Outro Brasil

29 de dezembro de 2020 § 10 Comentários

Racismo dublado

8 de dezembro de 2020 § 33 Comentários

Se há controvérsia quanto ao diagnóstico do racismo no Brasil o erro do remédio “de uso tópico” prescrito – as “ações afirmativas” ancoradas no racismo institucionalizado que pune ou premia pessoas segundo a cor da sua pele – é um fato medido.

Toussaint-Louverture, no Haiti de 1791-94, comandou a primeira força na Terra a derrotar Napoleão Bonaparte com a bandeira da liberdade. Mas, sem a democracia e a elevação do nível geral de educação que só a democracia promove o Haiti que ele fundou, depois de 16 governantes depostos ou assassinados nas disputas pelo poder, acabou nas ditaduras ferozes dos Tonton Macoute do “Papa” e do “Baby Doc” e, desde então, vive mergulhado na corrupção generalizada, desde sempre a doença que mais mata no mundo. 

A exploração do homem pelo homem, que levava africanos a entregarem africanos aos traficantes de escravos das Américas, desaguou na exploração de ex-escravos por ex-escravos no país nascido de uma rebelião de escravos.

Em 19 de novembro passado, véspera do “Dia da Consciência Negra”, João Alberto de Freitas, quase negro, é espancado e morto após agredir um segurança quase branco de uma loja do Carrefour em Porto Alegre, e aquela imprensa que não pensa, é pensada – e ultimamente em inglês – sai “dublando” o #Vidas negras importam! que mantinha ha meses engatilhado na garganta à espera de um pretexto.

Dois dias antes João Alberto estivera no mesmo supermercado embriagado e sem máscara. Embora a imprensa não investigue, corre a informação de que a moça a quem se vê nas gravações das câmaras ele se dirigir de forma a provocar a primeira reação dos seguranças é uma velha conhecida. Mas não importa. Ao ser escoltado para fora sem ser tocado, João Alberto acerta um murro na cara de um dos seguranças e … a cena pega fogo …

Essas circunstâncias eliminam a brutalidade que resultou na morte dele? 

Certamente que não. 

Mas descarta liminarmente a hipótese de que a agressão a João Alberto foi desencadeada gratuitamente apenas por ter ele a pele alguns tons mais acima do “branco” que a de seus agressores. 

Tem-se no máximo um homicídio culposo, mas o “jornalismo de dublagem” exige mais. Não conseguiu reproduzir as manifestações de rua que queria desencadear porque o Brasil Real continua muito melhor que suas elites, mas talvez consiga o “homicídio triplamente qualificado” que pode resultar do acovardamento padrão diante desse tipo de pressão que impera hoje entre essas ditas “elites” no Brasil e no mundo, o que não seria mais que uma versão estatizada da Lei de Lynch. Mais um grande feito desta imprensa que, quando “vai às compras” nos Estados Unidos, em vez de importar o voto distrital com recall, os direitos de iniciativa de lei popular, de referendo das leis dos legislativos e de promover eleições periódicas de retenção (ou não) de juizes que são a cura da corrupção e o fim da exploração vil do favelão nacional pelo banditismo estatizado, importa o racismo “raiz”, o ódio entre os sexos e a criminalização do amor.

O Brasil que o “jornalismo de dublagem” está tentando construir é bem pior que o original. Neste, do homem quase negro morto pelos seguranças quase brancos, praticamente não houve brancos durante 389 anos, até começar a imigração dos explorados da Europa do feudalismo, a versão totalitária da privilegiatura sustentada pela força bruta que está aí até hoje e desde sempre tem sido a divisória real entre a humanidade escravizadora e a humanidade escravizada de todas as raças, em todos os tempos e nos quatro cantos da Terra. 

A Nação brasileira mesmo foi forjada pela Campanha Abolicionista, mais uma das verdades que essa imprensa decaída e uma academia doente tentam soterrar em “narrativas” desonestas. O movimento que, dos meados até o final do século 19, mobilizou o país por 40 anos ininterruptos fez o Brasil, pela primeira vez em sua história, reconhecer-se como um todo que tinha a mesma idéia fundamental sobre o que não queria ser. Até então o país não passava de um punhado de vilas quase independentes que mal se conheciam umas às outras, mas que eram pedaços de humanidade que, por seus portos e suas picadas, conseguiam, como têm conseguido sempre os pedaços de humanidade de todos os tempos, manterem-se conectados ao todo … fundamentalmente pela esperança da liberdade.

É em 1850 que se forma no Rio de Janeiro a Sociedade Contra o Tráfico de Africanos de Tavares Bastos, a primeira de centenas, em contato com a British and Foreing Anti-Slavery Society (BASS).

Mas o abolicionismo brasileiro foi mais moderno … e mais cínico que aqueles em que se inspirou. “Se o escravismo estadunidense fora um sistema coeso e desabrido de apelo à desigualdade racial e à retórica religiosa, o nosso foi enrustido” – diz Angela Alonso na conclusão do seu monumental “Flores, Votos e Balas”, uma história da Campanha Abolicionista que o Brasil de hoje faria bem em re-examinar, senão por tudo mais, pela sua surpreendente modernidade tática, que garantiu a penetração do movimento em todas as classes sociais e a mobilização do país inteiro. “Em vez de escravistas de princípio, com legitimação enfática, tivemos escravistas de circunstância: compelidos pela conjuntura a justificar a situação escravista sem defender a instituição em si que, como reconheciam todos, a civilização e a moral condenavam (…) A Câmara e o Senado defendiam a situação escravista mas não a escravidão (…) Ninguém no Brasil combate a emancipação. Porem quer-se um procedimento ‘racional’, prudente, prevenido, não se sacrificando a propriedade atual”…

Pouco mudou, desde então, no Brasil dessa privilegiatura que não larga o osso apesar de ser a primeira a reconhecer a própria iniquidade. Nossos parlamentos nunca representaram nada senão as pessoas sentadas nas suas bancadas. Continuam como sempre – outorgados e não negociados e contratados que foram e continuam a ser os seus poderes por sistemas eleitorais espúrios – não só impermeáveis como fundamentalmente antagônicos ao Brasil Real. São eles a força reacionária que nos mantêm amarrados a um passado revogado em todo o resto do planeta, com exceção de Brasília e seus arredores, e à esta nossa miséria medieval meticulosamente construída e mantida. 

O que mudou mais, de lá para cá, é o posicionamento da imprensa. Na Abolição, de que ela foi um dos motores essenciais, a maior parte da imprensa brasileira estava do lado certo da História.

Bye, bye, Oscar!

10 de setembro de 2020 § 43 Comentários

Depois do British Academy of Film and Television Arts a Academy of Motion Pictures Arts and Sciences anunciou terça-feira que qualquer filme que queira candidatar-se ao Oscar terá de atender uma lista de exigências que incluem “o uso de atores de  grupos raciais ou éticos sub-representados; roteiros centrados nesses temas; lideranças criativas ou posições-chave ocupadas por mulheres ou membros de grupos raciais e éticos, da comunidade LGBTQ+ ou pessoas com problemas físicos ou cognitivos; estagiários pagos pertencentes a esses grupos e marketing de distribuição com componentes de diversidade”.

Numa escalada de três anos começando pelo Oscar do ano que vem onde pelo menos dois quesitos já terão de ser atendidos, as exigências serão crescentes nas áreas de Atuação, Temas e Narrativas, Liderança Criativa e Equipe Técnica, Acesso à Industria e Oportunidades de Desenvolvimento de Audiências.

Na Alemanha nazista ou na União Soviética e países da Cortina de Ferro, antes da Queda do Muro, assim como na Coréia do Norte de hoje, normas de adequação política sempre condicionaram absolutamente a produção intelectual e artística, sob pena de morte. E mesmo nos próprios Estados Unidos não é a primeira vez que a Academia impõe regras alheias à qualidade do filme como condição para concorrer ao Oscar. Entre 1950 e 1957 eram desqualificados filmes que incluíssem qualquer ator, diretor ou pessoa com função proeminente na produção que tivesse sido membro do Partido Comunista ou recusado testemunhar para o Comitê de Atividades Anti-americanas do Congresso, período cujo apedrejamento tornou-se obrigatório para qualquer pessoa sonhando com fazer carreira no cinema americano ou de qualquer outra nacionalidade hoje.

Mesmo com um paralelo tão evidente não caiu a ficha dos novos macarthistas de Hollywood, o que confirma minha tese de que o melhor investimento do momento é comprar lotes de passagens para Marte pois é já que elas estarão sendo disputadas a peso de diamantes nesse mundo insuportavelmente chato que está aí.

Mais uma vitória do mau gosto

11 de junho de 2020 § 35 Comentários

Péssima surpresa – ainda que nem tão surpreendente assim – ao descer neste fim-de-semana para o Vale do Ribeira. Estão destruindo o (para padrões brasileiros) tradicionalíssimo Restaurante do Japonês lá pelo quilometro 350 da Regis Bittencourt (a temida BR 116 cuja marcação de quilometragem é um mistério que jamais alguém me conseguiu explicar). Vai sair ali mais um Graal, ou seja, mais um daqueles “nadas” com cara de nada, iguais a todos os nadas sobre os quais flutua, perdido e sem referências, este país sem história.

Vão com ele gerações inteiras de memórias e, possivelmente, também a lojinha de pesca que resistia bravamente, marco de memórias mais recentes mas ainda heroicas, dos primeiros dedicados pescadores com isca artificial que, lá pelos anos 60 e 70, aprenderam a duras penas as artimanhas dos black bass plantados na Fumaça, uma das represas mais altas do latifúndio da família Ermírio de Moraes na Serra do Mar, que eles preservaram mas só para eles em troca da destruição dos mitológicos caniones de Mata Atlântica cavados pelo rio Juquiá-Guaçu, represado sucessivamente para geração de eletricidade para a Companhia Brasileira de Alumínio.  

Aquilo é um símbolo do Brasil. Ainda que mutilado no que tinha de único – as escavações feitas pelo maior rio a se despenhar Serra do Mar abaixo pelo meio da mata virgem – a gente ainda agradece à família que manteve pelo menos o entorno dele mais ou menos como era, ainda que só para os seus próprios olhos, porque não ha mesmo outro jeito de fazer isso no país onde os “ambientalistas” mandam fechar os parques nacionais porque, não admitindo a sua exploração econômica para a caça e a pesca esportivas e o turismo ecológico como em todos os outros países do mundo sem nenhuma exceção, impedem que o povo se eduque ecologicamente. O que sabe o brasileiro que pensa que sabe alguma coisa sobre conservação ambiental é o que lhe diz a Rede Globo porque viver no mato e do mato é proibido por lei e considerado “imoral” nesta nossa ilha inexpugnável de estupidez.

Desde que eu tinha 4 ou 5 anos de idade (estou com 68) parava lá com meu pai a caminho de Cananéia e daquele maravilhoso Lagamar que ainda resiste lá à violência do Brasil e ao mau gosto de São Paulo, para um clássico pastel de queijo dos melhores que o país já fez, receita que chegou quase intacta de boa até ha pouco menos de um mês. E tudo continuava familiar. O piso de pastilhas vermelhas salpicadas de amarelo. Os grandes leques japoneses enfeitando as paredes (o biombo, espetacular, foi surrupiado recentemente, coisa de dois ou três anos), as lâmpadas de papel decorado e outros objetos e produtos genuinamente japoneses continuavam a ser vendidos. Até o tanque de carpas a caminho do banheiro continuava lá E COM AS CARPAS VELHAS E BEM TRATADAS!

Nos meus tempos de moleque aquilo, como todas as cidadezinhas do alto da Serra, tinha aquele ar e aquele cheiro típicos de “sertão”: pequena circulação de mateiros e tropeiros com suas roupas “sem cor”, facões pendurados, ferramenta única com que se fazia literalmente tudo, e cheiro de fogão a lenha. 

Teve o mesmo destino de outros ícones da paulistanidade. Ha nesta latitude do Brasil um tipo resiliente de imbecil que paga caro para comprar um sucesso resistente às décadas  que ele não ajudou a construir…mas é burro o bastante para destruir e descaracterizar até que não sobre nada do que o fazia famoso, especialmente a antiga freguesia. O Restaurante do Japonês rendeu-se ao mau gosto. É mais um Rodeio, mais um Pandoro, mais um Bar Brahma. Espero que seu novo dono colha o mesmo resultado dessas outras vitimas da vitória do mau gosto.

A minha cara, pelo menos, não verão mais.

A razão é filha do diálogo

10 de dezembro de 2017 § 9 Comentários

Noticia que calha bem para essa nossa véspera de eleição em tempos de tribalismo algorítmico e distilações de ódio na internet dada pelo site http://www.books.fr/, que sempre aponta o que de mais interessante vem sendo publicado no mundo dos livros (sim, felizmente eles ainda existem!).

***

Estudos de Dan Sperber e Hugo Mercier, dois pesquisadores de ciências cognitivas, reunidos no livro “O Enigma da Razão” demonstram que a razão humana só funciona realmente bem num sentido dialógico. Simplesmente ela não evoluiu para funcionar com raciocínios abstratos solitários.

“As condições normais de utilização da razão são sociais e, mais especificamente dialógicas. Fora desse contexto não ha garantias de que o ato de raciocinar resulte em benefício para o raciocinador”.

Vários estudos de diferentes especialistas vêm afirmando, nos últimos 50 anos, que a nossa maneira de pensar esta longe de ser tão racional quanto se afirma normalmente. Dan Sperber e Hugo Mercier têm uma abordagem diferente. Eles procuram demonstrar que as fraquezas da razão apontadas nesses estudos são, na verdade, forças da razão, só que desvirtuadas pela utilização em contextos errados.

O ponto é que nossa capacidade de raciocinar é hereditária e, portanto, vem se adaptando segundo as leis da evolução. Nossos ancestrais não tinham de resolver problemas de lógica abstratos, eles tinham sobretudo de encontrar meios de viver e agir coletivamente e convencer seus semelhantes a fazê-lo.

A conclusão geral é, portanto, que para melhorar nossas decisões e produzir pensamentos de qualidade mais alta a natureza exige que dialoguemos uns com os outros.

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