Mudar o jeito de resolver problemas

20 de fevereiro de 2018 § 14 Comentários

Artigo para O Estado de S. Paulo de 19/2/2018

É a hora do tiroteio. Quem foram os policiais, as mulheres grávidas, as crianças despedaçadas a tiros de fuzil do dia? Não ha mais singular nesses relatos. Aonde é mesmo aquele mar de miséria amontoada em barracos de bloco? Qual estado deixou de pagar a polícia agora? Onde é que o crime passou a correr oficialmente solto? Que prisão está tendo a sua quinzena de matadouro? Onde está batendo hoje a epidemia do século retrasado?

A peste, a guerra, a fome e a morte galopam soltas pela geografia do caos dos jacarezinhos, das rocinhas, dos “complexos” e periferias do favelão nacional que vai engolindo o país que nós quase fomos. A toda hora os dois brasis cruzam “a Linha” e a morte sem edição fica registrada num canto de câmera do nosso sistema de hiper-vigilância só das consequências. Não ha como deter isso com polícia. Nada – nem o Exército Brasileiro – resistirá ao contato direto com esse grau de infecção. Enquanto as mães da favela não tiverem um argumento convincente para demonstrar aos seus filhos que vão ganhar mais estudando que pegando o fuzil, o sistema seguirá nos comendo por dentro.

Corta…

É a hora dos “especialistas”. Gente que tem o que vestir, gente que tem onde morar. Mas o Brasil de que eles falam não é esse do Rio de Janeiro. Nada no deles está fundamentalmente errado senão o eleitor que “escolhe” sempre mal. “Basta escolher a pessoa certa. Um homem ético…” (…mas que compre tempo na TV e ponha votos na urna, seja como for…). O compromisso com a impassibilidade chega às raias da lobotomia. Uns só falam do que os outros disseram. Nenhum alarme, nenhum sinal das hemorragias maciças cá de fora. “Se isto, então aquilo“. “Na hipótese um, dois. Na hipótese dois, três“. “O governo perdeu“. “O governo ganhou“. A bolsa sobe ou a bolsa cai mas as tertúlias nunca vêm ao chão. Não ha “país”. As consequências não têm causas e as causas não têm consequências.

É proibido constatar, mas na espreita rosna a Venezuela. É o que resgata o assunto “eleição” da irrelevância absoluta. Mas não ha qualquer espaço para a esperança. É o campeonato do nada. Os “especialistas” estão aposentados. O futuro do Brasil está aposentado.

Circulam pela internet um monte de listas de medidas para “resolver o problema nacional”. “Assine aí! Não se omita!” Mudar o nome de um crime, multiplicar penas cujo cumprimento não se exige, “proibir” mais isto ou aquilo, “acabar” com não sei o quê, criar mais uma “politica pública”…

O que nos falta não são mais leis vindas de cima, é poder para o povo de tornar efetivas as suas cobranças. Transparência, fiscalização, ética não se pede. Arma-se a mão do povo para exigi-las contra a sobrevivência do emprego de quem foi contratado ou eleito para entregá-las, assim como se exige (e por isso se entrega) todo e qualquer trabalho contratado no Brasil ou fora do Brasil, menos o público.

As hipérboles são o invólucro da mentira. Toda lei pétrea seria estupida se não fosse como são as nossas apenas desonesta. A única exceção é para a que mantem o jogo sendo jogado. “É proibido tornar antidemocrático o jogo democrático“. Em tudo o mais, amarrar o leme e esperar que o barco ande sozinho é a maneira mais certa de naufragar.

Essa violência das ruas é de fera acuada nas carências da Idade Média em plena era da abundância. É de continuar estrebuchando na doença com a cura ao alcance da mão. É de ser cobrado pelo erro alheio mesmo tendo pago o preço de fazer tudo certo. É da certeza do triunfo da mentira sempre.

O Brasil não tem de resolver este ou aquele problema. Tem é de mudar o seu jeito de resolver problemas. O Brasil precisa de uma revolução: das vitórias irrecorríveis do bem que só as deseleições à mão armada podem garantir. É preciso abrirmo-nos à reforma permanente para habilitarmo-nos a desconstruir, pedra por pedra, esse edifício torto em que nos enfiaram. Os candidatos, que têm “porteiros” com quem se acumpliciar, vá lá. Mas a imprensa não precisa disputar a próxima eleição. É a ela que cabe criar esse novo tipo de demanda no mercado do voto. Nada que precise ser inventado nas redações. É só informar como funciona o mundo que funciona.

Democracia é um “software livre”. Um aplicativo de código aberto. O primeiro passo é montar um sistema real de representação para a nossa “democracia representativa”. Enquanto continuarmos sem saber quem é quem na hora de decidir prevalecerão os seis do STF. E enquanto puderem prevalecer os seis do STF eles serão isso em que se transformaram. Voto distrital puro, com um único representante eleito por cada pedaço da população (para poder ser legitimamente deseleito em caso de necessidade, nada mais) é o jeito testado e aprovado de esclarecer isso. Dizermos nós de que leis estamos precisando com leis de iniciativa popular é o jeito democrático de estabelecer prioridades. Deixar bem claro quem manda em quem com recall para político que trai seu eleitor e para juiz que trai a justiça; desafiar com referendos as leis que saírem deformadas dos legislativos é o jeito democrático de garantir que não haverá falcatruas.

Essas três ferramentas, quando andam juntas e somente quando andam juntas, são infernais. Invertem a direção do vetor primordial de forças sobre o sistema. Põem todo o poder nas mãos de cada cidadão mas só permitem que ele o exerça sobre o seu representante. Dão a todo o mundo o poder de obrigar o governo a se mexer mas a ninguém força bastante para agir sozinho ou para se impor a quem quer que seja.

O Brasil só se salva enriquecendo, e rápido. Mas felizmente não é preciso esperar o resultado inteiro. Basta o poder enriquecer que se destrava com os velhos remédios da política. Não é preciso estudar medicina para salvar a própria vida tomando antibióticos. Eles curam até os idiotas. Democratizar o nosso jeito de resolver problemas daria aos brasileiros a condição de voltar a jogar com as próprias pernas. E os brasileiros sempre se dão bem quando jogam com as próprias pernas. Eles provam isso todos os dias sobrevivendo aos governos que têm.

Porque não sempre?

27 de agosto de 2016 § 15 Comentários

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Artigo pra O Estado de S. Paulo de 27/8/2016

O sucesso das Olimpiadas, o espetáculo dos melhores do mundo desempenhando-se no melhor da vida, é sempre garantido. O produto é irresistível. Embalado no mais feérico dos cenários urbanos da Terra então não tinha erro. Mesmo que nada mais funcionasse funcionaria. Mas não foi só a paisagem. Com tudo o mais constante – os mesmos homens públicos, a mesma quantidade de dinheiro, até menos, as mesmas instituições – desta vez tudo funcionou, e muito bem.

O que foi que fez a diferença?

Ouso afirmar que foi a qualidade da cobrança.

Quando trata do desastre nacional para o público doméstico a imprensa brasileira incorpora não só a linguagem como também as premissas postas pelas partes interessadas no lado “sistêmico” da nossa desgraça. Ao aceitar como irredutíveis e “normais” todos os privilégios de que se apropriou a casta dos políticos e dos funcionários do Estado pesando aqueles 46% do PIB que nos esmagam (36% de impostos + 10% de déficit), tudo que resta aos jornalistas para discutir com os “especialistas” e “cientistas políticos” que aceitam esse mesmo limite é a momentosa questão de “como resolver o problema do Brasil” excluída a alternativa de resolver o problema do Brasil que é precisamente o peso desses privilégios e a metástese da corrupção que necessariamente decorre da aceitação pacífica deles como um meio de vida legítimo sempre ao alcance da mão de todo “concurseiro” ou simples puxa-saco que se dispuser a se bandear do oceano dos explorados para a nau dos exploradores.

As Tentações de Cristo foram menores…

O que aconteceu com a Olimpiada foi um estranho jogo dialético. Sob os ecos da intervenção do “xerife” americano que lancetou o furunculo da Fifa, da Lava-Jato que pela primeira vez abalou a incolumidade da cleptocracia brasileira e da culpa por ter aplaudido o logro do lulismo, a imprensa estrangeira comprou o mau humor da nacional para com a realização dos jogos no meio da nossa maior crise economica e de identidade. E o fez com tanto empenho e azedume que acabou por ferir-nos os brios a ponto daquela “azaração” toda transformar-se na mais recorrente pauta pré-olímpica da imprensa nacional.

Ao passar a cobrir a cobertura da imprensa estrangeira, porém, a nacional inadvertidamente importou junto a superação dos limites que ela própria se impõe ao tratar do drama do Brasil e – das condições da infraestrutura de saneamento, de segurança e de transporte publico para baixo – foi sendo empurrada para um escaneamento fino do Rio de Janeiro que, hipnotizada pelas pernadas e pedaladas dos contendores da luta pelo controle do “Sistema”, ha muito tempo ela se desacostumou de fazer.

Por aqui não se vai nunca à origem última de todas as nossas mazelas porque os jornalistas, especialmente os que convivem em circuito fechado demais com a “côrte” em Brasília, estão tão próximos dela que deixaram de enxerga-la como a aberração que é. O olhar estrangeiro escandalizado com aquilo que concretamente o povo carioca recebe para usar em pleno 3º Milênio resultou em que o Rio de Janeiro fosse revisado de cabo a rabo e cobradas como nunca antes as suas autoridades por tudo que se esconde por baixo dos efeitos visíveis da apropriação do serviço público pela corporação dos seus supostos “servidores”: o Rio como um todo teria de funcionar para que a Olimpíada funcionasse.

E fez-se então a luz, como sói fazer-se sempre que a imprensa faz o seu papel de atrair todos os olhares para onde os problemas realmente estão: da prefeitura carioca à Presidência da Republica não restou a nenhum dos que passaram a ser cobrados sem meias palavaras, nas menores minucias, com a mais desenfreada urgência senão responder com ações enérgicas a tempo e à hora, sob pena de opróbio planetário e perda para sempre da condição de prosseguir na carreira política.

É um santo remédio, e sem substituto conhecido, esse tipo de pressão!

Passado o momento mágico, porém, aquele ímpeto já começa a arrefecer e os debates estéreis sobre como tornar a nossa democracia “efetiva” sem tocar na teta dos impostos dos sindicatos, dos partidos políticos e dos “movimentos sociais” que a falsifica; como “acabar com a impunidade” sem revogar a desigualdade perante a lei que a Constituição consagra; como melhorar a qualidade da educação e do serviço público mantida a indemissibilidade geral e o atrelamento da progressão do salário à chantagem e não ao desempenho, voltam a dominar as telinhas nos intervalos da tragicomédia do impeachment.

É perder um tempo que já não temos. Não ha como consertar o Brasil sem ir à raiz da nossa doença; sem conectar aos representados o fio terra da nossa democracia “representativa”; sem substituir o comércio de privilégios por ferramentas transparentes de educação para a democracia e desinfecção continuada do ambiente do poder como o recall num contexto de voto distrital. Não ha solução mágica, mas esta nos põe de volta numa trajetória ascendente e permite reconstruir, na velocidade que se mostrar possível, esse nosso país em frangalhos.

A Olimpíada provou que, de cima do trilhão e meio de reais que se arrecada por ano em impostos, não nos falta dinheiro nem nos falta “know how” para fazer melhor que os melhores do mundo. Falta, sim, a reverência aos brasileiros que nossos políticos dão aos estrangeiros e, sobretudo, para obriga-los a ela, o foco no essencial e o empenho na cobrança que a imprensa mostrou ao cobrir o Brasil para os estrangeiros mas não mostra quando cobre o Brasil para os brasileiros.

Não é para se ufanar o fato desse Rio de Janeiro da Olimpíada e desse Brasil que funciona só durarem o tempo de uma festa, dessa transitoriedade ser assumida pelos autores do feito e – pior que tudo! – dessa excepcionalidade ser pacificamente aceita pela imprensa que devia falar pelos eleitores. Ser vira-lata, senhoras e senhores, é ter medo de parecer vira-lata … e ficar só nisso.

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No dia em que o morro descer…

24 de setembro de 2015 § 26 Comentários

Um flagrante da doença do jornalismo

27 de janeiro de 2015 § 18 Comentários

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E o que dizer do fato dos jornais e televisões do Rio e de São Paulo só terem “descoberto” que a “Cidade Maravilhosa” e mais Belo Horizonte estavam ainda mais secas que a Paulicéia precisamente no dia em que Paraibuna chegou a zero e as torneiras secaram por lá?

Dos jornais de Minas não sei dizer, mas O Globo e a Globo eu acompanho diariamente e nunca tinha visto uma menção sequer a esse assunto até o meio da semana passada.

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Na sexta-feira publiquei um artigo no Estadão e no Vespeiro apontando o perigo das crises paralelas da imprensa e da democracia brasileiras e a natureza silenciosa da doença que afeta o nosso jornalismo cujos sintomas estão muito mais no que a imprensa não publica do que no que publica, deficiência agravada pela transposição de ferramentas do universo corporativo, bem menos nuançado que o da política, como o “benchmarking”, que ajuda esse processo de alienação porque, ao fazer as redações medirem-se umas pelas outras, leva-as a reconfirmarem-se nos seus erros em vez de detectar as lacunas da sua cobertura. Disse que os jornais estão tão viciados em repetir o que lhe dizem as fontes poluídas do jogo político brasileiro que vêm sendo confundidos com elas pela opinião pública. E que entregar o comando das redações para especialistas em administração de empresas que terceirizam a orientação de sua cobertura para jornalistas que só ocupam vagas a partir do segundo e terceiro escalões era uma temeridade que pode vir a ser fatal e que, além dos problemas de qualidade que acarreta, facilita o “aparelhamento” da produção jornalística.

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Como esperado, fui atacado pela brigada petista da internet, com jornalistas do segundo e terceiro escalão defendendo o espaço que essa distorção lhes permite ocupar acusando-me de “maniqueísmo”, “autoritarismo” e o resto dos adjetivos do costume que eles arrancam da definição do seu próprio comportamento para pespegar no dos outros.

Mas quando eu disse tudo aquilo tinha em mente a ausência de pautas propositivas que dessem a conhecer aos brasileiros sem nenhuma referência do que seja a democracia real, como funcionam as instituições de uma delas cobrindo sistematicamente, por exemplo, os processos de recall de juízes, funcionários públicos e representantes eleitos que acontecem todos os dias nas democracias sem aspas, coisa que, além de romper a cadeia da mesmice que vem matando a curiosidade do público para com nossos jornais, poderia contribuir para apontar caminhos de reformas reais capazes de armar o cidadão brasileiro dos mesmos recursos para fazer valer seus interesses nos momentos de decisão que têm os cidadãos dessas democracias.

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Esse caso da seca no Rio de Janeiro e Belo Horizonte vem provar que o buraco é ainda muito mais embaixo.

Como é possível que somente a seca de São Paulo e a iminência da falta d’água na Paulicéia venha merecendo ha mais de um ano cobertura cerrada e repetidas manchetes até dos jornais do Rio de Janeiro quando a situação deles próprios, agora está provado, era ainda mais crítica que a daqui?

Eu já lhes digo: isso aconteceu porque os candidatos ao governo do Rio de Janeiro com chance na disputa da eleição passada eram aliados do PT e o candidato mais forte ao governo de Minas era do próprio PT, de modo que agitar a falta d’água e o fantasma do racionamento só inetressava ao PT em São Paulo, onde esse foi o grande cavalo-de-batalha para incomodar um PSDB hegemônico que eles sabiam que continuaria no poder.

Que o PT agisse assim, aliás, tudo normal. É esse mesmo o jogo eleitoral: mostrar só o que é bom dos aliados e dos próprios candidatos e só o que é ruim dos adversários.

Nova leva de secretários de Alckmin inclui Saulo de Castro nos Transportes

Mas porque na imprensa se deu a mesma coisa?

Se fosse tudo uma conspiração de petistas infiltrados nas redações seria menos grave. Mas não foi isso. É que o jornalismo brasileiro está tão viciado em publicar somente o que lhe jogam no colo as fontes oficiais, inculsive e principalmente as denuncias a que lhe “dão acesso” as interessadas em atingir inimigos internos que fazem parecer que a imprensa está cumprindo bem a sua funcão que, com exceção da cobertura básica de polícia, já não ha chefia de reportagem nem jornalistas setorizados encarregados de percorrer sistematicamente as encruzilhadas do Sistema onde caem as informações sobre a vida da cidade e do país. Nem mesmo a varredura das diversas janelas para essas realidades que a internet oferece hoje a imprensa está tratando de fazer.

Como não interessava nem ao PT – o que fez do caso de São Paulo o cavalo-de-batalha que foi e ainda é – nem aos partidos de oposição ou meia oposição apontar a ameaça que pesava sobre Belo Horizonte e Rio de Janeiro, a imprensa tomou essa bola gigante no meio das pernas. Deu um ano inteiro de manchetes sobre a iminência da flata d’água em São Paulo, e nem uma palavra sobre Belo Horizonte e Rio onde as torneiras vieram a secar antes que as daqui, nem mesmo nos jornais do próprio Rio de Janeiro e possivelmente nos de Minas Gerais, c.q.d.

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Desde sempre feito cães

26 de maio de 2014 § Deixe um comentário

Democracia à mão armada – 9

21 de agosto de 2013 § 31 Comentários

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(9º de uma série sobre voto distrital com recall. O 8vo está neste link)

Desde ontem está vigorando no Rio de Janeiro a Operação Lixo Zero. Quem jogar lixo na rua pagará multa que pode variar de R$ 150 por uma “bituca” de cigarro até R$ 3 mil para quem criar áreas de despejo clandestinas. Quem não pagar terá seu nome inscrito na Serasa e perderá o acesso ao crédito.

Antes mesmo de a operação começar o lixo recolhido nas ruas da cidade já diminuiu mais de 1/3. É que 900 fiscais da Comlurb há dois meses vêm dando flagrantes nas pessoas, orientando-as sobre o que fazer com cada tipo de descarte e avisando que a partir de 20 de agosto as multas virão. Essa abordagem honesta certamente contribuiu para mobilizar a população. Mas o peso da multa e a antevisão da inexorabilidade com que será aplicada, subentendida nessa preparação, conquanto bem-educada, é que foi o argumento decisivo para fazer a coisa pegar.

A civilização não é muito mais que a presença da polícia. Falo em sentido figurado, mas nem tanto. Impor a lei é remédio que funciona para o Rio e para Nova York. Funciona para o Zé da Silva e para o Steve Jobs. Funcionaria também, portanto, até para os nossos políticos.

Ao contrário do que se costuma dizer por aí, esse tratamento dispensa uma cultura e um processo civilizatório prévios. É aplicar e manter a pressão que a coisa acontece. Se a lei for imposta com a inexorabilidade com que os radares impõem a velocidade máxima nas estradas, o resultado é imediato e infalível. Todo mundo passa a respeitar.

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O inverso também é verdadeiro, independentemente de diferenças culturais e de suposto grau de civilização.

Steve Jobs era visto como uma espécie de novo Leonardo da Vinci. Ele reunia numa mesma embalagem o suprassumo da tecnologia e do design modernos e revolucionou nossa vida. No entanto, bastou que a internet proporcionasse a exportação do trabalho sem que as legislações nacionais fossem junto e lá se foi o nosso Da Vinci explorar, até o limite dos suicídios em massa, a miséria e a ausência de direitos dos filhos dos antigos “paraísos socialistas” e fabricar nossos lindos iPhones e iPads na China, pagando salários de fome e oferecendo condições de trabalho que nos EUA o levariam à cadeia.

A mesmíssima coisa aconteceu com os mais refinados designers europeus. Por mais “civilizados” e “politicamente corretos” que sejam em seus próprios países, assim que se certificaram de que podiam fazer isso impunemente, bateram-se todos para as Bangladesh da vida para produzir sua moda cool com mão de obra faminta naqueles tugúrios que a gente vê desabar sobre as pessoas na TV.

bara9É isso que quero dizer quando afirmo que civilização é, essencialmente, a presença da polícia. E que, se instituirmos uma polícia para fiscalizar cada passo dos nossos políticos e eles tiverem a certeza de que cada vez que jogarem contra nós serão punidos, seu comportamento mudará da água para o vinho a partir do mesmo minuto em que tal certeza se instalar.

Essa polícia somos nós mesmos, os eleitores, e o que falta é apenas armar a nossa mão.

Quando Samuel Colt inventou seu famoso revólver de seis tiros num mundo em que mandava quem tinha a mão mais pesada, a propaganda para vendê-lo era assim: “Deus fez os homens diferentes, Sam Colt tornou-os iguais“. Pronto! O mundo não estava mais dividido entre grandalhões e fracotes. Com todos andando armados, era melhor que cada um respeitasse o outro.

O que arma a mão dos eleitores e faz os políticos passarem a respeitá-los é o instrumento simples do voto distrital com recall. Nele cada cidade, cada Estado ou o País inteiro, nas eleições para cargos federais, é dividido em distritos eleitorais. O distrito é definido, nas cidades, pela divisão do número de eleitores pelo número de vereadores, e pelo delineamento de alguma unidade geográfica – bairro, conjunto de bairros, zona da cidade – em que o número de eleitores se aproxime dessa fração ideal. Os distritos e zonas eleitorais, na verdade, já estão mais ou menos definidos no sistema de hoje. Só não se traduzem em poder algum para os eleitores.

bara4No sistema distrital com recall cada candidato só poderá concorrer aos votos de um determinado distrito. O primeiro turno extrai os dois mais votados. O segundo fecha a disputa. O mesmo raciocínio se aplica aos Estados, para as eleições estaduais, e ao País inteiro nas federais.

Com isso, fica-se sabendo exatamente quem representa quem em cada Câmara Municipal, Assembleia Legislativa ou no Congresso Nacional. A partir daí, qualquer cidadão de um distrito que vir razões para tanto pode iniciar uma petição de recall do seu representante, pela razão que entender suficiente.

Se colher entre seus pares o número de assinaturas estabelecido na lei para esse efeito – algo que varia entre 5% e 7% nos países onde o sistema já vigora -, consegue homologar o recall e o Estado é obrigado a patrocinar com verba idêntica a campanha contra e a campanha a favor da derrubada desse representante.

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É feita, então, nova votação só nesse distrito para substituir o político em questão. Não são necessárias manifestações gigantes nem pedidos a colegas pouco dispostos a criar precedentes que possam voltar-se contra eles próprios. O resto do País pode continuar trabalhando em paz. Mas o político defeituoso é recolhido exatamente como no recall de automóveis, “para evitar um desastre“, e, se for o caso, entregue à Justiça comum para posteriores deliberações.

Inventado com as características que tem hoje na Suíça em meados do século 19 e implantado em todas as democracias desenvolvidas a partir do início do século 20, esse expediente simples reduz a corrupção em pelo menos 80% e arma a cidadania para impor, daí por diante, todas as reformas de que sentir necessidade. Muitos abrem a lista, nesta segunda rodada, exigindo a despartidarização das eleições municipais de modo a quebrar o poder de chantagem de velhos caciques e garantir transfusões regulares de sangue não contaminado na política.

O Brasil não precisa mais que isso para começar a andar só para a frente.

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TODA A SÉRIE SOBRE VOTO DISTRITAL COM “RECALL”

https://vespeiro.com/2013/08/21/democracia-a-mao-armada-9/

https://vespeiro.com/2013/08/14/a-travessia-do-deserto/

https://vespeiro.com/2013/08/02/porque-nao-ha-perigo-no-recall-7/

https://vespeiro.com/2013/07/23/recall-sem-batatas-nem-legumes/

https://vespeiro.com/2013/07/20/discutindo-recall-na-tv-bandeirantes-6/

https://vespeiro.com/2013/07/15/mais-informacoes-sobre-a-arma-do-recall/

https://vespeiro.com/2013/07/12/voto-distrital-com-recall-como-funciona/

https://vespeiro.com/2013/07/10/a-reforma-que-inclui-todas-as-reformas/

https://vespeiro.com/2013/06/25/voto-distrital-com-recall-e-a-resposta/

Um livro fascinante

5 de abril de 2013 § 6 Comentários

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Não é novo nem nada, mas já que falei dele…

Deixei pendurada no final da última postagem a indicação do livro de Luis Felipe de Alencastro, O Trato dos Viventes, sobre “a lógica triangular do sistema de colonização português” falando em aventuras e personagens fascinantes, mas sem dar nenhuma pista a mais sobre esse lado saborosíssimo dessa obra tão original da excepcional produção historiográfica brasileira dos últimos anos.

Pois lá vai.

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Quando os holandeses tomaram Pernambuco, conhecedores da dependência da economia canavieira do Brasil dos escravos africanos, eles tomaram também Angola, de modo a estrangular pelas duas pontas o esquema colonial português.

Portugal montou três expedições para tentar recuperar Angola e fracassou sempre.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Salvador de Sá, uma figura impressionante para seu tempo que tinha ambições sobre o continente inteiro, tendo casado suas filhas com poderosos de Buenos Aires e das minas do Potosi, no Peru, via seus canaviais minguarem em função da interrupção do fluxo de escravos.

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Decidiu, então, não esperar mais pelas ações da coroa portuguesa já muito enfraquecida. Ele que, alguns anos antes, tinha construído o maior navio de seu tempo que desfilou com grande alvoroço pelos principais portos europeus para os quais mais de um rei e até o papa se deslocaram para ver com os próprios olhos aquela “maravilha tecnológica”, entendeu que era tempo de por mãos a obra.

Ali mesmo, na Baia de Botafogo, construiu uma grande esquadra, e enquanto a armava, enviou seus emissários para arregimentar os mais temíveis e experimentados guerreiros da colônia.

Seus navios partiram para a costa de Angola levando índios, capoeiras e bandeirantes de São Paulo calejados no uso da espada e do arco.

Para não caracterizar um ato de rebeldia, uma única nau tomou o rumo Nordeste e seguiu para Lisboa levando uma carta em que Salvador “pedia ordem ao rei” para atacar Angola.

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Mas os dados já tinham sido lançados.

O desembarque em Angola é qualquer coisa de memorável. As tribos locais, que tinham escorraçado os portugueses três vezes, usavam uma espécie de machadinha que conseguia romper as armaduras europeias, o que tinha determinado sua vitória. Mas antes de precisarem usá-las, recebiam os invasores soltando na praia dezenas de leões famintos o que, em geral, provocava pânico e desorganização entre os inimigos.

Só então atacavam.

Os feras de Salvador de Sá, entretanto, levaram a melhor sobre as feras dos africanos com as quais muitos se atracaram em lutas corpo-a-corpo e, na sequência, caíram em cima dos seus donos e retomaram Angola.

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Nesse meio tempo um navio vindo de Lisboa aportava no Rio com uma carta indignada do rei proibindo seu vassalo de meter-se com as suas conquistas e ir a Angola. É claro que, meses depois, ao saber do resultado da desobediência, sua majestade não só perdoou o súdito voluntarioso como premiou-o com a prerrogativa de escolher o novo governador de Angola (não me lembro se não foi ele próprio, aliás, que ocupou esse cargo).

O fato é que desde então Angola foi sempre governada por portugueses do Brasil…

Está aí, portanto, uma janelazinha para vislumbrar a ancestralidade das relações especiais entre Brasil e  Angola, que vão além da dívida moral e da contribuição cultural dos “emigrados” forçados de lá para cá, teve mão dupla, e para ter-se um gostinho do sabor deste livro que proporciona a quem o lê uma outra visão do que comumente se aprende por aqui sobre a História do Brasil.

Vale a pena lê-lo.

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