Hugo Chavez e o Brasil

6 de março de 2013 § 3 Comentários

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O “La revolución soy yo” do absolutismo assistencialista das culturas pré-institucionais latino-americanas de sempre e sua versão mais recente, batizada de “socialismo bolivariano” é o sucedâneo, em linha direta de descendência, do “L’état c’ést moi” do absolutismo monárquico da Europa setecentista.

Como tudo gira em torno da pessoa do soberano, a morte dele é, em si mesmo, uma crise que deixa sempre a massa dos súditos de frente para o abismo.

Será o herdeiro do trono um rei benigno ou um rei maligno? Qual será “la revolución” que mora na cabeça dele? Que grupos, entre os súditos, ele escolherá como amigos? E como inimigos?

Os profissionais da corte, gente altamente especializada, terão alguma margem de manobra para tentar escolher o lado certo na hora certa.

Mas desse círculo para frente nunca se sabe. Daí as cenas de desespero que esses eventos desencadeiam.

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Tendo o “eu” como única referência, todos os atos desse tipo de déspota são voltados para a autopreservação, a supressão do dissenso e a acumulação de poder.

O que mudou essencialmente da Europa setecentista para cá é a extensão do dano que esse tipo de foco unidirecional pode produzir. Antes não havia limite. Hoje a tolerância é menor e o uso da força física menos livre. É com dinheiro que se compra o que antes se obtinha pelo emprego da força mas, ainda assim, o dano produzido pode ser enorme.

A adesão emocionada da legião dos esquecidos a estes personagens que lhes dirigem o discurso e atiram migalhas nos fala da dificuldade central envolvida na superação desse destino: a urgência de quem precisa agora, já, de algum remédio que lhe suprima uma dor insuportável mas pode viciar versus a complexidade da “fisioterapia” requerida de mais de uma geração de “doentes” de ignorância e pobreza para que se extinga definitivamente a causa dela.

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É nessa brecha que se infiltram os traficantes de remédios supressores da dor.

Assim como Lula com o das matérias primas e das commodities agrícolas, Hugo Chavez usou integralmente a gigantesca quantidade de recursos novos gerados pelo “boom” do petróleo, que poderia ter mudado para sempre o patamar de civilização dos venezuelanos, para comprar mais poder.

Nenhum dos dois, ao fim de 10 anos o primeiro e de 14 o que se foi deste mundo ontem, aparelhou seus países neste extraordinário período de vacas gordas com qualquer coisa de duradouro como infraestrutura e educação.

A Venezuela, dona de uma das maiores reservas de petróleo conhecidas no mundo, importa literalmente tudo que consome, aí incluída a gasolina, enquanto o petróleo bruto responde por 95% de suas exportações. Nem uma indústria de refino de petróleo ele se preocupou em construir.

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Sentindo que tinha boas chances de se apropriar daquilo que, por 60 anos, funcionou como uma garantia intocável de permanência no poder, o esperto coronel venezuelano, cheio de apetites maiores que os que cabiam em suas fronteiras nacionais, aproximou-se dos dois velhinhos de Cuba como o proverbial sobrinho mau caráter se aproxima da tia rica, na esperança de se tornar o seu único herdeiro.

O plano parecia perfeito.

O dinheiro disponível era ilimitado. E o último bastião do socialismo real no Ocidente, depois do desaparecimento da União Soviética, estava se afundando na mais negra miséria.

Em outubro de 2000, o coronel Chavez assina com os irmãos Castro o “Convênio Integral de Cooperação” pelo qual a Venezuela entrega a Cuba, hoje, a fundo perdido, mais de 100 mil barris de petróleo por dia, que os Castro “pagam” emprestando os seus médicos de quarteirão à Venezuela (diz-se que 40 mil do padrão dos que trataram a doença de Chavez para baixo), os guarda-costas pessoais de toda a nomenklatura bolivariana e, last but not least, assessorando as forças armadas do regime “especialmente na área de inteligência” onde desenvolveram uma expertise sem concorrente no mundo contemporâneo para fazer abortar antes que comece a engatinhar qualquer embrião de oposição.

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Ainda seguindo a cartilha cubana de exportação de “la revolución” nos modernos padrões em que o dinheiro faz o papel antes reservado aos fuzis kalashnikov, Chavez foi adquirindo com sua ilimitada munição de petrodólares, uma constelação de satélites para o seu “socialismo bolivariano” entre os regimes sul e centro americanos mais depauperados pelos desmandos e peripécias de caudilhos locais, categoria para a qual decaiu até a outrora tão rica e “civilizada” Argentina.

Tudo com que Hugo Chavez jamais poderia contar é que o destino o carregasse deste mundo antes das quase nonagenárias “tias velhas” do Caribe das quais ele já se comportava como herdeiro presuntivo assumindo com mais realismo que o rei – e proverbialmente como farsa – o velho discurso do milênio passado contra o “grande satã” do Norte.

A herança, agora, está novamente à espera de quem lance mão dela o que, convenhamos, não soa exatamente como um bom presságio para o Brasil.

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A inconsistência institucional e a permanente exposição à tentação populista/assistencialista é o eixo comum da sina política das américas espanhola e portuguesa.

Mas o Brasil, com mais miscigenação e menos arrogância aristocrática de “elites” que são alçadas e apeadas do poder junto com os governos que as “fazem” e “desfazem” à sua imagem e semelhança, não gerou, nesse nosso quadro de fronteiras raciais e sociais pouco nítidas, nem o mesmo grau de ódio que aprofundasse tanto o fosso, nem a mesma facilidade de identificação entre grupos segregados sedentos de revanche que se pode encontrar em nossos vizinhos hispânicos.

O corte gerador de rancores, no Brasil, é muito mais de grau de educação que de raça ou de renda. E Lula, com sua incontida raiva de quem tenha estudado o que quer que seja, expressa essa nossa especificidade à perfeição.

Sorte nossa, posto que, ao menos teoricamente, é mais fácil encurtar o fosso educacional que superar outras barreiras muito menos plasmáveis.

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Seja como for, é essa diferença que explica o viés mais pronunciado dos nossos vizinhos hispânicos para variações em torno do modelo caudilhista face ao eterno movimento pendular do Brasil entre as vizinhanças da civilização e a periferia da barbárie em matéria de modelo político.

Até na presente viagem do pêndulo para a esquerda, Dilma expressa essa nossa característica hamletiana quando faz críticas a Chavez … mas adere a ele mesmo assim.

É essa a dúvida que já o mundo inteiro sente que nós sentimos.

Por isso desapareceu de cena o dinheiro para os investimentos em infraestrutura necessários para corrermos atrás do prejuízo dos 10 anos que o PT passou gastando exclusivamente na compra de mais poder.

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§ 3 Respostas para Hugo Chavez e o Brasil

  • Alberto Mattos de Faria disse:

    Adorei, perfeito !!!

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  • Varlice disse:

    A maioria dos adeptos do absolutismo de direita ou de esquerda se esquece de um pequeno detalhe: a impermanência das coisas – incluídas nela as suas lamentáveis vidas.
    Acham-se acima de tudo e de todos e não contam nunca com a justa inteligência d’Aquele que a tudo e a todos rege.

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  • Ronaldo disse:

    Perfeita análise. Estas são as diferenças entre políticos e ESTADISTAS. Os primeiros só pensam em si, já os Estadistas no bem comum e no futuro.

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