para se constituir e se propor ao público como parte do aparato institucional da democracia. Mas isso não significa que elas estejam menos sujeitas que os demais poderes à obrigação de legitimar-se e de submeter-se a uma fiscalização constante. Ao contrário. Não tendo mandato definido, a imprensa tem de ratificar sua legitimidade nesse papel submetendo-se a uma eleição por dia, que é aferida pela sua circulação paga.

Assim foi no mundo físico. Assim será no virtual se continuar existindo democracia e portanto imprensa. Ou se continuar existindo imprensa e portanto democracia.

Distribuindo bondades

14 de setembro de 2012 § 1 Comment

Com mais 25 setores aliviados de encargos, a distribuição de bondades de Dilma já beneficia 40 setores da indústria que, segundo o Valor, pesam 25% da produção industrial.

O impacto será de 12,8 bi em 2013, provavelmente mais porque ha setores que não foram especificamente nomeados mas, afirma-se, também serão beneficiados, e vai se repetir daí por diante enquanto durarem as isenções.

A véspera de eleição e os sinais de improvisação nas medidas põe uma sombra sobre essa história. Não ha nenhuma menção ao corte de gastos correspondentes na outra ponta (a ponta que só gasta).

Mas também é justo lembrar que ninguém fez contas na hora de criar esses encargos pra ver como os que iam pagá-los iam tapar o buraco. Agora inverte-se o ônus: os que cobravam os encargos que façam contas pra saber como tapar o buraco.

O perigo é que, na ida, não havia a chance da conta ser transferida para o Tesouro Nacional que é o outro nome de nós todos, e agora há.

Se, mais adiante, for este o caso, tudo não terá passado de mais um estelionato eleitoral com a mera transferência de encargos de uma para outra das pessoas jurídicas por traz das quais está a mesma pessoa física “Povo Brasileiro” de sempre, a única neste “Brasil S. A.” que realmente produz riquezas. O governo só as empurra pra lá e pra cá, normalmente sem pedir licença.

Dilma está, portanto, criando um compromisso; emitindo uma promissória.

A conferir se ela virá de fato a resgatá-la.

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