Pra cima todo santo ajuda; pra baixo a coisa toda muda
15 de maio de 2012 § 1 comentário
Nas democracias dá-se o contrário do que acontece no mundo físico: pra cima todo santo ajuda; pra baixo a coisa toda muda.
Fernando Henrique Cardoso disse que “Política é a arte do possível“. Matou!
No seu artigo de domingo para O Estado de S. Paulo o ex-presidente do Banco Central, Pedro Malan, citando Raghuram Rajan no livro Linhas de Falha que acaba de ser lançado no Brasil (aqui), explicou com mais minúcia quais são as pedras desse caminho.
“Governos democráticos não são programados para pensar em ações que têm custos a curto prazo, mas que produzem ganhos a longo prazo – que é o típico padrão de retorno de qualquer investimento. Que por vezes governos façam estes investimentos é uma consequência ou de uma liderança incomumente corajosa ou de um eleitorado que compreende os custos de adiar escolhas difíceis. Liderança corajosa é coisa rara. Mas também é raro um eleitorado informado e comprometido, porque os próprios especialistas são muito confusos… o debate não leva a um consenso, os moderados dentre o eleitorado não sabem bem no que acreditar, e o resultado é que as escolhas de políticas seguem o caminho de menor desconforto – até que a situação se torne insustentável.
(O problema é que) as democracias são necessariamente generosas, enquanto que os mercados e a natureza não são (…) Enquanto os políticos hesitam em empreender ações dolorosas mas necessárias (…) os problemas se agravam e se tornam mais difíceis de resolver“.
É sobre o fio dessa navalha que caminham neste momento França e Alemanha, enquanto a Grécia chacoalha a lâmina tornando o equilíbrio ainda mais difícil.
A Europa estrebucha. E os Estados Unidos desfrutam de uma ainda incerta “visita da saúde”. Mas os dois estão longe da cura.
Não se deram conta sequer da verdadeira natureza da doença que os afeta.
Eventualmente, depois que se cansarem de chorar a perda de seus privilégios, eles despertarão para a realidade de que, num mercado de trabalho que a internet tornou planetário, o único tratamento eficaz contra a perda de salários e direitos no Ocidente é promover o rápido aumento de salários e direitos no Oriente, e que deixar de consumir avidamente as venenosas “pechinchas” produzidas daquele lado do mundo com trabalho escravo é o mais poderoso remédio contra esse mal.
Até lá, será preciso seguir tomando um coquetel de paliativos para prolongar a vida democrática ao longo do percurso ladeira abaixo, que inclui três tipos de ingredientes milimetricamente dosados: ação “aritmética” para fazer com que o buraco entre os gastos e os ganhos não continue se aprofundando, anestesias políticas para que a ingestão do remédio seja suportável e tempo para que o paciente chegue vivo ao momento da descoberta da verdadeira cura.
E como o campo da realidade oferece pouca margem de manobra, é no território do discurso, por enquanto inteiramente tomado pelos charlatões vendendo remédios milagrosos, que essa parada será decidida.
Como sempre acontece nessas horas, a função da imprensa e da academia são decisivas. E o que se viu até o momento da participação de ambas indica que elas têm sido mais parte do problema que veículos para a solução. Descrever a crise européia com o discurso maniqueísta do século passado não é só um anacronismo irresponsável. É uma temeridade criminosa.
É preciso começar já a instilar doses crescentes de realismo nesse debate para preparar a Europa para sair da paralisia que pode levá-la de volta a um passado do qual, na nova realidade do mundo, pode não haver mais retorno.
O medo da Europa e o único antídoto possível
8 de maio de 2012 § 1 comentário
A França ainda é um rebelde racional.
Por 3,24% de diferença, trocou a meia direita pela meia esquerda.
Um luxo que se pode conceder somente quem ainda tem menos de 10% da população economicamente ativa desempregada.
A Grécia, com 22% e 1/4 dos anéis (cortes nos salários, aposentadorias e outros gastos do Estado) ainda por entregar, já votou francamente sob o signo do medo.
As correntes democráticas da política foram literalmente apedrejadas no berço da democracia; os incendiários da esquerda e da direita, incluindo os nazistas, foram carregados pela turba enfurecida até o limiar do poder.
Não é ainda o mergulho no ódio, mas é quase.
A Itália, em eleições locais, pende para a mesma direção da Grécia. E o que se poderá esperar da Espanha, com 24,4% de desemprego? De Portugal, com 15,3%? Dessa Europa com 17 milhões de desocupados e milhões de outros na fila do bilhete azul?
A fera enterrada desde 1945 sente o cheiro de sangue e começa a dar estremeções.
A imprensa ligeirinha, cabeça século 20, fala em vitória “do crescimento” sobre “a austeridade”.
Mas a Europa não está indo pelo ralo em função do erro no emprego de palavras mágicas. O caminho pela frente é íngreme e longo. O abismo é muito fundo e não ha espaço para brincar.
Não haverá o “novo começo” prometido nas campanhas eleitorais. A França não abandonará a liderança da Europa do euro dividida com a Alemanha para liderar a rebelião aberta da Europa do Sul.
Pelo menos por enquanto.
Desde a boca de urna, antes mesmo que fosse anunciado o resultado oficial, François Hollande já procurava os meios de continuar agindo racionalmente, composto com uma Ângela Merkel agora mais disposta a concessões cosméticas para não obrigá-lo a perder a face e deixá-la sozinha.
Mas eleições na Europa – em qualquer lugar da Europa – não poderão mudar nada de muito concreto a não ser para pior se o sofrimento chegar ao ponto de fazer com que o ódio ocupe definitivamente o espaço da racionalidade, como já se começa a ensaiar.
E este é o verdadeiro problema.
A crise é global. Não pode ser resolvida com aspirinas nacionais.
Não ha como deter a queda. Pode-se no máximo tentar regular a velocidade dela.
Recessão, desemprego, desmonte de benefícios sociais, a quebra de arrecadação (que enfraquece ainda mais a capacidade dos estados nacionais de proporcionar anestesias); tudo isso é efeito do processo de redistribuição da renda proporcionado pela chegada ao mercado agora planetário de trabalho dos bilhões de trabalhadores que, congelados pelo comunismo, pelo islamismo fanático, pelo caos africano, nunca tiveram direitos, nunca tiveram benefícios sociais, nunca tiveram emprego como isso é entendido no Ocidente.
Para esse lumpen do mundo, o morno “inferno” que ameaça os confortos de um francês, de um grego, de um americano parece o mais ameno dos céus.
Os vasos todos, de repente, passaram a ser “comunicantes” e, segundo a lei da física, todo o líquido que eles contêm procura, agora, o nível médio: sobe quem estava abaixo, desce quem estava acima da média mundial na escala do valor do trabalho.
Mas os europeus e os americanos em queda estão muito ocupados culpando-se uns aos outros para ver que o que os atinge não vem dos lados – direito ou esquerdo – vem de baixo.
O processo começou ha mais de 30 anos e foi chegando aos poucos. Seu efeito foi mascarado com overdoses de crédito, numa reação autoimune das economias mais abertas, como a dos Estados Unidos, e com overdoses de anestesias políticas e proteção social nas economias mais mediadas, como as europeias. Mas agora está aí de corpo inteiro. E veio para ficar.
A solidariedade não é mais uma opção altruísta; é um imperativo de sobrevivência.
A luz no fim do túnel só começará a bruxulear de novo quando cada francês, cada grego, cada americano se lembrar que suas ilhas antes inexpugnáveis estão neste nosso mesmo sofrido mundo e que os sinos estão dobrando por todos.
Só haverá direitos do trabalho de novo quando todos tivermos direitos do trabalho. Só haverá benefícios sociais quando todos tivermos benefícios sociais.
Os salários só subirão quando subirem para todos, ou os empregos continuarão saltando pra lá e pra cá, em busca dos miseráveis de ocasião.
Lutar eficazmente por mais direitos e melhores salários em Paris ou em Nova York hoje, é lutar, a partir de Nova York ou de Paris, por mais direitos e melhores salários em Pequim.
O poder do dinheiro, agora formalmente associado ao poder do Estado e livre de fronteiras, só recuará se todos os indivíduos de todas as ilhas se derem as mãos para enfrentá-los e impor-lhes limites.
Enquanto cada um continuar olhando somente para o próprio umbigo e querendo levar vantagem em tudo num mundo onde a alternativa é vencer ou morrer, não haverá espaço para a dignidade e todas as antigas conquistas da civilização continuarão sendo apenas “custos” a serem desbastados e devidamente apropriados pelos tubarões de sempre.
De como a montanha de mentiras acaba parindo a verdade
6 de março de 2012 § 1 comentário
Enquanto o Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, (e mais uma pá de gente da mesma torcida) reclama que o que os países ricos em crise necessitam é mais dinheiro (falso, daquele que se imprime sem lastro, porque do verdadeiro, que traduz riqueza nova construida não ha), economias como a do Brasil estrebucham sob o tsunami dos US$ 8,8 trilhões emitidos por americanos e europeus nos últimos três anos para empurrar para baixo do tapete os restos da esbórnia em que eles passaram afundados dos meados dos anos 80 até 2007 quando a coisa estourou.
Emitir dinheiro a quilo é a maneira de enfiar a conta no dos outros sem quebrar ostensivamente as regras do jogo do “livre comércio” que eles próprios criaram e, assim, seguir enfiando mercadorias “monetariamente subsidiadas” pelas fronteiras comerciais abertas de quem embarcar nesse me engana que eu gosto.
Aproveitando a deixa, dona Dilma do PT, que cobra os maiores impostos e devolve a pior infraestrutura do mundo porque o terço que arranca de quem trabalha para construir esta sexta maior economia do mundo não basta para pagar a farra da “mamabilidade” que rola nos 36 ministérios abarrotados de “cumpanhêros” que ela mantém, bate-se pra Alemanha pra dizer que o PT faz tudo certinho mas o Brasil não vai pra frente exclusivamente em função desse jogo de empurra dos ricos do mundo.
E pra não deixar a bola cair, dona Angela Merkel que, ao embarcar no euro, garantiu que a Alemanha mataria a pau as industriazinhas dos europeus mais pobres que, impedidos de fazer o que agora fazem os ricos com suas moedas para baratear suas exportações, jamais conseguiriam competir com seus produtos e se tornariam clientes cativos da industria alemã, posa de monetarista radical, agora que eles faliram, receitando aos outros, na maior cara de pau, remédios que ela sabe que jamais conseguiria enfiar goela abaixo dos seus próprios eleitores.
A democracia que conhecemos é um subproduto do Iluminismo, aquele estado de deslumbramento em que a humanidade entrou quando conseguiu romper a muralha dentro da qual a Igreja mantivera encerrada a inteligência nos 1500 anos precedentes.
Durante os dois séculos seguintes assumiu-se que a capacidade humana de raciocinar existia exclusivamente para dar às pessoas a condição de saltar a barreira das aparências e encontrar a verdade.
Hoje ha toda uma corrente de estudiosos da “psicologia evolucionária” (especialmente na França) que garante que a capacidade de raciocinar evoluiu por uma razão bem diferente: apenas e tão somente para ganhar discussões. A razão, segundo esse pessoal, não passaria de um instrumento da compulsão básica do homem de vencer o adversário que, para isso, recorre às distorções, à seleção desonesta de pedaços de verdades, à falsificação pura e simples e a todo tipo de truque desonesto, não para descobrir a verdade, mas para dar uma aparência de verdade àquilo que ele sabe ser mentira apenas para triunfar na arena do debate.
Mas também essa verdade se torna mentirosa quando, bem ao gosto francês, tratam de torná-la absoluta e “provar” que tudo que fazemos é motivado única e exclusivamente por razões egoístas e pela vontade de manipular os outros. Pois por traz de tal afirmação esconde-se a intenção de afirmar que não existe livre arbítrio e, portanto, nenhuma responsabilidade de ninguém por nada do que lhe acontece e que, não existindo mérito não pode também haver fracasso, razão pela qual justifica-se que um ente impessoal como o Estado dê a cada um segundo a sua necessidade e dane-se a liberdade, que é só uma ilusão.
E assim, a partir de um exemplo fortuito, fecha-se o círculo.
Donde, atenção: a verdade pode estar a serviço da mentira, até para provar que mentira e verdade são sinônimos, o que obviamente não é verdade. Os políticos são os mestres dessa arte mas não são os únicos a praticá-la. E a única maneira de não se deixar manipular no meio desse tiroteio é voltar constantemente aos fatos para checar, a bem da verdade, quem está mentindo mais, coisa que, diga-se de passagem, tem tudo a ver com o que ficou dito no artigo anterior a este.













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