O amor e o casamento gay

16 de maio de 2014 § 3 Comentários

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O Censo de 2010, o último feito entre nós, mostrou que a proporção de casais que vive em união consensual teve grande aumento na década, enquanto o porcentual dos que são casados formalmente teve queda significativa inclusive na população que se diz católica.

A proporção de pessoas que vivem em união consensual passou de 28,6% em 2000 para 36,4%. O porcentual de casados no civil e no religioso caiu de 49,4% para 42,9%. Praticamente não houve mudança na proporção dos que têm apenas casamento civil, que passou de 17,5% em 2000 para 17,2% em 2010. Os casados apenas no religioso caíram de 4,4% para 3,4%.

Os casamentos gay vão na direção contrária à tendência moderna, o que põe uma nota esquisita nesse carimbo “progressista” que a defesa intransigente desse direito ganhou na imprensa de todo o mundo.

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Os gay, enfim, são os últimos gêneros do Brasil a insistir, antes de se acasalar, em dar satisfações para o Estado e para os seus parasitas nos cartórios; a pedir a benção pros renan calheiros da vida para aquilo que sentem, deixam de sentir ou resolveram fazer com esse sentimento.

Ja me disseram que é tudo pra que eles tenham os mesmos direitos à divisão de bens que os hetero em caso de morte ou separação.

Mas morte resolve-se melhor com um testamento. Já quanto à separação o que justifica esse direito no casamento hetero são os filhos e, ainda assim, só em sociedades arcaicas onde a mulher não trabalhava e por isso ficava dependente.

Hoje, nas sociedades modernas, os casais resolvem isso com contratos privados entre iguais.

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Do casamento de papel, cada vez mais, só sobra, portanto, como em tudo em que o Estado põe a mão, além da corja dos chupins de cartório que só existe por aqui, uma industria de advogados pouco escrupulosos especializados em espicaçar a cobiça dos antigos conjuges mostrando-lhes como é fácil e seguro um roubar o outro depois da separação para explorar as falhas da regra e o atraso em que o legislador sempre está em relação à realidade da sociedade que ele pretende normatizar, e depois dividir o produto do roubo com o “vencedor”.

Funciona mais ou menos como as nossas leis trabalhistas, estas que afirmam em alto e bom som: “Seja um filho da puta que o Estado garante”. Quanta gente que você conheceu que era decente e convivivel enquanto ainda não fazia jus a esse “direito”, não aderiu ao bloco dos filhos da puta depois que o conquistou?

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No meu tempo de redação isso era um clássico. No dia em que o cara fazia 10 anos de casa, quando fazer 10 anos de casa implicava que ele passava a ser indemissível, o sujeito já entrava na redação com uma cara diferente, de funcionário público.

Vi um monte de repórter e de editor aguerrido, pau pra toda obra, vocacionado até, passar a recusar pauta, fazer corpo mole, mudar da redação pros corredores, se transformar de jornalista em articulador de “panelas” e instigador de perseguições e pequenas lutas pelo poder dentro do ambiente de trabalho apenas porque de repente ele passava a poder fazer isso impunemente.

Na redação do Estadão, quando comecei no jornalismo ha 40 anos, tinha um canto, lá no fundão, onde ficavam esses velhotes barrigudos, moles, untuosos, escarrapachados nas suas cadeiras, sempre conchichando pelos cantos e conspirando contra alguém, que era apelidado pela turma que ainda estava na luta de “Colônia de Leprosos”.

Enfim, memórias…

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Mas, voltando à vaca fria, ou o meu faro muito me engana ou os renan calheiros da vida se intrometerem no meio do amor homossexual vai fazer por ele o mesmo que fez pelo amor heterossexual: vai transfomá-lo num negócio até para uma boa metade ou mais dos envolvidos que, desde solteiros, sempre se recusaram a ficar fazendo contas e rodando bolsinha na esquina.

Assim, quando as nossas televisões deixarem de ter necessidade de se mostrar “progressistas” sem correr grandes riscos em função de seus crimes pregressos para conquistar o risco zero político e financeiro e o mundo gay já tiver aprendido sobre o casamento amarrado pelo Estado tudo que o mundo hetero já sabe, é provavel que o mundo vá ver campanhas orientadas para onde esta já deveria ter sido: se é de igualar direitos que se trata, o mundo hetero é que deveria ter saído desfilando pelas avenidas do planeta para exigir aquele de que os gay ainda desfrutavam e que, muito provavelmente, explica a diferença de comportamento que justifica o apelido que eles têm: o direito ao amor só, beleza pura, sem que o Estado e seus parasitas metam nele a sua colher para envenená-lo e corrompê-lo pelo dinheiro, como eles fazem com tudo em que tocam.

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Eu procurei, de lanterna na mão…

24 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Ao fim de mais de seis meses de buscas dona Dilma decidiu-se pelo advogado Luís Roberto Barroso para a vaga de Carlos Ayres Brito no Supremo Tribunal Federal.

Chega muito festejado o novo ministro o que me leva de volta a um velho tema.

O que mais me preocupa sobre o futuro da democracia brasileira não é a desfaçatez com que os que sempre se declararam inimigos dela articulam seus golpes mas, antes, os sinais do quanto a sociedade brasileira está acostumada às agressões que sofre e despreparada para defender-se delas que transpiram das entrelinhas da cobertura da imprensa sobre esse episódio.

Esta nomeação, desde sempre se sabe, pode reverter o julgamento do Mensalão e jogar a última pá de cal nas esperanças de que a derradeira instituição viva do Estado brasileiro permaneça funcionando como uma barreira entre os nossos direitos mais elementares e a sanha de arbítrio de um partido que declara todos os dias o seu ardente desejo de passar por cima deles.

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Mas mesmo diante de circunstâncias tão explícitas nada parece ser capaz de nos escandalizar.

O nomeado, informa o noticiário, traz como nota mais fresca do seu currículo o fato de ter escrito inúmeras matérias em seu blog e em outras publicações por ocasião do pronunciamento das sentenças do julgamento que ele agora terá o poder de anular.

Nelas registrou “a surpresa de inúmeros magistrados”, não com o fato de, pela primeira vez na história deste país, ter sido quebrada a impunidade de sempre e condenados malversadores contumazes do dinheiro público e agressores notórios da ordem republicana, o que seria de se esperar nem que fosse apenas para fingir apreço à Justiça posto que ninguém sequer tenta desmentir que é isso que eles são, mas sim com “a dureza das penas proferidas”.

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É, coincidentemente, exatamente o mesmo argumento dos advogados dos réus cujas petições ele passa a ter o poder de julgar: reduzir “a dureza das penas” até o limite aquém do qual elas resultam, na prática, em impunidade.

Não ha um registro sequer, nas manifestações pregressas do escolhido de Dilma, sobre o mérito da história que o Ministério Público reconstituiu em minúcias relatando passo a passo, pacote por pacote, cueca recheada por cueca recheada, como os milhões do Mensalão foram passando de mão em mão, de onde saíram, a quem foram entregues, por quem e para que.

O novo ministro do Supremo, assim como os advogados dos réus e o resto do país, não contesta os fatos. Apenas “surpreende-se” com o fato de uma corte exigir que criminosos com cargos públicos paguem pelo que fizeram, para variar.

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Tanto que o único argumento que ele apresenta é o “inusitado interesse da imprensa e da opinião pública” nesse julgamento, que teria “influenciado os juízes”. Algo equivalente a propor a anulação de um pênalti porque, ao mesmo tempo em que o juiz o apitou a torcida inteira também gritava o flagrante da bola agarrada com as mãos dentro da área à vista de todos.

Tudo isso, entretanto, impressiona menos um bom punhado de repórteres, editores e comentaristas da imprensa que o fato do agora ministro se ter pronunciado favoravelmente ao casamento gay, ao aborto de anencéfalos e a pesquisas com células tronco o que lhe garante um passaporte de “progressista” com viés “técnico” não obstante o resto do seu currículo apontar, entre outros feitos, a sua notória especialização em manter a salvo de penas duras ou moles clientes endinheirados nacional e internacionalmente conhecidos como vetores fundamentais da corrupção que devasta o país tais como a CBF da famiglia Havelange e outros do mesmo quilate.

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Consta, finalmente, do currículo de sua excelência estar entre os primeiros a atender ao chamamento de don Lula I para inverter decisão do Supremo e dar guarida no Brasil a um assassino condenado pela justiça italiana que, na visão petista de democracia e direitos humanos, não tem legitimidade democrática suficiente para julgar os crimes de Cesare Battisti.

Também isso é tratado como um pormenor que nos diz menos que aqueles três votos “progressistas” sobre o homem que chega à Suprema Corte brasileira pelas mãos interessadíssimas da mais alta figura do partido político condenado no mais importante julgamento de toda a sua história, com a missão quase explícita de anulá-lo.

Toda essa desfocada confusão de pesos e medidas remeteu-me diretamente a outra manifestação recente da mesma ausência de critério.

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Falo da celeuma levantada em torno do ministro Luís Fux, outro escolhido de Dilma, quando ninguém menos que José Dirceu revelou à Nação que ele lhe tinha prometido livrá-lo no julgamento do Mensalão mas não entregou o que se comprometera a entregar.

E não é que foi essa “traição” e o caráter do ministro que dominaram o debate da imprensa naquele momento?

Pouco ou nada se disse sobre a revelação chocante de que fazer promessas a José Dirceu é fator decisivo para a escolha de ministros do Supremo na presidência de Dilma, “a Faxineira”. O que justifica a pergunta com que terei de dormir até que se desate o nó do Mensalão: o que terá o ministro que mais trabalhou para deixar impune o condenado Cesare Battisti prometido desta vez ao condenado José Dirceu?

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Lembrete

25 de janeiro de 2013 § Deixe um comentário

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O casamento gay não é, exatamente, o problema mais premente da humanidade no momento.

Ele ganhou a importância que ganhou na eleição presidencial americana porque é um dos últimos que restaram ainda por ser resolvidos na relação entre o Estado e o povo dos Estados Unidos da América.

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Sendo assim, roga-se à grande imprensa abaixo do Equador não esquecer que nós, cá embaixo, ainda temos de resolver todos os outros, a começar pelo primeiro, que é o de estabelecer a igualdade de todos (os de dentro e os de fora do aparelho do Estado) perante a lei.

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O feminismo fez o mundo melhor?

16 de outubro de 2012 § 2 Comentários

Para acionar as legendas em português: 1) Inicie o filme; 2) No conjunto de ícones que aparecerá do lado direito, por baixo do vídeo, acione o segundo (a caixinha com duas “lihas” desenhadas dentro); 3) Clique em “Inglês transcrito”; 4) Acione “Configurações” para escolher a cor das letras; 5) Dê “OK”; 6) Com as legendas já aparecendo em inglês acione novamente a caixinha com duas linhas; 7) Clique em “Traduzir legendas”; 8) “Role” o índice até “Português”: 9) Dê “OK”. Não tente fazer tudo de uma vez só; o sistema só funcionará com esta sequência de passos.
Video sugerido por Patrice de Camaret

Elizabeth Warren é uma advogada especializada em falências da Harvard Law School que foi responsável em grande parte pela criação do Bureau de Proteção às Finanças dos Consumidores dos Estados Unidos. Tem um extenso trabalho nessa área que a projetou como uma das mais respeitadas autoridades no estudo da evolução da capacidade de consumo das famílias americanas. Em 2012 foi candidata ao governo de Massachusetts pelo Partido Democrata e, antes disso, trabalhou ativamente no planejamento das reações do governo Obama e do Congresso dos Estados Unidos à crise iniciada em 2008.

Nesta apresentação, em que olha o processo de encolhimento da classe média a partir de uma perspectiva mais longa, ela mostra, com medições precisas, como o movimento feminista, ao tirar a mulher do lar onde, com a criação dos filhos, os seres humanos desenvolviam a arte de conhecer-se em profundidade, e jogá-la na luta pelo dinheiro e pelo poder, o território por excelência da falsidade, do fingimento e da enganação, iniciou um processo sem final à vista que põe em cheque os fundamentos culturais e econômicos da democracia americana.

Entre os pontos que ela destaca estão:

  • a renda dos casais, somada, aumentou mas a de cada trabalhador individualmente, caiu, principalmente a dos homens, dividida que foi pelo efeito do enorme crescimento da oferta de mão de obra (feminina) no mercado;
  • o endividamento das famílias aumentou e o nível médio tradicional de poupança familiar hoje está reduzida a praticamente zero, o que indica que, feitas as contas, a absorção das mães pelo mercado de trabalho não acrescentou nada à economia da casa e da família, só tirou;
  • vestir, comer, ter carro, tudo isso ficou mais barato que nos anos 70; mas os juros sobre a moradia subiram 64%, o seguro saúde 74% (com redução das vantagens); os cuidados com as crianças mais de 100%; os impostos 25%;
  • hoje ¾ do dinheiro da classe média é gasto nessas despesas;

  • no meio desse processo entraram em cena, com o “outsourcing”, os bilhões de trabalhadores miseráveis das “chinas” da vida disputando mais uma fatia do que antes era dividido apenas entre a massa trabalhadora masculina;
  • tudo isso resultou, entre outras coisas, numa enorme pressão econômica contra ter filhos; a inflação para famílias com filhos subiu mais de 100% enquanto para famílias sem filhos ou gay subiu apenas 50%;
  • ha muito menos disposição de contribuir para causas comunitárias (num país onde tudo de mais importante – educação, pesquisa, ciência, medicina, arte – é feito com esse tipo de dinheiro);
  • os Estados Unidos estão saindo de um modelo de sociedade de três classes, com as duas dos extremos muito pequenas e a do meio enorme, para uma sociedade de duas classes, uma delas mais endividada e mais pobre a cada dia e distanciando-se cada vez mais da outra.

Haverá, naturalmente, quem se recuse a raciocinar desapaixonadamente a respeito e repita chavões e grunhidos “anti-chauvinistas” logo aos primeiros argumentos que Elizabeth Warren alinha. Mas quem acredita que tudo que fazemos neste “vale de lágrimas” deve ter como objetivo a busca da felicidade terá muito em que pensar a partir dos fatos que ela expõe.

Qual a razão da politização da “causa gay”?

27 de junho de 2011 § 7 Comentários

Porque os “gays” querem o Estado se metendo em suas relações quando os “hetero” lutam justamente pelo contrário?

E de repente a momentosa questão dos “direitos dos homossexuais” passa a ser aquilo que – li esses dias – os americanos já chamam da “questão de direitos civis do nosso tempo”.

Sinal dos tempos…

Para se receber o carimbo de “progressista” ou evitar o apodo de “reacionário”, hoje, é preciso, antes de mais nada, declarar-se a favor do “casamento gay”. Ou seja, exigir que o Estado chancele as relações amorosas desse segmento, velhas como a humanidade.

Isso basta para explicar a forma como trata essa questão a imprensa “corporate”, que é a que se pauta pelas “melhores práticas de governança corporativa”, aquelas que dizem que você deve fazer tudo para agradar a todos, vender o mais possível e tomar o mínimo de posições contra ou a favor de qualquer coisa porque isso tende a excluir freguesias.

Esse pessoal adere por princípio ao que quer que seja, desde que dê Ibope. E sexo sempre deu Ibope.

Acontece que a tomada de assalto das redações modernas pelos agentes da “governança corporativa” juntou a esse viés deles característico um outro, pré-existente, também de força insuspeitada para quem vive aqui fora. É que os jornalistas são especialmente sensíveis aos adjetivos “progressista” ou “reacionário”. São capazes das maiores ignomínias para atraí-los ou para afastá-los de si.

O cruzamento das duas coisas explica o tratamento dado à “questão gay” neste Ocidente “corporativo-politicamente-correto” em que vivemos onde CEO’s, jornalistas e políticos se diferenciam cada vez menos em matéria de propósitos e de comportamento e todos clamam em uníssono pela intervenção do Estado nesse particular departamento das relações amorosas.

E, no mais, eu desconfio de todas as “causas” que as televisões lançam e os políticos automaticamente abraçam. Chamem a isto preconceito se quiserem. Este eu assumo.

Enfim, sobre o casamento e o Estado eu penso exatamente o contrário!

Registrei o meu para não criar um problema para minha mulher e para minha mãe apenas para fazer alarde de minhas convicções ideológicas. (Nem as minhas próprias valem impingir aos outros o que pode ser sentido como uma humilhação para nada que não resulte em mudanças de fato). Mas sempre achei uma intromissão absurda ter de registrar minhas relações afetivas junto à igreja e ao Estado, especialmente neste país onde as “autoridades” que o representam, só pelo fato de sê-lo, já são, mais que suspeitas, claramente culpadas de alguma das práticas nefandas que se exige para que alguém se torne uma.

Pois “autoridade publica”, no Brasil, onde somente os cargos executivos e legislativos são conquistados com a chancela do eleitor, é uma condição que pressupõe que, no mínimo, você tenha se aliado incondicionalmente a algum dos governantes ou profissionais da locação de governabilidade que conhecemos, os únicos que têm a prerrogativa de faze-lo.

Na minha pesquisa individual, aliás, o que constato é que desde que os heterossexuais passaram a ser obrigados a esse ritual humilhante, ha coisa de menos de 200 anos, eles querem mais é se livrar de ter de pedir licença a quem nem sequer conhecem; a quem sabem que vive, antes de mais nada, de explorá-los, para se relacionar duradouramente com alguém.

Daí o crescimento vertiginoso do numero das relações ditas consensuais, sem registro oficial, e da alta de expressões como “ficar” que reforçam o caráter precário de um tipo de relação que o Estado quer perene, e de todos os outros sinais do nojo crescente que as pessoas de bem sentem da indústria que foi montada na esteira do registro oficial das relações amorosas.

E, no entanto, tudo isso que, no mundo hetero, define uma atitude “progressista” quanto aos relacionamentos amorosos, adquire o significado contrário no mundo “gay”. Ali todos fazem questão, hoje em dia, de que gente de notória boa fé e que prioriza os sentimentos humanos na ordem dos valores tais como deputados e senadores, governadores e prefeitos, reis e presidentes chancelem as relações amorosas de cada um e as cerquem de documentos oficiais, assinaturas com firma reconhecida, testemunhos, carimbos e registros nessas instituições nefandas que são os cartórios.

A intromissão do Estado na ordem familiar começa, como sempre, por um motivo nobre: acabar com a instituição antidemocrática da primogenia, pela qual legava-se tudo ao filho mais velho em detrimento dos demais, no sistema feudal, com o propósito de não dividir jamais a propriedade (especialmente a da terra). A divisão igualitária da herança por todos os filhos (inclusive os “naturais”, expressão que está aí para nos recordar o quanto são anti-naturais esses registros) é justa e democrática, além de socialmente saudável já que empurra para a pulverização da herança o que favorece o trabalho, a renovação e a mobilidade social.

É só isso que legitima a intromissão do Estado nessa seara. Tocqueville tem passagens memoráveis sobre a importância desse passo no seu A Democracia na América. O resto, quando ele fez, fez empurrado pela igreja e de maneira ilegitima.

A partir daí a coisa degenerou.

Como em tudo onde o Estado é chamado a apor o seu carimbo, nasceu uma indústria de corrupção em torno da obrigação de registro das relações que, no início, tinha em vista as que resultam em prole pelas razões acima apontadas e não para excluir os homossexuais ou para tornar eterno o que só pode ser eterno enquanto durar, como dizia o poeta.

Legiões de advogados vivem hoje como nababos por se terem especializado em transformar as relações inauguradas em nome do amor em formas revoltantes de escravização de um cônjuge pelo outro. As arapucas que eles armam não têm nada a ver sequer com a realidade financeira vivida por cada um. São simples arquiteturas de exploração e parasitismo montadas em torno das falhas das leis por advogados inescrupulosos que, conseguindo transformar um dos cônjuges em sanguessuga eterno do outro, terão garantido para si uma parte do sangue chupado.

É também porque o Estado foi chamado a entrar nessa seara que floresce no mundo hoje a popularíssima profissão de “golpista do baú”, aquele tipo que simula amor com o propósito antecipado de se transformar num parasita com apoio da força publica.

É em função de tudo isso, enfim, que os heterossexuais há tempos dão sinais cada vez mais veementes de que querem que o Estado os esqueça e, na impossibilidade de revogar as leis que sustentam mais uma das industrias do crime que vicejam à sombra dele, vêm inventando os meios e modos que cada censo reconfirma para seguir se relacionando amorosamente à revelia dele.

Os homossexuais, entretanto, vão na direção contrária.

Precisam de fato da proteção do Estado para praticar suas preferencias? Nunca, em parte alguma e em tempo nenhum, como a História mostra com profusão de exemplos. Nem mais para faze-lo abertamente ha pelo menos um século onde antes isso era (inutilmente) proibido, especialmente no Brasil em que eu vivo, seja qual for a latitude ou a classe social que se queira medir.

Precisam dela para viver uma relação mais prolongada, incluindo tudo que implica uma relação “hetero” prolongada, excluídos os limites impostos pela Mãe Natureza? Não outra vez.

Para doar seus bens uns para os outros? Negativo de novo.

Para ter mais segurança? E existe algum pingo de verdade nessa suposta preferencia do crime por homossexuais no país em que mais se morre de morte matada, mesmo entre os países oficialmente em guerra?

A verdade verdadeira é que, descontada a legação de tetas outorgadas pelo próprio Estado, as únicas que, nos tempos modernos, continuam sendo hereditárias ou regidas pelos registros oficiais, os “gays” não precisam do Estado para nada, no que diz respeito a relações afetivas, assim como todos nós outros.

De modo que a mim não convencem.

Isso que a Parada Gay desfila é, mais que tudo, brutalidade, deboche e, frequentemente, até ódio, multiplicados pelo oportunismo dos políticos e pela covardia da mídia. Procure onde você quiser as justificativas para a politização do tema “gay”, menos no terreno da afetividade. Esta é livre. É de foro íntimo. Pode e deve ser vivida totalmente fora do âmbito institucional, como sempre foi e como poderá voltar a ser, um dia, se houver mesmo esperanças de sobrevivência da democracia na Terra.

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