É a vez do Brasil?
23 de abril de 2013 § 3 Comentários
A vaga entrevista de ontem do todo poderoso presidente do BNDES, Luciano Coutinho, ao Estadão é mais uma daquelas oportunidades perdidas de entender melhor qual o projeto de Brasil que o PT tem em mente ou até, se o PT tem qualquer projeto de Brasil em mente.
Mas abre espaço para algumas conjecturas.
Informa o dr. Luciano que a política de eleger “campeãs nacionais” ou, como ele prefere, a política de “promoção de competitividade de grandes empresas de expressão internacional”, “é uma agenda que foi concluída; uma política que tinha méritos mas que já chegou até onde poderia ir”.
O primeiro reparo que me veio à mente diz respeito à ordem dos fatores que, no caso, altera radicalmente o resultado.
O que ocorreu não foi exatamente que o governo pegou empresas que já tinham “expressão internacional” e lhes deu um empurrãozinho. Na maioria dos casos, escolheu, ninguém sabe por quais critérios objetivos, empresas que não tinham projeção nenhuma, nem nacional, nem internacional, e fez delas monstros devoradores de concorrentes aqui e pelo mundo afora.
E com tanta largueza que seus donos hoje levam uma vida de potentados orientais voando entre seus palácios e yachts espalhados pelo mundo em impressionantes jatos transcontinentais privados nos quais Don Lula I costuma tomar carona para, graciosamente é claro, “ajudar a vendê-los no exterior”.
Foi o caso, por exemplo, dos açougueiros de Goiás hoje transformados no gigante JBS, ficando a sua irmã menor, Marfrig, pelo caminho cheia de problemas para se manter de pé apesar dos bilhões recebidos, ou dos aventureiros do mercado financeiro que, remendando pedaços espalhados por todo o país, gastaram os tubos do nosso dinheiro tentando criar uma gigante dos laticínios ao lado da gigante da carne, a LBR, hoje às portas da falência.
De par com essas, levaram grossos bilhões “parte da siderurgia” (a Gerdau, para ser exato) e representantes de setores como petroquímica (Odebrecht), celulose (os Ermírio), suco de laranja, cimento (dos mesmos donos da celulose), telefonia (só a Oi) e produção de softwares (a Totvs), este estratégico para o partido por razões diversas dos demais, e ainda uns tantos outros felizardos.
Uma variada “cesta” de empresas, enfim, que dificilmente encaixa-se no vago conceito que ele aventou – grupos “limitados (às áreas de) commodities e pseudo commodities” (?) – para justificar essas escolhas.
Ou, melhor dizendo, que encaixa-se perfeitamente, assim como literalmente todo e qualquer setor da economia que suas majestades houverem por bem contemplar, desde que levado ao pé da letra o tão inovador quanto ilimitadamente amplo conceito de “pseudo-commodity”.
Onde, sim, tudo se amarra firmemente é no fato de todos os proprietários beneficiados sentarem-se à mesa do Conselho de Gestão da Presidência da República, ao lado da titular da própria, na qual é decidido em ambiente de ampla confraternização quem fica com quanto do bolo generosamente disponibilizado pelo BNDES.
Se é difícil vislumbrar que objetivo estratégico a projeção internacional desse grupo heterogêneo de empresas busca conquistar para a nacionalidade, é menos difícil imaginar porque um partido político que sofre crises de urticária sempre que pensa em deixar o poder aproveitaria as oportunidades ao alcance da mão para criar uma rede de projeção internacional do seu próprio poder econômico virtualmente infiscalizável daqui por diante.
As empresas de que o BNDES tornou-se sócio têm hoje mais filiais do que o governo tem embaixadas, sendo, portanto, capazes de levar e trazer dinheiro para cada buraco do planeta, branquea-lo à vontade ou comprar ditadores com voto na ONU por aí sem que os pobres órgãos nacionais de fiscalização possam sequer sonhar em saber o que está acontecendo.
Vê-se por essas e outras que se não há um projeto de Brasil para o PT certamente ha um projeto de PT para o Brasil e até para mais do que só ele.
A julgar pelo que nos diz o dr. Luciano, esta parte, ao fim de 10 longos anos de investimentos, está satisfatoriamente resolvida e o partido parece disposto a voltar-se, finalmente, para o país que, nesse meio tempo, ficou a ver navios (e caminhões, e aviões, e usuários de transportes públicos, e necessitados de atendimento médico por falta de saneamento básico, e formandos semi-analfabetos, e…) sempre estacionados na fila de espera dos equipamentos de infraestrutura preteridos em função da necessidade de atender o urgente interesse nacional em fabricar e vender bifes, laticínios, suco de laranja, aços de boa marca, papelão e cimento pelo mundo afora.
Como otimista empedernido que sou, torcerei para que as declarações do dr. Luciano escondam a decisão do PT de deixar pra lá essa obsessão de ser ele próprio a economia nacional para passar a ser o provedor de condições regulatórias e infra estruturais para que a economia de todos nós possa se desenvolver por si só numa medida correspondente ao esforço que investimos nela.
Mas até prova mais consistente em contrário, reconheço que até para alguém com tanta boa vontade quanto eu isto soa como pedir demais…
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Lições universais da presidente Dilma – 1
26 de setembro de 2012 § 1 comentário
Duas matérias publicadas hoje – Tiro ao Pé, do ex- diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (fernandohenriqueano), Alexandre Schwartzman, na Folha (aqui), e Quantitative Easing, de Philip Cogan na didática seção de vídeos The Economist Explain (aqui) – oferecem em termos bastante mastigáveis as informações básicas que o ministro Mantega e a presidente Dilma têm a obrigação de conhecer e que a poderiam ter poupado do papel, pouco edificante para a imagem do Brasil, a que ela se prestou ontem nas Nações Unidas, de dizer bobagens ao mundo em tom professoral.
Os dois conjuntos de informação vêm a calhar, também, para mostrar a má fé das tentativas do grande artífice da hiperinflação brasileira, Antônio Delfin Netto, de por em pé de igualdade a gestão das finanças publicas orquestrada pelo PT e as ações anticíclicas de governos mais sérios e seus bancos centrais ao redor do mundo que critiquei no artigo de ontem.
É claro que é preciso considerar que quando se atira a esses destampatórios a presidente Dilma tem em mente muito mais o eleitor brasileiro que vai vê-la por o dedo na cara dos poderosos do mundo em um ou dois takes de alguns segundos no Jornal Nacional do que ser levada à sério por Barak Obama e cia. ltda.
Mas eu acredito na honestidade fundamental da presidente Dilma, o que não me tranquiliza nada. Ao contrário. A fé com que ela e seu ministro dão lições ao mundo é tal que, consideradas todas as provas disponíveis da pouca familiaridade destes, até ontem, “utopistas profissionais”, com as sutilezas e realidades das altas finanças do mundo real, sugere que pode bem dar-se o caso, bem mais grave, de eles realmente acreditarem no que estão dizendo.
Enfim, conjecturas…
Vamos aos fatos explicados nas matérias citadas para que você possa julgar por si mesmo.
O editor do Economist explica que os principais agentes da expansão monetária nas economias modernas são os bancos privados através da expansão da oferta de crédito que acaba virando dinheiro novo em circulação e que como, em função dos abusos e desvios que se tornaram conhecidos e explicam a presente crise, esses agentes passaram a destruir moeda em quantidades ciclópicas em vez de aumentar a quantidade dela em circulação.
É isto, exatamente, que tem mantido o mundo à beira do abismo.
Os governos dos Estados Unidos e da União Europeia não estão propriamente fabricando moeda e aumentando a sua disponibilidade no mercado, portanto, estão tentando repor em circulação uma parte da moeda que circulava e hoje não circula mais porque cai no buraco sem fundo do rombo dos bancos privados que antes garantiam a oferta desse insumo sem o qual a economia do mundo para de tranco.
Uma coisa anula a outra e não ocorre, propriamente, um aumento líquido da oferta de dinheiro em circulação nem o efeito inflacionário líquido, certo e imediato que Dilma e Mantega lhe atribuem.
Apenas mantem-se a roda girando.
Alexandre Schwartzman é bem mais específico.
Ele lembra que, ao contrário do que Dilma afirma, a economia americana depende muito pouco do comércio internacional. Em 2011, as exportações representaram 13% do PIB enquanto as importações pesavam 16%, valores bem próximos aos observados no Brasil (12% e 13% do PIB, respectivamente).
“La, como aqui, o principal motor de expansão da demanda é o mercado interno (…) que representa mais de 70% do PIB.
(…) entre 2009 (o fundo do poço) e 2011 o PIB americano cresceu algo como US$ 540 bilhões. O consumo das famílias representou 3/4 desse crescimento.
O investimento não residencial também contribuiu, adicionando cerca de US$ 120 bilhões ao PIB.
A ausência notável é o investimento residencial, no qual o estouro da bolha imobiliária produziu maior estrago: queda de US$ 17 bilhões, em contraste com uma expansão média de US$ 32 bilhões por ano no período pré-crise.
À luz desses números, analistas mais bem informados (ou que, ao menos, estejam dispostos a buscar as informações) concluiriam que o objetivo dessa nova rodada de expansão monetária (a 3ra nos EUA) deveria ser precisamente reativar o investimento residencial.
Não por acaso, aliás, no anúncio do QE3 o Fed (Federal Reserve) deixou claro que a expansão monetária adicional (US$ 40 bilhões por mês) será integralmente destinada à compra de títulos lastreados em hipotecas, de modo a reduzir as taxas de juros desses empréstimos e assim estimular as compras de imóveis.
(…) o Fed condicionou a continuidade (desta rodada de quantitative easing) à queda mais expressiva do desemprego. Enquanto este, hoje na casa de 8%, não se reduzir a níveis compatíveis com a estabilidade de preços (em torno de 5% a 5,5%), a expansão não cessará.
Por todos os ângulos que se observe, trata-se de política voltada primordialmente para o mercado interno.
(…) (portanto) o QE3, se exitoso, irá beneficiar o Brasil mais do que a presumida desvalorização do dólar poderia prejudicá-lo. A despeito da flutuação do dólar, importações americanas seguem de perto a demanda interna, que se encontrava no ano passado algo como 14% abaixo do valor que teria prevalecido sobre a tendência pré-crise.
A recuperação do mercado interno poderia acrescentar, portanto, cerca de US$ 2,5 bilhões por ano às exportações brasileiras para os EUA, que em 2011 foram de US$ 25 bilhões.
Nesse aspecto, a reclamação sobre a política expansionista dos BCs mundiais merece medalha de ouro na categoria ‘tiro ao próprio pé’“.












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