O que há com os EUA

6 de junho de 2016 § 28 Comentários

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Artigo para O Estado de S. Paulo de 6/6/2016 

A “ética protestante” levou a fama mas o mais revolucionário dos “excepcionalismos americanos” foi ter o país nascido como a única nação de proprietários que jamais houve.

Enquanto o Brasil, como o resto do “Novo Mundo”, teve seu vasto território dividido entre 13 bons amigos do rei, a Virginia Company of London e demais empresas privadas a quem o descapitalizado James I, de Inglaterra, contratou a colonização da “sua” América oferecia, desde 1618, um título de propriedade de 50 acres de terra (20 ha) a qualquer um que se dispusesse a estabelecer-se nela.

A abertura de uma janela como o “headright system” no mundo brutal da Europa medieval onde a única certeza era morrer exatamente dentro da mesma condição social – de proprietário ou não – em que se tivesse nascido foi um milagre sem precedente nem sucessor na história da humanidade.

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O que ensejou a construção de uma ordem política baseada no livre consentimento, no direito de propriedade e na igualdade perante a lei no nascimento dos EUA é que essa era a condição que realmente existia na maior parte daquele canto do planeta àquela altura. O objetivo das instituições erguidas em torno desse milagre histórico pela elite do Iluminismo, mais do que produzi-lo, foi blinda-lo contra a volta ao padrão anterior pelo impulso natural do bicho homem de “crescer” sobre seus vizinhos, e preservar a liberdade que lhes permitiu entregar-se a esse desafio.

A solução encontrada foi colocar o esforço e o merecimento no lugar antes ocupado pelo “direito divino” como unico meio de legitimação da acumulação de poder ou de dinheiro, ou seja, de legitimação da desigualdade, o que já foi muito mas não foi o bastante. Mesmo sob o domínio do mérito a propriedade, aos poucos, se foi concentrando até que, na virada do século 19 para o 20, as reformas da “Progressive Era” – legislação antitruste e dispositivos como recall de políticos e funcionários, direito de iniciativa e referendo das leis baixadas pelos representantes para deter a corrupção e submeter os políticos à vontade dos seus representados – chegaram para prolongar o milagre pondo o poder político e o poder econômico em campos opostos e condicionando o direito de acumulação de propriedade mesmo pelo merecimento à preservação da concorrência em benefício do consumidor.

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A diferença fundamental entre a democracia americana e as outras que, pelo mundo afora, eventuamente evoluíram em direção a sistemas meritocráticos é que para estas trata-se de forçar a superação da própria experiência histórica para deixar de ser o que culturalmente seguem sendo, enquanto para aquela o problema é evitar transformar-se no que nunca foi e jurou jamais vir a ser no seu ato de fundação. A ausência de “pecado original” no ponto de partida tirou os EUA do caldeirão do ódio à propriedade e à prosperidade que o resto do mundo acostumou-se a identificar com o privilégio, desvio que, na volta do pêndulo, se traduziria nas revoluções comunistas que ensanguentaram o século 20.

O resultado foi o mais espetacular salto na combinação de liberdade com prosperidade jamais vivido por qualquer sociedade humana até que a derrubada das fronteiras nacionais pela internet, a partir do início da década de 80, viesse interrompe-lo.

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Na nova realidade “vaso-comunicante” de mercados de bens e trabalho exportáveis e absoluta impossibilidade de fazer valer legislações nacionais que os controlem num contexto globalizado, o modelo americano de prevalência dos direitos individuais sobre as “razões de Estado” e a lógica dos trustes vem sendo implacavelmente diluido na competição com os monopólios dos capitalismos de estado que sucederam o socialismo real nos quais multidões reduzidas à miséria trabalham por qualquer salário e “empresas” e tesouros nacionais sustentam juntos o dumping contra seus competidores do mundo democrático.

Desde então, quase 40 anos de recordes sucessivos de fusões e aquisições de empresas numa busca frenética de ganhos de escala e “produtividade” para fazer frente aos preços praticados pelas chinas da vida obtidos à custa do aviltamento dos salários e das condições de trabalho e da crescente interferência do estado na economia com a correspondente corrupção, tudo mal compensado por uma revolução tecnológica ancorada na informática onde os direitos de propriedade intelectual são indefensáveis, vêm expulsando os EUA do modelo de sociedade que eles tiveram o privilégio de escolher para si mesmos na entrada do século 20 e desfrutar por quase 80 anos.

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O unico beneficiário do processo tem sido o setor financeiro que fatura obscenamente com a reestruturação da desgraça continuada de quem vive da produção e do trabalho. Cresceu de 8% para 48% da economia dos EUA no período.

Os populismos, “brucutu” de Donald Trump e “papai noel” de Bernie Sanders, assim como as relações perigosas de Hillary Clinton tanto com quem se sente ameaçado por ambos quanto com os tubarões de Wall Street, e mais o jargão ideológico “retrô” da imprensa local, são retratos da perplexidade de quem pôde se dar o luxo de viver até aqui numa verdadeira meritocracia, longe da desesperança de vencer pelo próprio esforço que deságua no rancor e na luta de classes, e expressões do oportunismo dos partidos Democrata e Republicano tentando faturar as consequências do abalo estrutural do capitalismo demorático de preferência a discutir as raízes do problema, de resto de dificílima solução numa realidade globalizada.

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O quadro geral desta eleição comprova a contaminação dos EUA pela doença ancestral do mundo. O “modelo americano” de uma geração atras apoia-se estritamente no império de leis que não são mais exigíveis num planeta desigual e sem fronteiras que, doravante, primeiro se acertará pela média, o que para os EUA significa baixar de padrão, para só então, se não se perder no caminho, o mundo ir conquistando, agora como um todo, o que os americanos já tiveram sozinhos lá atras.

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As novas versões de um velho filme

20 de dezembro de 2013 § 1 comentário

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O professor Fabio Barbieri da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (FEA-USP), está lançando o livro “A Economia do Intervencionismo”, que torna mais fácil entender o Brasil e o mundo de hoje.

Alinho trechos que achureei de um artigo que ele próprio publicou na internet – “A Maré Estatista na América Latina e a Teoria do Intervencionismo” – acrescidos de alguma “costura” desses pedaços de minha autoria, para explicar a sua tese.

Veja lá se não faz sentido:

A teoria econômica de ciclos intervencionistas é inspirada na obra do economista austríaco Ludwig von Mises que desnudou as “contradições internas” do intervencionismo.

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A coisa consiste em analisar o intervencionismo como um sistema econômico em si: substituir a dicotomia “capitalismo-socialismo” pela dicotomia “economia pura de mercado—economia planificada centralmente” e em reconhecer que os países do mundo real não são capitalistas ou socialistas, mas economias mistas situadas entre os extremos de estado zero e estado máximo.

O mecanismo funciona assim: o poder de “legislar” sobre assuntos econômicos abre a caixa de Pandora da atividade de se dedicar à busca de privilégios legais. Essa possibilidade de “pilhagem legal“, de que ja falava Bastiat no século 19, gera uma tendência ao crescimento do estado e de sua interferência nos mercados, situação que, por sua vez, aumenta o ganho de se dedicar à atividade de busca de renda em comparação à atividade de produção.

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O abuso desse círculo vicioso vai gerando distorções cada vez maiores: políticas keynesianas que pretendiam estabilizar as economias geram déficits crônicos que perpetuam os desequilíbrios macroeconômicos; a construção do estado de bem-estar falha em resgatar a população da pobreza e acaba causando dependência, e assim por diante.

As falhas de governo, entretanto, geram demanda por mais intervenção, na medida em que a ideologia intervencionista joga a culpa de seus próprios fracassos no “capitalismo” e não no próprio intervencionismo. Veja-se o exemplo recente da reação-padrão à crise econômica iniciada em 2008 em que novas intervenções são adotadas para corrigir o que na verdade é fruto de intervenções anteriores.

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Os intelectuais, por sua vez, buscam uma mítica “terceira via“, ignorando o fato de que nossos males são causados justamente por vivermos numa terceira via.

Bem olhados os fatos, portanto, a conclusão é de que o intervencionismo (ou mercantilismo) não é transitório, mas sim a forma de organização social mais estável da história, levando em conta as sociedades que avançaram além de um estágio tribal.

Quando o abuso dessa “pilhagem legal” vai ao paroxismo e a economia se desorganiza, recorre-se a reformas liberalizantes. Mas assim que elas aliviam os males causados pelo acúmulo de intervenções, aumenta novamente a demanda pelas mesmas intervenções.

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A teoria esboçada no livro, conclui Barbieri, se assemelha a um modelo biológico de parasita-hospedeiro, empregado para explicar a dinâmica do intervencionismo. A atividade parasitária mina a vitalidade do hospedeiro, de forma que no longo prazo o parasita é enfraquecido, gerando a necessidade, por assim dizer, de hospitalizações liberalizantes, o que caracteriza o sistema de ciclos de intervenção alternados com hiatos liberalizantes.

Os efeitos desses ciclos numa realidade globalizada onde as economias nacionais funcionam como vasos comunicantes são de longo alcance.

Eis como Barbieri explica o que vem acontecendo na América Latina:

A inundação de crédito orquestrada pelos bancos centrais dos países desenvolvidos, em especial o americano (Fed), responsável pelo ciclo de crescimento artificial que resultou na crise econômica recente, influenciou diretamente a dinâmica do ciclo interventor na América Latina.

No Brasil, a abundância de crédito externo alimentou o crescimento do estado intervencionista, virtualmente silenciando as vozes que apontam para a urgência de reformas.

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O mesmo boom artificial inflou o preço do petróleo, que sustentou a recente experiência socialista na Venezuela, restando saber, sobre esse país, se a presente estagnação com inflação e escassez de produtos básicos levará ao abandono do chavismo e a uma fase de contração do estado, ou se teremos um empobrecimento secular, como ocorre na Argentina, que não consegue se livrar da herança peronista.

É o mesmo horizonte, acrescento eu, que se desenha para o Brasil se ele se entregar de corpo e alma ao lulopetismo, condição de que de modo nenhum o país está distante neste momento.

Barbieri, aliás, é um economista “estranho” no ninho das universidades que fizeram do Brasil este fenômeno inédito no mundo que é um país com 32 partidos políticos, todos “de esquerda”, disputando os votos de uma sociedade onde, dos comedores de caviar aos comedores de calangos, os primeiros se afirmando mais radicais que os últimos, todos também se declaram “de esquerda”.

E como tal, fotografa nos termos precisos e polidos da academia sem aspas a realidade que a “academia” com aspas tenta esconder, pelo mundo afora, mantendo vivas as ideias mortas dos séculos 19 e 20 para distrair as plateias acostumadas a tragar produtos similares made in Hollywood.

Já é coragem demais para quem está na posição dele.

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Faltou registrar, nessa sua objetiva leitura da realidade que vivemos, que de Vladimir Putin às “aposentadocracias” da velha Europa ha diversas gradações de brutalidade no uso desse expediente, que é sempre de dominação.

Ele persiste e se universaliza porque é a mais eficiente ferramenta de aquisição e perpetuação no poder à disposição daquela parcela dos grandes predadores que se entregam mais complacentemente à sedução do tipo de eflúvio cuja sintética descrição celebrizou lord Acton: “O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente“.

Se já não é mais possível cortar cabeças e sujar praças de sangue impunemente para se manter no poder como se fazia antigamente, continua sendo perfeitamente possível assassinar economicamente os dissidentes e premiar com as blandícias da abundância fácil os que vendem sua alma ao “rei”.

Faz-se hoje com o dinheiro sujo o que antigamente fazia-se com a espada e o machado mas, essencialmente, trata-se da mesma coisa. É apenas uma reedição  “XX rated” (ou apenas “X rated” na Europa e outras praças de pele mais sensível do que estas curtidas nos trópicos) do mesmo velho feudalismo “XXX rated” de ontem.

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Um brasileiro para se admirar

27 de setembro de 2012 § 2 Comentários

Ferreira Gullar é daqueles raros seres humanos que fazem a gente acreditar na viabilidade da espécie.

Aos 82 anos, é o sobrevivente da travessia de oceanos especialmente revoltos e desertos incomumente ásperos. Varou a ambos absolutamente íntegro, sublimando em poemas o que é impossível compreender e encarando com a coragem tranquila dos fundamentalmente honestos as peças e armadilhas que o tempo prega em todos quantos o senso de justiça e a generosidade empurram para fora de si mesmos, em busca de respostas.

Deu uma entrevista à Veja desta semana em que, mais uma vez, mostra o quanto é grande.

De sua desilusão com a utopia comunista, diz que foi “uma questão de experiência de vida“.

O capitalismo é forte porque é instintivo. Não é uma teoria. Nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível (…) O capitalismo é uma fatalidade (grifo meu). Ele produz desigualdade e exploração. Mas a natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce atlético e o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. (…) A capacidade criativa do capitalismo é fundamental (…) para a solução da desigualdade porque só a produção de riqueza resolve isso. A função do Estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar“.

Alguém já disse que a democracia é o governo dos desiludidos.

Não no sentido de cansados, de desistidos da vida, mas nesse sentido gullartiano, galhardo, de experientes da vida que insistem no senso de justiça, este também um dado concreto da nossa especial condição na ordem natural das coisas.

O governo dos que têm a coragem de encarar a vida como ela é sem colocar-se fora dela e aceitar o desafio de disciplinar-se para honrar, pela vertente de um altruísmo ainda que compulsório, o privilégio que temos de ser o único animal da natureza que abriga, ao lado do instinto de sobrevivência, o senso moral, e é capaz de mudar o seu próprio destino.

Se os homens fossem anjos“, argumentava James Madison no 51º dos Federalist Papers, ao sugerir a sua clássica fórmula que deu ao mundo o caminho para a solução prática desse desafio, “não seria necessário haver governos. E se os homens fossem governados por anjos, seria dispensável qualquer instrumento de controle interno ou externo desse governo.

Mas se estamos pensando em desenhar um governo para ser exercido por homens que terão autoridade sobre outros homens, a grande dificuldade está no seguinte: você terá de dar ao governo os meios de controlar os governados e, ao mesmo tempo, obrigá-lo a controlar-se a si mesmo“.

A fórmula do petismo, emulada do capitalismo de estado chinês, que tanto atrai os brasileiros com pouca experiência de vida com a miragem do enriquecimento rápido, vai na direção contrária. Associa o poder político ao poder econômico, derruba todas as barreiras erguidas para deter a natural propensão do capitalismo para a exploração e não cria riqueza, apenas a ilusão passageira dela.

China: moderados vencem 1º round da sucessão

15 de março de 2012 § 1 comentário

A ala moderada do Partido Comunista Chinês (PCC) ganhou a primeira batalha da sucessão de sete dos nove membros do Politburo marcada para acontecer este ano.

Bo Xilai (foto), secretário do PCC da província de Chongqing, que despontava como o mais radical dos pretendentes ao mais alto cargo de poder na China foi defenestrado ontem assim que a seção anual de 10 dias do Parlamento chinês foi encerrada.

O expurgo decidido pelo Comitê Central do PCC foi anunciado em uma nota de uma única linha pela agência de notícias do governo, Xinhua, que não deixou claro se ele está preso ou não.

Poucas horas antes o primeiro ministro Wen Jiaobao que, junto com o presidente Hu Jintao e outros cinco membros do Politburo,  deve deixar esta que é a mais alta instância de poder na China no final deste ano, tinha feito criticas diretas a Bo Xilai em uma inusitada conferência de imprensa televisionada com a presença de jornalistas chineses e estrangeiros.

O caso é emblemático da barra pesada que é a política nesta China que todo o Ocidente trata de igual ($$) para igual ($$) e o governo Lula considera “uma plena economia de mercado”.

Bo Xilai é filho de Bo Yibo, ex-vice-primeiro-ministro e veterano da Longa Marcha de Mao Tsetung, que iniciou a revolução comunista chinesa e, desde 2009, vinha acenando com o “Modelo de Chongking“, uma versão nostálgica e brutalmente violenta da Revolução Cultural maoísta temperada com novos molhos populistas de grande sucesso entre as massas mais pobres daquela província.

Acusando-os de “atividade mafiosa”, ele prendia os empreendedores privados de Chongqing, submetia-os a tortura e cobrava pesadas “multas” para libertar os mais ricos entre eles, usando o dinheiro para financiar políticas assistencialistas. Parentes e amigos que se dispusessem a testemunhar a favor dos prisioneiros também eram presos e torturados.

Chongqing reeditou, de 2009 até ontem, os tempos do terror maoísta com milhares de pessoas enfiadas em “prisões secretas”, seções de tortura, sentenças de morte, execração pública dos “chefes das máfias” e o mais do costume.

Mas o principal alvo dessa “cruzada contra os ricos” era Wang Yang, o antecessor de Bo no comando da seção de Chongqing do PCC e seu principal rival na disputa por um assento no Politburo. Todos os “empresários” atingidos tinham feito sua fortuna no governo do rival, cujo chefe de polícia Bo mandou executar em julho de 2010.

Seu grande erro foi voltar-se contra o seu próprio chefe de polícia, Wang Lijun, conhecido como “Robocop” ou “Crazy Wang”, um homem sanguinário que tinha mania com armas pesadas e carros esportivos e que, “nas horas vagas, dedicava-se a fazer autópsias” e gabava-se de “ter inventado um método super eficiente de retirar órgãos de prisioneiros executados para transplantes”.

Não se sabe exatamente por que – “tsu si gou peng” (“quando o cachorro não serve mais para caçar coelhos é ele que vai para a panela“), dizem os chineses – Bo e “Crazy Wang” se desentenderam e o chefe achou por bem queimar aquele arquivo vivo das barbaridades que tinha perpetrado em Chongqing.

Wang porem fugiu a tempo para o consulado americano da cidade vizinha e pediu asilo no mês passado. 24 horas depois saiu do consulado e foi preso por autoridades ligadas ao governo central “para investigação”.

A China está numa encruzilhada“, dizia ha poucas semanas Jiang Weiping, veterano jornalista chinês exilado em Toronto. “Ou bem ela parte para uma reforma política e se moderniza, ou cai numa nova revolução cultural como quer Bo Xilai. Se ele vencer será um desastre para o país e para o mundo“.

Steve Jobs, o mau patrão, ou, Há capitalismos e capitalismos

30 de janeiro de 2012 § 3 Comentários

O “golpe do gato” consistia no seguinte. O sujeito ia lá para os mais miseráveis grotões do Brasil e oferecia uma boia de salvação. “Precisa-se gente disposta e decidida para trabalhar em frentes de desmatamento na Amazônia. Paga-se bem“.

Eram os anos 70 e as beiradas da Amazônia estavam tão longe do mundo com leis quanto um planeta distante.

O cara ia e logo se dava conta de que para comer, se vestir, tomar um remediozinho, ter qualquer contato com a civilização, dependia da estrutura montada pelo patrão. Só aí começava a aparecer o outro lado da moeda. Na vendinha do patrão, a única lá daquele fim de mundo, tudo custava 10 vezes mais caro. Mas podia ser comprado a prazo…

Moral da história: o sujeito ficava devendo sempre mais do que ganhava e virava escravo.

O golpe arquitetado por Tim Cook para Steve Jobs, o mau patrão, é exatamente semelhante.

Tinha gente que se achava esperta ganhando dinheiro no mole nos Estados Unidos explorando, aqui e  ali, condições de trabalho na China que, em casa, os meteria na prisão.  Mas isso já se tinha tornado uma commodity. Mortos os concorrentes mais “patrióticos” e “moralistas” que insistiam em não trocar trabalhadores americanos por chineses, todos os que tinham sobrevivido eram igualmente “modernos”.

Assim, simplesmente explorar miseráveis chineses deixou de ser um fator definitivo de sucesso. Era preciso “inovar“.

Jobs tinha o homem certo para o momento certo. E sentiu que esse momento chegara. Lá se foi Tim Cook para a China para descobrir onde estavam as “novas oportunidades de aprimoramento de gestão e ganhos de escala” sobre a miséria chinesa.

A China é um país novo, apenas emergindo do pesadelo maoísta que, debaixo de porrada, levou aquele quarto da humanidade de volta para a Idade Média sob o aplauso entusiasmado de boa parte da inteligentsia ocidental. Tendo regredido ao ponto zero de industrialização, tinha tudo por fazer e nada por reformar.

É isso“, pensou Tim!

Depois de espremida a laranja até o bagaço dentro dos limites das legislações de trabalho civilizadas, o Ocidente andava, ultimamente, apertando parafusinhos nas cadeia de fornecimento para reduzir estoques e obter pequenas vantagens competitivas. Mas a coisa acabava batendo sempre na dispersão das estruturas existentes e na dificuldade e no custo de reorganizá-las.

Na China não. Onde antes não havia nada não era preciso derrubar para construir ou deslocar para abrir espaços. E, especialmente, não era necessário perder muito tempo fazendo contas. Lá estava o Estado chinês, único dono da economia nacional, e seus ávidos, todo poderosos e sempre seduzíveis funcionários, fiscais de si mesmos, para pagá-las quaisquer que fossem.

Tem mais que um dedinho da Apple, portanto, essa Chengdu, no Sudoeste da China, onde brotou do chão “o maior, mais rápido e mais sofisticado polo de manufaturas do planeta Terra“.

Ali pode-se realizar o sonho de todo contador de tostões: uma série de  fabricazinhas absolutamente focadas para cada componente de um produto, umas vizinhas das outras, com centros de montagem espargidos pelo meio, alimentando-se mutuamente com transporte e estoque zero; uma força de trabalho sem nenhum direito constituído, flexível o suficiente para ser jogada pra lá e pra cá, a qualquer hora do dia ou da noite, para atender milimetricamente, para cima ou para baixo, as flutuações da demanda.

E tudo pago a preço vil.

Estava feito o milagre do supply chain!

Uma verdadeira maravilha. E irreplicável fora da China!

Mas o melhor ainda estava por vir. Como a rede de fornecedores, e de fornecedores dos fornecedores, constituía-se para atender a um único cliente – a Apple – este ficava com a faca e o queijo na mão. Com cada fábrica fazendo um pedaço de peça interessante apenas para a fabriqueta vizinha, não se corria o risco, nem de se ver pirateado, nem de ter tal mão de obra disputada por outro.

No way out!

No primeiro ano as coisas corriam conforme o combinado. Mas a cada renovação de contrato, Steve Jobs arrancava mais 10% de seus “parceiros”.

Não gostou? Ok. Procure outro comprador. Ou feche as portas” (os diálogos são imaginários).

Começava a aparecer o outro lado da moeda…

Espremidos contra a parede, toca cortar custos.

E se foi desenhando o quadro que o New York Times descreveu em minúcias nas reportagens publicadas na semana passada (veja o original aqui):

  • montadoras com até um milhão de operários trabalhando seis dias por semana sem sair de dentro da fábrica, dormindo amontoados em quartinhos, quase celas;
  • cartazes “à la Aushwitz” dominando os salões de montagem, lembrando àqueles meninos e meninas vindos do interior da China para as garras do “gato”: “Trabalhe duro na tarefa de hoje ou você terá de trabalhar duro para arranjar outro trabalho amanhã“;
  • “castigos” para quem chega atrasado à sua bancada variando entre “escrever autocriticas”, copiar centenas de vezes a mesma frase ou fazer flexões deitado no chão da fábrica;

  • casos comprovados de “trabalho involuntário” (prisioneiros do regime, talvez?);
  • instalações muito mais que precárias, cada vez mais inseguras;
  • repetem-se em escala crescente as explosões, com mortos e queimados, de salões de montagem sem ventilação pela acumulação de pó de alumínio (limado do corpo do seu lindo iPad);
  • empregados envenenados pela substituição de álcool pelo ultra cancerígeno n-hexano, que evapora três vezes mais rápido, na limpeza das telas dos iPads montados (resultando em mais iPads limpos por pulmão intoxicado);
  • salários de fome;
  • exploração de menores…

A lista segue em frente.

Sob pressão de ativistas chineses, ONGs dos próprios Estados Unidos e até de organismos do Banco Mundial, a Apple, durante anos, finge que não é com ela. Quando entende que não dá mais para evitar o assunto institui comissões e relatórios anuais de “responsabilidade social” e “normas mínimas de segurança e condições de trabalho”.

Mas, alegando a necessidade de segredo industrial, não revela a lista dos seus fornecedores chineses, sujeitos a tais regras.

Depois da onda de suicídios na Foxconn, cede e “revela” o nome de 156 deles. Reporta punições cosméticas contra alguns, agora que se tornou possível checar o que os relatórios afirmam. Mas os casos de envenenamento e as explosões se multiplicam: os fornecedores desses fornecedores, continuam “secretos”…

Se você se depara com os mesmos problemas nos relatórios, ano após ano, é porque a companhia os está ignorando em vez de tentar resolvê-los“, diz um funcionário graduado da Apple pedindo anonimato.

Em compensação os números da companhia vão à estratosfera. Steve Jobs brilha. “É tão bom para inventar e desenhar quanto é para gerir“. Eu mesmo caí no logro. A Apple desliza de braçada por sobre o lodo da miséria chinesa, até chegar ao fantástico lucro de US$ 13,06 bilhões de dólares sobre US$ 46,3 bilhões em vendas em um único trimestre anunciados na semana passada.

São esses recordes sucessivos que provocam reuniões sem fim entre os concorrentes e a fila crescente dos “I wannabe Apple” pelo mundo afora: “Então, seus perdedores! Cadê a performance? Não me venham com desculpas românticas. Eu quero é a satisfação dos acionistas“.

É o grito da dupla Jobs/Cook para o lumpen chinês voltando como um eco maldito para o lugar de onde partiu.

E, pelo Ocidente afora, dezenas, centenas de milhões de trabalhadores com direitos vão para a rua da amargura com a substituição da onda “monte seu produto na China ou morra” pelo tsunami “exporte toda a sua cadeia de produção para a China ou morra“.

Eficiência? O milagre do supply chain?

Nada disso. “Quando a esmola é demais até o santo desconfia“. Tem sempre alguém pagando por qualquer “almoço grátis” que se oferece por aí…

Voltar atrás significaria deter o ritmo da inovação“.

A desculpa de Steve Jobs num seminário onde era acusado de explorar a miséria alheia pouco antes de morrer, é a que resta diante da contundência dos fatos. Uma espécie de curinga para sair de saias justas morais. O mesmo ao qual recorrem, de mr. Kim Dotcom, o megauploader de mercadoria roubada defendido por certa inteligentsia cibernética pelas mesmas razões que seus predecessores defenderam Mao Tsetung, ao Google e todas as criaturas do lado escuro de Silicon Valley sempre que se lhes aponta as vergonhas desnudas.

E não é isso o capitalismo?“, vem o coro dos que não resistem a uma boa tragédia americana.

Não. Não é isso o capitalismo.

O capitalismo democrático (que antes não precisava ser adjetivado porque não havia outro a não ser este bandalho que conhecemos, que se diz capitalismo mas apenas bandalho é) é, precisamente, o sistema que coloca em campos opostos e nitidamente delimitados o Estado e o capital privado, cabendo ao primeiro fiscalizar o segundo e dizer-lhe, em nome do coletivo, até onde ele está autorizado a crescer, mesmo que jogando inteiramente dentro das regras.

É isto que o define e distingue de tudo o mais.

O capitalismo democrático é aquele que vê o homem como o perigo que ele é e trata de cerceá-lo na sua essência feral, enfim.

É um corolário da democracia, invenção que parte exatamente da mesma visão e tem exatamente o mesmo propósito, e que teve o seu apogeu no século 20 com a criação das legislações antitruste desenhadas para impedir que qualquer homem, qualquer empresa, se tornasse “grande demais para quebrar” ou para se impor ao comum dos mortais, mesmo que exclusivamente em função de competências próprias.

Este da China está muito além deste quase ingênuo capitalismo bandalho nosso velho conhecido. Tem o Estado não apenas como sócio mas como proprietário único do Capital e, consequentemente, todo o resto da sociedade na palma da sua mão.

Nada de conter a fera humana. Nele juntam-se o Capital e o Estado para caçar em matilha. Sobreviva quem puder.

O fato da internet ter permitido que ambições há muito domesticadas por legislações antitruste nacionais hoje escapem delas para ir matar as saudades dos bons velhos tempos da lei da selva alhures, forçando o resto do mundo a se “achinezar”, prova apenas que a tal “inovação” que eles tanto invocam para justificar a sua sede de suor alheio não altera rigorosamente nada o pendor do homem de explorar o homem, que voltará a se manifestar com toda a força da Natureza sempre que a um deles for dada essa prerrogativa.

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