A exclusão dos ricos

21 de dezembro de 2010 § 2 Comentários

Debaixo de uma crescente gritaria da mídia que procura “culpados” e ajuda a radicalizar o debate político e dificultar as soluções práticas, com o presidente Obama cada vez mais perdido no espaço, os Estados Unidos ainda têm uma longa descida pela frente antes de alcançar o fundo do vale e retomar a subida.

O fenômeno da exclusão dos ricos da competição global pelo trabalho é estrutural e a solução para ele está fora do alcance de qualquer governo nacional isoladamente, razão pela qual a tendência para o confronto de classes nos países mais afetados deverá se acirrar muito nos próximos anos, o que colocará em risco a democracia americana e, com ela, as perspectivas da liberdade em todo o mundo.

A ironia é que foi justamente a sofisticação da tecnologia propiciada pelo sucesso da economia americana e a melhoria continua do nível de educação do seu povo que levou o país para a “sinuca de bico” em que ele agora está preso, sem perspectiva visível de saída.

Os avanços tecnológicos que a partir do final dos anos 80, permitiram, primeiro a crescente automação de processos antes executados por seres humanos, especialmente nas industrias de manufaturas e, em seguida, a exportação do trabalho não especializado e a globalização da distribuição e da venda dos bens produzidos, são irreversíveis. Na verdade, o processo vai se tornar mais agudo na medida em que novas tecnologias – e todos os dias anuncia-se mais uma – tornarem mais e mais fácil a integração global dos mercados de trabalho e de consumo.

A economia mundial é, agora, um sistema de vasos comunicantes dentro do qual se vai promover um dramático processo de redistribuição da riqueza em escala global que vai requerer o espaço de mais de uma geração para se completar.

Na nova realidade em que o custo da mão de obra é o unico fator decisivo da competição mundial e a diferença no nível de educação (pesquisa e desenvolvimento, inovação, etc.) é anulado pela pirataria, quem esta acima da média, em matéria de salário, vai cair e quem está abaixo vai subir, tanto mais quanto mais distantes estiverem do meio.

A indústria de manufaturas pesava 28,3% do PIB americano em 1953. Em 2009, estava em 11%. Chegou a empregar 14,5 milhões de americanos no pico, em 1979. Hoje emprega 8 milhões numa população que cresceu para 380 milhões de pessoas.

Mais de 20 mil fábricas foram fechadas nas duas ultimas décadas.

O crescimento explosivo do setor financeiro, que muitos apontam como uma das causas da crise americana, também é, na verdade, um efeito dela.

O setor financeiro passou a empregar mais que o de manufaturas em 1986 quando a competição asiática já estava afetando pesadamente a economia americana. A primeira onda de impulso foi a estimulação artificial do crédito ao consumo (que terminou na crise de 2007) com que os políticos procuraram anestesiar os eleitores para a realidade da crescente redução do poder de compra dos salários.

O ritmo desse crescimento foi se multiplicando a medida que a nova realidade do capitalismo de Estado chinês, setor por setor, ia jogando por terra a legislação antitruste e o país se entregava mais francamente à corrida das fusões e aquisições para ganhar escala de produção na esperança de não ser definitivamente expulso do mercado.

O processo de concentração da renda acirrou-se fortemente com a concentração da propriedade dos meios de produção. Na nova paisagem dos grandes monopólios setoriais que se vai desenhando, nos Estados Unidos, assim como no resto do planeta, existem cada vez menos donos de fortunas cada vez mais gigantescas e cada vez mais trabalhadores sub empregados em mercados de trabalho com alternativas (de empregador) cada vez mais escassas.

No desespero da crise os Estados Unidos têm se enredado cada vez mais numa discussão de surdos. Um giro rápido pelos principais órgãos da imprensa americana na internet em qualquer dia do ano é suficiente para mostrar o acirramento de ânimos e a polarização ideológica do debate com todos se acusando mutuamente e os políticos concentrando suas ações em medidas pontuais para apagar focos de incêndio e ninguém olhando para fora do país ou para o cenário de longo prazo que é onde estão as possíveis soluções.

O resgate dos gigantes do setor financeiro, “grandes demais para quebrar”, de certa forma marcou a rendição do pais à nova realidade, para escandalo do americano comum. Todos acusam o governo mas ninguém se lembra que a alternativa seria deixar que fossem a bancarrota dezenas de Lehman Brothers, o que levaria o mundo ao caos.

Quanto aos outros setores de produção, as medidas de socorro do governo pouco resultam em matéria de empregos dentro dos Estados Unidos, porque cada vez mais eles empregam e vendem fora do país.

Um estudo do Asian Development Bank Institute divulgado em matéria assinada pelo ex-secretário do trabalho de Bill Clinton, Robert Reich, ontem no Huffington Post, mostrava que dos US$ 179 cobrados por um iPhone da Apple, o presente de Natal mais vendido deste ano, US$ 61 vão para trabalhadores japoneses que fabricam os componentes-chave do sistema, US$ 30 ficam com trabalhadores alemães que fornecem outras peças do aparelho, US$ 23 ficam com coreanos, US$ 6 vão para os trabalhadores chineses que montam o conjunto e mais alguns dólares são espalhados por outros lugares do mundo.

Somente US$ 11 dólares de cada iPhone vendido ficam com trabalhadores americanos, a maioria deles pesquisadores e designers.

As empresas high-tec não são uma exceção. O mesmo acontece com as old-tec. A GM, por exemplo, voltou a crescer. Em 2010 tornou-se o primeiro fabricante de automóveis do mundo a fabricar e vender 2 milhões de carros … na China. Vende mais na China, onde está empregando milhares, que nos EUA. Em casa, contratou parte dos trabalhadores que dispensou nos últimos anos pela metade do salario dos anteriores.

No varejo acontece o mesmo. O Walmart teve um ano ruim nos EUA em 2010. Continua demitindo empregados. Mas seu braço inglês contratou 7.500 trabalhadores. As vendas no Japão e no Brasil, assim como as contratações, também estão “bombando”.

São números como estes que explicam porque, mesmo com a retomada do crescimento do PIB (2,5% em 2010), graças ao aumento do faturamento das corporações multinacionais pelo mundo afora, o numero de empregos não cresce nos EUA.

O desemprego domestico está em 9,8%, numero que não parece assustador. Mas, nas funções mais bem remuneradas (blue colar) a queda desde a crise foi de 19,5%. E entre os americanos empregados, 1 em cada 3 vive hoje nas fronteiras do que lá se define como o limite da pobreza, a partir do qual se tem assistência do governo (US$ 13 por dia ou cerca de US$ 41 mil por ano). A massa de salários pagos vem diminuindo, assim como a classe média, elemento de sustentação do sistema democrático.

Em contrapartida, o numero daqueles que se define como um classe média chinês (em torno de US $ 10 por dia) está aumentando vertiginosamente. Ainda assim, estatísticas chinesas indicam que apenas 5% da população empregada ganha acima desse limite, o que mostra quanto ainda falta para que haja um nivelamento capaz de amenizar a concorrência predatória da China pelos empregos do mundo.

Ha quem goste de ver os Estados Unidos penarem, especialmente na Brasília petista. Mas eles ainda são a locomotiva da economia mundial que não vai retomar a velocidade que já teve sem eles. E, por enquanto, não ha sinal da luz que possa estar no fim do túnel no qual eles entraram.

§ 2 Respostas para A exclusão dos ricos

  • Renato Abucham disse:

    Muito pessimist esse artigo. O fundo do poço ja passou. Agora só crescimento por mutes anos (cerca de 8 a 10). Veja o crescimento da Produção Industrial Americana para entender. O emprego vem atrasado. Primeiro aumenta-se a produção com horas extras, etc.
    Por outro lado, a economia é resultado de comportamentos. Prevalecendo pessimismo, as decisoes dos agents financeiros atrasam e assim atrasa uma maior e mais rapida recuperacao.

  • flm disse:

    espero, sinceramente, que você esteja certo e eu errado, renato…

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