De volta para o futuro?

9 de janeiro de 2015 § 5 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 9/1/2015

No presente ambiente de absoluto descolamento entre o discurso governamental e os fatos em que nunca se sabe, nem sobre qual PT se está falando cada vez que se fala de PT, nem sobre qual ministério quando se fala de ministério, difícil é saber quanto deste último lance foi “combinado com os russos”, posto de lado o problema adicional de definir quem, nessa balbúrdia, joga pelos “russos” e quem joga pelos “brasileiros

Mas o ministro Joaquim Levy decididamente está disposto a pagar para ver.

Com o país com meio corpo além da linha a partir da qual os párias excluem-se do mundo civilizado e quem vive do trabalho assistindo impotente ao torneio das voracidades das “correntes” que disputam os pedaços deste governo acometidas, seja da doença infantil do comunismo que já não há, no seu “esquerdismo” delirante, seja das doenças de sempre do dinheirismo selvagem, todos promiscuamente misturados na salada de ministros até então apresentados por Dilma Rousseff, desponta como uma nesga de terra firme no meio do pântano uma equipe cirurgicamente articulada, peça por peça, com profissionais solidamente credenciados, que mostra a disposição que o ministro mostrou de desempenhar a missão que lhe foi confiada.

Mas, atenção: ele manda avisar a quem interessar possa que se alguém vai ter de engolir sapos (sem barba) nesta relação não será ele.

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Ponto por ponto, indiretamente mas com absolutas clareza e serenidade, Joaquim Levy apontou tudo que Dilma foi e ele não se dispõe a ser e tudo que Dilma fez e ele se empenhará em desfazer.

Constam da lista “a solidez e a transparência das contas públicas”, a “estabilidade regulatória”, o “incentivo à concorrência interna e internacional”, o fim dos “juros subsidiados distribuídos seletivamente”, a “adequação do orçamento à arrecadação de acordo com os ritos da Lei de Responsabilidade Fiscal”, o “controle e a melhora do gasto público”, o “rigor na verificação do pagamento dos serviços contratados”, o fim do uso do Tesouro “como um manto para contornar o enfrentamento de problemas de setores específicos” e a reafirmação da “certeza de que apenas o trabalho pode gerar riqueza”. Até a confiança de que a “pressão dos mercados” contra os escândalos do petrolão haverá de resultar no “fortalecimento das companhias abertas”, que obviamente não pode se dar com diretorias “imexíveis” conquanto flagradas em delito, encontrou o lugar de direito em seu discurso.

De modo que está invertido o problema: se não é isto que deseja que se manifeste agora este governo periclitante e instale-se de uma vez o caos. Ou então, que se cale e deixe trabalhar quem é do ramo pelo menos até que haja de novo chão onde plantar-se com os próprios pés.

Mas não foi só.

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Sendo o Estado patrimonialista aquele em que a Nação, o povo, a indústria, o comércio, a agricultura, tudo enfim obedece a uma tutela do estamento burocrático que detém uma soberania que mantém, pela cooptação sempre que possível e pela violência se necessário, por cima das classes sociais que se digladiam lá embaixo, há autores que argumentam que o socialismo real, do século 20, não foi muito mais que “uma virtualidade exacerbada do antigo Estado patrimonialista dos príncipes” dos séculos anteriores.

Discussões eruditas aparte, o ponto fulminante do discurso do ministro Levy foi, por essas e outras, aquele em que, pegando o voluntarismo de Dilma pela palavra, ele disse o seguinte:

Como salientou, quando diplomada presidente da República, é compromisso da chefe do Executivo e, portanto, de todo o governo, dar um basta ao sistema patrimonialista e, em suas palavras, à sua ‘herança nefasta’. O patrimonialismo, como se sabe, é a pior privatização da coisa pública. Ele se desenvolve em um ambiente onde a burocracia se organiza mais por mecanismos de lealdade do que especialização ou capacidade técnica, e os limites do Estado são imprecisos. A antítese do sistema patrimonialista é a impessoalidade nos negócios do Estado, nas relações econômicas e na provisão de bens públicos, inclusive os sociais. Essa impessoalidade fixa parâmetros para a economia, protegendo o bem comum e a Fazenda Nacional, a qual então foca sua atividade no estabelecimento de regras gerais e transparentes. O que permite a iniciativa privada e livre se desenvolver melhor. Ela que dá confiança ao empreendedor de que vale a pena trabalhar sem depender, em tudo, do Estado”.

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É claro que o “patrimonialismo” do discurso de Dilma era aquele raso, restrito à corrupção flagrada, e o do de Joaquim Levy é outro, bem mais profundo que isso. Mas ficou o dito pelo não dito.

Postas todas as cartas na mesa, dá quase para palpar o pranto e o ranger de dentes de todos quantos, nos últimos 12 anos, acostumaram-se a ser ouvidos e obedecidos, diante da perspectiva de engolir o fato de que não será o Brasil que terá de amoldar-se aos delírios passadistas do petismo, mas sim o petismo que terá de voltar a caber no projeto de futuro do Brasil.

Não seria nada que doesse tanto, aliás. A condição voltaria a ser a que prevaleceu enquanto esteve vigente a “Carta aos Brasileiros” assinada por Luís Ignácio Lula da Silva em 22 de junho de 2002 e só veio a ser rasgada por Dilma Rousseff: sim, um Brasil até maior que esta metade mais 1,6% do eleitorado que reelegeu o PT apoiaria e poderia arcar com uma política social distributiva “de esquerda”, e até lucrar com ela desde que fosse tocada de forma responsável por profissionais competentes e estivesse a serviço da Nação e da democracia. É do que são prova o próprio Joaquim Levy e seus escudeiros que serviram o PT no passado e assinaram a “performance” que entre outros milagres, levou Dilma Rousseff ao poder.

É o resto que é insuportável.

Falta saber quanto a “presidenta”, os mercenários todos de que se cercou e mais a camarilha que, a título de “compensação” por suas magnânimas concessões aos imperativos da realidade, ergueu das periferias do partido para colocar em posição de martirizar os nervos da Nação vão cobrar para permiti-lo.

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§ 5 Respostas para De volta para o futuro?

  • Carmen Leibovici disse:

    Muito bom!

    Mas eu acho que o ministro Joaquim Levy é muito inteligente e explícito demais para se fazer entender por Dilma.Mas,quem sabe…

    Por outro lado, tb., parece que vai ser difícil a Dilma “obedecer” o Joaquim Levy pelo indício que já deu ao nomear(foi nomeação?)esse novo ministro da CGU,Valdir Simão.Pela entrevista que lí dele ontem,ele está mais para enrolação do que para qq outra coisa, e está parecendo o encarregado mór da próxima pizzada.Mas quem sabe…

    Para segurar esse tal “projeto”do PT ,eles precisam de muita,muita grana para ir segurando as pontas até o “está tudo dominado”(e o país estará exaurido),porque o povão quer é benefícios,muitos benefícios ,que se pararem de entrar,o resultado vai ser que eles vão chutar o “derrière” da Dilma.Desculpe a grosseria,mas é assim mesmo.Pode perguntar ,neste momento, para qq um dos beneficiários das bondades do PT o que é que eles estão achando da Dilma e você vai escutar:”tão querendo aumentar IPVA;IPTU;extintor;CPMF”, e por aí vai.

    O povão parece que está entendendo o Joaquim Levy melhor do que a Dilma,mas parece que não está gostando nada,nada..
    Dilma precisa ainda de MUITO dinheiro,como já dito, para contentá-los,por isso acho bem difícil ela obedecer ao sensato Levy,mas tb,quem sabe…

    Milagres acontecem e tb existem pessoas que se arrependem e se emendam.Quem sabe a Dilma está entre elas.Como você mesmo disse,o Joaquim Levy já bem serviu ao País mesmo sob o PT,então quem sabe dá certo?

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  • Varlice Ramos disse:

    Levy só servirá bem ao país se Dilma ‘deixar’.
    Du-vi-de-o-dó que isso aconteça.
    Ele logo logo pede demissão – e espero que eu esteja errada.

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  • Carmen Leibovici disse:

    Só mais um comentário…

    Na verdade,por como eu observo,existem 2 categorias de “povão”no momento.Uma delas é aquela que já está totalmente dominada pela doutrinação petista e a outra é a que ainda mantem discernimento.

    A primeira, justifica todos os mal feitos e bandalheiras do PT,haja o que houver, com o argumento de que é preciso fazer assim para que o PT atinja seus “objetivos”,que para eles se resume em “há muitos ricos e eles precisam dividir com o pobre”ou “o brasileiro (como se o interlocutor com quem interage ,e que não faz parte de seu meio, não o fosse tb)gosta das coisas assim e é assim que devem ser”,etc.Esta é a parcela que já está incensada pelo “ódio de classes”.

    Já a outra ,é a que não está gostando das bandalheiras,principalmente por que seu bolso será afetado, e que é a que daria um chute no PT de bom grado assim que for de seu interesse.

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  • Fernão,

    È, pode até acontecer, mas não acredito. Primeiro, porque tudo que tem e deve ser feito contraria a visão ideológica do governo petista e ela, a anta, não tem cacife nem mudar seus interesses originários do PDT transferidos ao PT e sem liderança no partido, dependendo em muito do cachaceiro ora doente;

    Segundo, os cumpanheiros não mudam da noite para o dia, uma vez que para eles o governo anterior foi extremamente bem sucedido e na paranoia da esquerda nada há a mudar exceto alguns nomes obedientes, serviçais, moedas de troca.

    O Ministro Levy foi a salvação-boi de piranha- que o Bradesco encontrou em troca do presidente do Banco que seria o preferido da anta;

    Ele, Levy, é conhecido como “corta gastos” e por isso foi defenestrado do governo. Foi para o RJ fazer o mesmo que deu mais ou menos certo, também porque a escala de valores, cortes no social eram ridículas se comparadas as federais que atingem a todos do país, e não prejudicam os da piscinão de Ramos e das praias, com menos exigências e a maior é de graça, ou seja o sol,

    Lembro de que o Nelson Barbosa em 48 horas da posse foi obrigado a voltar atrás sobre alteração no salário mínimo, através de ordem telefônica de Aratú;

    Voltando ao Levy. O Brasil está em dificuldades financeiras e de credibilidade externa. Riscos existem de rebaixamento impedindo e ou limitando investimentos. A Petrobrás vai tomar o dela na SEC dos EUA e será mais um agregado negativo.

    Portanto ele, Levy, vai prometendo o que o exterior quer ouvir, sem mostrar que acredita, fazendo um pouco o que pro PT não é nada perto do todo, e assim vai tentando até onde conseguir. Se não “pede o boné” e volta de onde veio.

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  • Carmen Leibovici disse:

    Interessante e muito verdadeira a reflexão contida neste artigo:

    “Sendo o Estado patrimonialista aquele em que a Nação, o povo, a indústria, o comércio, a agricultura, tudo enfim obedece a uma tutela do estamento burocrático que detém uma soberania que mantém, pela cooptação sempre que possível e pela violência se necessário, por cima das classes sociais que se digladiam lá embaixo, há autores que argumentam que o socialismo real, do século 20, não foi muito mais que “uma virtualidade exacerbada do antigo Estado patrimonialista dos príncipes” dos séculos anteriores.”

    Se os atuais “donos do poder” passarem a utilizar a devida indumentária, mantos e coroas de ouro e pedras preciosas,p.ex,e cenários apropriados,como uma Alvorada e “Corte Congressual”um pouco mais rebuscadas,não será mais preciso nem disfarçar através da enrolação retórica ,atualmente vestida de ternos e gravatas e manguinhas 3/4 de renda, a que temos assistido .

    Um bom costureiro -pode até ser de uma escola de samba-resolveria a relação conflituosa entre o PT e o mundo do século 21.Ficaria tudo mais explícito e eles não precisariam mais fazer tantos malabarismos.

    Talvez aqueles partidos que querem de volta a monarquia,poderiam ajudar o PT nesta idéia original que talvez Freud explique.

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