Nostra culpa, nostra maxima culpa

1 de fevereiro de 2021 § 17 Comentários

São Paulo está em 7º lugar em contágio e 17º em mortes por 100 mil entre os estados. O Brasil, segundo a CNN Internacional (AQUI), em 36º em contágio e 27º em mortes por 100 mil no mundo. Democracia e lockdown são conceitos mutuamente excludentes e, sem um absolutamente radical, só possível em ditaduras totalitárias como a chinesa, não se consegue deter a progressão do vírus. Por isso, até a chegada das vacinas quaisquer que fossem as ações os resultados eram ruins para todos os governos do mundo. Fará diferença eleitoral, eventualmente, a estupidez com que uns e a sofreguidão com que outros abordaram a questão. O resto, o povo sabe com a pele, é luta pelo poder e corre por conta do “jornalismo” deletério que se faz a respeito.

O curto-circuito suicida do discurso dos governos ocupados por aquela direita que mordeu a isca da politização da doença, seja como for, resolveu o problema da total ausência de propostas capazes de mobilizar a multidão dos excluídos deste mundo da esquerda americana, e não só o dela. Na reta final da campanha, à medida em que se ia materializando o fantasma da derrota, o componente doentiamente infantil e auto-centrado da personalidade de Donald Trump deu a senha. E a união em torno da ideia de não ser Donald Trump, ainda que raspando a trave, deu conta do recado.

Devolveu-se a amabilidade. A Trump mesmo já tinha bastado, em 2016, afirmar-se como o avesso dos seus oponentes, sem acrescentar qualquer outra idéia própria aproveitável, para eleger-se. 

O persistente negacionismo da esquerda e da direita – a lá deles e as outras todas ao redor do mundo – quanto à causa evidente do naufrágio do “sonho americano” e, por tabela, da qualidade de vida de quem vive de salário em todo o mundo, e a insistência cada vez mais delirante dos dois lados em apontar falsos problemas e falsas soluções como saída, deitam raízes nos seus respectivos “pecados originais”.

O da direita carrega a culpa de ter iniciado esse círculo vicioso. O “cavalo de Tróia” teórico que plantou a semente da destruição da democracia antitruste americana foi montado por Robert H. Bork e Ward S. Bowman, da Yale School of Law, no final dos anos 60, e realimentado pelos economistas da escola austríaca em ascensão desde a Era Reagan, ao formular a tese de que ao coibir fusões de empresas que levassem a “ganhos de escala” e “reduções de preços” essa política estava lesando e não protegendo os consumidores. 

A exigência legal de um nível mínimo de competição em cada setor da economia como garantia dos direitos básicos do trabalhador e do consumidor por oposição ao objetivo único de enriquecer ilimitadamente empresários e acionistas mesmo que por competência, definida como baliza inegociável de toda política econômica democrática pela reforma antitruste de Theodore Roosevelt na virada do século 19 para o 20, passou gradualmente, desde então, a ser igualado pelas cortes americanas a “redução de preço”, sinônimo de “eficiência econômica”.

Essa foi a armadilha jurídica em que caiu para morrer o maior avanço já conquistado pela gente que vive de salário desde sempre pois hoje o mundo todo aprendeu a duras penas que essas “reduções de preços” se dão à custa de reduções de salários só possíveis num ambiente de monopolização geral da economia dentro do qual o desfrute de qualquer liberdade individual se torna impossível.

Mas como essa monopolização crescente se deu empurrada pela competição desonesta e predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês, o ultimo bastião do socialismo real, lá embarcou nela a esquerda do mundo à custa da traição da bandeira histórica da aliança com o proletariado que a fizera nascer e sobreviver até então. Os fatos criaram, para ela, uma armadilha dialética pois tornaram impossível chegar à verdade sem apontar o socialismo como o que é: o maior inimigo do assalariado.

À necessária autocrítica preferiu-se partir para a destruição do próprio conceito de verdade. É para seguir negando o inegável que foi preciso inflar ao nível do absurdo as bandeiras eleitorais subsidiárias tais como raça, gênero e meio ambiente a ponto dos seus portadores, os integrantes da pequena elite auto-referente diretamente envolvida na disputa pelo poder mais a imprensa que fala por ela, descolarem-se progressivamente do mundo real. 

Os sinais dessa perda de contato com a realidade multiplicam-se em todas as latitudes. Ilustro com dois exemplos da hora. 

Ao norte do equador, depois de meses de campanha eleitoral intensa e passados já mais de dois da vitória de Joe Biden, causa imenso constrangimento ver o desfiar daquele “a 1a mulher, a 1a negra, a 1a filha de imigrantes na vice-presidência dos Estados Unidos” que todo jornalista ao redor do globo declama a cada vez que pronuncia o nome de Kamala Harris. Perdeu-se a noção do quanto é ofensivo, preconceituoso, racista e misógino reduzir a isso uma pessoa … especialmente se com o objetivo declarado de combater o preconceito, o racismo e a misoginia. Marilyn Monroe, em tempos menos doentes, suicidou-se porque era referida exclusivamente pelo seu invólucro…

Ao sul, onde não existe pecado, temos o “fator quilombola”. Verdadeiros ou não, eles são “decendentes de escravos fugidos” que moram em áreas rurais doadas pelo governo. Porque estariam os índios e os quilombolas todos sob risco maior de morrer de covid que os milhões de favelados de qualquer “raça” e idade amontoados em barracos sem água nem higiene, esgueirando-se por ruelas apertadas e espremendo-se em transportes coletivos de 5a categoria? E no entanto, em plena “guerra da pandemia”, com vidas em jogo na definição da fila das vacinas, nenhum jornal, nenhuma rádio, nenhuma televisão ousou fazer a pergunta óbvia, o que dá uma boa medida do estado de saúde da mais básica de todas as liberdades, sem a qual nenhuma outra existe, neste nosso tão incensado “estado democrático de direito”, aquele que se define por ninguém ter direitos maiores que os dos outros…

Dispor um “exemplar” de cada “minoria” em um canto da sala dos governos ou discriminá-los favoravelmente na lei a pretexto de terem sido discriminados negativamente no passado, seja como for, só fará, como já tem feito, aumentar o ódio que envenena o mundo.

A questão ambiental, o ultimo pé que essa esquerda mantém na realidade, também ameaça ser expulsa dela. A única solução real para o problema ambiental, que não é outra coisa senão o excesso de nós, é aquela em que ninguém toca: controle de natalidade. No mais, as medidas que Joe Biden acaba de anunciar evidenciam os limites que a realidade impõe ao tratamento do tema. Trocar a frota do governo por carros elétricos e incentivar iniciativas de fabricação de energia limpa são manifestações simbólicas de boas intenções com algum possível efeito menos que residual num prazo incerto. Proibir o “fracking” de maciços de xisto em terras federais como preâmbulo para uma proibição total é coisa mais concreta. 

Essa tecnologia, que por pura sorte coincide com a Era Trump e foi a grande responsável pelo “boom” econômico ocorrido nela, transformou em poucos anos os Estados Unidos de maior importador em um dos maiores exportadores de energia do mundo, e no dono do gás industrial mais barato do planeta, o que permitiu a repatriação de industrias e empregos que tinham migrado para sempre para a China porque lá sujar e explorar o trabalho vil para produzir não custa nada. 

Sem dribles tecnológicos como este, tudo em que é possível mexer para competir com os monopólios estatais chineses é o acirramento das fusões e a continuação do achinezamento dos salários no Ocidente pois a China, embora sendo signatária do Acordo de Paris, não segue nem precisa seguir lei alguma nacional, internacional ou humanitária, do que dá provas todos os dias sujando para produzir, predando selvagemente todos os oceanos do planeta, prosseguindo metodicamente com o genocídio dos Uigurs, massacrando a liberdade em Hongcong, recrudescendo a repressão política interna com a criação em metástase de “campos de concentração” urbanos e investindo maciçamente na construção de uma máquina militar monstruosa que certamente tem mais aspirações na vida que desfilar anualmente na “Praça da Paz Celestial”.

E no entanto a imprensa ocidental inteira leva à sério as “lições de moral” que o onipotente Xi Jinping passa diariamente no mundo onde a lei vale mais que o governante de plantão, uma forma particularmente ofensiva à inteligência de negacionismo que justifica e garante o apoio maciço dos ofendidos à radicalização em sentido contrário dos discursos dos trumps da vida que, só denunciando o tamanho da má fé desses fariseus, elegem-se sem ter de provar mais nada.

O massacre dos empregos e dos salários do Ocidente só cessará se e quando os produtos do roubo de patentes e do esmagamento da dignidade do trabalho passarem a ser tratados do mesmo modo como exigem que sejam tratados os do desmatamento da Amazônia: com o banimento sumário dos nossos mercados e a imposição de tarifas que anulem a recompensa que hoje se dá a esses crimes de lesa humanidade.

Fora daí, esqueçam! 

Os 74 milhões de votos em Trump aumentarão a cada novo emprego perdido e a cada novo salário esmagado, até que só mesmo adotando também o modelo político chinês, como a internet dos cinco donos do FATGA (Facebook, Apple, Twitter, Google e Amazon) que contam entre os poucos a lucrar indecentemente com todas essas mentiras e distorções já está ensaiando fazer, se poderá evitar que eles sejam eleitos ou que o mundo acabe numa grande explosão.

Onde a democracia se esvai

15 de janeiro de 2021 § 35 Comentários

Todo santo dia ha pelo menos 40 anos ininterruptos os jornais de todo o mundo dão três ou quatro notícias como estas do Valor de ontem. Isso nas primeiras páginas, onde só vão estampadas as maiores “deglutições” do dia…

Estas de hoje mostram que só sobram no mundo, por enquanto, três grandes varejistas de comida e o mais que cada um de nós tem de consumir todo dia para manter o corpo e a casa vivos: Couche-Tard, Walmart e Amazon, a mesma que tem também o virtual monopólio planetário de vendas de tudo (excluída a China), da prestação de serviços, da sustentação de sites e redes de internet (cloud computing), etc., etc., etc. e etc., e, portanto, força até para cassar a palavra ao presidente eleito dos Estados Unidos da América na hora que bem entender. 

Logo, logo, se Jeff Bezos continuar autorizado a violar todas as leis que viola todos os dias pelo mundo afora só porque tem dinheiro demais, a Amazon vai ficar sozinha também neste setor. Para nós já não fará diferença. Juntas, diz a noticia, Couche-Tard e Carrefour, a que está neste momento em vias de desaparecimento, terão um faturamento anual de US$ 152 bilhões em suas 30 mil lojas com seus 450 mil empregados. E ela ainda será a menor das três que vão sobrar. Mas com quatro ou com três redes de supermercados em todo o mundo, tanto os preços que todas nos cobram quanto os salários que todas pagam a essa multidão que, se for posta pra fora de uma só poderá bater na porta das outras duas por um emprego, são sempre combinados e caminham, os preços invariavelmente para cima e os salários invariavelmente para baixo … ha 40 anos sem parar.

Não é por acaso, portanto, que há tanto ódio no mundo, especialmente nos Estados Unidos, o único país que nos últimos quase 500 anos ininterruptos só tinha tido a experiência de andar para a frente.

Telefonia, gás (as outras vítimas do dia da 1a página do Valor), tudo é assim. O setor de supermercados tem sorte pois lida com bens perecíveis impossíveis de padronizar completamente como os bens industriais. Na industria esse mesmo processo de come-come que termina invariavelmente comendo os salários e a liberdade de todos nós, já chegou praticamente ao fim porque na outra ponta está sempre o equivalente chinês, produzido por um gigante único pertencente ao Estado (embora com algum amigo do rei à frente) e, portanto, em condições de pagar salários de fome impunemente aos seus “empregados” e de aguentar prejuízos indefinidamente até quebrar qualquer competidor, esteja ele onde estiver no mundo.

O socialismo é, enfim, a monarquia sob nova direção de marketing. Um sistema onde tudo pertence à mesma pessoa, que coopta uma corte de barões subornando-os com privilégios e governando com mão de ferro em função do seu poder de decretar quem vai ou não vai ter emprego, autorização para comprar em suas lojas, canal para falar em sua praça; quem vive ou quem morre física ou economicamente, enfim.

Os americanos do norte foram a única parcela da humanidade que teve a experiência de viver desde sempre fora dessa lógica perversa. Graças à sabedoria do povo inglês de manter seus reis sempre pobres, a colonização da América, que lhes caiu inadvertidamente nas mãos depois do afundamento da monarquia terrorista de Fernando e Isabela no Canal da Mancha, acabou sendo entregue a empresas privadas, o que deu uma chance à “lei de mercado” de sair da prisão. 

Pela primeira vez na história da humanidade tornou-se possível a alguém que não fosse nem o rei, nem um escolhido do rei, possuir terra. A Virginia Company e a Plymouth Company, duas das empresas colonizadoras a quem James I entregou permissões para colonizar a América, elas também sem dinheiro para fazê-lo, inventaram o “headright system” pelo qual qualquer pessoa que se dispusesse a cruzar o Atlântico e enfrentar aquele “planeta novo” tinha direito à propriedade de 50 acres de terra para ganhar o seu próprio sustento. 

E fez-se um país de proprietários…

Isso, mais a necessidade dessas pessoas de combinar entre elas, de comum acordo, como fariam para dividir tarefas e organizar sua sobrevivência naquelas lonjuras, deu em democracia. 

Mas assim que a caminhada começou a propriedade se foi acumulando de novo em menos mãos. Por mais que as leis da democracia tivessem forçado o divórcio do poder político com o poder econômico, obrigando um a controlar o outro, e coibissem a acumulação de qualquer poder e qualquer dinheiro que não fosse resultado de esforço individual ou de delegação expressa e direta do povo, as pessoas são diferentes umas das outras e a corrupção é inextinguível. A cada grande disrrupção do curso normal do processo lá se atiravam de novo o poder político e o poder econômico uns nos braços do outro proporcionando saltos olímpicos na concentração da riqueza. 

Na ruptura decorrente da “ferroviarização” da economia num território continental, a mais violenta até o advento da internet, a concentração chegou a extremos que quase levaram a democracia americana à breca. A situação foi salva pela reorientação antitruste que Theodore Roosevelt imprimiu a ela, impedindo por lei que, mesmo por competência, qualquer empresa ocupasse mais de 30% de cada mercado, ficando o empresário que o conseguisse obrigado a vender o excedente a outro empresário.

A artimanha de conter o poder econômico sem inflar o poder político, garantida pelo novo arsenal de afirmação dos poderes dos indivíduos que Theodore Roosevelt serviu ao povo junto com o ferramental antitruste (eleições primárias, recall, referendo, iniciativa), deu ao povo americano condições de manter os dois sob controle e a seu serviço, outro feito inédito na história da humanidade, o que pôs os Estados Unidos fora do banho de sangue planetário das “revoluções socialistas” do século 20 que não foram outra coisa senão espasmos de desespero da miséria em seu beco sem saída, e fez a humanidade dar o maior salto em afluência material e domínio da ciência de toda a sua trajetória neste planeta.

Com a eliminação das fronteiras nacionais do mercado pela internet o ataque à única democracia “raiz” que já houve veio pelas costas. Nada de tomar o sistema político, agora nas mãos do povo que não abrirá mão dele jamais, para depois instalar o proprietário único de todas as coisas. Apenas suspender a proteção armada por Theodore Roosevelt e permitir que os barões, associados à corrupção política e empurrados pela China, tomassem tudo abaixo deles, primeiro, e se entredevorassem depois. 

Com a força assim acumulada por eles, vai-se esboçando, com os autos-de-fé e as execuções virtuais na internet, a mais nova versão do modo das majestades de lidar com as ambições concorrentes desde o machado, à Henrique VIII, os venenos radioativos, à Vladimir Putin, ou o tiro na nuca “por corrupção”, à Xi Jimping. 

Se não houver logo uma reedição modernizada dos remédios de Ted Roosevelt, a humanidade corre o sério risco de mergulhar em mais uma sucessão de milênios de escuridão informatizada, a menos que descubra outro planeta habitável e virgem para fugir de si mesma antes disso.

Para domesticar a internet

10 de dezembro de 2020 § 9 Comentários

Num artigo bem pé-no-chão publicado em O Estado de S. Paulo de segunda-feira, 7 (“As três internets”), Moises Naim resumiu bem o ponto a que as coisas chegaram. A internet nem mais é global nem é aberta. Também já não é descentralizada nem é gratuita. Mais de 40% da população mundial vive em países onde o acesso, mesmo a uma internet fortemente censurada, é radicalmente controlado pelo ditador de plantão e dado em troca do controle de cada pensamento e cada passo do usuário. E onde ela continua “aberta”, pagamos pelo que vemos entregando a comerciantes todos os passos e segredos de nossas vidas, comerciantes estes que, com violência cada vez mais explícita, trabalham para transformar a posse dessas informações, bem como o acesso ao mercado “global” informatizado que as usará para nos oferecer bens e serviços com “target”, em monopólios cada vez mais estritos. 

Em outras palavras, o sonho acabou (mais um!), até para os ingênuos que em algum momento acreditaram que ele tivesse começado um dia…

Naim falava então no surgimento de três internets. A chinesa, fechada, censurada, protecionista e com “ciberfronteiras” muito claramente delimitadas onde só entram “aliados” como a Coreia do Norte, cujo protagonista central é a ditadura do partido único e seu sistema de controle dos cidadãos, e que se impõe na competição planetária por deter um bilhão de usuários. A americana, anárquica, inovadora, comercial e com altas tendências monopolistas, cujos protagonistas centrais são as grandes empresas de tecnologia e que se impõe pelo seu acesso a enormes volumes de capital, talento tecnológico e capacidade de inovar. A européia, a mais regulada e “preocupada em defender os usuários”, o que trata de fazer com um enfoque jurídico, definindo parâmetros, exportando regras e impondo multas bilionárias.

Postas em termos mais rudes, reproduções matemáticas da realidade que são, as três internets descritas por Naim resumem o que são as culturas que traduzem. A do “despotismo oriental” da chinesa, que decorre naturalmente do “modo de produção asiático” de servidão coletiva; a do “todo poder ao povo” sem nenhum controle da americana; a do “todo poder para o Estado” da européia. A grande “vantagem competitiva” da chinesa é que não tem nenhum compromisso com a lei. A da americana, se a história se repetir, é a da ausência de compromisso com o erro que só se torna possível em sistema mais centralizados e só faz sentido como recurso de defesa de privilégios. A da européia, a suscetibilidade à perpetuação daquela forma de “erro” que, na verdade, traduz “acertos” da privilegiatura que só são possíveis quando a iniciativa das ações de defesa está nas mãos do Estado – e portanto pode ser comprada – e não difundidas nas mãos do povo.

A tendência para o monopólio da competição sem limite traz como sub-produto a facilitação do controle da circulação de ideias e a instrumentalização política pela supressão da diversidade de plataformas. Não é atoa que a grande aliada das big techs (e vice-versa) é, hoje, a esquerda americana. A revolução antitruste que reorientou a democracia deles a partir da virada do século 19 para o 20 encontrou a melhor solução para esse problema ao tomar o cuidado de armar a ganância para se contrapor à ganância, obrigando empresários que conquistassem mais que uma determinada faixa de mercado (tipicamente 30%) a vender parte do seu negócio a outros empresários, forçando a concorrência em benefício do consumidor (e a diversidade sem a qual a democracia não sobrevive), em vez de tratar de limitar a força do poder econômico aumentando a força do poder do Estado (que sempre pode ser facilmente comprada pelo poder econômico).

Existem, no entanto, fortes limitações técnicas para transpor a solução do século 20 para a realidade do século 21. Dificuldades estas que foram muito competentemente delineadas no artigo “Esforço comum para domar big techs” que Rana Faroohar escreveu para o Financial Times, o Valor de terça-feira, 8, traduziu e você pode conferir ampliando a imagem abaixo. Nele Faroohar aponta outra distinção mais importante das internets – a das pessoas e a das coisas; a do consumidor e a industrial e põe ainda no horizonte o desafio da inteligência artificial – que terão de ser tratadas no enorme trabalho de regulamentação que a humanidade tem pela frente se quiser evitar de ser devorada pelo “Grande Irmão”. 

Como não poderia deixar de ser nessa realidade em que cada internet traduz a cultura de que é fruto, neste Brasil Oficial campeão mundial do xadrez da mentira a regulamentação que “O Sistema” auto-referente e preocupado exclusivamente com a sua própria perpetuação ensaia é a mentira da mentira da mentira: o controle das chamadas “fake news” como pretexto para a censura de qualquer manifestação política que fira os interesses da privilegiatura ou possa afetar as eleições, hoje cercadas por uma minuciosa barreira de censura à imprensa que varia conforme as limitações de penetração de cada meio num eleitorado funcionalmente analfabeto majoritário, mas que é inflexível na qualificação de “antidemocrática” de toda ação adversa à privilegiatura punível até com prisão no esdrúxulo “estado de direitos especiais” que a Constituição de 88 criou e “petreamente” mantém, sob o aplauso da old mídia.

Para esse departamento, o resto do mundo já entendeu que o único remédio que não deságua na censura que mata a democracia é o de sempre: deixar que os cidadãos “elejam” diariamente, pagando pelo serviço, as fontes de informação que se propuserem trabalha-la segundo regras de todos conhecidas, e ignorar o resto como boataria da praça pública a que todo mundo desde sempre também tem direito.

O curioso caso dos Estados Unidos

25 de agosto de 2020 § 16 Comentários

A concentração desenfreada da riqueza já quase acabou com a democracia americana uma vez. Por definição, é para um único vencedor final que empurra a “competição”, o outro nome da guerra de todos contra todos que define a condição natural do bicho homem, a menos que a civilização – essa frágil construção que procura nos afastar da lei da selva – anteponha um limite artificial a ela. É nessa brecha estreita que se insere toda a História da Civilização. E dentro dela, a da democracia americana que, ao contrário da “narrativa” prevalecente, é a única, historicamente, que conseguiu domar a competição sem matar a produção e a inovação ao longo da maior parte do século 20. 

O mundo está cheio de exemplos em que o poder político consegue matar a competição tomando para si todo o poder econômico. Mas essa fórmula (a socialista) mata o progresso junto com a liberdade. Exemplo de “doma” – isto é, de por a fera da ganância a serviço do progresso com liberdade e justiça social – só existe um. O truque genial foi não tratar de desconcentrar o poder econômico concentrando ainda mais o poder político, mas obrigando os empresários que conquistassem mais de 30% de cada mercado a dividir sua operação com outros empresários que teriam de concorrer entre si em benefício do consumidor. 

Sim, a essência da revolução americana – também conhecida como democracia – é a desconcentração do poder político. Não ha como desmerecer a obra da melhor geração da humanidade, a nata do Iluminismo que emigrou para aquele novo planeta habitável. Mas instalar o sistema de “governo do governo” que eles criaram só se tornou possível porque a desconcentração do poder econômico veio antes. 

O curioso caso dos Estados Unidos faz lembrar o curioso caso de Benjamin Button daquele filme. A história do país é que começa invertida. Eles já nascem como todos nós sonhamos terminar um dia. Um país de pequenos proprietários. Importavam colonos contra a entrega, a cada um, de 50 acres (20 hectares) de terra (o headright system) num mundo onde nunca existira a possibilidade de quem nascia sem, vir a possuir terra. O padrão era o Brasil, distribuído inteiro, em fatias, a 12 amigos do rei que ficavam encarregados de manter a multidão dos servos, servos para todo o sempre.

O erro dos “Pais Fundadores”, sozinhos num mundo cercado de monarquias por todos os lados, foi blindar, enquanto durassem, os mandatos dos representantes eleitos pelo povo para governar o governo. A competição civilizada não sobreviveu à impunidade garantida aos fiscais da regra do jogo. Dos políticos desonestos ela foi logo estendida aos empresários desonestos, cada um no seu campo tratando de matar seus concorrentes honestos, uns fazendo regras tortas para os outros ganharem muito dinheiro e os outros usando esse dinheiro para reeleger seus benfeitores. 

Lembra algo?

A quebra do “padrão tecnológico” imposto pelo advento das ferrovias que, nos meados do 19, abriram um mundo novo de riquezas imensas ao qual só se podia chegar ou sair por meio delas, associado à corrupção política, tornou furioso o processo de acumulação da riqueza de todos nas mãos de uns poucos pelo expediente da expulsão dos competidores do mercado.

Na virada para o 20 deu-se a segunda revolução americana, ainda mais radicalmente transformadora que a primeira. Se o povo não podia mais escolher, nem seu patrão, nem seus fornecedores – era o que dizia a realidade – de nada valiam os poderes formais atribuídos a ele pela constituição. E como tudo começava na impunidade dos políticos, a resposta foi fragilizar-lhes os mandatos. Recall a qualquer momento e direito de propor e recusar leis por referendo foi a arma brandindo a qual foram impostos os novos limites à concorrência em favor do consumidor e, por tabela, do trabalhador, os outros nomes de sua majestade o povo. 

No ocaso do século 20 a força disrruptiva da informática jogou tudo novamente por terra. A anulação das fronteiras nacionais tornou os Estados Unidos vulneráveis, ao mesmo tempo, ao roubo de tecnologia e design e seu mercado aberto aos produtos desse roubo sistemático executado por mão de obra quase escrava. Os donos de apenas quatro das “ferrovias da informação” pelas quais tudo na economia de hoje tem de passar são maiores que a economia da Alemanha, a quarta do mundo. A Apple sozinha vale mais que o PIB do Brasil. E, como todo mundo que já teve algum poder, estes, que têm demais, usam e abusam dele. Já não era sem tempo que o congresso americano, num movimento suprapartidário, tenha dado o primeiro tímido passo para lembrar-los de sua revolucionária história antitruste. 

A falta de ação nos últimos 40 anos de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas em meio ao pânico despertado pela competição predatória dos monopólios do capitalismo de estado chinês precipitou a corrida do “Benjamin Button” americano de volta à infância da humanidade. Cada vez menos consegue-se vencer pelo trabalho na antiga Terra da Oportunidade. Monopólios só convivem com monarquias como são os sistemas de partido único. Não é a ocupação gramsciana da imprensa e dos outros meios de difusão do pensamento dos Estados Unidos que estão empurrando a juventude americana para a tentação socialista. Essa “vanguarda”, como todas, só está correndo atras do “achinezamento” do seu mercado de trabalho.

Sim, os bárbaros são bárbaros. Mas eles só invadem os impérios que estão caindo de podres. Não será, porém, com as bravatas eleitoreiras de Donald Trump que se vencerá esse inimigo. O remédio para as chinas da vida é o mesmo do desmatamento da Amazônia. Tem de haver um imposto contra produtos que contenham insuficiência de direitos do trabalho e roubo de design e de pesquisa e desenvolvimento. Forçar a ocidentalização do mercado de trabalho chinês é a única alternativa realista ao “achinezamento” do mercado de trabalho ocidental. E já pode até ser tarde demais…

Conversa sobre monopólios

10 de abril de 2015 § 3 Comentários

mon1

honorio sergio

10 de abril de 2015 às 12:33

O problema da Friboi é que querem acabar com os açougues tradicionais, aqueles de vizinhança em que o açougueiro corta e pesa na frente do freguês. Agora a carne vem processada e embalada, e é muito cara, pelo menos aqui na minha cidade. Talvez seja para pagar os altos salários dos estrelões que aparecem nos comerciais para melhorar a imagem da empresa. Ora bolas JBS, venda mais em conta, não é o Tony Ramos ou RC que vai fazer com que eu compre sua carne. Aliás a cara de nojo do Roberto Carlos ao ver o bife no prato é impagável!

mon9

Resposta

flm

10 de abril de 2015 às 13:17

Antigamente, Honório, o que diferenciava os governos democráticos dos outros era que eles desmontavam monopólios enquanto os de esquerda montavam monopólios. O exato contrário do que repete a propaganda até hoje. O período que vai da primeira lei antitruste nos EUA (Sherman Act de 1890) até o final dos anos 70 do século 20 foi o ápice da democracia no mundo.

Com os monopólios chineses entrando de sola no mercado globalizado e forçando a febre mundial das fusões e aquisições (“Cresça ou desapareça!”), tudo isso se perdeu e até os americanos foram arrastados pra essa arena. Hoje mesmo o Valor traz matéria do Wall Street Journal com alguma consultoria prevendo que este ano haverá novo recorde de fusões e aquisições que devem envolver US$ 3,7 trilhões!! É o maior número desde o fatídico ano de 2007 que antecedeu o último estouro planetário.

mon2

É daí que vem a inspiração para o esquema Lula/Luciano Coutinho/BNDES, acrescentado da proverbial roubalheira que corre no paralelo dessa montagem: um monopólio em cada setor e o povo que se f…

Essa praga, além da concentração da riqueza que pode matar o capitalismo democrático, está quebrando o nexo que havia entre enriquecimento e produção. Agora quem mais enriquece são os intermediários dessas fusões e aquisições, aquelas figurinhas carimbadas do mercado financeiro que não produzem nem constroem nada, gastam do mesmo jeito que ganham e disseminam uma espécie de anti-ética do trabalho.

Não vai acabar nada bem!

mon6

Onde estou?

Você está navegando em publicações marcadas com monopolio em VESPEIRO.

%d blogueiros gostam disto: