Vade retro novidade!

5 de dezembro de 2017 § 12 Comentários

Deus nos livre dela!

A “novidade” em materia de politica e administração pública resulta no que o Brasil se tornou. A revolução, a salvação da pátria está em faze-la visitar, pela primeira vez na vida, o velho, o certo, o sabido, o testado, o consagrado. A boa e velha democracia de que nós nunca sentimos nem o cheiro, por exemplo.

A colonização apoiada exclusivamente no “latifúndio escravocrata exportador”, a definição em cima da qual se estruturou tudo que se pensou sobre o país no ultimo século, é uma redução grosseira e distorcida de uma realidade muito mais rica, complexa e matizada, que tem origem num movimento reacionário deliberadamente arquitetado para nos colocar à margem do curso geral da História no exato momento em que “o sonho” começou a desmoronar lá atras.

Comprada e cristalizada pelo marxismo de almanaque dos intelectuais século 20 que ainda controlam nossas escolas foi imposta a varias gerações de brasileiros como uma “verdade” intocável. Banido da narrativa oficial, o Brasil real, que construiu-se a si mesmo escondido do estado passou quase cem anos tomando remédios pesados para uma doença que nunca teve. Foi uma criança normal tratada como excepcional. E acabou por convencer-se tão profundamente de sua excepcionalidade; por acreditar tão completamente que tudo que serve e funciona para todos os outros povos do mundo não serve nem funciona para “o povinho que deus pôs neste paraíso” que agora, mesmo batendo de frente no muro onde termina o beco sem saida em que isso nos meteu, não consegue produzir um unico candidato com um discurso consistente de mudança.

É uma contradição chocante dada a condição de overdose de Brasilia em que vamos. O Brasil não pode nem sentir-lhe o cheiro. Mas o sistema de comunicação da sociedade deixou de funcionar. O privilegio tornou Brasília surda. O Brasil oficial é um território de mortos-vivos orbitando em torno do estado faz-tudo em decomposição; uma ressurgência jurássica do que houve de pior no século 20. Só a força, sem o sonho, sustenta aquilo. Não ha qualquer argumento ou utopia. Navega-se para o desastre certo à força de votações contrarrepresentativas e liminares capengas. Morde ainda quem consegue antes que lhe caiam os dentes podres.

Mas aqui fora a conversa também só flui dentro de compartimentos estanques. É crença contra crença, sem lugar para a informação. Estamos perdidos numa absoluta ausência de referências de sucesso porque nossas escolas só estudam aquilo que fracassou. A verdade está ha tanto tempo interditada nelas que o Brasil dos sobreviventes, o da classe média meritocrática com sua obra e sua autoestima reduzidas a pó, também não consegue focar no futuro. Formados na censura, os que se querem engajados “na mudança” aqui fora também estão voltados para o passado. Para as culpas das pessoas que o sistema fabricou e não para as culpas do próprio sistema. Querem muda-lo de mãos com os instrumentos da polícia e não mudar-lhe o sentido com os instrumentos da política. Cada brasileiro, individualmente, põe-se fora da realidade que critica e balbucia chavões sobre uma “ética” que não pratica. O país inteiro fala vagamente de “mudanças” mas não sabe definir quais nem exatamente para que. E essa falta geral de repertório nos empurra para mais do mesmo ou para o arbítrio com sinal invertido pois, se tudo está certo com o sistema, só podem ser as pessoas que o operam neste momento que estão erradas.

“Comigo vai funcionar”!

“Concursismo” e revolução são, os dois, instrumentos de minorias. O Brasil que as sustenta permanece excluído. A História oferece mais alternativas do que isso. Só a tomada do poder pela força irresistivel da maioria, de que tivemos um ensaio absolutamente convincente no curto período em que a maré das manifestações de rua esteve montante, pode fechar para sempre as portas do privilégio.

Mas sem ilusões, por favor!

Também nesse departamento é o meio que é a mensagem. Não existe outra humanidade. É o interesse que nos move. A resposta está, portanto, em armar a mão da maioria para que ela, em lugar da minoria, sujeite “o sistema” ao seu interesse, mas tomando o cuidado de fragmentar esse poder de tal forma que essa sujeição não se transforme em outra tirania.

Democracia, enfim…

O voto distrital puro com recall, referendo e leis de inciativa popular num contexto realmente federalista é o estado mais avançado a que a elevou a sofridíssima epopéia da humanidade para criar um poder capaz de cercear O Poder sem se transformar no veneno para o qual pretendia ser o antídoto. Essas ferramentas, usadas em conjunto, dão plenos poderes a sua majestade o eleitor, o outro nome da maioria, no pedacinho do pais onde ele mora – o bairro, o distrito – e permitem que ele os exerça de forma prática, legitima e pouco traumática para o conjunto da nação e para as outras liberdades essenciais. Uma vez conquistado ele não apenas põe o país imediatamente sob nova direção como torna essa mudança irreversivel. Ao colocar o povo em condições de mandar e os políticos e funcionários públicos na obrigação de obedecer para sobreviver, essa reforma abre as portas a todas as outras, e as mantém para sempre escancaradas como é adequado que elas permaneçam para bem servir a uma espécie que só aprende com o erro numa realidade hiper cambiante.

Não é preciso inventar nada. Esta tudo ao alcance da mão. Basta uma pontinha de humildade asiática para ter. Esse consagrado “aplicativo” de arrumar países vem com o mais infalivel dos “tutoriais” de uso. Instalado primeiro na instância municipal, oferece a sociedades inteiramente jejunas a oportunidade de aprender passo a passo a praticar democracia e ir se ajustando a ela na exata velocidade que sentir que aguenta. É o primeiro conjunto que efetivamente funciona exatamente porque é o primeiro que tem a humildade de imitar a vida em vez de pretender reinventa-la.

 

 

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§ 12 Respostas para Vade retro novidade!

  • luizleitao disse:

    Fernão, muito bem! É assim, aos poucos, mas com constância, que suas lúcidas ideias sobre democracia de fato, na figura do voto distrital puro, vão se disseminando e sendo compreendidas.

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  • luizleitao disse:

    Republicou isso em Luiz Leitão Estúdio de Textose comentado:
    O verdadeiro conceito de democracia

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  • Carmen Leibovici disse:

    De fato,fora disso- voto distrital puro com recall, referendo e leis de inciativa popular(entre outras eventuais ferramentas)-,o que existe é ditadura.No Brasil ou fora dele.
    Ditadura das polícias,ditadura dos juízes,ditadura dos sindicatos,ditadura de qq um,ou grupo, que tenha poder.

    Poder é algo que só “ungidos” deveriam ter,e como ungidos são virtualmente ninguém,ninguém deveria ter poder,ou tê-lo absolutamente limitado por instrumentos como os que você cita.
    Isso é uma verdade.

    Poder corrompe,destrói,humilha,atrasa…

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  • Massoud Murad Netto disse:

    FERNÂO, o voto distrital, que eu denomino VOTO REGIONAL PURO, é o futuro, é a solução para o BEM ESTAR SOCIAL, para cada urna todos os eleitores são dos mesmos CEP, se unidos formam a PEQUENA REGIÃO (PR), de preferência com 10.000 eleitores, juntando 1 ou mais dos atuais municípios.Juntando 100 PR obteríamos a MÉDIA REGIÃO (MR) com 1 milhão de eleitores, seriam eleitos seus legisladores. Se agregarmos 20 MR, obteremos a GRANDE REGIÃO com 20 milhões de eleitores, substituindo os atuais Estados Federativos. Vantagens, nas PR seriam eleitos voluntários a partir da urna eleitoral local. Estes voluntários teriam as atribuições de monitorar todos os atos e fatos administrativos e mais, exigir assistências aos mais necessitados. cada voluntário teria acesso a sua rede social local, que dariam noticias relevantes aos seus eleitores. Os “RECALL” seriam por intermédio destas redes, atuando diretamente aos legisladores das suas PR e das suas MR. Se uma região fosse escolhida pela iniciativa privada, talvez a favela Paraisópolis, na região do Morumbi, São Paulo – SP, custeado este experimento com recursos particulares, este experimento se bem sucedido, poderia ser replicado a dezenas de outras regiões deste Brasil.
    este modelo seria do VOTO REGIONAL PURO que seria inserido na nova CONSTITUIÇÃO. Cada constituinte tomariam como exemplo estes experimentos que foram iniciados na Favela Paraisópolis.

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  • Olavo Leal disse:

    Caro Massoud: toda ideia nova merece ser estudada (o que é? como funciona?), analisada (quais os prós e contras?) e, por fim, examinada (merece ou não ser implementada?). Parabéns pela sua proposta.

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    • Massoud Murad Netto disse:

      Caro Olavo
      agradeço, gostaria de enviar e-mail, transmitindo minhas ideias, e como funcionaria, os prós e os contras.
      Ressalto que seria desenvolvido um módulo extra oficial em uma comunidade, custeado por entidades não governamentais.
      Portanto se eu tiver meios de me comunicar com sua pessoa, acredito que minha ideia se transformaria em um embrião que viabilizaria o VOTO REGIONAL PURO com base para consulta REFERENDUM, para uma nova constituição.

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      • Olavo Leal disse:

        Achei interessantes suas ideias acima expostas. Seria interessante você expô-las neste espaço, naquilo que couber como comentário(s) ao tema apresentado pelo FLM. Sou federalista e me comprometo a dialogar com você, no que couber referente ao assunto.

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  • Olavo Leal disse:

    Muito bem explicado, Fernão. Como sempre.
    Os dois últimos parágrafos, então, são um primor, com ideias fáceis de serem assimiladas e digeridas. São um verdadeiro resumo de tudo o que precisamos para “resolver” este País!!!

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  • José Silvério Vasconcelos Miranda disse:

    Fernão,
    fica difícil encontrar lucidez nos hospícios de Barbacena. Sem gozaçao:
    nos aponte um candidato que pense como você ou mais ainda, lance a
    sua candidatura.

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  • faria13José disse:

    Bem disse JSVM – nos aponte um candidato que pense como você ou mais ainda, lance sua candidatura.

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  • Olavo Leal disse:

    Compreendo a posição dos dois comentaristas acima, algo pessimista.
    Mas, considero que, mesmo sabendo que o navio (Brasil) não está sendo bem conduzido, precisamos todos saber exatamente para onde é o norte e, em consequência, para onde devemos dirigir sua proa.

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