Mudar o jeito de resolver problemas

20 de fevereiro de 2018 § 14 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/2/2018

É a hora do tiroteio. Quem foram os policiais, as mulheres grávidas, as crianças despedaçadas a tiros de fuzil do dia? Não ha mais singular nesses relatos. Aonde é mesmo aquele mar de miséria amontoada em barracos de bloco? Qual estado deixou de pagar a polícia agora? Onde é que o crime passou a correr oficialmente solto? Que prisão está tendo a sua quinzena de matadouro? Onde está batendo hoje a epidemia do século retrasado?

A peste, a guerra, a fome e a morte galopam soltas pela geografia do caos dos jacarezinhos, das rocinhas, dos “complexos” e periferias do favelão nacional que vai engolindo o país que nós quase fomos. A toda hora os dois brasis cruzam “a Linha” e a morte sem edição fica registrada num canto de câmera do nosso sistema de hiper-vigilância só das consequências. Não ha como deter isso com polícia. Nada – nem o Exército Brasileiro – resistirá ao contato direto com esse grau de infecção. Enquanto as mães da favela não tiverem um argumento convincente para demonstrar aos seus filhos que vão ganhar mais estudando que pegando o fuzil, o sistema seguirá nos comendo por dentro.

Corta…

É a hora dos “especialistas”. Gente que tem o que vestir, gente que tem onde morar. Mas o Brasil de que eles falam não é esse do Rio de Janeiro. Nada no deles está fundamentalmente errado senão o eleitor que “escolhe” sempre mal. “Basta escolher a pessoa certa. Um homem ético…” (…mas que compre tempo na TV e ponha votos na urna, seja como for…). O compromisso com a impassibilidade chega às raias da lobotomia. Uns só falam do que os outros disseram. Nenhum alarme, nenhum sinal das hemorragias maciças cá de fora. “Se isto, então aquilo“. “Na hipótese um, dois. Na hipótese dois, três“. “O governo perdeu“. “O governo ganhou“. A bolsa sobe ou a bolsa cai mas as tertúlias nunca vêm ao chão. Não ha “país”. As consequências não têm causas e as causas não têm consequências.

É proibido constatar, mas na espreita rosna a Venezuela. É o que resgata o assunto “eleição” da irrelevância absoluta. Mas não ha qualquer espaço para a esperança. É o campeonato do nada. Os “especialistas” estão aposentados. O futuro do Brasil está aposentado.

Circulam pela internet um monte de listas de medidas para “resolver o problema nacional”. “Assine aí! Não se omita!” Mudar o nome de um crime, multiplicar penas cujo cumprimento não se exige, “proibir” mais isto ou aquilo, “acabar” com não sei o quê, criar mais uma “politica pública”…

O que nos falta não são mais leis vindas de cima, é poder para o povo de tornar efetivas as suas cobranças. Transparência, fiscalização, ética não se pede. Arma-se a mão do povo para exigi-las contra a sobrevivência do emprego de quem foi contratado ou eleito para entregá-las, assim como se exige (e por isso se entrega) todo e qualquer trabalho contratado no Brasil ou fora do Brasil, menos o público.

As hipérboles são o invólucro da mentira. Toda lei pétrea seria estupida se não fosse como são as nossas apenas desonesta. A única exceção é para a que mantem o jogo sendo jogado. “É proibido tornar antidemocrático o jogo democrático“. Em tudo o mais, amarrar o leme e esperar que o barco ande sozinho é a maneira mais certa de naufragar.

Essa violência das ruas é de fera acuada nas carências da Idade Média em plena era da abundância. É de continuar estrebuchando na doença com a cura ao alcance da mão. É de ser cobrado pelo erro alheio mesmo tendo pago o preço de fazer tudo certo. É da certeza do triunfo da mentira sempre.

O Brasil não tem de resolver este ou aquele problema. Tem é de mudar o seu jeito de resolver problemas. O Brasil precisa de uma revolução: das vitórias irrecorríveis do bem que só as deseleições à mão armada podem garantir. É preciso abrirmo-nos à reforma permanente para habilitarmo-nos a desconstruir, pedra por pedra, esse edifício torto em que nos enfiaram. Os candidatos, que têm “porteiros” com quem se acumpliciar, vá lá. Mas a imprensa não precisa disputar a próxima eleição. É a ela que cabe criar esse novo tipo de demanda no mercado do voto. Nada que precise ser inventado nas redações. É só informar como funciona o mundo que funciona.

Democracia é um “software livre”. Um aplicativo de código aberto. O primeiro passo é montar um sistema real de representação para a nossa “democracia representativa”. Enquanto continuarmos sem saber quem é quem na hora de decidir prevalecerão os seis do STF. E enquanto puderem prevalecer os seis do STF eles serão isso em que se transformaram. Voto distrital puro, com um único representante eleito por cada pedaço da população (para poder ser legitimamente deseleito em caso de necessidade, nada mais) é o jeito testado e aprovado de esclarecer isso. Dizermos nós de que leis estamos precisando com leis de iniciativa popular é o jeito democrático de estabelecer prioridades. Deixar bem claro quem manda em quem com recall para político que trai seu eleitor e para juiz que trai a justiça; desafiar com referendos as leis que saírem deformadas dos legislativos é o jeito democrático de garantir que não haverá falcatruas.

Essas três ferramentas, quando andam juntas e somente quando andam juntas, são infernais. Invertem a direção do vetor primordial de forças sobre o sistema. Põem todo o poder nas mãos de cada cidadão mas só permitem que ele o exerça sobre o seu representante. Dão a todo o mundo o poder de obrigar o governo a se mexer mas a ninguém força bastante para agir sozinho ou para se impor a quem quer que seja.

O Brasil só se salva enriquecendo, e rápido. Mas felizmente não é preciso esperar o resultado inteiro. Basta o poder enriquecer que se destrava com os velhos remédios da política. Não é preciso estudar medicina para salvar a própria vida tomando antibióticos. Eles curam até os idiotas. Democratizar o nosso jeito de resolver problemas daria aos brasileiros a condição de voltar a jogar com as próprias pernas. E os brasileiros sempre se dão bem quando jogam com as próprias pernas. Eles provam isso todos os dias sobrevivendo aos governos que têm.

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§ 14 Respostas para Mudar o jeito de resolver problemas

  • Marcos andrade moraes disse:

    belo desabafo. MAM

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  • Márcia disse:

    No futuro, talvez os historiadores _ se é que vai sobrar algum para contar a História _ se refiram ao período que compreende os anos de 2013 a 2018 como “A Guerra dos 3 Poderes”, e que após 5 anos de batalhas cruentas no Judiciário, no Congresso, nos morros e nos presídios, que provocaram milhões de baixas, sobretudo na indústria e no comércio, foi afinal selado um armistício (ou seria melhor dizer “cachimbo da paz”?) em 16 de fevereiro de 2018, com a decretação da Intervenção Federal no estado do Rio de Janeiro, que culminou no cancelamento da tramitação da Reforma da Previdência, cuja proposta era reduzir modestamente o abismo que separa os deuses dos mortais.

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  • Mora disse:

    “Mas a imprensa não precisa disputar a próxima eleição. É a ela que cabe criar novo tipo de demanda no mercado do voto “. Genial. E o ESTADÃO, podia começar nisso e abandonar a assertiva ilusória de que tudo se resume a tomar o seu rumo dentro do processo democrático. O que quer ? Não se envolver ? Ficar bem com todos. É assim que se garante mais 140 anos de existência ?

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  • Fernão, brilhante muito bom o artigo.
    Resta-nos a esperança………. ou fazer o que?
    Parabéns

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  • Adriana disse:

    Acho que os privilegiados brasileiros nem se consideram privilegiados. Mas sim perseguidos. Então não conseguem ver nada de errado, e não se percebem como partícipes do descalabro a que chegou o país.
    Chegamos à intervenção, no RJ, que já foi capital, lotado de servidores aposentados e pensionistas, e sem novos funcionários a os sustentar. Porque os novos estão em Brasília, desde que a capital se mudou.
    E a intervenção é uma pre – guerra. Se o povo brasileiro não quiser ser escravo do crime organizado, em breve terá que lutar. Porque se a intervenção não for bem sucedida, o onimigoné quem vencerá.

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  • Renato Abucham disse:

    Fernão,

    Essa sua frase é lapidar: O Brasil só se salva enriquecendo, e rápido”.

    Copiar o modelo chinês ou de algum outro país de crescimento rápido.

    Mas, parece que vamos cair nas mãos dos que defendem intervenção na economia, a la “metas de inflação” com juros altos a despeito de estarmos em crescimento ou recessão. Nosso samba de uma nota só, da mesma idade da música. E o resultado é de crescimento pífio há décadas..

    Sua defesa do voto distrital é irrepreensível. Pena que nossa imprensa também é dominada por aqueles, que de alguma forma, por ideologia ou interesse, pactuam com o status quo.

    Por favor, continue insistindo nessa tecla o quanto puder. Só se muda o resultado, mudando o jeito de fazer a coisa.

    Abraços,

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  • Saulo Mundim Lenza disse:

    Texto lúcido. esclarecedor e conciso.
    Parabéns Fernão.

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  • José Silvério Vasconcelos Miranda disse:

    Meus cumprimentos. O duro é colocar a realidade na cabeça suja de seus colegas da imprensa. Nunca concordarão.

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  • Sergio Moura disse:

    Não tenho a menor dúvida de que Fernão está certíssimo. Em meu livro Podemos ser prósperos – se os políticos deixarem, sugiro um diagnóstico e um caminho para sairmos desse ambiente de pobreza, desordem, risco de vida e de perda de propriedade e para atingirmos um nível de rendimento semelhante ao do mundo desenvolvido. Digam-me o que acham. Se gostarem, vamos agir.

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  • Carlos Leôncio de Magalhães disse:

    Excelente artigo.

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