Por que Lula deu certo

20 de dezembro de 2010 § 4 Comments

Dinheiro é Poder.

Existem empreendedores com múltiplas dimensões e existem os que usam a capacidade de empreender exclusivamente para fazer muito dinheiro. Para estes, empreender é, antes de mais nada, o caminho alternativo ao da política para conquistar Poder.

Porque fulano, já tão rico, continua se matando de trabalhar? Nem tem tempo de gastar o dinheiro que amealhou?” Para aqueles que se deixam atrair por outras dimensões da vida, dinheiro é só um meio de alcança-las. Mas ha os que vivem para o Poder. E Poder nunca é suficiente.

Nada se parece mais com uma ditadura de partido único que a organização de uma grande corporação:

  • em ambas todo o poder emana de um “comitê central”;
  • não existe nenhuma instância de moderação ou divisão desse poder (e isso é tanto mais verdadeiro quanto mais fraca é a legislação de proteção dos acionistas minoritários);
  • a economia é absolutamente planejada, sem nenhuma obrigação de transparência;
  • não ha um “Quarto Poder” (imprensa), direito de associação ou liberdade de expressão;
  • não existe nada que se pareça com um júri ou com a figura da presunção da inocência até prova em contrário;
  • a menor resistência a qualquer ordem emanada do “comitê central” implica em exílio imediato;
  • todos têm os seus movimentos permanentemente medidos e monitorados; as comunicações eletrônicas entre funcionários são frequentemente fiscalizadas e em muitas empresas até os relacionamentos amorosos entre empregados são proibidos;
  • quem tenta organizar grupos de oposição, como sindicatos, passa a ser vigiado, é banido ou incluído numa lista negra;
  • os “governantes” manipulam somas gigantescas, maiores que os produtos nacionais da maioria dos países;
  • quanto mais o poder se concentra em grandes monopólios setoriais mais a força desses “comitês centrais” vaza para a sociedade como um todo através da corrupção governamental que eles fomentam, da sua influencia sobre os legisladores e da manipulação que exercem sobre o Poder Judiciário;
  • a corrupção desses “governantes” superpoderosos (da empresa para dentro, a favor de si mesmos e contra os interesses dos acionistas) também é proporcional à falta de elementos moderadores dentro do sistema.

A tendência no mundo que o capitalismo de Estado chinês está moldando é, nitidamente, a de que o poder político seja cada vez mais compartilhado entre os agentes dos governos eleitos e os chefões das grandes corporações, restando ao Estado apenas o monopólio da força.

No Brasil não é diferente.

Lula e os super empresários que ele atraiu para a sua orbita – e que se deixaram docemente constranger para ela – são as duas faces de uma mesma moeda. Perseguem, por caminhos diferentes, o mesmo objetivo. E são idênticos na precisão com que são capazes de focá-lo, assim como na persistência e no pragmatismo muitas vezes extremo com que obsessivamente o perseguem.

Conhecem-se desde sempre. Entendem a lógica um do outro. Lula, na verdade, aprendeu com eles na mais refinada das escolas: a da negociação pela repartição dos resultados produzidos pelas maiores empresas do mundo que, nos seus tempos de sindicalista nos anos 70 e 80, eram as multinacionais automobilísticas.

Nem eles nem ele jamais pretenderam mudar as regras do jogo. Mas distinguiram-se sempre, cada um no seu lado do campo, por aprender melhor e mais rápido que os outros a tirar vantagem delas, especialmente das suas falhas.

A social democracia, sim, faz restrições morais e ideológicas à manifestação da força, mesmo quando decorrente do mérito. Preocupa-se precipuamente, junto com as demais correntes democráticas, com a legitimização e a moderação do Poder político. Nascida na academia, sem experiência vivida na seara áspera dos números e na permanente urgência das pressões que cercam o ato de produzir bens materiais, tem o seu foco no devir, no aperfeiçoamento das regras do jogo para fazê-las servir ao engrandecimento do individuo, referencia de todas as coisas.

É aí que ela se afasta da esquerda radical que, ao eleger “o coletivo”, cuja única encarnação possível é o Estado, e o igualitarismo a qualquer custo como valores supremos, escorrega inevitavelmente para a intolerância, a centralização do Poder e a anulação do indivíduo.

Era esta a equação do século 20. A esquerda radical, aquartelada no PT, cooptou Lula, que nunca foi ideológico, porque viu nele, acertadamente, o seu passaporte para o Poder num ambiente que explicitamente a rejeitava (e continua rejeitando). A zebra se deu no fato de que foi Lula quem catequizou o PT e não o contrário, como esperavam os seus ideólogos.

No poder (1995 a 2003), a social democracia limpou o entulho autoritário, reduziu drasticamente o território de caça privativo dos predadores da corrupção inerente ao Estado e cercou o Poder de instituições moderadoras. Mas, no seu desconhecimento de causa, errou feio a mão na carga de impostos que imaginou que a produção seria capaz de suportar. A forte turbulência da virada do milênio fez o que faltava para diminuir a sua colheita.

A “Carta aos Brasileiros”, para além dos discursos de palanque, foi o tributo de Lula à obra de FHC. E a resposta à crise de 2007 com a mais pura e “reaganiana” supply-side economics (forte redução de impostos, ainda que setorial, relaxamento da regulamentação e farta irrigação de crédito sobre o consumo, com ênfase nas camadas mais pobres da população) nos falam da longa experiência vivida de Lula no centro do grande capitalismo multinacional de seus tempos de sindicalista, ausente entre nossos social democratas.

A fome por commodities da China fez o resto.

E isso reforçou a confusão ideológica em que vivemos: o nosso “partido comunista” é que parece estar entrando para a Historia como o grande artífice do capitalismo brasileiro…

Mas o que assistimos até agora foi apenas o trailler de um filme que está só começando.

Para quem nunca provou de fato dessa sopa; para quem se formou e viveu no ambiente polarizado do século 20, “capitalismo” era, pura e simplesmente, a antítese do comunismo, quase um sinônimo de democracia.

A China invadiu o mercado pela porta dos fundos, esmagando nuances, para nos lembrar que não é assim.

Os americanos, que sentiram o gosto amargo dos monopólios ha mais de 100 anos quando os robber barons, unidos, tentaram submeter os consumidores acabando com a concorrência, aprenderam a duras penas que eles são incompatíveis com a democracia. Por isso sempre distinguiram capitalismo democrático de capitalismo selvagem. E cuidaram zelosamente de trancar essa fera na cela da legislação antitruste, que será lembrada pelos historiadores do futuro como a mais refinada obra da democracia ocidental, ora em processo de desmontagem.

O capitalismo de Estado chinês – onde o patrão único de uma constelação de monopólios ainda trata reivindicações trabalhistas com tiros na nuca – anabolizado pela digitalização da vida econômica num mundo onde tudo se copia e tudo se distribui, sem barreiras possíveis, para um mercado globalizado, pôs o monstro de volta nas ruas.

Educação e capacidade de inventar já não são fatores decisivos de sucesso. O custo – que, em ultima análise, é a quantidade de dignidade humana preservada no ato de produzir – é a única arma que decide hoje quem ganha e quem perde a competição econômica.

Como os Estados Unidos de 100 anos atrás, o mundo foi empurrado pela China para a voragem das fusões e aquisições que, em 20 anos, criou os maiores níveis de concentração de riqueza já registrado nas democracias ocidentais (e fora delas).

A perspectiva não é brilhante.

As ditaduras se profissionalizaram. Operam hoje segundo as “melhores práticas de governança corporativa”. Se a incapacidade de criar riqueza foi o que realmente derrubou as ditaduras do século 20, a novidade da ditadura próspera, introduzida pela China, será o mais duro teste do amor do homem pela Liberdade que a história produziu até hoje.

Lula, com sua legendaria intuição e seu proverbial desprezo pelas virtudes “burguesas”, entendeu perfeitamente o recado. Esta formando, com a plêiade dos eleitos do BNDES, o time que vai jogar com ele o grande jogo mundial dos monopólios, onde esses cacos da velha política a quem ele ainda atira pedacinhos do Estado terão papel menos que coadjuvante, apenas enquanto forem necessários.

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§ 4 Responses to Por que Lula deu certo

  • Antonio ALmeida disse:

    No geral eu concordo com tudo e acho que você escreve muito bem. Só não acho que o Lula seja este intuitivo maravilhoso, genial e esperto que até você está reconhecendo nele.
    Comportamento anticíclico todo mundo fez nesta crise. Era o óbvio, até aí, nada de genial.
    Continuo com a percepção de que ele teve dois fatores cr’íticos de sucesso :
    1- Não mexeu em nada fundamental na economia. Isto no primeiro momento. Nestes últimos dois anos eles já começaram a fazer bobagens que já estão custando caro
    2- Deu mmmuuuiiiittttaaaaa sorte com a fome chinesa e o preço das commodities
    É muito pouco para 8 anos.

    • flm disse:

      não sei que outro nome se pode dar a força que orienta a ação desse retirante da seca que não tem o quarto ano primário completo, antonio.
      mas isso não importa tanto. a sorte incomum dele, eu concordo, no longo prazo é falta de sorte para o Brasil porque parece compensar com sobra a aridez moral que ele espalha. e fazer esse deserto florir de novo vai nos custar muito tempo e sair muito caro…
      do resto, discordo. acertar, mesmo no obvio, nunca é tão facil quanto parece depois de feito.

  • Antonio ALmeida disse:

    A propósito, acho que o “Por que” do título é separado.

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