O Brasil como Pulitzer queria demonstrar

30 de abril de 2021 § 24 Comentários

Antigamente, quando se aprendia na escola os teoremas básicos da matemática e da trigonometria, essas verdades fundamentais eram batizadas com o nome do sábio que, pela primeira vez, as tinha demonstrado como tal e, ao fim dessa demonstração, fechava-se a lição com a sigla “c.q.d.” (“como queríamos demonstrar”), tradução do “quod erat demonstrandum” (greco)latino dos tempos de escolas mais cultas.

Com a revogação, quarta-feira, da prisão de Eduardo Cunha e a confirmação de Renan Calheiros como juiz supremo do “estado democrático de direito” do STF fecha-se o círculo. O Brasil está perfeitamente virado do avesso: os ladrões condenados na banca dos juízes e os juízes no banco dos réus.

Ha quem estranhe a volubilidade dessa imprensa que hoje abraça o ladrão da Transpetro depois de tê-lo apedrejado. Eu não. Se Átila, O Huno, se alistasse amanhã para o linchamento de Jair Bolsonaro também ele se converteria imediatamente em herói do “estado democrático de direito” que o STF não eleito, a esquerda derrotada na eleição e os jornalistas que se alinham automaticamente a eles prescrevem para o Brasil. E nem isso faria os herdeiros da imprensa brasileira entenderem que estão fabricando a corda com que serão enforcados…

É verdade que Bolsonaro fornece todas as inestimáveis desculpas para o comportamento dessa imprensa na questão da pandemia. Mas isso não vem ao caso pois se não fornecesse dava no mesmo, como prova a questão do meio ambiente. Nenhum fato pode convencer os lobos que juraram esse cordeiro de morte a não destroçá-lo a dentadas levando junto o Brasil, nem que sejam fatos bastantes para convencer Joe Biden.

As represálias do patrulhamento ideológico, uma vez contadas como certas, têm o efeito de uma bomba de nêutrons: passam a matar a verdade e a dignidade humana sem precisarem mais ser disparadas a cada vez. E se isso é verdade em qualquer lugar, muito mais ainda no Brasil onde a política é uma espécie de abscesso fechado em si mesmo, que encerra na mesma bola de pús, dos monocratas do STF até o limite inferior da privilegiatura onde se aloja diretamente ou por interposto nepote grande parte da militância que as redações abrigam.

Pendurado no corpo do favelão nacional, o abscesso é cada vez mais independente dele. O Brasil ainda elege o presidente da República, os deputados e os senadores que o abscesso engendra em função dos seus processos inflamatórios internos inacessíveis ao comum dos mortais, mas eles estão reduzidos estritamente ao direito de mamar. Os 11 monocratas não eleitos anulam os seus atos e fazem deles e dos eleitores deles gato e sapato sem que ninguém retruque com um gemido sequer. 

Se conseguiram isso com o que restava da classe média meritocrática desfilando sua indignação nas ruas do país inteiro – coitada! – e com quase 58 milhões de votos expressamente dados CONTRA o maior assaltante de todos os tempos, segundo a descrição do Banco Mundial, imagine do que não serão capazes se, conforme a encomenda, o STF conseguir enfia-lo de novo na Presidência com a eleição sem recibo!

O mundo já entendeu, e não quer pagar pra ver. É isso que explica a debandada das multinacionais que apostaram no Brasil nos últimos 100 anos, e não, obviamente, a estupidez – por monumental que seja – de um governo que tem só mais um ano e meio de mandato.

A parada que se joga no Brasil pretende durar bem mais que isso. Desde que desistiu de tomar o poder a tiro, como tomou em todos os lugares onde ainda permanece nele sozinha, e decidiu-se a agarrá-lo pelo voto, a esquerda antidemocrática, no seu pragmatismo amoral e no profundo conhecimento que tem do que há de pior na natureza humana, logo se deu conta de que é a imprensa que pauta a política e não o contrário. Depois de confirmar, por ensaio e erro, que o político chinfrim como são 99,999% dos que vivem de seduzir multidões, faria e diria sempre aquilo que sabe que rende manchetes, concluiu que tomar os postos que determinam o que vira e o que não vira manchete é que é o “Abre-te Sésamo” da Caverna do Poder. 

O ser humano comum, desprevenido das regras do jogo do poder, na sua ingenuidade, é que confunde as coisas devaneando sobre a moral e o livre arbítrio, sem se dar conta de que essas expressões não tratam do que existe, tratam do que deveria existir, estando portanto no território da ética e não no da realidade. Quer dizer, moral e livre arbítrio não mandam no jogo, servem apenas para inspirar uma engenharia institucional que favoreça que assim seja, exatamente porque sem esse tipo de empurrão, mantida a lei da selva, não chegarão sequer a influencia-lo jamais.

Era disso que falava Joseph Pulitzer (1847-1911), o primeiro a entender completamente a função institucional da imprensa num sistema republicano. Foi só quando, graças a ele, o foco da americana desviou-se da luta suja das facções pelo poder para alinhar-se ao interesse do povo de governar o governo que foi possível induzir as reformas da virada do século 19 para o 20 (viés antitruste + ferramentas de democracia direta) que empurraram a democracia deles para o estado de plenitude em que viveu até meados dos anos 80 de que a humanidade começa a sentir dolorosas saudades.

Pulitzer dizia que “É impossível matar mesmo uma democracia muito imperfeita se sua imprensa estiver minimamente saudável”, e que, assim, “se uma democracia estiver dando sinais irreversíveis de que está caminhando para a morte é porque sua imprensa já tinha morrido antes dela” e afirmava que “nossa Republica e sua imprensa vão se consolidar ou desaparecer juntas” e que, portanto, “o poder de moldar o futuro da democracia estará nas mãos dos jornalistas das próximas gerações”. Mas advertia que “uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formaria, com o tempo, um público tão vil como ela mesma”.

Pois aí está, c.q.d….

Lula e o STF

23 de março de 2021 § 32 Comentários

E a Carmen Lucia muda o seu voto para condenar Moro. Mas avisa que isso só vale pro Lula.

E precisava?

Só que o crime político organizado não vai aceitar isso assim, na boa. O STF vai ter de reescrever todas as leis do país para negar ao resto da gangue o que deu ao chefe dela.

A verdadeira ação antidemocrática

11 de fevereiro de 2021 § 11 Comentários

A “democracia brasileira”, cantada em prosa e verso pelo establishment, está hoje reduzida ao direito a uma escolha entre os escolhidos da privilegiatura a cada quatro anos. Concede, ainda, que os explorados escolham o chefe dos seus exploradores mas não que se livrem da exploração, e já dá sinais claros de que se sente forte o bastante para achar até isso muito. Está nos finalmentes o ensaio geral para a institucionalização da censura de discursos e candidaturas “antidemocráticas”…

Os jornais de ontem estavam especialmente acachapantes. Lá estávamos nós, mais uma vez, chamando os ladrões para encurralar a polícia com a decisão de fazer valer, só para Lula, o tipo de “prova” cuja validade eles próprios mandam invalidar para quem quer que seja mais. Estabelecido pelo Supremo Tribunal Federal que nada no Brasil está estabelecido, nem mesmo o que for solenemente estabelecido na véspera pelo Supremo Tribunal Federal, está posto o argumento definitivo, se é que faltava algum, para convencer mais uma geração de que, poesia à parte, a única alternativa para “ser um vencedor” na disputa darwiniana à brasileira é mesmo transformar-se em “concurseiro” para saltar, assim que der, da nau dos explorados para a nau dos exploradores.

É talvez ao que se referia o ministro Luis Edson Fachin, o único voto discordante na decisão de anteontem em estranha entrevista à Folha de S. Paulo, quando dizia que “a grande corrupção no Brasil (…) é uma decorrência de uma teia complexa de relações que não começa nem acaba nas esferas administrativas”.

A miséria a que tudo isso nos reduziu chegou a tal ponto que uma injeção de R$ 600 por família (em 56 milhões de famílias oficialmente miseráveis no fim de 2020), pouco mais de US$ 100, determina não só uma “recuperação em V” de uma economia paralisada pela quarentena, mas uma forte onda inflacionária nos itens mais básicos de sobrevivência como comida e material para construções baratas. Esgotada a ajuda de R$ 600 o “V” vira imediatamente um “N” e a inflação morre no jejum de tudo que é o normal de sempre no favelão nacional.

É nu e é cru…

Com R$ 200 por mês o povo e o governo chegam em 2022 se arrastando, se chegarem. Com a vacinação devagar demais para mudar o que quer que seja a tempo, a luta inglória, no front doméstico, fica entre o auxílio reduzido para um numero reduzido de pessoas contra a PEC de Emergência, a nova CPMF, ou o estouro das contas com disparada de juros e dólar que ainda não é carta fora do baralho. Contendo a PEC “medidas impopulares”, leia-se toda e qualquer medida que de leve arranhe os privilégios dos “intocáveis”, já se conhece o empenho até de Jair Bolsonaro e família contra ela apesar do que gostariam de ver a boa aritmética e o ministro Paulo Guedes.

Quando eu me dei por gente, aí pelo final da adolescência no início dos anos 70, o Brasil era o país que mais crescia no mundo e se tinha tornado a sexta economia do planeta. Só quem viveu aquela época sabe que “efeito sistêmico” a festa da sensação de andar para a frente produz numa sociedade, até para a qualidade do protesto da parcela dela que odiava que isso estivesse acontecendo. 

Desde então temos dado voltas na mesma espiral descendente. A constituição da privilegiatura, pela privilegiatura e para a privilegiatura aperta cada vez mais o país. E a cada vez que colhe a safra de miseráveis que semeia, esmaga um pouco mais a classe média meritocrática onde vai morder “o ajuste” que é a única interessada em democracia. Substituída pela privilegiatura, que sustenta a economia privada de consumo que resta, o círculo estreita-se cada vez mais. O único perigo é faltar voto. Daí lá ficar ela, com suas escolas e sua imprensa, falando sozinha, cada vez mais tentada a excluir de vez os excluídos.

É essa a ação antidemocrática insidiosa, sistêmica e sem aspas…

É fundamental notar que os dois brasis que subsistem – o do agronegócio, que sobrevive ao Estado em função da distância, e o outro que vive da proximidade dele – dispõem, ambos, do equipamento mínimo que se requer para se estabelecer numa sociedade patrimonialista como foram todas as sociedades absolutistas e continua sendo a nossa que nunca superou o absolutismo, agora “monocrático”: as suas próprias escolas, a sua própria imprensa e a sua própria representação solidamente plantada no centro de decisões do Congresso Nacional. Foi por abrir mão desses fundamentos que a indústria e o comércio privados foram à breca, deixando-nos reduzidos à horda dispersa e quase famélica dos pequenos prestadores de serviço e aos proto-monopólios protegidos pela privilegiatura porque consorciados com ela de hoje.

27 de novembro de 2019 § 4 Comentários

Grande dia para o Judiciário coa confirmação da condenação de Lula no TRF4 e de JAD Toffoli pela tentativa de tornar o Brasil impotente contra o crime organizado matando o Coaf. Depois da proeza de tomar um pito até de Levandowski parece que vai ter de ouvir 10 carraspanas no STF

27 de novembro de 2019 § 3 Comentários

A argumentação de JP Gebran Neto do TRF4 contra o recurso para extinguir processo do sítio de Atibaia mostra que a fundamental desonestidade de tudo que Lula e o PT fazem contaminou seus advogados. Há material suficiente para 10 processos de litigância de má fé ali.

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