Sobre revoluções e reviravoltas
1 de abril de 2013 § 1 comentário
A Revolução Francesa foi um espasmo de ódio de uma violência diretamente proporcional à quantidade de ouro enfeitando as paredes dos palácios. Um movimento de desconstrução que olhava para o passado e que, com Napoleão, estravazou para o resto da Europa.
O próprio Napoleão, porém, repetia a formula que se propunha a sepultar, resultando de tudo, no fim, uma mera substituição de dinastias, dos Bourbon para os Bonaparte. Ele não revogou o sistema nem dinamitou seus fundamentos, apenas substituiu seus agentes.
Os ideais Iluministas que inspiraram alguns dos ideólogos de 1789 foram afogados no sangue do Terror e da guerra.
Isso criou escola. Até hoje a França e o resto da Europa latina têm horror ao mérito que é a antítese revolucionária do privilégio.
Continuam pertencendo a um “rei” – eleito e com hora marcada para descer do trono, é verdade – e à sua corte intocável e portadora de direitos especiais (a casta dos funcionários do Estado, os mega-empresários e os demais pilares do regime) sem cujo beneplácito nada pode ser feito.
Para não terem de reconhecer o merecimento alheio entregam de bom grado a sua liberdade para abrigarem-se na mediocridade de uma “igualdade” outorgada, essa incubadora de vícios cuja contrapartida é entregar a quem a distribui o poder de outorgar também o sucesso ou impor o fracasso econômicos. Por isso, nessa Europa e em seus prolongamentos em outros continentes, o sucesso econômico é quase sempre um baronato, fruto da corrupção.
Mas, exatamente por ser assim, isenta o perdedor de culpa. E esse é o ponto que realmente interessa.
Subestimar a força descomunal do despeito na história da humanidade é condenar-se a não compreende-la.
Da Pax Romana aos dias de hoje esse apego à “igualdade” em detrimento da liberdade tem sido o vício de que essa Europa nunca se esforçou por se livrar.
Velhos hábitos custam a morrer. E é a esse veio que nós pertencemos.
A revolução Iluminista com seus sonhos de liberdade e de precedência da ciência sobre a religião precisou emigrar para se realizar plenamente.
A Revolução Americana, anterior à francesa e, em grande medida inspirada na França, é revolução e é revolução criadora. Foi feita voltada para o futuro.
Identificou, um a um, os fundamentos últimos da velha ordem e tratou de destruí-los e de criar um novo contrato social apoiado em fundamentos novos.
A fonte de legitimação do poder, a hereditariedade, o sistema de primogenia, a desigualdade perante a lei, o poder de outorgar poder, a prevalência da versão sobre o fato, o poder de interpretar arbitrariamente a lei, tudo isso foi varrido de cena.
O direito consuetudinário (common law) e o juri no lugar do direito outorgado, a eleição direta de funcionários públicos em lugar das nomeações, o império da lei imposta a todos sem exceções, a vitória da ciência sobre a religião, nenhuma riqueza e nenhum poder que não sejam fruto do mérito são as bases da democracia, que não se limita à eleição do chefe.
Desde então, os filhos da revolução, abertos ao novo, estão sempre prontos a se recriar enquanto os filhos da maior de todas as reviravoltas, com medo da liberdade, seguem “mudando” (os ocupantes das mesmas cadeiras de sempre) para que tudo continue igual.
O medo da Europa e o único antídoto possível
8 de maio de 2012 § 1 comentário
A França ainda é um rebelde racional.
Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.
Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.
A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.
As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.
Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.
A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?
A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.
A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.
Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.
Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.
Pelo menos por enquanto.
Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.
Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.
E este é o verdadeiro problema.
A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.
Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.
Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.
Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.
Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.
Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.
O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.
A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.
A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.
Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.
Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.
Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.
O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.
Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.











Você precisa fazer login para comentar.