Um brasileiro para se admirar

27 de setembro de 2012 § 2 Comentários

Ferreira Gullar é daqueles raros seres humanos que fazem a gente acreditar na viabilidade da espécie.

Aos 82 anos, é o sobrevivente da travessia de oceanos especialmente revoltos e desertos incomumente ásperos. Varou a ambos absolutamente íntegro, sublimando em poemas o que é impossível compreender e encarando com a coragem tranquila dos fundamentalmente honestos as peças e armadilhas que o tempo prega em todos quantos o senso de justiça e a generosidade empurram para fora de si mesmos, em busca de respostas.

Deu uma entrevista à Veja desta semana em que, mais uma vez, mostra o quanto é grande.

De sua desilusão com a utopia comunista, diz que foi “uma questão de experiência de vida“.

O capitalismo é forte porque é instintivo. Não é uma teoria. Nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível (…) O capitalismo é uma fatalidade (grifo meu). Ele produz desigualdade e exploração. Mas a natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético e o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. (…) A capacidade criativa do capitalismo é fundamental (…) para a solução da desigualdade porque só a produção de riqueza resolve isso. A função do Estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar“.

Alguém já disse que a democracia é o governo dos desiludidos.

Não no sentido de cansados, de desistidos da vida, mas nesse sentido gullartiano, galhardo, de experientes da vida que insistem no senso de justiça, este também um dado concreto da nossa especial condição na ordem natural das coisas.

O governo dos que têm a coragem de encarar a vida como ela é sem colocar-se fora dela e aceitar o desafio de disciplinar-se para honrar, pela vertente de um altruísmo ainda que compulsório, o privilégio que temos de ser o único animal da natureza que abriga, ao lado do instinto de sobrevivência, o senso moral, e é capaz de mudar o seu próprio destino.

Se os homens fossem anjos“, argumentava James Madison no 51º dos Federalist Papers, ao sugerir a sua clássica fórmula que deu ao mundo o caminho para a solução prática desse desafio, “não seria necessário haver governos. E se os homens fossem governados por anjos, seria dispensável qualquer instrumento de controle interno ou externo desse governo.

Mas se estamos pensando em desenhar um governo para ser exercido por homens que terão autoridade sobre outros homens, a grande dificuldade está no seguinte: você terá de dar ao governo os meios de controlar os governados e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo“.

A fórmula do petismo, emulada do capitalismo de estado chinês, que tanto atrai os brasileiros com pouca experiência de vida com a miragem do enriquecimento rápido, vai na direção contrária. Associa o poder político ao poder econômico, derruba todas as barreiras erguidas para deter a natural propensão do capitalismo para a exploração e não cria riqueza, apenas a ilusão passageira dela.

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§ 2 Respostas para Um brasileiro para se admirar

  • Varlice disse:

    Recebi de uma amiga a poesia abaixo como agradecimento ao repassar o seu texto para minha lista.
    Repito o gesto e envio-a a você agradecida.

    METADE
    in Ferreira Gullar

    Que a força do medo que eu tenho,
    não me impeça de ver o que anseio.
    Que a morte de tudo o que acredito
    não me tape os ouvidos e a boca.
    Porque metade de mim é o que eu grito,
    mas a outra metade é silêncio…
    Que a música que eu ouço ao longe,
    seja linda, ainda que triste…
    Que a mulher que eu amo
    seja para sempre amada
    mesmo que distante.
    Porque metade de mim é partida,
    mas a outra metade é saudade.
    Que as palavras que eu falo
    não sejam ouvidas como prece
    e nem repetidas com fervor,
    apenas respeitadas,
    como a única coisa que resta
    a um homem inundado de sentimentos.
    Porque metade de mim é o que ouço,
    mas a outra metade é o que calo.
    Que essa minha vontade de ir embora
    se transforme na calma e na paz
    que eu mereço.
    E que essa tensão
    que me corrói por dentro
    seja um dia recompensada.
    Porque metade de mim é o que eu penso,
    mas a outra metade é um vulcão.
    Que o medo da solidão se afaste
    e que o convívio comigo mesmo
    se torne ao menos suportável.
    Que o espelho reflita em meu rosto,
    um doce sorriso,
    que me lembro ter dado na infância.
    Porque metade de mim
    é a lembrança do que fui,
    a outra metade eu não sei.
    Que não seja preciso
    mais do que uma simples alegria
    para me fazer aquietar o espírito.
    E que o teu silêncio
    me fale cada vez mais.
    Porque metade de mim
    é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
    Que a arte nos aponte uma resposta,
    mesmo que ela não saiba.
    E que ninguém a tente complicar
    porque é preciso simplicidade
    para fazê-la florescer.
    Porque metade de mim é platéia
    e a outra metade é canção.
    E que a minha loucura seja perdoada.
    Porque metade de mim é amor,
    e a outra metade…
    também…

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