Da São Paulo bloqueada para o Brasil: eu sou você amanhã
24 de maio de 2012 § 1 comentário
A greve do Metro de São Paulo ontem, que chega na esteira de uma misteriosa epidemia de “panes” no sistema que costuma se manifestar em vésperas de eleições, é apenas uma amostra do que vai acontecer no país no dia em que a máquina do Estado brasileiro virar “oposição”.
Se pedir aumento de 15% acima da inflação de modo a garantir um “não” e partir para uma greve selvagem assim que ele foi pronunciado pela primeira vez sem sequer tentar negociar não é prova suficiente de que tudo não passa de fabricação de munição para debates eleitorais onde o Metro aparecerá como a maior obra do PSDB no país da infraestrutura zero, o grupinho fascista que invadiu as assembleias da categoria ontem para impedir votações para a retomada do trabalho e manter a greve na marra é.
Depois da debandada da esquerda honesta que se precipitou quando Lula abraçou ostensivamente os sarneys e os collors da vida, sobrou o funcionalismo público e as máfias sindicais cevadas no dinheiro do Estado na militância do PT.
Hoje eles estão no poder e nadando de braçada nas costas do Brasil.
Não é atoa que a renda per capita de Brasília disparou para alturas jamais sonhadas pelos novos quase remediados aqui de fora a quem eles atiram as migalhas da festança.
Mas, se mesmo com a máquina pública remando a favor o desempenho do governo petista é o desastre que se reflete na infraestrutura sucatada que vai expulsando a industria brasileira do mercado mundial e na predação generalizada a que ficaram reduzidas as ditas “obras da Copa”, imagine quando ela estiver jogando contra.
São Paulo tem pago o preço de não se dobrar ao PT.
Um dia o resto do Brasil também se cansará de faze-lo. E então veremos o confronto aberto do Estado petista com a Nação.
Tudo se arruma com uma única reforma
17 de janeiro de 2011 § 3 Comentários
Mais uma safra de desgraças.
Mais uma safra de frustrações.
A TV mostrou ontem que ha 115 mil pessoas vivendo em áreas de risco somente na Grande São Paulo, segundo mapeamento minucioso feito pela Prefeitura.
115 mil!!!
E a serra carioca então? Virou, inteira, uma constelação de favelas, como o resto do Rio; como o resto do Brasil. Igualzinho ao que está acontecendo em toda a Serra do Mar aqui em São Paulo. Os “sertões” das praias do Litoral Norte, que vieram de Cabral até aqui mais ou menos com a mesma cara, nos últimos 10-15 anos, vão tomando os ares miseravelmente caóticos das “Rocinhas” da vida.
A extensão da desordem, por si só, já fornece a desculpa para as mortes dos próximos muitos verões.
Como remover tudo isso até o próximo?

Como remover isso um dia, qualquer que seja, se as “autoridades” com a atribuição de faze-lo são as mesmas que muitas vezes lideraram e, em todos os casos, sancionaram essas invasões das áreas de risco?
Reconfirmada a nossa impotência como cidadãos, lá vai o Brasil de novo, entrando na senda do conformismo.
As TVs “enlatarão” a emoção da desgraça da hora enquanto durar a curiosidade sobre ela, mas basta o sol voltar a brilhar e o carnaval ocupar as telinhas com suas bundas tremelicantes para que também os cadáveres da Serra do Rio sejam esquecidos.
Afinal, tudo, no Brasil, está torto e precisa ser endireitado.
É coisa demais! Desanima qualquer um!
O jeito é “ligar o foda-se” e seguir adiante, cada um por si, porque a vida é uma só.
Se a gente for esperar o Brasil mudar, não vive.
Soa familiar?
Esse raciocínio já lhe passou pela cabeça?
Não é atoa!

Mas eu insisto: essa impressão é um engano.
As vidas perdidas, as mutilações, as felicidades roubadas em função das enchentes, do mau estado das estradas, das fugas e assassinatos dos “indultados” de cada Natal; a roubalheira desenfreada das vésperas de eleição, a corrupção policial, o crime organizado, a indústria do achaque contra quem trabalha, o descalabro dos hospitais e da educação públicos, a irracionalidade dos impostos que nos empobrecem a todos, tudo isso e muito mais é fruto da mesma distorção original e só pode ser corrigido por uma única e solitária reforma: o fim da impunidade no topo da cadeia de comando.
Tentar eliminar, um por um, todos os efeitos da força que entorta todo o sistema político brasileiro é tarefa impossível. Mas se cada um “deles”, cada um dos que têm o poder de nomear e a obrigação de agir, souber que pode ser sumariamente demitido, ter sua carreira encerrada e se ver em apertos de fato com a Justiça a qualquer momento por “dá cá aquela palha”, como se dizia antigamente, aí o problema passa a ser deles. Então – e só então – eles passarão a jogar a seu favor. E, rapidinho, tudo isso se corrige como num passe de mágica.
Porque exatamente como acontece com a impunidade, a responsabilização também só funciona em cadeia.
O fiscal da prefeitura só proibirá construções em área de risco e tratará de fazê-lo antes que seja tarde se ele souber que o surgimento de uma única e solitária construção numa área de risco já implicará, imediata e inapelavelmente, na sua demissão, no fim da sua carreira e, possivelmente, em mais que isso em alguma penitenciária do Estado (se ele tiver sido pago para fechar os olhos).

O fiscal só será inapelavelmente demitido diante do surgimento de uma construção em área de risco se o Secretário que o nomeou for inapelavelmente demitido se não demitir seu subordinado num prazo previamente estabelecido sempre que ele for flagrado em delito.
E o Secretario só será liminarmente demitido se tergiversar com os erros e falcatruas dos seus fiscais se o Prefeito que o nomeou for sumariamente demitido toda vez que tergiversar com os erros e as falcatruas dos seus Secretários.
A mesma coisa vale para governadores e presidentes da Republica.
Mas prefeitos, governadores e presidentes da Republica só podem ser sumariamente demitidos quando tergiversarem com as falcatruas e ilegalidades praticadas por seus subordinados se os representantes eleitos pelo povo nos legislativos forem sumariamente demitidos toda vez que fizerem vistas grossas para os flagrantes de ilegalidade dos membros do Poder Executivo que eles são pagos para fiscalizar e, quando for o caso, “impedir” (de “impeachment”).

Libere qualquer um deles da ameaça de demissão a qualquer hora e por qualquer motivo que o eleitor achar suficiente, e você estará liberando todos. Impunidade ou responsabilidade são como gravidez. Não existem pela metade. Ou valem para todos ou não valem para ninguém.
Os Estados Unidos quase acabaram, no final do século XIX, roídos pela corrupção de políticos que suas instituições não tinham força para alcançar e punir. Inventaram, então, o voto distrital, para definir quem representava quais eleitores, e deram a esses eleitores a prerrogativa de “reconvocar” (recall) seu representante por simples “quebra de confiança”, ou seja, sem necessidade de especificar a razão. Basta circular uma lista pelo distrito eleitoral. Se 5% ou mais a subscreverem (o numero varia de Estado para Estado), convoca-se nova eleição que derruba ou reconfirma o cara. Isso vale para qualquer funcionário eleito. E lá quase todos os que têm funções executivas, de policiais a professores, de vereadores a presidentes da Republica, passando por tudo que está no meio, o são.
Isso reduziu a roubalheira e a ineficiência a limites jamais alcançados por qualquer outra sociedade moderna, pôs os legisladores fazendo leis a favor do povo e não de si mesmos e fez daquele país a maior potencia do mundo.
A discussão lá, hoje, é em torno do direito de eleger e cassar também os juízes de direito.

A imprensa, os blogs e a eleição
5 de janeiro de 2011 § 1 comentário

Respondi hoje um questionário da California State University, onde leciona uma ex-colega do Estadão, sobre a cobertura da imprensa e dos blogueiros da rede da nossa ultima eleição. Ainda que algumas respostas tenham sido telegráficas, acho que o questionário pode interessar aos leitores do Vespeiro.
1. Como você classifica a cobertura da imprensa online em geral sobre as eleições presidenciais de 2010?
- Muito boa
- Boa
- Regular
- Fraca
- Muito Fraca
- Ruim
- Outro (especifique)
2. Por que?
A dos jornalões online tem os vícios dos jornalões de papel.
As dos grandes portais são viciadas pelos interesses das teles associadas ao ou dependentes do governo que estão por trás deles.
As dos chamados “independentes” estão viciadas ou pela militância disfarçada mas centralmente organizada e orquestrada (fenômeno novo em que o PT se esmerou) ou por diversos graus de radicalismo.
Resumo: o “admirável mundo novo” continua recheado pela velha e desprezível humanidade de sempre…

3. Qual o diferencial oferecido pelos colunistas online e/ou blogs produzidos por jornalistas com credibilidade em relação à mídia tradicional? Defino jornalistas com credibilidade aqueles com experiência profissional reconhecida associados ou não a empresas jornalísticas.
Eles continuam, como sempre foi no Brasil e é cada vez mais nos EUA (preocupante essa radicalização aí!), muito marcados ideologicamente. Ha, quase sempre, mais opinião que informação. Difícil separar o joio do trigo…
4. Qual o diferencial oferecido pelos colunistas online e/ou blogs de jornalistas com credibilidade reconhecida em relação aos websites de portais de noticias e outros veículos online?
Assumem mais claramente suas posições enquanto os main stream tratam de (mal) disfarçar as suas sob um manto de “objetividade”, o que me parece mais honesto e permite ao leitor posicionar melhor o seu senso critico.
Em geral não houve esforços coordenados de grupos de jornalistas independentes nesta eleição. E quando houve, foi ideologicamente inspirado e/ou financiado por fontes suspeitas.
Muito poucos esforços (na verdade nenhum que eu conheça) para atuar explicitamente nas brechas identificadas do jornalismo main stream.
Não vi ninguém com pautas independentes criativas.
Todos, como sempre, se deixando pautar pelas fontes…

5. Na sua opinião, a cobertura online acertou em que aspectos? Errou em que aspectos?
Marina Silva foi objeto de um esforço relativamente inovador em matéria de uso da web.
Contratou um trabalho profissional que se inspirou no modelo Obama e marcou alguns gols, inclusive e principalmente em matéria de doações de pessoas físicas, coisa inédita no Brasil.
Também trabalhou bem as ferramentas sociais da rede, promovendo ondas bem planejadas de repercussão dos movimentos da candidata.
Mas isso não é cobertura, exatamente.
É campanha.
Deveria ser objeto de cobertura…
6. Houve censura? Houve auto censura?
Houve um nível fortíssimo de patrulhamento, que incluiu esforços organizados e sistemáticos da militância petista até nas seções dos leitores dos jornalões online.
Foi algo que, se um dia for estudado na minucia (e certamente deveria), causará surpresa e escândalo.
A rede também foi “aparelhada”.
A rede, alias, como tudo mais, é neutra enquanto ferramenta. Amplifica tudo que se joga lá dentro, all the shit inclusive…

7. Os colunistas online e autores de blogs foram parciais e/ou partidários?
- Sim
- Não
- Outro (especifique)
8. Por que?
(já respondido)
9. Os colunistas online e autores de blogs atuaram com independência?
- Sim
- Não
- Outro (especifique)
Alguns sim…
10. Por que?
(já respondido)
11. Os colunistas online e autores de blogs foram influenciados pelas fontes?
- Nem um pouco
- Um pouco
- Muito
- Extremamente
- Outro (especifique)
12. Por que?
(já respondido)
13. Os colunistas e autores de blogs discutiram os planos de governo dos principais candidatos à presidência mais do que outros temas?
- Sim
- Não
- Outro (especifique)
14. Por que?
Ate certo ponto, sim.
Censura à imprensa e outros temas momentosos incluídos no PNDH, o programa de governo do PT disfarçado em documento independente do governo para evitar retaliações eleitorais, especialmente os mais assumidamente antidemocráticos foram, assim como na imprensa main stream, os mais debatidos ao longo do processo.
Não vi muita diferença entre independentes e main stream nesse aspecto.
A grande novidade foi, sim, o aparelhamento da rede pela militância de forma claramente organizada para fazer fogo de encontro ao repudio da opinião publica a essas propostas autoritárias
15. Os colunistas online e autores de blogs discutiram a personalidade dos candidatos e/ou a corrida eleitoral mais do que outros temas?
- Sim
- Não
- Outro (especifique)

16. Por que?
(já respondido)
17. Quais as questões éticas enfrentadas pelos colunistas online e autores de blogs na cobertura das eleições presidenciais de 2010?
(já respondido)
18. Como você procurou cobrir a campanha eleitoral?
Peças de opinião/informação.
Agregação e edição de noticiário alheio.
Muitos filmes mostrando posições do passado e do presente dos candidatos.
Entrevistas com interpretações das votações.
O material disponibilizado no Youtube, alias, merece destaque nesta eleição.
Se nossos jornalistas, independentes ou não, não mudaram grande coisa, o sistema de registro de documentos e de sua disponibilização para toda a web é, em si mesmo, revolucionário.

Como não se mudam imagens nem gravações sonoras o choque entre o “antes” e o “depois” nas posições de Lula e do PT e os flagrantes de corrupção filmados tiveram grande impacto e foram muito usados por toda a web independente, foçando ate os jornalões e redes de TV cujos editores teriam preferido não faze-lo a se lembrar de certas passagens.
Isso influenciou a pauta geral da imprensa.
Incomodou especialmente o PT que, muito mais que os proprietários, sempre deteve o controle das redações, a tal ponto que foi alvo até da ação de hackers organizados.
O famoso filme de Waldomiro Diniz recebendo suborno na sala ao lado da de Lula, por exemplo, sumiu do Youtube onde esteve por alguns anos, ate agora sem explicação.
Outro efeito notável é que a ausência de limitação de espaço na web proporcionou coberturas ou agregações de coberturas que, no final, ao menos para os mais atentos, deixou claro o que os editores de cada jornalão preferem cortar de suas coberturas com a desculpa da limitação de espaço.
Está ficando mais difícil ser desonesto na edição…
19. Você utilizou elementos de multimídia ao cobrir a campanha eleitoral? Marque as opções cabíveis.
- Fotos
- Video
- Audio
- Gráficos
- Animação
- Cartuns
- Outro (especifique)

O teste da Dilma virá logo
1 de novembro de 2010 § 1 comentário

Um fato me chamou a atenção nos últimos lances desta campanha. Dilma mostrou muito mais agilidade do que Serra em incorporar ao seu discurso as indicações vindas das ruas. E isso foi decisivo para esvaziar ainda mais o discurso da oposição.
Aproveitando-se da hamletiana aversão de Serra a empunhar qualquer bandeira clara, foram pegando todas as que lhes passavam pela frente. Até a ameaça do autoritarismo eles conseguiram dissolver parcialmente. Na reta final só sobrava mesmo a corrupção pesando indiscutivelmente contra a candidatura do PT.
Em principio, é assim mesmo que a democracia funciona. Não é o povo que deve correr atrás de invenções de lideranças iluminadas; são elas que têm de captar e dar forma institucionalizada às que a voz das ruas lhes sopra.
Saber se essas apropriações da candidata petista refletem virtudes autenticas dela ou só aquele tipo de esperteza barata do seu patrocinador é coisa que logo adiante saberemos. Por enquanto cabe só registrar que aconteceram.
Desde o fatídico comício de Campinas onde Lula, depois de tomar umas e outras, desembestou no palanque contra a liberdade de imprensa e contra a democracia, Dilma já começou a reforçar o seu compromisso com as duas coisas.

Ontem, no discurso da vitória, reafirmou com toda a ênfase possível esse compromisso. Disse e repetiu mais de uma vez que não ha democracia sem liberdade de expressão e de imprensa, que lutou pela primeira com risco da própria vida e que vai zelar pessoalmente pela garantia das duas.
No ultimo debate na Globo também me surpreendeu a convicção com que ela falou nas virtudes da redução dos impostos. Em contraste com a posição de Serra que, na sua irritante obtusidade, não acenou com nenhuma perspectiva de aliviar o garrote no pescoço dos contribuintes mesmo depois de ter denunciado o exagero do aperto em que ele está, Dilma arranjou meios de voltar mais de uma vez ao ponto para falar de sua intenção de repetir, agora de forma sistêmica, a experiência concreta do governo Lula de reduzir temporariamente alguns impostos na crise (automóveis, imóveis, linha branca), o que “fez toda a economia ir para a frente e, no fim das contas, até o governo arrecadar mais”.
Para quem não se lembra, isto é nada mais nada menos que o hino do neoliberalismo.
Na mesma linha de raciocínio, mencionou mais de uma vez a experiência “fordista” de Lula de irrigar as raízes mais secas (pobres) da árvore da sociedade e, assim, promover um efeito virtuoso pela planta acima.

Ontem, no discurso da vitória, Dilma de novo repisou heresias (para o credo petista). Alem de reafirmar os valores da democracia e comprometer-se solenemente com eles, saudou a oposição, pregou a reconciliação nacional, condenou o espírito de facção, reafirmou o compromisso de seu governo com os contratos e a legalidade insistiu na necessidade urgente de cortar gastos públicos para manter a estabilidade da economia e – a maior de todas – pregou a instituição de uma meritocracia no serviço publico.
E desta vez não estava mais à caça de votos. Falava com a eleição ganha apenas para a militância petista que, por sinal, recebeu suas palavras com frieza ainda maior que aquela com que ela as proferiu, sem se afastar um milímetro do texto escrito à sua frente. O único momento em que saiu dessa atitude fria e provocou reações no auditório foi para mencionar, entre lagrimas, a “genialidade” do “nosso guia”, o grande inventor do Brasil. Um interlúdio que, como lembrou um comentarista ontem, nega, de certa forma, as afirmações anteriores, mas que é desculpável para as circunstancias.
Muitos explicadores do Brasil têm dito a quem tenta entendê-lo que “este não é um pais para principiantes”. Não cabe em qualquer figurino estabelecido.
Não ha como negá-lo.

Lula conquistou o Brasil tornado-o mais rico. É verdade que não poderia tê-lo feito sem a corrida planetária pelo ouro das commodities determinada pela China. Mas, pela parte que lhe coube, o fato é que consolidou a oportunidade que lhe passou pela porta abraçando com muito mais decisão que o PSDB algumas das ferramentas típicas do tão execrado consenso de Washington.
Como não está preso a uma trajetória intelectual ou a qualquer tipo de elaboração própria nesse campo, Lula não tem nenhum compromisso de coerência ideológica que o impeça de identificar qualquer expediente que possa servir ao seu propósito básico de agradar para conquistar e manter o poder, este sim, o foco do qual nunca se desvia. Agarra sem titubear o que lhe parecer mais apropriado para o momento sem preocupações com direitos autorais e, muito menos, medo do “quiéquiéisso companheiro” que tanto assusta personagens com auto-estima e posicionamento mais baixos na hierarquia do esquerdismo tupiniquim. Se calhar, diz mesmo que a invenção é sua, ainda que se trate da boa e velha roda.
Esse tipo de desprendimento não é característico do PT. Lula é a exceção tolerada porque se impôs desde sempre como a força carismática sem a qual o partido nunca chegaria ao poder.

Acontece que o problema que ele precisava resolver com mel era conquistar o poder. Agora o problema é manter o poder conquistado.
E se esta eleição provou alguma coisa é que, sem a figura de Lula à frente, o controle absoluto da máquina do Estado é a condição para o PT continuar no poder. O uso desenfreado da maquina do Estado para ganhar eleições não combina nada com as promessas do discurso inaugural de Dilma. E como acabar com o espírito de facção num Estado aparelhado para um projeto de poder? Cortar gastos públicos sem tocar nos “direitos” de um funcionalismo inchado e constituído integralmente de agentes filiados a um partido político? Como cortar despesas com 10 partidos aliados clamando por cargos? Como manter o compromisso com a legalidade de um governo que se instalou desafiando a lei eleitoral e pondo o Judiciário diante da opção “omita-se ou enfrente o risco de obrigar-me a cumpri-la”? E como impor a meritocracia num serviço publico cuja marca ostensiva é a partidarização e o loteamento de cargos entre uma dezena de partidos?
Com a ascensão de Dilma sobe junto com o rebotalho sindical instalado no núcleo central do PT, que mal contem a ânsia de 12 anos risonhos vendendo proteção (contra a aplicação da lei) e influência (para o acesso aos negócios com dinheiro publico), a carcomida máfia dos velhos coronéis do Congresso com a sua legião de interpostos ladrões e apaniguados. E cleptocracias impunes – é fato histórico – não podem conviver com a liberdade de imprensa.
Espero que ela esteja sendo sincera nas suas intenções. Se estiver, vai sofrer muito. Mas, de qualquer maneira, o teste de Dilma não deve demorar. Uma dessas duas coisas – a ladroagem impune ou a liberdade de imprensa – vai ter de acabar.

Acorda, Brasil!, versão surrealista
31 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

“_ O candidato aí ao lado fica, agora, fazendo cara de santo mas a verdade, todo mundo sabe, é que quando ele estava no governo fez tudo para livrar o Brasil do câncer…”
“_ Eu?! Mas isso é uma calunia! Eu nunca disse que queria livrar o Brasil do câncer. Nunca movi uma palha nessa direção. Ao contrário. Fica aqui estabelecido o meu compromisso solene: eu vou manter intacta cada célula cancerosa que sobrou na economia deste pais e defenderei ate a morte o nosso direito soberano de permanecermos doentes”.
“_ Mentira! Moveu sim! Todo mundo sabe que foi o governo que o candidato servia que deteve a metastese que estava em curso. Tanto trabalho para ir tomando órgão por órgão e então lá vieram eles, com aquela arrogância típica dos médicos, nos impor a maldita saúde. Tanto que baixaram a febre que a doença causava de 2000% para 5% ao ano…”
“_ A candidata mente! Eu jamais propus que o organismo económico nacional fosse curado. Inclusive, quando for eleito, vou deter qualquer tentativa de acabar com o que resta da doença…”
O caráter surrealista do discurso que dominou esta campanha e o generalizado rebaixamento do nível de tolerância critica que se depreende da pouca reação que ele provoca é o dado mais impressionante deste momento crucial da vida nacional.
(siga a partir do segundo parágrafo do artigo abaixo)



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