A razão é filha do diálogo

10 de dezembro de 2017 § 9 Comentários

Noticia que calha bem para essa nossa véspera de eleição em tempos de tribalismo algorítmico e distilações de ódio na internet dada pelo site http://www.books.fr/, que sempre aponta o que de mais interessante vem sendo publicado no mundo dos livros (sim, felizmente eles ainda existem!).

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Estudos de Dan Sperber e Hugo Mercier, dois pesquisadores de ciências cognitivas, reunidos no livro “O Enigma da Razão” demonstram que a razão humana só funciona realmente bem num sentido dialógico. Simplesmente ela não evoluiu para funcionar com raciocínios abstratos solitários.

“As condições normais de utilização da razão são sociais e, mais especificamente dialógicas. Fora desse contexto não ha garantias de que o ato de raciocinar resulte em benefício para o raciocinador”.

Vários estudos de diferentes especialistas vêm afirmando, nos últimos 50 anos, que a nossa maneira de pensar esta longe de ser tão racional quanto se afirma normalmente. Dan Sperber e Hugo Mercier têm uma abordagem diferente. Eles procuram demonstrar que as fraquezas da razão apontadas nesses estudos são, na verdade, forças da razão, só que desvirtuadas pela utilização em contextos errados.

O ponto é que nossa capacidade de raciocinar é hereditária e, portanto, vem se adaptando segundo as leis da evolução. Nossos ancestrais não tinham de resolver problemas de lógica abstratos, eles tinham sobretudo de encontrar meios de viver e agir coletivamente e convencer seus semelhantes a fazê-lo.

A conclusão geral é, portanto, que para melhorar nossas decisões e produzir pensamentos de qualidade mais alta a natureza exige que dialoguemos uns com os outros.

Dois discursos contra a cretinice

20 de outubro de 2017 § 21 Comentários

Futebol e filosofia de botequim

19 de julho de 2016 § 11 Comentários

Meu pai fazia, meio na brincadeira meio a sério, uma análise “sociológica” dos esportes nacionais como retratos da essência de cada povo e do desempenho dos países nas grandes competições internacionais que era “infalível”. O futebol era onde ele fechava as suas grandes sínteses dos “caráteres nacionais”.

Eu aprendi com ele essa mania e hoje é automático, qualquer jogo que vejo la me vêm essas elucubrações.

O nosso futebol tem por essências o improviso e o espírito de equipe. É o contrário do futebol americano que fuciona na base da definição de metas (a cada “jarda” de jogo tem uma lá, desenhada no chão) e da organização meticulosa de um plano para “supera-las” (combinado e definido “em segredo” a cada jogada a partir de uma coleção de jogadas previamente ensaiadas). É o retrato da “governança corporativa” que eles inventaram lá na virada do século 19 para o 20 e que, nas primeiras décadas do século passado, trasformaram em modelo para tudo que fazem. Chato e sem imaginação mas eficiente…

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No tempo em que o Pelé fazia esses gols aí em cima, quando fomos os melhores do mundo, o Brasil era pura espontaneidade, alegria e improviso, temperado com solidariedade e “espírito de equipe”. Especialmente o “Brasil profundo“. Quando eu comecei a viajar pelo país no final dos anos 60, o “sertão” era na esquina. De Araçatuba, mais ou menos, para oeste e para norte, mudava-se de Era. Ia-se dentro de um mato só até muito além do Equador. Não tinha estradas, não tinha cercas, não tinha hospitais, não tinha polícia, não tinha nada.

Não tinha Estado!

Quem vivia naquelas lonjuras sabia que, pra tudo, o jeito era se virar com o que estivesse à mão na hora e que, por isso mesmo, todo mundo tinha de improvisar e de se ajudar uns aos outros. Naquelas fronteiras (da “civilização“) todo mundo andava armado e com as armas à mostra porque também a lei era um trabalho coletivo mas o ambiente era totalmente descontraido. Todo mundo se respeitava; todo mundo te recebia sem te conhecer; todo mundo parava nos caminhos para ajudar alguem em dificuldade; todo mundo hospedava todo mundo e dividia o que tinha pra comer com quem chegasse do nada indo pra lugar nenhum.

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Todo mundo jogava junto porque não tinha outro jeito de jogar.

Hoje esse Brasil acabou. Ninguém faz mais nada; compra feito. Ninguém improvisa caminhos, vai pela estrada por esburacada que seja. Ninguém toma iniciativa nenhuma, fica esperando que o Estado venha lhe dar de mamar.

Na pontinha “culta”, saímos do Brasil da USP dos franceses para o Brasil da universalização dos comportamentos dissolutos do “bas fond” carioca de que a televisão fez lei do Oiapoque ao Chuí. Da pureza quase primitiva ao deslassamento da ultra-civilização em voo direto e sem escalas. Aquela liberdade essencial e inocente do Brasil sem fronteiras virou, não a liberdade para, mas a obrigação de esculhambar … e ser esculhambado. A epidemia de crime é filha disso. Ela e o resto da violência que nos cerca vão aumentar ou diminuir juntas. Não dá pra arrumar uma coisa sem arrumar a outra.

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O problema é que o Brasil de hoje não tem a menor ideia do que foi o Brasil de ontem de onde ele veio, ou melhor, de onde ele foi atirado para este de hoje. É que está no pacote da presente ditadura que mistura ignorância e “correção política” sob a qual vivemos apagar qualquer traço daquele passado das escolas, da História e da memória nacionais. O passado que as escolas e as TVs vendem e com que as pessoas, perdidas no espaço, tentam em vão se enraizar hoje é uma falsificação. Nunca existiu.

Isso vai mudar. Ja tá começando a mudar. Quando mudar mesmo, viramos uma nova síntese do que são os dois extremos, como é hoje o futebol europeu. E até lá? Até lá, vamos como estamos: tem por aí, salpicados, esses campeões individuais das modalidades olímpicas, uns “cantores sertanejos” da força física fabricados, fugitivos da miséria, puro esforço, persistência e superação (ou gênios). São os rebentos do nosso “protestantismo” reciclado (e dinheirista).

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Tem também os esportes coletivos de quadra, como o vôlei. São exceções à regra; o lado saude da praia, conexão com o imemorial que é dos poucos espaços cuja intimidade o Estado (e a TV) não conseguem dominar. O vôlei é o retrato da classe média meritocrática sobrevivente; o pouco que sobrou de tudo quanto ainda “joga junto” entre nós.

Mas o futebol “esporte das multidões“, esse deslassou. Tem os cartolas (a reboque da e rebocando a política) recobrindo tudo como cascas de feridas. E tem os jogadores. Quando surge um que nasce abençoado, logo passa a achar que é a torcida que deve a ele e não o contrário. Querem ser feitos; não querem fazer. Estão mais preocupados com o “look” do que com a bola. Os jogos são penosos, sem alegria. As reformas/trocas-de-técnicos são cosméticas. Não resolvem. Não querem resolver. Não vão ao essencial. E a corrupção continua comendo…

O Brasil do povão está no meio de um caminho mas não sabe pra onde. Não jogamos mais nada!

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O Uber e o poderoso chefão

5 de agosto de 2015 § 29 Comentários

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O conflito Uber versus taxistas vem disputando firmemente nas últimas semanas o segundo lugar como prova, já não direi da canina fidelidade da imprensa de hoje à opção preferencial pelo raciocínio do establishment político que ela expressa em quase todas as suas coberturas do que se passa no país, mas de uma recusa nada menos que religiosa em expressar qualquer um que lhe seja próprio que é para o que esse desvio está evoluindo.

É uma pena porque esta é uma rara oportunidade para fazer ver ao vivo e a cores à esta população atarantada pela multiplicação em metástese das suas misérias sem ter nenhuma idéia exata sobre de onde vêm elas, por qual tipo de mecanismo a doença brasileira, uma vez instilada nas veias da Nação pelos traficantes de sempre, passa a se auto reproduzir de forma inteiramente autônoma.

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Considerando-se que entender o mecanismo de reprodução de qualquer vetor de pragas é a única maneira de controlá-las, compreender-se-á imediatamente o peso nefasto dessa omissão.

O que é o motorista Uber de hoje senão o taxista de ontem?

Não foi um prefeito qualquer que teve a idéia, lá nos albores da era do automóvel, de instituir um serviço de alguel ad hoc daquela nova maravilha mecânica a quem, andando a qualquer hora pela rua, achasse conveniente pagar a outrem pela carona que pudesse leva-lo mais rápida e confortavelmente daqui para ali.

Simples e brilhante, a idéia espalhou-se pelo planeta na exata proporção da sua conveniência universal.

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Mas não demorou nada para que, pelo mundo afora, “prefeitos” de todo tipo de partido e de regime político e suas variações menos bem acabadas passassem a arrogar-se o direito de cobrar de quem sustenta assim a própria família uma grossa quantia por uma “licença” para fazer esse trabalho no “seu território” sem incorrer na ira da “sua” força armada.

Assim como Tiradentes fez-se enforcar e esquartejar antes de concordar em dar a tal tipo de parasita 20% do resultado do seu próprio esforço  e, por menos ainda do que isso, a Inglaterra tenha sido forçada a abrir mão do vasto território que são hoje os Estados Unidos, deve ter havido muita revolta e resistência quando pela primera vez um deles meteu a mão no bolso dos proprietários de automóveis de alguel para roubar-lhes, sem nada ter feito, nem pela invenção da máquina, nem pela invenção dessa nova maneira de usá-la, uma parte substancial do que eles suavam para ganhar.

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Hoje, entretanto, entregamos-lhes 41% (contado só o “por dentro“) sem chiar…

O golpe é velho como a humanidade. Tudo que hoje nos é “imposto” com muito palavrório e vaselina começou a nos ser enfiado goela abaixo em troca da vida, pura e simplesmente, por quem tinha a mão mais pesada no cabo da espada sobre quem não tinha condições físicas de enfrentá-lo. Como roubar trabalho alheio desde sempre rendeu muito, os brutamontes contrataram exércitos para dar “escala” ao seu bom negócio, passaram a morar em palácios e chamar-se “reis“, pagar “intelectuais” para dourar a pílula e justificar essa nova forma de escravidão e, mais adiante, empregar padres e juristas para amarrar bem os argumentos destes e fazer deles “leis divinas”, ainda que feitas aqui mesmo no chão. E como o bicho homem é aquele que a tudo se adapta, estabelecida a nova regra do jogo, assim ele passou a ser jogado.

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O único momento difícil em que se oferece alguma resistência a esse tipo de violência tem sido, historicamente falando, o de currar a vítima pela primeira vez. Aceito o fato consumado, porém, o violentado passa a ser o mais zeloso agente da continuação do seu próprio estupro, sob o mesmo tipo de argumento que agora anima a contenda contra os Uber: “Se eu sou obrigado a pagar à máfia, não posso concorrer com quem inventa um jeito de prestar o mesmo serviço sem ser obrigado a faze-lo. Estupre-se todos, portanto“!

O raciocínio lógico, evidentemente, seria o seguinte: “Mas porque, diabos, eu tenho de pagar à máfia? Como foi que embarquei na roubada de me acostumar a isso? Ainda bem que eles me abriram os olhos! Chega! Vou aliar-me aos Uber para deixar de pagá-la também e ter carros e ganhos tão bons quanto os deles porque esta é a maneira mais justa e honesta de ganharmos todos os que trabalhamos para comer, dos prestadores aos usuários do serviço de aluguel de carros”.

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Os jornalistas brasileiros de hoje não conhecem a história do seu métier  e nem têm informação clara sobre o que ele está institucionalmente titulado para fazer nas democracias que é, precisamente, forçar o establishment político a marchar na direção em que ele não tem nenhum interesse direto de andar. Foi isso que aconteceu nas democracias que evoluíram o bastante para dispensar aspas exatamente porque uma imprensa atenta e aguerrida o bastante deu, sempre que preciso, a necessária contribuição à organização da maioria lesada para impor-se à minoria lesante.

Onde, entretanto, a imprensa comportou-se de forma “cínica, mercenária, demagógica e corrupta”, como temia Joseph Pulitzer, ou simplesmente de forma omissa e subserviente como se comporta a nossa, formaram-se públicos “vis” e morreram democracias, nos casos em que se chegou a tanto, ou públicos tão omissos e subservientes “quanto ela mesma” (a imprensa), como vaticinou esse pai do jornalismo moderno.

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E eis aí os nossos taxistas, vítimas do estupro de ontem, aliados ao estuprador para instá-lo a não permitir que saiam virgens os novos taxistas de hoje, em vez de juntarem-se a eles, como seria lógico, para mandar os estupradores para onde eles merecem estar.

Já viu que barulho poderia resultar, neste país estuprado de cabo a rabo, de orientar pelo raciocínio das vítimas essa pauta, em vez de continuar, como em todas as outras, apenas esticando passivamente microfones e gravadores até as bocas de sempre para amplificar “urbi et orbi” a ameaça das falsas “leis divinas”  impostas pelos estupradores?

Talvez até a pátria acabasse sendo salva…

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“Quando a América Latina era o futuro”

10 de maio de 2015 § 13 Comentários

la4O MASP de Lina Bo

O Museu de Arte Moderna de Nova York – Moma – acaba de inaugurar a exposição “América Latina em Construção: Arquitetura 1955-1980”, com curadoria de Barry Bergdoll, que o NYTimes saúda como “o tipo de exposição em que o Moma é mestre”, que são aquelas em que “foge-se de uma visão eurocêntrica do mundo e joga-se luz num período e numa produção quase totalmente negligenciada fora de onde aconteceu”.

la1Complexo residencial desenhado por Rogelio Salmona  em Bogota (1964-70)

A exposição aborda uma época, não tão distante, em que arquitetos e governos sonhavam grande e agiam juntos para mudar o mundo para melhor (…) fossem os governos revolucionários de esquerda ou as juntas militares de direita, todos estavam tomados por essa poética do desenvolvimentismo (…) em que os arquitetos acreditavam que os desafios sociais tinham de ser traduzidos pelo design, que as sociedades humanas mereciam novas formas de beleza e que o desenvolvimento progressista adicionava fé à arte, à natureza e à disposição das pessoas comuns de resistir e seguir adiante”.

la2Escola Nacional de Artes de Havana de Vitório Garatti, Ricardo Porro e R. Gottardi

De Cuba ao Chile, do México à Argentina, as cidades do continente estavam explodindo e o que foi construído em lugares como Havana, Cidade do México, Lima, Buenos Aires, São Paulo e outras inclui-se no que de mais inspirado a arquitetura da era moderna jamais produziu”.

Bergdoll confessa-se especialmente “fascinado” pela arquitetura de Lina Bo Bardi e João Filgueiras Lima,  dito Lelé, “que deveria ser melhor estudado“. Ele cita o Masp, a Casa de Vidro, o Sesc Pompéia e “um hospital” de “Lelé“, e aponta a dupla paulista como “duas provas vivas de que os arquitetos latino-americanos não se resumiam a emular os traços de Mies van der Rohe e Le Corbusier acrescentados de alguma luz tropical e de curvas cariocas”.

Era o tempo em que a América Latina era o futuro”, expressão que Bergdoll chegou a considerar para título da exposição.

la5Igreja em Atlantida, Uruguai, por Eladio Dieste, 1958
Matéria sugerida por Katia Zero. Texto original neste link.

A fantástica China

24 de novembro de 2014 § 6 Comentários

Vídeo enviado por Jayme Martins

Questão de perspectiva

23 de agosto de 2014 § 8 Comentários

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