Biden abre guerra às Big Techs (e à China)

30 de junho de 2021 § 7 Comentários

Lina Khan, 32 aninhos, nascida em Londres filha de pais paquistaneses, é a nova chairman da Federal Trade Comission, o órgão que executa a legislação antitruste do governo americano. Indicada por Joe Biden, ela foi aprovada ontem pelo Senado numa votação trans-partidária por 69 a 28 votos, no mesmo dia em que uma ação antitruste contra o Facebook aberta em dezembro passado com o endosso dos promotores gerais de 46 estados americanos era rejeitada por insuficiência de provas (ou melhor, de critérios que o definissem) como um monopólio depois de absorver o Instagram (por US$ 1 bi em 2012) e o WhatsApp (no ano passado por US$ 19 bi).

A legislação antitruste com um século de idade precisa de urgente reforma” é das poucas afirmações sobre a qual Joe Biden e Donald Trump não discordam.

Lina Khan deu seu primeiro passo para a fama ainda na faculdade com um paper em que acusava a Amazon de abusar do seu poder monopolístico. Trabalhou depois na ONG Open Markets Institute e tornou-se líder do movimento “hipster antitrust” que lutava por “novos meios para avaliar o controle de mercado pelas empresas que incluíssem o conceito de como isso afeta as pessoas não só como consumidores mas também como cidadãos, trabalhadores e membros de uma comunidade”.

Zephyr Teachout, professor de direito em Columbia, disse ao NYTimes que com a nomeação de Khan e de seu colega Tim Wu para o Conselho Nacional de Economia, todos ex-alunos da mesma faculdade, Biden fez “duas escolhas poderosas que autorizam a esperança de que o desvio da politica antitruste para o ‘estado de bem estar do consumidor’ dos últimos 40 anos está chegando ao fim”.

O socialismo foi barrado na entrada dos Estados Unidos ao longo de todo o século 20 pela forte adesão do povo ao capitalismo domesticado pelo viés antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu à democracia americana na virada do século 19 para o 20. Ao eleger a preservação de um limite mínimo de concorrência como limite máximo da competição econômica, TR deslocou o foco do capitalismo americano da finalidade única de enriquecer ilimitadamente empreendedores (e acionistas) para o de garantir o direito do cidadão comum, proletário, de ser disputado, enquanto trabalhador pela oferta de salários crescentes e enquanto consumidor pela oferta de preços decrescentes pelos empreendedores, deixando a inovação tecnológica como a única porta aberta para o crescimento econômico para além do limite de ocupação de mercado estabelecido. 

Foi isso que fez os Estados Unidos se tornarem a força que elevou a humanidade a alturas nunca antes sonhadas ao longo do século 20.

A direita americana carrega a culpa de ter reiniciado o círculo vicioso da volta aos monopólios. O “cavalo de Tróia” teórico que plantou a semente da destruição da democracia antitruste foi montado por Robert H. Bork e Ward S. Bowman, da Yale School of Law, no final dos anos 60, e realimentado pelos economistas da escola austríaca em ascensão desde a Era Reagan, ao formular a tese de que ao coibir fusões de empresas que levassem a “ganhos de escala” e “reduções de preços” essa política estava lesando e não protegendo os consumidores. 

A exigência legal de um nível mínimo de competição em cada setor da economia introduzida pela reforma de Theodore Roosevelt passou gradualmente, desde então, a ser igualado pelas cortes americanas a “redução de preço”, sinônimo de “eficiência econômica”. Essa foi a armadilha jurídica em que caiu para morrer o maior avanço já conquistado pela gente que vive de salário desde sempre pois hoje o mundo todo aprendeu a duras penas que essas “reduções de preços” se dão à custa de reduções de salários só possíveis num ambiente de monopolização geral da economia dentro do qual o desfrute de qualquer liberdade individual se torna impossível

Mas como essa monopolização crescente desembestou como reação à competição desonesta e predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês, o último bastião do socialismo real, lá embarcou nela a esquerda do mundo à custa da traição da bandeira histórica da aliança com o proletariado que a fizera nascer e sobreviver até então. Os fatos criaram, para ela, uma armadilha dialética pois tornaram impossível chegar à verdade sem apontar o socialismo como o que é: o maior inimigo do assalariado.

À necessária autocrítica preferiu-se partir para a destruição do próprio conceito de verdade. É para seguir negando o inegável que foi preciso inflar ao nível do absurdo as bandeiras eleitorais subsidiárias tais como raça, gênero e meio ambiente a ponto dos seus portadores, os integrantes da pequena elite auto-referente diretamente envolvida na disputa pelo poder mais a imprensa que fala por ela, descolarem-se progressivamente do mundo real. 

A nomeação de Lina Khan dá-se dias depois do anuncio do “21st Century American Industrial Strategy” por Brian Deese, o diretor do Conselho Nacional de Economia de Biden, que instalou oficialmente a preocupação com a crescente dependência da China e das cadeias de produção globalizadas como a maior vulnerabilidade estratégica dos Estados Unidos, no que foi interpretado como “o primeiro chamamento para a reversão da globalização”, que será animada pelos pacotes de trilhões de dólares de Biden.   

É Estado contra Estado. Mas nos Estados Unidos isso ainda tem um sentido muito diferente do que tem no resto do mundo.

O maior inimigo da democracia

26 de março de 2021 § 16 Comentários

Carrefour compra Big e se torna o 2º do varejo na AL” foi a manchete do Valor de quinta-feira, 25. A transação foi de R$ 7,5 bi e o grupo resultante passa a ter 24% de todo o varejo alimentar do país (em 2019 tinha 16%). Hoje a receita bruta do Carrefour no Brasil é de R$ 74,9 bilhões. Somada à do Big chegará a R$ 100 bilhões (o concorrente, Pão de Açúcar faturou R$ 55,7 bi em 2020).

Há mais de 40 anos transações como esta acontecem todos os dias pelo mundo afora. É quase meio século de recorde sobre recorde de fusões e aquisições de empresas.

Quem ganha com esse processo?

As ações do Carrefour saltaram 12,77% ontem. As dos concorrentes baixaram 4%. Uma parcela dos 3 milhões de brasileiros que investem em bolsa, 1,5% da população, pode ter lucrado. A gestora Advent, de private equity (dinheiro de milionários), multiplicou por quatro o investimento que fez em 2018 quando assumiu o controle do Walmart Brasil, rebatizado Big, por R$ 1,6 bilhão. Levou R$ 6,23 bi na transação. Algum grande escritório de advocacia mordeu um pedaçinho desse bolo para ajeitar o negócio…

O resto do país – todos os fabricantes e compradores de comida, de produtos de limpeza, de insumos para a casa e todos os outros bens essenciais que todos os que continuamos vivos somos obrigados a consumir todos os dias e são vendidos nos supermercados – perde mais uma alternativa de comprador e/ou de fornecedor. São 876 lojas que antes pertenciam ao concorrente que passam a pertencer, agora, ao mesmo dono.

Do Oiapoque ao Chuí o pequeno e o médio agricultores, o pequeno e o médio industriais pagarão integralmente o tanto que o preço for rebaixado para o penúltimo intermediário, agora com 876 compradores de menos para disputar o seu lote. Seu frango, seu porco, sua alface, sua caixa de frutas sairão a preço ainda mais vil. Os trabalhadores de baixa renda, como são os de supermercados, perdem mais uma alternativa de empregador. Mas na banca do novo mega supermercado, quando esses mesmos produtores e trabalhadores se apresentarem com o seu chapéu de consumidores, os preços estarão, como eternamente têm estado, mais altos a cada dia. E todos eles estarão muito mais próximos dos dentes dos “carrefoures” da terra que, mais cedo ou mais tarde, acabarão por engolir suas propriedades. 

Os funcionários do Cade, que têm o poder de aprovar ou não esse negócio, têm o seu voto valorizado. E o “poder de convencimento” desse novo monstro de R$ 100 bilhões de faturamento junto ao regulador legislativo que poderá, um dia, vir a mudar a regra do jogo para algo mais favorável ao consumidor, aumenta violentamente. A mídia, cuja função é transmitir a pressão da maioria sobre esse regulador e vive de propaganda, terá um anunciante a menos e se tornará mais dependente do que sobrou. 

Cada vez menos gente é dona de cada vez mais coisas. A humanidade caminha em velocidade de desastre de volta ao ponto de partida em que o rei, que faz a lei, é o dono de tudo, mas delega uma parte do que é seu à sua corte que se encarrega de manter o populacho com o nariz um milímetro acima da linha d’água e, portanto, facinho de ser mantido sob controle. É um panorama que só mudou de nome com as chamadas “revoluções socialistas”, que agora rebatizam-se outra vez como “capitalismos de estado”. São o de sempre: “reis” vitalícios e suas cortes proprietários de todos os meios de produção e povos inteiros reduzidos a súditos cujo direito à sobrevivência física ou econômica esses reis e seus partidos e religiões “únicas” controlam absolutamente.

“Socialismo” é sinônimo de monopólio, o antípoda da democracia. Os monopólios dos bens de produção só se sustentam com o monopólio do poder e do discurso políticos. “O proletariado”, que cada vez mais é tudo que não é a corte que ele é obrigado a sustentar, é reduzido à obediência na miséria na base da censura e da porrada. Contra a vida, nada mais. Tudo isso está fresco no horizonte. Tudo isto esteve e está acontecendo. O socialismo, proverbialmente, transformou-se exatamente no que acusava o capitalismo de ser.

Morto “o sonho”, só resta como discurso gênero, raça, meio ambiente. O que o ser humano é e não consegue deixar inteiramente de ser de estalo é o que dá pra “cobrar” das democracias. E é preciso gritar ininterruptamente sobre isso porque não ha nada a prometer ou sequer a sugerir sobre o principal: como impedir que continue essa desenfreada deglutição dos muitos pelos poucos.


O único momento na história da humanidade em que essa lógica perversa foi interrompida foi na segunda etapa da terceira tentativa da democracia de caminhar sobre a Terra que mais uma vez ameaça chegar ao fim, quando Theodore Roosevelt, na virada do século 19 para o 20, interrompeu um processo exatamente semelhante a este que se repete hoje e redirecionou a democracia americana para um decidido viés antitruste. 

Pulverizar o poder – o econômico e o político JUNTOS – eis a questão. 

O resultado foi o surgimento da sociedade mais livre, mais rica e menos desigual que a espécie humana jamais constituiu, com reflexos explosivos no desenvolvimento de todas as ciências com força suficiente para projetar toda a espécie humana para níveis de liberdade, afluência e conhecimento jamais sonhados. 

Confrontado com a concorrência desses “capitalismos de estado” proporcionada pela informatização da vida, o Ocidente democrático, em pânico, aceitou a luta nos termos deles – disputar com monopólios criando os próprios monopólios – e suspendeu as proteções antitruste, ponto mais alto da cultura democrática, começando pelas que regulavam e garantiam a diversidade de opinião na industria da informação, para que não houvesse resistência contra esse retrocesso reacionário, na sequência de acontecimentos que descrevi, passo a passo, no artigo “A ameaça da imprensa corporate” de 2005, reproduzido no Vespeiro ( https://vespeiro.com/2009/08/04/a-democracia-vai-sobreviver/).

Monopólios na economia levam ao monopólio  do poder político. Cada vez mais tudo o mais vira carne para moer na defesa de privilégios que só se sustentam com sangue. É esse o inimigo.

Nostra culpa, nostra maxima culpa

1 de fevereiro de 2021 § 17 Comentários

São Paulo está em 7º lugar em contágio e 17º em mortes por 100 mil entre os estados. O Brasil, segundo a CNN Internacional (AQUI), em 36º em contágio e 27º em mortes por 100 mil no mundo. Democracia e lockdown são conceitos mutuamente excludentes e, sem um absolutamente radical, só possível em ditaduras totalitárias como a chinesa, não se consegue deter a progressão do vírus. Por isso, até a chegada das vacinas quaisquer que fossem as ações os resultados eram ruins para todos os governos do mundo. Fará diferença eleitoral, eventualmente, a estupidez com que uns e a sofreguidão com que outros abordaram a questão. O resto, o povo sabe com a pele, é luta pelo poder e corre por conta do “jornalismo” deletério que se faz a respeito.

O curto-circuito suicida do discurso dos governos ocupados por aquela direita que mordeu a isca da politização da doença, seja como for, resolveu o problema da total ausência de propostas capazes de mobilizar a multidão dos excluídos deste mundo da esquerda americana, e não só o dela. Na reta final da campanha, à medida em que se ia materializando o fantasma da derrota, o componente doentiamente infantil e auto-centrado da personalidade de Donald Trump deu a senha. E a união em torno da ideia de não ser Donald Trump, ainda que raspando a trave, deu conta do recado.

Devolveu-se a amabilidade. A Trump mesmo já tinha bastado, em 2016, afirmar-se como o avesso dos seus oponentes, sem acrescentar qualquer outra idéia própria aproveitável, para eleger-se. 

O persistente negacionismo da esquerda e da direita – a lá deles e as outras todas ao redor do mundo – quanto à causa evidente do naufrágio do “sonho americano” e, por tabela, da qualidade de vida de quem vive de salário em todo o mundo, e a insistência cada vez mais delirante dos dois lados em apontar falsos problemas e falsas soluções como saída, deitam raízes nos seus respectivos “pecados originais”.

O da direita carrega a culpa de ter iniciado esse círculo vicioso. O “cavalo de Tróia” teórico que plantou a semente da destruição da democracia antitruste americana foi montado por Robert H. Bork e Ward S. Bowman, da Yale School of Law, no final dos anos 60, e realimentado pelos economistas da escola austríaca em ascensão desde a Era Reagan, ao formular a tese de que ao coibir fusões de empresas que levassem a “ganhos de escala” e “reduções de preços” essa política estava lesando e não protegendo os consumidores. 

A exigência legal de um nível mínimo de competição em cada setor da economia como garantia dos direitos básicos do trabalhador e do consumidor por oposição ao objetivo único de enriquecer ilimitadamente empresários e acionistas mesmo que por competência, definida como baliza inegociável de toda política econômica democrática pela reforma antitruste de Theodore Roosevelt na virada do século 19 para o 20, passou gradualmente, desde então, a ser igualado pelas cortes americanas a “redução de preço”, sinônimo de “eficiência econômica”.

Essa foi a armadilha jurídica em que caiu para morrer o maior avanço já conquistado pela gente que vive de salário desde sempre pois hoje o mundo todo aprendeu a duras penas que essas “reduções de preços” se dão à custa de reduções de salários só possíveis num ambiente de monopolização geral da economia dentro do qual o desfrute de qualquer liberdade individual se torna impossível.

Mas como essa monopolização crescente se deu empurrada pela competição desonesta e predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês, o ultimo bastião do socialismo real, lá embarcou nela a esquerda do mundo à custa da traição da bandeira histórica da aliança com o proletariado que a fizera nascer e sobreviver até então. Os fatos criaram, para ela, uma armadilha dialética pois tornaram impossível chegar à verdade sem apontar o socialismo como o que é: o maior inimigo do assalariado.

À necessária autocrítica preferiu-se partir para a destruição do próprio conceito de verdade. É para seguir negando o inegável que foi preciso inflar ao nível do absurdo as bandeiras eleitorais subsidiárias tais como raça, gênero e meio ambiente a ponto dos seus portadores, os integrantes da pequena elite auto-referente diretamente envolvida na disputa pelo poder mais a imprensa que fala por ela, descolarem-se progressivamente do mundo real. 

Os sinais dessa perda de contato com a realidade multiplicam-se em todas as latitudes. Ilustro com dois exemplos da hora. 

Ao norte do equador, depois de meses de campanha eleitoral intensa e passados já mais de dois da vitória de Joe Biden, causa imenso constrangimento ver o desfiar daquele “a 1a mulher, a 1a negra, a 1a filha de imigrantes na vice-presidência dos Estados Unidos” que todo jornalista ao redor do globo declama a cada vez que pronuncia o nome de Kamala Harris. Perdeu-se a noção do quanto é ofensivo, preconceituoso, racista e misógino reduzir a isso uma pessoa … especialmente se com o objetivo declarado de combater o preconceito, o racismo e a misoginia. Marilyn Monroe, em tempos menos doentes, suicidou-se porque era referida exclusivamente pelo seu invólucro…

Ao sul, onde não existe pecado, temos o “fator quilombola”. Verdadeiros ou não, eles são “decendentes de escravos fugidos” que moram em áreas rurais doadas pelo governo. Porque estariam os índios e os quilombolas todos sob risco maior de morrer de covid que os milhões de favelados de qualquer “raça” e idade amontoados em barracos sem água nem higiene, esgueirando-se por ruelas apertadas e espremendo-se em transportes coletivos de 5a categoria? E no entanto, em plena “guerra da pandemia”, com vidas em jogo na definição da fila das vacinas, nenhum jornal, nenhuma rádio, nenhuma televisão ousou fazer a pergunta óbvia, o que dá uma boa medida do estado de saúde da mais básica de todas as liberdades, sem a qual nenhuma outra existe, neste nosso tão incensado “estado democrático de direito”, aquele que se define por ninguém ter direitos maiores que os dos outros…

Dispor um “exemplar” de cada “minoria” em um canto da sala dos governos ou discriminá-los favoravelmente na lei a pretexto de terem sido discriminados negativamente no passado, seja como for, só fará, como já tem feito, aumentar o ódio que envenena o mundo.

A questão ambiental, o ultimo pé que essa esquerda mantém na realidade, também ameaça ser expulsa dela. A única solução real para o problema ambiental, que não é outra coisa senão o excesso de nós, é aquela em que ninguém toca: controle de natalidade. No mais, as medidas que Joe Biden acaba de anunciar evidenciam os limites que a realidade impõe ao tratamento do tema. Trocar a frota do governo por carros elétricos e incentivar iniciativas de fabricação de energia limpa são manifestações simbólicas de boas intenções com algum possível efeito menos que residual num prazo incerto. Proibir o “fracking” de maciços de xisto em terras federais como preâmbulo para uma proibição total é coisa mais concreta. 

Essa tecnologia, que por pura sorte coincide com a Era Trump e foi a grande responsável pelo “boom” econômico ocorrido nela, transformou em poucos anos os Estados Unidos de maior importador em um dos maiores exportadores de energia do mundo, e no dono do gás industrial mais barato do planeta, o que permitiu a repatriação de industrias e empregos que tinham migrado para sempre para a China porque lá sujar e explorar o trabalho vil para produzir não custa nada. 

Sem dribles tecnológicos como este, tudo em que é possível mexer para competir com os monopólios estatais chineses é o acirramento das fusões e a continuação do achinezamento dos salários no Ocidente pois a China, embora sendo signatária do Acordo de Paris, não segue nem precisa seguir lei alguma nacional, internacional ou humanitária, do que dá provas todos os dias sujando para produzir, predando selvagemente todos os oceanos do planeta, prosseguindo metodicamente com o genocídio dos Uigurs, massacrando a liberdade em Hongcong, recrudescendo a repressão política interna com a criação em metástase de “campos de concentração” urbanos e investindo maciçamente na construção de uma máquina militar monstruosa que certamente tem mais aspirações na vida que desfilar anualmente na “Praça da Paz Celestial”.

E no entanto a imprensa ocidental inteira leva à sério as “lições de moral” que o onipotente Xi Jinping passa diariamente no mundo onde a lei vale mais que o governante de plantão, uma forma particularmente ofensiva à inteligência de negacionismo que justifica e garante o apoio maciço dos ofendidos à radicalização em sentido contrário dos discursos dos trumps da vida que, só denunciando o tamanho da má fé desses fariseus, elegem-se sem ter de provar mais nada.

O massacre dos empregos e dos salários do Ocidente só cessará se e quando os produtos do roubo de patentes e do esmagamento da dignidade do trabalho passarem a ser tratados do mesmo modo como exigem que sejam tratados os do desmatamento da Amazônia: com o banimento sumário dos nossos mercados e a imposição de tarifas que anulem a recompensa que hoje se dá a esses crimes de lesa humanidade.

Fora daí, esqueçam! 

Os 74 milhões de votos em Trump aumentarão a cada novo emprego perdido e a cada novo salário esmagado, até que só mesmo adotando também o modelo político chinês, como a internet dos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon) que contam entre os poucos a lucrar indecentemente com todas essas mentiras e distorções já está ensaiando fazer, se poderá evitar que eles sejam eleitos ou que o mundo acabe numa grande explosão.

Onde a democracia se esvai

15 de janeiro de 2021 § 35 Comentários

Todo santo dia ha pelo menos 40 anos ininterruptos os jornais de todo o mundo dão três ou quatro notícias como estas do Valor de ontem. Isso nas primeiras páginas, onde só vão estampadas as maiores “deglutições” do dia…

Estas de hoje mostram que só sobram no mundo, por enquanto, três grandes varejistas de comida e o mais que cada um de nós tem de consumir todo dia para manter o corpo e a casa vivos: Couche-Tard, Walmart e Amazon, a mesma que tem também o virtual monopólio planetário de vendas de tudo (excluída a China), da prestação de serviços, da sustentação de sites e redes de internet (cloud computing), etc., etc., etc. e etc., e, portanto, força até para cassar a palavra ao presidente eleito dos Estados Unidos da América na hora que bem entender. 

Logo, logo, se Jeff Bezos continuar autorizado a violar todas as leis que viola todos os dias pelo mundo afora só porque tem dinheiro demais, a Amazon vai ficar sozinha também neste setor. Para nós já não fará diferença. Juntas, diz a noticia, Couche-Tard e Carrefour, a que está neste momento em vias de desaparecimento, terão um faturamento anual de US$ 152 bilhões em suas 30 mil lojas com seus 450 mil empregados. E ela ainda será a menor das três que vão sobrar. Mas com quatro ou com três redes de supermercados em todo o mundo, tanto os preços que todas nos cobram quanto os salários que todas pagam a essa multidão que, se for posta pra fora de uma só poderá bater na porta das outras duas por um emprego, são sempre combinados e caminham, os preços invariavelmente para cima e os salários invariavelmente para baixo … ha 40 anos sem parar.

Não é por acaso, portanto, que há tanto ódio no mundo, especialmente nos Estados Unidos, o único país que nos últimos quase 500 anos ininterruptos só tinha tido a experiência de andar para a frente.

Telefonia, gás (as outras vítimas do dia da 1a página do Valor), tudo é assim. O setor de supermercados tem sorte pois lida com bens perecíveis impossíveis de padronizar completamente como os bens industriais. Na industria esse mesmo processo de come-come que termina invariavelmente comendo os salários e a liberdade de todos nós, já chegou praticamente ao fim porque na outra ponta está sempre o equivalente chinês, produzido por um gigante único pertencente ao Estado (embora com algum amigo do rei à frente) e, portanto, em condições de pagar salários de fome impunemente aos seus “empregados” e de aguentar prejuízos indefinidamente até quebrar qualquer competidor, esteja ele onde estiver no mundo.

O socialismo é, enfim, a monarquia sob nova direção de marketing. Um sistema onde tudo pertence à mesma pessoa, que coopta uma corte de barões subornando-os com privilégios e governando com mão de ferro em função do seu poder de decretar quem vai ou não vai ter emprego, autorização para comprar em suas lojas, canal para falar em sua praça; quem vive ou quem morre física ou economicamente, enfim.

Os americanos do norte foram a única parcela da humanidade que teve a experiência de viver desde sempre fora dessa lógica perversa. Graças à sabedoria do povo inglês de manter seus reis sempre pobres, a colonização da América, que lhes caiu inadvertidamente nas mãos depois do afundamento da monarquia terrorista de Fernando e Isabela no Canal da Mancha, acabou sendo entregue a empresas privadas, o que deu uma chance à “lei de mercado” de sair da prisão. 

Pela primeira vez na história da humanidade tornou-se possível a alguém que não fosse nem o rei, nem um escolhido do rei, possuir terra. A Virginia Company e a Plymouth Company, duas das empresas colonizadoras a quem James I entregou permissões para colonizar a América, elas também sem dinheiro para fazê-lo, inventaram o “headright system” pelo qual qualquer pessoa que se dispusesse a cruzar o Atlântico e enfrentar aquele “planeta novo” tinha direito à propriedade de 50 acres de terra para ganhar o seu próprio sustento. 

E fez-se um país de proprietários…

Isso, mais a necessidade dessas pessoas de combinar entre elas, de comum acordo, como fariam para dividir tarefas e organizar sua sobrevivência naquelas lonjuras, deu em democracia. 

Mas assim que a caminhada começou a propriedade se foi acumulando de novo em menos mãos. Por mais que as leis da democracia tivessem forçado o divórcio do poder político com o poder econômico, obrigando um a controlar o outro, e coibissem a acumulação de qualquer poder e qualquer dinheiro que não fosse resultado de esforço individual ou de delegação expressa e direta do povo, as pessoas são diferentes umas das outras e a corrupção é inextinguível. A cada grande disrrupção do curso normal do processo lá se atiravam de novo o poder político e o poder econômico uns nos braços do outro proporcionando saltos olímpicos na concentração da riqueza. 

Na ruptura decorrente da “ferroviarização” da economia num território continental, a mais violenta até o advento da internet, a concentração chegou a extremos que quase levaram a democracia americana à breca. A situação foi salva pela reorientação antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu a ela, impedindo por lei que, mesmo por competência, qualquer empresa ocupasse mais de 30% de cada mercado, ficando o empresário que o conseguisse obrigado a vender o excedente a outro empresário.

A artimanha de conter o poder econômico sem inflar o poder político, garantida pelo novo arsenal de afirmação dos poderes dos indivíduos que Theodore Roosevelt serviu ao povo junto com o ferramental antitruste (eleições primárias, recall, referendo, iniciativa), deu ao povo americano condições de manter os dois sob controle e a seu serviço, outro feito inédito na história da humanidade, o que pôs os Estados Unidos fora do banho de sangue planetário das “revoluções socialistas” do século 20 que não foram outra coisa senão espasmos de desespero da miséria em seu beco sem saída, e fez a humanidade dar o maior salto em afluência material e domínio da ciência de toda a sua trajetória neste planeta.

Com a eliminação das fronteiras nacionais do mercado pela internet o ataque à única democracia “raiz” que já houve veio pelas costas. Nada de tomar o sistema político, agora nas mãos do povo que não abrirá mão dele jamais, para depois instalar o proprietário único de todas as coisas. Apenas suspender a proteção armada por Theodore Roosevelt e permitir que os barões, associados à corrupção política e empurrados pela China, tomassem tudo abaixo deles, primeiro, e se entredevorassem depois. 

Com a força assim acumulada por eles, vai-se esboçando, com os autos-de-fé e as execuções virtuais na internet, a mais nova versão do modo das majestades de lidar com as ambições concorrentes desde o machado, à Henrique VIII, os venenos radioativos, à Vladimir Putin, ou o tiro na nuca “por corrupção”, à Xi Jimping. 

Se não houver logo uma reedição modernizada dos remédios de Ted Roosevelt, a humanidade corre o sério risco de mergulhar em mais uma sucessão de milênios de escuridão informatizada, a menos que descubra outro planeta habitável e virgem para fugir de si mesma antes disso.

Para domesticar a internet

10 de dezembro de 2020 § 9 Comentários

Num artigo bem pé-no-chão publicado em O Estado de S. Paulo de segunda-feira, 7 (“As três internets”), Moises Naim resumiu bem o ponto a que as coisas chegaram. A internet nem mais é global nem é aberta. Também já não é descentralizada nem é gratuita. Mais de 40% da população mundial vive em países onde o acesso, mesmo a uma internet fortemente censurada, é radicalmente controlado pelo ditador de plantão e dado em troca do controle de cada pensamento e cada passo do usuário. E onde ela continua “aberta”, pagamos pelo que vemos entregando a comerciantes todos os passos e segredos de nossas vidas, comerciantes estes que, com violência cada vez mais explícita, trabalham para transformar a posse dessas informações, bem como o acesso ao mercado “global” informatizado que as usará para nos oferecer bens e serviços com “target”, em monopólios cada vez mais estritos. 

Em outras palavras, o sonho acabou (mais um!), até para os ingênuos que em algum momento acreditaram que ele tivesse começado um dia…

Naim falava então no surgimento de três internets. A chinesa, fechada, censurada, protecionista e com “ciberfronteiras” muito claramente delimitadas onde só entram “aliados” como a Coreia do Norte, cujo protagonista central é a ditadura do partido único e seu sistema de controle dos cidadãos, e que se impõe na competição planetária por deter um bilhão de usuários. A americana, anárquica, inovadora, comercial e com altas tendências monopolistas, cujos protagonistas centrais são as grandes empresas de tecnologia e que se impõe pelo seu acesso a enormes volumes de capital, talento tecnológico e capacidade de inovar. A européia, a mais regulada e “preocupada em defender os usuários”, o que trata de fazer com um enfoque jurídico, definindo parâmetros, exportando regras e impondo multas bilionárias.

Postas em termos mais rudes, reproduções matemáticas da realidade que são, as três internets descritas por Naim resumem o que são as culturas que traduzem. A do “despotismo oriental” da chinesa, que decorre naturalmente do “modo de produção asiático” de servidão coletiva; a do “todo poder ao povo” sem nenhum controle da americana; a do “todo poder para o Estado” da européia. A grande “vantagem competitiva” da chinesa é que não tem nenhum compromisso com a lei. A da americana, se a história se repetir, é a da ausência de compromisso com o erro que só se torna possível em sistema mais centralizados e só faz sentido como recurso de defesa de privilégios. A da européia, a suscetibilidade à perpetuação daquela forma de “erro” que, na verdade, traduz “acertos” da privilegiatura que só são possíveis quando a iniciativa das ações de defesa está nas mãos do Estado – e portanto pode ser comprada – e não difundidas nas mãos do povo.

A tendência para o monopólio da competição sem limite traz como sub-produto a facilitação do controle da circulação de ideias e a instrumentalização política pela supressão da diversidade de plataformas. Não é atoa que a grande aliada das big techs (e vice-versa) é, hoje, a esquerda americana. A revolução antitruste que reorientou a democracia deles a partir da virada do século 19 para o 20 encontrou a melhor solução para esse problema ao tomar o cuidado de armar a ganância para se contrapor à ganância, obrigando empresários que conquistassem mais que uma determinada faixa de mercado (tipicamente 30%) a vender parte do seu negócio a outros empresários, forçando a concorrência em benefício do consumidor (e a diversidade sem a qual a democracia não sobrevive), em vez de tratar de limitar a força do poder econômico aumentando a força do poder do Estado (que sempre pode ser facilmente comprada pelo poder econômico).

Existem, no entanto, fortes limitações técnicas para transpor a solução do século 20 para a realidade do século 21. Dificuldades estas que foram muito competentemente delineadas no artigo “Esforço comum para domar big techs” que Rana Faroohar escreveu para o Financial Times, o Valor de terça-feira, 8, traduziu e você pode conferir ampliando a imagem abaixo. Nele Faroohar aponta outra distinção mais importante das internets – a das pessoas e a das coisas; a do consumidor e a industrial e põe ainda no horizonte o desafio da inteligência artificial – que terão de ser tratadas no enorme trabalho de regulamentação que a humanidade tem pela frente se quiser evitar de ser devorada pelo “Grande Irmão”. 

Como não poderia deixar de ser nessa realidade em que cada internet traduz a cultura de que é fruto, neste Brasil Oficial campeão mundial do xadrez da mentira a regulamentação que “O Sistema” auto-referente e preocupado exclusivamente com a sua própria perpetuação ensaia é a mentira da mentira da mentira: o controle das chamadas “fake news” como pretexto para a censura de qualquer manifestação política que fira os interesses da privilegiatura ou possa afetar as eleições, hoje cercadas por uma minuciosa barreira de censura à imprensa que varia conforme as limitações de penetração de cada meio num eleitorado funcionalmente analfabeto majoritário, mas que é inflexível na qualificação de “antidemocrática” de toda ação adversa à privilegiatura punível até com prisão no esdrúxulo “estado de direitos especiais” que a Constituição de 88 criou e “petreamente” mantém, sob o aplauso da old mídia.

Para esse departamento, o resto do mundo já entendeu que o único remédio que não deságua na censura que mata a democracia é o de sempre: deixar que os cidadãos “elejam” diariamente, pagando pelo serviço, as fontes de informação que se propuserem trabalha-la segundo regras de todos conhecidas, e ignorar o resto como boataria da praça pública a que todo mundo desde sempre também tem direito.

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