O olho de Obama

11 de setembro de 2013 § 1 comentário

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Enquanto o PC do B, o protetor de Cesare Battisti, negocia com Vladimir Putin, o protetor de Bashar al Assad, para ouvir Edward Snowden de modo a deter a espionagem americana que ameaça a segurança do mundo e a lisura do jogo econômico internacional (Democratas, unidos, jamais serão vencidos!), é provável que os especialistas daquele “tradicional grupo de profissionais que blinda Dilma na rede” (veja a matéria “Top, top secret” aí embaixo) estejam examinando com o mais alto interesse o mais novo segmento da corda que vem sendo pacientemente trançada pelos capitalistas para o seu futuro enforcamento.

A imprensa especializada americana destaca hoje os novos sensores instalados no iPhone 5S lançado ontem pela Apple, como a mais decisiva confirmação da tendência, generalizada nessa indústria, de transformar todos os aparelhos de uso pessoal intensivo, especialmente o onipresente “celular inteligente”, em plataformas de múltiplos “sensores permanentemente ligados” (“always-on sensors”).

burro2

O iPhone 5S vem agora com um “co-processador de movimentos” empacotado num novo chip, o M7, cuja função é “monitorar permanentemente todos os sensores de movimentos já embutidos no seu telefone como o acelerômetro, o giroscópio e a bussola”.

Esses sensores, em si mesmos”, esclarecem os especialistas, “não são novidade. Mas dedicar um chip exclusivamente para monitorá-los, sim. O M7 acoplado a algo chamado CoreMotion API, que é um software que transforma os impulsos medidos por esses sensores em informações combinadas legíveis, torna essas informações disponíveis para qualquer aplicação que se baseie no seu uso”.

Um dos aplicativos baseados nessa API, informa a Apple, será o Nike+Move que fará com que o seu celular substitua o Fuelband da própria Nike, que são aquelas pulseiras que medem quanto você andou, por quanto tempo, em que direção, a que velocidade, empurrado por quantos batimentos cardíacos por minuto e queimando quantas calorias, entre outras informações.

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Os Galaxy S3 e S4 da Samsung também embutem “acelerômetros”, por enquanto usados para funções inocentes tais como rejeitar uma ligação virando o aparelho para um lado e para o outro ou “dar zoom” numa foto imitando o gesto de afastar ou aproximar o telefone dos olhos. Os S4 já incluem, também, sensores de umidade e temperatura, por enquanto usados, alegadamente, apenas para “fazer os telefones contribuírem para sistemas mais amplos de previsão do tempo”.

Já os MotoX, da Motorola, estão “sempre ouvindo”. O chip de processamento de áudio que ele incorpora é “especializado na supressão de ruídos e no reconhecimento de voz”. Como reconhece certas palavras e movimentos, outro tipo de processamento dessas informações “allways-on”, segundo o site especializado AllThingsD, permite que esse telefone “antecipe os movimentos do usuário”. Por exemplo, segure o telefone como se fosse tirar uma foto e ele ligará automaticamente a câmera.

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Todos, entre esses aparelhos, que são motorizados pelo sistema Android, do Google, transmitem, ainda, dados sobre os deslocamentos físicos de seus usuários a partir dos GPS’s “allways-on” dos seus sistemas, mantidos assim “para montar e animar os Google Maps e os sistemas de monitoramento de tráfego”, muito em voga ultimamente.

Todos esses “features” e inocentes comodidades, entretanto, custam dezenas de bilhões de dólares e anos de trabalho para serem desenvolvidos, o que nos põe diante de uma flagrante desproporção entre custo e benefício.

Mas quando saímos do transe do brinquedinho novo e nos damos conta de que a pergunta sobre a real utilidade de todas essas aparentes bobagens poderia ser perfeitamente respondida com a mesma frase que o Lobo Mau devolvia à Chapeuzinho Vermelho quando ela candidamente o interrogava sobre a serventia daquelas orelhas, daquele nariz e daquela boca “tão grandes”, começamos a entender melhor em que terreno estamos pisando.

burro2

Por enquanto a única coisa que impede que todos esses chips fiquem “allways-on” todos juntos, ao mesmo tempo e o tempo todo é a charada tecnológica da duração das baterias que, por enquanto, não suportam esse desaforo todo.

Mas enquanto ela não se resolve os fornecedores dessas plataformas, pelas quais pagamos regiamente e que cuidamos de manter sempre ao alcance de tudo que eles querem saber, vão vendendo a peso de ouro as informações que elas nos arrancam enquanto brincamos com elas. De carona com eles vão também os analistas de “big data”, cada um com seu interesse específico, nadando de braçada nas nossas intimidades.

Em priscas eras, coisa de quatro ou cinco anos atrás nestes tempos de internet, temia-se o desenvolvimento do que se chamava então “uma internet das coisas” onde tudo – de sapatos a automóveis – estaria conectado, o que resultaria no permanente monitoramento de tudo que as pessoas fazem ou deixam de fazer.

burro2a

Era esse o cenário tenebroso à la “1984/Big Brother” dos pessimistas de então.

Agora, compreendendo melhor o real grau de inteligência dos portadores de celulares inteligentes, os fabricantes perceberam que em vez de colocar chips em tudo é mais fácil embutir todos eles nos celulares que eles carregam consigo de livre e espontânea vontade do confessionário ao banheiro, passando por tudo que está no meio, e registrar cada soluço que seus portadores dão – para vender ou manipular tais informações em função de projetos de poder ou simplesmente vigiar concorrentes, desafetos ou opositores para eventuais providências futuras – enquanto os alegres objetos desse monitoramento permanente, nus em pelo, distraem-se a vociferar contra “as óbvias intenções” de Obama e da CIA de despi-los, destruir democracias e atacar gratuitamente gente inocente.

Sai muito mais barato.

burro7

Era normalíssimo o crioulo daquele samba

29 de agosto de 2013 § 4 Comentários

injustiça

Dona Dilma, que mandou avisar aos todo poderosos Estados Unidos da América que não quer que se levante um dedo contra o envenenador de Bagdá, telefonou pressurosa ao “cocaleiro” de La Paz para pedir-lhe desculpas e entregar-lhe na augusta bandeja da justiça a cabeça (de mentirinha) do chanceler da Republica Federativa do Brasil.

Questões de soberania nacional…

Agora veremos se a presidenta que “não tem preconceitos” contra a democracia hereditária cubana mas negou a legitimidade da Justiça do regime notoriamente suspeito vigente na Itália ao abrigar um assassino confesso condenado por ela, mostrará a mesma confiança no senso de justiça de Evo Morales que deposita no da família Castro ao decidir sobre a extradição ou não do desafeto dele que fugiu para o Brasil em razão da visão distorcida do Itamaraty, já devidamente punido, sobre o que é e o que não é justo fazer em matéria de questões humanitárias.

alpino

Não deverá haver erro nesse seu alvitre já que o país inteiro acaba de ter provas da clarividência da senhora presidenta que, num ato de iluminada premonição, encomendou os “médicos” cubanos que, na abundância que o mundo inteiro inveja da ilha dos Castro, não têm mais o que fazer naquele país que vende saúde, pelo menos dois meses antes de “ter a ideia” de criar o seu programa Mais Médicos.

Seja qual for a sua sábia decisão é certo que ela poderá contar com todo o apoio dos guardiões da irreprochavel democracia brasileira no Congresso Nacional que ontem mostraram ter o mesmo discernimento dela ao negar, em nome do princípio sagrado da isonomia, legitimidade também à Justiça brasileira retirando da jaula e depois libertando das algemas um deputado condenado por roubar o povo para angariar votos secretos para a sua própria absolvição.

donadon1

Afinal, esses excelsos membros da base de sustentação do governo dos paladinos da ética na política apenas seguiram o exemplo do partido de sua preclara excelência que, ele também, enfiou de volta Congresso adentro os seus ladrões injustamente condenados pelo Supremo Tribunal Federal que certamente estavam entre os que sufragaram secretamente a contracondenação do seu possível futuro companheiro de cela.

No caso de um improvável revés, aliás, a presidenta, pobre como é, pode contar como certo ao menos com o encômio laudatório do último juiz que infiltrou no STF por todas essas suas meritórias obras, além das do passado remoto, em prol da construção da democracia brasileira.

giga

Eu procurei, de lanterna na mão…

24 de maio de 2013 § 3 Comentários

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Ao fim de mais de seis meses de buscas dona Dilma decidiu-se pelo advogado Luís Roberto Barroso para a vaga de Carlos Ayres Brito no Supremo Tribunal Federal.

Chega muito festejado o novo ministro o que me leva de volta a um velho tema.

O que mais me preocupa sobre o futuro da democracia brasileira não é a desfaçatez com que os que sempre se declararam inimigos dela articulam seus golpes mas, antes, os sinais do quanto a sociedade brasileira está acostumada às agressões que sofre e despreparada para defender-se delas que transpiram das entrelinhas da cobertura da imprensa sobre esse episódio.

Esta nomeação, desde sempre se sabe, pode reverter o julgamento do Mensalão e jogar a última pá de cal nas esperanças de que a derradeira instituição viva do Estado brasileiro permaneça funcionando como uma barreira entre os nossos direitos mais elementares e a sanha de arbítrio de um partido que declara todos os dias o seu ardente desejo de passar por cima deles.

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Mas mesmo diante de circunstâncias tão explícitas nada parece ser capaz de nos escandalizar.

O nomeado, informa o noticiário, traz como nota mais fresca do seu currículo o fato de ter escrito inúmeras matérias em seu blog e em outras publicações por ocasião do pronunciamento das sentenças do julgamento que ele agora terá o poder de anular.

Nelas registrou “a surpresa de inúmeros magistrados”, não com o fato de, pela primeira vez na história deste país, ter sido quebrada a impunidade de sempre e condenados malversadores contumazes do dinheiro público e agressores notórios da ordem republicana, o que seria de se esperar nem que fosse apenas para fingir apreço à Justiça posto que ninguém sequer tenta desmentir que é isso que eles são, mas sim com “a dureza das penas proferidas”.

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É, coincidentemente, exatamente o mesmo argumento dos advogados dos réus cujas petições ele passa a ter o poder de julgar: reduzir “a dureza das penas” até o limite aquém do qual elas resultam, na prática, em impunidade.

Não ha um registro sequer, nas manifestações pregressas do escolhido de Dilma, sobre o mérito da história que o Ministério Público reconstituiu em minúcias relatando passo a passo, pacote por pacote, cueca recheada por cueca recheada, como os milhões do Mensalão foram passando de mão em mão, de onde saíram, a quem foram entregues, por quem e para que.

O novo ministro do Supremo, assim como os advogados dos réus e o resto do país, não contesta os fatos. Apenas “surpreende-se” com o fato de uma corte exigir que criminosos com cargos públicos paguem pelo que fizeram, para variar.

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Tanto que o único argumento que ele apresenta é o “inusitado interesse da imprensa e da opinião pública” nesse julgamento, que teria “influenciado os juízes”. Algo equivalente a propor a anulação de um pênalti porque, ao mesmo tempo em que o juiz o apitou a torcida inteira também gritava o flagrante da bola agarrada com as mãos dentro da área à vista de todos.

Tudo isso, entretanto, impressiona menos um bom punhado de repórteres, editores e comentaristas da imprensa que o fato do agora ministro se ter pronunciado favoravelmente ao casamento gay, ao aborto de anencéfalos e a pesquisas com células tronco o que lhe garante um passaporte de “progressista” com viés “técnico” não obstante o resto do seu currículo apontar, entre outros feitos, a sua notória especialização em manter a salvo de penas duras ou moles clientes endinheirados nacional e internacionalmente conhecidos como vetores fundamentais da corrupção que devasta o país tais como a CBF da famiglia Havelange e outros do mesmo quilate.

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Consta, finalmente, do currículo de sua excelência estar entre os primeiros a atender ao chamamento de don Lula I para inverter decisão do Supremo e dar guarida no Brasil a um assassino condenado pela justiça italiana que, na visão petista de democracia e direitos humanos, não tem legitimidade democrática suficiente para julgar os crimes de Cesare Battisti.

Também isso é tratado como um pormenor que nos diz menos que aqueles três votos “progressistas” sobre o homem que chega à Suprema Corte brasileira pelas mãos interessadíssimas da mais alta figura do partido político condenado no mais importante julgamento de toda a sua história, com a missão quase explícita de anulá-lo.

Toda essa desfocada confusão de pesos e medidas remeteu-me diretamente a outra manifestação recente da mesma ausência de critério.

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Falo da celeuma levantada em torno do ministro Luís Fux, outro escolhido de Dilma, quando ninguém menos que José Dirceu revelou à Nação que ele lhe tinha prometido livrá-lo no julgamento do Mensalão mas não entregou o que se comprometera a entregar.

E não é que foi essa “traição” e o caráter do ministro que dominaram o debate da imprensa naquele momento?

Pouco ou nada se disse sobre a revelação chocante de que fazer promessas a José Dirceu é fator decisivo para a escolha de ministros do Supremo na presidência de Dilma, “a Faxineira”. O que justifica a pergunta com que terei de dormir até que se desate o nó do Mensalão: o que terá o ministro que mais trabalhou para deixar impune o condenado Cesare Battisti prometido desta vez ao condenado José Dirceu?

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Isto não é só um bate-boca entre indivíduos

31 de maio de 2012 § Deixe um comentário

Agora acusam Gilmar Mendes de se ter excedido não só por denunciar (“um tanto tardiamente“) a tentativa de chantagem que sofreu da parte do ex-presidente Lula da Silva como pelos termos crus (mas indiscutivelmente precisos) que usou para qualificar as pessoas por trás da campanha aberta – e até, mais que isso, da bandeira oficialmente assumida pelo PT -para “fazer melar o julgamento do Mensalão” usando os expedientes mais torpes.

Esquecem os críticos de Gilmar que a tentativa de chantagem de Lula apoiava-se na ameaça de acusa-lo – falsamente como ele provou conclusivamente com os comprovantes de compra e uso de passagens aéreas – de se ter beneficiado de favores prestados pelo senador Demostenes Torres e pelo bicheiro Cachoeira para visitar a filha que mora em Berlim,  ameaças estas que foram repetidas na véspera do início dos depoimentos na CPMI em curso por conhecidos “jornalistas” pagos pelo PT para jogar boatos na internet que a sua “militância hacker” trata de ampliar e repercutir até que se tornem “fatos”.

Gilmar Mendes fez sua denuncia, portanto, no momento em que foi forçado a tanto, sob pena de ver-se atirado na fogueira da CPMI que Lula se jacta abertamente de “controlar” antes que tivesse esboçado qualquer reação que pudesse preservar sua reputação.

O que interessa, aliás, é que isto não é só um bate-boca entre indivíduos. A decisão de demolir a mais alta instância do Poder Judiciário, a única força investida de poder institucional para frustrar a vocação imperial do PT (e da qual a imprensa livre, alvo secundário do partido, é só um agente coadjuvante) tem sido persistentemente perseguida desde os primeiros dias do governo Lula.

Essa demolição, é bom lembrar, está garantida pela conjugação da longevidade dos mandatos do partido na Presidência da Republica com o sistema de nomeação de ministros do Supremo e os prazos de aposentadoria por idade. Com as próximas duas aposentadorias compulsórias, mantido o critério das nomeações de novos ministros que o PT vem ostensivamente usando – e já são seis num colegiado de onze membros – também o Supremo Tribunal Federal estará seguramente “dominado”.

É só uma questão de tempo, e de muito pouco tempo. Mas de um tempo que, teoricamente, pode resultar, ainda, na imposição ao partido do vexame de ver condenados boa parte dos membros da sua mais alta cúpula e, junto com eles, ainda que apenas indiretamente, também o todo poderoso Lula da Silva, coisa que ele se sente com força para “não admitir”, custe o que custar.

Os passos do processo são inequívocos. Nos últimos minutos de Lula na presidência o próprio STF já dava a entender que não custará muito a entregar os pontos quando, revogando a sua própria decisão de poucos dias antes, abriu mão de exigir do presidente o cumprimento da lei e o respeito aos tratados do Brasil com países amigos ao transferir a ele a prerrogativa de dar a última palavra no caso Cesare Battisti.

Um final melancólico, diga-se de passagem, para uma instituição com as tradições do STF.

A nomeação de figuras como a do jovem advogadozinho de ninguém menos que José Dirceu, “o chefe da organização criminosa” que montou e operava o Mensalão, em pessoa, como ministro do Supremo Tribunal Federal não deixam nenhuma duvida, igualmente, sobre para que o PT e seus vorazes aliados querem um Judiciário castrado.

Por tudo que vimos até aqui e mais o que já está reservado na agenda nacional, portanto, é muito provável que esta tenha sido a primeira e a última vez que don Lula da Silva 1º terá tomado um “não” pela cara.

O que mais Gilmar Mendes tenha feito na vida antes deste episódio não vem ao caso neste momento. Sua decisão de fazer-se respeitar – e à lei e à instituição que representa –  merecia outro tipo de tratamento dos órgãos de imprensa. Mesmo porque, encilhado o Judiciário, eles próprios estarão transformados em fabricantes de um tipo de munição que nenhuma arma do depauperado arsenal institucional brasileiro estará mais em condições de atirar.

(Sobre a semelhança deste momento da vida brasileira com um dos grandes turning points da história da humanidade, leia também O ano em que voltamos ao século XVI, aqui mesmo no Vespeiro).

Quem luta por Cesare Battisti

14 de setembro de 2009 § 5 Comentários

Afinal, porque o destino de um assassino italiano preocupa tanto o nosso ministro da Justiça? E porque o PSOL, da candidata Heloisa Helena, se mobiliza para garantir a sua impunidade? Quem é Achille Lollo, que ela e a filha do ministro Tarso Genro tratam como guru? O que este caso revela a respeito das pessoas que nos governam?

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As circunstâncias que cercam o julgamento do pedido de extradição de Cesare Battisti, que matou duas pessoas, aleijou uma criança (veja o vídeo com entrevista da vítima) e mandou matar mais duas na Italia nos anos de 1978 e 1979 dá uma boa medida da gente que nos governa e permite vislumbrar a herança que vão nos deixar.

Os sucessivos atropelamentos de Lula pelo seu ministro da Justiça, que o presidente, aliás, faz questão de não registrar, nos dão um testemunho eloquente das mazelas do Poder Executivo que, salvo em questões que possam render algum dividendo eleitoral imediato, oscila entre a omissão do presidente e as manifestações voluntaristas e caóticas do bando heterogeneo que ele enfiou em tantos ministérios quantos são os guichês abertos na feira livre dos “partidos” que vendem “governabilidade” em troca de cargos publicos e as subtribos do petismo e do sindicalismo pelego que nele se abrigam.

O cinismo pragmático de Lula jogou o comércio político brasiliense para um patamar de onde será dificil descer de volta. Como na Natureza, os espécimes da fauna planaltina tambem proliferam em função da oferta de comida. No universo do Estado brasileiro, regido pelos princípios da vitaliciedade dos “direitos adquiridos”, entretanto, esta é uma via de mão unica. As novas bocas chegam para ficar. Assim, é provavel que não nos livremos mais de pagar por dois governos distintos, um composto pelos ministérios a que o presidente dedica alguma atenção, como o da Fazenda e o das Minas e Energia, e o outro loteado entre aqueles dentro dos quais a cachorrada briga como quer, sob a mais completa indiferença de sua excelência.

Assim, tudo indica que o melhor com que poderá sonhar o eleitor brasileiro daqui por diante é que os futuros presidentes venham a incluir na lista dos que merecem atenção alguns dos desprezados de hoje, em especial os ministérios encarregados das funções clássicas do Estado que encontram pares nos paises civilizados como o da Educação, o da Saude e o da Justiça, entre outros.

Tarso Genro

Seja como for, o empenho do sr. Tarso Genro pela libertação de Battisti, posto ao lado do ato que o precedeu de poucos meses que foi a extradição forçada, executada às pressas numa operação quase clandestina, dos dois lutadores cubanos que pediram asilo ao Brasil para escapar à sanha de Fidel Castro, define o seu grau de apreço pela idéia de Justiça. Assim como o cotejamento dos argumentos por ele usados para justificar suas atitudes num caso e no outro, quase identicos, apenas com sinal invertido, fala-nos do seu entendimento do que seja democracia. Quanto à sua noção de legalidade, fica definida pela sua insistência em navegar sempre na contra-mão do Conselho Nacional de Refugiados, o órgão formalmente encarregado desses casos, prendendo quem ele manda soltar, e soltando quem ele manda prender…

Por enquanto, portanto, o caso Battisti já serviu para confirmar que, para o nosso pragmático presidente, o Ministério da Justiça não tem função maior que a de servir como um cala a boca para a ala esquerda do PT, da qual é um procer ilustre o sr. Tarso Genro.

De sua parte, o ministro agraciado, que faz questão de declarar todos os dias o seu descompromisso com a legalidade e a noção de justiça usando silogismos tão cínicos quanto agressivamente falsos para justificar seus atos,  nos dá provas repetidas de que não se sente representante de nada nem de ninguem. O sr. Tarso Genro apenas manda como quer. E quando lhe apraz, atiça sua polícia para cima de quem não obedece. É tudo…

Já dos traços mais intimos do seu carater, fala-nos o caso que ele julgou, à revelia das leis e dos tribunais.

Os fatos são simples. Embora a Italia vivesse, nos anos 70 como hoje, na plenitude democrática e o Partido Comunista Italiano tivesse grande força política e importante representação no Parlamento da época, Battisti e seus companheiros não estavam satisfeitos. Não queriam disputar o poder por canais “burgueses” como partidos e eleições. Queriam tomá-lo pela força. Para isso, fundaram o grupo Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) que, para “fazer-se ouvir”, usava o sangue alheio, derramado em atentados e assassinatos.

Em junho de 1978, o grupo de Battisti matou o policial Antonio Santoro. No dia 16 de fevereiro de 1979, Battisti matou pessoalmente, em locais diferentes de Milão, o açougueiro Lino Sabaddin e o joalheiro Pier Luiggi Torregiani. Este andava na rua com seu filho Alberto, então com 15 anos,  quando foi assassinado a tiros. Ao lado do pai, a criança tambem foi atingida e, desde então, vive numa cadeira de rodas. Não foi ouvido pela imprensa brasileira desde que começou o imbroglio Battisti por falta de vontade dos responsaveis pelas nossas redações que, sem exceções, sabem da sua existência e da sua luta por justiça. Eis o que ele tem a dizer, em entrevista disponivel na internet, embora, lamentavelmente, sem versão legendada em português:

Torregiani e Sabaddin não tinham qualquer militancia ou envolvimento com política. Foram condenados à morte porque estavam num restaurante assaltado por membros do PAC e reagiram, o que levou os assaltantes à prisão.

Em 16 de abril desse mesmo ano,  foi executado Alberto Campagna na cidade de Mestre, proxima a Veneza.

Em 1981 Battisti foi preso, acusado dos quatro assassinatos. Antes que o julgamento começasse, fugiu da prisão. Foi para a França, onde recebeu proteção pessoal de Ives Cochet, lider do Partido Verde francês. A Corte de Diretos Humanos da União Européia entendeu que, ao fugir, Battisti tinha renunciado ao direito de ser julgado estando presente. E assim, foi julgado à revelia e condeando a 30 anos de prisão.

Quando percebeu que poderia ser extraditado, fugiu para o Brasil. Em 2007, uma policial francesa atraiu-o para uma cilada e ele finalmente foi preso, em Copacabana.

A Italia, governada por uma coalisão de centro-esquerda, pediu então a extradição de Battisti com o apouio de todos os partidos de esquerda com exceção da pequena agremiação radical Refundação Comunista que não nega as culpas de Battisti mas defende a concessão de uma anistia. Aprovado pelo Conselho Nacional de Refugiados (Conare), o pedido estava para ser atendido quando o insigne ministro Tarso Genro, num ato voluntarista, intercedeu em seu favor antes de falar com o governo brasileiro, suspendendo a extradição sob a alegação de que se trata de um “perseguido político” que teria sido “condenado à revelia nos porões de uma ditadura” em função de maquinações de “forças ocultas de um aparelho estatal”. Com essa atitude, desqualificou, de um só golpe, alem do Conare, a democracia italiana e a Corte de Direitos Humanos da União Européia.

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Lula, como sempre, preferiu se omitir…

Agora, passados dois anos de água fria na fervura, bem ao estilo do nosso presidente que teme mais que tudo as alas radicais do seu próprio partido que sempre desafiaram sua liderança sobre o PT, o caso chega ao STF onde, pasados seis anos de mandato de Lula e quatro nomeações suas de ministros do Supremo, já é possivel ouvir, na corte suprema da Nação, votos como o que o ministro Joaquim Barbosa deu a favor de Battisti, tentando estabelecer que “o ato de concessão de refugio é um ato de soberania do Estado que concede refugio” e, como tal, não é da conta do STF.

Resta esperar que sua excelência não faça jurisprudência, o que poria um fim à democracia brasileira. Voltaríamos diretamente para a monarquia absolutista, onde os atos dos governantes são assunto a ser tratado somente entre eles e Deus…

Seja como for, as circunstancias do julgamento nos permitem, antes mesmo que ele chegue ao fim, avaliar a extensão da subversão de principios promovida pelo lulismo.

Assistiram ao julgamento para garantir “justiça” a Battisti o senador Suplicy, aquele que reage pavlovianamente a qualquer criminoso estrangeiro preso no Brasil, em cujo gabinete dormiram, na véspera, uma duzia de “manifestantes espontaneos” que invadiram o plenário do STF gritando slogans pela libertação de Battisti, e mais o senador Jose Nery, do PSOL, os deputados Ivan Valente e Chico Alencar, do mesmo partido, e o deputado Jair Bolsonaro.

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A certa altura, houve um bate-boca entre Bolsonaro e o senador Nery. Bolsonaro lembrou que os crimes de Battisti nunca poderiam ser considerados crimes políticos uma vez que ele matou por vingança cidadãos comuns que tinham reagido a um assalto. Ao que Nery respondeu, simplesmente, que os assassinados eram “militantes fascistas”.

Este episódio fortuito vem dar acabamento ao principio de Justiça que nosso ministro esboçou ao dar tratamentos avessos ao caso dos refugiados cubanos e ao de Battisti. Nery formulou com todas as letras aquilo que o ministro não chegou a dizer, ouseja, que matar “militante fascista” póóóódi…

Mas isso não é tudo. Se ainda houvesse jornalistas curiosos nas redações brasileiras, alguem já se teria perguntado porque o PSOL está tão interessado na libertação de Battisti? Onde, afinal, começa a mobilização do partido do qual é um luminar a filha do sr. ministro da Justiça, pela libertação do assassino italiano?

A resposta está à mão para quem quiser procurá-la.

Figura como o “ideólogo” do PSOL, outro assassino italiano homiziado no Brasil. Ele participou da fundação do partido da senadora Heloisa Helena e hoje vive de formular os termos dos irados ataques que as publicações da agremiação dirigem contra o PT de Lula, “vendido à democracia burguesa”.

Achille Lollo

Trata-se de Achille Lollo.

Filho de uma abastada familia romana, não agradava a Lollo, como a Battisti, conquistar o poder na Itália convencendo italianos. Preferia as armas. Na madrugada de 16 de abril de 1976, este nobre “filósofo”, com mais dois comparsas, esgueiraram-se pelas escadas de um modesto conjunto de apartamentos do bairro operário de Primavalle, em Roma, levando um galão de gasolina. No terceiro andar, morava a família de Mario Mattei, gari de profissão. O varredor de ruas, entretanto, era ligado ao Movimento Social Italiano, neo-fascista, fato que, para os que pensam como o nosso senador Nery, justifica uma execução.

Achille Lollo tambem pensa assim.

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As 2:30 da madrugada, este herói da luta armada italiana, tomando os devidos cuidados para não acordar suas vitimas, derrama os cinco litros de gasolina por baixo da unica porta que havia no apartamento e ateia fogo.

A familia é acordada pela explosão das labaredas na sala. Em pânico, a mãe toma nos braços os dois menores entre esses inimigos de morte da esquerda armada italiana, Gianpaolo, de 4 anos, já coberto de queimaduras extensivas, e sua irmã Antonella, de 9, e corre para o andar superior. As duas filhas mais velhas, de 15 e 19 anos, tambem conseguem subir. Seriam resgatas pelos bombeiros, ao fim da tragédia.

Mas Virgilio, de 8 anos, fica cercado pelas chamas. Stefano, o irmão mais velho, de 22 anos, hesita. Mas volta para socorrer o pequeno. As chamas cortam-lhes a saída e o calor sobe a níveis insuportáveis. Os dois correm para a janela, em busca de ar. Lá embaixo, o bairro inteiro assiste impotente à tragédia. Com o rosto derretendo, Stefano grita da janela até ser silenciado pelas labaredas…

lollo vitima 2

Quando os bombeiros finalmente conseguem entrar, encontram o pequeno Virgilio, carbonizado, agarrado às pernas do irmão morto.

O episódio choca de tal maneira a Itália que até hoje, nos aniversários do crime, há romarias à rua Bibbiena, onde são depositadas flores em memória das vitimas.

heloisa_helena

Pois é o autor deste feito heróico, que revoltou seus próprios comparsas do Partido Operário a ponto de denunciá-lo à polícia, que “faz a cabeça” da nossa candidata a presidente da Republica e da filha do nosso ministro da Justiça. E é o partido em que todos eles se congraçam que patrocina a campanha pela libertação de Cesare Battisti…

Sem sombra de duvida, o Brasil já lutou por causas melhores.

luciana-genro2

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