O maior inimigo da democracia

26 de março de 2021 § 16 Comentários

Carrefour compra Big e se torna o 2º do varejo na AL” foi a manchete do Valor de quinta-feira, 25. A transação foi de R$ 7,5 bi e o grupo resultante passa a ter 24% de todo o varejo alimentar do país (em 2019 tinha 16%). Hoje a receita bruta do Carrefour no Brasil é de R$ 74,9 bilhões. Somada à do Big chegará a R$ 100 bilhões (o concorrente, Pão de Açúcar faturou R$ 55,7 bi em 2020).

Há mais de 40 anos transações como esta acontecem todos os dias pelo mundo afora. É quase meio século de recorde sobre recorde de fusões e aquisições de empresas.

Quem ganha com esse processo?

As ações do Carrefour saltaram 12,77% ontem. As dos concorrentes baixaram 4%. Uma parcela dos 3 milhões de brasileiros que investem em bolsa, 1,5% da população, pode ter lucrado. A gestora Advent, de private equity (dinheiro de milionários), multiplicou por quatro o investimento que fez em 2018 quando assumiu o controle do Walmart Brasil, rebatizado Big, por R$ 1,6 bilhão. Levou R$ 6,23 bi na transação. Algum grande escritório de advocacia mordeu um pedaçinho desse bolo para ajeitar o negócio…

O resto do país – todos os fabricantes e compradores de comida, de produtos de limpeza, de insumos para a casa e todos os outros bens essenciais que todos os que continuamos vivos somos obrigados a consumir todos os dias e são vendidos nos supermercados – perde mais uma alternativa de comprador e/ou de fornecedor. São 876 lojas que antes pertenciam ao concorrente que passam a pertencer, agora, ao mesmo dono.

Do Oiapoque ao Chuí o pequeno e o médio agricultores, o pequeno e o médio industriais pagarão integralmente o tanto que o preço for rebaixado para o penúltimo intermediário, agora com 876 compradores de menos para disputar o seu lote. Seu frango, seu porco, sua alface, sua caixa de frutas sairão a preço ainda mais vil. Os trabalhadores de baixa renda, como são os de supermercados, perdem mais uma alternativa de empregador. Mas na banca do novo mega supermercado, quando esses mesmos produtores e trabalhadores se apresentarem com o seu chapéu de consumidores, os preços estarão, como eternamente têm estado, mais altos a cada dia. E todos eles estarão muito mais próximos dos dentes dos “carrefoures” da terra que, mais cedo ou mais tarde, acabarão por engolir suas propriedades. 

Os funcionários do Cade, que têm o poder de aprovar ou não esse negócio, têm o seu voto valorizado. E o “poder de convencimento” desse novo monstro de R$ 100 bilhões de faturamento junto ao regulador legislativo que poderá, um dia, vir a mudar a regra do jogo para algo mais favorável ao consumidor, aumenta violentamente. A mídia, cuja função é transmitir a pressão da maioria sobre esse regulador e vive de propaganda, terá um anunciante a menos e se tornará mais dependente do que sobrou. 

Cada vez menos gente é dona de cada vez mais coisas. A humanidade caminha em velocidade de desastre de volta ao ponto de partida em que o rei, que faz a lei, é o dono de tudo, mas delega uma parte do que é seu à sua corte que se encarrega de manter o populacho com o nariz um milímetro acima da linha d’água e, portanto, facinho de ser mantido sob controle. É um panorama que só mudou de nome com as chamadas “revoluções socialistas”, que agora rebatizam-se outra vez como “capitalismos de estado”. São o de sempre: “reis” vitalícios e suas cortes proprietários de todos os meios de produção e povos inteiros reduzidos a súditos cujo direito à sobrevivência física ou econômica esses reis e seus partidos e religiões “únicas” controlam absolutamente.

“Socialismo” é sinônimo de monopólio, o antípoda da democracia. Os monopólios dos bens de produção só se sustentam com o monopólio do poder e do discurso políticos. “O proletariado”, que cada vez mais é tudo que não é a corte que ele é obrigado a sustentar, é reduzido à obediência na miséria na base da censura e da porrada. Contra a vida, nada mais. Tudo isso está fresco no horizonte. Tudo isto esteve e está acontecendo. O socialismo, proverbialmente, transformou-se exatamente no que acusava o capitalismo de ser.

Morto “o sonho”, só resta como discurso gênero, raça, meio ambiente. O que o ser humano é e não consegue deixar inteiramente de ser de estalo é o que dá pra “cobrar” das democracias. E é preciso gritar ininterruptamente sobre isso porque não ha nada a prometer ou sequer a sugerir sobre o principal: como impedir que continue essa desenfreada deglutição dos muitos pelos poucos.


O único momento na história da humanidade em que essa lógica perversa foi interrompida foi na segunda etapa da terceira tentativa da democracia de caminhar sobre a Terra que mais uma vez ameaça chegar ao fim, quando Theodore Roosevelt, na virada do século 19 para o 20, interrompeu um processo exatamente semelhante a este que se repete hoje e redirecionou a democracia americana para um decidido viés antitruste. 

Pulverizar o poder – o econômico e o político JUNTOS – eis a questão. 

O resultado foi o surgimento da sociedade mais livre, mais rica e menos desigual que a espécie humana jamais constituiu, com reflexos explosivos no desenvolvimento de todas as ciências com força suficiente para projetar toda a espécie humana para níveis de liberdade, afluência e conhecimento jamais sonhados. 

Confrontado com a concorrência desses “capitalismos de estado” proporcionada pela informatização da vida, o Ocidente democrático, em pânico, aceitou a luta nos termos deles – disputar com monopólios criando os próprios monopólios – e suspendeu as proteções antitruste, ponto mais alto da cultura democrática, começando pelas que regulavam e garantiam a diversidade de opinião na industria da informação, para que não houvesse resistência contra esse retrocesso reacionário, na sequência de acontecimentos que descrevi, passo a passo, no artigo “A ameaça da imprensa corporate” de 2005, reproduzido no Vespeiro ( https://vespeiro.com/2009/08/04/a-democracia-vai-sobreviver/).

Monopólios na economia levam ao monopólio  do poder político. Cada vez mais tudo o mais vira carne para moer na defesa de privilégios que só se sustentam com sangue. É esse o inimigo.

A competição de colapsos

22 de março de 2021 § 13 Comentários

 

O governador democrata Gavin Newson, da California, ex-prefeito de San Francisco eleito em 2018, anunciou na 2a feira, 15, que começou a levantar dinheiro para financiar a campanha contra a eleição de recall que pode tomar-lhe o mandato ainda em novembro deste ano. Iniciada por mães de alunos que tiveram de deter sua rotina de trabalho para cuidar de seus filhos em casa em função do fechamento das escolas determinado pelo governador, a campanha teve forte adesão de eleitores proibidos de trabalhar pelas determinações de lockdown por ele baixadas.

Ele não deu nenhuma escolha a ninguém” disse uma signatária do recall à Associated Press. “Simplesmente nos proibiu de fazer qualquer coisa com um ‘é aceitar ou aceitar’”.

O Brasil ainda discute se deve ou não ter um comprovante impresso do voto. Na democracia americana não apenas esse comprovante existe – quase todos os votos são exclusivamente em papel – como o voto é um contrato assinado de próprio punho por cada eleitor, entre ele e a autoridade organizadora das eleições. E como o sistema eleitoral é o distrital puro, onde cada candidato só pode concorrer pelos votos de um único distrito eleitoral, ou seja, a representar os eleitores residentes num determinado endereço e pedaço do país, a assinatura no voto das eleições majoritárias passa a ser o padrão com o qual deverão ser cotejadas todas as outras manifestações dele dali por diante, como adesões a propostas de recall ou de leis de inciativa popular, aprovação de compras e obras públicas ou pedidos de referendo a leis dos legislativos, entre outras questões que lá o eleitor decide diretamente no voto.

Na Califórnia uma campanha de recall de funcionário do Executivo só vai a voto se seus organizadores conseguirem assinaturas correspondentes a 20% dos votos recebidos para elege-lo, o que no caso de Newson significa no mínimo 1,5 milhão. Os organizadores já conseguiram mais de 2 milhões que agora estão sendo conferidas.

A dúvida favorece sempre o eleitor, nunca o eleito. Somente uma assinatura com “múltiplas, significativas e óbvias discrepâncias” com a de votos anteriores pode ser impugnada. E mesmo assim, dois funcionários têm de concordar “acima de qualquer duvida razoável” para desqualificá-la. E como todo funcionário público também está sujeito a recall não ha duvida sobre para qual lado pende a lealdade do funcionalismo.

Na legislação da Califórnia o eleitor que assina uma petição de recall tem 30 dias para se arrepender. É para uma campanha com esse apelo que Newson está agora arrecadando dinheiro. Não que ele ache que pode evitar o recall. É que quanto mais longe tiver ido a vacinação e estiver a memória dos lockdowns no momento da votação, acredita ele, maior a sua chance de escapar da cassação que, no momento, parece muito provável. É de esticar prazos que se trata, portanto.

Os problemas, como se vê, são idênticos, apesar das abissais diferenças de níveis médios de renda e educação. A diferença está em quem tem o poder de participar das e decidir as discussões políticas. Nas democracias, onde “todo poder emana do povo e em seu nome ou por ele diretamente é exercido”, o povo debate, o povo decide e o governo obedece. Nas “democracias” de mentira que já estão podres mas ainda não caíram, os governantes “debatem” com seus especialistas de estimação e o povo, que assiste a tudo calado e de longe, apenas sofre a decisão que eles baixarem, isso se os 11 monocratas acharem que ela foi boa…

Ouço cada dia mais gente que herdou o luxo da liberdade, inconsciente da gota d’água que é a condição de desfrutá-la no vasto oceano da história da servidão humana neste “vale de lágrimas”, dizer de boca cheia, diante das idas e vindas desta pandemia nos países livres, que prefere o sistema chinês.

Ali sim, resolvem-se as coisas! Quando ‘o cara’ manda fechar fecha mesmo. Ninguém morre de covid na China”.

Primeiro é preciso saber se é isso mesmo. A avareza com que soltam para o exterior as doses das suas vacinas – menos para a África que é o mais imediato objeto da sua cobiça geopolítica – parece indicar o contrário. Não é atoa que ha anos sem fim víamos imagens dos chineses andando de máscara nas ruas, sem saber o que estava por trás daquela estranha “moda”. Ninguém morre de covid na China? Jamais saberemos ao certo, fato que diz a qualquer sujeito com um pingo de desconfiômetro tudo que é preciso saber sobre a quantidade de porrada que se distribui num país de extensão continental onde se amontoa 1/4 da espécie humana, para garantir que só se saiba, do que se passa lá dentro, aquilo que a ditadura do partido único quiser que seja sabido.

A China criou a covid, isso é absolutamente certo, reduzindo sua gente à condição de comer morcegos e, principalmente, a fazer isso em obsequioso silêncio. 

Mas o que move essa gente, pelo mundo afora, a insistir em sair de casa na iminência da catástrofe com a pandemia matando como está? 

“Negacionismo”? 

O que com certeza não há, posso garantir aos sem imaginação, é qualquer diferença na reação dos donos de botequins brasileiro, americano ou chinês – e mais ainda, na dos empregados quase miseráveis dessa fatia dos remediados que têm de batalhar hoje o prato que sua família vai comer amanhã. 

Quando “o cara” lhes diz que vão ter de perder tudo que conseguiram na vida arriscando, dia após dia, o seu sangue, o seu suor e as suas lágrimas, o que se instala é uma competição de colapsos: o da luta da vida de cada um versus o dos governantes, que eles desde sempre e com toda a justiça culpam por mantê-los no limiar da miséria apesar de toda essa luta, que não quer encerrar sua carreira com a colheita dos anos todos de incúria que levaram, ao primeiro desafio sério, à falência de sistemas de saúde e capacidade de produção de vacinas que o povo sempre pagou mil vezes melhores do que são. 

Então o remediado e o quase miserável chineses engolem em seco e voltam a comer morcegos porque a alternativa é o tiro na nuca. Já os nossos ainda podem chiar, enquanto Alexandre, O Pequeno, e cia. ltda., que dispensam-se olimpicamente das penas que impõem a quem precisa desempenhar para manter seu emprego e seu salário, não se tiverem tornado tão grandes quanto se enxergam ao se olhar no espelho.

O resumo, brava gente brasileira, é que pandemia desse calibre é, pra todo mundo – governantes e governados – andar sobre o fio da navalha. “Se correr o bicho pega, se parar o bicho come”.  Mas isso de democracia talvez seja como todas as outras conquistas humanas: pai rico, filho nobre, neto pobre. Vai embora quando se perde a memória viva da epopeia que foi para conquistar aquilo que, para o herdeiro estroina, não custa nada jogar no lixo.

Nostra culpa, nostra maxima culpa

1 de fevereiro de 2021 § 17 Comentários

São Paulo está em 7º lugar em contágio e 17º em mortes por 100 mil entre os estados. O Brasil, segundo a CNN Internacional (AQUI), em 36º em contágio e 27º em mortes por 100 mil no mundo. Democracia e lockdown são conceitos mutuamente excludentes e, sem um absolutamente radical, só possível em ditaduras totalitárias como a chinesa, não se consegue deter a progressão do vírus. Por isso, até a chegada das vacinas quaisquer que fossem as ações os resultados eram ruins para todos os governos do mundo. Fará diferença eleitoral, eventualmente, a estupidez com que uns e a sofreguidão com que outros abordaram a questão. O resto, o povo sabe com a pele, é luta pelo poder e corre por conta do “jornalismo” deletério que se faz a respeito.

O curto-circuito suicida do discurso dos governos ocupados por aquela direita que mordeu a isca da politização da doença, seja como for, resolveu o problema da total ausência de propostas capazes de mobilizar a multidão dos excluídos deste mundo da esquerda americana, e não só o dela. Na reta final da campanha, à medida em que se ia materializando o fantasma da derrota, o componente doentiamente infantil e auto-centrado da personalidade de Donald Trump deu a senha. E a união em torno da ideia de não ser Donald Trump, ainda que raspando a trave, deu conta do recado.

Devolveu-se a amabilidade. A Trump mesmo já tinha bastado, em 2016, afirmar-se como o avesso dos seus oponentes, sem acrescentar qualquer outra idéia própria aproveitável, para eleger-se. 

O persistente negacionismo da esquerda e da direita – a lá deles e as outras todas ao redor do mundo – quanto à causa evidente do naufrágio do “sonho americano” e, por tabela, da qualidade de vida de quem vive de salário em todo o mundo, e a insistência cada vez mais delirante dos dois lados em apontar falsos problemas e falsas soluções como saída, deitam raízes nos seus respectivos “pecados originais”.

O da direita carrega a culpa de ter iniciado esse círculo vicioso. O “cavalo de Tróia” teórico que plantou a semente da destruição da democracia antitruste americana foi montado por Robert H. Bork e Ward S. Bowman, da Yale School of Law, no final dos anos 60, e realimentado pelos economistas da escola austríaca em ascensão desde a Era Reagan, ao formular a tese de que ao coibir fusões de empresas que levassem a “ganhos de escala” e “reduções de preços” essa política estava lesando e não protegendo os consumidores. 

A exigência legal de um nível mínimo de competição em cada setor da economia como garantia dos direitos básicos do trabalhador e do consumidor por oposição ao objetivo único de enriquecer ilimitadamente empresários e acionistas mesmo que por competência, definida como baliza inegociável de toda política econômica democrática pela reforma antitruste de Theodore Roosevelt na virada do século 19 para o 20, passou gradualmente, desde então, a ser igualado pelas cortes americanas a “redução de preço”, sinônimo de “eficiência econômica”.

Essa foi a armadilha jurídica em que caiu para morrer o maior avanço já conquistado pela gente que vive de salário desde sempre pois hoje o mundo todo aprendeu a duras penas que essas “reduções de preços” se dão à custa de reduções de salários só possíveis num ambiente de monopolização geral da economia dentro do qual o desfrute de qualquer liberdade individual se torna impossível.

Mas como essa monopolização crescente se deu empurrada pela competição desonesta e predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês, o ultimo bastião do socialismo real, lá embarcou nela a esquerda do mundo à custa da traição da bandeira histórica da aliança com o proletariado que a fizera nascer e sobreviver até então. Os fatos criaram, para ela, uma armadilha dialética pois tornaram impossível chegar à verdade sem apontar o socialismo como o que é: o maior inimigo do assalariado.

À necessária autocrítica preferiu-se partir para a destruição do próprio conceito de verdade. É para seguir negando o inegável que foi preciso inflar ao nível do absurdo as bandeiras eleitorais subsidiárias tais como raça, gênero e meio ambiente a ponto dos seus portadores, os integrantes da pequena elite auto-referente diretamente envolvida na disputa pelo poder mais a imprensa que fala por ela, descolarem-se progressivamente do mundo real. 

Os sinais dessa perda de contato com a realidade multiplicam-se em todas as latitudes. Ilustro com dois exemplos da hora. 

Ao norte do equador, depois de meses de campanha eleitoral intensa e passados já mais de dois da vitória de Joe Biden, causa imenso constrangimento ver o desfiar daquele “a 1a mulher, a 1a negra, a 1a filha de imigrantes na vice-presidência dos Estados Unidos” que todo jornalista ao redor do globo declama a cada vez que pronuncia o nome de Kamala Harris. Perdeu-se a noção do quanto é ofensivo, preconceituoso, racista e misógino reduzir a isso uma pessoa … especialmente se com o objetivo declarado de combater o preconceito, o racismo e a misoginia. Marilyn Monroe, em tempos menos doentes, suicidou-se porque era referida exclusivamente pelo seu invólucro…

Ao sul, onde não existe pecado, temos o “fator quilombola”. Verdadeiros ou não, eles são “decendentes de escravos fugidos” que moram em áreas rurais doadas pelo governo. Porque estariam os índios e os quilombolas todos sob risco maior de morrer de covid que os milhões de favelados de qualquer “raça” e idade amontoados em barracos sem água nem higiene, esgueirando-se por ruelas apertadas e espremendo-se em transportes coletivos de 5a categoria? E no entanto, em plena “guerra da pandemia”, com vidas em jogo na definição da fila das vacinas, nenhum jornal, nenhuma rádio, nenhuma televisão ousou fazer a pergunta óbvia, o que dá uma boa medida do estado de saúde da mais básica de todas as liberdades, sem a qual nenhuma outra existe, neste nosso tão incensado “estado democrático de direito”, aquele que se define por ninguém ter direitos maiores que os dos outros…

Dispor um “exemplar” de cada “minoria” em um canto da sala dos governos ou discriminá-los favoravelmente na lei a pretexto de terem sido discriminados negativamente no passado, seja como for, só fará, como já tem feito, aumentar o ódio que envenena o mundo.

A questão ambiental, o ultimo pé que essa esquerda mantém na realidade, também ameaça ser expulsa dela. A única solução real para o problema ambiental, que não é outra coisa senão o excesso de nós, é aquela em que ninguém toca: controle de natalidade. No mais, as medidas que Joe Biden acaba de anunciar evidenciam os limites que a realidade impõe ao tratamento do tema. Trocar a frota do governo por carros elétricos e incentivar iniciativas de fabricação de energia limpa são manifestações simbólicas de boas intenções com algum possível efeito menos que residual num prazo incerto. Proibir o “fracking” de maciços de xisto em terras federais como preâmbulo para uma proibição total é coisa mais concreta. 

Essa tecnologia, que por pura sorte coincide com a Era Trump e foi a grande responsável pelo “boom” econômico ocorrido nela, transformou em poucos anos os Estados Unidos de maior importador em um dos maiores exportadores de energia do mundo, e no dono do gás industrial mais barato do planeta, o que permitiu a repatriação de industrias e empregos que tinham migrado para sempre para a China porque lá sujar e explorar o trabalho vil para produzir não custa nada. 

Sem dribles tecnológicos como este, tudo em que é possível mexer para competir com os monopólios estatais chineses é o acirramento das fusões e a continuação do achinezamento dos salários no Ocidente pois a China, embora sendo signatária do Acordo de Paris, não segue nem precisa seguir lei alguma nacional, internacional ou humanitária, do que dá provas todos os dias sujando para produzir, predando selvagemente todos os oceanos do planeta, prosseguindo metodicamente com o genocídio dos Uigurs, massacrando a liberdade em Hongcong, recrudescendo a repressão política interna com a criação em metástase de “campos de concentração” urbanos e investindo maciçamente na construção de uma máquina militar monstruosa que certamente tem mais aspirações na vida que desfilar anualmente na “Praça da Paz Celestial”.

E no entanto a imprensa ocidental inteira leva à sério as “lições de moral” que o onipotente Xi Jinping passa diariamente no mundo onde a lei vale mais que o governante de plantão, uma forma particularmente ofensiva à inteligência de negacionismo que justifica e garante o apoio maciço dos ofendidos à radicalização em sentido contrário dos discursos dos trumps da vida que, só denunciando o tamanho da má fé desses fariseus, elegem-se sem ter de provar mais nada.

O massacre dos empregos e dos salários do Ocidente só cessará se e quando os produtos do roubo de patentes e do esmagamento da dignidade do trabalho passarem a ser tratados do mesmo modo como exigem que sejam tratados os do desmatamento da Amazônia: com o banimento sumário dos nossos mercados e a imposição de tarifas que anulem a recompensa que hoje se dá a esses crimes de lesa humanidade.

Fora daí, esqueçam! 

Os 74 milhões de votos em Trump aumentarão a cada novo emprego perdido e a cada novo salário esmagado, até que só mesmo adotando também o modelo político chinês, como a internet dos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon) que contam entre os poucos a lucrar indecentemente com todas essas mentiras e distorções já está ensaiando fazer, se poderá evitar que eles sejam eleitos ou que o mundo acabe numa grande explosão.

Quem venceu a eleição americana?

28 de janeiro de 2021 § 25 Comentários

O NYTimes noticiou no fim-de-semana que Mark Zuckerberg, o dono do Facebook e do Instagram, “convocou a Suprema Corte das suas redes sociais” para reavaliar sua decisão de banir para sempre o ex-presidente Donald Trump e as redes de mensagens através das quais se comunicavam os seus apoiadores. 

É mais uma etapa do processo de “obsolescência planejada” daquela democracia fundada pela Constituição assinada por “We, the people”, em 1788 que, na 1a Emenda do seu segmento conhecido como “Bill of Rights”, proíbe o Estado americano de dizer que tipo de crença é boa ou ruim, e de cassar a palavra a quem quer que seja.

Se os Estados Unidos da América não podem fazê-lo, Mark Zuckerberg e as empresas privadas podem. Quem se importa, portanto, com o processo do congresso dos representantes eleitos do povo para o impeachment futuro do presidente pretérito? Ou com o que possa vir a decidir a respeito a outra Suprema Corte se e quando for acionada? Qualquer que seja a sentença dessas instituições obsoletas será anulada de facto se destoar da já passada pelos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon): existirá, politica e economicamente, quem eles concederem voz e canal para trabalhar; simplesmente deixará de existir quem for “cancelado” das redes…

Este o quadro simples e objetivo do atual estado da democracia moderna no seu berço de nascimento que levou o historiador britânico Niall Ferguson a afirmar em artigo recente que os “novos governantes”, que é como, já em 2018, um artigo da Harvard School of Law chamava os donos do FATGA, “foram os verdadeiros vencedores da eleição de 2020” pois, “com essa demonstração de força incontestada as companhias, que transformaram a rede mundial, de uma plataforma originalmente descentralizada num ambiente hierárquico oligarquicamente organizado cujo acesso eles controlam e que exploram para fazer dinheiro e comprar poder”, estabelecem, agora oficialmente, “uma dominância sobre a esfera publica inédita na História desde a que teve a Igreja Católica de antes da Reforma Protestante”.

Definida a nova fonte primária do poder, a história se repete. Estabelece-se um sistema de cooptação e proteção mutua entre o(s) papa(s) (da internet) e os reizinhos locais (nacionais), cada um com seus respectivos cardeais e barões, para o estabelecimento de mais um “reich de mil anos”…

Ferguson abria seu artigo citando George Orwell que dizia que “Enxergar o que está diante dos nossos narizes requer uma luta constante”. O que está vendo hoje quem ainda quer enxergar é o fim de um processo que começou com a reforma do Telecomunications Act de 1996 que derrubou as barreiras antitruste na industria da informação, primeiro passo para a derrubada das barreiras antitruste de todo o resto da economia americana. Elas proibiam a propriedade cruzada de jornais, rádios e televisões assim como o controle de mais de 35% da audiência em cada praça em nome da proteção da diversidade de informação e de opinião sem as quais a democracia por definição não existe. É na famosa “Seção 230” dessa mesma lei que inscreveram-se, inadvertidamente, as 26 palavras que fizeram da internet o monstro em que se transformou ao isentar os donos de plataformas de rede de responsabilidade legal pelo que se publica nelas sem no entanto impor-lhes qualquer obrigação quanto a garantias de livre acesso do publico a elas. 

Não se imaginava então que as redes seriam o que são mas, de lá para cá, a Seção 230 ganhou o efeito prático de uma licença para roubar e, da propriedade cruzada de todos os meios de comunicação velhos e novos evoluiu o FATGA para a deglutição de todas as gravadoras, teatros, livrarias, arquivos públicos ou privados e bibliotecas, primeiro, e para a propriedade das lojas de tudo; das invenções, dos passos e dos segredos de cada um de nós; dos meios de processamento do sistema financeiro planetário e de pagamento das transações da internet (alguns já estão na fila até para emitir moeda virtual) e do próprio esqueleto físico (o backbone) que mantém as redes sociais em pé. 

A reformulação do Telecomunications Act coincidiu com a globalização virtual dos mercados e a inundação do Ocidente pelos produtos dos monopólios larápios do capitalismo de estado chinês e seus pupilos e assemelhados (entre estes o próprio FATGA), que não respeitam nenhuma lei nacional, internacional ou humanitária senão a que amanhece na cabeça do dono de plantão do partido único, das forças armadas e de todos os meios de comunicação e de produção da metade do mundo vítima do socialismo que cada um deles distribui como quer aos barões que aceitam comportar-se como barões. 

Hoje os Estados Unidos e o mundo inteiro amargamente sabem que as “reduções de custos” dadas pela “escala de produção” são obtidas mediante a redução dos salários em níveis só possíveis mediante o esmagamento da liberdade de escolher patrões e fornecedores garantido pela crescente monopolização da economia, mas é tarde. O Ocidente entregou sem luta os milênios de sangue, suor e lágrimas que lhe custaram a substituição da lei da selva pela arquitetura de proteção legal à dignidade e ao valor do trabalho que definiram o ápice da sua civilização. Em vez de proteger suas conquistas condicionando o acesso aos seus mercados ao respeito a elas, achinezou o seu mercado de trabalho e o seu ambiente empresarial, o que agora requer o achinezamento do seu sistema político que os xi jinpings da internet que se permitiu abrigar em seu seio estão se deixando docemente constranger a providenciar. 

Desde o primeiro momento enxerguei no start de 1996 um final parecido com este, como poderão conferir os leitores do Vespeiro na transcrição publicada aqui da conferência “A ameaça da imprensa corporate”, de 2005 (neste link). Mas o processo foi quase absolutamente ignorado pela imprensa do mundo inteiro que, produto de empresas familiares despedaçadas pelo ataque predatório das redes sociais num momento de troca de gerações, entrou em colapso pela combinação da ocupação de suas diretorias por neófitos alheios à função institucional do jornalismo e o consequente aparelhamento ideológico das redações.

A famosa “tempestade perfeita”…

Fazer as coisas voltarem ao trilho da civilização não seria nenhum bicho de sete cabeças. O falso problema da “verdade” contra a “mentira” está superado, em termos filosóficos desde sempre, e em termos práticos desde 1788 e a 1a Emenda à Constituição americana já mencionada acima. Ou cada um tem liberdade para dizer o que quiser e escolher o que quer ouvir ou em que quer acreditar, ou quem for mais forte decidirá por todo mundo com poder de vida e morte sobre os dissidentes. A História não registra outra alternativa. E como as plataformas de rede da internet são, legalmente falando, um espaço privado, mas com funções e atribuições próprias do espaço público, o que tem de prevalecer para elas nessa matéria são as regras que valem para o espaço público no mundo físico e ainda estão inscritas na Constituição e nas leis americanas. Contra  o excesso de poder dos xi jinpings do FATGA e assemelhados, o remédio também é conhecido e testado nos Estados Unidos desde a virada antitruste do século 19 para o 20. Embora não seja uma panacéia como nada é, vai pelo mesmo rumo da legislação que, no seu primeiro grande embate, dividiu a Standard Oil em 34 companhias diferentes em 1911.

O problema a ser superado, entretanto, não é apenas o técnico, é, principalmente e como sempre, o da corrupção pelo poder adjacente ao processo de agigantamento das big techs. E este, sem imprensa, toda ela no bolso do FATGA e pedindo censura, nem Joe Biden, nem os dirigentes europeus, nem muito menos a pequena política e a intelligentsia que viveram os últimos 200 anos de tecer loas ao “trabalhador” hoje massacrado pelos monopólios que eles ajudaram a construir e dos quais agora dependem dão qualquer sinal de estarem dispostos a endereçar.

Mas este é o tema dos próximos artigos.

Onde a democracia se esvai

15 de janeiro de 2021 § 35 Comentários

Todo santo dia ha pelo menos 40 anos ininterruptos os jornais de todo o mundo dão três ou quatro notícias como estas do Valor de ontem. Isso nas primeiras páginas, onde só vão estampadas as maiores “deglutições” do dia…

Estas de hoje mostram que só sobram no mundo, por enquanto, três grandes varejistas de comida e o mais que cada um de nós tem de consumir todo dia para manter o corpo e a casa vivos: Couche-Tard, Walmart e Amazon, a mesma que tem também o virtual monopólio planetário de vendas de tudo (excluída a China), da prestação de serviços, da sustentação de sites e redes de internet (cloud computing), etc., etc., etc. e etc., e, portanto, força até para cassar a palavra ao presidente eleito dos Estados Unidos da América na hora que bem entender. 

Logo, logo, se Jeff Bezos continuar autorizado a violar todas as leis que viola todos os dias pelo mundo afora só porque tem dinheiro demais, a Amazon vai ficar sozinha também neste setor. Para nós já não fará diferença. Juntas, diz a noticia, Couche-Tard e Carrefour, a que está neste momento em vias de desaparecimento, terão um faturamento anual de US$ 152 bilhões em suas 30 mil lojas com seus 450 mil empregados. E ela ainda será a menor das três que vão sobrar. Mas com quatro ou com três redes de supermercados em todo o mundo, tanto os preços que todas nos cobram quanto os salários que todas pagam a essa multidão que, se for posta pra fora de uma só poderá bater na porta das outras duas por um emprego, são sempre combinados e caminham, os preços invariavelmente para cima e os salários invariavelmente para baixo … ha 40 anos sem parar.

Não é por acaso, portanto, que há tanto ódio no mundo, especialmente nos Estados Unidos, o único país que nos últimos quase 500 anos ininterruptos só tinha tido a experiência de andar para a frente.

Telefonia, gás (as outras vítimas do dia da 1a página do Valor), tudo é assim. O setor de supermercados tem sorte pois lida com bens perecíveis impossíveis de padronizar completamente como os bens industriais. Na industria esse mesmo processo de come-come que termina invariavelmente comendo os salários e a liberdade de todos nós, já chegou praticamente ao fim porque na outra ponta está sempre o equivalente chinês, produzido por um gigante único pertencente ao Estado (embora com algum amigo do rei à frente) e, portanto, em condições de pagar salários de fome impunemente aos seus “empregados” e de aguentar prejuízos indefinidamente até quebrar qualquer competidor, esteja ele onde estiver no mundo.

O socialismo é, enfim, a monarquia sob nova direção de marketing. Um sistema onde tudo pertence à mesma pessoa, que coopta uma corte de barões subornando-os com privilégios e governando com mão de ferro em função do seu poder de decretar quem vai ou não vai ter emprego, autorização para comprar em suas lojas, canal para falar em sua praça; quem vive ou quem morre física ou economicamente, enfim.

Os americanos do norte foram a única parcela da humanidade que teve a experiência de viver desde sempre fora dessa lógica perversa. Graças à sabedoria do povo inglês de manter seus reis sempre pobres, a colonização da América, que lhes caiu inadvertidamente nas mãos depois do afundamento da monarquia terrorista de Fernando e Isabela no Canal da Mancha, acabou sendo entregue a empresas privadas, o que deu uma chance à “lei de mercado” de sair da prisão. 

Pela primeira vez na história da humanidade tornou-se possível a alguém que não fosse nem o rei, nem um escolhido do rei, possuir terra. A Virginia Company e a Plymouth Company, duas das empresas colonizadoras a quem James I entregou permissões para colonizar a América, elas também sem dinheiro para fazê-lo, inventaram o “headright system” pelo qual qualquer pessoa que se dispusesse a cruzar o Atlântico e enfrentar aquele “planeta novo” tinha direito à propriedade de 50 acres de terra para ganhar o seu próprio sustento. 

E fez-se um país de proprietários…

Isso, mais a necessidade dessas pessoas de combinar entre elas, de comum acordo, como fariam para dividir tarefas e organizar sua sobrevivência naquelas lonjuras, deu em democracia. 

Mas assim que a caminhada começou a propriedade se foi acumulando de novo em menos mãos. Por mais que as leis da democracia tivessem forçado o divórcio do poder político com o poder econômico, obrigando um a controlar o outro, e coibissem a acumulação de qualquer poder e qualquer dinheiro que não fosse resultado de esforço individual ou de delegação expressa e direta do povo, as pessoas são diferentes umas das outras e a corrupção é inextinguível. A cada grande disrrupção do curso normal do processo lá se atiravam de novo o poder político e o poder econômico uns nos braços do outro proporcionando saltos olímpicos na concentração da riqueza. 

Na ruptura decorrente da “ferroviarização” da economia num território continental, a mais violenta até o advento da internet, a concentração chegou a extremos que quase levaram a democracia americana à breca. A situação foi salva pela reorientação antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu a ela, impedindo por lei que, mesmo por competência, qualquer empresa ocupasse mais de 30% de cada mercado, ficando o empresário que o conseguisse obrigado a vender o excedente a outro empresário.

A artimanha de conter o poder econômico sem inflar o poder político, garantida pelo novo arsenal de afirmação dos poderes dos indivíduos que Theodore Roosevelt serviu ao povo junto com o ferramental antitruste (eleições primárias, recall, referendo, iniciativa), deu ao povo americano condições de manter os dois sob controle e a seu serviço, outro feito inédito na história da humanidade, o que pôs os Estados Unidos fora do banho de sangue planetário das “revoluções socialistas” do século 20 que não foram outra coisa senão espasmos de desespero da miséria em seu beco sem saída, e fez a humanidade dar o maior salto em afluência material e domínio da ciência de toda a sua trajetória neste planeta.

Com a eliminação das fronteiras nacionais do mercado pela internet o ataque à única democracia “raiz” que já houve veio pelas costas. Nada de tomar o sistema político, agora nas mãos do povo que não abrirá mão dele jamais, para depois instalar o proprietário único de todas as coisas. Apenas suspender a proteção armada por Theodore Roosevelt e permitir que os barões, associados à corrupção política e empurrados pela China, tomassem tudo abaixo deles, primeiro, e se entredevorassem depois. 

Com a força assim acumulada por eles, vai-se esboçando, com os autos-de-fé e as execuções virtuais na internet, a mais nova versão do modo das majestades de lidar com as ambições concorrentes desde o machado, à Henrique VIII, os venenos radioativos, à Vladimir Putin, ou o tiro na nuca “por corrupção”, à Xi Jimping. 

Se não houver logo uma reedição modernizada dos remédios de Ted Roosevelt, a humanidade corre o sério risco de mergulhar em mais uma sucessão de milênios de escuridão informatizada, a menos que descubra outro planeta habitável e virgem para fugir de si mesma antes disso.

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