Eu procurei, de lanterna na mão…

24 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Ao fim de mais de seis meses de buscas dona Dilma decidiu-se pelo advogado Luís Roberto Barroso para a vaga de Carlos Ayres Brito no Supremo Tribunal Federal.

Chega muito festejado o novo ministro o que me leva de volta a um velho tema.

O que mais me preocupa sobre o futuro da democracia brasileira não é a desfaçatez com que os que sempre se declararam inimigos dela articulam seus golpes mas, antes, os sinais do quanto a sociedade brasileira está acostumada às agressões que sofre e despreparada para defender-se delas que transpiram das entrelinhas da cobertura da imprensa sobre esse episódio.

Esta nomeação, desde sempre se sabe, pode reverter o julgamento do Mensalão e jogar a última pá de cal nas esperanças de que a derradeira instituição viva do Estado brasileiro permaneça funcionando como uma barreira entre os nossos direitos mais elementares e a sanha de arbítrio de um partido que declara todos os dias o seu ardente desejo de passar por cima deles.

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Mas mesmo diante de circunstâncias tão explícitas nada parece ser capaz de nos escandalizar.

O nomeado, informa o noticiário, traz como nota mais fresca do seu currículo o fato de ter escrito inúmeras matérias em seu blog e em outras publicações por ocasião do pronunciamento das sentenças do julgamento que ele agora terá o poder de anular.

Nelas registrou “a surpresa de inúmeros magistrados”, não com o fato de, pela primeira vez na história deste país, ter sido quebrada a impunidade de sempre e condenados malversadores contumazes do dinheiro público e agressores notórios da ordem republicana, o que seria de se esperar nem que fosse apenas para fingir apreço à Justiça posto que ninguém sequer tenta desmentir que é isso que eles são, mas sim com “a dureza das penas proferidas”.

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É, coincidentemente, exatamente o mesmo argumento dos advogados dos réus cujas petições ele passa a ter o poder de julgar: reduzir “a dureza das penas” até o limite aquém do qual elas resultam, na prática, em impunidade.

Não ha um registro sequer, nas manifestações pregressas do escolhido de Dilma, sobre o mérito da história que o Ministério Público reconstituiu em minúcias relatando passo a passo, pacote por pacote, cueca recheada por cueca recheada, como os milhões do Mensalão foram passando de mão em mão, de onde saíram, a quem foram entregues, por quem e para que.

O novo ministro do Supremo, assim como os advogados dos réus e o resto do país, não contesta os fatos. Apenas “surpreende-se” com o fato de uma corte exigir que criminosos com cargos públicos paguem pelo que fizeram, para variar.

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Tanto que o único argumento que ele apresenta é o “inusitado interesse da imprensa e da opinião pública” nesse julgamento, que teria “influenciado os juízes”. Algo equivalente a propor a anulação de um pênalti porque, ao mesmo tempo em que o juiz o apitou a torcida inteira também gritava o flagrante da bola agarrada com as mãos dentro da área à vista de todos.

Tudo isso, entretanto, impressiona menos um bom punhado de repórteres, editores e comentaristas da imprensa que o fato do agora ministro se ter pronunciado favoravelmente ao casamento gay, ao aborto de anencéfalos e a pesquisas com células tronco o que lhe garante um passaporte de “progressista” com viés “técnico” não obstante o resto do seu currículo apontar, entre outros feitos, a sua notória especialização em manter a salvo de penas duras ou moles clientes endinheirados nacional e internacionalmente conhecidos como vetores fundamentais da corrupção que devasta o país tais como a CBF da famiglia Havelange e outros do mesmo quilate.

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Consta, finalmente, do currículo de sua excelência estar entre os primeiros a atender ao chamamento de don Lula I para inverter decisão do Supremo e dar guarida no Brasil a um assassino condenado pela justiça italiana que, na visão petista de democracia e direitos humanos, não tem legitimidade democrática suficiente para julgar os crimes de Cesare Battisti.

Também isso é tratado como um pormenor que nos diz menos que aqueles três votos “progressistas” sobre o homem que chega à Suprema Corte brasileira pelas mãos interessadíssimas da mais alta figura do partido político condenado no mais importante julgamento de toda a sua história, com a missão quase explícita de anulá-lo.

Toda essa desfocada confusão de pesos e medidas remeteu-me diretamente a outra manifestação recente da mesma ausência de critério.

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Falo da celeuma levantada em torno do ministro Luís Fux, outro escolhido de Dilma, quando ninguém menos que José Dirceu revelou à Nação que ele lhe tinha prometido livrá-lo no julgamento do Mensalão mas não entregou o que se comprometera a entregar.

E não é que foi essa “traição” e o caráter do ministro que dominaram o debate da imprensa naquele momento?

Pouco ou nada se disse sobre a revelação chocante de que fazer promessas a José Dirceu é fator decisivo para a escolha de ministros do Supremo na presidência de Dilma, “a Faxineira”. O que justifica a pergunta com que terei de dormir até que se desate o nó do Mensalão: o que terá o ministro que mais trabalhou para deixar impune o condenado Cesare Battisti prometido desta vez ao condenado José Dirceu?

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§ 3 Respostas para Eu procurei, de lanterna na mão…

  • Varlice disse:

    Seres humanos surpreendem.
    Torçamos para que este não fuja à regra.

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  • Luiz Barros disse:

    Pelo título de seu artigo, não consegui deixar de lembrar-me de Diôgenes, que andava com uma lanterna acesa em pleno dia em Atenas e respondia a quem perguntasse o que fazia que estava à busca de um homem honesto, que nunca achou.

    E para dizer o que tem Dilma a ver com Diôgenes, terei de explicar um pouquinho o contexto:

    Nada pode ser mais útil à formação humanista do que filosofia e literatura de boa qualidade.

    As pessoas desenvolvem gosto pelos livros a partir do prazer das primeiras leituras. Os pais que lêem histórias para os filhos pequenos ajudam muito na formação do hábito de leitura. Adolescentes que lêem são menos escravos da televisão e têm a chance de conservar os livros como amigos durante a vida adulta.
    Encontrar a leitura de interesse para oferecer aos jovens pode exigir imaginação e mente aberta em relação a idéias preconcebidas. Para um de meus filhos, aos 12 ou 13 anos de idade, fiz uma assinatura de jornal esportivo, único assunto que lhe interessava. Durante vários anos, mais tarde, comprava um bom livro a cada mês para cada filho, nestas barracas de sebo. Muitos sei que eles leram com prazer.
    A leitura dos clássicos representa a possibilidade de dialogar com mentes geniais. Mas é difícil para um jovem, senão impossível, iniciar-se na literatura por meio de “O Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, por exemplo, do “Fausto”, de Göethe ou de “José e Seus Irmãos”, de Thomas Mann, para citar obras primas universais de indispensável porém difícil leitura, sem com isto querer desencorajar ninguém em relação a esses autores.
    Aliás, é bom comentar que muitas vezes não nos aproximamos de grandes autores por receio infundado, temendo que serão de dificuldade intransponível quando não são. Há entretanto obras primas mais acessíveis do que outras e isto pode não ter que ver com o quanto a pessoa já leu anteriormente mas com a sua idade e amadurecimento.
    Mas se qualquer pessoa sabe que em relação à literatura há uma escala de dificuldade variável entre as obras, sendo alguns livros e autores mais fáceis e agradáveis para a leitura do que outros, o mesmo não acontece em relação à filosofia. Por desconhecimento considera-se a filosofia coisa hermética, incompreensível e inacessível. Os filósofos, por sua vez, são tidos como lunáticos excêntricos que vivem com “a cabeça nas nuvens”.
    Este estereótipo do filósofo, freqüente no imaginário popular tanto quanto entre os obtusos que supõem que a ciência e a tecnologia bastam à humanidade, curiosamente, é uma construção da literatura. Já nos primórdios da filosofia, na antiga Grécia, Aristófanes satiriza impiedosamente ninguém menos do que Sócrates na comédia “As Nuvens”, retratando-o exatamente como um lunático com a cabeça nas nuvens.
    Professores monótonos ou apenas interessados em doutrinação ideológica, um ambiente cultural e político que despreza a filosofia, dado o fato de que mais do que qualquer outra disciplina estimula o pensamento crítico, dificultam ainda mais que as pessoas se interessem pelos filósofos.
    Grande parte desses pensadores, entretanto, são dotados de um senso de humor extraordinário e é possível encontrar mesmo entre os mais circunspectos passagens deliciosas, anedóticas em muitos casos, capazes de nos interessar pelos problemas filosóficos, aproximando-nos deles de forma amena e agradável. Citarei alguns casos, esperando que o leitor compreenda que não desejo reforçar o estereótipo do filósofo louco e extravagante mas apenas apresentar a sutileza de seu humor.
    A respeito da questão da existência, vejamos pequena passagem do inglês Bertrand Russel (início do século 20) sobre o francês René Descartes (século 16), retomando críticas gramaticais formuladas pelo alemão Friedrich Nietzsche (século 19) que desmontavam a pertinência da célebre sentença do francês.
    “Descartes, como toda gente sabe, diz ‘Eu penso, logo existo’, e passa imediatamente, como se não houvesse dito nada de novo, a afirmar: ‘Eu sou uma coisa que pensa’. Seria difícil enfeixar um número tão grande de erros em tão poucas palavras. (…) Pois é obvio que, se pensarmos em todas as coisas que existem no mundo, estas não podem ser divididas em duas classes – isto é, as que existem e as que não existem. A não existência, com efeito, é uma propriedade muito rara. Todos conhecem a história dos dois filósofos pessimistas alemães. Um deles exclamou: ‘Quão mais felizes seríamos, se a gente não houvesse jamais nascido’. Ao que o outro respondeu, com um suspiro: ‘É verdade! Mas quão poucos têm essa grande sorte!” (Russel, Bertrand. “Retratos de Memória”. Trad. Brenno Silveira. Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1958)
    Como se vê, os filósofos dialogam entre si transpondo os séculos. Esta extraordinária característica é responsável por uma contínua renovação do pensamento filosófico. A obra de antigas escolas é freqüentemente retomada, em rara preservação da sabedoria humana. Em outras áreas culturais ou científicas processo inverso ocorre e o novo se constitui pela destruição do antigo, que passa a ser esquecido e desvalorizado como sendo errado ou sem sentido. Na filosofia, a discordância de um autor em relação a outro não invalida a obra anterior nem a condena ao ostracismo.
    O primeiro livro de história da filosofia grega de que se tem notícia, o mais antigo que sobreviveu ao tempo, é de Diôgenes Laêrtius (século 3). Melhor considerado, por alguns, como uma história dos filósofos do que como uma história da filosofia, essa obra remete-nos à atmosfera em que viveram os filósofos antigos, com muitos detalhes míticos e fantásticos em mistura com anedotas de sabor popular. (Laêrtius, Diôgenes. “Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres”. Trad. Mário da Gama Cury. Editora Universidade de Brasília. Brasília, 1988)
    Um dos filósofos de histórias mais saborosas, várias relatadas no livro desse pioneiro historiador, é seu xará Diôgenes de Sinope, fundador da escola cínica e contemporâneo de Platão. Opunha-se radicalmente às convenções sociais. De sua forma rude de falar e comportar-se derivou o sentido de falta de vergonha ou descaramento que hoje atribuímos à palavra “cinismo”. Mas, por vezes, poucas coisas são mais sérias daquilo que pode dizer um cínico quando outros não podem. Vejamos o filósofo na praça: “Certa vez em que ninguém prestava atenção a um discurso sério seu, ele começou a assobiar; vendo o povo aglomerar-se em sua volta, ele censurou a multidão por haver-se aproximado atentamente para ouvir uma tolice, enquanto para ouvir coisas sérias ninguém havia chegado perto.”
    De uma genialidade que teria levado Platão a compará-lo a seu mestre, dizendo que Diôgenes era um “Sócrates demente” e Alexandre o Grande a declarar que se não tivesse nascido Alexandre gostaria de ter nascido Diôgenes, ele próprio, considerado louco e anti-social, se definia assim: “Sou um cão daqueles que todos elogiam mas que ninguém ousa levar para a caça”.
    Diôgenes era escravo em Atenas; por ser pobre e por cultivar o absoluto desprendimento de bens materiais, morava numa barrica, um tonel. Alexandre da Macedônia (Alexandre o Grande) que fôra educado por Aristóteles e apreciava filosofia, foi um dia visitá-lo. Conta-se que o imperador lhe disse, diante de sua barrica, onde tomava sol, que escolhesse o que desejasse em honraria, prêmios ou recompensa por seu valor, que lhe seria concedido. Diôgenes respondeu: “Só peço que não me tires aquilo que não me podes dar”. Referia-se ao fato de que em pé à sua frente Alexandre fazia-lhe sombra. Pedia apenas que o imperador não lhe tapasse o sol. Caberia hoje pedirmos apenas o mesmo a Dilma, a Pequena.
    A fala não consiste em mera blague, da mesma forma que a anedota que Bertrand Russel conta sobre os filósofos alemães não é mera brincadeira. Fiel à sua doutrina e ao espírito de educador de todos os filósofos gregos, a indiferença ante o poder absoluto era o único justo ensinamento que Diôgenes poderia transmitir àquele homem. De que outra forma se pode realmente ajudar um vaidoso imperador senão dizendo-lhe que todas as suas honrarias e riquezas não se comparam a um único raio de sol? Diôgenes dizia que os homens competem esmurrando-se e de muitas outras maneiras, mas ninguém compete para tornar-se moralmente excelente.

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