A conta de luz y otras cuentitas más

12 de setembro de 2012 § Deixe um comentário

Coube desta vez ao Estadão – ao menos um!, pois Folha, Globo e Valor continuam engolindo a truta hoje – não se deixar hipnotizar pelo discurso oficial e ir trabalhar para desvendar as maquinações por traz da queda de Ana de Holanda e da aquisição de Marta Suplicy para a campanha de Fernando Haddad que marca o fim da era do sexo por amor mesmo dentro do círculo mais íntimo do PT, e o verdadeiro custo da temerária operação de redução do preço da eletricidade anunciada por Dilma Rousseff.

A movimentação de cargos e lealdades tem, como sempre, a marca inconfundível do velho mestre da pornografia política que continua mandando as crianças pro quarto e resolvendo com que tipo de botina vai jogar o PT quando o jogo é de taça.

Os brios de Marta Suplicy, nós todos já sabíamos, têm um preço. Mas Marta Suplicy e Ana de Holanda são só iscas para jornalistas sem desconfiômetro. Não significam nada. Não põem nem tiram um único voto na urna de Fernando Haddad.

O que poucos se lembravam é que o suplente da volúvel senadora (e veja-se que arranjo conveniente havia aí!) é o vereador Antônio Carlos Rodrigues, dirigente do PR, o partido daquele mesmo Valdemar da Costa Neto que fez mais de 2 bilhões de reais (declarados ao Fisco) antes mesmo de alçar voo da politica municipal da prosaica Mogi Guaçu para as altas cavalarias de Brasília.

Valdemar da Costa Neto, recorde-se, é aquele que vendeu o vice Jose de Alencar a Lula, valendo “o aval do empresariado brasileiro ao seu plano de governo“, naquela histórica reunião, em 2002, em um apartamento funcional em Brasília em que os dois conversavam “amenidades” na sala enquanto Jose Dirceu e Valdemar discutiam valores no quarto, tendo fechado o acordo por R$ 10 milhões.

Pois bem.

Valdemar da Costa Neto teve o seu agente no Ministério dos Transportes varrido daquele privilegiadíssimo posto de emboscagem de dinheiro publico num dos primeiros movimentos da dita “faxina da Dilma” e, em represália, “bandeou-se para a oposição“.

Com Haddad encalhado, Lula mandou as crianças saírem da sala e, numa penada só, repôs as coisas no seu devido lugar. Por uma vaga no Senado, Valdemar da Costa Neto et caterva voltam à casa paterna com a promessa de trair a campanha de Serra à qual se tinham formalmente alinhado. Se provar-se, outra vez, o diferencial para a vitória petista em São Paulo, Valdemar da Costa Neto fará jus a um busto no panteão de honra dos grandes construtores do Reich de Mil Anos do petismo.

De troco o velho pornógrafo de São Bernardo leva o gostinho de atirar mais um biscoito ao eterno despeito que alimenta para com os “intelectuais petistas e filo-petistas” e outros masoquistas do gênero representados por Ana de Holanda e família, e de garantir sua distração futura com o joguinho de gato e rato que acaba de inaugurar entre Marta Suplicy e Aloisio Mercadante pela posse da canoa petista na disputa pelo governo de São Paulo em 2014 (que provavelmente nenhum dos dois learners levará, posto que o negócio dele é “poste” novo, sem vida independente).

Já a jogada da energia elétrica é muito mais pesada. Como ha nela traços ao menos de intenções positivas, fica patente que ha mesmo coautoria de Dilma na manobra já que Lula só se dedica a “puros”.

O momento é que parece indubitavelmente ser dele. E, no caso, é o momento que põe à frente deste expediente os sinais do bem ou do mal.

Sobre esse ponto, aliás, as entrelinhas da cerimônia de anúncio da medida estão cheias de pistas.

Não se trata nem de mais uma manobra eleitoreira nem de ação improvisada ou voluntariosa“; “Um governo tem de olhar sempre o curto, o médio e o longo prazos. Estamos olhando sempre o que as urgências nos mandam fazer, e há urgências“; “o governo conseguirá reduzir o custo da energia elétrica sem comprometer a segurança do atendimento aos consumidores” porque “o Estado e a Aneel serão cada vez mais vigilantes com o cumprimento dos contratos e a qualidade dos serviços” vamos “punir severamente” quem não se enquadrar; “estamos fazendo uma verdadeira revolução; mudando a base competitiva do nosso país“.

Tudo isso nos disse a senhora presidenta ao explicar a redução dos custos da eletricidade sem que nada lhe tivesse sido perguntado. E disse mais. Que tudo isso é fruto de um trabalho encomendado a ela, ainda ministra, pelo presidente Lula em pessoa, trabalho este que “vem sendo meticulosamente elaborado desde 2003“.

Fica a critério do leitor avaliar se a medida foi anunciada, junto com a já analisada movimentação de cargos e lealdades, faltando precisos 27 dias para uma eleição em que o candidato do PT claudica na terceira colocação que o põe fora do 2º Turno, porque os nove anos de “meticulosos cálculos” de Dilma e equipe sobre as complicadas contas da energia brasileira chegaram a um resultado positivo, seguro e consistente neste preciso momento, ou se o que prevaleceu foi o empurrão do pornógrafo de São Bernardo tendo em vista considerações mais pragmáticas.

O Estadão, extraordinariamente, teve a boa ideia de ir conferir ao menos os custos da medida.

E o que apurou é que:

  • a eliminação dos encargos sobre as contas de luz que sustentam o Luz Para Todos, a Tarifa Social e os subsídios aos sistemas elétricos isolados da região Norte que, em eleições passadas renderam tantos votos para o PT, custarão R$ 4,6 bilhões por ano a partir de 2013 (esse numero subiu de R$ 3,3 bilhões desde a primeira olhada dada nele pelo jornal ontem, o que sinaliza onde poderá chegar quando a conta realmente for cobrada);

  • outros R$ 21 bilhões já foram reservados para compensar concessionárias pelo prejuízo que se abrirá em suas contas com a redução das tarifas ajustadas por contrato, e que tal valor “deve dar” para pagar o prejuízo que de fato haverá;
  • a União sofrerá forte queda na arrecadação do PIS-Cofins incidente sobre as contas de energia;
  • o governo ia exigir das concessionárias, pela prorrogação dos contratos por mais 30 anos (incluída no pacote), novos investimentos de R$ 20 bilhões, mas “desistiu“, e deve ter bons motivos para isso;
  • os Estados (que pagam a maior parte das contas de segurança pública, saúde e educação) levarão um tranco em sua arrecadação que ninguém ainda ousou dimensionar porque a conta de eletricidade é uma das principais bases sobre a qual incide o ICMS, o imposto de que vivem esses entes da federação;
  • os municípios também serão fortemente abalados porque haverá menos arrecadação de Taxa de Iluminação Pública, responsável por boa parte do que entra nos cofres deles;
  • sobre os tais 16% de redução nas contas residenciais e 28% nas industriais, esclarece-se que o que está mesmo garantido é uma queda de 5,3% nas tarifas, ficando o resto da queda prometida “na dependência do volume de investimentos que cada concessionária tiver amortizado“.

Logo, estamos falando de centenas de bilhões…

Não foi, portanto, em razão de duvidas quanto à necessidade e o “benefício sistêmico” para toda a economia nacional de uma redução ainda que modesta no preço da energia (hidro)elétrica mais cara do planeta de que a presidenta tanto falou na cerimônia de apresentação do seu pacote (que a deixará “apenas” 25% acima da média mundial e 143% acima do valor que se paga pelo mesmo megawatt nos outros quatro BRICS segundo o Valor de hoje), que Dilma e equipe levaram de 2003 até anteontem sem conseguir fechar a conta da redução do preço da energia no Brasil.

Foi pelo problema de sempre: é impossível acertar contas de receitas e despesas usando-se exclusivamente o sinal de somar.

Resume bem esse lado do problema a manifestação da Eletrobrás, outra companhia semi-estatal com ações em bolsa e responsável por 67,26% da geração submetida aos descontos, instada a elaborar “em um mês e meio“, um novo plano de negócios que a ponha em consonância com a nova matemática decretada pelo Palácio. Ela fala por todas as outras concessionárias afetadas. “Essas medidas são muito boas para o Brasil e precisamos nos adaptar para que sejam boas para nós também“…

A “redução” da conta de eletricidade, que a esta altura do raciocínio já merece ser colocada entre aspas, não vem sozinha. De decreto em decreto, Dilma vem “realizando desonerações expressivas de bilhões de reais” nos impostos e nas folhas de pagamentos de cadeias produtivas com foco preferencial naquelas comandadas pelos “empresários privados” que se sentam em torno da Távola do BNDES, outrossim dita Câmara de Gestão da Presidência da Republica; baixando os juros, o câmbio e os índices da inflação a muque e assim por diante.

Mas o problema real é que os fatos por traz desses números continuam intocados. Considerando que energia aqui se faz com a água que deus dá e no resto do mundo com o fogo que o homem precisa alimentar com suor, a diferença exorbitante no custo da energia e de tudo mais que se compra no Brasil em relação ao que se paga pela mesmíssima coisa no resto do planeta deve-se exclusivamente ao custo direto e indireto dos governos empurrado para a estratosfera pela multiplicação em metástese da companheirada, esta mesma que, no momento, faz greve por filé agora que bife todo mundo em Brasília já tem.

É por essas e outras que “a dependência do BNDES“, o grande agente financiador do capitalismo de estado petista, “do Tesouro Nacional” passou de 10% em 2007 para 50% em 2012, conforme noticiava ontem o jornal Valor Econômico, e que a Petrobras, desde que passou a ser mais um instrumento de manipulação de contas do governo, já perdeu mais da metade do seu valor no mercado internacional.

Considerando que, nesse meio tempo, só tivemos duas eleições é de se esperar que, a menos que chegue o dia em que veremos o PT cortar a própria carne (porque “l’État c’est le PT“) para acertar a conta do que entra e do que sai do cofre, veremos o Tesouro Nacional minguar até o extremo da penúria ou, no limite, a proposição de um método mais barato do que eleições para manter o partido no poder.

Resta ver por quais caminhos a sempre implacável verdade matemática voltará, um dia, a se impor, e rezar para que não doa demais e nem acabe em “guerra civil” como quer Hugo Chavez, agora que se vê empurrado pela longa persistência em práticas semelhantes para o limiar da porta da saída do poder.

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