O medo da Europa e o único antídoto possível

8 de maio de 2012 § 1 comentário

A França ainda é um rebelde racional.

Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.

Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.

A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.

As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.

Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.

A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?

A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.

A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.

Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.

Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.

Pelo menos por enquanto.

Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.

Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.

E este é o verdadeiro problema.

A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.

Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.

Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.

Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.

Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.

Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.

O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.

A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.

A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.

Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.

Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.

Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.

O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.

Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.

Marcado:, , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

§ Uma Resposta para O medo da Europa e o único antídoto possível

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento O medo da Europa e o único antídoto possível no VESPEIRO.

Meta

%d blogueiros gostam disto: