Invadir e coçar é só começar

11 de março de 2014 § 6 Comentários

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No essencial a humanidade é uma coisa só e reage do mesmo jeito aos mesmos impulsos, seja qual for o tamanho ou a localização da fatia dela que se queira analisar.

Vejam o caso desse titerezinho da Ucrânia. Enfrentado, deixou para traz a “dacha” obscena e, disfarçado e por rotas de fuga previamente mapeadas, recurso de todo e qualquer criminoso desde sempre, correu com o rabo entre as pernas disposto a desaparecer para sempre nas trevas, tomando o cuidado de levar o quanto pode do que roubou do povo da Ucrânia, ladrão que é, e que deve ter sido bastante posto que a profissional que anda com ele, uns 30 anos mais jovem, achou que ainda tinha a ganhar continuando ao lado do velhote.

Amparado por uma autoridade constituída com um poderoso exército nas mãos e disposta a garantir-lhe a impunidade com tanques, aviões e fuzis kalashnikov, ei-lo de volta à luz do sol “agrandado“, arreganhando os dentes para o povo da Ucrânia que o escorraçou e para o mundo que lhe “deu mole.

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Ontem escrevi sobre esse mesmo tema e fui mal compreendido por uma leitora. Mostrava como o crime reflui imediatamente, assim que o Estado lhe opõe resistência, e como faz mal para a nossa segurança e a de nossos filhos e mães ficar tergiversando a esse respeito como se houvesse qualquer dúvida razoável de que tirar criminosos das ruas e mantê-los fora delas é o caminho mais concreto para se reduzir a criminalidade assim como manter o direito de suas vítimas potenciais de se defender de arma na mão reduz a arrogância e a “coragem” desse tipo de covarde.

Viktor Yanukovitch acaba de provar as duas coisas, a primeira com a ajuda de Vladimir Putin e a segunda pelo fato de, graças a ele, poder contar agora com tanques e soldados armados e suas vítimas potenciais não.

Os criminosos dos morros do Rio de Janeiro também já o tinham provado praticamente tomando a cidade quando a autoridade constituída de então, o pai do “socialismo moreno” Leonel Brizola, tirou a polícia dos morros e entregou-os ao crime organizado, e refluindo imediatamente assim que o Estado, 30 anos depois, resolveu finalmente exercer o papel para o qual foi criado e estabelecido.

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A presença e a força do crime organizado, aliás, é inversamente proporcional à quantidade de democracia de que desfruta uma sociedade. Pois democracia não é muito mais que uma série simples de arranjos para por o destino das autoridades constituídas nas mãos do povo de modo a obrigá-las a jogar a favor dele ou perder o cargo e ir se haver com os joaquins barbosas da vida lá na Papuda.

Totalitarismo é precisamente o avesso disso. O extremo oposto. É pôr o destino do povo nas mãos das autoridades que se impuserem pela força de modo a deixá-lo inteiramente dependente delas e obrigado a obedecê-las cegamente ou ir parar num campo de concentração, num manicômio ou simplesmente perder a vida.

Vladimir Putin foi o chefe da polícia secreta encarregada desses fuzilamentos e condenações no mais longevo e violento dos regimes totalitários que a Terra já viu, que é aquele que prevaleceu na Rússia Soviética entre 1917 e 1989 e nas dezenas de países à sua volta que ela invadiu e submeteu pelas armas. O mesmo regime que esse pessoal que nos governa hoje também tentou impor pelas armas ao Brasil.

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Vladimir Putin sempre foi, portanto, um criminoso.

Para piorar as coisas, basta fazer as contas para entender que não existe um único russo vivo hoje que tenha experimentado em casa qualquer coisa que se assemelhe a um Estado de Direito. De lá (1989) para cá, só mudou o discurso, que se tornou mais honesto. O povo já está tão acostumado a viver nas mãos de criminosos que a coisa funciona mais ou menos como nos morros cariocas: os trogloditas de hoje assumem-se tranquilamente como o que são e trabalham aberta e explicitamente, tanto para eliminar fisicamente quem se lhes opõe, quanto para cobrir de ouro quem lhes lambe as botas.

E eles são muitos!

Os equivalentes da antiga “nomenklatura” dos tempos da Rússia totalitária – os funcionários do partido que tinham de desfrutar seus privilégios escondidinhos e só no território nacional – constituem-se hoje na ponta mais exibida e cafajeste do “jet set” internacional e desfila a sua impunidade nos antigos resorts que compunham a crônica do glamour do século 20 que a “comunistas” só era dado cobiçar de longe,  com seus séquitos de prostitutas escandalosas e suas orgias de incineração ostensiva de dinheiro fácil.

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As modernas versões brasileiras desse tipo ancestral são duas: na ponta de baixo, os traficantes dos morros com seus barracos “de luxo” e suas jacuzzis lá no topo, os correntões e os fuzis de ouro e o séquito de “popozudas“; na ponta de cima, os barões do BNDES com seus carrões, seus jatões, seus iatões e suas peruas carregadas de bolsas que custam o preço de casas, disputando esses mesmos resorts com seus concorrentes russos.

Todos dependem igualmente da impunidade garantida pela autoridade constituída sem a qual o crime organizado não sobrevive nem dez minutos.

No Brasil, onde todo mundo já sentiu, aqui e ali, um cheirinho de democracia nos nossos momentos de transição entre extremos que, graças a deus, nunca conseguiram se impor totalmente, a coisa toda pega mais leve porque ainda existe a polícia lidando com a ponta de baixo e o STF tentando lidar com a ponta de cima.

Na Rússia não tem ninguém fazendo força contra. Todo mundo só faz o que o Putin quer.

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Os putins da vida, para resumir, encolhem ou “se agrandam” em arrogância e truculência em função do que faz ou deixa de fazer a “policia do mundo” que são os Estados Unidos e a OTAN.

De modo que é fácil entender o que está acontecendo.

O sinal nas fronteiras a que eles limitavam a sua truculência mudou de vermelho para amarelo quando Barak Obama e a OTAN “arregaram” diante do Irã e sua bomba atômica. Em troca de uma vaga promessa de adiar a explosão eles deram carta branca aos aiatolás para continuar financiando o terrorismo em pelo menos três países do mundo – o Líbano, Israel e o Iraque.

Não bastou. O sinal passou a amarelo piscante quando Barak Obama e a OTAN “arregaram” novamente diante de Bashar Al Assad, o genocida, dando-lhe carta branca para continuar massacrando a população da Síria desde que não seja por envenenamento com gás.

E finalmente ficou verde quando, logo depois dos seus sócios europeus, Barak Obama também anunciou que vai reduzir os gastos militares americanos a níveis anteriores aos da 2a Guerra Mundial, o que quer dizer que quem quiser “se agrandar” que “se agrande” porque não haverá consequências.

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Foi o que fez Valdimir Putin se sentir seguro o suficiente para anunciar que a Rússia (depois da China) vai multiplicar como nunca os seus que passarão a 730 bilhões de dólares até 2020 quando ele espera ter concluído o seu programa de construção de mais de 100 bases aéreas e navais em diversos lugares do mundo, incluindo, entre outros, a Venezuela, Cuba, o Vietnã, a Nicarágua, Seychelles, Singapura e outros. Isso tudo partindo de uma única base fora do país hoje, localizada em Tartus, na Síria de Bashar Al Assad e agora, provavelmente logo, uma também na Criméia ucraniana e talvez mais que isso. E é claro que um empresário do crime como ele não ha de investir 730 bilhões em armas para não usa-las jamais.

E aí, sabe como é: invadir e coçar, é só começar…

Os bandidos do mundo, enfim, sentados em tronos ou não, agem exatamente do mesmo modo que os bandidos dos morros cariocas ou das ruas de São Paulo e do resto do Brasil: “se agrandam” na sua covardia assassina quando o Estado e a polícia omitem-se ou tornam-se seus aliados; fogem com o rabo entre as pernas quando o Estado e a polícia cumprem o seu papel e os enfrentam.

O resto é conversa, em geral de gente mal intencionada, que não tem o menor respaldo nos fatos.

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Duas visões sobre conservação ambiental

1 de outubro de 2013 § 3 Comentários

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Proclamação Presidencial

Através da caça e da pesca esportivas, tradições que vêm passando de geração em geração, as famílias têm estreitado os seus laços e as pessoas comuns vêm forjando a sua conexão com a Natureza. É gente que se levanta antes do sol nascer para lançar uma isca através da neblina nas águas de um riacho ou para esperar a caça enquanto a floresta vai aos poucos despertando. Pais têm ajudado seus filhos a tirar o seu primeiro peixe ou a aprender a lingaugem dos pássaros. No Dia Nacional da Caça e da Pesca nós celebramos essas velhas tradições e renovamos o nosso compromisso de preservar os locais que têm sido o palco delas.

Trabalhando em todos os níveis do governo junto com organizações privadas e defensores da conservação ambiental, meu governo lançou a Iniciativa em Favor dos Esportes de Natureza. O objetivo é envolver todos os americanos comuns na luta pela proteção e restauração desses biomas e dessas águas que amamos tanto e restabelecer a relação de cada cidadão deste país, independentemente da sua origem ou da sua idade, com os esportes de natureza. Os pescadores e caçadores esportivos têm feito a sua parte, levando adiante a tradição e atuando como uma das maiores forças da Nação na defesa dos ambientes selvagens.

Para além do aspecto da valorização de antigas tradições, os esportes de natureza sustentam milhões de empregos. A caça e a pesca são responsáveis por um segmento essencial dessa indústria, incentivando o turismo, fortalecendo a economia nacional e financiando programas de conservação com a compra de licenças de pesca ou iniciativas  como o Selo do Pato (uma das mais antigas e eficazes iniciativas de arrecadação de fundos entre caçadores para a compra e preservação de banhados).

Neste dia, enquanto refletimos sobre a valorização que a caça e a pesca trazem para nossas vidas – do reforço dos laços de família à renovação do nosso apreço pela natureza – vamos tratar de garantir que as futuras gerações terão a mesma oportunidade que nós de desfrutar essas experiências.

É por tudo isso que eu, Barak Obama, Presidente dos Estados Unidos da América, pela autoridade que me é investida pela Constituição e pelas leis deste país, proclamo o Dia 28 de Setembro de 2013 como o Dia Nacional da Caça e da Pesca Esportivas. Convoco todos os cidadãos a honrar este dia com programas e atividades apropriadas à data.

E para tanto assino neste 27º dia de setembro do ano do senhor de 2013 e no 238º ano da Independência dos Estados Unidos da América.

BARACK OBAMA

É graças a esse espírito e às políticas que dele decorrem que os Estados Unidos da América, a maior economia do mundo com seu território plenamente integrado ao processo de exploracão econômica, é também o país/continente com a maior área de ambientes selvagens preservados em proporção ao todo, mais que a própria África, e com populações de fauna nativa, especialmente as espécies mais caçadas, frequentemente maiores que as que se calculava que existiam na época do descobrimento.

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Enquanto isso, no Brasil…

(reproduzo o artigo “Enquanto as florestas ardem” que escrevi em março de 1999 para o extinto Jornal da Tarde; avalie você mesmo se algo mudou para melhor desde então)

Segundo a revista Nature, a área devastada na floresta amazônica pode ser o dobro dos 16,8 mil quilômetros quadrados calculados pelo Inpe.  Esta é apenas a última das sucessivas notícias de recordes de destruição da natureza reproduzidas anualmente na imprensa brasileira.  Não obstante, nem o governo nem as ONGs que integram o Conama, sem o beneplácito das quais nada acontece em matéria de política ambiental no Brasil, se rendem ao clamor desses resultados.  Os ambientalistas de gravata voltam às suas pranchetas e, com suas assessorias jurídicas, produzem uma nova catadupa de leis violentas e inúteis e os políticos se apressam em aprová-las.  E todos vão dormir com a consciência tranqüila enquanto as motosserras cantam e a floresta insubstituível arde.

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Tem uma força irresistível, como se vê, o fenômeno que tanto impressionou Warren Dean, autor de A Ferro e Fogo, Uma História da Destruição da Mata Atlântica, que é na verdade uma história da violência do desenvolvimento econômico brasileiro, de nossa renitente aversão à ciência e dos raros quixotes que, ao longo de nossa história, tentaram provar as vantagens dela sobre o preconceito, que, como já dissemos aqui, mais de uma vez, deveria ser adotado como livro obrigatório em todas as escolas do Brasil.

O que vai levando à irremediável perda do último ecossistema ainda em condições de ser conservado no Brasil e no planeta são, muito mais do que a ignorância e a brutalidade dos agentes diretos desse crime, o empedernido apego aos preconceitos e a recusa deliberada da ciência, da técnica e até da prova do ensaio e do erro, cuja descoberta levou o homem a dominar o planeta, por parte daqueles que, em posição de reformar o

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distorcido direcionamento das políticas ambientais brasileiras, insistem na mesma linha que vem fracassando há 499 anos ininterruptos, mesmo estando de posse de amplo conhecimento de tudo que, no resto do mundo, produziu resultados positivos no sentido da conservação ambiental.  A tal ponto que, a esta altura, nos perguntamos se, em boa parte dessas organizações, não estará morto o ideal em nome do qual elas foram criadas, e traídos os heróis da luta pela implantação de uma consciência ambiental no Brasil que as puseram em pé, tendo tomado seu lugar o apego ao poder e às luzes da mídia e, em alguns casos, também o amor ao dinheiro, que flui com disposição tanto maior, de contribuintes bem-intencionados de todo o mundo, quanto mais dramáticos forem os relatórios da destruição.  E isto porque a única ação dessas organizações que produz resultados concretos (novos aportes de fundos) é a elaboração desses relatórios, invariavelmente mais dramáticos do que o último, no que, ao mesmo tempo, correspondem à realidade e denunciam a completa inocuidade da ação dos que os subscrevem para deter a destruição.

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Para conseguir deter essa destruição, sabem as ONGs, sabe o governo brasileiro, sabe o mundo todo, só há um caminho, nesta sociedade humana, cuja característica principal e cada vez mais dominante é a de ser economicamente dirigida em tudo que faz ou deixa de fazer. É a pressão econômica que destrói os ecossistemas.  E só uma pressão econômica mais forte poderá salvá-los, como intuiu Theodore Roosevelt há exatos 100 anos.  Hoje, neste mundo poluído onde o mercado é a força onipresente e incontestável e os espaços abertos e a natureza intacta têm o valor que ele atribui a tudo que é raro, a intuição de Roosevelt se transformou numa realidade pujante que, em toda a parte, com a única exceção do Brasil, emprega, educa e rende, enquanto vai resgatando ecossistemas da sanha de madeireiros e outros predadores, para reformá-los e devolvê-los à natureza.

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Associada à técnica e à ciência, que só ela pode produzir e sustentar, a economia dependente da conservação ambiental tem produzido milagres em todo o planeta.  O tamanho esmagador dos recursos que se levanta, ano a ano, com o turismo, cada vez mais disputado, ligado à caça e à pesca esportivas – o mais diretamente dependente do bom manejo da fauna e da flora, objetivo central de qualquer política ambiental digna desse nome – e a outras formas de turismo ecológico – que, sem a caça e a pesca, não se interessa senão por sítios de menor importância ambiental e maior apelo visual – levou, há muito tempo, à superação da discussão sobre o melhor retorno econômico dos espaços em disputa por outras formas de exploração.  A vantagem dessas formas de exploração ambientalmente positivas é uma realidade esmagadora, e essa indústria avança rapidamente, em todo o planeta, com exceção do Brasil, restituindo à natureza áreas antes ocupadas pela agricultura, pela mineração ou pela exploração madeireira, infinitamente menos rentáveis.

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O governo brasileiro e as organizações de ambientalistas estão cansados de saber disso.  Seria impossível que não soubessem, dada a abundância de informação a respeito em todas as mídias do planeta e à infinita multiplicação dos casos de sucesso.  Mas aquilo que ninguém discute no resto da Terra continua sendo tabu no Brasil, continua sendo proibido por lei apesar do resultado catastrófico de nossa insistência no errado.  Na verdade, o foco da resistência está hoje nas organizações ambientalistas que se deixaram seduzir pelos apelos do poder e pelo jogo de cooptação que se pratica em Brasília, e trocaram as botas e barracas pelos ternos e gravatas.

É um fato notório que, em todas as áreas técnicas de todos os órgãos ambientais federais e estaduais do País, existe a convicção de que não há saída para a tragédia ambiental brasileira fora da que o mundo inteiro encontrou.  Falta, apenas, coragem política para enfrentar a resistência preconceituosa de algumas ONGs com assento no Conama que, indiretamente, ajudam a sustentar a corrupção que grassa nas camadas políticas dos órgãos ambientais, e os batedores de caixa que os sustentam na mídia mais desinformada (especialmente na tevê).

E, enquanto isso, as motosserras cantam e as florestas ardem, à espera de que amadureça o movimento ambiental brasileiro.  Dará tempo?

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Estamos todos virando rinocerontes

10 de junho de 2013 § 9 Comentários

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A grande celeuma do momento é a “revelação” pelo Washington Post e pelo Guardian, em edições sucessivas, de que ha sete anos o FBI e a Agencia Nacional de Segurança (NSA) dos Estados Unidos, amparadas em ordens judiciais ainda que secretas, têm tido acesso a ligações telefônicas de clientes da Verizon, a segunda maior companhia telefônica do país, e a trocas de mensagens suspeitas em nove das maiores redes sociais em uso no país.

Essas “escutas” não podem ser acessadas em seu conteúdo pelos agentes do governo, são, antes, rastreadas contra um programa que detecta conexões entre endereços suspeitos e combinações de palavras em diversas línguas que o computador identifica.

Só as separadas por esses programas automáticos chegam a ser examinadas.

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Tudo isso são ações amparadas no Programa Prisma baseado em lei recentemente renovada pelo Congresso promulgada por Bush Filho em 2001, dentro do espírito do Patriot Act, o pacote de leis de prevenção e combate ao terrorismo que se seguiu ao ataque a Nova York.

É claro que a vigilância não se limita à Verizon e nem, possivelmente, aos sites mencionados mas a todas as comunicações telefônicas e online feitas no país e no mundo. Estes são apenas os casos que os dois jornais puderam comprovar.

E é claro, também, que estão cercadas de todas as garantias que um Estado de Direito pode dar para a consecução de uma missão básica de segurança obviamente necessária para os tempos em que vivemos.

Por isso o que me escandaliza é o escândalo em torno de tão momentosa “novidade”.

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Ha dois dias programas jornalísticos nas TVs de todo o mundo e jornais ao redor do globo todo não falam de outra coisa, sempre no tom sintetizado no iracundo editorial do NY Times que sentenciou que o governo Obama “perdeu toda a credibilidade em matéria de transparência”, que “usará todo poder que lhe for dado e muito provavelmente abusará dele”, etc. , etc. e tal.

É função básica da imprensa saber o que e como os governos estão fazendo e prestar-nos contas disso. É para isso que ela foi inventada nas democracias. E ha nesse caso, é verdade também, o fato de Obama ter feito críticas aos abusos em torno do Patriot Act em suas campanhas eleitorais e a obrigação que a ética protestante sente de reagir diante de um flagrante de mentira.

Mas o que definitivamente não ha nele é novidade ou surpresa. Nem mesmo as pessoas menos informadas do mundo que já tenham assistido a algum seriado básico de televisão estão alheias ao fato de que esse tipo de monitoração é feito e, mais que isso, tem de ser feito no mundo em que vivemos, ainda que ninguém goste do que está acontecendo.

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Até aí, portanto, estou como a proverbial “torcida do Corinthians” diante da “novidade“…

A discussão que deveria estar havendo é outra.

O que realmente me choca é ver esse escândalo todo vociferado pelos mesmos jornais que, embora estando entre as maiores vítimas não só da vigilância ilegal, ilegítima e movida por interesses vis que grupos privados praticam, sem ordem judicial ou lei alguma a ampará-los, contra todo e qualquer cidadão do mundo vivo hoje para trocar seus segredos e o “log” das suas preferências, deambulações e hábitos por dinheiro, mantêm um silêncio cúmplice sobre essa prática generalizada dos mesmos meliantes que são também os autores do roubo sistemático de qualquer peça escrita, gravada ou filmada alguma vez transformada em bits, especialmente as informações apuradas a um custo altíssimo por jornalistas profissionais.

E se ha uma ameaça séria à democracia é essa. Pois eles fazem isso de modo tão agressivo, desonesto e implacável que estão matando a profissão que sustenta um elemento constitutivo dos sistemas representativos democráticos de governo que morrerão com ele se o jornalismo profissional morrer.

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O resumo, enfim, é que se houve tempo em que o famigerado “complexo industrial-militar” é que inventava as práticas sujas e as armas que, mais adiante, teriam a sua versão civil e viriam a mudar os costumes do mundo e as práticas de negócios, agora a equação se inverteu.

São as grandes corporações privadas, infinitamente mais poderosas e com infinitamente mais tentáculos estendidos sobre todo o planeta que os pobres governos nacionais (aí incluido o dos EUA), que inventam as armas e os golpes baixos que o “complexo industrial-militar” eventualmente assimilará para levar adiante suas ações que, diga-se de passagem, têm cada vez mais semelhança com ações policiais focadas e restritas do que com as antigas ações de guerra.

A guerra sem regras nem fronteiras e as violências contra os direitos civis são os açambarcadores gigantes, especialmente os concentrados na operação das grandes ferramentas globais de comunicação, que levam a cabo.

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A covardia moral humana, entretanto, ao contrário do que se afirma, é mais forte até que o instinto de sobrevivência pois, diante da clareza dos fatos prevalece o critério do milênio passado de apedrejar a “CIA” da vez, o que para os dinossauros da imprensa continua parecendo bonito e heroico, mas não os novos tubarões travestidos de heróis da “liberdade na rede” que não passam dos mesmos oportunistas insaciáveis famintos de poder de sempre que estão por trás de todas as grandes tragédias da história da humanidade.

A estes é dado, livremente, gravar as suas conversas, as suas movimentações, as suas gravações, as suas fotos, os seus filmes, e até os seus batimentos cardíacos e as alterações na sua respiração diante dos estímulos subliminares com que eles o provocam para saber mais sobre você do que você mesmo sabe e vender essas informações a quem interessar possa, à sua revelia.

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Tudo isso lhes é franqueado sem que quase ninguém na old mídia os chame pelo nome que descreve o métier a que se dedicam, que junto com a prostituição está entre os mais antigos do mundo, por medo de parecerem menos “modernos” do que a maioria.

Enfim, nada de novo sob o sol, como sempre.

O que estamos assistindo é só a mais uma das vésperas das grandes tragédias que assolam a nossa espécie de tempos em tempos, e à onda de covardia coletiva que costuma antecedê-las, idêntica à que foi magistralmente descrita na peça O Rinoceronte, de Ionesco, sobre a cidade em que, um por um, os habitantes se vão metamorfoseando em rinocerontes sem que ninguém, menos um solitário cidadão, admita o que está acontecendo ou faça nada para preservar seu senso crítico e, com ele, a sua condição humana, por medo de destoar do discurso prevalecente na manada.

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É aí que mora o perigo

16 de novembro de 2012 § 1 comentário

O Capitalismo de Estado chinês é o marco ao pé do qual foi enterrada para sempre a ilusão que embalou os sonhos de certos estudiosos das ciências sociais de que o capitalismo é capaz de engendrar a democracia, e vice-versa.

Desde que, no final dos anos 70, Deng Xiaoping proclamou, com alguns séculos de atraso em relação aos protestantes, que “Enriquecer é glorioso”, esses rousseaunianos às avessas vêm esperando em vão que o “socialismo de mercado”, ao estimular a demanda reprimida por mais liberdade, acabe por empurrar a China para mais abertura política.

O 18º Congresso do Partido Comunista Chinês que delibera a sucessão no comando da ditadura que governa a China desde 1949, acaba de reafirmar textualmente que não há no horizonte qualquer sinal de relaxamento.

O que há, ao contrário, é um muito concreto movimento universal de refluxo do capitalismo democrático, aquele caracterizado pela oposição do poder do Estado ao poder do Capital, para fazer frente à competição predatória que os grandes monopólios chineses estão impondo ao mundo na disputa pelo mercado dos manufaturados que ainda sustentam a maior parte dos empregos do mundo.

Dos Estados Unidos democrata-goldmansachianos de Barak Obama ao Brasil petista-gerdau-mckinseyniano de Dilma Rousseff e Fernando Haddad, passando por onde mais se queira passar, o Estado e o Capital cada vez mais se dão as mãos com a consequência necessária de que não sobra em cena nenhuma força capaz de se lhes opor.

A lição reintroduzida pelo pragmatismo chinês, superados os mal entendidos do século 20, é a de que nada se parece mais com o “centralismo democrático” leninista que a organização interna de uma empresa capitalista, havendo, portanto, muito mais a aproximar do que a afastar o governante autoritário do megaempresário, estes irmãos siameses que nasceram para buscar o poder pelo caminho do dinheiro ou o dinheiro pelo caminho do poder.

A verdade histórica, aliás, é que eles sempre andaram de mãos dadas sendo a democracia – um artifício da inteligência inventado exatamente para forçá-los a separar-se e opor-se um ao outro – um mero interregno a truncar o livre curso das forças da natureza nos pouquíssimos lugares onde chegou a realizar-se de modo pleno.

E no entanto, todos os segmentos “educados” dos diversos países do mundo, sob a regência de uma imprensa em crise que, por assim dizer, lidera a onda mundial de pânico, age e vocifera como se o que estivesse acontecendo fosse precisamente o contrário.

O problema é que, especialmente quando estão com o rabo preso no torniquete da crise da hora, as pessoas costumam perder todo sentido de perspectiva. Que dizer, então, da perspectiva histórica.

E é aí que mora o perigo.

O mundo viveu o certame Obama x Romney como se fosse seu. Num instigante artigo para o New York Times anterior à reeleição, Capitalists and other Psycopaths, William Deresiewicz argumentava com humor para concluir que “a ética, no capitalismo, é puramente opcional e extrínseca à sua natureza”.

Não é só “no capitalismo”. A ética é extrínseca aos seres humanos enquanto espécie. É uma construção defensiva das sociedades humanas (entidade com natureza própria) que tem de ser imposta à força a cada um de seus membros.

O pormenor sintomático é que, para ilustrar seu ponto, Deresiewicz teve de viajar 300 anos para traz para lembrar “A Fábula das Abelhas – Vícios Privados, Benefícios Públicos”, do inglês Bernard Mandeville, “um Maquiavel do reino da economia que nos mostrou como realmente somos e afirmou que a sociedade comercial criava prosperidade ao constranger (para uma boa direção) os nossos impulsos naturais para a fraude (não há lucro sem ao menos uma pequena mentira), a luxúria e o orgulho” (que criam a demanda), de onde saiu o conceito que teria inspirado Adam Smith a formular o seu sobre “a mão invisível” do mercado.

A ‘mão’ de Smith era ‘invisível’”, alertava Deresiewicz. “Mas a de Mandeville tinha de ser ‘manejada com destreza por um político muito qualificado’, ou seja, em termos modernos essa ‘mão’ seriam a lei, a regulamentação e os impostos”.

Os Estados Unidos podem dar-se o luxo de dividirem-se apaixonadamente em torno da nuance da “mão visível” x a “mão invisível”, que parece ridícula para quem vive a realidade esmiuçada no julgamento do Mensalão, porque nos 300 anos que nos separam do início dessa discussão têm sido uma excrescência histórica: o primeiro e único governo da Terra desenhado a partir da premissa de que “os homens não são santos”, por isso necessitam que a lei lhes imponha à força um comportamento (ético) que os afaste de sua natureza corrupta, aperfeiçoado logo a seguir com a definição complementar de que a principal função do Estado, encarnado por gente movida a sede de poder, é impor limites ao Capital, detido por gente movida a sede de poder, mesmo quando o que o Capital conquista é estritamente função de mérito.

Fogo contra fogo.

Já a esmagadora maior parte do resto do mundo vem desde os primórdios e sem nenhuma interrupção, submetido a ligeiras variações do eterno modelo de um rei cercado de seus barões para os quais não vale lei nenhuma vivendo em eterno banquete, enquanto o resto da patuléia pasta.

O medo é o maior inimigo da razão, já se sabe. Mas a Era das Comunicações Instantâneas já vai longe o bastante para que os jornalistas vacinem-se contra a ilusão da “aldeia global”, que por enquanto só se realizou no que diz respeito ao alcance da voz, e reaprendam a focar seu discurso na sua própria realidade em vez de confundi-la com a realidade alheia.

Está na hora, aliás, de todos os que vivem sob patrões e governos se lembrarem, dentro e fora dos Estados Unidos, que o auge da democracia foi a cruzada antitruste que o tsunami chinês afogou e que este continua sendo o grande objetivo a ser perseguido.

Ou seremos todos engolidos, feito patos laqueados, e jogados de volta para o passado da selvageria política.

Lições universais da presidente Dilma – 1

26 de setembro de 2012 § 1 comentário

Duas matérias publicadas hoje – Tiro ao Pé, do ex- diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central (fernandohenriqueano), Alexandre Schwartzman, na Folha (aqui),  e Quantitative Easing, de Philip Cogan na didática seção de vídeos The Economist Explain (aqui) – oferecem em termos bastante mastigáveis as informações básicas que o ministro Mantega e a presidente Dilma têm a obrigação de conhecer e que a poderiam ter poupado do papel, pouco edificante para a imagem do Brasil, a que ela se prestou ontem nas Nações Unidas, de dizer bobagens ao mundo em tom professoral.

Os dois conjuntos de informação vêm a calhar, também, para mostrar a má fé das tentativas do grande artífice da hiperinflação brasileira, Antônio Delfin Netto, de por em pé de igualdade a gestão das finanças publicas orquestrada pelo PT e as ações anticíclicas de governos mais sérios e seus bancos centrais ao redor do mundo que critiquei no artigo de ontem.

É claro que é preciso considerar que quando se atira a esses destampatórios a presidente Dilma tem em mente muito mais o eleitor brasileiro que vai vê-la por o dedo na cara dos poderosos do mundo em um ou dois takes de alguns segundos no Jornal Nacional do que ser levada à sério por Barak Obama e cia. ltda.

Mas eu acredito na honestidade fundamental da presidente Dilma, o que não me tranquiliza nada. Ao contrário. A fé com que ela e seu ministro dão lições ao mundo é tal que, consideradas todas as provas disponíveis da pouca familiaridade destes, até ontem, “utopistas profissionais”, com as sutilezas e realidades das altas finanças do mundo real, sugere que pode bem dar-se o caso, bem mais grave, de eles realmente acreditarem no que estão dizendo.

Enfim, conjecturas…

Vamos aos fatos explicados nas matérias citadas para que você possa julgar por si mesmo.

O editor do Economist explica que os principais agentes da expansão monetária nas economias modernas são os bancos privados através da expansão da oferta de crédito que acaba virando dinheiro novo em circulação e que como, em função dos abusos e desvios que se tornaram conhecidos e explicam a presente crise, esses agentes passaram a destruir moeda em quantidades ciclópicas em vez de aumentar a quantidade dela em circulação.

É isto, exatamente, que tem mantido o mundo à beira do abismo.

Os governos dos Estados Unidos e da União Europeia não estão propriamente fabricando moeda e aumentando a sua disponibilidade no mercado, portanto, estão tentando repor em circulação uma parte da moeda que circulava e hoje não circula mais porque cai no buraco sem fundo do rombo dos bancos privados que antes garantiam a oferta desse insumo sem o qual a economia do mundo para de tranco.

Uma coisa anula a outra e não ocorre, propriamente, um aumento líquido da oferta de dinheiro em circulação nem o efeito inflacionário líquido, certo e imediato que Dilma e Mantega lhe atribuem.

Apenas mantem-se a roda girando.

Alexandre Schwartzman é bem mais específico.

Ele lembra que, ao contrário do que Dilma afirma, a economia americana depende muito pouco do comércio internacional. Em 2011, as exportações representaram 13% do PIB enquanto as importações pesavam 16%, valores bem próximos aos observados no Brasil (12% e 13% do PIB, respectivamente).

La, como aqui, o principal motor de expansão da demanda é o mercado interno (…) que representa mais de 70% do PIB.

(…) entre 2009 (o fundo do poço) e 2011 o PIB americano cresceu algo como US$ 540 bilhões. O consumo das famílias representou 3/4 desse crescimento.

O investimento não residencial também contribuiu, adicionando cerca de US$ 120 bilhões ao PIB.

A ausência notável é o investimento residencial, no qual o estouro da bolha imobiliária produziu maior estrago: queda de US$ 17 bilhões, em contraste com uma expansão média de US$ 32 bilhões por ano no período pré-crise.

À luz desses números, analistas mais bem informados (ou que, ao menos, estejam dispostos a buscar as informações) concluiriam que o objetivo dessa nova rodada de expansão monetária (a 3ra nos EUA) deveria ser precisamente reativar o investimento residencial.

Não por acaso, aliás, no anúncio do QE3 o Fed (Federal Reserve) deixou claro que a expansão monetária adicional (US$ 40 bilhões por mês) será integralmente destinada à compra de títulos lastreados em hipotecas, de modo a reduzir as taxas de juros desses empréstimos e assim estimular as compras de imóveis.

(…) o Fed condicionou a continuidade (desta rodada de quantitative easing) à queda mais expressiva do desemprego. Enquanto este, hoje na casa de 8%, não se reduzir a níveis compatíveis com a estabilidade de preços (em torno de 5% a 5,5%), a expansão não cessará.

Por todos os ângulos que se observe, trata-se de política voltada primordialmente para o mercado interno.

(…) (portanto) o QE3, se exitoso, irá beneficiar o Brasil mais do que a presumida desvalorização do dólar poderia prejudicá-lo. A despeito da flutuação do dólar, importações americanas seguem de perto a demanda interna, que se encontrava no ano passado algo como 14% abaixo do valor que teria prevalecido sobre a tendência pré-crise.

A recuperação do mercado interno poderia acrescentar, portanto, cerca de US$ 2,5 bilhões por ano às exportações brasileiras para os EUA, que em 2011 foram de US$ 25 bilhões.

Nesse aspecto, a reclamação sobre a política expansionista dos BCs mundiais merece medalha de ouro na categoria ‘tiro ao próprio pé’“.

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