Marina: foi o meio ou a mensagem?
6 de outubro de 2010 § Deixe um comentário

A chave para a herança de Marina está na resposta a essa pergunta. Quem pensar que o caminho é sair carregando as bandeiras dela vai quebrar a cara. Marina não ganhou 20 milhões de votos pelo que disse mas sim pelo modo como o disse.
O eleitor de Marina, como o ex-presidente Fernando Henrique definiu com precisão para o Vespeiro, é o eleitor da sinceridade, é a pessoa que não agüenta mais o discursinho fabricado dos marqueteiros.
Essa é uma indicação segura do caminho a tomar. Para o PT, complicou geral. Para o PSDB, é por em destaque as duas caras do PT.
Qual o Lula verdadeiro? O Lulinha paz e amor, ou o que grita e esperneia quando é contrariado, manda calar a boca da imprensa e quer extinguir a oposição?
Qual a Dilma verdadeira? A que se declara atéia e a favor do aborto ou a que batiza o neto correndo para os fotógrafos e nega tudo que disse diante do resultado das urnas?
Qual o PT verdadeiro, o que assina o roteiro para o autoritarismo contido no Plano Nacional de Direitos Humanos ou o que renega o Plano Nacional de Diretos Humanos quando o eleitorado chia?
Onde está a verdade na posição do PT sobre meio ambiente, no partido que expulsa Marina Silva por uma hidrelétrica na Amazônia ou no que quer por Marina Silva pra dentro depois dela conseguir 20 milhões de votos?
No mais, é reafirmar as linhas de pensamento em que PSDB e Marina Silva convergem, que são quase todas, e lembrar sem parar a um eleitorado que não sabe bem como é que isso funciona, que com as maiorias que conseguiu na Câmara e no Senado, o PT, se ganhar, pode jogar a Constituição no lixo e revelar qual realmente é a dele em cada um desses quesitos criando fatos consumados impossíveis de reverter.
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Pérolas do jornal de hoje
De Lula:
“Eu fui muito duro em alguns Estados por onde passei, mas precisava ajudar a eleger alguns senadores. O Lulinha paz e amor estará de volta” (falando aos governadores e senadores que ajudou a eleger)
De Marina Silva:
“Os fiéis sabem o que é um discurso de crença e o que é um discurso de conveniência na questão do aborto e da legalização da maconha”.
“Os candidatos dos dois partidos a presidente são gerentes e não estrategistas”.
“Os verdes não têm a pretensão de ser uma agremiação de massas”
“A sociedade deu uma lição; quer uma oposição madura”
De Serra:
“Tenho experiência política e sei quando um político está pessimista e fingindo ser otimista. A gente percebe na hora, nos olhos” (sobre Dilma).
De Dilma:
“Eu considero muito importante afirmar que o meu projeto, que foca nas pessoas marginalizadas, é a favor da vida”. (sobre aborto)
Do senador eleito Marcelo Crivella, aliado:
“Eu mesmo perdi votos entre evangélicos do Rio de Janeiro por estar apoiando Dilma”,
De ambientalistas:
“A principal característica (de Dilma) é ainda considerar a questão ambiental como uma restrição e não como uma oportunidade. Todo o resto é consequência disso”, (Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra)
“À frente do governo de São Paulo, Serra criou no ano passado a Política Estadual de Mudanças Climáticas, com a meta de redução de 20% das emissões paulistas de gases do efeito estufa até 2020. Foi o primeiro Estado brasileiro a assumir um compromisso desse tipo em lei”. (idem)
“Nem Dilma nem Serra têm histórico de militância na área ambiental. Ambos ainda têm dificuldade de conjugar os verbos desenvolver e preservar numa mesma frase”. (Nilo D’Ávila, do Greenpeace).
Do noticiário:
No primeiro turno da campanha, os verdes tiveram aliança formal com PSDB, DEM ou PPS em sete Estados: Amazonas, Amapá, Rio de Janeiro, Paraíba, Rondônia, Sergipe e Tocantins.
Do outro lado, o PV apoiou diretamente aliados de Dilma em cinco Estados: Acre, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso do Sul e Pará.
Nas outras 15 unidades federativas, o partido lançou candidatura própria independente ou ficou neutro.
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Cálculos feitos pelo Estado mostram que oito das dez unidades da Federação onde Dilma teve os maiores porcentuais de votação estão também entre as dez com maior proporção da população atendida pelo Bolsa-Família.
A correlação também se manifesta na ponta inversa: dos dez Estados onde a candidata teve pior desempenho, sete estão entre os menos cobertos pelo Bolsa-Família.
Da coluna de Dora Kramer no Estadão:
- As duas semanas que Marina Silva e o PV pedem para decidir qual apito tocarão para seus eleitores no segundo turno não cabem dentro dos 25 dias que faltam para a eleição. A procrastinação põe os personagens da história no sério risco de ser atropelados pelos fatos
- qualquer que seja a decisão será necessário apressá-la. Sob pena de os verdes acabarem caindo de maduros.
- melhor ver PSDB e PT correr atrás de Marina que reverenciar o PMDB por causa de tempo de televisão e serviços prestados à “governabilidade”.
- Ninguém consegue saber com segurança qual o rumo do PV porque nem o PV sabe.
- Apesar de todo os pesares, Marina simplesmente adora, no sentido religioso do termo, Luiz Inácio da Silva. De outro lado, abomina – no sentido pagão da palavra – Dilma Roussef.
- Se Lula com seus 80% de popularidade só conseguiu dar 47% para Dilma, Marina de repente faria 20% das pessoas que votaram nela por variados motivos – dos piores aos melhores – seguirem incontinenti sua posição?
- As pesquisas saíram com a credibilidade arranhada, Pior aconteceu com a imprensa em geral, nacional e estrangeira, que ficou na referência cega dos números, abstendo-se de pensar, de “reportariar”, de dar às amostragens sua devida dimensão.
Do editorial do Estadão:
- Na Câmara, onde se registrou o menor índice de renovação desde 1998, a frente lulista integrada por 10 agremiações somará 311 cadeiras em 513. Para a aprovação de reformas constitucionais são necessários 308 votos.
- PSDB, DEM e PPS perderam ao todo 45 cadeiras.
- a qualidade do novo corpo legislativo pode ser medida pela chegada do palhaço Tiririca, com seu 1,3 milhão de votos, e a saída de políticos como os tucanos Arnaldo Madeira e Ricardo Montoro e o petista José Genoino.
- A mudança mais significativa se deu no Senado (…) a nova conformação da Casa dará a uma eventual presidente Dilma a supremacia com que o seu criador apenas podia sonhar. Os partidos da base lulista ficaram com 40 das 54 vagas em disputa, ao passo que o bloco PSDB-DEM perdeu 11 das 28 cadeiras que detinha (…) com 73% dos lugares – índice igual ao da nova Câmara -, o Planalto será o dono do jogo no Senado.
- De todo modo, o Senado passará a contar, de ambos os lados do corredor, com uma leva de políticos experientes, conhecidos antes pela moderação do que pela beligerância. O primeiro deles, evidentemente, é o ex-governador mineiro Aécio Neves (…) Já a principal voz da oposição dificilmente deixará de ser a do tucano Aloysio Nunes Ferreira, em quem votaram 11,2 milhões de paulistas (…) Aloysio se distinguiu por ser o único candidato que não teve medo de exibir no horário eleitoral o apoio do ex-presidente Fernando Henrique.
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