A ética é, eternamente, “o novo” na política

8 de outubro de 2012 § 6 Comentários

Quando disse que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”, Lord Acton poderia ter acrescentado: “E rápido!”.

Correu durante toda a campanha a discussão sobre se o julgamento do Mensalão afetaria ou não o desempenho dos candidatos empurrados pelo PT.

Se o fato de um governo que partiu de mais de 85% de aprovação e com a economia ainda em ascensão, mesmo empenhando dois presidentes da República recordistas de popularidade na campanha, chegar à boca da urna no aperto em que o do PT chegou não era argumento bastante para convencer os incrédulos, o resultado final da eleição tem força para abrir os olhos até aos cegos por opção.

No país inteiro a votação se espalhou por aqueles partidos de que os eleitores nem bem conhecem o nome. Tem “fenômeno russomano” por todo lado. O pessoal está procurando algo diferente e não acha. Aí, ou tapa o nariz e vota no que já conhece (os mais velhos e sábios), ou se põe fora do jogo “para não compactuar com essa mixórdia” (os mais jovens e impacientes).

São Paulo teve 2.490.513 abstenções e votos nulos e brancos (o Rio quase um milhão). Nenhum dos candidatos chegou nem perto disso. Serra teve 1.884.849, Haddad 1.776.317 e Russomano 1.324.021.

Muito mais que a herança de qualquer dos perdedores, portanto, o dos “com nojo de política” é o contingente com maior força para decidir o 2º Turno.

Foram vários os sinais que antecederam essa prova aritmética.

A reação de Serra nas pesquisas só começou quando ele pegou forte nesse tema com aquela síntese “Você vota nele (Haddad), eles voltam (Dirceu, Maluf, etc.)”.

O “saber fazer” e as espertezas televisivas à la Tiririca estavam lá desde o primeiro dia, e nada. Só quando a ética foi para o centro da campanha a coisa mudou.

O próprio PT já entendeu e ensaia, desenxabido, um “Dilma não compactua”. Mas é uma saia justa demais pra eles. O Lula é o Lula e esta semana começam as sentenças no STF…

E o que é que se apresenta como “novo” nesta eleição?

O PSOL, com a mesma bandeira da “ética na política” com que o PT se apresentava quando o poder era apenas um sonho distante, quase impossível, e ele ainda gozava a aura dos nunca antes submetidos às tentações.

No Rio, onde abordou os eleitores com sua marca mais nítida de luta anticorrupção e com um candidato cuja figura jogava a favor da mensagem, o PSOL levou quase um terço do eleitorado.

Nada de novo, enfim.

A ética é, eternamente, “o novo” na política, porque é a primeira coisa que desaparece dela com o teste do poder. Todo mundo que o tenha desfrutado por tempo suficiente “fica igual”; vira “farinha do mesmo saco”. Manda a ética às favas. Eventualmente começa até a defender explicitamente a bandalheira na política e a se abraçar descaradamente com ela.

A grande novidade da eleição na cidade que conhece ha mais tempo o PT foi, justamente, a rejeição dessas “novidades” enganosas.

Ao procurar, de lanterna na mão, um candidato que pudesse chamar de honesto, o eleitor paulistano só encontrou velhos conhecidos escondidos sob novas peles de cordeiro até que, ouvindo quem, finalmente, concedesse em ecoar-lhe a indignação, voltou a se alinhar com a única proposta que, embora sua velha e desgastada conhecida, não se dissolveu totalmente quando passou pelo teste do poder.

Uma escolha inteiramente despida de paixão, portanto. E, por isso mesmo, um passo fundamental que nos põe às portas da maturidade política.

Pois, excluída a falsa opção entre “puros” e “impuros”; posto de lado o salvacionismo; o país fica apto a iniciar a construção da verdadeira democracia que é “a arte de organizar o jogo político e as regras de administração do Estado de modo a melhorar a imunidade de ambos à natureza intrinsecamente corrupta do ser humano”.

Com isso reabre-se para Serra a oportunidade de reconciliar-se com a obra renegada de Fernando Henrique Cardoso explicando como a institucionalização do Estado, o seu afastamento do centro da atividade econômica, a normatização dos procedimentos, a criação de novas instâncias de gestão independentes da política e o reforço da independência entre os poderes podem fazer muito mais para garantir a entrega de tudo que – como saúde, educação e segurança publicas; saneamento e transporte decentes nas cidades – nós já pagamos várias vezes e ainda não recebemos, do que as promessas, os decretos e as pirotecnias contábeis dos pais da pátria, dos voluntaristas, dos centralizadores, dos colonizadores do Estado que não fazem mais que deixá-lo cada vez mais à mercê dos predadores.

O momento nunca foi tão oportuno.

De par com o invariavelmente hipnotizante Dicionário Brasileiro de Ignomínias com que o Projac encena o estado moral da Nação todas as noites na sequência do Jornal Nacional (uma coisa sempre, subliminarmente, justificando a outra, a nos desafiar com a intrigante pergunta sobre quem – a vida ou a arte? – imita quem), ha uma outra novela mais edificante sendo encenada no país neste momento.

Ela nos conta a saga de dois meninos pobres, lá dos grotões do Brasil que, por caminhos opostos, atiraram-se à superação do seu handicap de origem e, contra todos os prognósticos, acabaram por “chegar lá”.

Hoje, um está sendo julgado pelo outro.

Ainda que esteja bem viva a disposição tão duramente aprendida de seguir jogando o jogo com a regra que vier, a recepção que o público tem dado nas ruas aos vilões e aos heróis desse drama da vida real prova conclusivamente que, apesar de tudo, o brasileiro ainda sabe perfeitamente bem com que tem o direito de sonhar.

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§ 6 Respostas para A ética é, eternamente, “o novo” na política

  • Varlice disse:

    A identificar Joaquim e Lula somente a pobreza – uma situação comum a quase 80% do povo brasileiro.
    Em tudo o mais são diametralmente opostos, não só porque tiveram criação diferente (pois que fruto do meio em que viveram), mas porque fizeram suas escolhas embasados em valores próprios e subjetivos.
    O livre-arbítrio de cada um ajudou a chegar onde chegaram com, no mínimo, duas diferenças básicas e, graças a Deus!, particularíssimas: a bagagem intelectual e o estofo moral.
    E será também ele, o livre-arbítrio, a mostrar quem ficará conhecido como e quem passará por na história e na política do país.
    O sr. Lula poderia ter feito outras escolhas, não as fez.
    A cada um segundo suas obras.

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  • Fátima Monteiro disse:

    O pobre menino Barbosa,só está no STF por obra e graça do pobre menino Lula,nenhum mérito pessoal nisso.

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  • Varlice disse:

    Eu diria que o rico menino pobre Barbosa está no STF por obra de sua história de esforço pessoal (estudo sacrificado, quatro línguas estrangeiras, professorado em universidade americana entre outras qualidades – ou isso não seria mérito pessoal?).
    Ele foi escolhido para o cargo pelo presidente de um país chamado Brasil e não particularmente pelo senhor Lula que, equivocado, assim como a senhora Fátima, acreditou que poderia usufruir desse “favor” ao negrinho para cobrá-lo na hora que lhe aprouvesse (sim, o senhor Lula é racista)..
    Já o pobre menino (agora) rico Lula está a colher os equívocos plantados.
    Não se lhe tira o mérito de ter seguido seu instinto e proporcionado melhoria significativa para a grande população miserável deste país. Mas prepotência, empáfia, orgulho e ego tragicamente o desviaram de sua rota.
    A cada um segundo suas obras.

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  • Fátima Monteiro disse:

    Já que a senhora conhece tão bem o que se passa pela cabeça de Lula,deveria saber que ele disse que faria”um resgate” histórico para os negros,as mulheres e outras ditas minorias,a meu ver não é a maneira ideal de se escolher alguém para tal cargo.Foi escolha pessoal de Lula ou não estaria lá.

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  • Zalira Silveira disse:

    Eu adoraria saber que “resgate histórico” o sr. Lula fez em relaçao aos negros e as mulheres, porque o que se vê ecoando alto e em bom som, nos mais respeitados jornais e revistas de dentro e de fora do país é a podridão, a roubalheira, os conluios, as mutretas que ele fez; enfim tudo que todos nós sabiamos que existia. Só quem nao sabe disto são os menos afortunados que recebem a famosa bolsa esmola e que por isto deixaram de trabalhar para viver às nossas custas. Estes últimos se encontram nesta situaçao porque também não tiveram nem tem acesso à educaçao que é o que mais importa para que o povo seja mais consciente e exerça seu papel e direito de cidadão, isto o Sr. Lula nunca deu, até porque nunca recebeu e desconhece completamente o valor da cultura no nosso país. E viva a plebe ignara que é a maioria no nosso país e que elege pulhas como o Sr. Lula e Dona Dilma!!!!!

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  • Varlice disse:

    Não conheço e nem quero conhecer. Quero o máximo de distância desse senhor, cuja trajetória acompanho desde antes da fundação do partido e cujo comportamento desde os seus tempos de sindicalista sempre me soou como esperto e arrivista. Não sou eu quem diz. Não há necessidade de conhecer bem ou mal o que se passa pela cabeça desse senhor. É só começar a ler o que a imprensa e a mídia (esses lobos maus que só querem derrubar a imagem do Magnânimo) dizem sobre esse e outros assuntos que envolvem o ex-presidente.
    Mulheres não podem ser consideradas minoria.
    Quanto a resgatar negros e outros (que nunca pediram para ser resgatados), melhor do que chamar a atenção para as diferenças, seria dar educação estruturada e minimamente decente, saúde pública decente e oportunidade de trabalho decente para que todos os brasileiros – e não só as minorias – tivessem maior autoestima e confiança e si mesmos e com a força do seu trabalho fizessem do país o lugar que todos sonhamos.
    A campanha de inclusão dos negros nas universidades – uma distorção da cabeça desse senhor do que seja o ‘direito’ de todos, visto que a mensagem por trás do resgate é a comprovação de que realmente, se não for assim, negros não conseguem fazer estudo superior (o que é uma estupidez, está aí Joaquim Barbosa a desmentir o que se pretende verdade).
    Tudo isso (educação, saúde pública, oportunidade de trabalho) seria, sim, possível sem a corrupção que grassou em todos os níveis do governo do PT, como nunca antes nas história deste país havíamos visto ou ouvido – como acaba de comprovar o STJ com a punição de quase todos os petistas e não petistas envolvidos no mensalão.
    Pode-se justificar alegando que corrupção sempre houve antes e haverá após mensalão. E é verdade.
    Porém, o único partido brasileiro em todos os tempos políticos que tomou para si a bandeira da Ética (com E maiúsculo) foi o PT. Esse pecado ele jamais deveria ter cometido.
    Quem chamou a atenção do presidente Lula para Barbosa foi frei Betto. Acredito que Lula esteja maldizendo frei Betto até agora pela sugestão.
    Assim como Lewandovski e Toffoli – cujas carreiras medíocres, essas sim, senhora Fátima, foram salvas pelo resgatador de plantão (e que agradecidos, mostraram a que vieram nesse julgamento) –, Barbosa e outros seus pares também foram alçados com o mesmo propósito: o da absolvição dos envolvidos no escândalo do mensalão. Nesse contexto concordo com a senhora: foi a vontade do homem a brincar de deus e a se achar acima da lei e da ordem que suplantou a obrigação do presidente de sugerir os melhores para seus cargos.
    É claro que o indivíduo que habita o presidente tem voz ativa sobre seus atos, mas, em realidade, quem empossou no cargo não só ministros, como juízes, como o lavador de banheiro e o cozinheiro da Casa Civil foi o presidente Luis Inácio da Silva e não o Lula.
    Quando uma pessoa é eleita para um posto público – e a presidência de um país se aqui inclui –, senhora Fátima, ela assume as qualidades do cargo e deve responder publicamente por ele, para o bem e para o mal. Nesse cargo, inclusive, há um protocolo com deveres e obrigações a serem cumpridos. Diretos há poucos. Satisfação de cada ato, toda!
    Não se está presidente para fazer uma boquinha, para levar a melhor, para passar a mão nos mimos e brindes recebidos enquanto se é presidente e levar para casa quando a festa acabar – como o cidadão Lula e sua esposa Marisa Letícia fizeram.
    Nesse particular, há um outro negro que poderia muito bem ensinar o sr. Lula a saber diferenciar o homem particular do homem público. É Edson Arantes do Nascimento. Inteligente, ele sempre fala de Pelé na terceira pessoa porque sabe que este é figura pública enquanto aquele é figura privada.

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