Acorda, Brasil!

29 de outubro de 2010 § 2 Comentários

(Repasse para todos os seus contatos se achar que isso pode ajudar)

O caráter jurássico do discurso que dominou esta campanha e o generalizado rebaixamento do nível de tolerância critica que se depreende da pouca reação que ele provoca é o dado mais impressionante deste momento crucial da vida nacional.

Ponho de lado a massa de manobra dos resgatados da miséria que não se podem dar o luxo de fazer objeções de consciência às intenções antidemocráticas que movem quem lhes dá a assistência que os mantém à tona, por mais claras e explícitas que elas sejam.

Também não é o PT que me provoca estranhamento.

Você conhece algum petista que não tenha um emprego publico? Ou algum empregado publico que não seja petista?

Pois é. Não é mera coincidência.

No passado, antes da utopia se transformar em pesadelo, o petismo, com o resto da esquerda, explorava fundamentalmente o medo ancestral que cada um de nós sente “do outro”; o nosso justificado horror à competição; o sonho imemorial da libertação da escravização pela necessidade.

O homem sempre balançou diante da sugestão de sacrificar sua liberdade por essa miragem.

Mas o socialismo real provou mais uma vez que, se lutar por espaço é um horror, a alternativa para isso é o parasitismo pois em todo o reino da Natureza, neste mundo onde é preciso comer, não ha almoço grátis. Ou você caça o seu, ou você rouba o do vizinho.

Assim, o que sobra do sonho, cada vez que se cede a ele, é a impiedosa exploração dos sonhadores pelos vendedores de miragens.

O petismo que sobreviveu ao fim do socialismo real, lá atrás, e à debandada da esquerda honesta depois da ascensão do lulismo, é isso. O extrato concentrado dos que, pelos caminhos que nós todos conhecemos, conseguiram por um pé dentro do Estado, o único “patrão” no mercado que esta dispensado de produzir e vender para continuar empregando, e hoje desfrutam os privilégios que disso decorre.

Para eles a vida não melhora se, e somente se, trabalharem mais e melhor que o vizinho, como acontece aqui fora. Lá onde o jogo do poder prevalece sobre o esforço e o mérito, chora menos quem reivindica mais. Progride-se na carreira trocando lealdade por cargos. O salário aumenta em função da “luta” com aspas, aquela dos discursos dos sindicalistas pelegos e dos políticos com poder de outorgar promoções e “conquistas” independentes do merecimento que se transformam instantaneamente em direitos adquiridos perpétuos, transferíveis por herança como nos tempos do feudalismo.

O privilégio, como sempre aconteceu na História, se conquista com mentiras. Uma vez na mão, a verdade se restabelece. Daí por diante, trata-se de defende-lo com unhas e dentes, sem ilusões nem utopias.

Para essa elite sem aspas que tomou o Estado de assalto, que tem o poder de legislar em causa própria, determinar o valor do próprio salário, se aposentar mais cedo e mais rica, permanecer imune às crises e não se apertar com as pequenezas da luta diária para não perder o emprego, a defesa da estatização não é apenas natural e plena de sentido. É um imperativo de sobrevivência.

Vista por esse angulo a obsessão de Dilma com a “ameaça” da privatização faz todo sentido. É, antes de mais nada, o discurso de mobilização da militância. A ordem unida para mantê-la disposta a tudo. Em bom português, quer dizer o seguinte: “A hora é agora! É tudo ou nada! Ou vocês se agarram pra valer, ou perdem a têta!”

Mas porque é que, em pleno Terceiro Milênio, com a União Soviética morta, Cuba se arrastando de greve de fome em greve de fome, a China, que modera reivindicações trabalhistas com tiros na nuca, entregue ao capitalismo de Estado e a aldeia global plenamente instalada e atuando em rede a eleição brasileira tem de girar em torno de estatizar ou não estatizar a economia; demolir ou não demolir os pilares da democracia, começando pelo da liberdade de imprensa?

Quando a campanha sai desse samba de uma nota só é para acenar com a generalização da educação publica como uma panacéia salvadora. Mas ninguém faz uma única referencia sequer ao fato clamoroso dela estar infiltrada de cabo a rabo e instrumentalizada para nos transformar na ilha ideológica fora do tempo e do espaço que esta campanha provou que somos.

Não é evidente para qualquer um que quanto mais tivermos da “educação publica” que temos, pior ficará a situação?

É aí que se começa a vislumbrar a tomografia do pais. O que está acontecendo abaixo da superfície.

Ha um incomodo descompasso entre o discurso dos que relatam e dos que debatem o país e a realidade que já está nas ruas. Um estranho pudor em afirmar aquilo que todo mundo sabe que é a verdade. Até na imprensa, o templo sagrado da critica, ressalvadas algumas exceções individuais e certas paginas de opinião, passam como retos os discursos mais tortos sem nenhum sinal visível de estranhamento.

O próprio candidato da oposição, indiscutivelmente um autêntico democrata, é a síntese desse fenômeno em sua permanente hesitação.

O sistema inteiro falhou. Somos Os Rinocerontes de Ionesco, que não enxergamos os chifres que nos estão crescendo à frente do nariz. O pais está intoxicado pelo veneno que ha anos vem lhe sendo instilado nas veias à traição mas não dá sinais de ter consciência de que está doente. E enquanto não tiver essa consciência, não se submeterá a tratamento.

Domingo assistiremos à ultima prova de força do hibrido antropofágico de Granmsci com Macunaíma que regeu o país nos ultimos oito anos e esta regendo esta eleição mesmo sem concorrer a ela. Se permitirmos que vença estaremos entrando num túnel cuja primeira saída visível está a 12 anos de distancia. Mas já a partir da próxima segunda-feira começará o trabalho do lulismo para honrar a promessa tantas vezes reiterada de fechá-la antes que a alcancemos.

O caminho para baixo estará, então, aberto. E que não haja ilusões. Quando uma sociedade perde um certo degrau que ninguém sabe exatamente em que altura está, não ha mais limite para o quanto se pode descer. A Argentina, com seus 150 anos de decadência, está aí para nos lembrar disso.

E o debate ainda não bate

18 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

Entra debate, sai debate, a regra de ouro dos marqueteiros que os candidatos seguem cegamente não muda: “seja qualquer coisa, menos o que você é; diga qualquer coisa menos o que você pensa”.

Será mesmo que Deus desenhou tão mal o aparato de comunicação dos humanos que ele pode ser aperfeiçoado por qualquer marqueteiro de dez tostões a hora? Será que os nossos candidatos são mesmo capazes de defender com mais autenticidade aquilo que outra cabeça, que não a sua, formulou, do que aquilo em que eles próprios acreditam? O que leva os que pedem o nosso voto a nos humilhar com um discurso que, acima de tudo, nos toma a todos como imbecis incapazes de enxergar a realidade que nos tromba na cara?

É difícil entender.

Pois se existe uma regra reafirmada por todos os estudos jamais feitos sobre comunicação em televisão, é a que constata que muito menos que o que você diz, o que realmente importa para criar empatia ou antipatia com o publico é o grau de autenticidade com que você o diz.

É unanimidade nacional, por exemplo, a afirmação de que é isto que explica os 20 milhões de votos que Marina Silva recebeu mesmo sendo uma novata em eleições sem patrocínio de nenhuma velha raposa da política nem o concurso de nenhuma máquina eleitoral solidamente instalada em cargos públicos pelo pais afora como aquelas com que contam seus concorrentes.

Que o PT siga cegamente o roteiro do marketing, é compreensível. O PT é um produto do marketing. A condição para que Lula chegasse à presidência da Republica foi assinar o compromisso solene de não ser aquilo que ele é. Teve de virar “Lulinha paz e amor” e sempre que tira a fantasia é punido pelo eleitorado. Dilma está tendo de repetir a dose. Teve de assinar outro prometendo que não fará nada do que se comprometeu com seu partido fazer. Dilma, aliás, nem Dilma é. Dilma desempenha um papel. Declara-se formalmente como mero personagem. Dilma é Lula. Assim, quando tem de se manifestar sozinha no palco não pode mesmo fugir do script. E sendo ruim de improviso como é, torna-se monotemática. Fala exclusivamente da maravilha que seria o Brasil se transformasse todas as suas empresas em petrobrazes, com ênfase no “brás” (e as recheasse de petistas com direitos especiais vitalícios, transferíveis por herança aos seus filhos e netos como acontece nas que já existem).

Você se lembra de algum outro assunto que ela tenha abordado nesta campanha?

Ah! É verdade. Ha também a culpa do Fernando Henrique quando chove para quem queria sol ou quando faz sol para quem queria chuva, não importa a quantas décadas de distancia se esteja do governo dele.

Já quanto ao Serra às vezes chego a me animar com ele. A achar que ele começou a se dar conta de que existe vida inteligente fora do marketing político. A apenas 16 horas de distancia do fim do ultimo debate tento me lembrar do que foi dito nele e não mais que dois ou três momentos me assomam à memória. Sempre aqueles em que ele saiu do script e se aproximou da expressão das verdades universalmente conhecidas, acatadas até mesmo no Brasil. A saber, que só pode ser mau para o consumidor ter de se enfrentar com monopólios, ainda mais se eles incluírem, além da produção, também a distribuição de bens de necessidade básica como petróleo ou gás; que a primeira e mais comum das formas de utilização de estatais no Brasil é empregar amigos, parentes e correligionários para controlar as grandes sesmarias da corrupção nacional e se preservar no poder; que o PT tem horror à idéia de “conferir desempenho” e por isso o serviço publico é o que é…

Qual é o brasileiro que não tem certeza absoluta sintética disso tudo, meu deus do céu!

Então porque isso tem de ser a exceção e não a regra no discurso do Serra? Porque não reafirma para os eleitores aquilo que todos eles já sabem mas muitas vezes esquecem em função de outro tipo de afago que recebem? Porque não explica didaticamente qual a relação entre o horror que o petista que vive de têta (e você conhece algum que não viva? que seja um ás no universo da competição aberta pelo emprego privado?) tem da idéia de condicionar trabalho a desempenho e a sua insistência em estatizar tudo? Entre o crescimento do caixa do partido e a multiplicação dos cargos públicos? Entre a ocupação do Estado e o crescimento da corrupção?

Porque, às vésperas da ultima oportunidade numa campanha polarizada, Serra segue se esmerando mais para exibir aquilo que o torna semelhante que aquilo que o diferencia de Dilma?

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.A libertação dos artistas e dos intelectuais

Um dos grandes marcos desta campanha eleitoral é a superação da patrulha ideológica nos meios artísticos e intelectuais. Fora Chico Buarque de Holanda e Oscar Niemeyer é difícil citar quem mais, nesse meio, continue cegamente “engajado” com qualquer lado, assumindo comportamentos e lealdades caninas independentemente de participação do cérebro, sejam quais forem os escândalos que assomem ou as evidências que lhe batam na cara.

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.Invasões bárbaras

“O PT ocupou a maquina do Estado como as tropas de um pais que invade outro”.

A frase é de um texto que circula na internet atribuído a Marília Gabriela. Sendo dela ou não, a descrição é perfeita.

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.Porque caíram os assassinatos em SP

Uma das bolas que Serra levantou já por duas vezes nos debates mas ainda não “chutou em gol” é a questão da queda do numero de assassinatos em São Paulo.

Ele não tirou desse fato tudo que deveria tirar talvez porque seja uma obra de Alkmin. A imprensa, aliás, é outra responsável pelo desperdício dessa experiência de significado tão decisivo num pais onde, em pleno Terceiro Milênio, estatização ainda é tema de campanha eleitoral e cobrança de desempenho no serviço publico segue sendo tabu.

Os assassinatos caíram 70% em São Paulo exclusivamente porque Alkmin, quando governador, instituiu rito sumario para o julgamento de casos de corrupção na policia. Acabou com os processos administrativos intermináveis, feitos para garantir a impunidade que está na raiz da doença terminal do serviço publico nacional. Com isso ele, em menos de dois anos, renovou toda a cúpula da policia paulista e desinfetou o foco de desmoralização que é a permanência dos traidores ao lado dos traídos, dos criminosos ao lado das vitimas da corrupção policial dentro das próprias fileiras da policia.

Quando fizerem isso na educação publica e nas demais categorias do serviço publico, teremos um salto de qualidade igual ao que Alkmin colheu na segurança púbica de São Paulo.

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.Será?

O Estadão noticia hoje o escândalo que já esta chacoalhando a Europa, em torno do suborno de alguns cartolas da FIFA que vendem o seu voto para a escolha dos países sede das Copas do Mundo.

Repórteres do Sunday Times se apresentaram como agentes da candidatura norte-americana a sediar as copas de 2018 ou 2022 e foram achacados por pelo menos dois dos 24 eleitores que decidem isso na FIFA.

Como terá sido na decisão da copa de 2014?

Imprensa também faz mal

13 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

A imprensa é como as mulheres: não dá pra viver sem elas; não dá pra viver com elas.

Mas pelo menos, até segunda ordem, ainda podemos criticá-la.

Meu avo, que era insuspeito de preconceitos nesse assunto, dizia que a manipulação da imprensa é um crime muito pior que o trafico de drogas porque, pelo alcance que tem, provoca danos muito maiores.

No caso do factóide da “questão religiosa” que, graças a ela, tomou conta da eleição, ou a imprensa está manipulando, ou está se deixando manipular.

Eu ainda aposto na segunda hipótese, que é pior do que a primeira. Porque para manipular é preciso inteligência e personalidade, ainda que voltadas para o mal, enquanto para ser manipulado basta a falta de senso critico e a insegurança de quem não está à altura da função institucional da imprensa, a única que justifica a sua existência e os privilégios de que ela desfruta nas democracias. Nesse jornalismo sem critério de hoje, em que se tem medo de perguntar e horror de raciocinar (o tipo de expediente que em campanha eleitoral o PT chama de “baixaria”), todo mundo corre atrás do próprio rabo, pauteiro atrás de pauteiro entrando em roubada atrás de roubada por medo de se deixar “furar” pela roubada do vizinho.

É que nem bando de peru. Alguém passa do lado e grita “glu-glu” e a peruada toda explode em “glu-glus” que não acabam mais.

E a coisa mais fácil do mundo hoje é fazer a imprensa gritar “glu-glu”.

A Folha de hoje, por exemplo, dá a segunda força da sua primeira página para um “panfleto anti-PT que circula em missas”. A Folha é a dona do Datafolha que, em pesquisa publicada ontem na Folha, mostrava com dados concretos que a afirmação de que a “questão religiosa” virou a eleição é falsa. O que fez 5 em cada 6 eleitores que mudaram de voto mudar de voto foi a roubalheira do PT na Casa Civil e o tom autoritário do Lula nos comícios, tom autoritário este que se traduz nas suas reiteradas ameaças de acabar com a liberdade de imprensa e “extinguir” a oposição.

Ontem também, com todos os outros jornais, a Folha noticiava as comemorações dos petistas por terem, apesar das evidências em contrário medidas pelo Datafolha, conseguido fazer a eleição se deslocar da ladroagem na Casa Civil e da truculência antidemocrática do Lula, que punham a Dilma na defensiva, para o factóide da “questão religiosa”, proeza alcançada com a inestimável ajuda da imprensa, justamente a principal interessada em impedir que tal falcatrua colasse.

O Estado poupou seus leitores na sua primeira página de hoje mas abriu a cobertura da campanha com três páginas seguidas em cima do factóide que, baseado no preceito de Sherlock Holmes de perguntar sempre “a quem interessa o crime”, cada vez tenho mais certeza, é uma invenção do próprio PT.

Mas vamos que não seja. Vamos que algum “esperto” da campanha do Serra, onde faltam “espertos” até para faturar bem o debate que ele venceu, é que anda pelas igrejas distribuindo esses panfletos.

E daí?

Desde quando é proibido padre e pastor votar ou sair por aí cabalando votos para os candidatos que ache melhor, como é direito de todo e qualquer brasileiro menos um, segundo a legislação vigente?

E quem seria este um a quem essa atividade é vedada? O excelentíssimo senhor presidente da Republica, no momento Luis Ignácio Lula da Silva aquele que não só não sai de cima dos palanques ha mais de seis meses como, nos últimos dois, paralisou o governo para poder seguir fazendo campanha pra Dilma full time, na cara dos juízes e dos tribunais que estão acuados num canto, entre outros motivos, pela razão principal de que a imprensa cobra mais o silêncio de dois ou três padrecos por aí que o silêncio dele que, este sim, altera eleições, vende gato por lebre, engana incautos, suborna miseráveis, mente, calunia, dá alvará a ladrões e, principalmente, pisa na Lei ameaçando criar uma crise institucional se cobrarem dele o cumprimento dela.

Mas, como eu dizia no comentário de ontem, que importam os fatos? Se eles chegarem a incomodar é só passar perto de uma redação e gritar “glu-glu”. O resto os “jornalistas” fazem sozinhos…

PS.: Quem quiser conhecer um caso emblemático do que estou dizendo sobre como a imprensa trabalha leia o artigo de Jose Neumanne Pinto no Estado de hoje neste link

O PT não sobrevive à verdade

12 de outubro de 2010 § 2 Comentários

“Aborto, calunia, privatização; aborto, calunia, privatização; aborto, calu…”

Com isso Dilma abriu o debate. Com isso Dilma empurrou o debate até o final. Sem medo de ser Maluf, qualquer coisa que se lhe perguntava, lá vinha o mantra: “aborto, calúnia, privatização”…

Dilma conseguiu tirar Serra de onde ele nunca deveria ter saído: “corruptos, antidemocráticos, duas caras; corruptos, antidemocráticos, duas caras…”

Pegou mal?

Errou na dose de agressividade?

Não tem problema. O PT não vive de fatos. O PT vive de versões. Afinal, o que é “reescrever” um debate para quem tem vivido de “reescrever” a própria História?

Nisso sim, eles são imbatíveis!

Mal amanheceu o dia, lá estava, em todas as televisões, o debate “reescrito” onde só a Dilma atacava e, no lugar das respostas de Serra, entrava o locutor do PT para ajudar o espectador a “raciocinar”.

Serra venceu o debate que passou só uma vez, altas horas da noite, quando o Brasil dormia. E enquanto os serristas alegremente comemoravam a vitoria que poucos viram, Dilma “vencia” o debate “reescrito”, repetido dezenas de vezes no horário em que o Brasil inteiro está acordado.

Por mais que eles repitam o truque, os adversários não aprendem. Quando reagem é para aceitar ingenuamente a briga dentro do campo em que o PT é invencível. Tentando ser mais malandro que O Malandro. Tentando ser mais mentiroso que O Mentiroso. Tentando ser mais PT do que O PT.

É impossível vencê-los em matéria de dissimulação; na arte de falsificar a realidade que o marketing político elevou à categoria de ciência. Essa forma de desonestidade é orgânica no PT. Absolutamente autêntica. Flui com a naturalidade do amoralismo dos seus “quadros”. Confunde-se com a essência do partido. É intrínseca à ideologia que o inspira.

O próprio Lula de verdade nunca conseguiu se eleger. O que se elegeu é o falso. O que teve de assinar um contrato jurando solenemente que, se eleito, não se permitiria ser o que de fato é.

Estão tão seguros da eficácia da falsificação que, quando falam ao Brasil que lê, para a minoria culta que não ganha eleição, nem tentam esconde-la. Congratulam-se publicamente pela “competência” com que falsificam. Reivindicam a paternidade da mentira da hora. Orgulham-se dela, desde que “cole”.

“Que Ciro Gomes que nada! Foi o próprio Lula quem determinou que Dilma partisse para o ataque. Para tirar o partido da defensiva em que ficou com o ultimo flagrante de corrupção”.

Está nos jornais de hoje, com todas as letras.

O PT conta com a ingenuidade dos honestos. Calcula milimetricamente como explorá-la.

Não me admiraria nada se descobrissem, um dia, que foi o próprio PT quem orquestrou a “campanha de calunias na internet” para inflar o factóide do aborto que o Datafolha mostrou que não pesou quase nada na virada que levou ao segundo turno. E se não foi, uma coisa é certa: dos serristas é que ela não partiu. Eles não têm essa competência nem essa agilidade. O pós-debate provou isso mais uma vez. Se mandassem nas igrejas desse tanto, nem precisavam criar esse caso.

Seja como for que tenha sido, foi o factóide da “calunia do aborto” que tirou os ladrões da defensiva. E é isso, com todas as letras, que o PT está comemorando hoje para o Brasil que lê.

Dá perfeitamente para entender tanta candura. O infalível sucesso da falsificação é um fato sistematicamente reafirmado ao longo da história do partido.

O PT nasceu lutando – com armas também – pela substituição de ditaduras. Não gostava da que estava lá. Queria outra. Sempre que lhe dão folga, volta a tentar impor a que já desejava desde 1964. Mas depois que, a revelia deles, a democracia venceu, passaram a se apresentar como campeões da democracia.

E ninguém os denunciou.

Durante o processo de redemocratização, ficaram contra todos os esforços de consolidação da democracia. Foram contra Tancredo e a favor de Maluf; foram contra as “Diretas Já”; foram contra a Constituição.

E ninguém os denunciou.

Daí por diante, alimentaram uma industria sistemática de calunias com as mesmas armas que ainda usam – seus quadros infiltrados na Receita Federal e nos bancos públicos, conhecidos nas redações de todo o pais como o PT-POL, espionando contas e montando dossiês. Golpismo explícito. Tentaram derrubar todos os presidentes eleitos; “Fora Sarney“, “Fora Collor” (de quem hoje são aliados), “Fora FHC”.

E ninguém os denunciou.

Apostaram na inflação, foram contra o Plano Real, foram contra a Responsabilidade Fiscal, lutaram o quanto puderam, por cima e por baixo do pano, pelo “quanto pior melhor”.

E ninguém os denunciou.

E então, tomaram o Estado de assalto, aliaram-se aos ladrões, mancomunaram-se com os fichas-sujas. Roubalheira passou a ser “erro”. Mas só se for descoberta…

Agora posam de vitimas de tudo quanto transformaram em ingredientes obrigatórios da sua própria receita eleitoral.

E porque podem continuar apostando na mentira?

Porque os adversários aceitaram esse jogo. Tentam correr nessa mesma raia. As eleições foram transformadas em disputas entre mentiras embaladas por profissionais. As eleições que o brasilzão vê são as eleições dos filmes publicitários.

Está na hora de começar a ancorá-las nos filmes desses filmes. No making off. De apostar na desmontagem sistemática dessas mentiras passo a passo, metodicamente, diante dos olhos dos eleitores. Pondo lado a lado os fatos e as versões reescritas pelo PT. Apresentando as provas das suas mentiras e fabricações.

O Youtube está cheio de exemplos. E são todos matadores. Vários deles estão reproduzidos aqui no Vespeiro. Confira você mesmo. Flagrantes de mentiras são tão letais quanto as erenices: matam sem perdão. Não ha Nossa Senhora da Aparecida que os redima. Tudo que falta é exibi-los no horário nobre.

O próprio Lula, repito, não se elege se insistir em ser o que realmente é. Nem sobrevive ao cotejamento do que foi com aquilo em que se transformou. Para vencer o PT, tudo que é preciso fazer é recusar a arena onde ele é invencível e arrastá-lo para o campo da verdade.

O PT não sobrevive à verdade. Por isso tem de calar a imprensa.

Marina: foi o meio ou a mensagem?

6 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

A chave para a herança de Marina está na resposta a essa pergunta. Quem pensar que o caminho é sair carregando as bandeiras dela vai quebrar a cara. Marina não ganhou 20 milhões de votos pelo que disse mas sim pelo modo como o disse.

O eleitor de Marina, como o ex-presidente Fernando Henrique definiu com precisão para o Vespeiro, é o eleitor da sinceridade, é a pessoa que não agüenta mais o discursinho fabricado dos marqueteiros.

Essa é uma indicação segura do caminho a tomar. Para o PT, complicou geral. Para o PSDB, é por em destaque as duas caras do PT.

Qual o Lula verdadeiro? O Lulinha paz e amor, ou o que grita e esperneia quando é contrariado, manda calar a boca da imprensa e quer extinguir a oposição?

Qual a Dilma verdadeira? A que se declara atéia e a favor do aborto ou a que batiza o neto correndo para os fotógrafos e nega tudo que disse diante do resultado das urnas?

Qual o PT verdadeiro, o que assina o roteiro para o autoritarismo contido no Plano Nacional de Direitos Humanos ou o que renega o Plano Nacional de Diretos Humanos quando o eleitorado chia?

Onde está a verdade na posição do PT sobre meio ambiente, no partido que expulsa Marina Silva por uma hidrelétrica na Amazônia ou no que quer por Marina Silva pra dentro depois dela conseguir 20 milhões de votos?

No mais, é reafirmar as linhas de pensamento em que PSDB e Marina Silva convergem, que são quase todas, e lembrar sem parar a um eleitorado que não sabe bem como é que isso funciona, que com as maiorias que conseguiu na Câmara e no Senado, o PT, se ganhar, pode jogar a Constituição no lixo e revelar qual realmente é a dele em cada um desses quesitos criando fatos consumados impossíveis de reverter.

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Pérolas do jornal de hoje

De Lula:

“Eu fui muito duro em alguns Estados por onde passei, mas precisava ajudar a eleger alguns senadores. O Lulinha paz e amor estará de volta” (falando aos governadores e senadores que ajudou a eleger)

De Marina Silva:

“Os fiéis sabem o que é um discurso de crença e o que é um discurso de conveniência na questão do aborto e da legalização da maconha”.

“Os candidatos dos dois partidos a presidente são gerentes e não estrategistas”.

“Os verdes não têm a pretensão de ser uma agremiação de massas”

“A sociedade deu uma lição; quer uma oposição madura”

De Serra:

“Tenho experiência política e sei quando um político está pessimista e fingindo ser otimista. A gente percebe na hora, nos olhos” (sobre Dilma).

De Dilma:

“Eu considero muito importante afirmar que o meu projeto, que foca nas pessoas marginalizadas, é a favor da vida”. (sobre aborto)

Do senador eleito Marcelo Crivella, aliado:

“Eu mesmo perdi votos entre evangélicos do Rio de Janeiro por estar apoiando Dilma”,

De ambientalistas:

“A principal característica (de Dilma) é ainda considerar a questão ambiental como uma restrição e não como uma oportunidade. Todo o resto é consequência disso”, (Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra)

“À frente do governo de São Paulo, Serra criou no ano passado a Política Estadual de Mudanças Climáticas, com a meta de redução de 20% das emissões paulistas de gases do efeito estufa até 2020. Foi o primeiro Estado brasileiro a assumir um compromisso desse tipo em lei”. (idem)

“Nem Dilma nem Serra têm histórico de militância na área ambiental. Ambos ainda têm dificuldade de conjugar os verbos desenvolver e preservar numa mesma frase”. (Nilo D’Ávila, do Greenpeace).

Do noticiário:

No primeiro turno da campanha, os verdes tiveram aliança formal com PSDB, DEM ou PPS em sete Estados: Amazonas, Amapá, Rio de Janeiro, Paraíba, Rondônia, Sergipe e Tocantins.

Do outro lado, o PV apoiou diretamente aliados de Dilma em cinco Estados: Acre, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Pará.

Nas outras 15 unidades federativas, o partido lançou candidatura própria independente ou ficou neutro.

***

Cálculos feitos pelo Estado mostram que oito das dez unidades da Federação onde Dilma teve os maiores porcentuais de votação estão também entre as dez com maior proporção da população atendida pelo Bolsa-Família.

A correlação também se manifesta na ponta inversa: dos dez Estados onde a candidata teve pior desempenho, sete estão entre os menos cobertos pelo Bolsa-Família.

Da coluna de Dora Kramer no Estadão:

  • As duas semanas que Marina Silva e o PV pedem para decidir qual apito tocarão para seus eleitores no segundo turno não cabem dentro dos 25 dias que faltam para a eleição. A procrastinação põe os personagens da história no sério risco de ser atropelados pelos fatos
  • qualquer que seja a decisão será necessário apressá-la. Sob pena de os verdes acabarem caindo de maduros.
  • melhor ver PSDB e PT correr atrás de Marina que reverenciar o PMDB por causa de tempo de televisão e serviços prestados à “governabilidade”.
  • Ninguém consegue saber com segurança qual o rumo do PV porque nem o PV sabe.
  • Apesar de todo os pesares, Marina simplesmente adora, no sentido religioso do termo, Luiz Inácio da Silva. De outro lado, abomina – no sentido pagão da palavra – Dilma Roussef.
  • Se Lula com seus 80% de popularidade só conseguiu dar 47% para Dilma, Marina de repente faria 20% das pessoas que votaram nela por variados motivos – dos piores aos melhores – seguirem incontinenti sua posição?
  • As pesquisas saíram com a credibilidade arranhada, Pior aconteceu com a imprensa em geral, nacional e estrangeira, que ficou na referência cega dos números, abstendo-se de pensar, de “reportariar”, de dar às amostragens sua devida dimensão.

Do editorial do Estadão:

  • Na Câmara, onde se registrou o menor índice de renovação desde 1998, a frente lulista integrada por 10 agremiações somará 311 cadeiras em 513. Para a aprovação de reformas constitucionais são necessários 308 votos.
  • PSDB, DEM e PPS perderam ao todo 45 cadeiras.
  • a qualidade do novo corpo legislativo pode ser medida pela chegada do palhaço Tiririca, com seu 1,3 milhão de votos, e a saída de políticos como os tucanos Arnaldo Madeira e Ricardo Montoro e o petista José Genoino.
  • A mudança mais significativa se deu no Senado (…) a nova conformação da Casa dará a uma eventual presidente Dilma a supremacia com que o seu criador apenas podia sonhar. Os partidos da base lulista ficaram com 40 das 54 vagas em disputa, ao passo que o bloco PSDB-DEM perdeu 11 das 28 cadeiras que detinha (…) com 73% dos lugares – índice igual ao da nova Câmara -, o Planalto será o dono do jogo no Senado.
  • De todo modo, o Senado passará a contar, de ambos os lados do corredor, com uma leva de políticos experientes, conhecidos antes pela moderação do que pela beligerância. O primeiro deles, evidentemente, é o ex-governador mineiro Aécio Neves (…) Já a principal voz da oposição dificilmente deixará de ser a do tucano Aloysio Nunes Ferreira, em quem votaram 11,2 milhões de paulistas (…) Aloysio se distinguiu por ser o único candidato que não teve medo de exibir no horário eleitoral o apoio do ex-presidente Fernando Henrique.

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