Lições universais da presidente Dilma – 1

26 de setembro de 2012 § 1 comentário

Duas matérias publicadas hoje – Tiro ao Pé, do ex- diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (fernandohenriqueano), Alexandre Schwartzman, na Folha (aqui),  e Quantitative Easing, de Philip Cogan na didática seção de vídeos The Economist Explain (aqui) – oferecem em termos bastante mastigáveis as informações básicas que o ministro Mantega e a presidente Dilma têm a obrigação de conhecer e que a poderiam ter poupado do papel, pouco edificante para a imagem do Brasil, a que ela se prestou ontem nas Nações Unidas, de dizer bobagens ao mundo em tom professoral.

Os dois conjuntos de informação vêm a calhar, também, para mostrar a má fé das tentativas do grande artífice da hiperinflação brasileira, Antônio Delfin Netto, de por em pé de igualdade a gestão das finanças publicas orquestrada pelo PT e as ações anticíclicas de governos mais sérios e seus bancos centrais ao redor do mundo que critiquei no artigo de ontem.

É claro que é preciso considerar que quando se atira a esses destampatórios a presidente Dilma tem em mente muito mais o eleitor brasileiro que vai vê-la por o dedo na cara dos poderosos do mundo em um ou dois takes de alguns segundos no Jornal Nacional do que ser levada à sério por Barak Obama e cia. ltda.

Mas eu acredito na honestidade fundamental da presidente Dilma, o que não me tranquiliza nada. Ao contrário. A fé com que ela e seu ministro dão lições ao mundo é tal que, consideradas todas as provas disponíveis da pouca familiaridade destes, até ontem, “utopistas profissionais”, com as sutilezas e realidades das altas finanças do mundo real, sugere que pode bem dar-se o caso, bem mais grave, de eles realmente acreditarem no que estão dizendo.

Enfim, conjecturas…

Vamos aos fatos explicados nas matérias citadas para que você possa julgar por si mesmo.

O editor do Economist explica que os principais agentes da expansão monetária nas economias modernas são os bancos privados através da expansão da oferta de crédito que acaba virando dinheiro novo em circulação e que como, em função dos abusos e desvios que se tornaram conhecidos e explicam a presente crise, esses agentes passaram a destruir moeda em quantidades ciclópicas em vez de aumentar a quantidade dela em circulação.

É isto, exatamente, que tem mantido o mundo à beira do abismo.

Os governos dos Estados Unidos e da União Europeia não estão propriamente fabricando moeda e aumentando a sua disponibilidade no mercado, portanto, estão tentando repor em circulação uma parte da moeda que circulava e hoje não circula mais porque cai no buraco sem fundo do rombo dos bancos privados que antes garantiam a oferta desse insumo sem o qual a economia do mundo para de tranco.

Uma coisa anula a outra e não ocorre, propriamente, um aumento líquido da oferta de dinheiro em circulação nem o efeito inflacionário líquido, certo e imediato que Dilma e Mantega lhe atribuem.

Apenas mantem-se a roda girando.

Alexandre Schwartzman é bem mais específico.

Ele lembra que, ao contrário do que Dilma afirma, a economia americana depende muito pouco do comércio internacional. Em 2011, as exportações representaram 13% do PIB enquanto as importações pesavam 16%, valores bem próximos aos observados no Brasil (12% e 13% do PIB, respectivamente).

La, como aqui, o principal motor de expansão da demanda é o mercado interno (…) que representa mais de 70% do PIB.

(…) entre 2009 (o fundo do poço) e 2011 o PIB americano cresceu algo como US$ 540 bilhões. O consumo das famílias representou 3/4 desse crescimento.

O investimento não residencial também contribuiu, adicionando cerca de US$ 120 bilhões ao PIB.

A ausência notável é o investimento residencial, no qual o estouro da bolha imobiliária produziu maior estrago: queda de US$ 17 bilhões, em contraste com uma expansão média de US$ 32 bilhões por ano no período pré-crise.

À luz desses números, analistas mais bem informados (ou que, ao menos, estejam dispostos a buscar as informações) concluiriam que o objetivo dessa nova rodada de expansão monetária (a 3ra nos EUA) deveria ser precisamente reativar o investimento residencial.

Não por acaso, aliás, no anúncio do QE3 o Fed (Federal Reserve) deixou claro que a expansão monetária adicional (US$ 40 bilhões por mês) será integralmente destinada à compra de títulos lastreados em hipotecas, de modo a reduzir as taxas de juros desses empréstimos e assim estimular as compras de imóveis.

(…) o Fed condicionou a continuidade (desta rodada de quantitative easing) à queda mais expressiva do desemprego. Enquanto este, hoje na casa de 8%, não se reduzir a níveis compatíveis com a estabilidade de preços (em torno de 5% a 5,5%), a expansão não cessará.

Por todos os ângulos que se observe, trata-se de política voltada primordialmente para o mercado interno.

(…) (portanto) o QE3, se exitoso, irá beneficiar o Brasil mais do que a presumida desvalorização do dólar poderia prejudicá-lo. A despeito da flutuação do dólar, importações americanas seguem de perto a demanda interna, que se encontrava no ano passado algo como 14% abaixo do valor que teria prevalecido sobre a tendência pré-crise.

A recuperação do mercado interno poderia acrescentar, portanto, cerca de US$ 2,5 bilhões por ano às exportações brasileiras para os EUA, que em 2011 foram de US$ 25 bilhões.

Nesse aspecto, a reclamação sobre a política expansionista dos BCs mundiais merece medalha de ouro na categoria ‘tiro ao próprio pé’“.

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§ Uma Resposta para Lições universais da presidente Dilma – 1

  • Thereza Muniz disse:

    Excelente análise, ninguem pode não ver o que está acontecendo. Pobre Brasil, quando vão chegar àqueles que o podem salva-lo – pelas mãos do voto vai durar mas é o único válido.

    Com melhor programa de educação pode se conseguir – mas alguém do Governo Federal, Estadual e Municipal está verdadeiramente interessado? não

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